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terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Poeta das Aldeias – Domingos Guerreiro Basílio

J. C. Vilhena Mesquita

Uma das figuras hoje absolutamente ignoradas foi outrora considerado como o “Poeta das Aldeias”, epíteto conquistado com merecida justiça pela forma como este percorria as freguesias do extremo sotavento desafiando para verdadeiros combates poéticos, acompanhado à desgarrada por concertinas e cavaquinhos, aqueles que se arvoravam capazes de acompanhar ou competir com a sua repentina criatividade.
O homem que tinha o raro talento de improvisar quadras populares à velocidade de um fósforo, chamava-se Domingos Guerreiro Basílio, era um cidadão muito conhecido e admirado pela sua inteligência, honestidade e dedicação ao trabalho. E não se pense que no fim da vida era apenas uma figura típica, como aquelas que nas antigas feiras pontificavam pela sua excentricidade e submissão aos prazeres da bebida. Bem pelo contrário. Na pujança da idade foi um denodado republicano que lutou com todas as forças pela vitória dos ideais, chegando por várias vezes a desempenhar as funções de regedor da aldeia do Azinhal, onde residia, tendo mais tarde chegado aos bancos da edilidade de Castro Marim na qualidade de vereador.
Não era, pois, um obscuro habitante da ignorada freguesia do Azinhal no não menos ignorado concelho de Castro Marim. Os seus conterrâneos reconheciam-lhe qualidades e ouviam-lhe os concelhos. Porém , com o decorrer dos tempos, os anos começaram a pesar e a situação política alterou-se, a ponto do pobre Domingos Basílio se ter dedicado ao humilde mas honrado cargo de transportar as malas do correio entre Castro Marim e a freguesia de Odeleite. Uma espécie de carteiro dos tempos antigos, que não só levava a correspondência privada como também trazia as boas e más notícias. Era ele quem gritava os pregões das leis e decretos, quem citava os preços no mercado da vila, quem dava conselhos aos agricultores, anunciava as “sortes” aos mancebos, combinava negócios, escrevia cartas e tratava doutros documentos para os analfabetos... Enfim, era um sopro de vida e de civilização numa terra perdida num canto remoto do país profundo, um aglomerado de casas e um povo soturno, sacrificado e submetido às entediantes agruras duma agricultura de subsistência.
O velho republicano, esquecido de outras lides mais honrosas, deitou mãos à vida e transformou-se num simples carrejeiro, levando serra acima, os cereais e as viandas, os secos e molhados, os barris do vinho de Tavira e os almudes da cristalina medronheira serrana, para abastecer as mercearias e tabernas do raiano concelho.
Nos fragosos percursos das suas jornadas, deixou pelos valados das humildes estevas o eco da sua voz, em alegres quadras cantadas nas tabernas, nas feiras ou nos adros das ermidas, à compita com os destemidos cantadores locais, sob as saudáveis gargalhadas e os estridentes aplausos do povo, sempre acolhedor e generoso.
Foi no retorno de um desses trajectos, para a sua velha casa no Azinhal, que encontrou a morte num estúpido acidente. Uma queda aparatosa e desamparada roubou-lhe a vida aos 72 anos de idade.
As gentes serrenhas continuaram a venerar a memória do “Poeta das Aldeias” decorando-lhe os versos e cantando as suas quadras em modinhas populares, nos “bailos” e nos ranchos das raparigas solteiras.
Quem se lembra hoje desses tempos?..
Haverá por aí, no concelho de Castro de Marim, no seio do seu bom povo, quem ainda se lembre do “Poeta das Aldeias” ?
Aqui deixamos o desafia na expectativa de recuperarmos a sua memória e se possível algumas das suas quadras.

