segunda-feira, 27 de julho de 2009

Algarvio falecido num campo de concentração na Áustria


O Comité Internacional de Genebra forneceu à Cruz Vermelha Portuguesa, em Junho de 1946, uma lista dos portugueses falecidos no campo de concentração de Mauthausen (Oberdonau), na Áustria, na qual se revela a existência de um algarvio, de nome Tomás Vieira, nascido em Albufeira a 7-3-1890 e falecido naquele campo de concentração a 16-11-1944.
Alguém me sabe dizer quem seria este pobre Tomás Vieira?

J.C.V.M.

domingo, 26 de julho de 2009

Quarenta anos de Poesia em Vieira Calado

J. C. Vilhena Mesquita

Não são muitos os poetas e escritores que no nosso país se podem orgulhar de uma longa e vasta obra literária. Felizmente, no Algarve, há dois ou três exemplos que contradizem a regra geral de se iniciar uma carreira literária quando embranquecem as cãs e se consolidam as estruturas familiares para dar lugar às segundas gerações. Entre as figuras de maior proeminência e longevidade cultural no Algarve destacam-se Elviro da Rocha Gomes e Tito Olívio Henriques, que fazem no conjunto das suas obras uma simbiose entre a prosa e a poesia. Mas, em exclusiva dedicação ao género poética, apenas se terá mantido José Vieira Calado, que acaba de completar quarenta anos de vida literária. E para um poeta de intervenção, que usa a palavra para acicatar a letargia e espicaçar as mentes, não é difícil de imaginar que terão sido décadas de resistência contra a censura, que por vezes identificava o inocente alinhamento dum poema com a velada divulgação de mensagens subversivas e desafectas ao regime.
Muitas foram as vítimas, desde Eugénio de Andrade a Ramos Rosa, que nos anos subsequentes souberam capitalizar a vitimização da perseguição política a seu favor, reivindicando prestígios, privilégios e prémios. O mesmo não aconteceu com Vieira Calado que, na sua humildade natural e no seu genuíno talento, continuou a fazer da poesia a sua voz, num ténue lamento de nostálgica indignação e num surdo grito de revolta contra a ignorância, o nepotismo e a presunção dos instalados no poder. Talvez por se manter fiel a si próprio, sem se ajoujar a qualquer bandeira partidária, daquelas que flutuam nos mastros do poder, é que o nome de Vieira Calado nunca será gravado a ouro na frontaria de uma qualquer biblioteca pública.
Também pouco lhe importa a vã glória dos talentos postiços, da incongruência dos louvores ou dos prémios com o sabor mafioso das clientelas políticas. O que importa é a coerência dos valores, a preservação dos princípios éticos, a incessante procura de novos caminhos para encontrar a essência das coisas simples e a alma dos últimos mistérios. É na descoberta das coisas primeiras, no abismo dos conceitos e na bruma das metáforas que emerge a poesia de Vieira Calado.
Para quem não conheça a sua obra aconselhamos vivamente a leitura de um dos seus últimos livros intitulado Transparências, que consideramos um sublime bouquet do mais inspirado e criativo lirismo produzido no Algarve dos últimos cinquenta anos. Aliás, sempre dissemos que Vieira Calado era um dos melhores poetas do modernismo algarvio, e um dos mais autênticos, reflectidos e intelectualizados. Nada fica a dever aos seus mais célebres antecessores, porque não lhes imita os temas, não lhes copia os passos, não procura a luz onde existe a sombra, nem pinta de azul o negro da noite. Limita-se simplesmente a envolver as palavras no manto diáfano do mistério, escondendo por detrás da leitura e da sugestão dos sentidos uma imagem de perpétua insatisfação, um trago de amargura, uma envolvente dúvida na imbricada desconstrução metafórica do poema.
Por isso é que a sua poesia é tão sugestiva, num misto de atracção e repulsa, tecida entre a verdade, a traição e a fuga, enredada em conceitos de fino recorte filosófico e exigindo do leitor não só uma leitura integrada como também uma razoável preparação intelectual. Em boa verdade, a sua poesia está longe de poder agradar às camadas populares, embora ao poeta certamente agradasse espicaçar a letargia em que se acha mergulhado o nosso povo, cada vez mais submisso e anestesiado pelos média, “acorrentado” às telenovelas e concursos bestializantes da dignidade humana. As mensagens que nos impingem os meios de comunicação, sobretudo a “caixa mágica” que domina os nossos lares, é cada vez menos poética e cada vez mais descrente dos valores que devem nortear a humanidade. Talvez seja por isso que a poesia não se vende. Talvez seja por causa da nossa ignorância, do nosso crescente materialismo e assustador egoísmo, que a poesia tem vindo a desaparecer das nossas atitudes diárias, a perder terreno nos nossos hábitos de consumo e nos cada vez mais escassos prazeres da leitura.
Apesar de o panorama não ser motivador a voz dos poetas continua a ecoar no templo de Orfeu, com a mesma vivacidade e esperança de quem acredita na salvação da humanidade através da propagação da verdade, da honra e do amor. Vieira Calado tem-no feito ao longo de quarenta anos. Por isso resolveu reunir numa breve antologia que designou por Poemas Primeiros, algumas das composições lançadas à luz do prelo entre 1961 e 1962. Foram extraídos dos livros 37 Poemas e Os Sinais da Terra, que são os títulos que abrem a sua apreciável lista de obras. Por mais que lhes procurássemos o vagido da inocência imberbe, da inexperiência ou da incongruência intelectual, nada encontrámos que se pudesse classificar de incipiente, inarmónico, desconexo ou desproporcionado. O poeta já estava feito quando lançou à terra as primeiras sementes da sua futura seara. Creio mesmo que, em certo sentido, os seus primeiros poemas eram mais atractivos – mas não menos profundos - do que agora, visto que em poucas palavras, em meias dúzia de versos, conseguia aprisionar o mundo, nas suas injustiças, desafectos, atrocidades e violências. Mesmo quando usa o naturalismo nos conceitos procura deixar a dúvida entranhada na escadaria do poema: “Este Sol incrivelmente verde / apesar de mudo, / este céu incrivelmente nítido / apesar da distância / e este chão inevitavelmente pesado, / apesar dos pés e dos músculos dos pés / crescerem do verde e do nítido.”
A voz oraculina do poeta está subjacente à maioria dos seus poemas, recorrendo ao trocadilho dos significantes para enredar o leitor na dualidade dos significados. O tecido que envolve os conceitos e entretece as palavras é supostamente translúcido, mas não resolve nunca a dúvida da interpretação na duplicidade das sensações: “O tempo é como o vento. / As nuvens / sou eu, és tu e são os outros; / não há vento que as não leve. / Já alguma viste / a mesma nuvem duas vezes? / Já alguma vez sentiste / o mesmo vento duas vezes?”. E mais adiante acrescentará com a feroz simplicidade das coisas aparentemente simples: “Todo o rio tem mar / toda a cidade tem cemitério / toda a verdade crua tem adultério.” Este último verso é um tratado de psicologia social que poderemos desmontar das mais variadas formas para obter sempre o mesmo resultado: por detrás da verdade está o fosso da traição. Parece querer dizer que entre a perfídia e a ignomínia se ergueram os alicerces da nossa civilização, mas que, apesar disso, existe o caminho da verdade e da honra, cuja escolha depende só da largura da nossa alma: “Na estrada dos caminhos cruzados / não há frestas nem arestas paralelas / não há clareiras nem sombras dos escombros / não há geometria pré-concebida / de réguas nem de esquadros. / Na estrada dos caminhos cruzados / há apenas a largura / dos ombros de cada um.”
Para concluir, repetimos o acostumado cliché: “O Algarve é um rincão de poetas”. Ninguém duvida disso. Mas em boa verdade não há muitos poetas de qualidade. O que existe é quantidade. Falta instrução, leitura e convivência aos poetas algarvios, que na sua maioria subsistem fechados sobre si próprios, entretidos com Jogos Florais e alheados de novos horizontes culturais. Não é o caso de Vieira Calado, homem viajado, docente do ensino secundário, licenciado em Letras e muito atento o intercâmbio cultural com outras regiões europeias. A sua dimensão intelectual e o seu interesse por novas experiências culturais tem-lhe permitido evoluir na senda do aperfeiçoamento e da qualidade poética. O facto de se ter mantido sempre actualizado permitiu-lhe ser cada vez mais exigente, no apuramento do estilo, na intervenção dos conceitos e no esgrimir das palavras. Sem nunca rejeitar a intervenção momentânea das musas, e de reconhecer que sem inspiração não existe poesia, o certo é que em Vieira Calado também se vislumbra a transpiração do artista, que incessantemente busca alcançar a perfeição.
No remanso da cidade de Lagos, vive um dos melhores poetas do Algarve, longe da ribalta da capital do Império, alheado dos média, em feliz comunhão com a sua musa inspiradora. Os seus quarenta anos de vida literária materializaram-se numa dezena de livros publicados. Serão, talvez, um parco legado de quem possui talento e qualidades para muito mais. Agora que está reformado das lides do ensino, talvez despertem em Vieira Calado os encantos do prelo, contribuindo com novos títulos para o engrandecimento da poesia algarvia.

