terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sermão de Stª. Clara proferido em Faro por Frei Francisco de Santo Ambrósio no ano de 1681


Trago hoje a terreiro a notícia de se haver publicado, em 1681, um notável Sermão pronunciado na sé de Faro, por um ilustre, mas quase desconhecido franciscano, que dava pelo nome religioso de Frei Francisco de Santo Ambrósio. Confesso que pouco sei acerca do seu trajecto de vida, que deve ter percorrido com extrema humildade. O que dele conheço são uns breves fogachos referenciados oficialmente no seu desempenho eclesiástico. Assim, toda a gente sabe que o nosso Frei Ambrósio professou na Ordem de S. Francisco, na Província da Piedade, na qual se integrava o sul territorial, sendo por isso de admitir que se não nasceu no Algarve era provavelmente alentejano. Todavia, nada nos pode asseverar certezas, visto serem demasiados os casos que excedem e contrariam este raciocínio. Sei também que foi «religioso observante», isto é, pertencia às chamadas OFM (Ordem dos Frades Menores), que neste caso era a dos Frades Franciscanos Observantes, com regra simplificada pelo Papa Leão XIII (das Reformas1368 e 1897, cujo hábito era castanho com capuz curto). Os religiosos observantes eram mais populares, porque embora fizessem voto de pobreza, castidade e obediência, não estavam obrigados à reclusão conventual, andando por isso na “observação do mundo”, isto é, andavam na rua, colaborando com as populações em diversas actividades assistenciais. Por isso é que os seus conventos eram normalmente dentro das cidades para melhor interagirem e cooperarem com as populações urbanas, mais atreitas aos pecados mundanos e mais carecidas de assistência moral e religiosa.
Sabemos também que foi «Qualificador do Santo Ofício», isto é que foi agente especializado na censura de obras literárias e na pesquisa de ideias, atitudes e gestos que contrariassem a pureza da religião Católica Apostólica Romana. Os Qualificadores eram odiados dentro e fora da Igreja, porque deles partia a denúncia para do Santo Ofício. Na vida civil o seu equivalente eram os «Visitadores de Naus», agentes da autoridade que fiscalizavam as mercadorias que chegavam nos barcos estrangeiros para impedirem a entrada de livros e de folhas volantes que propagassem as ideias protestantes.
Além de censor foi também Guardião, isto é, frade superior ou principal dirigente, dos Conventos de S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Évora, da Vila de Odemira e da Cidade de Faro. Foi também Examinador, isto é, fazia a selecção dos melhores noviços conventuais para prosseguirem a vida religiosa, mas também fazia de analista ou avaliador sinodal. Foi, por fim, Confessor penitenciário do Bispado do Reino do Algarve e Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcântara, o que significa que superintendia no exercício sagrado da confissão aos sacerdotes, frades e freiras. Acima de tudo o nosso Frei Ambrósio, apesar dos cargos exercidos, nunca deixou de ser um simples Assistente no Convento de S. Francisco, em Lisboa. Por fim sei que faleceu no ano de 1700.
Da sua obra aqui ficam as referências de tudo o que veio a público, o que não sendo muito pode porém considerar-se notável, pois que a imprensa nessa época era um luxo e a edição em letra de forma, de um livro ou de um simples opúsculo, como era o caso dos sermões, dava ao seu autor uma reputação de que poucos se podiam vangloriar. Da sua lavra apenas possuo um raro exemplar do:
SERMAM DA GLORIOSA MADRE S. CLARA PREGADO NO CONVENTO DAS Religiosas de sua primeira regra da Assumpçaõ da Cidade de Faro; estando o Santissimo Sacramento manifesto. OFFERECIDO A SENHORA SOROR THEREZA MARIA DE JESUS, FILHA DO EXCELENTISSIMO SENHOR DVQVE DE CADAVAL. NO REAL CONVENTO DAS RELIGIOSAS Capuchas da primeira regra da gloriosa madre S. Clara, de N. Senhora da Quietaçaõ das Flamengas de Alcantara. PELLO R. P. FR. FRANCISCO DE SANTO AMBROSIO CONFESSOR DO dito Convento, Religioso observante da Provincia dos Algarves. Lisboa, Com as licenças necessárias, Na Impressaõ de Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor da Casa Real, Anno 1681, [2], 3-21, [1] p. (Na Biblioteca tem a cota: BN TR. 562410 P.)
