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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

O ensino secundário em Faro no século XIX

 Perguntou-me um aluno como era o ensino secundário em Faro no século XIX. Respondi-lhe que se trata de um assunto algo delicado, porque temos tendência a encará-lo com os olhos e o pensamento actual. Na verdade, não são comparáveis, devido à diferença como se organizava a sociedade e a ordem política. Todavia, é bem certo que a falta de equipamentos escolares e de coordenação entre os diversos níveis de ensino, não facilitaram o acesso e muito menos o prosseguimento do ensino primário para o ensino secundário, encontrando-se nessa circunstância a razão que melhor explica o atraso cultural e o bloqueio socioeconómico da região algarvia nos últimos duzentos anos. A educação até quase aos nossos dias consistia em combater o analfabetismo, pelo que a formação de charneira ao ensino universitário foi descurada até aos anos cinquenta do século XX. O ensino da matemática, é um caso de confrangedor atraso nacional, por ter sido sempre descurado pelo poder central. É essa quanto a mim, uma das razões principais do nosso atraso científico e da nossa falência educativa, em face dos nossos parceiros europeus. Desde o estabelecimento do ensino jesuítico e da implantação da Inquisição, que sempre neste país se deu primazia ao Latim e aos estudos clássicos, em detrimento da Matemática, do experimentalismo (madre das coisas, como dizia Duarte Pacheco Pereira) e da ciência em geral.
Até à implantação definitiva do liberalismo em Portugal, o ensino não era propriamente uma obrigação do Estado. Todavia, antes disso, o Marquês de Pombal criou uma rede de escolas primárias que abarcava todo o país. Eram as chamadas escolas de “aprender a ler, escrever e contar” que, desde então, passaram para a responsabilidade e encargo das autarquias. A maioria delas, sobretudo nas aldeias pobres do interior, encerraram poucos anos depois, reabrindo mais de dois séculos depois, já no tempo da ditadura.
Por isso, o ensino não constituía um encargo público, a não ser o primário, cabendo tradicionalmente à Igreja, ou aos quartéis, a difusão de um ensino mais elevado, e especializado no caso dos militares. Digamos que até à revolução setembrista, em 1836, e ao governo de Passos Manuel, o aparelho educativo encontrava-se desorganizado, desarticulado, e pouco eficiente. Nos conselhos do interior, não existia “a casa da escola”, improvisando-se as instalações paroquiais para esse efeito, e só abriam portas caso houvesse a disponibilidade de um professor, o que era raro. Devemos aos nossos emigrantes no Brasil o benemérito financiamento da construção de escolas destinadas a resgatar do analfabetismo os seus pobres conterrâneos. Nas Beiras, em Trás-os-Montes e, sobretudo, no Minho, conheço dezenas de escolas construídas pelos brasileiros de torna-viagem, verdadeiros mecenas do ensino e da cultura lusíada.

Antiga escola construída em Lagos no âmbito do legado do Conde de Ferreira, para a educação das crianças. Este edifício apresenta uma lápide com a data da sua inauguração, 24 de Março de 1866. Actualmente encontra-se ali instalada a Sociedade Filarmónica Lacobrigense, onde estudam música dezenas de crianças daquela cidade.

Aqui no Algarve, porém, não conheço exemplos semelhantes, a não ser do portuense Conde de Ferreira, que legou a fortuna amealhada para a construção de 90 escolas para os pobres de todo o país. Dessas 90 escolas ainda subsistem 70 edifícios, que conservam a traça original, adaptados a outros fins, geralmente de carácter cultural e educativo. No Algarve só conheci duas escolas, a de Lagos (actual sede da Filarmónica Lacobrigense) e a de Loulé, recentemente demolida.

Postal antigo de Lagos, onde se vê (à esquerda) a antiga escola primária construída com o legado do Conde de Ferreira.  É o mesmo edifício da foto anterior.

No domínio do ensino, a que chamamos hoje secundário, e que no século XIX chamavam preparatório, porque dava acesso à universidade de Coimbra, única existente no país, existiam até ao início da década de 1840, isto é antes da criação do Liceu de Faro (oficialmente instituído em 1851, mas que funcionava a título experimental desde 1846, numas instalações próprias pertencentes ao seminário episcopal), as seguintes “aulas” ou disciplinas, que habilitavam os alunos ao ensino universitário: uma aula de Retórica e outra de Filosofia, ambas em Faro; nove de Latim na cidades e principais vilas. Era tudo o que oficialmente existia. Ora, para entrar na universidade os alunos precisavam de apresentar as suas “habilitações”, isto é, os comprovativos dos seus estudos preparatórios em Latim e Grego, Gramática, Retórica, Filosofia, Aritmética e Geometria, Geografia e História. O aluno só precisava de atestar o seu bom aproveitamento em apenas cinco destas disciplinas preparatórias, sendo que a maioria dos rapazes ao entrar em Coimbra jurava ter frequentado Gramática, Retórica e Filosofia. As outras duas já constituíam uma pré-especialização na vida escolar dos jovens universitários. Segundo os Estatutos da Universidade, o aluno podia matricular-se com a idade mínima de 16 anos, à excepção das Faculdades de Matemática e de Filosofia, cuja fasquia baixava para os 14 anos.
Já que apontei o início da década de quarenta, período marcado pelo Cabralismo, acrescento que o Algarve (já desprovido dos colégios dos jesuítas de Portimão e de Faro, cujos alunos se habilitavam directamente às universidades de Coimbra e de Évora, antes da sua extinção em 1759 por Pombal), apenas possuía 24 escolas de primeiras letras, sediadas nas cidades e vilas, assim como em algumas aldeias, alfabeticamente assim discriminadas: Algoz, Alte, Alvor, Esto, Estombar, Paderne, São Bartolomeu de Messines e São Brás (de Alportel, concelho de Faro) Oficialmente existam também duas escolas femininas de primeiras letras, em Lagos e em Faro, ao que parece ambas pouco frequentadas e com diminutos resultados práticos. No fundo, o aproveitamento geral em todas estas escolas era apontado como escasso e irregular, com parcos equipamentos e reduzida frequência. A razão que as entidades locais, sobretudo autárquicas, apontavam para o insucesso do aparelho educativo era a má remuneração pelo Estado dos professores, que não só auferiam pouco como tinham os seus vencimentos atrasados por longas temporadas. As escolas, como base essencial do progresso, eram no Algarve não só escassas, como eram também improvisadas, desconfortáveis e desprovidas de quaisquer apetrechos didácticos – recursos que tinham de ser providos pela boa vontade e dedicação dos próprios professores. Ora faltando-lhes uma remuneração compatível com a sua função, e nem sequer prestada a tempo e horas, não admira que os professores se sentissem desmotivados, a ponto de abandonarem a escola e o cumprimento das suas funções profissionais.
Planta do castelo de Faro, cuja traça original e os panos de muralha ainda se conservam na íntegralidade histórica. Trata-se de um documento importantíssimo para o estudo da cidade, e para o conhecimento da composição urbana do seu casco histórico.

