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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Edifício Rádio Algarve - Antena Sul, vai ser vendido para especulação imobiliária

Edifício histórico da Rádio Algarve, oferta do Estado Novo
É pena que a Rádio Televisão Portuguesa, como entidade proprietária deste imóvel, já o tenha vendido, em Lisboa, e à socapa do Algarve, mas não dos políticos nem dos autarcas algarvios interesses. Parece que foi vendido a uma empresa imobiliária francesa, para no seu lugar construir um condomínio de luxo. É verdadeiramente criminosa a demolição deste edifício, que foi construído de raiz para nele se instalar a antiga Rádio Algarve, ao tempo o mais moderno meio de comunicação, que difundiu a cultura e a voz dos algarvios por todo o mundo. Foi uma generosa oferta do Estado Novo ao Algarve. Bem sei que a maioria dirá que se deve deitar abaixo, porque foi obra dos fascistas. Ainda assim acho lamentável que se destrua um dos poucos monumentos da História da Rádio ainda existentes no nosso país. Estive lá no verão passado com um radialista estrangeiro, que após breve visita às instalações considerou os estúdios de gravação de uma qualidade inexcedível, afirmando que seria impossível nos dias de hoje construir algo igual. Porque para além de ser imensamente dispendioso, também já não temos hoje materiais com a mesma qualidade de insonorização.
Neste estilo arquitectónico, que alguns ironicamente chamam «Português Suave», só temos em Faro o antigo Dispensário (hoje ocupado pelo centro médico), a escola Tomás Cabreira, o Liceu, as escolas do Carmo e da Sé, e, enfim, pouco mais.
Esta antiga sede da Rádio Algarve, possui alguns trabalhos de decoração artística muito valiosos, em azulejaria e baixos relevos de massa e cerâmica vidrada, que antes do edifício ser demolido devem ser retirados por técnicos especializados, a fim de ficarem preservados no Museu de Faro.
O pouco que ainda resta do antigo património decorativo da Rádio Algarve, continua a ser bastante valioso e cobiçado. Os trabalhos estão assinados por artistas de reputação nacional. Por isso sugiro que sejam retirados antes de demolirem o edifício. Devido à localização privilegiada do edifício, é óbvio que não irá resistir à cobiça dos empreiteiros.
Para terminar, faço lembrar que o terreno adjacente, e que pertencia à RDP Algarve, foi o primeiro estádio de futebol do Sporting Clube Farense. É claro que o primeiro recinto onde se iniciou o futebol no Algarve, foi no largo de S. Francisco. Mas onde o Farense começou a jogar oficialmente foi ali, no campo da Senhora da Saúde, em cujo topo norte se construiu um posto emissor de rádio. Se olharem para o terreno onde se implantou o edifício da RDP, vão perceber claramente, pelo seu nivelamento e dimensão, que foi um campo de futebol.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Mário de Oliveira, um jornalista na fundação e organização competitiva do futebol algarvio, nos primórdios do século XX