A edição foi patrocinada, como facilmente se depreende, pelo Duque de Cadaval (D. Nuno Álvares Pereira de Melo), certamente por instância da sua filha, que estava internada como religiosa professa no Mosteiro das Flamengas de Alcântara, onde aliás era confessor precisamente o xabregano Frei Francisco de Santo Ambrósio. Desse respeitoso relacionamento, e da admiração que sentia pelo talento do seu confessor, surgiu certamente o pedido de publicação. Acrescente-se, conforme consta no citado opúsculo, que este sermão disserta sobre o tema "Ave Maria // Simile erit regnum Caelorum decem Virginibus: quae accipientes lampades suas exierunt obviam sponso & sponsae. Math. Cap. 25" (Ave Maria // o reino dos céus é como as dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo e da noiva. Mateus, cap. 25).
Confesso que tive a paciência de ler este sermão na íntegra, mas a experiência não me deixou seduzido a prosseguir a sua obra. A teologia não é seara de fácil penetração, ao contrário do que muita gente pensa. Em todo o caso, este espécime bibliográfico é bastante raro, embora seja obrigado a reconhecer que existem alguns exemplares em Portugal e no Brasil. Possuo outros sermões proferidos no Algarve da autoria de diferentes presbíteros, acerca dos quais devo aditar que são geralmente mais pequenos e mais acessíveis, nas asserções teológicas e filosóficas, dos que os de Frei Francisco de Santo Ambrósio.
Do mesmo Frei Ambrosio conheço um outro sermão com interesse regional, e que espero venha a figurar na Algarviana, o qual, a título de curiosidade, passo a citar:
SERMAM DO PRINCIPE DA IGREJA MEU SENHOR S. PEDRO PREGADO NA SANTA SEE DA CIDADE DE FARO. PELO R. P. FR. FRANCISCO DE S. AMBROSIO. Religioso observante da Provincia dos Algarves. SENDO GUARDIAM DO NOSSO PADRE S. FRANCISCO Da mesma Cidade. OFFERECIDO AO ILLUSTRISSIMO SENHOR MARCELLO DURASSO ARCEBISPO DE CALCEDONIA, E NUNCIO Apostolico cõ poderes de legado a Latere nos Reynos de Portugal. Imprenta Antonio Craesbeeck de Mello, LISBOA, 1681. Descrição: 1 fl. prel. não num., 17(+1) p. (19cm). Na Biblioteca Nacional está inserido numa miscelânea dos Reservados, onde está catalogado com a seguinte cota: RES. 3537//17 P
Obra de Frei Francisco de Santo Ambrósio foi compilada, pouco antes do seu falecimento, no livro que passo a citar, do qual conheço um exemplar na Biblioteca Nacional.
SERMÕES VARIOS, PREGADOS PELO REVERENDO PADRE FREY FRANCISCO DE SANTO AMBROZIO, RELIGIOSO OBSERVANTE, QUALIFICADOR DO Santo Officio, Guardiaõ que ha sido dos Conventos de N. P. S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Evora, da Villa de Odemira, da Cidade de Faro; onde foy Exzaminador, [sic] Confessor penitenciario do Bispado do Reyno do Algarve, Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcantara. ASSISTENTE EM O CONVENTO DE N. PADRE S. Francisco, desta Cidade de Lisboa, Provincia de Portugal. OFFERECIDO AO EXCELLENTISSIMO SENHOR MARQUEZ DE ALEGRETE PRIMEYRA PARTEImprenta BERNARDO DA COSTA, LISBOA, 1696. Este exemplar apresenta-se com 6 fls. prels., 333 i. e. 323 p. (Existe um erro de paginação: da 169 salta para a p.180).