A única “aula” de Matemática existente no Algarve, funcionava no Regimento de Artilharia de Faro, onde desde há muitas décadas funcionava uma escola especializada no cálculo matemático e na geométrica, destinada em exclusivo à instrução militar. Nela haviam recebido os preciosos ensinamentos da sua especialidade dezenas de jovens, que se distinguiram por todo o país. Nessa escola de matemática dos artilheiros de Faro ensinou, no séc XVIII, o célebre Coronel Theodozio da Silva Rebocho, cujos discípulos tiveram altas classificações, tendo alguns deles feito exame de admissão à Academia da Marinha, onde entraram facilmente e com distinção.
Edifício do Paço Episcopal de Faro, e ao seu lado direito o palacete onde se instalou a Câmara Municipal. Para o lado esquerdo do Paço encontra-se o edifício do antigo Seminário de São José, onde funcionou provisoriamente o primeiro Liceu de Faro em 1846 até 1849, passando depois para outras instalações na Rua do Município. Na foto, vê-se os antigos estudantes do Liceu, trajados com capa e batina, privilégio que lhes foi concedido pelos camaradas da Universidade de Coimbra.
Dessa plêiade de instruendos da escola de Faro merece que aqui se preste o devido destaque à memória do lente da aula do Regimento de Tavira, o brigadeiro do corpo de engenheiros, José Sande de Vasconcellos, e os seus discípulos, João Stuart, Domingos António de Castro, Jacinto Alexandre, José Justino Henrique e Francisco Xavier dos Reis, os quais compunham a equipa que elaborou as primorosas colecções de plantas das praças e fortalezas da costa do Algarve, que se encontram depositadas na Biblioteca Nacional e no Arquivo Histórico da Marinha.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A população do Algarve entre o Cabralismo e a Regeneração (1842-1852)


Ilustração sobre a «Maria da Fonte», revolta popular
contra os «Cabrais»,originou a guerra-civil da Patuleia.
No «Diário do Governo», de 29-3-1842, publicou-se em dois cadernos diferentes (pp. 481-487 e 493-503) uma estatística do número de fogos de todos os concelhos do continente e ilhas. É uma fonte de profícua consulta para o estudo da demografia, mas também para o conhecimento da geografia socioeconómica do nosso país.
Através dessas tabelas demográficas ficamos a saber que o Algarve tinha nesse ano, marcado pela ascensão política do Cabralismo ao poder, um total de 33071 fogos, o que admitindo uma ocupação média de 4 habitantes por fogo, temos uma população algarvia presumivelmente avaliada em 132.284 pessoas.
António Bernardo da Costa Cabral
(1803-1889), popularmente designado
 por Costa Cabral, foi deputado e Par do
 Reino, conselheiro de Estado, ministro
 da Justiça e ministro do Reino,
 presidente do Conselho de Ministros. 
Em 1847, o mesmo «Diário de Governo», nº 192, de 16-8-1847, publicou uma nova relação nacional dos fogos por concelho, através da qual se nota uma ligeira subida da população algarvia. Assim, para o Algarve mencionava-se um total de 34829 fogos, o que, usando a mesma taxa de ocupação por fogo, dá uma hipotética população total de 139.316 pessoas.
Em 1852, o número de fogos registados no Algarve foi de 38643, do que poderá resultar um total aproximado de 154.572 habitantes. A relação do número de fogos atribuídos a cada um dos concelhos algarvios encontra-se publicada no «Diário do Governo», nº 238 de 8-10-1856, a pp. 1459 e seguintes. Não vou agora destacar aqui qualquer concelho em especial, no entanto, em todas as relações demográficas ressalta o concelho de Loulé como o mais populoso do Algarve.
O crescimento populacional no Algarve, foi de aproximadamente doze mil habitantes, na década entre 1842 e 1852, período cronológico que medeia entre o Cabralismo e o início da Regeneração. O progresso demográfico não foi tão significativo quanto desejável por causa das contrariedades políticas que afectaram o desenvolvimento económico do país, nomeadamente a guerra-civil da Patuleia, entre 1846-47, que teve no Algarve um dos seus palcos estratégicos, já que aqui desembarcaram as tropas de Sá da Bandeira, cujo heroísmo militar foi decisivo para o desfecho desse funesto conflito, entre Cartistas e Setembristas.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Soneto do poeta Marcos Algarve, dedicado ao Presidente Manuel Teixeira Gomes

Quadro pintado por Columbano, existente
no Museu da Presidência da República
Quando o nosso embaixador em Londres, Manuel Teixeira Gomes - já então um reputado escritor e um intelectual muito apreciado nos mais cultos areópagos europeus - aceitou o convite de Afonso Costa, e o apoio do Partido Democrático, para assumir a presidência da República, em 5 de Outubro de 1923, o país vivia momentos de instabilidade política e de grande indecisão sobre o futuro do próprio regime. O país vivia debaixo de uma enorme insegurança, com greves constantes, com atentados terroristas à bomba nas ruas de Lisboa, levantamentos militares nos quartéis e governos que se sucediam mais rápidos do que as estações do ano. Pior do que isso eram os escândalos políticos de corrupção e de compadrio partidário, que foram desacreditando o regime.
A eleição de Manuel Teixeira Gomes, tornara-se numa réstia de esperança para a sobrevivência da República, que se unia em torno de um "príncipe árabe vestido em Londres". Não foi o último presidente, mas foi o primeiro a profetizar junto do seu Ministro da Guerra, Óscar Carmona e do seu conterrâneo Mendes Cabeçadas, que a moribunda República lhes haveria de cair nas mãos, para mergulhar numa inexorável ditadura.
Teixeira Gomes, ao lado de Afonso Costa, a
bordo do navio inglês que, por ordem de S.M.B,
 o transportou oficialmente a Lisboa

Não vou referir-me a esses factos, mas tão só a um soneto que o poeta Marcos Algarve (pseudónimo de Francisco Marques da Luz, natural de Olhão, jornalista republicano e maçom) escreveu em homenagem a Manuel Teixeira Gomes, no dia 5 de Outubro de 1923, quando este se alcandorou à mais alta magistratura da nação portuguesa.