Nota: este texto foi publicado no «Diário do Sul», em Julho de 2001

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Museu Almirante Ramalho Ortigão, em Faro

O antigo Museu Marítimo de Faro passou a designar-se oficialmente Museu Marítimo do Almirante Ramalho Ortigão em finais de Julho de 1946, devendo-se a proposta de alteração da sua denominação ao capitão de fragata Pedro Raimundo de Magalhães, que na altura desempenhava as funções de capitão do Porto de Faro.
Esta proposta teve duas intenções, ambas bastante louváveis. A primeira foi a de perpetuar o prestígio militar do contra-almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, dias antes da sua passagem à situação de reforma por limite de idade, ocorrida a 5-8-1946, deixando também a partir dessa data as altas funções de presidente do Supremo Tribunal de Justiça Militar.
A segunda intenção foi a de homenagear a brilhante carreira de oficial da marinha, com uma invejável folha de serviços prestados à nação.
Acima de tudo isso, fica o reconhecimento da sua dedicação a Faro, onde como no exercício das funções de Chefe do Departamento Marítimo do Sul salvou o espólio artístico e técnico existente no museu daquela instituição militar, o qual se encontrava praticamente ao abandono, num estado arruinado, verdadeiramente decrépito e confrangedor. Ao seu esforço, dedicação e sacrifico se ficou devendo, pois, a recuperação, transformação e reordenamento daquela unidade museológica. À sua perseverança e amor pela cultura, ficou a terra natal, e o próprio país, devedor do restabelecimento de um valioso espólio patrimonial, artístico e científico, depositado num dos museus marítimos de maior interesse nacional.
Quanto à riqueza e variedade das peças expostas, recomendamos os leitores do nosso blog a fazer-lhe uma visita, ciente de que irá ter grandes e agradáveis surpresas.

J.C.V.M.

Ao maestro Rebelo Neves


O Dr. Joaquim Magalhães escreveu este soneto em homenagem ao maestro António Rebelo Neves, que no dia 3-10-1944 completava 70 anos de idade e por isso se via compelido à reforma como professor de música e de Canto Coral no Liceu de Faro. Os seus colegas foram á residência do velho amigo prestar-lhe uma singela homenagem na qual o Dr. Magalhães lhe dedicou o seguinte soneto

Nesta luta de morte que é a vida,
quantas vezes caímos de cansaço
e outras tantas voltamos para a lida,
depois dos dissabores, rijos como aço?

É dura a caminhada na subida,
mas com fito no ideal, longínquo e baço,
não pode esta alma nossa ser vencida
e há-de alcançar a meta, além, no espaço.

Chegar aos setenta anos representa
uma vitória bela na disputa
sem dó e sem piedade com a morte;

e os deste bom amigo são setenta
de trabalhos, de esforços e de luta,
tendo a Beleza sempre como norte.

A Câmara Municipal de Faro, sensibilizada com as homenagens que os antigos alunos e cidadãos farense prestavam ao maestro Rebelo Neves, decidiu criar pela primeira vez a «Medalha da Cidade» para assim galardoar as pessoas que pelos seus serviços prestados ao município merecessem a honra de ser distinguidos e relembrados para sempre. A primeira figura, aliás para a qual foi criada a própria medalha, foi o maestro Rebelo Neves. Esta decisão foi tomada em Dezembro de 1944.
Por sua vez a Junta de Província do Algarve, por iniciativa do seu presidente Dr. José Correia do Nascimento, associando-se às homenagens, decidiu mandar editar todas as composições musicais do maestro.
Com efeito essa edição surgiu em Maio de 1946, no formato de álbum, com algumas das mais belas composições musicais do maestro António Rebelo Neves. Essa compilação ficou com a título de Canções portuguesas sobre versos de poetas algarvios e outros. Na verdade, podem-se nesse álbum colher belas músicas sobre poemas de João de Deus, Bernardo de Passos, Cândido Guerreiro, Emiliano da Costa, António Pereira, João Nobre, Schiappa Roby, António Boto, Afonso Lopes Vieira e João Rodrigues Castelo Branco, retirado do Cancioneiro de Garcia de Resende. No total são quinze composições musicais de grande talento e qualidade artística.
J.C.V.M.

GRANDE HOTEL da Praia da Rocha


Inaugurou-se a 1-5-1932 o Grande Hotel da Praia da Rocha, cujas obras de remodelação das antigas instalações do Casino lhe permitiram na altura ser considerado um dos melhores equipamentos turísticos do país, não só pela beleza do seu traço arquitectónico, como também pelas suas condições de higiene e pelos serviços modelarmente organizados para servir as mais singulares exigências dos seus clientes, previsivelmente estrangeiros. A sua construção veio preencher uma lacuna há muito sentida na cidade de Portimão, cujas potencialidades para o turismo ficava progressivamente demonstrada, na afluência anual de estrangeiros e de turistas nacionais, oriundos dos mais diversos quadrantes do país.
O empresário Saldanha Lima foi o promotor da ideia de construção de um Grande Hotel na Praia da Rocha, concitando à sua volta avultados meios financeiros de diversos investidores que acreditaram nas suas propostas de desenvolvimento do turismo na Praia da Rocha. Por isso foi, na época, considerado um homem de visões largas e um benemérito do progresso algarvio. Para explorar aquela magnífica unidade hoteleira foi constituída a «Empresa Hoteleira Praia da Rocha Ld.ª», de que era gerente Saldanha Lima, a qual deu trabalho a muitos portimonense e algarvios em geral. Encarregou-se da gerência técnica daquela empresa hoteleira o algarvio José Jacinto dos Santos, ao tempo um dos raros portugueses habilitados com um curso de hoteleiro concluído numa escola estrangeira.
Na festa da sua inauguração, celebrada no Dia do Trabalhador, uma data não muito do agrado da ditadura, decorrer com toda a pompa e circunstancia, na presença das principais autoridades civis, políticas e religiosas da região.
Abriu as portas ao público com 80 quartos, distribuídos pelos três andares do edifício, pelos quais se distribuíam várias casas de banho, tendo uma espaçosa sala de jantar, servida por ampla e moderna cozinha. Os aposentos comuns realçavam-se pela modernidade e conforto do mobiliário, assim como merecia nota de particular destaque a sua bem distribuída e sofisticada iluminação. Possuía ainda dois magníficos e muito extensos terraços, o maior dos quais debruçado sobre a praia.
O Hotel da Praia da Rocha além de ter sido um dos melhores do país foi também um dos mais frequentados, pois que o seu gerente, José Jacinto dos Santos sabia cativar os clientes com a sua amabilidade, a sua prestimosa e diligente atenciosidade, a sua esfuziante alegria e elegância de trato. Outro dos trunfos da empresa era o sócio Adelino Rocha, cuja simpatia envolvia de carinho e reverência todos os clientes do Hotel, que nos anos iniciais pertenciam à melhor estirpe social, sendo em parte gente da finança e dos negócios que visitava a nossa província.
Não esqueçamos que o Grande Hotel servia de apoio ao Casino da Praia da Rocha, cuja inauguração das obras de remodelação se efectuaram na mesma data. O preço da diária no Hotel partia duma base de 20$00 a que acresciam os custos do serviço de mesas.
Por sua vez a Sociedade da Praia da Rocha, adjudicou em finais de Junho de 1934 à Empresa do Casino Internacional da Foz do Douro – que já explorava o jogo na zona da Povoa de Varzim - os direitos de exploração do jogo no Casino da Praia da Rocha. Nessa altura, aquela empresa do norte mandou logo remodelar as instalações do velho edifício do casino da Praia da Rocha, para assim se adaptar aos tempos modernos e oferecer melhores condições de conforto aos seus clientes.
Para terminar, importa referir que o Grande Hotel foi construído no local onde outrora se encontrava o modesto Hotel Viola, verdadeiro precursor do turismo balnear na Praia da Rocha. Ao seu lado direito figurava, nos anos quarenta, o não menos imponente Hotel da Bela Vista, que rivalizava, ainda que não em qualidade, com o Grande Hotel.
Nos inícios da República, por volta de 1912, o Hotel Viola, mas sobretudo o próprio Casino da Praia da Rocha animava os seus clientes com animados bailes, muito chiques e na mais requintada exuberância da moda com alegres polcas, mazurcas e sobretudo valsas a dois e três tempos, dançadas com rigor, habilidade e romantismo. Nesses bailes eram eleitos os melhores dançarinos, que eram premiados com interessantes trofeus, depois cantados em satíricos versos ou gazetilhas de Jerónimo Buísel, recitadas por sua filha Maria Isabel nas noites dançante do velho casino.