E é tudo o que sei. Se alguém quiser acrescentar mais elementos que possam completar este breve apontamento, fico muito grato.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CARVALHO, Helena Emília Coelho de


Foi uma das senhoras mais ricas da sociedade farense no século XIX, e um dos partidos mais invejados pelos jovens do seu tempo. Além da beleza, elegância e instrução, a menina D.ª Helena tinha como principal atributo um notável dote, avaliado em várias centenas de contos, para oferecer a quem a levasse ao altar. E isso não era tarefa fácil, nem ao alcance de qualquer um dos seus jovens pretendentes. Por isso lhe chamavam a Helena de Tróia.
Nasceu, D. Helena Emília Coelho, em 1822, em Faro, na Rua Direita (Hoje Manuel Bivar), mais propriamente no edifício nobre que, nos meados do séc. XX,  serviu de sede ao Círculo Cultural do Algarve. Essa foi, aliás, uma casa com larga história na cidade, porque nela não só se aboletaram os oficias franceses das tropas de Junot, como antes também se havia nela estabelecido a primeira sede da Companhia de Pescarias do Algarve, precisamente pela mão do seu primeiro administrador José Coelho (parente do Marquês de Pombal).
José Coelho de Carvalho, o «Patriarca do Algarve»
Era filha do comendador José Coelho de Carvalho (Pedrógão Grande, 12-1-1776; Faro, 10-1-1856) a quem José Estêvão chamou «o Patriarca do Algarve», que foi o mais notável empresário comercial da cidade, apoiante da causa liberal e de cujo bolso pagou o sustento das tropas do Duque da Terceira, durante a ocupação da cidade em Julho de 1833. Segundo confessou Sá da Bandeira, em plena Câmara dos Deputados, entre 1834 e 1838, ou seja durante o período das guerrilhas, o velho Coelho de Carvalho gastou muitas dezenas de contos com o patrocínio das tropas governamentais. Durante a guerra-civil da «Patuleia», entre 1846-47, recebeu a patente de Tenente-Coronel, armou as milícias de Faro e pagou não só o sustento como ainda o equipamento do «Batalhão de Caçadores do Algarve», que ele próprio fundou para sustentar a causa Setembrista e defender a Junta Governativa do Algarve, à qual também pertencia. À frente desse batalhão colocou o seu filho mais velho, José Coelho de Carvalho Júnior, que conduziu os soldados algarvios até ao campo de batalha, sob comando do Conde de Melo.
A mãe de D. Helena, de seu nome D.ª Ana Ignacia da Cruz Coelho (Faro, 20-9-1797; Faro, 19-12-1868) foi outra das grandes senhoras do seu tempo, amiga dos pobres e das crianças desvalidas, protectora dos artistas e dos músicos, que fez das obras misericordiosas o principal objectivo da sua existência. De tal forma que a Venerável Ordem do Carmo, à qual pertencia a burguesia de Faro, deu-lhe túmulo na capela dos ossos da Igreja do Carmo, que é uma das referências artísticas da cidade.
A origem do seu nome prende-se com a herança da avó, D.ª Helena Carvalho, natural de Stª Catarina de Vila Facaia, concelho de Pedrógão Grande, que ali casou com o seu, julgo que ainda parente, José Coelho, o tal que veio fundar a Companhia de Pescarias do Algarve em Vila Real de Santo António, fixando depois residência em Faro. 
A D.ª Helena acabaria por ser a última sobrevivente dos cinco filhos que constituíram a ilustre prole do «Patriarca do Algarve»:
José Coelho de Carvalho Júnior, nascido em 1814 e falecido em Faro a 29-3-1855; foi vice-cônsul da Áustria, em 1835, e da Bélgica em 1840.
Sebastião José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro a 2-9-1828 e faleceu a 13-6-1874; licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, e abriu banca de advogado em Faro, onde foi também Governador Civil, desde 10-1-1863 até 30-3-1865.