Numa altura em que muito se fala, nos órgãos de comunicação desportiva, sobre o reconhecimento e validação dos campeonatos de futebol realizados a partir de 1921 até 1934, ocorreu-me evocar aqui a memória de um grande jornalista, que quando ainda vivia em Faro, sugeriu a formação de torneio de futebol que englobasse todos os clubes do país. Foi, por isso, escolhido para fazer parte da comissão organizadora do primeiro campeonato de Portugal, realizado em 1921, conquistado pelo Futebol Clube do Porto.
Mário de Oliveira, numa
das suas últimas fotos
Chamava-se Mário Fernando de Oliveira, embora ficasse conhecido pelo primeiro e último nome, por ser desse modo que sempre assinou os seus escritos, ao longo da sua profícua existência de homem público. Além da sua actividade profissional, desenvolvida numa das maiores empresas públicas do país, os CTT, ocupava os seus tempos livres na divulgação e fomento do desporto, mais propriamente na implementação do futebol. Pode dizer-se que, a seguir ao artista e professor Carlos Lyster Franco (principal divulgador do futebol, nomeadamente das suas regras junto das camadas jovens), foi Mário de Oliveira quem mais se dedicou e se destacou na formação e organização competitiva do futebol no Algarve. Presumo que nunca lhe prestaram qualquer homenagem de gratidão e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos princípios do século passado não só no fomento do desporto como também no jornalismo, nomeadamente na fundação do jornal «A Bola», que ainda hoje se publica.
Inspector reformado dos CTT e conceituado jornalista da imprensa diária e regional, Mário Fernando de Oliveira, nasceu em Lisboa, a 26-11-1890 e faleceu na capital a 25-5-1969, com 78 anos de idade. À data do seu falecimento era considerado como o decano dos jornalistas desportivos, tendo ainda a glória de ser um dos últimos sobreviventes que fundaram o “glorioso SLB” – Sport Lisboa e Benfica. A este propósito devo acrescentar que o jornalista, Mário Fernando de Oliveira, era em 1945 o sócio nº 85 do Sport Lisboa e Benfica, cabendo-lhe a honra de ter sido o último plumitivo a fazer uma entrevista a Cosme Damião, publicada na edição nº 11, de 5-3-1945, do jornal «A Bola». Para os benfiquistas a figura de Cosme Damião é quase mítica, pois além de ter sido um dos fundadores do clube, foi também atleta e capitão da equipa, treinador, dirigente e, por fim, jornalista desportivo ao serviço das “águias”.
Praça da Rainha, em Faro, em torno do «Jardim do Ba-
   calhau» realizaram-se as primeiras corridas de bicicletas
Estudou no antigo Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, onde concluiu o curso especial de telégrafos que lhe permitiu, em 1909, ingressar nos C. T. T. como aspirante auxiliar.
Em 1911 veio para Faro desempenhar o cargo de chefe de serviços da secção electrotécnica dos Correios Telégrafos e telefones de Portugal, aqui se demorando até 1916. Durante esse período dedicou-se também ao jornalismo, colaborando não só na imprensa local como ainda em órgãos da capital, enviando daqui notícias sobre diversos assuntos da política, da indústria pesqueira e do desenvolvimento regional. Entre 1912 e 1916 foi colaborador e depois assumidamente redactor de «O Algarve», semanário de Faro, fundado em 1908, que foi o decano da imprensa algarvia. Durante a sua estadia no Algarve dedicou-se à divulgação do desporto – ciclismo, natação e sobretudo do futebol –, tendo-se empenhado na oficialização estatutária dos clubes locais, na composição de torneios regionais e na organização dos meios reguladores da prática desportiva. Nesse âmbito, foi designado como delegado da Associação de Futebol do Algarve para integrar a comissão organizadora do primeiro Campeonato de Portugal.
Praça D. Carlos I, local onde se organizaram os primeiros
desafios de futebol com os alunos do Liceu de Faro
No prosseguimento da sua vida profissional, transferiu-se em 1926 para Lisboa, a fim de assumir a chefia da circunscrição técnica de Lisboa, passando em 1935 a chefe dos serviços telefónicos da capital. Todas as promoções nos C. T. T., foram alcançadas por meio de concurso ou de provas públicas, e sempre com as melhores classificações. Pertenceu ao conselho disciplinar dos C. T. T., e redigiu o primeiro regulamento interno daquele organismo. Foi director da Associação de Classe do Pessoal Maior dos Correios e Telégrafos e redactor do «Boletim» que lhe serviu de órgão público. Foi chefe de serviços de 1.ª classe até que se reformou no quadro de inspectores dos CTT.
Como jornalismo desenvolveu ao longo da vida uma intensa e meritória actividade, sobretudo nos órgãos de informação desportiva. Assim, entre 1916 e 1920 foi colaborador de «O Sport» de Lisboa, e seu director de 1921 a 1924; escreveu assiduamente e com inspirada mordacidade, de 1922 a 1923, no «Cega-Rega», semanário humorístico, dirigido por Raul Neves Reis; foi redactor desportivo, em 1924, de «A Pátria», jornal dirigido pelo Dr. Nuno Simões, distinto intelectual e homem público; foi director de «O Sport Ilustrado» em 1934 e do semanário de critica sociopolítica «Pão, Pão...». Como redactor e colaborador pertenceu aos quadros de «Os Sports» (1925-1931); do «Correio Desportivo» (1926); de «A Bola» (desde 1932); do «Stadium» (1933); do «Sprint» (1934); da «Voz Desportiva», de Coimbra; etc. Colaborou quase até ao fim da vida na secção desportiva do jornal «O Século», etc., etc.
Capa da primeira história do SLB, uma
obra de referência de Mário de Oliveira
Acresce dizer que Mário de Oliveira ocupou ao longo da vida importantes cargos directivos nas Federações Portuguesas de Ciclismo e de Natação. Aliás foi por sua iniciativa que se começaram a realizar as corridas anuais de ciclismo designadas por «Chama da Pátria», que se mantiveram durante a vigência do regime salazarista. como uma festiva expressão popular do desporto nacional. Também ao seu espírito de iniciativa, dedicação e capacidade de trabalho, se ficou a dever organização do I Congresso Nacional de Futebol, realizado em 1938 na capital, comemorando-se dessa forma o 50.º aniversário da introdução do futebol em Portugal.
Como publicista deu à estampa os seguintes títulos: No Forte de Caxias, Lisboa, 1918; O Treino do Nadador, Lisboa, 1934; A Organização Nacional do Futebol e as suas grandes competições nacionais, tese apresentada no I Congresso Nacional de Futebol, realizado em Lisboa, em 1938, por iniciativa do jornal «O Século». No concurso de novelas desportivas, levado a cabo pelo jornal «Os Sports», obteve um dos primeiros prémios pela novela publicada naquele órgão. Como fervoroso adepto benfiquista, publicou de parceria com Rebelo da Silva, seu colega na redacção do «Século», o livro História do Benfica, que obteve largo êxito, sendo hoje quase uma raridade bibliográfica.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Uma figura do Iberismo, cônsul de Espanha em Faro

Panorâmica da antiga doca de Faro na década de vinte
Uma das figuras que permanece ignorada na cultura algarvia e até mesmo nas relações transfronteiriças luso-espanholas, é a de D. Álvaro Seminário, que nos princípios da sua carreira diplomática, precisamente em 1923-1924, exerceu na cidade de Faro as funções de Cônsul de Espanha. Durante essa curta passagem deixou no seio da elite farense um perfume de elegância, de donjuanismo, muito raro e invejável, numa sociedade ronceira e provinciana.
Em todo o caso, deixou sólidas amizades e uma grande admiração entre os mais recatados e ilustres farenses, para não falar já dos corações dardejados pelo traiçoeiro cupido, abandonados à pressa por uma retirada estratégica. 
Jardim Manuel Bivar e praça de táxis de Faro, anos vinte
Elegante e afável no trato, cativava facilmente amizades, até pela sua sólida cultura, aliás demonstrada no livro de memórias e sensações que publicou com o título de «España y Portugal - Incitaciones a una política de acercamiento espiritual», publicado pela famosa editora Espasa-Calpe, em 1940. Nesse livro deu relevo ao amor que sentia pelas duas pátrias que trazia no coração, advogando com sincera convicção a necessidade de estreitamento das relações políticas, económicas e culturais entre os dois países irmãos, dando como exemplo as opiniões de vários outros escritores, que haviam anteriormente sugerido um abatimento das fronteiras físicas em prol duma união intelectual da velha Ibéria. Essa ideia não era nova, pois já havia sido propalada nos anos setenta da centúria de Oitocentos, tendo então entre nós como principais defensores os mais conceituados intelectuais republicanos e socialistas, de entre os quais destaco Antero de Quental, Teófilo Braga, Júlio de Matos e Oliveira Martins.
Capa da obra de Álvaro Seminário
Na sociedade farense dos loucos anos vinte, Álvaro Seminário marcou posição de relevo, não só pela sua admirável educação como também pela sua cativante cavaqueira no Clube Farense, na Havaneza e nos cafés mais concorridos da cidade, onde fazia amigos com extrema facilidade. Pode mesmo dizer-se que foi um dos cônsules espanhóis que mais simpatias soube arrecadar na burguesa cidade de Faro.
Distinto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, não admira que fosse galardoado com numerosas condecorações, de entre as quais assume particular destaque a Comenda da Ordem de Cristo com que o governo português o soube premiar pela leal amizade que dedicou ao nosso país.
Álvaro Seminário Martinez, de seu nome completo, após uma brilhante carreira diplomática, retirou-se da política no pós-guerra, na qualidade de Ministro plenipotenciário de Espanha para a América Latina, vindo a falecer na sua residência em Madrid, a 30-12-1950.
Embora não tivesse ocupado o melhor do seu tempo na escrita, sei que da sua autoria se publicaram ainda os seguintes livros:
Cuadernos de Derecho Consular, 1932; El consul de España en América, 1935; El doctor James Brown Scott y los teólogos españoles de los siglos XVI y XVII, 1946 [conferencia pronunciada por Álvaro Seminario, Ministro Plenipotenciario, director de política de América].