J. C. V. M.

sábado, 18 de julho de 2009

Testamento à Mãe Soberana


Quando em Março de 1946 se procedeu à abertura do testamento de Manuel Joaquim Pedro, morador no sítio do Poço do Peso na freguesia de S. Sebastião em Loulé, que acabara de falecer solteiro com 61 anos e sem herdeiros directos, verificou-se com alguma estupefacção que aquele cidadão deixara o grosso da sua fortuna à Mãe Soberana, avaliado nesse ano em dois mil contos.
Das disposições testamentárias extractamos a parte que confirma aquela doação:
“Deixo os meus bens à Comissão Administrativa da Senhora da piedade, com obrigação de não poderem vender ou por qualquer forma alienar os mesmos bens, e o seu rendimento ser exclusivamente empregado em obras do Culto ou festas a favor da Padroeira, fazendo todos os anos uma festa junto da respectiva Ermida e distribuindo-se, no dia anterior ao da festa, a quantia de 500$00 em dinheiro aos pobres...”
“... que todas as disposições feitas a favor da Comissão Administrativa serão fiscalizadas pela Autoridade Administrativa do Concelho.”
Pelos vistos esta doação ocorreu ao legador como forma de arrependimento da sua maneira especial de ser e, sobretudo, pela vida dissoluta que levava.
Este legado à Mãe Soberana tem sido alvo de acesa discussão, deixando a Comissão Administrativa na posse de uma fortuna, hoje avaliada em alguns milhões de euros, cuja rendimento não parece ser significativo mas cuja transacção deixaria à Igreja um avultadíssimo pecúlio.

J.C.V.M.

PINTURA = POESIA NAS ROTAS DO SUL


J. C. Vilhena Mesquita

Esta é uma das raras obras que se podem dividir em 3 partes distintas, como se tratasse de uma trindade artística do humanismo renascentista. Por um lado o Autor, como criador e mestre que se expõe e entrega sem o receio da revelação, nem o temor da crítica; por outro a Poesia como um refulgir de sentimentos, um bouquet de emoções entre os sons, o brilho e as cores das palavras; por fim a Pintura, mater expressão de visões incontidas e exorcismadas na tela, materialização de sonhos que a alma revela nos matizes da elegíaca criação. A obra é una e indivisível, mas a força perscrutante do crítico vai mais longe e separa-lhe os vectores que consolidam a estrutura, como que tentando dissecar-lhe a alma e descobrir os segredos da criação.
Comecemos então pelo autor. Conheci Manuel Ribeiro há cerca de dois anos. Impressionou-me a sua vivacidade aliada a uma perspicácia aguda, que não esconde uma inteligência relampejante. Sensibilizou-me a sua natural jovialidade e invejável força de viver, espelhada e transmitida numa diversificada produção artística, que sem rodeios fez questão de me revelar. Intrigou-me este seu tardio acordar, esta sua vontade de se dar ao mundo no outono da vida. Mas depressa me explicou que só agora, depois de estreitar distâncias, de comungar culturas e de consumar as obrigações naturais da missão terrena, pode finalmente assentar arraiais para meditar sobre os mistérios da existência e as injustiças dessa imperfeita argila em que foi modelada a figura humana. A poesia e sobretudo a pintura que sempre o acompanharam na odisseia da vida, como irmãs gémeas dum intrínseco harém, sentia-as agora cada vez mais sedutoras, mais prementes e compulsivas.
O homem dos conhecimentos técnicos, que queimou as pestanas e viu caiarem-se as cãs debruçado sobre o estirador de trabalho, que se deixou enlevar na apaixonante quimera do pedagogo que ensina, forma e modela personalidades juvenis, viu agora num patamar mais elevado do tempo chegado o momento de serenamente se entregar às musas e adormecer ao som dos idílicos acordes da cítara de Orfeu.
A arquitectura, a engenharia, o cálculo matemático e a abstracção geométrica dos espaços mensuráveis, preencheram a sua vida e ainda hoje lhe invadem de saudade a alma que o tempo espalhou pelos quatro cantos do mundo. As horas de ócio e lazer preenche-as agora na criação do belo, porém não deixou de continuar a prestar o melhor do seu esforço e da sua disponibilidade à comunidade que o acolheu neste iluminado recanto de artistas e poetas. Não podia, pois, ter escolhido melhor refúgio para erigir um altar às musas do que este sereno e resplandecente Algarve, este alegre e preguiçoso rincão adormecido ao sol.
Olhemos agora para a sua criação lírica.
Os poemas que li neste livro revelaram-me a presença de um sonhador, suspirando pelos mesmos ideais com que os deuses combateram o caos, convencionaram os cânones, erigiram a perfeição e construíram a harmonia. A mesma harmonia que nos fez idealizar a paz. Mas foram os deuses que arquitectaram o paraíso não foram os homens. Os homens perderam-se nos podres meandros da imperfeição, congeminando ódios, arquitectando vinganças, instilando invejas e infligindo sofrimentos. Atento e discordante, Manuel Ribeiro revolta-se em metafóricas rimas de poeta conceptual, urdindo recorrências, adições e oposições, estabelecendo aqui e ali paralelismos léxico-semânticos, como se na imbricada tessitura das palavras coubesse um mundo perfeito, de homens imaculados como anjos. Que bom seria sentir na poesia a verdade das coisas e a realidade da vida. Nessa frustração de acordar entre as quimeras do poema, fica-nos o perfume das palavras como um trago do néctar em que se consubstancia o mistério da poesia. Terras, paisagens, figuras e monumentos, lugares, prazeres e liberdades, sons, aromas, visões e fantasias, tudo isto está presente e patente nos poemas de Manuel Ribeiro.
Os quadros, desenhos, óleos e aguarelas que ilustram esta obra ajudam a introduzir os poemas, mas não os superam. Uns são meras ilustrações, na forma figurativa como rodeiam os conceitos e a musicalidade das palavras embebidas no subterfúgio da rima poética. Outros são abstracções puras, sem forma nem movimento, mas prenhes de cor e vivacidade. São também poemas, sem outras palavras que não sejam a policromia refulgente das tintas esbatidas, esfumadas, adormecidas. Técnicas clássicas, experiências modernistas e renovações impressionistas, fazem recriar o belo numa orgia de luz e cor, como uma girândola de sensações que nos enleva nas asas do elegíaco nirvana.
Este livro é seguramente um polígono de múltiplas faces, que só a nossa imaginação, a magia das palavras e o brilho das cores nos proporcionarão o inestimável prazer da sua companhia.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casa de João de Deus em Messines


Existe em S. Bartolomeu de Messines, terra da naturalidade do grande poeta João de Deus, a forte convicção de ter nascido numa casa térrea, onde aliás se encontra hoje colocada uma lápide e um medalhão assinalando o facto de ter sido ali o seu primeiro berço.
Ora bem, parece que essa afirmação e a lápide de homenagem incrustada na humilde casa térrea, não parece corresponder inteiramente à verdade dos factos.
Segundo parece, o próprio poeta terá contado a seu filho, o Dr. João de Deus Ramos, que a casa onde nasceu é aquele prédio nobre fronteiro à Igreja matriz, onde hoje se acha instalada a sua Casa-Museu.
Com efeito os pais do poeta João de Deus, quando se casaram foram viver para aquela humilde casa térrea, cujo traço arquitectónico é do mais comum e popular que se conhece na região. Há muitas casas na aldeia iguais àquela. Nos primeiros anos de vida do casal tanto as possibilidades como as ambições económicas não eram muitas, pelo que a pequenez da habitação satisfazia as suas mais imediatas necessidades.
Naquela casa humildes nasceram os primeiros filhos do casal, que como se sabe foram catorze, dos quais só metade sobreviveram. Um dos primeiros filhos chamou-se João de Deus, e nasceu naquela casa térrea. Porém, não resistiu e faleceu pouco depois. Seguiram-se outros filhos e como a prole aumentasse e as possibilidades económicas tivessem melhorado resolveu mudar-se para uma casa maior, precisamente aquela que hoje se converteu em museu e biblioteca.
Foi nessa casa que nasceu o poeta João de Deus, que era o quinto filho de entre os que efectivamente sobreviveram. Os pais, em homenagem ao irmão que havia falecido quase à nascença, resolveram baptiza-lo com o mesmo nome. Portanto foi na “Casa Grande” junto à Igreja Matriz que nasceu o cantor das Flores do Campo, não tendo pois qualquer fundamento a ideia popular que ainda subsiste relativamente à casa térrea.