O Presidente da República
O requintado Artista das viagens,
O Cellini da prosa facetada
O caminheiro da alma enamorada
E de olhos embebidos nas paisagens

Sobe hoje ao Capitólio das miragens
Onde a Arte soberana, enclausurada,
Chama por ele, tímida e magoada,
E pede-lhe o recorte das Imagens!...

A mão, porém, do Chefe e dos Artistas,
No mesmo impulso arrebatado e frio,
Fará que a Pátria aos vendavais resista…

Coragem!... Vão ao leme do Navio
Os glóbulos do sangue fantasista
Dum coração brioso de Algarvio!

Marcos Algarve

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Folheto turístico de Vila do Bispo-Sagres, para a Exposição dos Centenários em 1940

Folheto turístico, anos 40?, sobre Vila do Bispo-Sagres

Entre os meus papéis velhos, fui encontrar aquilo que presumo ser um dos primeiros folhetos promocionais de turismo relacionados com a quase ignorada Vila do Bispo. Trata-se de uma folha, impressa dos dois lados a uma só cor, nas dimensões 23x33 cm, cujo tamanho nas tipografias antigas se designava por C4. Usava-se para diversos fins, geralmente para imprimir pequenos cartazes de publicidade, mas também como folhas volantes dos teatros e cinemas. Quando passaram a imprimir-se em três colunas, para facilitar a leitura e a inserção das imagens, houve quem se lembrasse de dobrar a folha em três partes, para a transformar numa espécie de tríptico informativo. Nasceram assim os desdobráveis, primeiro para fins religiosos destinados a divulgar as festividades e romarias, depois para fins educativos, informativos e turísticos. 
Folheto, verso, destaca o Infante
 Pela grafia do texto vê-se que respeita o acordo ortográfico de 1945, devendo datar, seguramente, da década de quarenta. Apresenta-se impresso em azul, com dez gravuras, em papel de razoável qualidade. O texto é curto, segue com rigor os factos históricos ligados ao Promontório de Sagres e à epopeia dos Descobrimentos Portugueses. Presumo que esta folha, possível desdobrável de propaganda turística, tenha sido editada na voragem das Comemorações dos Centenários de 1940, para ser distribuída no decurso da grande Exposição do Mundo Português. No âmbito dessas mesmas comemorações, realizou-se em Faro um grandioso certame, que decorreu em 1940 no Largo de S. Francisco, destinado a realçar o decisivo papel desempenhado pelo Algarve no arranque e no consequente sucesso dos descobrimentos henriquinos. E, certamente, durante esse magnífico evento de exaltação patriótica, que teve como Comissário Geral o pintor Carlos Porfírio, e como Presidente da Comissão Executiva o Dr. Júlio Dantas, estou certo que esta folha de propaganda turística foi também oferecida aos visitantes da grande exposição do Algarve.
Pórtico da Exposição dos Centenários em Faro, 1940
Resumindo e concluindo… esta folha é uma peça documental de raro interesse para o estudo do turismo, e da sua propaganda institucional no Algarve. Não está datada, nem o texto nela inserido tem indicação de autor. Algumas das fotos que ilustram esta folha de propaganda – talvez destinada a ser um hipotético desdobrável turístico – estão assinadas por Carmo, um fotógrafo profissional que fez vários trabalhos para o SPN (Secretariado de Propaganda Nacional). O texto da face interior diz respeito a Vila do Bispo, é mais curto e incisivo que o da face exterior, respeitante ao mítico promontório de Sagres. Estão ambos muito bem escritos, quer no rigor histórico, quer no estilo literário, sendo de realçar a mensagem que se pretende estabelecer entre o paralelismo do ambiente e a majestosidade da penedia, entre a grandiosidade do mar e a vastidão do desconhecido, tentando confluir nessa atracção mística a razão justificativa dos descobrimentos marítimos. A figura tutelar do Infante D. Henrique, cognominado o Navegador, apresenta-se pela máquina da propaganda aos olhos do mundo como o herói da epopeia dos Descobrimentos, da diáspora lusíada e da portugalidade, através da língua de Camões falada por 200 milhões de pessoas espalhadas pelos cinco continentes, em cujos mares e portos acostaram e se disseminaram os genes e a cultura deste bravo e corajoso povo, que hoje é apenas uma referência residual na história da humanidade.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Algarve na opinião alheia


Muito se tem escrito ao longo dos tempos sobre o Algarve. Não iremos fazer aqui uma pesquisa exaustiva das opiniões críticas emitidas em livro por autores diversos e dispersos, porque a tanto não nos sobejaria nem a paciência nem o espaço. Faremos, apenas um breve bosquejo de algumas apreciações, que nos pareceram mais elucidativas, mas belas ou mais eloquentes. São uma espécie de caleidoscópio dos diversos ângulos pelos quais se podem apreciar as qualidades naturais, ambientais e humanas desta região bendita, que os portugueses e os estrangeiros admirammercê das suas particulares belezas e sobretudo das suas singularidades histórico-culturais.
Falcão Trigoso, Algarve, seca do figo, quadro de 1911
Assim, acerca do Algarve aqui ficam alguns informes coligidos a esmo. Comecemos pela caracterização do conceito histórico de Região:
«… o antigo "reino do Algarve", a última zona a incorporar-se na unidade territorial portuguesa, não teve apenas, com efeito, a sua individualidade bem reconhecida no título que usavam os nossos primeiros reis, mas sempre se considerou bem separado do resto do país: num documento de 1595, citado pelo Dr. Leite de Vasconcelos (Biblos,vol. VI, pág. 487), fala-se, por exemplo: da “estrada que vai de Tavira para Portugal”, e Baptista de Castro no seu Mapa de Portugal (vol. I. pág. 77), ainda escrevia que o Algarve ficava “separado de Portugal pelos montes Caldeirão e Monchique”. E só por esta circunstância se explica talvez o facto de ser o Algarve a única zona do país onde o distrito veio sobrepor-se exactamente à antiga divisão provincial, constituindo, por outro lado, uma razão até certo ponto atendível para que a ela se faça corresponder também uma região geográfica verdadeiramente digna deste nome.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 8.