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Movimento demográfico do distrito de Faro em 1906


Os historiadores que gostam de trabalhar as fontes demográficas sabem que os registos paroquiais existentes nas igrejas (os mais antigos depositados nos arquivos históricos do município, do distrito ou da Torre do Tombo), são um incontornável manancial de informação. Não querendo saturar a paciência dos meus leitores, vou deixar aqui um breve apontamento sobre os casamentos, batizados (nascimentos) e óbitos, registados no distrito de Faro desde 1 de janeiro até 30 de junho de 1906.
Casamentos foram no total 860, com a curiosidade dos homens serem 782 solteiros e 78 viúvos, e das mulheres serem 824 solteiras e 36 viúvas. O número de homens que fazem segundas núpcias é o dobro das mulheres. Não há nenhum caso de nubentes em terceiras núpcias. É curioso que 68 dos casamentos foram celebrados entre parentes do 1º e 2º grau, ou seja, 4 foram de tios com sobrinhas e 64 foram de primos com primas, a maioria dos quais oriundos da classe alta ou média alta. Entre os 860 esposos constata-se que só 212 assinaram os termos dos casamentos, e entre as esposas só assinaram 221. Os casamentos revelam que o índice de alfabetização social era muito baixo, sobretudo entre os homens, e nas classes laboriosas. No total percebe-se que 1287 são analfabetos (648 homens e 639 mulheres) sendo que só 433 dos nubentes sabem ler e escrever. Outra curiosidade é que 855 dos esposos são portugueses (a maioria oriundos do Algarve) e 5 são espanhóis, do distrito de Huelva; entre as 860 esposas só uma era espanhola.
Nascimentos foram no total 4209, dos quais 2133 eram masculinos e 2076 femininos. Portanto nasciam mais homens do que mulheres, uma tendência que se mantinha de anos anteriores, e que parecia querer equilibrar o índice demográfico dos géneros, que era largamente favorável às mulheres.
Óbitos foram no total 2298, dos quais 1246 eram homens e 1052 eram mulheres. Por conseguinte, registou-se um crescimento demográfico positivo, pois a diferença entre os nascimentos e os óbitos foi favorável em 1911 indivíduos, dos quais 887 eram meninos e 1024 eram meninas.

Só por curiosidade se acrescenta que o índice da mortalidade infantil era já muito baixo, com uma taxa de sobrevivência acima dos 80% após o primeiro ano de vida. Entre a classe alta e média alta não constam nados-mortos nem falecimentos em trabalho de parto.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Rua de Santo António, em Faro

Rua de St.º António, em 1913
No século XX, sobretudo após a I Guerra Mundial, o centro nevrálgico da cidade de Faro, isto é, o eixo económico urbano, deslocou-se para a zona ribeirinha da comummente designada "baixa de Faro", tendo como palco a nova Rua de Santo António para a qual se transferiram as actividades culturais e o convívio social da burguesia farense.
Na verdade, a Rua de Santo António é a expressão viva de uma nova era - o liberalismo, traduzindo em si mesma os efeitos do reordenamento socioeconómico no urbanismo das cidades. Na verdade, ela reflecte a perpendicularidade social e a fluidez económica do novo regime, cuja praxis política se consubstanciava na democracia. Se analisarmos a urdidura socioeconómica dessa rua, vemos que ali se concentraram as instituições orgânicas do capitalismo (banca, seguros, câmbios e até a bolsa clandestina do Aliança), a par dos clubes de elite e do comércio selectivo (ourivesarias, lojas de vestuário parisiense e londrino, livrarias, sapatarias, chapelarias), a que devemos acrescentar os locais de convívio sociocultural: cafés, salões de chã, teatro e cinema.
A Rua de Santo António era o espelho da modernidade e do progresso. Mas, para os mais antigos, ela era apenas a continuação da mui antiga e tradicional Rua do Rego [actual Rua D. Francisco Gomes do Avelar],, que existia na baixa da cidade desde os longínquos tempos medievais. Os limites da cidade terminavam nessa época praticamente na chamada Horta da Mouraria [entre a actual ourivesaria Miranda e a pontinha que atravessava a ribeira que desembocava na Alagoa], que fechava a antiga Rua do Rego, cuja orientação aponta para na direcção da colina fronteira à cidade, no sopé da qual corre a estrada de Olhão, e em cujo alto se erigiu a ermida de St.º António.
Drogaria Pinto, actual loja de Modas Sayonara, em Faro 
Quando nos meados do século XIX a autarquia decidiu esventrar ao meio a Horta da Mouraria, para abrir uma nova artéria a régua e esquadro, não havia então um nome para se lhe atribuir, ficando sob o baptismo popular de "Rua a Santo António do Alto". Mas, quando em 1895 se comemorou a nível nacional o Centenário de Santo António, a autarquia decidiu homenagear o grande taumaturgo nacional, atribuindo-lhe o nome à artéria mais moderna da cidade, onde já estavam a concentrar-se algumas importantes empresas comerciais e casas de câmbios. A notoriedade da nova rua tornara-se visível a partir do último quartel do séc. XIX, quando algumas famílias da nobreza e da alta burguesia começaram a construir as suas residências na popular Rua a Santo António do Alto, designação pela qual era popularmente conhecida.
Entre as famílias que decidiram assentar arraiais na nova rua, destacava-se a dos Pantojas, a dos Carvalhal de Vasconcelos, e outros. As suas residências nobres, quase apalaçadas, de imponente traço arquitectónico, ainda hoje se distinguem na volumetria original da rua de Stº António.
Rua do Rego, actual D. Francisco Gomes, em Faro
A antiga Horta da Mouraria ocupava quase metade da rua, e, mais ou menos no sítio onde ficava a casa dos rendeiros agrícolas, se encontra hoje todo o complexo arquitectónico do Cine-Teatro Farense.
A Rua de Santo António adquiriu grande notoriedade e indisfarçável proeminência a partir dos finais da década de quarenta do século passado, quando o comércio e as filiais bancárias se transferiram da antiga Rua Direita (actual Rua Manuel Bivar) para a Rua de Santo António. Devido à abertura da nova entrada na cidade, através da actual Rua Teófilo da Trindade, o trânsito automóvel passou a orientar-se na direcção da baixa da cidade, confluindo na Rua de Santo António, como centro nevrálgico da actividade económica da cidade.
Mais tarde, nos anos setenta, a rua de Santo António seria encerrada ao trânsito, cobrindo o seu piso de calçada portuguesa e convertendo o seu traçado original num espaço de circulação pedonal. Foi um sucesso para as actividades mercantis da cidade praticamente até ao encerramento do século XX.
Presentemente, devido ao pagamento de estacionamento na baixa da cidade, assim como à construção fora da cidade de um enorme centro comercial (Fórum Algarve), moderno e espaçoso, onde se pode encontrar diversos tipos de actividades mercantis, e mesmo lúdicas, a Rua de Santo António, assim como a generalidade da cidade, perdeu o seu atractivo natural de espaço de convívio e de referência na vida quotidiana dos cidadãos farenses.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Âncoras de Ossónoba?