domingo, 26 de julho de 2009

Quarenta anos de Poesia em Vieira Calado

J. C. Vilhena Mesquita

Não são muitos os poetas e escritores que no nosso país se podem orgulhar de uma longa e vasta obra literária. Felizmente, no Algarve, há dois ou três exemplos que contradizem a regra geral de se iniciar uma carreira literária quando embranquecem as cãs e se consolidam as estruturas familiares para dar lugar às segundas gerações. Entre as figuras de maior proeminência e longevidade cultural no Algarve destacam-se Elviro da Rocha Gomes e Tito Olívio Henriques, que fazem no conjunto das suas obras uma simbiose entre a prosa e a poesia. Mas, em exclusiva dedicação ao género poética, apenas se terá mantido José Vieira Calado, que acaba de completar quarenta anos de vida literária. E para um poeta de intervenção, que usa a palavra para acicatar a letargia e espicaçar as mentes, não é difícil de imaginar que terão sido décadas de resistência contra a censura, que por vezes identificava o inocente alinhamento dum poema com a velada divulgação de mensagens subversivas e desafectas ao regime.
Muitas foram as vítimas, desde Eugénio de Andrade a Ramos Rosa, que nos anos subsequentes souberam capitalizar a vitimização da perseguição política a seu favor, reivindicando prestígios, privilégios e prémios. O mesmo não aconteceu com Vieira Calado que, na sua humildade natural e no seu genuíno talento, continuou a fazer da poesia a sua voz, num ténue lamento de nostálgica indignação e num surdo grito de revolta contra a ignorância, o nepotismo e a presunção dos instalados no poder. Talvez por se manter fiel a si próprio, sem se ajoujar a qualquer bandeira partidária, daquelas que flutuam nos mastros do poder, é que o nome de Vieira Calado nunca será gravado a ouro na frontaria de uma qualquer biblioteca pública.
Também pouco lhe importa a vã glória dos talentos postiços, da incongruência dos louvores ou dos prémios com o sabor mafioso das clientelas políticas. O que importa é a coerência dos valores, a preservação dos princípios éticos, a incessante procura de novos caminhos para encontrar a essência das coisas simples e a alma dos últimos mistérios. É na descoberta das coisas primeiras, no abismo dos conceitos e na bruma das metáforas que emerge a poesia de Vieira Calado.
Para quem não conheça a sua obra aconselhamos vivamente a leitura de um dos seus últimos livros intitulado Transparências, que consideramos um sublime bouquet do mais inspirado e criativo lirismo produzido no Algarve dos últimos cinquenta anos. Aliás, sempre dissemos que Vieira Calado era um dos melhores poetas do modernismo algarvio, e um dos mais autênticos, reflectidos e intelectualizados. Nada fica a dever aos seus mais célebres antecessores, porque não lhes imita os temas, não lhes copia os passos, não procura a luz onde existe a sombra, nem pinta de azul o negro da noite. Limita-se simplesmente a envolver as palavras no manto diáfano do mistério, escondendo por detrás da leitura e da sugestão dos sentidos uma imagem de perpétua insatisfação, um trago de amargura, uma envolvente dúvida na imbricada desconstrução metafórica do poema.
Por isso é que a sua poesia é tão sugestiva, num misto de atracção e repulsa, tecida entre a verdade, a traição e a fuga, enredada em conceitos de fino recorte filosófico e exigindo do leitor não só uma leitura integrada como também uma razoável preparação intelectual. Em boa verdade, a sua poesia está longe de poder agradar às camadas populares, embora ao poeta certamente agradasse espicaçar a letargia em que se acha mergulhado o nosso povo, cada vez mais submisso e anestesiado pelos média, “acorrentado” às telenovelas e concursos bestializantes da dignidade humana. As mensagens que nos impingem os meios de comunicação, sobretudo a “caixa mágica” que domina os nossos lares, é cada vez menos poética e cada vez mais descrente dos valores que devem nortear a humanidade. Talvez seja por isso que a poesia não se vende. Talvez seja por causa da nossa ignorância, do nosso crescente materialismo e assustador egoísmo, que a poesia tem vindo a desaparecer das nossas atitudes diárias, a perder terreno nos nossos hábitos de consumo e nos cada vez mais escassos prazeres da leitura.