J.C.V.M.

terça-feira, 14 de julho de 2009

João de Deus, o Camões do Algarve


Quando as tropas napoleónicas invadiram pela primeira vez o nosso país em 1808, o seu comandante em chefe, general Junot, sendo uma pessoa culta e admiradora do nosso passado histórico, depressa se apercebeu que no Algarve havia uma certa propensão para a poesia, cujos habitantes vivendo numa terra próspera e benigna eram grandes admiradores de Camões, por ser o primeiro e mais notrável vate da língua pátria.
Não sei se por natural constatação, consciência da realidade ou se por galanteria política, o certo é que numa “Proclamação aos Habitantes do Reino de Portugal” aquele general francês, e futuro Marquês de Abrantes, afirmou que “les provinces d’Algarves... auront peutêtre un jour leur Camoens”
Aproveitando esse presságio, o erudito poeta Joaquim d’Araújo (1868-1917), um dos mais notáveis da geração romântica de Coimbra nos anos noventa, amigo íntimo de Gonçalves Crespo, Guilherme de Azevedo, António Feijó, Guerra Junqueiro e João de Deus, dedicou ao poeta algarvio um soneto em que lhe atribuiu a honra de poder considerar-se o Camões do Algarve. Não resistimos à tentação de transcrever esse soneto:


Tem um sorriso límpido e tranquilo,
Cheio d’amor, de transparência e luz,
Que nas serenas telas de Murilo
Brilharia na face de Jesus.

Não se cansa ninguém jamais de ouvi-lo,
De si derrama pérolas a flux,
O seu olhar é um luminoso asilo,
Que veste os rotos e agasalha os nus.

Ó cismador de Heresta e de Marina!
Há nessa tua palidez divina
Um quê sombrio de tristeza e dó.

E eu ao ver o teu vulto austero e doce
Digo comigo: - Enfim realizou-se
A espanholada imensa do Junot...

Joaquim d’Araújo

Hotel Aliança, futuro Hotel Faro


Abriu ao público, a 1 de Março de 1946, o Hotel Aliança, construído por José Pedro da Silva, um empresário a quem o turismo algarvio e a cidade de Faro muito devem.
O edifício estava concluído desde há alguns anos atrás, mas razões que desconhecemos protelaram a sua inauguração e abertura ao público.
A cidade de Faro, passou assim a dispor de um novo e moderno equipamento hoteleiro para fazer face às solicitações dos visitantes estrangeiros, que enfastiados com as deficientes condições de alojamento que lhes eram propostas demandavam o barlavento, nomeadamente a Praia da Rocha, quando não partiam imediatamente para Espanha.
O Hotel Aliança, que mais tarde se viria a designar por Hotel Faro, dispunha de 36 quartos, com luz eléctrica, casas de banho privativa, águas quentes e frias, mobilados com requinte e comodidade. A gerência do mesmo foi entregue ao Sr. Domingos dos Santos Gomes, um técnico bastante experimentado em hotelaria.
No acto da inauguração foi servido um “Porto de Honra” aos convidados e ás autoridades sediadas na cidade, tendo como ponto alto um espectáculo apresentado pela Tuna Académica de Coimbra, especialmente convidada para o efeito.
O autor do projecto de construção do edifício do Hotel Aliança foi da autoria do Eng.º Sena Lino, sendo adjudicada a construção do mesmo à empresa Soromenho & Rosa.
O acto público de inauguração do edifício foi presidido pelo Governador Civil, Dr. Antero Cabral, que num brilhante discurso frisou que a partir daquele momento já se podia falar em Turismo na cidade de Faro, facto que em larga medida se ficava devendo ao investimento do farense José Pedro da Silva, proprietário do café Aliança e da mercearia do mesmo nome num conjunto de edifícios que ainda hoje existe, com ligeiras alterações arquitectónicas, nomeadamente no próprio hotel, de duvidoso gosto artístico.

J.C.V.M.

História do Golfe no Algarve - o primeiro campo na Praia da Rocha


Numa notícia publicada no «Correio do Sul» n.º 798 de 12-6-1932 tomamos conhecimento que a empresa do Grande Hotel da Praia da Rocha, para fazer face aos pedidos dos seus numerosos clientes ingleses, pensava a breve trecho vir a construir um campo de golfe. Alguns dos seus clientes vinham expressamente de Londres para gozar da amenidade do nosso clima, razão pela qual havia que lhes proporcionar condições apropriadas ao seu bem estar e lazer. Ora a prática do Golfe, embora raramente praticada no nosso país estava muito divulgada n os países anglo-saxónicos.
Por isso se pode ler nessa notícia:
“Um campo de «golf» constituiria uma atracção de primeira grandeza para os turistas de todas as nacionalidades e até para muitos nacionais, entre os quais toma incremento notável o culto desse jogo interessantíssimo. Próximo da Rocha há mais de um local esplêndido para estabelecer um campo de «golf» e vários «courts» de ténis.”

Na edição do «Correio do Sul», n.º 832 de 5-2-1933 publica-se um curioso artigo intitulado “É preciso construir um campo de golf na Praia da Rocha”, que vem no seguimento do anterior publicado seis meses antes. A única coisa que acrescenta de novidade é que no Hotel da Praia da Rocha se encontravam hospedados 30 ingleses e 3 franceses, mas que para ocupar o tempo aos turistas havia que construir campos de golf e de ténis. Para isso alertava a Câmara de Portimão e a Comissão de Iniciativa da Praia da Rocha para a hipótese desses equipamentos poderem ser subsidiados pelo Estado, mormente pelo ministério das Obras Públicas com verbas do Fundo de Desemprego.

O «Correio do Sul» na edição n.º 1059 de 4-7-1937 voltou à carga com uma nova notícia intitulada “Um campo de golf na Praia da Rocha” com transcrição de opiniões abalizadas.
O «Correio do Sul» na dição n.º 1072 de 3-10-1937 publica uma “local” onde refere já existir nesse ano um “Clube de Golf da Praia da Rocha” cuja direcção do mesmo decidiu “recomeçar as obras de preparação do novo campo de Golf na próxima segunda-feira, esperando abrir o campo até ao fim do corrente ano». E acrescenta logo a seguir: «Como se espera a concorrência de muitos estrangeiros para o próximo inverno, será uma boa ocasião para fazer a prova de que na verdade este desporto constitui um grande atractivo para a colónia estrangeira.»