Âncoras - No cabo de Palos, em Espanha, apareceram há quase cem anos atrás umas âncoras de chumbo com inscrições gregas e latinas. Uma dessas inscrições gregas referia-se a Júpiter Casio. A circunstância de Ossónoba ter sido rica em estanho, de nas suas moedas aparecerem um navio e peixes, e de em Faro ter sido encontrada uma inscrição consagrada a Júpiter, levou o arqueólogo espanhol, o Rev.º Fidel Fita, a aventar que talvez essa âncora fosse feita em Faro. Leite de Vasconcelos, numa curiosa nota crítica em O Archeologo Portugues, vol. XI, p. 382, rebate a opinião pois nem só nas moedas de Ossónoba aparecem aqueles emblemas, e a inscrição não é de Faro mas de Messines.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filomena Valente Bencici, uma diva do «Scala» de Milão no Teatro Lethes, em Faro

Desta vez não trago para esta tribuna uma mulher algarvia, mas antes uma italiana que deixou no Algarve o perfume da sua graça, da sua majestosa beleza e do seu enorme talento. Foi contralto do «Scala» de Milão, e parece que pontificou com a indelével marca do seu génio artístico o histórico proscénio, no qual partiu corações noites a fio, com o seu belo-canto. Dizem que do seu camarim, irradiava um inebriante perfume, exalado por milhares de flores, abraçadas em bouquets das mais vivas cores, com os quais a presenteavam os seus mais fiéis admiradores. No carmesim do seu canapé beijaram-lhe as níveas mãos muitos artistas e escritores, a maioria deles na plenitude das suas juventudes, mesmo até quando a diva Bencici empapava o rosto em caros unguentos para esconder os sulcos da idade. Fez-se amada, e por certo amou também, aquela que ao Scala de Milão, no último quartel de Oitocentos, chamou ao seu camarim alguns velhos Reis e jovens Príncipes.
Dizia-se que a sua beleza lhe advinha do sangue judio que lhe corria nas veias. E terá sido certamente essa, entre os seus incontáveis atributos artísticos, uma das razões que a trouxeram até ao palco do nosso Teatro Lethes, a pedido, senão mesmo sob o patrocínio, da argentária comunidade judaica aqui sediada. Porém, como o Dr. Bernardino da Silva, ilustre médico e musicólogo, se correspondesse com alguns músicos italianos, que frequentavam e atuavam no «Scala» de Milão, conseguiu que a famosa contralto desse em Olhão o seu primeiro concerto, acompanhada ao piano por Luís Augusto César de Sousa Coelho, tendo a seu lado e à flauta o próprio Dr. Bernardino da Silva. O sucesso foi enorme, mas faltou-lhes uma sala apropriada à dignidade artística da atuação, que assim se quedou pela restrita assistência da burguesia dos serviços e pelos empresários da pesca. Não se pense, porém, que era gente simples e ignara, já que nessa altura pontificava em Olhão uma verdadeira plêiade de intelectuais, artistas e políticos, que haveriam de honrar o nome daquela vila piscatória, e de elevar o do próprio Algarve, às alturas da honra e da nobreza dos seus actos de génio artístico ou de grandeza patriótica.
Foi, pois, na noite de 23 de Março de 1889 que Filomena Valente Bencici, a famosa contralto do «Scala» de Milão, pisaria pela primeira e única vez o palco do Teatro Lethes, em Faro, onde foi acompanhada pela orquestra de Francisco Jacobetty, que nessa altura se encontrava em tournée pelo Algarve. A bela Bencici teve uma noite de estrondoso sucesso, no nosso pequeno «Scala», cujos camarotes se encheram com as famílias notáveis da cidade, numa verdadeira e democrática amalgamação das elites urbanas e empresariais com a classe média dos serviços e do funcionalismo público. A família Cúmano, que explorava e dirigia o Teatro Lethes, cobriu-se mais uma vez com a glória da benemerência e da gratidão pública.

