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terça-feira, 21 de maio de 2019

O Perfume da Esteva – elegia poética da serra algarvia


Quem pesquisar no velho «Dicionário de Morais» a palavra Poesia, verificará que o seu significado, e sentido lexical, se traduz na «descripção ou pintura da Natureza, em estilo harmónico e métrico, diverso do prosaico». Quer isto dizer que poeta é aquele que sabe descrever a natureza com as tintas da harmonia, captando a beleza natural das coisas que compõem a vida, através da forma sensível como distribui as palavras. O poema constrói-se através da euritmia entre as imagens e as metáforas, na cadência musical da métrica rimática. Convenhamos então que a poesia é muito distinta da prosa, diria mesmo que é muito mais difícil e exigente, por ser toda ela imaginação, fantasia e sensibilidade, na dosagem certa para alcançar na autenticidade de um verso o êxtase da vida. Como disse Florbela Espanca, ser poeta «é ter de mil desejos o esplendor, e não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, é ter garras e asas de condor!»
 Pois bem, a questão primacial que aqui se coloca é exactamente a de saber se estamos perante um poeta, cujo livro, que agora se apresenta a público, deve ou não considerar-se com valor e merecimento, para figurar no galarim da literatura algarvia. Essa é uma questão a que só o tempo e a opinião pública poderão dar satisfatória resposta. Pela minha parte, e mercê da minha experiência, posso afiançar que O Perfume da Esteva é um livro de poesia, que vale a pena ler. Ora, sendo o Algarve uma nação de poetas, poder-se-á pensar que este é mais um livro de versos. Não, nada disso. Este é um livro para ficar, por se tratar de uma poesia inspirada na vida real, não das pessoas, mas dos animais, que tal como nós têm inteligência e sagacidade, têm personalidade, hábitos e sentimentos, a que chamamos instintos, por alegado cientismo.
Este livro, até pela eloquência do seu autor, está longe da poesia popular. Mas como também não obedece aos cânones formais da poesia clássica, não pode considerar-se como poesia lírica nem parnasiana. Está também muito longe daquelas versalhadas intimistas e obscuras, opacas e surreais, que deixam o leitor sem perceber nada do que o autor quer dizer.
No fundo, talvez se possa designar O Perfume da Esteva como um livro de poesia naturalista. Em todos os sentidos da estética lírica, parece inspirada num ecologismo realista, num sentimento de preservação ambiental, cuja mensagem incide no conhecimento e divulgação da diversidade cinegética do Algarve. O objectivo subjacente à mensagem poética é, tão simplesmente, o da protecção da natureza e da preservação da vida selvagem na serra algarvia.
O escritor António Venda fazendo o meu escorço biográfico

Advogado, professor, caçador… e poeta

O autor, Paulo Rosa, é um homem de leis, com banca de advocacia e militância no foro da «Trindade Maravilhosa» do nosso turismo, que se triangula entre Monchique (o pulmão do Algarve), a Praia da Rocha (embrião do turismo algarvio) e Lagos (base naval dos Descobrimentos Portugueses).
Mas, Paulo Rosa, também é professor por paixão, e jornalista por dedicação, vontade e talento. Por isso, tem responsabilidades na direcção do «Jornal de Monchique», um dos poucos órgãos de imprensa que ainda resistem no Algarve, e preside desde há um quarto de século à «Rádio Fóia». Quem o conhece, sabe que é um homem que a tudo mete ombros e que com todos colabora, de forma voluntária e fraterna. Por isso, cargos não lhe faltam. Todos graciosos, como é próprio dos homens que servem, sem o interesse de se servirem. Talvez por causa desse espírito de dar sem cuidar de receber, é que Camilo Castelo Branco disse a certa altura: «os poetas são capazes de povoar um céu devoluto, mas não têm iguais faculdades criadoras para algibeiras vazias».
Associativista e ambientalista, são os atributos que melhor caracterizam o espírito e o carácter de Paulo Rosa. E na vila de Monchique todos os têm por amigo sincero, afável e disponível, quer seja para esclarecer dúvidas burocráticas, preencher papéis, sugerir soluções, ou simplesmente para o convívio de uma boa e amena cavaqueira.
O livro, em si, é surpreendente, não só pela temática cinegética, como ainda pela eloquência com que analisa o ambiente e descreve a fauna - felizmente ainda subsistente na serra algarvia. A nomeação desses animais (que eu nem sabia que ainda existiam), as suas características e personalidade, os seus comportamentos e hábitos alimentares, os seus instintos de sobrevivência, são pormenores de suprema importância, descritos neste livro com o brilho e o realismo, que nem sempre as metáforas líricas permitem retratar.
São belíssimos poemas, onde a natureza ganha o brilho resplandecente da vida. Escreveu-os o Paulo Rosa, ao ritmo da inspiração, sem a preocupação de os repartir ou ordenar numa estrutura taxionómica da espécie, género, família, ordem e classe. O fulcro poético incide na natureza, sobretudo na forma como os animais silvestres subsistem no ambiente fragoso e agreste da serra algarvia. No equilíbrio sempre periclitante da conservação ambiental, não raras vezes devastado pelos infernais incêndios da serra algarvia, cabe-nos a todos a responsabilidade de contribuir com o nosso esforço, dedicação e inteligência, para a sua preservação e desenvolvimento. Este livro, O Perfume da Esteva é um exemplo de esforço, dedicação e eloquência, de quem conhece a fauna e a flora que inunda de vida, de cor e de inebriantes odores, esta inigualável serra de Monchique. A poesia, neste caso, é um pretexto, uma estratégia, ou melhor, um subterfúgio para dizer em poucas palavras e de uma forma acessível a todos, essa enormíssima mensagem de que os animais também têm uma vida, também têm direitos, também merecem respeito, porque, afinal, animais somos todos.
O filho do autor lendo um poema do livro