Noutra local publicada a 24-10-1937 diz-se que o Clube de Golfe da Praia da Rocha trabalhava afincadamente na construção do campo de Golf, tendo-se entretanto inscrito mais de sessenta sócios, interessados naquela prática desportiva. A Casa de Portugal em Londres, escreveu pela mão do seu gerente, A. Mendonça, àquele Clube uma carta na qual afirmava: «A conclusão do Campo de Golf deve ser também uma atracção capital para os ingleses, e estamos certos que as somas despendidas com este serão altamente justificadas».
A Sociedade Praia da Rocha, em cujo seio nasceu o Clube de Golfe da Praia da Rocha, encarregou-se de convidar a visitar os terrenos destinados à construção do campo de golf um especialista inglês, mais propriamente o arquitecto Mackensie Ross, que na altura estava a construir o Campo de Golf do Estoril. O terreno escolhido situava-se junto à foz do rio Arade, sendo um antigo areal facilmente convertido em verdejante relvado, com pequenos acidentes naturais, constituídos por dunas, pântanos, árvores, etc.
O referido arquitecto inglês apresentou um projecto para ser realizado conforme s possibilidades financeiras do Clube e da Sociedade da Praia da Rocha, que para o efeito conseguiu adquirir 25 hectares de terreno. Após a obtenção do alvará, das licenças camarárias e outros documentos, o Clube de Golfe arrendou à Sociedade Foz do Arade, pelo período de 19 anos e por uma renda mínima de cem escudos por ano, todo aquele terreno, onde efectivamente se construiu em 1937 um campo de golfe, que servia minimamente os interesses dos turistas ingleses que nos visitavam.
Mas logo no ano seguinte seria eleita uma nova direcção do Clube de Golfe que estranhamente se desinteressou das suas obrigações mínimas, deixando inclusivamente de pagar a renda de aluguer do campo.
A Sociedade Foz do Arade ainda tentou negociar com o Clube um novo contrato para recuperar aquela actividade turística, mas a direcção do mesmo pura e simplesmente se alheou de tudo, decidindo inclusivamente extinguir o Clube. A Sociedade vendo a inoperância do arrendatário tomou posse do imóvel. Em 1940 um grupo de 25 sócios do antigo Clube de Golfe elegeu uma comissão constituída pelo Dr. Frederico Ramos Mendes, Dr. Ilídio Prazeres, Dr. Luiz Sabo e o Dr. Velho da Costa, a qual ainda tentou junto da edilidade recuperar as suas prerrogativas, o que não foi possível, sendo aconselhada a fundar um novo Clube com os sócios fundadores.
Seguiram-se novas conversações com a Sociedade Foz do Arade que se mostrou receptiva a renegociar um novo contrato para a entrega do campo de golfe.

J.C.V.M.

Salão e Café ALIANÇA, em Faro


Inaugurou-se a 19-10-1930 o “Salão Aliança” propriedade de José Pedro da Silva, o qual ficou equipado com três bilhares do mais moderno que existe, cuja decoração e equipamento preenche os mais elevados padrões ao nível do que melhor existe em Lisboa.
Em 12-6-1932 inauguraram-se as novas instalações do Café Aliança que davam para a Rua D. Francisco Gomes, nos moldes e aparência que ainda hoje ostenta. A remodelação e ampliação da antiga e modesta «Leitaria Aliança», ficou a dever-se ao moderno espírito de iniciativa empresarial de José Pedro da Silva, que desse modo passou a ser visto pela sociedade farense como um verdadeiro benemérito, pois que ao contrário dos ronceiros empresários locais, acreditava nas potencialidades da cidade, investindo avultados meios financeiros para transformar aquele humilde estabelecimento num amplo e bem iluminado café, ao nível dos melhores de Lisboa.
Data dessa altura a construção da sua monumental porta giratória, inspirada nos melhores estabelecimentos franceses, merecendo igual surpresa a amplitude das instalações, os modernos bilhares da sala de jogo, o seu excelente mobiliário, o bom gosto da decoração das paredes, a exuberante refulgência dos seus espelhos e sobretudo o artístico friso de fotografias da autoria de Zambrano Gomes, verdadeira galeria de propaganda das potencialidades turísticas do Algarve.

J.C.V.M.

Penicilina aplicada pela primeira vez em Faro


Foi o Dr. Arnaldo de Vilhena quem pela primeira vez aplicou a penicilina no Hospital de Faro, em 4-10-1944. Tudo se ficou a dever aos conhecimentos médicos daquele clínico que perante uma urgência não se coibiu de aplicar, ainda que experimentalmente a nova droga.
Com efeito, dera entrada no Hospital da Misericórdia de Faro um trabalhador de nome Manuel Rosa Benedito, morador no sítio do Patacão, que sofrendo de um antraz ali deu entrada de urgência. O caso alarmou o corpo clínico porque se agravava progressivamente numa infecção geral que punha a sua vida em perigo. O director clínico do Hospital, Dr. Arnaldo Vilhena, receando o pior, telegrafou para a Cruz Vermelha em Lisboa a fim de lhe enviarem algumas ampolas de penicilina. Aquela instituição de assistência, enviou pelo comboio correio dessa noite duas ampolas de 2.000 unidades de penicilina que foram administradas ao doente na manhã do dia 4 de Outubro de 1944, em sucessivas e graduais pequenas doses, notando imediatas melhoras no paciente, cuja temperatura no dia 8 de Outubro era já estável, debelando-se assim a infecção que parecia mortal.
A partir de então, e perante a demonstração da sua eficiência, passou a administrar-se a penicilina aos doentes com infecções perigosas.

J.C.V.M.

Transfusões de Sangue no Hospital de Faro


Começaram a fazer-se as primeiras transfusões de sangue no Hospital de Faro por iniciativa do Dr. Francisco Corte Real em Janeiro de 1930. Numa local do «Correio do Sul» n.º 674 de 19-1-1930 dá-se conhecimento das primeiras experiências efectuadas por aquele clínico assim como um apelo para a colheita de sangue e inventário de dadores, pois que teria de ser previamente analisado para verificar a compatibilidade com os doentes.
É a primeira vez que se vislumbra a criação de um banco de sangue em Faro e no Algarve.
Convém acrescentar que este médico era precisamente o Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que antes de vir para Faro nos primeiros dias de 1930, exerceu clínica na cidade de Portimão, onde inclusivamente recebeu uma homenagem pela Câmara Municipal e um banquete realizado na Praia da Rocha por ocasião da sua despedida daquela cidade e dos seus reconhecidos doentes.
Numa outra local do «Correio do Sul» n.º 680 de 2-3-1930 consta que às 14 horas de 26-2-1930 realizou-se no Hospital da Misericórdia de Faro a primeira transfusão de sangue operada pelo Dr. João da Silva Nobre que durante uma intervenção cirúrgica a que foi submetida Custódia de Jesus, de 23 anos, casada a residir em S. Brás de Alportel, sofreu várias hemorragias colocando-a em grave perigo de vida, razão pela qual se recorreu a um dador registado com o mesmo tipo de sangue, na circunstância o então vogal-tesoureiro da Mesa da Santa Casa da Misericórdia e conhecido poeta Manuel Urbano Alves, que foi muito felicitado pela forma pronta e decidida como se ofereceu para salvar aquela jovem doente. Acresce dizer que nessa altura também se ofereceram como dadores o tenente Manuel Caetano de Sousa, distinto publicista e director do semanário «A Moca...», o que demonstra serem as pessoas mais cultas e devidamente esclarecidas as primeiras a entregarem-se ao nobre gesto de doarem o seu sangue, sem receios nem temores de qualquer espécie.
J.C.V.M.

Prémios escolares Coronel Brandeiro


Uma das mais esquecidas mas não menos brilhantes figuras da história militar algarvia, foi o coronel do exército António Joaquim de Mendonça Brandeiro, natural de Faro que faleceu em 1943 em Lisboa. Foi um militar de nobilíssimas virtudes cívicas, modelar altruísmo e bondosíssimo carácter, que sempre desejou o melhor para os seus concidadãos, assim como o mais elevado progresso para a sua terra natal.
Certamente por essa razão é que à hora da morte legou à Junta de Província do Algarve a significativa soma de 200 contos, a fim de com o seu rendimento bancário se instituírem quatro prémios pecuniários para galardoar os rapazes pobres ou de humildes origens, filhos de famílias legitimamente constituídas, que fossem nascidos e criados em Faro, os quais se houvessem distinguido nos vários cursos professados nas escolas desta cidade.
A indicação dos nomes deveria ser fornecida pelos corpos docentes das escolas, devendo a atribuição dos prémios ser feita em primeiro lugar aos estudantes da freguesia da Sé, e só na sua falta aos das outras freguesias do concelho. A concluir o seu testamento inscrevem-se as seguintes palavras que justificam o objectivo e alcance desta doação:
“Com este legado tenho o duplo fim de modestissimamente mostrar o devotado interesse e saudade que, embora afastado, sempre senti pela minha terra natal e de, por selecção, promover a formação de cidadãos que a honrem e à pátria de que somos filhos.”
Os galardões escolares receberam a designação de “Prémios Coronel Brandeiro”, passando a ser atribuídos a partir de 1947. deste modo pensava o instituidor poder ser lembrado para todo o sempre como um cidadão que se preocupou com a educação e desenvolvimento intelectual dos jovens seus concidadãos. Conhecendo a actual realidade, creio que se enganou redondamente, porque hoje já ninguém se lembra dele nem tão pouco esses prémios estão a ser atribuídos.
Pergunta-se agora: onde pára o legado do coronel Brandeiro? Quem foi o responsável pela extinção do legado? Porque não se reabilitam os prémios escolares com o seu nome, dotando o Governo Civil de uma verba cujo rendimento anual possa ser empregue para o mesmo fim.