sábado, 24 de abril de 2010

Pascoal Turri, um colaboracionista dos invasores franceses, em Faro


Em boa verdade pouco sei acerca desta curiosa personagem que passou pelo Algarve de forma quase despercebida, se acaso não tivesse sido considerado “persona non grata”, para não dizer traidor, aos olhos daqueles que aqui o acolheram com estima e carinho.
Apesar da neblina que envolve o conhecimento das suas origens, sei que era de origem milanesa, isto é, que teria nascido na cidade de Milão em data que desconheço, mas que deverá ter ocorrido entre 1870 e 1880. O que sei é que como músico serviu em jovem o Regimento de Artilharia n.º 2, em Faro, cidade onde fixou residência e constitui família, consorciando-se, segundo creio, com uma senhora algarvia. Tinha, ao que parece, uma especial predilecção pela cultura francesa, presumo que por na família haverem laços de consanguinidade gaulesa. O que sei é que em Faro se estabeleceu com uma pequena loja de comércio que depressa expandiu para armazém de “secos e molhados” destinados à exportação. Pela sua inteligência e capacidade empresarial conseguiu reunir meios de fortuna muito razoáveis. Consta também que falava com desenvoltura na língua de Molière e que se correspondia com empresários das praças e portos da velha Gália, com os quais mantinha os seus negócios. Também se dizia, com a proverbial tolerância algarvia, que nutria simpatias pela Revolução e pela heróica figura de Napoleão, a quem chamava “o Imperador”. Mas disso nunca houve reflexos de quaisquer gestos de animosidade ou perseguição.
Pelo bom relacionamento estabelecido com os empresários franceses foi, desde 1803, nomeado cônsul da França no Algarve, cuja sede em Faro seria na casa Turri, também oficialmente grafada como Turi. Acontece que por causa do tão propalado Bloqueio Continental que os franceses pretendiam impor às relações comerciais com o Reino Unido, o nosso país se mostrou bastante remisso, em face da sua secular aliança emergente do Tratado de Windsor, dando com isso justificação às chamadas “invasões franceses”. E, como é de todos conhecido, Napoleão encarregou um dos seus mais famosos cabos de guerra – o general Jounot – de entre 1807 e 1808 encabeçar o movimento militar de invasão do território português. Nessa altura, o comerciante Pascoal Turri, rejubilante de alegria, colocou-se de imediato ao serviço das novas autoridades, que em Faro tiveram na figura do militar Maurrin um tolerante apaziguador, a quem só os olhanenses conseguiram tirar do sério, quebrando o hipócrita sossego em que a região se encontrava amorrinhada.
Logo após o 16 de Junho, que nesse glorioso ano de 1808 convulsionou o povo de Olhão contra os ocupantes franceses (e, por contas antigas, também contra os farenses), foi o afrancesado Pascoal Turri procurado na sua residência pela populaça, que em alvoroço pretendia fazer a patriótica justiça de prender, ou até matar, os traidores da lusa pátria. É claro que o Turri conseguiu escapulir-se a tempo de cair nas mãos da turba-multa, sem impedir porém que o mesmo acontecesse aos seus haveres pessoais e materiais, com os quais animava o comércio local. Fugiu então para a cidade de Loulé, onde escapou de vinganças e perfídias, até que, algum tempo decorrido, e pensando que as coisas já tivessem retornado aos eixos da rotina, retomou o caminho para Faro, em cuja cidade foi, porém, recebido a tiro por quem não se esquecera dos seus aleivosos favores prestados aos intrusos franceses.
Escapando com vida ao seus vingativos algozes fugiu para Lisboa, onde lhe perdi o rasto, não sei se por ter mudado de nome, ou se por dali ter partido para outros mundos de que não restam memória.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Apeadeiro do Bom João, em Faro


A construção do apeadeiro ferroviário do Bom João, sito ao km 342,188, iniciou-se nos primeiros dias de Julho de 1950, sob a orientação técnica de um tal eng.º Fonseca, que era o chefe da 16.ª secção de Via e Obras da C.P.
O local escolhido situava-se mesmo em frente do bairro do mesmo nome, nas imediações da fábrica pertencente ao empresário E. Torres Pinto da Silva, que desse apeadeiro poderia tirar o melhor proveito para o transporte da sua produção industrial. A obra constituía em si um notável melhoramento, pois que não só viabilizaria a transformação dos vastos terrenos agrícolas que lhe estavam adjacentes em futuras urbanizações, como também facilitaria aos estudantes do Liceu de Faro um acesso rápido e cómodo por via-férrea. De tal forma assim foi que não tardou em ficar conhecido como o “apeadeiros dos estudantes”.
Actualmente, embora perdesse a serventia para a fábrica Torres Pinto, entretanto encerrada, continua a ser utilizada por outras indústrias limítrofes, pelos moradores do populoso bairro do Bom João e, muito especialmente, pelos estudantes do Liceu João de Deus.
Pouco depois deu-se também início à construção do apeadeiro da Porta do Mar, que permitia o acesso por via-férrea até ao coração da cidade antiga, junto ao quartel de bombeiros, precisamente no antigo cais da lota.
Acresce dizer, para concluir esta nótula, que o apeadeiro do Bom João foi inaugurado no dia 1 de Novembro de 1950.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Compra do Teatro Lethes, em Faro, pela Cruz Vermelha



Os herdeiros de Constantino Cúmano, grande benemérito local, venderam, em Junho de 1951, à sociedade da Cruz Vermelha Portuguesa o magnífico edifício do antigo Teatro Lethes. Segundo constou na época o imóvel foi transaccionado por 350 contos, comprometendo-se a nova entidade proprietária a não alterar a traça arquitectónica do edifício, garantindo ao mesmo tempo o restauro e recuperação do edifício.
O único problema que importava solucionar a breve trecho era o de assegurar a sede do Sport Lisboa e Faro, que ali se encontrava instalado há bastantes anos. Aquela agremiação desportiva tinha aliás grandes tradições, encontrando-se estruturalmente relacionada com a vida social da cidade, comprovada aliás pelos cerca de 800 sócios que mantinha nas suas fileiras. Na altura, muitos foram os cidadãos que clamaram contra a hipótese de desalojamento do popular clube desportivo, o que apesar de tudo veio a acontecer a contento de ambas as entidades, mercê de solução sugerida e apoiada pela edilidade local, transferindo-se a sede para as instalações no largo do Pé da Cruz.