António José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro, a 13-3-1836 e faleceu a 8-5-1887, que se dedicou à administração dos negócios da família e à exploração das suas propriedades agrícolas, que se distribuíam por diversos concelhos do litoral algarvios, desde Tavira até Lagos.
Joaquim José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro  em 1833 e faleceu em 1903; casou-se em 1856, em Lagos, com D.ª Camila Rita Ribeiro, rica proprietária local, e por isso foi Presidente da Câmara daquela cidade, aceitando mais tarde o lugar de Governador Civil, entre Julho e Setembro de 1870. Mas antes de casar teve uma relação amorosa com D. Maria das Dores Vizetto, uma bela e jovem tavirense, de origem italiana, que morreu tragicamente com a célebre epidemia do cólera-morbus em 1855. Dessa relação nasceu um filho, o famoso Joaquim José Coelho de Carvalho Júnior (1855-1934), advogado, diplomata e escritor, que viria a ser Reitor da Universidade de Coimbra, presidente da Academia das Ciências, Cônsul de Portugal no Rio Grande do Sul, Brasil, em Xangai e em Huelva. Morreu no seu castelo do Arade, em Ferragudo em 18-07-1934, com a dolorosa dúvida de "não ser eu mas o outro". E este mistério, de que só eu sei a solução, não o revelo aqui, e nem sei se algum dia terei a coragem de o revelar em público.
Para terminar este breve apontamento, resta-me acrescentar que D. Helena viria a casar com o Juiz-desembargador José Januário Teixeira Leite Pereira Castro, de quem teve um filho, Viriato de Castro, terminando os seus dias na casa deste, em Santa Marta de Penaguião, no dia 12 de Agosto de 1897.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

ALCOUTIM - Alfândega de baixos rendimentos no início do séc. XIX

(para o meu amigo Zé Varzeano, desejando que o seu blogue «Alcoutim Livre» continue a ser um alforge da nossa História Local e Regional)
A vila de Alcoutim, como terra de fronteira, possuía Alfândega, porém quase nada rendia à Fazenda Real (antecessor do atual Ministério das Finanças). Consultei os mapas da Alfândega de Alcoutim, depositados na Torre do Tombo, respeitantes ao século XIX, e os mais antigos que encontrei (com averbamentos) datavam de 1822. Neles constatei que naquele ano apenas se exportou "Cera em Rama" para a vizinha Espanha, e não se registaram importações. A cera, aqui referida, é naturalmente de abelha.
Mas num ofício do Escrivão da Alfândega, António Sebastião de Freitas, datado de 5-8-1822, dirigido à Junto do Comércio, relata-se a extrema pobreza daquela instituição aduaneira:
«(...) Acresce mais dizer a V.S. que esta Alfandega nada Rende nem para a Fazenda Real nem tão pouco emolumentos para os officiaes, pois os mesmos ordenados se lhe estão devendo por não haver rendimento com que se possão pagar. (...)»
Acrescenta ainda, o mesmo escrivão, que nesse ano fez uma apreensão de quatro cargas de peles de chibato que se dirigiam a Espanha, apreensão essa feita de noite e com grande perigo de vida, sendo os contrabandistas ilibados mais tarde e autorizados a recuperarem as suas peles por Ordem do Superintendente das Alfândegas do Algarve.
Por conseguinte, o contrabando fazia-se mesmo nestas fronteiras de escasso movimento alfandegário, e constata-se que o delito compensava o risco, talvez por alguma conivência e corrupção das autoridades vigentes. Por estas e por outras é que a revolução de 1822 foi tão bem acolhida pelas massas populares do Porto e depois de Lisboa.
ANTT, Junta do Comércio, Maço 315, doc. avulso.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O tempo da memória no miradouro da vida

José Carlos Vilhena Mesquita
«Toda a obra de arte é uma personalidade.