Apesar de o panorama não ser motivador a voz dos poetas continua a ecoar no templo de Orfeu, com a mesma vivacidade e esperança de quem acredita na salvação da humanidade através da propagação da verdade, da honra e do amor. Vieira Calado tem-no feito ao longo de quarenta anos. Por isso resolveu reunir numa breve antologia que designou por Poemas Primeiros, algumas das composições lançadas à luz do prelo entre 1961 e 1962. Foram extraídos dos livros 37 Poemas e Os Sinais da Terra, que são os títulos que abrem a sua apreciável lista de obras. Por mais que lhes procurássemos o vagido da inocência imberbe, da inexperiência ou da incongruência intelectual, nada encontrámos que se pudesse classificar de incipiente, inarmónico, desconexo ou desproporcionado. O poeta já estava feito quando lançou à terra as primeiras sementes da sua futura seara. Creio mesmo que, em certo sentido, os seus primeiros poemas eram mais atractivos – mas não menos profundos - do que agora, visto que em poucas palavras, em meias dúzia de versos, conseguia aprisionar o mundo, nas suas injustiças, desafectos, atrocidades e violências. Mesmo quando usa o naturalismo nos conceitos procura deixar a dúvida entranhada na escadaria do poema: “Este Sol incrivelmente verde / apesar de mudo, / este céu incrivelmente nítido / apesar da distância / e este chão inevitavelmente pesado, / apesar dos pés e dos músculos dos pés / crescerem do verde e do nítido.”
A voz oraculina do poeta está subjacente à maioria dos seus poemas, recorrendo ao trocadilho dos significantes para enredar o leitor na dualidade dos significados. O tecido que envolve os conceitos e entretece as palavras é supostamente translúcido, mas não resolve nunca a dúvida da interpretação na duplicidade das sensações: “O tempo é como o vento. / As nuvens / sou eu, és tu e são os outros; / não há vento que as não leve. / Já alguma viste / a mesma nuvem duas vezes? / Já alguma vez sentiste / o mesmo vento duas vezes?”. E mais adiante acrescentará com a feroz simplicidade das coisas aparentemente simples: “Todo o rio tem mar / toda a cidade tem cemitério / toda a verdade crua tem adultério.” Este último verso é um tratado de psicologia social que poderemos desmontar das mais variadas formas para obter sempre o mesmo resultado: por detrás da verdade está o fosso da traição. Parece querer dizer que entre a perfídia e a ignomínia se ergueram os alicerces da nossa civilização, mas que, apesar disso, existe o caminho da verdade e da honra, cuja escolha depende só da largura da nossa alma: “Na estrada dos caminhos cruzados / não há frestas nem arestas paralelas / não há clareiras nem sombras dos escombros / não há geometria pré-concebida / de réguas nem de esquadros. / Na estrada dos caminhos cruzados / há apenas a largura / dos ombros de cada um.”
Para concluir, repetimos o acostumado cliché: “O Algarve é um rincão de poetas”. Ninguém duvida disso. Mas em boa verdade não há muitos poetas de qualidade. O que existe é quantidade. Falta instrução, leitura e convivência aos poetas algarvios, que na sua maioria subsistem fechados sobre si próprios, entretidos com Jogos Florais e alheados de novos horizontes culturais. Não é o caso de Vieira Calado, homem viajado, docente do ensino secundário, licenciado em Letras e muito atento o intercâmbio cultural com outras regiões europeias. A sua dimensão intelectual e o seu interesse por novas experiências culturais tem-lhe permitido evoluir na senda do aperfeiçoamento e da qualidade poética. O facto de se ter mantido sempre actualizado permitiu-lhe ser cada vez mais exigente, no apuramento do estilo, na intervenção dos conceitos e no esgrimir das palavras. Sem nunca rejeitar a intervenção momentânea das musas, e de reconhecer que sem inspiração não existe poesia, o certo é que em Vieira Calado também se vislumbra a transpiração do artista, que incessantemente busca alcançar a perfeição.
No remanso da cidade de Lagos, vive um dos melhores poetas do Algarve, longe da ribalta da capital do Império, alheado dos média, em feliz comunhão com a sua musa inspiradora. Os seus quarenta anos de vida literária materializaram-se numa dezena de livros publicados. Serão, talvez, um parco legado de quem possui talento e qualidades para muito mais. Agora que está reformado das lides do ensino, talvez despertem em Vieira Calado os encantos do prelo, contribuindo com novos títulos para o engrandecimento da poesia algarvia.

Nota: este texto foi publicado no «Diário do Sul», em Julho de 2001