sábado, 26 de setembro de 2009

Museu Marítimo de Faro


Criado por decreto de 4-1-1889, referendado pelo Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Emídio Júlio de Navarro, o Museu Industrial Marítimo de Faro, como então se designava, abriu as suas portas ao público em 24 de Novembro de 1889.
Esteve primeiramente instalado numas pequenas salas anexas ao antigo edifício da Escola Industrial e Comercial, próximo da Câmara de Faro. Mas como urgia expandir as instalações da Escola foi o espólio museológico transferido para uma velha casa na rua da Carreira, onde não servia os fins para que fora criado. Assim, acabaria por ser remetido para as magníficas salas do Palácio Pantojas, na rua de St.º António, onde hoje se acha o Clube Farense. Mas como aquele Clube precisasse de restaurar e remodelar as suas instalações foram novamente em bolandas as colecções do Museu Marítimo para as exíguas dependências da Escola de Alunos Marinheiros. Neste périplo muitas coisas desapareceram e outras se degradaram de forma quase irremediável, a ponto de haverem perdido muito do seu valor e de reduzirem toda a sua importância e interesse cultural.
Foi nestas condições, de abandono e esquecimento, que o foi desencantar o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que dedicou o melhor do seu esforço à recuperação das peças mais degradadas, restaurando umas, substituindo outras e acrescentando-lhe imensos artefactos da nossa secular actividade marítima. Felizmente, nesse insano trabalho de recuperação do antigo espólio do Museu Marítimo de Faro, pode contar com a boa vontade de alguns camaradas de armas e de outros cidadãos de boa vontade, nomeadamente o pintor Carlos Augusto Lyster Franco que o ajudou a restaurar muitas peças e principalmente lhe ofereceu vários quadros sobre a fauna marítima, que hoje decoram as paredes das actuais e aprazíveis instalações do Museu.
Em sinal de reconhecimento pelo seu esforço e pela inimitável dedicação prestada ao restauro e melhoramento do antigo espólio, foi com inteira justiça atribuído o seu nome ao renovado Museu Marítimo de Faro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Professores do Liceu de Faro em 1932



Numa notícia publicada na imprensa local, ficamos a saber que no final do ano lectivo de 1932, realizou-se um almoço de confraternização dos professores do Liceu de Faro, servido na cantina daquele estabelecimento de ensino. Do elenco docente constavam as seguintes personalidades:
Dulce de Freitas; Ofelia Azinheira; Donatila Baptista; José Monteiro Simões; António de Sousa Agostinho Júnior; Armando Cassiano; Jorge Silvio Pélico d’Oliveira Neto; David Pacheco; Aleixo da Cunha; Sousa Bazílio; Cruz Malpique; António Rebelo Neves; Silva Pera; Manuel Alexandre; Francisco Fernandes Lopes; António dos Ramos Bentes; tenente-coronel José Guerreiro Fogaça; José Rebelo Neves; Vidal Belmarço; Ricardo Bensaúde; José de Sousa Gago.
Faltou por indisposição momentânea o Reitor, Dr. José Júlio Rodrigues, que só apareceu no fim do almoço, e faltou por doença o Dr. Silveira Ramos.
Para quem viveu nessa época, e felizmente ainda hoje contacta com a sociedade mais culta da cidade de Faro, ou para aqueles que conhecem minimamente a história da cultura algarvia, fácil se torna afirmar, e concluir, que no Liceu de Faro exerciam o múnus da docência uma verdadeira elite intelectual, que hoje facilmente se constituiria num escol científico do mais elevado nível universitário.
Os destaques deixámo-los para os que nos queiram interpelar sobre o assunto.

domingo, 6 de setembro de 2009

Esplanada de São Luís Parque, em Faro

Inaugurou-se em Faro no dia 1 de Julho de 1950 a esplanada “S. Luís Parque” mandada construir pela empresa do Cine-Teatro Farense, dotando assim a cidade de um espaço destinado privilegiado para a realização de espectáculos durante a temporada de verão, que decorria entre meados de Junho e finais de Setembro.
A localização, a extensão e comodidade do recinto permitiu às autoridades competentes na matéria qualificá-la como a melhor do país, tendo em consideração que reúne os meios necessários para a realização de todo o tipo de espectáculos, desde a projecção de cinema, a representação de peças de teatro, espectáculos desportivos (boxe, por exemplo) récitas estudantis, espectáculos de variedades, festivais de folclore, bailes, festas dos santos populares, etc. Em suma, previa-se que assumisse um papel fulcral nas actividades culturais e recreativas da cidade durante a época de verão, numa altura em que a indústria do turismo começava a dar os primeiros passos.
Para a festa da inauguração, realizada a 1 e 2 de Julho de 1950, organizou-se um programa festivo no qual tomaram parte a orquestra dirigida pelo maestro Fernando de Carvalho, as artistas Júlia Barroso (algarvia muito conhecida e apreciada), José António, Maria do Carmo, Maria Pazzo, Graciette Melo e Rui de Mascarenhas, num misto de fados e canções, tão do agrado popular. Para apresentar os artistas, animar o público e quebrar a saturação musical, actuaram também dois grandes artistas da rádio e conhecidos comediantes do teatro de revista, Humberto Madeira e Miguel Simões, que depois de fazerem algumas burlescas imitações de figuras populares, procederam a um hilariante “sketch” composto em verso, entre o “sr. Lucas e o Dr. Matias”, no qual retratavam num finíssimo humor negro algumas das mais conhecidas figuras da região. Os artistas eram acompanhados com solos de viola executados por Alfredo Costa. A noite encerrou com um animado baile.
O cinema em si só foi inaugurado a 3 e 4 de Julho com a projecção do célebre filme Joana d’Arc, interpretada pela consagrada artista Ingrid Bergman, que teve casa cheia, numa agradável noite, de amena temperatura, quase tropical.
Creio que, infelizmente, os nomes dos artistas aqui citados já não fazem parte do mundo dos vivos. Também infelizmente já não existe a magnífica esplanada de Faro, onde nos finais dos anos setenta ainda cheguei a ver algumas fitas, que por serem reprises tinham a plateia quase deserta. Também ali ouvi Júlio Iglésias num espectáculo memorável e também por ali passaram vários artistas da nossa moderna canção.
Esta pequena nota serve para avivar a memória dos farenses que na antiga esplanada viveram momentos de prazer e de felicidade, lamentando que no mamaracho denominado “Alhandra”, implantado naquele espaço, não exista um pequeno estúdio de cinema com o nome de “S. Luís Parque”.
José Carlos Vilhena Mesquita

domingo, 23 de agosto de 2009

A chegada do Comboio a Faro

Já aqui falamos da inauguração do caminho de ferro em Faro. Mas convém acrescentar que o primeiro comboio que percorreu toda a linha entre Lisboa e Faro, só chegou aqui depois de concluída a ponte metálica dos Moratos. Por conseguinte, foi so no dia 21 de Fevereiro de 1889, às 11 horas da manhã, que chegou finalmente a Faro o “progresso”.