Animais de caça, numa ligação poética de vida

Aqui e ali, por entre os degraus do poema, corre e salta a lebre, numa fuga desenfreada. Mais além, é a perdiz que voa sobre as estrofes, deixando atónito o caçador, sem tempo para premir o gatilho. Lá no alto vê-se o pato-real, que no seu roteiro migratório vem pousar nas águas calmas das charcas agrícolas, para aqui fazer o ninho e criar a prole. Num voo estonteante, ziguezagueia e arrulha a rola brava, no anil dos céus. À espera da sua entrada estão os caçadores, mas só os mais exímios e experimentados conseguem um tiro certeiro. Os outros, os inábeis só gastam chumbo – mas não o tio Torrinha, que de tão cioso e avaro não desperdiçava um tiro, e assim “trazia o chumbo todo para casa”.
No domínio dos ares desfila o tordo e a galinhola, ecoa o silvo da águia-de-bonelli, despenha-se como um míssil sobre a presa o falcão-peregrino, a que não escapa o pombo torcaz, para desprezo do magro pisco. O guincho-da-tainha é uma ave falconiforme de perscrutante visão, para a qual tudo o que rasteja é alimento. Não há serpente que lhe escape. A cantar loas à vida, ouve-se ao longe, mas não se vê, o cuco canoro, que de visita aos ninhos alheios, vai dando a prole para adopção. No seu libré de cores garridas, esvoaça o gaio traiçoeiro de olhar perscrutante e assassino, à cata de infante em ninho alheio. Desde o lusco-fusco até ao dealbar da madrugada, impera “em domínios a olho e garra conquistados” o tenebroso e perscrutante bufo-real.
Fazendo a apresentação e apreciação crítica da obra
Nos domínios rasteiros, por entre os matos da serra, serpenteia a víbora-cornuda de picada fatal para o rato do campo. Este peçonhento ofídio, também designado por víbora das pedras, cuja cabeça triangular serve de talismã aos crentes no mau olhado, também se converte em cobiçado pitéu – quem diria – para o meigo ouriço cacheiro, para o intrépido saca-rabos (escalavardo na gíria popular), e até para o voraz javali. Mas, entre os pedernais da serra, também por ali vagueia a esquiva raposa, que persegue e mata o coelho, devora quando pode o lebrão, afinfa o dente no rato e lambe os beiços só de ver a capoeira do lavrador. Com o lince ibérico tudo o que mexe é refeição, só não se sabe quando nos dá a honra da sua visita, porque na serra algarvia o lince já foi mito e agora é uma fugaz realidade. Com o javali (navalheiro) é preciso ter muito cuidado, por ser o mais vadio da serra. Não é esquisito na dieta, que prefere satisfazer à noite, camuflado no mato, percorrendo quilómetros no encalce das suas presas. É o mais voraz da fauna algarvia, não lhe escapando a víbora e o licranço, a centopeia e a minhoca, o ninho da perdiz incauta, e, à falta de melhor, não desdenha ter por refeição a carocha e a formiga. Rabisca no chão a amêndoa, a castanha, o pinhão, e até mesmo a cevada, o centeio e o milho, mas quando vislumbra no horizonte a macieira corre lampeiro para abocanhar os frutos caídos, quando não investe pelo tronco acima como os felinos da selva.

O caçador e o cão, um laço de amizade eterna

Todavia, que seria do caçador sem o auxílio do cão, que fareja a presa, que a persegue e faz levantar para o tiro certeiro do seu amo. Sim, além de ser o melhor amigo do homem, o cão é o complemento indispensável do caçador. E, nesse aspecto, o Paulo Rosa não se esqueceu de evocar neste livro o perdigueiro português, por muitos considerado o melhor cão de caça para a perdiz, capaz de superar todos os obstáculos, em terra, nos rios, charcos e pântanos, para abocanhar a presa abatida e trazê-la, como troféu, às mãos do caçador. E se nos densos matagais é capaz de rastejar, silencioso e prudente, para fazer levantar a esquiva perdiz, o mesmo acontece quando tem de se lançar à água para inquietar o pato-bravo até ao voo fatal. O cão para o caçador depressa se torna no seu braço-direito, até que de tão imprescindível convívio ascende ao conceito de pessoa humana, e mais do que isso, ao amor de um irmão. Quando a morte, os separa a ambos, desencadeia-se o drama da perda, a saudade que não se apaga. É assim para o caçador, mas também é igual para o cão, que não consegue esquecer o seu amo até ao fim da vida. A cadela Pitucha, consagrada neste livro com um belo poema, é o exemplo maior dessa afeição, quase sanguínea, entre o homem e o animal, deixando com a sua morte um vazio de saudade na perda duma amizade insubstituível: “Foste mas ficaste em mim porém, que o laço do afecto, não desata a morte”.
O Dr. Paulo Rosa, autor do livro, na sua breve alocução pública, 
explicando as razões que motivaram a publicação desta obra