«... quando se fala da região algarvia, é sobretudo a zona litoral do Algarve administrativo e histórico que queremos referir-nos. É, de facto, o seu manto de sedimentos secundários e terciários que "transforme le pays en un véritable jardin" no justo e autorizado dizer de Lapparent (Leçons de géographie physique, 3.ª ed., pág. 463). A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 136.
Algarve, família camponesa varejando a azeitona das oliveiras

«…quem entra no Algarve pelo caminho de ferro reconhece bem que não é em S. Marcos da Serra, onde o solo e a paisagem são ainda os do Alentejo, mas apenas em S. Bartolomeu de Messines, precisamente no limite setentrional da orla mesozóica, que de súbito nos julgamos transportados a um verdadeiro mundo à parte.» in A. de Amorim Girão, op. cit., p. 174.

«Tanto o Algarve se considerava dantes divisão distinta do resto de Portugal, que em certos documentos algarvios dos séculos XVI e XVII se fala dele como se fosse outra nação, por exemplo: em 1595 diz-se numa confrontação: “...a estrada que vai á aldeia de Moncarapacho e sidade de Tavira pêra Portugal...”; em 1607, noutra confrontação: “...dali sempre pella estrada de Portugal”, isto é, que vai para Portugal.» (J. L. V., Opúsculos, vol.V, p.330).

Postal antigo, traje rural da algarvia
Do ponto de vista natural, ambiental e orográfico, o Algarve aparece-nos descrito e apreciado como uma região distinta, com culturas próprias e exclusivas, um clima ameno e dócil, uma réstia, em suma, do paraíso terrestre:

«As culturas arvenses, e, em especial, da amendoeira, da figueira e da alfarrobeira, têm um considerável desenvolvimento nesta sub-região (o litoral) que mais parece um pomar, onde o homem, no dizer do Portugal Pequenino, “é, como o árabe, mais hortelão do que lavrador”; e algumas espécies vegetais próprias dos climas quentes, como a palmeira, a bananeira, o esparto, etc., contribuem ainda para dar-lhe um aspecto inédito em Portugal.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed., p.140.
Amendoeiras em flor, camponesa algarvia

«...Todo o Algarve é um pomar cultivado com esmero. A gente ao Alentejo, quando vê um bocado de terra bem tratado, diz: - É um pedacinho do Algarve». (Raul Brandão, Os Pescadores.

«...as casinhas aglomeradas, muito brancas, escorrem luz brilhante, como numa paisagem de esmalte...» Mariana Santos, «O Barranco do Velho», in Biblos, vol. VIII, 203.

«…o Algarve que é um pomar cultivado com esmero, e a costa, a mais recortada e piscosa de Portugal, com as suas praias esplêndidas, a água que às vezes parece caldo azul e ao pé dos areais as armações do atum, o peixe que com a sardinha dá mais dinheiro em Portugal.» Maria Angelina e Raul Brandão, Portugal Pequenino, Lisboa, 1930, p. 109.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Elegia ao amor platónico, por uma ignorada poetisa de Tavira

Por esse Algarve em fora despertam agora do sono letárgico - quais mouras encantadas - as nossas amendoeiras em irradiantes floreiras de níveas cores. Olhando-as na berma das estradas ou nas férteis várzeas desta terra generosa, sentimos quão verdadeira é a lenda da nórdica princesa, cujo amor conjugal definhava de saudades pelos nevados campos da sua pátria.
Lembrei-me então de um poema, escrito à mais de setenta anos por uma poetisa tavirense, de enorme talento e polida ilustração, que em vida foi humildemente ignorada, e hoje permanece esquecida. 
Chamava-se Maria Amália Padinha. Certamente o meu amigo Ofir Renato Chagas saberá melhor do que eu de quem se trata, e até já lhe terá tecido os maiores elogios num dos seus livros sobre a ilustre cidade de Tavira.
Em homenagem ao seu enorme talento não resisto à tentação de aqui transcrever um dos seus poemas, uma elegia ao amor platónico - muito peculiar ao tempo em que viveu - que é também um hino à beleza naturalista e simbólica da flor da amendoeira.
Este poema, simplesmente assim titulado, foi publicado no jornal «A Ilha», nº 711, de 17-11-1945, que em S. Miguel, nos Açores, dava guarida aos jovens talentos que despontavam nos mais diversos recantos geográficos pátria de Camões.
Ouçamos então o seu belo poema, com a reverência que nos merecem os sentimentos que nele resplandecem:


Poema

Passaste junto à minha porta
e eu sorvi
o ar que respiraste...

Perto, muito perto
eu bem te vi...
Mas tão longe
- longe de mim -
quando passaste...

Olhaste indiferente
para a rua
sem reparares que ela
era diferente.
Sem notares que se abria
uma janela
e que alguém
espiava os teus passos...

O sol vinha beijar-me
à janela onde ficara
a meditar.
E deu-me aquele beijo
que em pensamento
um dia te pedira...

Foi então que me voltei
arrancada ao meu cismar...
.............
- Já te foste!...
e na escuridão amarga
tento ainda destronar
o ilusório sonho
que sonhei.

E é tão grande a minha dor,
tão grande o meu quebranto!...
E só
sem amparo,
choro...

Mas não sou eu só
que choro assim.

A minha amendoeira
num quadro todo branco
também chora comigo
odoroso pranto
em pétalas caído
sobre mim...

E essas pétalas que me cobrem
como nevado manto,
nem sei se são pétalas
se lágrimas do meu pranto!...