O artista vive nela, depois de ela ter vivido
longo tempo dentro dele» J.M.Vargas Vila


A maior interrogação do homem provém da natureza da sua existência. Quem somos, de onde vimos e para onde vamos, não é um esfíngico enigma tebano, nem tão pouco um ancestral mistério da filosofia escolástica grega. É, tão simplesmente, a dúvida fundacional da humanidade, que inspirou credos e religiões, sustentou doutrinas e ideologias, libertou povos e erigiu nações nos mais díspares quadrantes do globo. Mas, no fundo, as dúvidas que infundem esse indecifrável enigma, correspondem tão simplesmente à dimensão natural do tempo, ou seja à sua partição evolutiva em passado, presente e futuro. É essa a dimensão que do nosso Miradouro da Vida conseguimos vislumbrar.
Desde o primeiro frémito de vida até ao último suspiro em que se evola a alma, vemos perpassar pelo mirante da nossa existência o esplendor da criação, o regozijo da posse, o orgulho do saber, a aptidão imaginativa, o talento inventivo, a glória do sucesso, o reconhecimento social e o conforto da velhice. Mas o elo de ligação entre os elementos do tempo e as fases da vida chama-se Saudade. Aos que, no mirante da açoteia da vida, resistiram no vórtice do tempo às Parcas do destino, só lhes resta agora a volúpia de recordar, esse sensual prazer de poder afirmar eu vi, eu estive lá, eu conheci-o, eu sei como tudo aconteceu. O tempo faz a vida e faz o ancião, ambos são sinónimos de experiência e de sabedoria.
A origem da poesia provém etimologicamente do vocábulo grego “poiéw”, que traduz a ideia de fazer e criar. Por conseguinte, desde que os homens se uniram para fazer a civilização e criar o Estado – conceberem a soberania, a liberdade e a cidadania –, coube à poesia a missão de fazer lembrar e transmitir o passado, em palavras encadeadas pela musicalidade da rima, para que fossem facilmente decoradas e repassadas às gerações seguintes. Antes da invenção da escrita e do registo da História, foi a poesia quem uniu os povos e lhes infundiu a dimensão do tempo e a herança do passado, servindo-lhes de arauto e de mentor, para que nunca esquecessem de onde vinham, quem eram e para onde queriam prosseguir o seu caminho.
Daqui se infere que, desde as origens da civilização até ao devir intemporal da humanidade, sempre a poesia marcou indelével presença na transmissão da História e na construção da Cultura. A poesia é, pois, a charneira da Civilização. E mesmo que os povos pereçam e as nações se extingam, ecoará para sempre no Miradouro do Tempo uma voz do passado, como uma prece poética, suplicando aos vindouros que não olvidem os que ficaram para trás, encobertos na bruma da história. Essa voz, impetuosa e arrebatante, é a inconfundível voz dos poetas.
É precisamente essa voz, de lídimo poeta, que tenho a honra de apresentar, nesta progressiva cidade de Albufeira, na pessoa do Dr. Manuel dos Santos Serra, insigne cidadão e figura modelar da medicina algarvia, distinto humanista e incansável defensor dos supremos valores da Liberdade e da Democracia. Poucos serão os que hoje lhe poderão imitar tão profícuo trajeto de vida, porque para tanto lhes faltará não só o génio, como principalmente a humildade, a abnegação e o desprendimento para, em todos e em cada um, ver o irmão que sofre e precisa do seu solidário apoio, nas horas difíceis, em que por vezes, a vida, num segundo, se esvai e a alma se desvanece.
O livro que o Dr. Santos Serra traz hoje a público, tem por título Miradouro do Tempo. É um livro de poemas, que, tal como os anteriores, tem a chancela da Caleidoscópio. Apresenta na capa um belo quadro a óleo, sobre a baía de Sagres, da autoria do notável pintor Samora Barros. Uma opção inteligente e louvável, pois que aquele exímio pintor, e ilustre albufeirense, foi também um admirável cultor das musas.
