Entre os mais consagrados poetas do Algarve assume particular relevo a obra lírica de Cândido Guerreiro, cujo aspecto físico de místico ancião, com longas barbas brancas, conferiam-lhe o sagrado halo bíblico de um velho profeta. Ainda hoje respeitamos a sua memória, e lembramos com eterna saudade a sua inspiração de aedo latino, que cantou com invejável beleza a mensagem de Deus, a primazia do Amor e da Virtude, a suprema grandeza da Pátria, os desígnios do Homem e da Família, a hegemonia da Estética e a prevalência do Belo e da Perfeição, na figura tutelar da mulher e da mãe.
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Cândido Guerreiro, aos 80 anos de idade |
Cândido Guerreiro foi um fecundo e vibrante idealista que amava a Liberdade, julgando nela personificados os supremos ideais da República. Enganou-se, ou melhor, foi vítima das circunstâncias da vida e do tempo, que transformaram as quimeras da República numa panaceia infundida no embuste e na ilusão.
Apesar da sua liberalidade política, e do seu republicanismo ideológico, Cândido Guerreiro foi, acima de tudo, um poeta, que deixava transparecer nos seus versos a personalidade de um homem crente, pleno de fé e de espírito religioso. Os sonetos de Cândido Guerreiro, na sua pluridiversidade temática, exaltam o Amor, a Mulher, o Algarve, Deus, e a Morte. Todavia, a maioria dos seus belos sonetos evidenciam um profundo misticismo, um indisfarçável espírito religioso. A figura imaculada da mulher, a divindade feminina e a Virgem Maria, são uma contante presença nos seus versos. O mesmo acontece nos poemas dirigidos à divina corte do reino dos céus, que glorifica a hagiografia da fé católica, com magistrais sonetos, que poderiam considerar-se orações religiosas, para honra e graça dos nossos santos mais populares, como Stº António, S. Vicente, S. Tomás de Aquino, S. Lourenço, S. Tiago ou até mesmo a nossa Rainha Santa Isabel, de tão grata memória para os pobres e desvalidos.
É nesse espírito místico, religioso, crente e devoto que se inscreve este soneto, «O Cipreste», oferecido pela mão do próprio poeta ao seu amigo Dr. Amadeu Fereira d’Almeida, embaixador, escritor, colecionador de arte e mecenas das letras pátrias, no qual resplandece o simbolismo da árvore que homenageia no campo de batalha a glória dos heróis, e no campo santo a saudade dos vivos pelos seus entes queridos.
O remate deste soneto relembra a perenidade da vida face à certeza da morte, sem deixar de iluminar a escuridão do Fim com a luz da Esperança, que há-de refulgir no dia da Ressurreição, abrindo princípio a uma diferente forma de existência.
Ouçamos então este belo soneto de Cândido Guerreiro, um louvor à esperança e uma perseverante afirmação da fé religiosa na redenção da vida humana.
O Cipreste
Eilo: milagre d’uma sepultura
Alevantou aos ares a folhagem
E é agora o Monarca da paisagem,
O Senhor da Montanha e da lonjura.
Aponta para o céu: nesta mensagem,
Nesta oração da terra para a altura,
Homens ou aves: é a mão segura
Que vos indica o rumo da viagem.
E a humana argila, abscôndita e defunta
Em pirâmide verde convertida,
Em verde chama enorme de lucerna,
Exclamação e súplica, pergunta:
- Quando serei eu luz n prometida
Ressurreição da Carne e Vida Eterna?
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