Na ocasião de tão memorável acontecimento histórico, fizeram-se grandes festejos e outras manifestações de júbilo popular, cabendo as honras do grande melhoramento ao ilustre Conselheiro Luiz de Bivar, que muito se empenhou junto do governo para a concretização desse desiderato.
Já agora, acrescente-se que trabalhou afincadamente na Ponte dos Moratos, um engenheiro belga chamado Maurice Saint Palais, que era chefe de serviços na Sociedade Internacional de Braine le Comte, da Bélgica, o qual partiu depois para o norte do país onde construiu mais 18 pontes de notável importância para a implantação do caminho de ferro em Portugal.

sábado, 22 de agosto de 2009

Inauguração do Comboio em Faro

Foi a 21 de Fevereiro de 1889 que chegou a Faro o primeiro comboio. Era apenas uma viagem experimental, pelo que se compunha de pesados vagões de mercadorias, para testar a segurança da linha, que se encontrava em obras havia mais de vinte anos. Isso deveu-se ao facto de nesse tempo, e particularmente nessas duas décadas, ocorrerem momentos difíceis e até de algum dramatismo para a sobrevivência económica das regiões do Alentejo e Algarve, assoladas por secas, carestia de vida, desemprego e fome quase generalizada. A construção da linha de caminho de ferro foi uma forma de ocupação de mão-de-obra, mesmo que os carris tivessem de ser de madeira pitada de bronze para simular a linha original, que os ingleses vinham fiscalizar de forma descuidada. A frase “para inglês ver” tem aqui a sua origem.
Como então tudo se fazia de forma muito lenta, agravada pelas várias polémicas sobre o seu traçado (lembre-se o caso de Serpa e de Loulé), só mesmo nos últimos três anos é que a linha foi efectivamente montada desde Lisboa até Faro. Mas isso são contas doutro rosário, que não interessa aqui contar.
Depois daquela viagem experimental, importa frisar que foi a 1-7-1889 que chegou o primeiro comboio de passageiros a Faro. Nessa viagem inaugural chegava a Faro pela primeira vez o Dr. Ludovico de Menezes, conceituado veterinário e notável escritor a quem o Algarve muito deve. Extractamos de uma carta sua uma breve passagem em que descreve essa primeira viagem:
“Confirmo que foi precisamente num primeiro comboio, que eu, em 1 de Julho de 1889, desembarquei em Faro, estando a estação e cercanias repletas de povo que fora assistir ao feliz espectáculo da chegada.
Ao desembarque, um moço que tomou conta da minha mala, levou-me ao Hotel Nicola, através de ruas embandeiradas e janelas floridas de ranchos e damas em “toilettes” alegres e claras, abrigando-se do ardor daquele quente sol de Julho sob o pálio das papoilas floridas das suas umbelas. Ali me destinaram um exíguo quarto de segundo andar, escassamente mobilado e ali adormeci até vir o criado avisar-me que eram horas de jantar.
Nesse dia ao entardecer e depois do jantar, fui tomar lugar entre os cavaqueadores que discutiam alegremente o festivo acontecimento à porta da Havaneza, onde no interior, a dentro do balcão, pontificava António Tavares, seu proprietário, auxiliado por um rapaz de Albufeira, de nome Eduardo, se bem me lembro...”

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Largo da Palmeira, em Faro


Por razões de alargamento da rua que circunda a actual Praça Ferreira de Almeida, em Faro, foi a majestosa palmeira, que lhe dava a designação popular, abatida em finais de Fevereiro de 1950. Resistiu ao tempo e às agressões humanas durante meio século, pois fora mandada plantar em 1900 pelo então presidente da edilidade, Prof. João Rodrigues Aragão, docente no Liceu (cujas instalações ficavam na Rua do Município, onde é hoje a Polícia Judiciária) que foi uma das figuras mais conhecidas do seu tempo, pela sua vaidade e jactância politiqueira. Como era muito enfatuado e até arrogante, o povo chamava-lhe D. Pavão, havendo logo quem o criticasse pela ideia da palmeira com a seguinte quadra:

Dom Pavão aqui plantou
Neste largo uma palmeira,
Diz o povo que passou:
Ai Jesus, que grande asneira!

Permaneceu ali, altiva e esbelta meio século, embasada num plinto de pedra, com uma peanha à volta, para na sua sombra se reunir o concílio dos velhos do Restelo, que era um grupo de cidadãos idosos, com um certo prestígio social, que se divertiam a criticar as inovações e modernices das novas gerações.
As raízes da palmeira eram tão profundas que as chuvadas foram cavando na profundidade uma espécie de galeria que os miúdos aproveitavam para nela brincarem às escondidas. Disso se recordava com extrema saudade o Prof. Doutor Adelino da Palma Carlos quando lhe perguntei, uma vez em Lisboa, se ainda se lembrava da sua terra natal, ao que ele me retorquiu com a narração de um episódio da sua meninice passado no Largo da Palmeira, cujas raízes escavaram uma lúgubre e profunda galeria, no interior da qual os miúdos costumavam guardar o arsenal bélico das suas brincadeiras.
A Palmeira estava então situada no mesmo lugar onde hoje se encontra um quiosque, no extremo sul do largo.
Recentemente a edilidade mandou reimplantar naquele largo uma Palmeira, que embora não tendo ficado exactamente no mesmo lugar, conseguiu dar àquele recinto uma justificação para a sua designação popular, reconstituindo um espaço social aprazível e um enquadramento urbano esteticamente acolhedor.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Museu Almirante Ramalho Ortigão, em Faro