O latim, na erudição e na ciência

Nestes belos e sensíveis poemas, Paulo Rosa recorre por vezes à mitologia e aos autores clássicos, para estabelecer pontes e urdir comparações, entre civilizações e culturas aparentemente distantes. O latim, a língua de Séneca, é também a expressão clássica dos jurisconsultos. Mas, neste caso, usa-a com parcimónia e apenas para seguir a nomenclatura binomial de Carlos Lineu. É de uso imprescindível para identificar os animais, que descreve nos seus poemas. Como exemplo, atente-se na “Cyanopica cyanus”, designação latina do popular “charneco”, isto é, da pega azul que julgo ter sido importada da Ásia. Para ser mais preciso, a nossa pega azul tem a designação de “Cyanopica cooki”, por ser uma sub-espécie daquela.
Mas, dizia eu, que o uso do latim demonstra também que o Paulo Rocha é um homem culto, que não faz das leis e dos códigos o seu exclusivo lenitivo de vida, sentindo que o foro é um convencional ajuste de normas, regras e preceitos, no ordenamento estrutural dessa inquietante dimensão que é a existência humana. Mas o espírito precisa da dúvida para construir a verdade.

O melhor reserva-se para o fim

Para mim os três últimos poemas, só por si, justificam a edição deste livro. Diria até, como o Jorge Luís Borges, que valem pelo livro todo, porque são a prova da existência de talento poético em Paulo Rosa. Têm tudo o que a poesia necessita de ter para ser considerada como arte, e constituir em si aquilo a que se convencionou designar por “Belas Letras”. Permitam-me que destaque, de entre os três, o poema «A caçada dos escritores», no qual o autor imaginou, como num quadro teatral, uma reunião entre homens de letras, que em comum têm a paixão pela caça. O poema tem a imaginação dos grandes poetas. A cena desenrola-se no céu, “num serão do eterno descanso a recordar aventuras, jornadas, festarolas”. Em palco estão Aquilino Ribeiro, Ramalho Ortigão, Bulhão Pato, Miguel Torga, e outros, “exímios no manejo da escopeta, do tacho e da pena”.
O poeta retrata toda a cena, com o brilho da ilustração e da vaidade, inerente às grandes celebridades: “Em tertúlia de lembranças e de relatos, salpimentadas de excesso quanto baste e com dose de vaidade posta a gosto”. A descrição tem a graça da ironia queirosiana, apimentada pelo chiste sardónico. Tem vivacidade narrativa através do requinte do pormenor, quer seja no aprumo da indumentária, quer seja no primor das armas. Tem movimento na forma como dialogam e como impõem a sua presença aos demais. Tem ritmo na sequência das interlocuções, nos dichotes e interpelações. Por exemplo, o Bulhão Pato que conhecemos como notável gastrónomo, demanda o Torga, exímio caçador de perdizes, para asseverar que: “as perdizes glorifico eu «à castelhana» e à minha moda tratarei de a sublimar, e um «arroz opulento» endeusarei se vindimos paspalhões se levantarem”. O auge da hilaridade e do picaresco chega na voz do Ramalho, que como bom portuense aproveitou logo para farpear os lisboetas, acusando-os de devorarem os perdigotos, ainda mal saídos do ninho, impedindo que as perdizes cresçam e a natureza progrida: “E vejam lá que em Lisboa até os servem que nem piscos, de alhada, nas tabernas”. E depois daquela truculenta cavaqueira, é mestre Aquilino Ribeiro quem organiza a linha e o rumo da caçada num marcial grito: «atenção avante em frente, e o resto é quimera, sonho e poesia».
O outro poema, intitulado «Um olhar de Ortega y Gasset», é uma composição lírica, séria, compacta e segura, uma espécie de homenagem à integridade moral e à honradez, daquele que foi o maior filósofo espanhol do século XX. Nesta composição o Paulo Rosa faz uma alusão ao perspectivismo e à teoria da razão vital, que enformou o pensamento filosófico de Gasset, cujo objectivo final era o de encontrar o “ser fundamental”. Ora, a resposta oferece-a o poeta nas palavras simples dos seus versos: «Muito estimável é a preocupação pelo que dever / mas só após esgotar o respeito pelo que é / pois um homem pode envilecer até com a sublimidade».
Por fim, o poema «A caça à mesa» é a recriação poética de uma caçada real, principal distração lúdica da nobreza cortesã. O poema constitui uma ode à rica gastronomia com que se deleitavam o rei e a sua vasta corte, após extenuante caçada em correrias de cães e cavalos, por entre serranias, campinas e moitedos. Tudo ali é fantasia e criação, num frémito de exaltação lírica, em que o coração ofegante do poeta, sente, recria e revive, o prazer da mesa e do convívio no lauto repasto das viandas cinegéticas. O poema que encerra o livro ilustra a forma como terminam todas as caçadas, isto é, num alegre convívio gastronómico, em que se consolidam amizades para o resto da vida.