A obra em si comporta 104 poemas, idealizados de forma livre, sem as peias métricas nem as sonoridades rítmicas, que a ortodoxia lírica impôs nos templos de Orfeu aos adoradores das musas. Uns são curtos e incisivos, enquanto outros são mais alongados nas suas lucubrações filosóficas, nas suas imagens poéticas ou nos seus subterfúgios metafóricos. O livro tem três fases distintas. A primeira é mais lírica, mais artística, mais consentânea com a produção anterior do poeta. Evidencia um espírito sonhador, utópico e idealista, no fundo revela o poeta na sua faceta mais cristalina. Os versos são curtos e os poemas são pequenos, como se fossem medalhões poéticos. Mas o seu embasamento filosófico obriga o leitor a uma reflexão mais atenta e prolongada. O lirismo é omnisciente. Repare-se nos primeiros poemas e na sua ponderação sobre o valor e necessidade da poesia, sobre a conceção poética e as ilusões do poeta. Vê-se que pela escadaria do poema fluem sentimentos de saudade, fantasia e alucinação, recordações de paraísos errantes e de alegrias juvenis, de desilusões, privações e morte. Em alguns poemas constatei recursos estilísticos não verificados em obras anteriores, como é o caso das repetições vocabulares dentro do mesmo verso, o que já não acontece nas fases seguintes do livro. Permita-se-me aqui destacar alguns poemas que se incluem nesta primeira parte: «Magos da Leitura», «Porquê», «Meditando» (verdadeira ode ao Mar), «História» (autobiográfico) e «A magia do verso» (verdadeiro hino à poesia).
A segunda fase do livro começa precisamente com o poema que serve de título a este livro, que merece ser lido, refletido, ponderado, dissecado, anatomizado e vagarosamente comentado. Jorge Luís Borges dizia que bastava um verso para salvar um livro, mas se fosse um poema então salva-se toda a obra do poeta. Neste caso, diria que são muitos os poemas que salvam este livro e dignificam para sempre a memória do poeta Manuel dos Santos Serra.
Esta parte do livro é mais romântica e mais intimista, porque reflete não só as experiências passadas como as vivências privadas do poeta. O prazer de recordar e a nostalgia da memória são muito prementes. Nota-se também nestes poemas uma sincera preocupação ecológica e uma profunda revolta, contra a destruição paisagística e os atropelos ambientais, perpetrados em nome do progresso e da modernidade. O Algarve e suas praias, os lugares históricos e a sua beleza ambiental, são assuntos recorrentes nos seus poemas. O amor e a natureza são nesta fase os temas fulcrais do livro. O amor oscila entre o platónico e o físico, mas o erotismo é a essência e a alma da poesia. A forma velada como se revela a sensualidade do amor é o mais sublime perfume da poesia. Mas é a Natureza que aqui se assume como uma espécie de heroína ou de personagem central, em torno da qual decorre o Tempo, esse invisível espaço pelo qual perpassa a vida e as incontornáveis transformações das mentalidades, das ideologias e das nações. A apologia da natureza é mística e ascética, e os poemas são como preces de exaltação à pureza e virgindade do que é natural, genuíno, íntegro e imaculado. O poeta é fruto da paisagem que lhe iluminou a infância, e lhe moldou a alma na terra perfumada pelas amendoeiras em flor.
O Dr. Santos Serra usando da palavra, ladeado por
Vilhena Mesquita e pela vereadora da cultura da C.M.A.
Por fim, sente-se no poeta o peso da idade, e essa é uma realidade transversal a todo o livro. Alguém disse que recordar é a voluptuosidade dos velhos. Essa é uma realidade constante neste livro. A angústia do tempo que passou e não pode ser revivido, a nostalgia de recordar o que se viu e não mais se vê, causa no poeta uma profunda amargura. A velhice é o desalento do herói. A anciania é o heroísmo de vencer o tempo no desconforto da saudade. Neste livro são vários os poemas sobre o descanso do guerreiro, cuja idade lhe sobrecarrega a memória de recordações que o tempo foi acumulando no cofre da alma. E o tempo está pejado de sombras que a luz da vida já não pode iluminar. O maior castigo da velhice é sem dúvida a saudade da lembrança.