J.C.V.M.

Hospital de Oncologia, em Portimão


Em 1946, o major David Rodrigues Neto, um contumaz nacionalista que escreveu alguns textos polémicos contra o “regabofe” republicano, teve um gesto de altruísmo que veio demonstrar à saciedade não só a sua generosidade como ainda a superioridade do seu carácter.
Esse gesto consistiu na doação ao Instituto Português de Oncologia de uma vasto terreno em Portimão, para nele se instalar o centro de diagnóstico e tratamento do cancro. A escritura de doação do terreno foi firmada a 22-10-1947, pelo outorgante doador, pela sua esposa D. Maria Firmina Júdice de Abreu Neto e pelo chefe da secção de finanças de Portimão, em representação do Estado, tendo assistido ao acto o governador civil do distrito, Dr. Antero Cabral. A escritura foi lavrada nas notas da Dr.ª Mariana Carapeto dos Santos Patrício, notária naquela cidade, na qual se definiu que o terreno doado ao Instituto Português de Oncologia tinha 15.000 m2, situado no sítio de S. Sebastião, junto à estrada para o Alvor, no qual aquele Instituto se responsabilizaria pela construção de uma unidade hospitalar para o combate ao cancro, a qual na altura ficou orçada em 12 mil contos.
Creio que o mesmo veio ou não a ser aproveitado para o fim em vista. Em todo o caso a oferta do terreno para o desenvolvimento da saúde em Portimão é uma prova do seu altruísmo e amor regionalista.
J.C.V.M.

Praia da Rocha a mais bela de Portugal


A escritora, poetisa e notável publicista que foi Fernanda de Castro, falecida em 1994 em vetusta idade, que todos conheceram como esposa de António Ferro (Secretário Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, grande divulgador no estrangeiro da figura política e intelectual de Salazar), dirigia por volta dos anos quarenta em Lisboa uma revista na qual criara uma secção feminina onde se propunha responder a todas as questões colocadas pelas suas leitoras. As perguntas eram as mais variadas, geralmente do foro feminino, que Fernanda de Castro respondia sem o menor rebuço, mas sempre com muita elevação e cortesia.
Uma das perguntas colocadas foi esta: Qual é a mais linda praia de Portugal? Sem subterfúgios nem a mais ligeira hesitação respondeu:
«Sem dúvida a Praia da Rocha. A não ser talvez as praias da Bretanha, não sei de outras que em beleza se lhe possam comparar. A Praia da Rocha é a praia das rochas, como a Costa [da Caparica] é a praia das dunas. Estoril a praia do sol e Vila do Conde a praia das conchas.
Cada praia tem a sua fisionomia, o seu encanto. A Praia da Rocha tem-no nas sua rochas, templos e precipícios, pirâmides e cabeças de esfinge, perfis humanos e corpos monstruosos. A terra vermelha que o mar lava todos os dias é a patine desta rara arquitectura.
A Praia da Rocha, o promontório de Sagres e as flores de amendoeira são, para mim, os três milagres do Algarve.»

J.C.V.M.

Deputados Algarvios eleitos para o Parlamento em 1925


Nas últimas eleições democráticas realizadas durante a primeira República, isto é, no derradeiro sufrágio legislativo que precedeu a revolução do 28 de Maio de 1926, através da qual se impôs a ditadura militar e se abriram portas à institucionalização do Fascismo em Portugal, resultou uma representação algarvia nunca antes vista, nem mesmo depois do «25 de Abril». Elegeram-se doze deputados nascidos no Algarve, em representação de diversos círculos eleitorais espalhados pelo país, os quais se distinguiram ao longo da vida como cidadãos eticamente impolutos, e de grande notoriedade intelectual.
Faz inveja, quando comparado com os tempos de hoje, vermos tão valioso naipe de ilustres personalidades a representar o Algarve na Assembleia da República.
Para que conste, e sirva de exemplo, informamos que os trabalhos parlamentares iniciados em 2 de Dezembro de 1925 contaram com a presença de doze deputados algarvios, na representação do seguintes círculos eleitorais:
Dr. Silvestre Falcão e coronel Rego Chagas eleitos senadores pelo Algarve;
Dr. Júlio Dantas, eleito deputado pelo círculo de Leiria;
Coronel Estevão Águas, Dr. Luiz Faísca e capitão de mar e guerra José Mendes Cabeçadas, todos eleitos deputados por Silves;
Manoel de Sousa Coutinho, Zacarias da Fonseca Guerreiro e o Dr. Carlos Fuzeta, eleitos deputados por Faro;
Velhinho Correia, por Timor;
General Alberto da Silveira, por Lisboa;
Dr. João Carvalho, por Setúbal.

Creio que nunca antes existiu tão notável e numerosa representação algarvia no parlamento português. Para aqueles que ignoram os percursos de vida destes notáveis cidadãos, aconselhamos a que pesquisem na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira as respectivas biografias.

J.C.V.M.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Casa de Espanha no Algarve

Em 13-1-1929 o antigo Círculo de Espanha, que se havia fundado em Faro pela comunidade espanhola aqui residente, decidiu em assembleia geral adoptar a designação de «Casa de Espanha no Algarve», procedendo de imediato à eleição da sua Junta Directiva, constituída pela seguintes personalidades: Manuel Valverde (presidente), Juan Perxes (vice-presidente), Ricardo Montes (tesoureiro), Jaime Company (secretário), Manuel Leandro e Rafael Dias Cortada (vogais).
Todos estes indivíduos foram empresários bastante considerados pela sua competência profissional, inteligência e grande admiração pelo nosso país, que se fixaram com sucesso na cidade de Faro, inscrevendo-se naquela instituição vários compatriotas seus que se radicaram noutras localidades do Algarve.
O presidente da Junta Directiva, Manuel Valverde, era o magnata proprietário da Central Eléctrica Farense, figura muito distinta, da primeira sociedade local, e de reconhecida benemerência. Os seus descendentes, que prosseguiram o negócio da distribuição de electricidade á cidade, acabaram por aceder à pressão do governo para nacionalizar a rede eléctrica, saindo do Algarve para a Andaluzia natal. Julgo que não existem hoje descendentes directos deste Manuel Valverde, que obviamente não conheci, mas de quem possuo uma caricatura feita a lápis pelo Sidóneo, um dos maiores artistas plásticos do Algarve, cuja memória também já vai caindo no esquecimento.
A central eléctrica do Valverde produzia energia através de enormes geradores (creio que de origem alemã) movidos a fuel-oil, os quais faziam um barulho impertinente e quase insuportável. Para além disso provocavam uma enorme poluição, injectando os gases directamente na atmosfera, através duma chaminé, que por não ser muito alta, inundava com dióxido de carbono o Largo da Sé, a tal ponto que nas noites húmidas de Inverno quase intoxicavam os jovens internos do contíguo Seminário de S. José. Por isso é que as muralhas do velho Castelo, restauradas em 1940, por ocasião das Comemorações dos Centenário, causaram grande espanto aos técnicos dos Edifícios e Monumentos Nacionais, porque não esperavam vê-las assim... quase tisnadas.


J.C.V.M.

Mercado Público de Faro

Quando se concluiu que as instalações do velho Mercado das Hortaliças - situado onde hoje se encontra a Caixa Geral de Depósitos - e que a Praça do Peixe, contígua à Lota - situada na zona do cais, junto à "Porta do Socorro", próximo da antiga central eléctrica (hoje Museu da Ciência), adossada ao actual quartel dos Bombeiros Municipais – eram insuficientes e estavam desactualizadas face às exigências de asseio e de higiene pública, a edilidade decidiu mandar construir um novo e moderno edifício para nele instalar o mercado municipal. O custo previsto das obras foi calculado em 2500 contos, verba que a autarquia não possuía, obtendo permissão do Estado para contrair junto da Caixa Geral de Depósitos e do Crédito e Previdência, um empréstimo de 1400 contos.
O local escolhido foi o chamado campo de S. Luís, com um largo projectado para a antiga “estrada da circunvalação” que confina com a actual Rua Dr. Cândido Guerreiro.
O local é precisamente aquele onde o vimos ser recentemente demolido para nele se implantar um imóvel moderno, funcional e adaptado às actuais exigências comerciais. O custo deste novo imóvel foi obscenamente avultado, e a sua inauguração arrastou-se por tanto tempo que cobriu de vergonha a edilidade farense. E mais não digo...