O antigo Museu Marítimo de Faro passou a designar-se oficialmente Museu Marítimo do Almirante Ramalho Ortigão em finais de Julho de 1946, devendo-se a proposta de alteração da sua denominação ao capitão de fragata Pedro Raimundo de Magalhães, que na altura desempenhava as funções de capitão do Porto de Faro.
Esta proposta teve duas intenções, ambas bastante louváveis. A primeira foi a de perpetuar o prestígio militar do contra-almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, dias antes da sua passagem à situação de reforma por limite de idade, ocorrida a 5-8-1946, deixando também a partir dessa data as altas funções de presidente do Supremo Tribunal de Justiça Militar.
A segunda intenção foi a de homenagear a brilhante carreira de oficial da marinha, com uma invejável folha de serviços prestados à nação.
Acima de tudo isso, fica o reconhecimento da sua dedicação a Faro, onde como no exercício das funções de Chefe do Departamento Marítimo do Sul salvou o espólio artístico e técnico existente no museu daquela instituição militar, o qual se encontrava praticamente ao abandono, num estado arruinado, verdadeiramente decrépito e confrangedor. Ao seu esforço, dedicação e sacrifico se ficou devendo, pois, a recuperação, transformação e reordenamento daquela unidade museológica. À sua perseverança e amor pela cultura, ficou a terra natal, e o próprio país, devedor do restabelecimento de um valioso espólio patrimonial, artístico e científico, depositado num dos museus marítimos de maior interesse nacional.
Quanto à riqueza e variedade das peças expostas, recomendamos os leitores do nosso blog a fazer-lhe uma visita, ciente de que irá ter grandes e agradáveis surpresas.

J.C.V.M.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Hotel Aliança, futuro Hotel Faro


Abriu ao público, a 1 de Março de 1946, o Hotel Aliança, construído por José Pedro da Silva, um empresário a quem o turismo algarvio e a cidade de Faro muito devem.
O edifício estava concluído desde há alguns anos atrás, mas razões que desconhecemos protelaram a sua inauguração e abertura ao público.
A cidade de Faro, passou assim a dispor de um novo e moderno equipamento hoteleiro para fazer face às solicitações dos visitantes estrangeiros, que enfastiados com as deficientes condições de alojamento que lhes eram propostas demandavam o barlavento, nomeadamente a Praia da Rocha, quando não partiam imediatamente para Espanha.
O Hotel Aliança, que mais tarde se viria a designar por Hotel Faro, dispunha de 36 quartos, com luz eléctrica, casas de banho privativa, águas quentes e frias, mobilados com requinte e comodidade. A gerência do mesmo foi entregue ao Sr. Domingos dos Santos Gomes, um técnico bastante experimentado em hotelaria.
No acto da inauguração foi servido um “Porto de Honra” aos convidados e ás autoridades sediadas na cidade, tendo como ponto alto um espectáculo apresentado pela Tuna Académica de Coimbra, especialmente convidada para o efeito.
O autor do projecto de construção do edifício do Hotel Aliança foi da autoria do Eng.º Sena Lino, sendo adjudicada a construção do mesmo à empresa Soromenho & Rosa.
O acto público de inauguração do edifício foi presidido pelo Governador Civil, Dr. Antero Cabral, que num brilhante discurso frisou que a partir daquele momento já se podia falar em Turismo na cidade de Faro, facto que em larga medida se ficava devendo ao investimento do farense José Pedro da Silva, proprietário do café Aliança e da mercearia do mesmo nome num conjunto de edifícios que ainda hoje existe, com ligeiras alterações arquitectónicas, nomeadamente no próprio hotel, de duvidoso gosto artístico.

J.C.V.M.

Salão e Café ALIANÇA, em Faro


Inaugurou-se a 19-10-1930 o “Salão Aliança” propriedade de José Pedro da Silva, o qual ficou equipado com três bilhares do mais moderno que existe, cuja decoração e equipamento preenche os mais elevados padrões ao nível do que melhor existe em Lisboa.
Em 12-6-1932 inauguraram-se as novas instalações do Café Aliança que davam para a Rua D. Francisco Gomes, nos moldes e aparência que ainda hoje ostenta. A remodelação e ampliação da antiga e modesta «Leitaria Aliança», ficou a dever-se ao moderno espírito de iniciativa empresarial de José Pedro da Silva, que desse modo passou a ser visto pela sociedade farense como um verdadeiro benemérito, pois que ao contrário dos ronceiros empresários locais, acreditava nas potencialidades da cidade, investindo avultados meios financeiros para transformar aquele humilde estabelecimento num amplo e bem iluminado café, ao nível dos melhores de Lisboa.
Data dessa altura a construção da sua monumental porta giratória, inspirada nos melhores estabelecimentos franceses, merecendo igual surpresa a amplitude das instalações, os modernos bilhares da sala de jogo, o seu excelente mobiliário, o bom gosto da decoração das paredes, a exuberante refulgência dos seus espelhos e sobretudo o artístico friso de fotografias da autoria de Zambrano Gomes, verdadeira galeria de propaganda das potencialidades turísticas do Algarve.

J.C.V.M.

Penicilina aplicada pela primeira vez em Faro

Foi o Dr. Arnaldo de Vilhena quem pela primeira vez aplicou a penicilina no Hospital de Faro, em 4-10-1944. Tudo se ficou a dever aos conhecimentos médicos daquele clínico que perante uma urgência não se coibiu de aplicar, ainda que experimentalmente a nova droga. Com efeito, dera entrada no Hospital da Misericórdia de Faro um trabalhador de nome Manuel Rosa Benedito, morador no sítio do Patacão, que sofrendo de um antraz ali deu entrada de urgência. O caso alarmou o corpo clínico porque se agravava progressivamente numa infecção geral que punha a sua vida em perigo. O director clínico do Hospital, Dr. Arnaldo Vilhena, receando o pior, telegrafou para a Cruz Vermelha em Lisboa a fim de lhe enviarem algumas ampolas de penicilina. Aquela instituição de assistência, enviou pelo comboio correio dessa noite duas ampolas de 2.000 unidades de penicilina que foram administradas ao doente na manhã do dia 4 de Outubro de 1944, em sucessivas e graduais pequenas doses, notando imediatas melhoras no paciente, cuja temperatura no dia 8 de Outubro era já estável, debelando-se assim a infecção que parecia mortal. A partir de então, e perante a demonstração da sua eficiência, passou a administrar-se a penicilina aos doentes com infecções perigosas.