O poeta Américo Telo proferindo a intervenção de encerramento da sessão
Concluindo com a outro grande poeta e caçador

Acima de tudo, estamos perante um livro que é uma elegia à natureza, e à biodiversidade ambiental do nosso Algarve. Nunca tinha lido nada igual ou até semelhante na poesia portuguesa. De tantos poetas famosos, que viveram de forma apaixonada o prazer da caça, raros foram, porém, os que escreveram com tanto entusiasmo, como o fez neste livro o Paulo Rosa. O caso mais recente, e o mais conhecido, é o livro de poemas de Manuel Alegre, um exímio caçador, dedicado ao seu cão de caça, um “Spaniel Bretão”, que de tanto conviver com a família, e por ter sido criado dentro de portas, se transformou num humano de quatro patas, que “ladrava quando queria falar”. Teve uma vida longa e feliz, com dezenas de prodigiosas caçadas, em que demonstrou o seu decisivo contributo para o sucesso final. Quando morreu toda a família ficou com a alma a sangrar de desgosto. É que tinham perdido um membro da família, que por acaso era cão. Daí que o poeta Manuel Alegre tenha escrito em 2002, um livro fabuloso, intitulado «Cão como nós» que é uma das mais primorosas obras poéticas do nosso tempo, inspirada num profundo e genuíno sentimento de amizade. O facto de ter este livro como único protagonista um cão, e ter como único homenageado um cão, faz desta obra um exemplo singular, que julgo ninguém mais irá imitar.
Para terminar, em nome da cultura, da preservação do ambiente, da natureza e da biodiversidade, faço aqui uma viva recomendação para a leitura deste livro de Paulo Rosa, O Perfume da Esteva, publicado pela editora «On y va», na primavera de 2019.
© José Carlos Vilhena Mesquita

sábado, 9 de janeiro de 2010

UMA NOITE COM O FOGO


José Carlos Vilhena Mesquita

Confesso que é sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores escritores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo, faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
Este livro, Uma Noite com o Fogo, que tivemos a honra de apresentar oficialmente em Faro, na livraria «O Pátio das Letras», está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que, no caso presente, constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do eu, aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao eu, denuncia claramente a existência duma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o eu. E na construção desse eu, surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.

Uma obra independente

Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário das obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se nesta Noite com o Fogo da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Acima de tudo este livro é uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio do António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, A.M.V. é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra Uma Noite com o Fogo é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, de crónicas nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicos e preterindo os conflitos socioeconómicas para construir um romance, que não sendo de intervenção é, acima de tudo, uma obra de arte.
Não existe neste livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do cento fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos, que se trata da serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens e, por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegético, desenvolvendo-se por vezes ao nível duma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador, para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural desta obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria Natureza, o Ambiente e a Floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal deste livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.

As personagens intradiegéticas

Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por “cenas de fulgor”, isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e sucessão, põe, por vezes em dúvida ou em confusão, as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do homem, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
Para terminar devo acrescentar que esta obra não se integra no Realismo Urbano dos seus romances anteriores, mas antes numa espécie de Naturalismo Burguês Telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem António Manuel Venda, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem, regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve, aliás, como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal desta obra é o ambiente natural da serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que o António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora, como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, alfarrobeiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fastasmagórico de um “Rasputine a preto e branco”, que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do “mágico-velhinho” de livros anteriores.

Apresentação do livro, realizada a 24-04-2009, na livraria Pátio das Letras, em Faro

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A Minha Rua, de Ernesto Silva