Tavira, 7 de Março de 1945.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Viagens régias ao Algarve


Desde a conquista do Algarve, e sua definitiva integração no espaço nacional em 1252, até à proclamação da República em 1910, apenas alguns dos nosso monarcas se deram ao trabalho de visitar este extremo sul do território pátrio. Isto comprova, em certa medida, o pouco apreço em que o centro sempre teve a periferia. Para Lisboa o Algarve nunca teve qualquer importância, a não ser pelo exotismo da sua cultura e da sua diversidade ambiental, como se fosse uma espécie de reentrância da África adentro da Europa. Daí que praticamente nunca se tivesse investido na região, mormente através de grandes obras públicas, o que, áparte um ou outro melhoramento operado no tempo de Duarte Pacheco, só na década de sessenta do século passado, após a descoberta das suas potencialidades turísticas, é que o Algarve começou a ser conhecido e visitado, não só pelos turistas nacionais e estrangeiros, como ainda pelas entidades governamentais.
Assim, desde o séc. XII até à queda da monarquia, o Algarve raramente foi distinguido com uma visita régia, sabendo-se o quanto esse gesto dignificava e honrava os povos e as terras que recebiam a comitiva real.  Apenas os reis D. Sancho I, D. Afonso III, D. João I, D. Afonso V, D. João II, D. Manuel I, D. Sebastião e D. Carlos I, tiveram a sensatez de honrar o Algarve com a sua presença.
O rei D. Sancho I chegou ao Algarve em 11-7-1218, e em Setembro, após prolongado cerco, logrou conquistar a cidade. Após distribuir o saque pelos Cruzados que o ajudaram a conquistar a cidade, nomeou as novas autoridades e partiu para Lisboa.
D. Afonso III veio ao Algarve pelas mesmas razões, continuar a conquista do Algarve; chegou a Faro na primavera de 1249 e após a tomada da cidade, sem derramar sangue, decidiu partir envolto em lendas de paixão.
D. João I chegou a Lagos em 26-7-1415, aquando da conquista de Ceuta.
D. Afonso V chegou a Sagres em 3-9-1458, e de Lagos partiu para Alcácer Ceguer. Em 9-11-1463 voltou a Lagos para atacar de novo a África. Em 1471 voltou pela terceira vez a Lagos, na sua última tentativa para conquistar o Norte de África.
D. Manuel I em Agosto de 1508 veio a Tavira onde reuniu um exército para ir em socorro da praça de Arzila.
D. Sebastião veio ao Algarve numa demorada viagem por terras do interior alentejano, marcada com gestos de pompa e circuntância. Chegou igualmente para Tavira, onde reuniu as suas forças militares, e partiu em Setembro de 1574 para Ceuta de seguiria para o desastre de Alcácer-Quibir.
D. João II veio também para Tavira, onde chegou a residir para tratar dos seus achaques nas águas de São Paulo. Mas por falta de resultados mais positivos partiu para Monhique, onde não conseguiu debelar os sintomas de envenenamento de que vinha sendo vítima. Acabaria por falecer em Alvor, onde parece que tentou novo tratamento de águas. Ficou sepultado em Silves, até que foi trasladado em longo cortejo fúnebre para o Mosteiro da Batalha. Foi este o rei que mais tempo permaneceu no Algarve.
O último rei a visitar o Algarve foi D. Carlos I, que embora por várias vezes aqui tivesse vindo de forma particular, só uma o fez de forma oficial, decorrendo essa visita de 9 a 14 de Outubro de 1897.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Algarvios, povoadores de outras terras

 
Já aqui me referi ao subido interesse e insofismável importância histórica e socioantropológica da Toponímia. Na maioria dos casos os topónimos adoptam a designação dos acidentes naturais que lhes estão adstritos (portos, cabos, montes, rios, minas), noutros casos adoptam o nome de animais (zoónimos), de plantas (fitónimos) e até de rochas, mas na generalidade eternizam o nome do seu fundador (antropónimos), do povo colonizador e até dos seus conquistadores. Existem cidades e vilas, tanto no nosso país como no Brasil e restantes ex-colónias, cujas designações comprovam as suas origens naturais e as suas origens históricas confirmadas na toponímia, como por exemplo Porto, Portalegre, Porto de Mós, Porto Alegre, Cabo Verde, Cabo Frio, Monte Alegre, Monte Carmelo, Minas Gerais, Rio Grande, Rio de Janeiro, etc.. 
No Algarve existem sítios e aldeias cuja toponímia certifica exactamente as mesmas origens naturais, como Porto do Carro (Estoi, Faro), Porto Largo (Monchique), Porto Nobre (Querença, Loulé); mas também Monte Gordo (Vila Real Stº António), Monte Clérigo (Aljezur), Monte das Sarnadas (Alte, Loulé), para além de muitos outros.

Instituto Superior Técnico, grandiosa obra de Duarte Pacheco
Mas não eram as origens naturais, físicas ou históricas dos topónimos que designam as localidades a razão principal deste breve apontamento. É que ao contrário do que se pensa ocorreram ao longo dos séculos necessidades de povoamento - aquilo a que poderiamos chamar colonização interna - que exigiram dos governantes e outras autoridades o uso de medidas enérgicas e urgentes para obstar ao despovoamento. Nalguns casos atraíam-se os povoadores com propostas de trabalho e de melhores salários, noutras com isenções e privilégios (isenção de recrutamento militar, não pagamento de impostos) e noutras com reaquisição dos direitos de liberdade controlada (transferência de presos e condenados para os castelos raianos, para os coutos de homiziados e para as colónias).