Permita-se-me que destaque desta fase, entre muitos outros possíveis, apenas os seguintes poemas: «Algarve» (ode regionalista), «Ritual do Amor» (erotismo profundo), «Reencontro» (erótico-sensual), «Fatalismo» (sobre a vida e a morte) e «Decadência» (apostasia religiosa).
A terceira e última parte é aquela que faz da poesia o predestinado arauto da história. Fala dos tenebrosos mitos que dominavam os mares tumultuosos, e dos lusos argonautas que divisaram horizontes de esperança em terras longínquas, onde nunca chegara a promessa da civilização. Exalta o nome de um povo que foi de Gamas, Cabrais, Magalhães e Albuquerques, mas que agora nem desse passado se pode orgulhar, porque de mão estendida se deixou submeter à força bárbara da gente alheia. «Fomos jovens, rebeldes, musculados, / O que havia e não havia fomos ver, / O mundo quis saber o nosso nome / E registou-o em lendas, / Em papiro de aço / Fomos… / Fomos… / Fomos… / Hoje, a Pátria que nos resta, / Tem um ramo de rosas secas no regaço».
A par da poesia de temática histórica sucede-lhe a fase do Realismo Poético, um estilo raramente visto na moderna poesia portuguesa. Por isso considero que esta é a melhor parte do livro, por ser a mais fiel ao espírito revolucionário da poesia e também a mais consentânea com a personalidade do Dr. Manuel dos Santos Serra, um indómito defensor da liberdade e um intransigente protetor dos direitos humanos. Infelizmente são já raros os homens, que como ele se apaixonam pela nobreza dum ideal e pela soberania da justiça, lutando com todos as suas forças pela defesa da verdade e pela proteção dos mais fracos. Por isso é que os seus poemas não se eximem de retratar os dias negros que o nosso país tem vivido ultimamente, acusando sem temor os nossos governantes de serem os algozes duma pátria que civilizou o mundo. «Agora este pobre e velho povo / Como um deus doente, / Ultrajado, andrajoso, mal-amado / Pelos filhos infiéis / Cisma, cisma no milagre a inventar, / De fazer deste fraco povo, forte gente!»
A crise económica em que vivemos tem causado grande instabilidade social, gerando insegurança, desconforto e sobressalto na vida de todos os cidadãos. Um angustioso clima de egoísmo e de nefasto individualismo, uma exacerbação material da vida tomou conta dos destinos do mundo e derrubou os supremos valores do espírito, da moral e da ética. Vivemos hoje tempos de dependência e de subalternidade aos desígnios alheios, semelhantes aos que viram Camões perecer numa infame enxerga de hospício. A esperança perde-se a cada instante e o futuro reserva-nos dias sombrios de angústia e sofrimento. Resta-nos talvez a poesia e a leitura de livros como este para cuidarmos de resistir e de sobreviver o melhor que pudermos, contra este pacto de agressão internacional a que a pátria e o povo português se acha submetido.
O Dr. Santos Serra agradecendo ao declamador João Pires e a
Vilhena Mesquita a colaboração prestada na apresentação do livro
 

Em suma…

A centúria de poemas que compõem este Miradouro do Tempo percorre uma panóplia temática muito diversificada. Numa rápida súmula posso afirmar que os temas principais, ou seja os que consegui padronizar, são de carácter ambiental, cósmico, religioso e sentimentais. Não obstante, é na oclusão da vida e no mistério que envolve a face obscura da morte, que se focaliza o núcleo lírico desta obra.