José Carlos Vilhena Mesquita

Em tempos afirmei que o livro é uma espécie de elixir contra a impermanência da vida. Sustento ainda essa convicção. Creio que o livro, verdadeira fonte de vida, mágico objecto de culto e pedra angular da civilização humana, constitui a única forma de perpetuar a existência e de combater o esquecimento, a que inexoravelmente nos parece condenar o insondável devir do tempo.
Todas as culturas, filosofias e credos, legaram à posteridade a sua mensagem materializada sob a forma de livro, ainda que esse livro se pudesse revestir de diferentes configurações, diversos sentidos e distintas designações. Desde o papiro hierático da antiguidade clássica, passando pelo pergaminho medieval até à ocidentalização do papel, o objectivo do livro foi sempre o mesmo: comunicar o pensamento, transmitir o conhecimento e legar aos vindouros a herança da História. A transformação do saber e a comunhão dos mundos operou-se através da divulgação do livro, como objecto transmissor da memória e do conhecimento. Devemos a Gutemberg a passagem do saber regional para a mundialização da ciência.
Podemos hoje afirmar sem rebuço que não há culturas superiores nem civilizações desenvolvidas sem a popularização do livro. Entendamo-nos de uma vez por todas, o livro é o melhor e mais rentável investimento das sociedades modernas, pois que é o garante da conservação dos alicerces da História de um povo e da manutenção dos seus genuínos padrões culturais.
Por isso, saudamos vivamente a iniciativa da Câmara Municipal de Aljezur pelas edições que tem vindo a patrocinar, quer sejam de promoção e divulgação das suas potencialidades turísticas, do seu património arquitectónico e da sua notabilíssima herança histórico-cultural, quer sejam do intrínseco talento literário de alguns dos seus munícipes, que são naturalmente os obreiros e os veiculadores da autenticidade cultural do povo aljezurense. São já várias as obras que poderíamos trazer à colação. De entre todas merecem destaque as obras de Mestre Emmanuel Correia, os livros de poemas de Arselino Correia e os magníficos álbuns de João Mariano, que sendo de entre todos o mais jovem, é sem sombra para dúvidas, uma das mais prestigiadas figuras artísticas de Aljezur.
A razão que justifica a minha presença na lindíssima vila de Aljezur, é mais uma vez a publicação de uma obra literária, que merecendo a chancela do município reúne em si a responsabilidade de o representar no contexto da requintada, exigente e mui nobre poesia algarvia. A terra que une este povo foi berço de grandes vates da cultura árabe e da civilização cristã, permanecendo na memória de todos as notabilíssimas obras de João de Deus, Bernardo de Passos, João Lúcio, Cândido Guerreiro, Júlio Dantas, António Aleixo, António Pereira, Emiliano da Costa, João Brás, Vicente Campinas, e tantos outros.
Não é Aljezur um alfobre de poetas eruditos que se tenham celebrizado na literatura algarvia. Logicamente a isso não o permitiu a sua dimensão económica e o escasso aparelho educacional a que tiveram acesso os seus laboriosos habitantes. São os condicionalismos da interioridade e a factura não saldada de um passado que não vale a pena dissecar. Está enterrado na poeira da história. Agora há que olhar para o futuro. E o futuro está nos valores que possuímos e na massa crítica que temos, ainda que a muitos possa parecer insuficiente ou demasiado humilde para os altos voos a que todos nos desejaríamos alcandorar. Os homens valem pela honra dos princípios que defendem e pela forma digna e leal como se batem por eles. A poesia é uma das formas mais elevadas de propugnar pelos sublimes ideais da liberdade, da igualdade, da solidariedade, da paz, da fraternidade e do amor.
São esses valores que aqui vemos estampados na obra de Ernesto Silva. De uma forma simples mas elevada, sem falsas erudições nem balofos pretensiosismos intelectuais, o autor construiu ao longo de quarenta e cinco anos uma verdadeira girândola poética, versando as mais diversificadas temáticas em singelos poemas de um inebriante perfume naturalista e duma esfuziante musicalidade popular.
Este é o seu livro de estreia. É mais um filho a juntar à sua prole, já de si distinta e mui artística, alicerçada num talento que ninguém ousa contestar. Conhecido como um mágico do barro, criador de incomparáveis figuras místicas – quem não admira os seus Cristos na cruz de ascético enlevo divino ou a recriação da docilidade animalista em frágeis bonecos que deliciam as mais inocentes crianças – Ernesto Silva revela-se agora como um escultor de palavras, um barrista das metáforas, das emoções e sentimentos mais profundos, numa expressividade que desce até aos limites da compreensão popular. Os grandes apreciadores de arte, que viam nas obras de Ernesto Silva e na inseparável Zabel Moita, o expoente da popular tradição dos barristas portugueses, podem agora enriquecer as suas colecções com este belo livro de poemas a que deu o sugestivo título de A Minha Rua, essa espécie de cordão umbilical que nos prende ao lar e à terra que nos viu nascer. Não podia ser mais criativo nem mais sugestivo. A nossa rua nunca se esquece, porque foi através dela que se nos abriram as portas da vida e nos confrontamos com os outros, percebendo rapidamente que a existência humana se espraia pelas artérias da convivência e do mútuo entendimento.
O livro de Ernesto Silva é, nesse sentido, paradigmático, porque ao longo de pouco mais de centena e meia de poemas consegue transmitir, de forma simples e ao jeito popular, os valores mais sublimes sob os quais deveria alicerçar-se a sociedade moderna. Por vezes duvidamos que assim seja, tão desencantados estamos já desta competitiva e materializada sociedade, em que tudo é ambição e egoísmo. Mas para Ernesto Silva, nesta redoma de Aljezur, o mundo conserva ainda a pureza das cores deste imaculado património ambiental que o rodeia. As raízes da família e a coesão da prole são fulcrais na sua vida, como aliás se deixa transparecer nos poemas que dedica aos pais, aos avós, à esposa e aos filhos. A expressividade sentimental atinge neles um raro nível de transparência emocional. Também profundos e sentidos são os poemas que dedica à impermanência da vida, aos entes que partiram, à sufocante solidão dos que ficaram privados da saúde ou dos sentimentos fulcrais da vida, como é o caso do amor, da liberdade, da amizade, da solidariedade ou da fraternidade. Mais vivos e alegres são os que dedica aos amigos e figuras que marcaram a sua vivência social. Da mesma estirpe se podem considerar os poemas etno-antropológicos em que retracta a vindima, a pesca, a charrua agrícola, aos quais se juntam outros que versejam sobre os Santos Populares, a Páscoa, o Carnaval, o Presépio, as Marchas Populares etc. Na sua expressividade poética chega a ser algo sorumbático quando disserta sobre coisas mais filosóficas e mais aceradamente críticas, voltando a aproximar-se do nível prazenteiro e jovial que todos lhe conhecem nos poemas naturalistas que dedica às coisas da terra e sobretudo às aves marinhas. Porque acima de tudo Ernesto Silva é um homem que preza o convívio e o companheirismo, com aquela graça e espírito irónico que tanto caracteriza o povo algarvio.
Por fim merece um destaque especial os poemas de carácter localista, com um ênfase muito especial e compreensível na vila de Aljezur que canta e enaltece com as mais vivas cores e na musicalidade peculiar dos seus versos. A vila de Odeceixe, a praia da Arrifana e da Amoreira, são objecto da sua reflexão. Mas também o são as cidades de Loulé, de Lagos e Lagoa, ou as distantes localidades de Vila Nova de Cerveira, Foz do Côa, Mirandela, Vouzela, Lanhelas, Gondomar, Idanha a Nova, Alter do Chão, Rio Maior, Santarém, Açores, etc. Terras essas que visitou como prémio do seu talento, ao dedicar-lhes belos e graciosos poemas, que poderiam ser aproveitados como retratos poéticos em folhetos de divulgação turística. E que belas são essas localidades, pelas quais passeei a minha juventude e aonde ainda volto com a família, como é o caso de Vila Nova de Cerveira, cuja autarquia soube de uma forma estrategicamente turística alcandorar-se a capital da arte moderna portuguesa.
Não quero roubar mais tempo aos que estoicamente ainda me escutam, sem concluir que o lirismo de Ernesto Silva, inspiradamente popular, revela uma enorme grandeza de carácter, uma humildade e uma simplicidade que emociona o mais incauto leitor, por vezes caldeada nalguma nostalgia, logo quebrada pela fina ironia que povoa os seus versos, num estilo que sem se despegar da alma popular atinge por vezes uma inusitada elevação filosófica.
Resta-me, mais uma vez, congratular a autarquia por saber revelar à posteridade os valores literários e culturais que engrandecem sobremaneira esta bela e encantadora vila de Aljezur.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