Bairro social da Ajuda, notável obra de Duarte Pacheco
Mas casos houve em que o povoamento se fez duma forma quase forçada, imposta ou sem hipóteses de recusa, principalmente nas terras do sul. Ainda não há muitos anos que o ministro Duarte Pacheco, para dar satisfação a grandes obras públicas de desenvolvimento nacional, como barragens, estradas, etc., arrebanhava mão de obra no Alentejo e Algarve, de uma forma quase forçada e algo atrabiliária. Não vamos agora falar disso, mas todos sabemos que muitas centenas, senão milhares, de alentejanos e algarvios foram deslocalizados das suas terras de origem para irem construir em Lisboa diversas obras públicas, como foram os casos do Estádio Nacional, Parque de Monsanto, Alameda, Instituto Superior Técnico, pontes e estradas diversas, resultando disso a sua fixação em acampamentos e "bairros de lata", erigidos a esmo nas colinas e zonas limítrofes da capital, para só mais tarde serem definitivamente realojados nos novos bairrros sociais de Alcantara, da Ajuda, do Arco do Cego, de Monsanto, etc.
Tudo isto para dizer que ao contrário do que era comum e até previzível no povoamento do território nacional, houve casos em que a origem dos seus primeiros povoadores deu o nome ao sítio ou ao local onde se fixaram, como aconteceu por exemplo no sítio dos Parizes, no concelho de São Brás de Alportel, que foi povoado por franceses que desertaram das tropas napoleónicas quando daqui foram rechassados em 1808. O mesmo aconteceu com o sítio dos franceses, na serra do Cachopo, concelho de Tavira.
Todavia, houve também casos de povoamento interno feito por algarvios, que não sabemos se foi realizado de forma pacífica e concertada, ou se foi operado de forma forçada pelas autoridades do tempo. Não sabemos inclusivamente a que época remontam, mas devem ter sido operados há alguns séculos atrás os dois casos que conheço de transferência de algarvios para efeitos de povoamento. São ambos no concelho de Alcácer do Sal e dizem respeito à pequena "Aldeia dos Algarvios", que nos anos quarenta do século passado tinha 26 fogos, e o "Monte dos Algarvios" que tinha apenas 4 fogos. Sei também que naquela cidade, implantada à beira Sado, existe uma «Rua dos Algarvios», o que é uma bonita homenagem aos que daqui partiram e não mais voltaram.
 

domingo, 7 de outubro de 2012

Deputados do Algarve em 1826-1828

 
No início do período cartista foram eleitos pelo Algarve, para a legislatura de 1826-1828, os seguintes deputados:
André Urbano Xavier da Fonseca;
António José de Lima Leitão;
José António Ferreira Braklamy;
Manoel Christovão de Mascarenhas Figueiredo (este preso como miguelista e só tomou posse do cargo a 29-3-1827);
Rodrigo de Sousa Castelo Branco.
 
Quando "o Rei chegou, e na barraca não entrou" (como dizia a módinha de então), o parlamento foi destituído, e muitos destes deputados foram presos, à excepção do Mascarenhas Figueiredo. Os que puderam escapar aos caceteiros miguelistas fugiram para Inglaterra, Bélgica, Holanda e França, onde iniciaram a resistência pela reinstauração da Liberdade em Portugal. Os que ficaram sofreram as agruras do cárcere e da forca. Veja-se a esse propósito o monumental livro de Silva Lopes História do Cativeiro dos Presos de Estado na Torre de S. Julião da Barra de Lisboa (1833-1834), reeditado pelas pub. Europa-América.

sábado, 6 de outubro de 2012

Antigas medidas de peso, volume e comprimento

  
Caixa de pesos e medidas usadas pelo aferidor municipal
Talvez nem todos saibam que antigamente, desde a Idade Média, sobretudo a partir do movimento foraleiro, isto é, da atribuição das Cartas de Foral aos Concelhos, que as medidas com que se aferiam os pesos, capacidades e comprimentos das produções, agrícolas e industriais, assim como dos bens e mercadorias que animavam as actividades mercantis nacionais, eram diferentes de terra para terra, o que em nada beneficiava os preços e em muito contribuía para a inflação dos preços e consequente destabilização do mercado.

   Só após a institucionalização do Sistema Métrico Decimal, adoptado e aprovado a partir de 7-4-1795, é que as unidades de medida passaram a ser padronizadas, e a partir de então oficialmente utilizadas nos mercados das diversas nações europeias. Lembro que até aí essas medidas eram definidas de maneira arbitrária e, por vezes, discricionária, variando de país para país, o que em muito embaraçava, e até inibía, o comércio, os negócios e as transações internacionais. O modus operandis era de tal maneira arbitrário que basta dizer dependia das partes constitutívas do corpo do monarca de cada país, nomeadamente do tamanho anatómico da sua mão (palmo), do seu polegar (polegada), do seu antebraço (côvado) ou do seu braço (braçada), do seu pé, ou até mesmo do seu nariz, cuja distância ao seu polegar com o braço estendido prefazia aquilo a que se convencionou chamadar uma jarda.[1]
medidas antropomórficas (pé e polegada)
Eram medidas antropométricas, que por terem uma origem natural (homo mensurável), pareciam aos olhos do povo perfeitamente lógicas ou justificáveis.