Inauguração do Esplanada São Luís Parque, em Faro


Inaugurou-se em Faro no dia 1 de Julho de 1950 a esplanada “S. Luís Parque” mandada construir pela empresa do Cine-Teatro Farense, dotando assim a cidade de um espaço apropriado para a realização de espectáculos durante a temporada de Verão, que decorria entre meados de Junho e finais de Setembro.


A localização, a extensão e comodidade do recinto permitiu às autoridades competentes na matéria qualificá-la como a melhor do país, tendo em consideração que reunia os meios necessários para a realização de todo o tipo de espectáculos, desde a projecção de cinema, a representação de peças de teatro, espectáculos desportivos (boxe, por exemplo), récitas estudantis, espectáculos de variedades, festivais de folclore, bailes, festas dos santos populares, etc. Em suma, previa-se que assumisse um papel fulcral nas actividades culturais e recreativas da cidade durante a época de Verão, numa altura em que a indústria do turismo começava a dar os primeiros passos.
Para a festa da inauguração, ocorrida a 1 e 2 de Julho de 1950, organizou-se um programa festivo no qual tomaram parte a orquestra dirigida pelo maestro Fernando de Carvalho, as artistas Júlia Barroso (algarvia muito conhecida e apreciada), José António, Maria do Carmo, Maria Pazzo, Graciette Melo e Rui de Mascarenhas, num misto de fados e canções, tão do agrado popular. Para apresentar os artistas, animar o público e quebrar a saturação musical, actuaram também dois grandes artistas da rádio e conhecidos comediantes do teatro de revista, Humberto Madeira e Miguel Simões, que depois de fazerem algumas burlescas imitações de figuras populares, procederam a um hilariante “sketch” composto em verso, entre o “sr. Lucas e o Dr. Matias”, no qual retratavam, num finíssimo humor negro, algumas das mais conhecidas figuras da região. Acompanhava os artistas solos de viola executados por Alfredo Costa. A noite encerrava com um animado baile.
O cinema, propriamente dito, só foi inaugurado a 3 e 4 de Julho com a projecção do célebre filme «Joana d’Arc», interpretada pela consagrada artista Ingrid Bergman, que teve casa cheia, numa agradável noite de temperatura quase tropical.
Creio que, infelizmente, os nomes dos artistas aqui citados já não fazem parte do mundo dos vivos. Também infelizmente já não existe a magnífica Esplanada de Faro, onde nos finais dos anos setenta ainda cheguei a ver algumas fitas, que por serem reprises tinham a plateia quase às moscas, ou melhor, aos mosquitos... Também ali ouvi Júlio Iglésias num espectáculo memorável e também por ali passaram vários artistas da nossa moderna canção.
Esta pequena nota serve para avivar a memória dos farenses que no antigo Cine-Esplanada viveram momentos de prazer e de felicidade, lamentando que no mamaracho denominado “Alhandra”, implantado naquele espaço, não exista um pequeno estúdio de cinema com o nome de “S. Luís Parque”.

J. C. V. M.

Duas quadras (pouco conhecidas) do poeta António Aleixo


No semanário farense «Correio do Sul», n.º 1367 de 27-6-1943, pode ler-se a propósito das Festas de S. João realizadas no Jardim da Alameda, que se efectuou um concurso de quadras populares, no qual o então ainda desconhecido poeta António Aleixo obteve o 2.º lugar, com esta quadra:

S. João – reparem nisto –
teve este grande condão
ao baptizar Jesus Cristo
foi quem fez Cristo cristão.

Não sei se esta quadra está recolhida na obra póstuma, Este Livro que vos deixo (1969), ou no volume de Inéditos (1979). Mas se não consta nas referidas obras também não se perdeu muito, porque, valha a verdade, a quadra não é lá grande coisa.
A título de curiosidade, acrescente-se que nas festas são joaninas desse ano (cujo produto revertia a favor do Hospital da Misericórdia) actuou a fadista Amália Rodrigues, tendo desfilado, pelas ruas da baixa citadina até ao Jardim da Alameda, as marchas do “Bonjoanense” com música do Dr. Francisco Evaristo e letra do poeta António Aleixo; também desfilaram a “Marchas do Montenegro”, com música de João Calvário e letra de Joaquim Vicente Júnior; a “Marcha das Pontes”, com música de A. da Silva Domingues e letra de Joaquim Vicente Júnior; a “Marcha do Alto de Rodes” com música de Herculano Rocha e letra do consagrado poeta Victor Castela. As quatro marchas executaram depois em conjunto a “marcha da cidade” com música e letra de Aníbal Guerreiro, que foi um prestigiado jornalista, escritor muito apreciado e um notabilíssimo empresário de viação, fundador da EVA, que é ainda hoje uma das maiores empresas rodoviárias do nosso país.

Acresce dizer ainda que, conforme consta no quinzenário «Voz de Loulé», n.º 47 de 1-11-1954, na p. 3, coluna intitulada “Chistes Louletanos”, assinado com o pseudónimo de “Bendisposto”, o poeta António Aleixo, referindo-se a pessoa muito conhecida naquela vila, teria pronunciado a seguinte quadra:

Entre leigos e letrados
Fala só de vez em quando
Que nós às vezes calados
Dizemos mais que falando.

Não sei se esta quadra está inédita ou se foi recolhida na obra completa do nosso emérito poeta popular. O que sei é que está muito boa, não só na sua silogística filosófica, como principalmente no seu cunho crítico de profunda acintosidade social. O conselho expresso nesta quadra evidencia a peculiar crítica social aleixiana: numa discussão entre ignorantes e sábios deve-se falar pouco e só a propósito, pois que para a contrariar, e evitar que se transforme numa verborreia estéril, o melhor é permanecer reprovadoramente em silêncio.


J. C. V. M.

domingo, 12 de julho de 2009

Quem se lembra, em Faro, do Preto Cauteleiro?


Não haverá hoje muita gente que se lembre ainda de um pobre africano, que o vulgo conhecia como o “preto cauteleiro”, que num passo arrastado pelo carregar da idade, percorria as ruas de Faro vendendo lotaria. O seu vozeirão africano ecoava pelas artérias do burgo apregoando a sorte grande. Como trunfo e imagem de marca apresentava a sua própria cor. Nesses anos já distantes, ver-se um preto na rua era um sinal de sorte. E mais seria se ele nos propusesse a venda dessa mesma sorte. Por isso o seu sucesso como cauteleiro estava garantido. Por outro lado era um homem afável e muito reverente, com uma inocência maior do que o seu próprio tamanho, e um sotaque de escravo africano, a que só o bronze da voz imprimia algum respeito.