20 livros de Ferradeira de Brito


José Carlos Vilhena Mesquita *

A vida é feita de experiências e para tudo existe uma primeira vez, com que nos defrontamos com o desconhecido, num desafio à coragem e à perseverança, num apelo ao destemor da nossa personalidade e da nossa inteligência. Não foi, porém, assim que me senti ou que pensei, quando de bom grado aceitei o convite para apresentar estes 20 livros de Ferradeira de Brito. Mas é assim que me sinto agora, consciente da leviandade que constitui o facto de ter aceitado tamanho desafio. A coragem com que de imediato me disponibilizei para apresentar os livros, falece-me porém agora, no momento em que dela mais necessito. É a força da consciência a fazer jus à minha irreflectida e muito imprudente anuência à hercúlea tarefa de apresentar 20 livros numa única sessão pública. A tudo isso acresce ainda a criteriosa atenção com que me escuta esta numerosa e prestigiada assembleia, na qual vejo alguns escritores movidos talvez pela curiosidade de testemunharem de um acto singular, nunca antes presenciado não só no Algarve como em todo o país.
Convenhamos que publicar 20 livros de uma assentada é acima de tudo um acto de coragem, de um autor que pretende marcar uma posição, não só pela firme evidência do seu talento e da sua polivalência literária, como ainda pela singularidade artística do seu gesto. Parece um golpe de marketing publicar 20 livros de uma só vez. Mas não. Trata-se apenas de um gesto de arte, uma manifestação da mais pura e inocente vontade de criação artística. Não se trata de uma promoção pessoal e muito menos duma estratégia comercial, ou não estivéssemos nós num país em que os hábitos de leitura são baixíssimos, como diminutos são também os índices de consumo cultural. O livro no nosso país é um produto de última necessidade. Por isso publicar 20 livros é um gesto de coragem, uma expressão de Arte e uma aventura editorial.
Apresentá-los a todos numa sessão pública não é fácil, digamos mesmo que é humanamente impossível... Começando pelo autor, importa dizer que o conheci em 1998, tendo constatado que é uma pessoa de fina sensibilidade cultural e estética, muito interessado em colaborar nas iniciativas que pudessem contribuir para o engrandecimento da sua cidade natal. Porém, apercebi-me logo do seu coração sofredor, macerado pelo desgosto de ter perdido um filho na flor da idade, sentindo-se a partir daí como um naufrago, solitário e triste, sem esperança de sobreviver incólume às tempestades da vida. Verifiquei depois que a poesia, emergente da dor que lhe corroía a alma, despontava-lhe espontânea, sincera, dolente e profunda, como uma âncora a que o naufrago de outrora se agarrava agora para escapar aos negrumes da tristeza que lhe devorava o espírito. Apoiado e incentivado pelo poeta Tito Olívio – a quem os mais próximos chamam Mestre, na mais fiel tradição humanista – acolheu-se ao convívio da Tertúlia Hélice, onde tem pontificado não só pela sua assiduidade, como também pela sua produtiva contribuição poética. Começou por escrever quadras, no mais genuíno sentimento popular, como uma espécie de humilde tentame de quem não se sente com a eloquência necessária para professar o culto de Orfeu. Mas fê-lo com tão surpreendente qualidade filosófica, talvez por inspiração aleixiana, que logo o “Mestre” o aconselhou a publicá-las em livro. Foi assim que no ano 2000 surgiu o seu primeiro livro, sugestivamente intitulado Minha Voz, a voz do povo. Tive nessa altura, tal como agora, a honra de ter apresentado a obra na já inexistente Livraria Odisseia, perante numerosa assistência.
Os escolhos da vida impediram-no todavia de continuar a publicar de uma forma mais constante a sua vasta e relevante obra poética. Acompanhei esses anos a par e passo, comungando não só das ilusões como também dos frustrantes desapontamentos, suscitados pelo alheamento a que as instituições responsáveis votavam os autores locais, dando todo o apoio, financeiro e logístico, aos que de Lisboa, com o ar superior da sua emproada soberba, nos vêem tratar como inferiores e provincianos. Quantas vezes ouvi na tertúlia os queixumes de natural repúdio contra essa espécie de colonialismo cultural a que temos estado sujeitos. Vivemos ainda hoje debaixo do centralismo, ditatorial e castrador, que caracterizou o regime anterior, cujos defeitos estranhamente continuamos a imitar. Tarda em surgir no horizonte político o verdadeiro libertador desta opressão alisbonada a que se tem submetido a cultura algarvia.
Apesar de tudo isso, e remando sempre contra a maré, Ferradeira de Brito foi dando a público, nos órgãos regionais, algumas das suas produções líricas, principalmente no «Jornal Escrito» e no «Nó Vital» fundados pela AJEA para dar maior repercussão aos escritores algarvios. As suas produções poéticas e os seus textos dramatúrgicos foram-se acumulando até hoje, em que felizmente puderam ver a luz da estampa.