No que concerne à temática ambiental são constantes as evocações relacionadas substancialmente com a Água, enquanto fonte da vida, mas também com as chuvas e os rios, contrastando com os seus opostos, o sol, as secas e os incêndios, a luz, o brilho e a cor, tudo isto estrategicamente ordenado numa poesia de contrastes e de recordações. Mas não nos deixemos iludir nesta imbricada teia naturalista, porque é nela que o Mar se assume como elemento agregador e difusionista da mensagem poética deste livro. Diria mesmo que o mar é o tema fundacional na poesia de Santos Serra.
Mas, no âmbito dos elementos cósmicos o tema principal é o Tempo, não só na sua dimensão de passado como também na sua interpretação metafórica, sendo por vezes evidente a sua personificação, quer como sujeito quer como agente proactivo na execução poemática. Além do mais figura na composição do título da obra. Na conjugação poética do tempo recorre-se a elementos mais comuns como o vento e a tempestade, a primavera das flores ou as trovoadas do inverno, o azul do céu e o brilho das estrelas no ebúrneo firmamento algarvio.
Os elementos religiosos, embora escassos e, por vezes, dissimulados, estão latentes na poesia de Santos Serra. Deus é uma entidade omnisciente, mas só abstratamente revelada, enquanto a alma é um recurso funcional na construção diegética do poema. Aparecem fugazmente outros conceitos como o milagre, o paraíso, a igreja e até mesmo o Olimpo, numa alusão ao paganismo clássico.
Mais prementes e abundantes são os elementos sentimentais, de entre os quais impera o amor, platónico e físico, sendo neste caso de realçar o profundo erotismo que ressuma em dois poemas, que por serem muito belos, quase extasiantes, não resisto à tentação de aqui lhes citar os títulos: «Ritual de Amor» e «Reencontro». A par do amor seguem-se os afetos e enamoramentos, o ardor da paixão, o prazer do sexo, a liberdade de amar, mas também a fidelidade no contraste com a perfídia e o adultério. A saudade é, no caso do amor e da paixão, um sentimento avassalador, a que se juntam, como reforço poemático, as lágrimas e a dor da separação, a desilusão e a depressão, a doença e a morte.
Sem grande esforço analítico poderia afirmar que existe ao longo deste livro um fio condutor. É arrojado dizê-lo quando se trata de uma obra de poesia, mas não há dúvida que o tempo é o elo de ligação, mas a memória é o cerne e a alma de todo o livro. Mais curioso, ainda, é notar que a dimensão tempo, sendo o cadinho em que se fundem a generalidade dos poemas, assume-se aqui como um nostálgico sentimento de perda, e de privação, de algo que ficou no passado e já não volta nem se recupera. Essa nostalgia não é saudosista. É antes, e tão só, o puro sentimento lusíada da saudade, não de quem parte mas de quem vê partir.
Panorâmica do auditório durante a apresentação do livro
Se o que caracteriza o género poético é a harmoniosa beleza da palavra esculpida nos interstícios do poema, capaz de despertar no leitor sentimentos e emoções, de agitar sensibilidades e inspirar comoções, então sim, podemos afirmar que este é verdadeiramente um livro de poesia, cuja leitura nos elevará até aos sagrados altares da arte e da estética literária. Porque, na verdade, um poema é uma espécie de tela pintada com palavras, em cuja têmpera o poeta terá de selecionar as mais finas cores. Mas se quisermos ser mais abrangentes então podemos afirmar que toda a Arte é Poesia, porque ambas personificam o Belo e a Verdade.
Antes de ser Arte e Literatura, a poesia é essencialmente a voz sublime da Natureza. É claro que quando falo em Natureza estou a referir-me a tudo o que rodeia e consubstancia a vida. As correntes literárias vanguardistas tentaram alterar a função primacial da poesia, como expressão natural da vida, mas não só foram mal sucedidas como ainda tiveram uma efémera existência. A razão desse insucesso prende-se com a falta de sinceridade, porque só permanece e resiste tudo aquilo que é sincero e natural. A imitação do talento poético é a contrafação da arte, pelo que rapidamente se transforma em caricatura e tédio.
Em boa verdade, não é fácil tocar violino num rabecão.