 É claro que essas medidas, com o evoluir dos séculos, deixaram de depender das características naturais que estiveram na sua origem histórica, para se fixarem em padrões mais consentâneos com o meio físico e com as necessidades mercantis, adoptando uma medida oficial e inalterável. O que é certo é que ainda hoje são utilizadas no Reino Unido, que por razões e tradição histórica, e pelo seu natural conservadorismo, se recusou a adoptar o Sistema Métrico Décimal, preferindo manter as suas velhas medidas.
   Deixemos essas curiosidades e avancemos para o que mais nos interessa agora, isto é, para a relação e equivalência das antigas medidas de peso, volume e comprimento.
   Aqui fica, portanto, a relação dessas medidas e do seu valor oficial, sendo que estes só tiveram efectividade no nosso país a partir de 1814, mercê da aprovação do sistema métrico décimal pelo príncipe-regente D. João VI.
   ALMUDE - medida para aferir os líquidos, sobretudo o vinho, e que era equivalente a 12 canadas, correspondendo a 16,8 litros. 
   ALQUEIRE - medida
de capacidade, usada para secos de volume variável, geralmente milho, trigo, aveia, centeio, grão, feijão, assim como todo o tipo de gramíneas e sementes. Também podia ser usado para os líquidos, o que só acontecia em pouquíssimos concelhos do país, e nesse caso equivalia a 6 canadas, ou seja, 8,4 litros. Mas o seu valor em seco (quer para as transações comerciais, quer para a avaliação das terras de semeadura) passou a ser oficialmente de 13,9 litros, por decisão do Marquês de Pombal, logo após o terramoto de 1755. Valor esse que se manteve para sempre.
   ARRATEL - medida de peso, que na Idade Média correspondia ao peso da libra que se usava na península ibérica, mas que não era igual à que se usava, e ainda usa, nos países anglo-saxónicos. O seu valor no século XIX, após a converção ao SMD, era de 459,5 gramas. Esta medida usava-se muito para aferir o peso dos animais, sobretudo para o preço da carne ao público. A libra britânica corresponde a 500 gramas.
medidas de alqueire (um, meio, e quarta), ainda hoje usadas
na venda a retalho de cereais nas feiras mercados tradicionais
   ARROBA - como medida de volume, para líquidos como o vinho, valia aproximadamente 16 litros, mas se fosse para o azeite já valia menos, cerca de 12,5 litros; era principalmente usada  nas transações comerciais como medida de massa, para pesar porcos e bovinos, e nesse caso era equivalente a 32 arráteis (14.720 gr), sendo arredondada com o SMD para 15 kilogramas.
   CANADA - medida de volume mais usada nas transações mercantis, e talvez a mais antiga que se conhece em Portugal. Nos forais aparece para aferir quase todos os líquidos, sendo muito usada para medir o azeite. Equivalia a 1,4 litros, mas o valor mais comum era o usado no mercado de Lisboa, onde valia 1,5 litros, sendo esse o que prevaleceu até à adpção do sistema internacional de unidades em 13-12-1852. Dividia-se em 4 quartilhos, era a 12ª parte do Almude, e 6 canadas prefaziam um pote, unidade que rapidamente caiu em desuso no nosso país. O quartilho foi muito usado para a comercialização a retalho do vinho, equivalendo a 0,35 litros.
   COVADO - medida de comprimento, talvez a mais antiga, conhecida e usada desde os tempos bíblicos, baseava-se no tamanho do antebraço, isto é na distância que ia da ponta do dedo médio até ao cotovelo. Parece terem sido os egípcios os seus inventores, com um valor aproximado de 50 cm. Com o desenrolar dos séculos evoluiu entre os 45 e os 67 cms, fixando-se, antes do SMD, em cerca de 66 cm, o equivalente a 3 palmos.
   MOIO - medida de capacidade muito usada no nosso país desde a Idade Média, que tinha uma grande ambivalência, pois que não só se usava para capacidades de sólidos e de liquídos, como também servia para medir superfícies agrárias, tendo como exemplo a área média de terreno que podia ser semeada com um moio de trigo, de centeio, de cevada, etc. Herdamos esta medida dos romanos que a usavam para os sólidos como para os líquidos, mas com valores muito díspares. Entre nós valia 560 litros com D. Afonso Henriques e subiu até 790 litros com D. Manuel I. O seu valor mais comum era de 60 alqueires, só que o valor do alqueire variava de terra para terra. Mas com a introdução do  sistema métrico de unidade o moio passou a ser avaliado em 828 litros.
   QUARTA - medida de capacidade ou de volume, era a quarta parte do alqueire, do arrátel e da vara. Era por vezes citada com o valor de 2 maquias, o equivalente no sistema métrico a 1,725 litros. Já agora, acrescento que cada maquia valia 0,8625 litros. Já que falei em "vara" convém dizer que se usava como medida de comprimento, e que equivalia a 5 palmos, que foram arredondados no sistema métrico para 1,1 metros.
   QUARTILHO - medida de volume para líquidos, que antigamente valia cerca de 0,5 litros, passando com a introdução do sistema métrico para 0,35 l.
   VARA - medida de comprimento, que como já disse valia 1,10 metros.


[1] A origem da “jarda” (yard, em inglês), como medida de comprimento, remonta ao século XII, durante o reinado de Henrique I de Inglaterra, que decidiu instituir a distância entre seu nariz e o polegar de seu braço estendido como sendo uma jarda. Esta medida não está desactivada nem foi esquecida, pois que ainda hoje é usada (por exemplo no Futebol Americano para decidir as medidas que separam as linhas em que se divide o terreno de jogo). Era oficial no comércio britânico aferir-se a jarda como equivalente a 3 pés ou a 36 polegadas, e julgo que é essa ainda a medida usada no mercado anglo-saxónico. A jarda mede cerca de um metro, mais concretamente 0,91 m, ou seja, 91 centímetros.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Algarvios e Minhotos


O agostiniano Frei Joaquim de Santa Rita, publicou nos meados do séc. XVIII a notável obra Academia dos Humildes e Ignorantes, na qual afirmava que se o Algarve tivesse sido povoado por gente do Minho, dentro de poucos anos esta província tornar-se-ia no canto mais belo do mundo. É claro que isto era um exagero, em todo o caso é verdade que os minhotos são infatigáveis trabalhadores, gente enérgica e honrada que por onde passa lança mãos ao trabalho vencendo na vida.
Mas esse espírito empreendedor e perseverante, associado a um carácter esforçado e guerrreiro, muito peculiar nas gentes obreiras do Minho, nem sempre foi pacífico ou bem tolerado, como acontece no tempo presente. É que geralmente os que vinham de fora chegavam ao Algarve para lutar pela vida e alcançar objectivos de sucesso. Daí que muitos deles se tivessem elevado para patamares de preponderância económica, social e política.  Os minhotos, mas também os beirões, são ainda hoje no Algarve considerados e respeitados como empresários, proprietários, comerciantes e industriais, de reputado sucesso.  Daí que muitos deles tivessem sido convidados a assumir cargos de chefia nos organismos locais da administração pública e da política em geral.
Porém, ainda hoje sobejam resquícios de antigas invejas, inultrapassadas cobiças e de insuperáveis invídias, que fizeram com que os algarvios lhes lançassem o epiteto de "Filipes", como se minhotos e nortenhos fossem estrangeiros usurpadores das riquezas e dos benefícios locais, numa clara alusão ao domínio estrangeiro durante o período da subjugação espanhola. O certo é que se formos a ver à lupa os cargos de chefia regional verificamos que na sua maioria são desempenhados por não algarvios, ou, na melhor da hipótese, por algarvios de fresca data, isto é, filhos de lisboetas, beirões e minhotos. Felizmente, hoje, esses ditos e epítetos são águas passadas que já não movem moinhos.
 