Não me podendo alongar nas apreciações críticas sobre cada um deles, decidi reparti-los pelos géneros literários em que se inscrevem. Assim, começando pela difícil arte do soneto, há que realçar a publicação de sete livros, ou seja, mais de um terço da sua obra insere-se no estilo mais clássico do lirismo lusíada, no qual Sá de Miranda, Camões e Bocage foram os expoentes máximos. O primeiro destes sete livros intitula-se Tempos do meu tempo, uma espécie de auto-retrato poético em que o autor enaltece a terra-mãe, recordando a sua mocidade e os seus sonhos de rapaz, até se aperceber que na marcha lenta dos instantes em que a felicidade lhe iluminou o caminho, também os desgostos lhe enlutaram a alma, branqueando-lhe os cabelos e enrugando-lhe as faces. Seguem-se outros títulos, como O Brilho da Alma, um conjunto de sonetos intimistas a merecer leitura atenta. A mesma atenção merecem os livros Vidas da Minha Vida e de Flores do Olimpo, no qual distingo o soneto «Pétalas Mortas», que considero do mais puro e fino quilate estético. Nos livros Desbravar do Sonho e Pedaços de Vidas, observamos a dor do poeta que lancinantemente sente como seu o sofrimento alheio, num mundo cada vez mais insensível e egoísta. Ainda no mesmo âmbito, um particular realce para o livro Canto Lírico, pela singularidade de comportar duas coroas de sonetos, isto é, dois conjuntos de catorze sonetos subordinados a um tema (neste caso, Amor e Coração) nos quais o último verso de cada soneto é igual ao verso do soneto seguinte, sendo o último de todos igual ao primeiro, formando assim um círculo de relações poéticas muito difícil de estabelecer.
O género mais popular e mais querido dos algarvios é a quadra, espécie de baptismo poético de Ferradeira de Brito ao regressa pontualmente como recreação da alma. Nesse estilo inserem-se quatro livros. Começo por Alma, Coração e Mágoa, que tal como o título indica descrevem sentimentos e emoções, por vezes tristes e amargos, quase todos de uma profunda melancolia, mais filosófica do popular. O livro Rosas do Meu Jardim, é mais alegre e positivo ainda que nunca deixe de ser sentencioso e bom conselheiro, ao jeito das tradições mais peculiares deste género poético. Segue-se-lhe Povo Meu Povo, que, como o título deixa transparecer, foi concebido ao jeito popular, com humor, ritmo e musicalidade, numa simbiose rimática muito agradável e prazenteira. Por fim, o livro Enquadrando a Vida, contém um misto de quadras alegres e joviais com outras mais judiciosas e de crítica acerada, dirigidas aos instalados e aos poderosos da política, que só pensam nos seus interesses descurando o bem público e o fraternalismo social. No computo dos quatro livros apuramos um total de 544 quadras, o que convenhamos não está ao alcance de todos os poetas, sabendo nós que as ideias nelas contidas raramente se assemelham ou se repetem, quer na estrutura rítmica quer no conteúdo da mensagem.
No género da poesia livre inserem-se mais quatro livros. Comecemos pelas Rimas Musicais, que seguem os modelos tradicionais da canção popular, repartindo-se os seus versos entre cinco e oito sílabas. São muito interessantes e fáceis de musicar, sobretudo as que têm no máximo vinte versos. O livro seguinte, Poesia Desperta, é muito mais elevado no seu conteúdo filosófico, inscrevendo-se por isso no género lírico; chamo a atenção para o poema intitulado «A Teia» que é do melhor que conheço no autor. O livro Palavras Coloridas, é semelhante ao anterior, mas mais positivo, mais apaixonado e menos depressivo. Por fim, Giestas e Rosmaninho, que tal como o título indica, tem uma inspiração mais popular e naturalista do que os anteriores, sendo que em todos eles é o parnasianismo, na sua expressão mais elevada, que os distingue e melhor diferencia no conjunto da obra de Ferradeira de Brito.
Por fim, há dois livros de poesia que se desligam do tronco comum das quadras e dos sonetos. O primeiro intitula-se Meu Canto Meu Pranto, é um livro de sextilhas muito curiosas, cheias de vida e de ritmo, que sem deixarem o classicismo que as inspira, tem um leve toque popular que lhes dá a alma e o sabor da tradição algarvia. O outro, Sabor a Terra, é um exercício de paciência e de inspiração poética, pois que contém dezoito poemas obrigados a mote, cuja concepção não é tarefa fácil, mesmo para os poetas mais experimentados.
Termino com os livros de teatro, que são três, sobre os quais muito haveria para dizer se a tanto nos disponibilizasse o tempo. O primeiro intitula-se O Poço, e tem um enquadramento muito regionalista, passado entre mareantes e agricultores segundo creio da freguesia do Montenegro. O segundo intitula-se O Boato, e refere-se àqueles primeiros tempos da revolução de Abril, em que o país estava em constante remodelação política. O melhor de todos os livros é O Milagre do Mar, uma obra que merece ser levada à cena talvez no nosso teatro municipal com uma companhia de actores profissionais que saibam expressar a qualidade regionalista da obra.