Documentos históricos

Relativos ao Algarve existem depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) muitos milhares de documentos, sobre os assuntos mais díspares, desde os Registos Paroquiais à Justiça e Negócios Eclesiásticos, até à Fazenda e Desembargo do Paço. Mas uma das secções mais ricas daquele Arquivo são as chamadas «Gavetas da Torre do Tombo», uma subdivisão sectorial de grande abrângência cronológica e de ampla diversidade temática, onde se podem exumar milhares de documentos de suprema importância e de subido interesse histórico, cuja existência geralmente se desconhece.
Apenas a título de curiosidade aqui deixo, nesta breve nota, alguns diplomas de enorme importância para o estudo histórico do Algarve, assim como das suas relações político-socioeconómicas com outras regiões do país e do mundo. Após a citação do documento acrescento alguns informes sobre o possível interesse do mesmo, o suporte, o estado de conservação e a data; seguindo-se a indicação oficial do documento em si, o que permite ao leitor deste blogue saber aonde é que o mesmo se encontra, e a forma como requesitá-lo, numa hipotética visita à Torre do Tombo.

Algarve (Documentos)
- Carta do rei de Castela dirigida a D. João de Aboim, mordomo-mor de el-rei de Portugal, e para Pedro Anes, seu filho, na qual lhes ordenava entregassem a el-rei de Portugal os castelos das vilas de Tavira, Loulé, Faro, Portimão, Silves, Aljezur e toda a terra do Algarve com suas pertenças e direitos. Importantíssima carta de doação dos castelos do Algarve, escrita sobre pergaminho, em bom estado e com selo de chumbo pendente, datada de 16-2-1267.
ANTT, Gaveta XIV, maço 1, doc. 3. Sobre assunto afim, ver Gav. XIV, maço 1, docs. 7 e 8 e ainda Gav. XIV, maço 4 doc. 9.

- Pública-forma dos autos de diligência que fez o Doutor António Vaz Raposo, que serviu de corregedor do Algarve, por especial mandado de El-rei, a respeito da ida dos cristãos-novos para terra de mouros. Escrito em papel, com 13 fls., e em bom estado, datado de Castro Marim a 27-6-1532. ANTT, Gaveta XV, maço 2, doc. 14.

- Alvará passado a António Vaz para o cargo de Feitor das Rendas da Rainha no Algarve. Escrito em papel, bom estado, datado de 20-4-1529.
ANTT, Gaveta XV, maço 11, doc. 29.

- Carta do Bispo do Algarve a respeito do abandono das cidades de Safim e Azamor. Muito interessante para o estudo das relações com o Norte de África. Escrito em papel, com 4 fls., bem legíveis. Datado de Lagos a 15 de Outubro de 1534.
ANTT, Gaveta XV, maço 14, doc. 2.

- Carta do Bispo do Algarve a el-rei a respeito de coisas do Algarve. Importante para o estudo da situação económica da região. Escrito em papel, com 4 fls., em bom estado, datado de 18-8-1534. ANTT, Gaveta XV, maço 14, doc. 7.

- Carta do rei D. Afonso de Castela através da qual doou a el-rei de Portugal, D. Afonso III, a seus herdeiros e sucessores o território do reino do Algarve e seus pertences. Trata-se do documento que legitimou a Conquista do Algarve e a sua integração no espaço nacional. Pergaminho em mau estado, datado de Badajoz a 16-2-1267.
ANTT, Gaveta XV, maço 15, doc. 36.

- Carta do Corregedor do Algarve para El-rei dando notícia dum pedido de socorro manifestado por Nuno Fernandes de Ataíde para as praças de África. Escrito em papel, com 3 folhas, em bom estado, datado de 13-(?)-1514.
ANTT, Gaveta XX, maço 2, doc. 65.

- Alvará dirigido ao contador do Algarve para que se fizesse a entrega dos forais novos e respectiva cobrança do custo de cada um, a favor de Fernando de Pina. Escrito em papel, com 2 fls., em bom estado, datado de Lisboa, 14-9-1504.
ANTT, Gaveta XX, maço 10, doc. 8.

- Duas folhas do Livro da Chancelaria do Infante D. Fernando respeitante aos direitos do Algarve, uma está datada de 30.3-1531 e a outra de 23-7-1533, escritas em papel e em bom estado.
ANTT, Gaveta XX, maço 10, doc. 21.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ALGARVE - Planos Hidrográficos

Na secção designada por «Casa Forte» do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, existem em devido e criterioso recato dezenas de mapas, planos e desenhos da mais variada índole, elaborados por Engenheiros e Arquitectos integrados em diversas Comissões oficiais pertencentes a diferentes Secretarias do Reino. A maior parte desses mapas foi desenhada à mão, colorida com aguarelas e tintas da china, sendo que em alguns casos recorreu-se a ocres e outras improvisadas colorações. Possuem grandes dimensões, razão pela qual foram dobrados em várias partes, cujos vincos com o tempo se partiram e rasgaram. Alguns estão enrolados, mas igualmente em deficiente estado, devido ao seu manuseamento. Deve, porém acrescentar-se que a maioria deles são verdadeiras obras primas, não só no pormenor e exactidão orográfica como sobretudo na sua beleza artística. Consultei vários, e sobre alguns deles cheguei mesmo a escrever artigos e comentários de carácter científico que correm impressos em catálogos e revistas da especialidade. Lembro-me, porém, que três desses Planos me deixaram surpreso e até muito positivamente impressionado. Por isso aqui os deixo citados para quem deles se possa interessar, frisando em primeiro lugar o número do seu registo, designação oficial e data:

Nº 3 - Plano Hidrográfico das barras e portos de Faro e Olhão - 1885.

Nº 23 - Plano Hidrográfico da barra e porto do Rio Guadiana - 1874.

Nº 29 - Plano Hidrográfico das Enseadas de Belixe, Sagres e Balieira - 1924.


Acresce dizer, aos interessados no estudo da hidrografia algarvia, que para consultarem estes mapas terão que se deslocar a Lisboa, dirigirem-se ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e fazerem a respectiva requesição, não se esquecendo de nela mencionar que estes documentos se encontram depositados na «Casa Forte», secção de Mapas e Planos.