* Resumo do texto de apresentação pronunciado na Biblioteca Municipal de Faro

sábado, 18 de julho de 2009

PINTURA = POESIA NAS ROTAS DO SUL


J. C. Vilhena Mesquita

Esta é uma das raras obras que se podem dividir em 3 partes distintas, como se tratasse de uma trindade artística do humanismo renascentista. Por um lado o Autor, como criador e mestre que se expõe e entrega sem o receio da revelação, nem o temor da crítica; por outro a Poesia como um refulgir de sentimentos, um bouquet de emoções entre os sons, o brilho e as cores das palavras; por fim a Pintura, mater expressão de visões incontidas e exorcismadas na tela, materialização de sonhos que a alma revela nos matizes da elegíaca criação. A obra é una e indivisível, mas a força perscrutante do crítico vai mais longe e separa-lhe os vectores que consolidam a estrutura, como que tentando dissecar-lhe a alma e descobrir os segredos da criação.
Comecemos então pelo autor. Conheci Manuel Ribeiro há cerca de dois anos. Impressionou-me a sua vivacidade aliada a uma perspicácia aguda, que não esconde uma inteligência relampejante. Sensibilizou-me a sua natural jovialidade e invejável força de viver, espelhada e transmitida numa diversificada produção artística, que sem rodeios fez questão de me revelar. Intrigou-me este seu tardio acordar, esta sua vontade de se dar ao mundo no outono da vida. Mas depressa me explicou que só agora, depois de estreitar distâncias, de comungar culturas e de consumar as obrigações naturais da missão terrena, pode finalmente assentar arraiais para meditar sobre os mistérios da existência e as injustiças dessa imperfeita argila em que foi modelada a figura humana. A poesia e sobretudo a pintura que sempre o acompanharam na odisseia da vida, como irmãs gémeas dum intrínseco harém, sentia-as agora cada vez mais sedutoras, mais prementes e compulsivas.
O homem dos conhecimentos técnicos, que queimou as pestanas e viu caiarem-se as cãs debruçado sobre o estirador de trabalho, que se deixou enlevar na apaixonante quimera do pedagogo que ensina, forma e modela personalidades juvenis, viu agora num patamar mais elevado do tempo chegado o momento de serenamente se entregar às musas e adormecer ao som dos idílicos acordes da cítara de Orfeu.
A arquitectura, a engenharia, o cálculo matemático e a abstracção geométrica dos espaços mensuráveis, preencheram a sua vida e ainda hoje lhe invadem de saudade a alma que o tempo espalhou pelos quatro cantos do mundo. As horas de ócio e lazer preenche-as agora na criação do belo, porém não deixou de continuar a prestar o melhor do seu esforço e da sua disponibilidade à comunidade que o acolheu neste iluminado recanto de artistas e poetas. Não podia, pois, ter escolhido melhor refúgio para erigir um altar às musas do que este sereno e resplandecente Algarve, este alegre e preguiçoso rincão adormecido ao sol.
Olhemos agora para a sua criação lírica.
Os poemas que li neste livro revelaram-me a presença de um sonhador, suspirando pelos mesmos ideais com que os deuses combateram o caos, convencionaram os cânones, erigiram a perfeição e construíram a harmonia. A mesma harmonia que nos fez idealizar a paz. Mas foram os deuses que arquitectaram o paraíso não foram os homens. Os homens perderam-se nos podres meandros da imperfeição, congeminando ódios, arquitectando vinganças, instilando invejas e infligindo sofrimentos. Atento e discordante, Manuel Ribeiro revolta-se em metafóricas rimas de poeta conceptual, urdindo recorrências, adições e oposições, estabelecendo aqui e ali paralelismos léxico-semânticos, como se na imbricada tessitura das palavras coubesse um mundo perfeito, de homens imaculados como anjos. Que bom seria sentir na poesia a verdade das coisas e a realidade da vida. Nessa frustração de acordar entre as quimeras do poema, fica-nos o perfume das palavras como um trago do néctar em que se consubstancia o mistério da poesia. Terras, paisagens, figuras e monumentos, lugares, prazeres e liberdades, sons, aromas, visões e fantasias, tudo isto está presente e patente nos poemas de Manuel Ribeiro.
Os quadros, desenhos, óleos e aguarelas que ilustram esta obra ajudam a introduzir os poemas, mas não os superam. Uns são meras ilustrações, na forma figurativa como rodeiam os conceitos e a musicalidade das palavras embebidas no subterfúgio da rima poética. Outros são abstracções puras, sem forma nem movimento, mas prenhes de cor e vivacidade. São também poemas, sem outras palavras que não sejam a policromia refulgente das tintas esbatidas, esfumadas, adormecidas. Técnicas clássicas, experiências modernistas e renovações impressionistas, fazem recriar o belo numa orgia de luz e cor, como uma girândola de sensações que nos enleva nas asas do elegíaco nirvana.
Este livro é seguramente um polígono de múltiplas faces, que só a nossa imaginação, a magia das palavras e o brilho das cores nos proporcionarão o inestimável prazer da sua companhia.