Não temos notícia de que algum dia tenha efectivamente passado pelas suas mãos o bilhete premiado. Não obstante, pode dizer-se que tinha os seus clientes certos e que no meio das figuras típicas de Faro era talvez o mais acarinhado, pela sua amabilidade de trato e pela benigna paciência com que aturava os seus incómodos detractores. Na verdade, era muito comum nesse tempo ver-se a criançada na rua a increpar os que por incapacidade física ou mental sobreviviam da caridade alheia. Na sua maioria eram pessoas que tinham perdido a razão, que já haviam sido gente, mas que se tornaram em farrapos humanos pelas circunstâncias malignas da própria vida. Por isso não era raro ver-se o “Tio Pedro” açodado por um rebanho de miúdos que atrás de si o invectivava com dichotes e outros impropérios de índole racista.
Eram atitudes próprias daqueles conturbados tempos de miséria e de revoltado silêncio, em que o regime salazarista fizera mergulhar o país, retendo-o debaixo da hipócrita capa da santidade religiosa em que todos os pobres seriam recompensados com o “reino dos céus”. Não só aos pobres como aos dementes, aos inválidos como aos velhos, aos mendigos como aos inadaptados, estava um lugar garantido no paraíso dos céus.
Eram esses “pobre-diabos” - que aguardavam arrimados às esquinas da baixa farense a tal guia de marcha para o paraíso - que a “moçanhada” aperreava com afrontas e agravos numa selvagem açulada, que por vezes desfilava em cortejo pelas ruas da cidade. A burguesia do comércio e os transeuntes achavam graça, porque na citadina galeria das “figuras típicas” existia uma panóplia de exemplares receptivos a todo o tipo de ridicularização social. Havia-os para todos os gostos e feitios. Embora não os tivéssemos conhecido, sabemos que no tempo do “Tio Pedro” existiam , entre outros o “Rafina”, o “Baguinho de Milho”, o “Cabo Barulho”, o “Ferragudo”, o “Pedro Nabo”, o “Papa Ratos”, o “Mosquito Raivoso”, o “Caetano”, o “Não dá ná”, o “Pina”, o “Pra Engordar”, o “Francisquinho Queimado”, etc.
O infeliz do “Tio Pedro”, quando perseguido pelos impropérios da garotada que lhe chamava “preto”, “tição”, “escarumba”, reagia com santificada paciência pedindo-lhes que o deixassem em paz ganhar a vida, ou simplesmente ficava em silêncio com um olímpico sorriso de desprezo nos seus grossos lábios de africano.
Não sei em que ano veio viver para Faro. O que sei é que trabalhava para o antigo Hotel Louletano. Era vê-lo, fardado a rigor, com o monograma do hotel bordado na lapela e uma vistosa barretina de grumete, perfilado no cais da estação ferroviária, qual soldado de Mouzinho, publicitando numa algaraviada inspirada num folclórico corridinho, as qualidades do hotel para o qual angariava hóspedes. Muito solícito e cerimonioso carregava as malas para a tipóia do hotel ou chamava um táxi para transportar os clientes até ao alto da Madalena. Tornou-se tão conhecido e apreciado pela burguesia citadina que, quando se levou à cena no Cine-Teatro Farense a revista «Ora Toma» existia uma rábula, desempenhada pelo artista amador José Moreira, na qual personificava o “Tio Pedro” com a farda do Hotel Louletano, no seu hilariante linguajar de africano. Parece que o “Tio Pedro”, embora achando piada ao quadro revisteiro, se queixou ao José Morreira de ter carregado na cor e de o pintar mais de preto do que ele era na realidade.
Nos finais de Março de 1954, morreu em Faro o “Tio Pedro”. Ninguém sabia a sua idade. Dizia quem o conheceu, ainda no tempo da monarquia, que devia rondar uma centúria de anos. Talvez fosse exagero. Ao certo o que sabemos é que sempre exerceu com honradez e inatacável seriedade a sua profissão de corretor do Hotel Louletano e, depois deste extinto, de cauteleiro da Casa da Sorte. Sustentou a sua família com os parcos proventos do seu trabalho e a ajuda das muitas famílias que o estimavam e, sobretudo, admiravam a sua notável honestidade. Era um homem bom, pobre e honrado, um modelo do tempo em que viveu.
O célebre artista Alberto Souza, numa das suas estadias em Faro, captou-lhe a alma numa magnífica aguarela, exemplo pouco comum na sua obra de consagrado pintor da aristocracia do seu tempo. O quadro que imortalizou a popular figura do “preto cauteleiro” foi adquirida numa exposição de arte pelo Dr. Luís Vaz de Sousa, então Governador Civil de Faro.
Ao funeral do "Ti Pedro" compareceram centenas de pessoas dos mais variadas estratos sociais, porque o “preto cauteleiro” sabia fazer amigos desde a choupana do pobre até ao solar do rico. Para os que apreciam pormenores, devemos acrescentar que o infortunado vendedor de cautelas chamava-se José António Pedro dos Santos Catraia, do qual ainda subsistem honrados descendentes.


J. C. Vilhena Mesquita

O poeta Ary dos Santos ganhou os Jogos Florais da Praia da Rocha


Existe hoje a mania de amesquinhar a importância cultural do Jogos Florais, tendo-se mesmo a ousadia de apoucar os seus concorrentes. Creio que esta ideia, infeliz e injusta, foi divulgada após o “25 de Abril” pelos poetas dos novos movimentos literários que, na esteira do surrealismo, se perfilavam por toda a Europa, sob a invocação da libertação da poesia, fazendo tábua rasa de todas as regras e modelos estilísticos herdados dos clássicos.
Aceitamos plenamente que se enverede por novos caminhos para a criação duma poesia mais livre, mais conceptual e menos ortodoxa. Nos tempos que correm - cada vez menos ilustrados e mais materalistas -, a poesia livre e sem regras estilísticas tornou-se numa opção natural. Concordamos inteiramente. Agora o que discordamos é que se depreciem e amofinem os Jogos Florias como concursos literários de divulgação e fomento da poesia. Na verdade, esses certames poéticos dividem-se em modalidades sujeitas ou não às regras clássicas, não havendo por isso razão para que não haja lugar para todos poderem concorrer, os mais conservadores e os mais progressistas. Por outro lado, convém lembrar que os Jogos Florais são competições submetidas a confronto e à apreciação de um júri, longe portanto dos prémios literários actuais avaliados por mero auto-criticismo de admissão mais ou menos favorável.
A prova disso é que nos Jogos Florais, que se realizavam por todo o país, se revelaram vários talentos que viriam a consagrar-se na lira de Orfeu. Um desses exemplos foi o de José Carlos Ary dos Santos, cujo 20.º aniversário da sua morte estamos actualmente a comemorar. Para que nos associemos a essas comemorações nacionais aqui fica o poema com que em 1951 ganhou o 1.º prémio de soneto nos Jogos Florais da Praia da Rocha. Nessa altura, concorreram 400 composições poéticas, tendo cabido a José Morais Lopes o 2.º e 3.º prémios na modalidade do soneto. Aliás, esse nosso amigo e associado da AJEA, recebeu prémios em todas as modalidades à excepção da prosa, da fotografia e da pintura. Ao tempo o poeta Ary dos Santos, era ainda um ilustre desconhecido que residia em S. Martinho do Porto, não tendo qualquer pejo em concorrer aos Jogos Florais e até em apoiar esses certames, mesmo depois de se haver revelado no programa Zip-Zip e nos Festivais da Canção como um dos melhores poetas do nosso tempo.
Os júris estiveram reunidos em 20 e 21 de Setembro de 1951, para avaliar os trabalhos apresentados a concurso, sendo o de poesia constituído pelos poetas Cândido Guerreiro e Emiliano da Costa e pelo jornalista Mário Lyster Franco; o da prosa era composto pelos Drs. José Fernandes Lopes e Justino Bivar; na pintura era o Mestre José Campas quem avaliava os trabalhos e na fotografia eram os ateliers Matos de Faro e Oliveira de Portimão. Como se vê a composição dos júris era bastante credível, emprestando a melhor reputação não só aos Jogos como sobretudo aos seus vencedores. A cerimónia de entrega dos prémios decorreu no casino da Praia da Rocha, nas noites de 22 e 23 de Setembro, tendo a participação de artistas de Lisboa, como a actriz Maria Dulce e a cantora lírica Manuela Laborde consagrada artista de S. Carlos.
Resta-me acrescentar que desconheço se este belo soneto foi ou não recolhido nas suas obras completas do saudoso José Carlos Ary dos Santos:

Plenitude

Encontrei afinal o meu caminho!
Ando louco de azul, ébrio de terra!
Como as aves que vão de ninho em ninho
Sem saber se no mundo há paz ou guerra.

A minha alma mais rubra do que o vinho
- Beijo de fogo que a verdade encerra -
Tem a doçura cândida do linho
E a resistência heróica duma serra.

Adoro o sol em êxtases pagãos,
Abençoando o dom da claridade
Que faz vibrar de luz todo o universo.

Trago o luar escondido em minhas mãos
E esta onda suprema que me invade
É o sangue da minha alma feito verso!

O mais interessante de tudo isto é que da participação nesses Jogos Florais da Praia da Rocha nasceu uma sólida e fraterna amizade entre Ary do Santos e Cândido Guerreiro, ao fim e ao cabo dois grandes poetas, o primeiro já consagrado pelos anos e pela obra publicada, o segundo a dar os primeiros passos na senda de Orfeu. Sei que Ary dos Santos manifestou por várias vezes nos jornais e no convívio de amigos, a sua admiração pelo grande poeta Cândido Guerreiro, considerando-o como um dos melhores sonetistas do seu tempo. E a prova está no soneto que enviou ao «Correio do Sul» para ser publicado em sua homenagem:

Viagem

ao Dr. Cândido Guerreiro

Vai!
Segue o teu rumo sem parar
Que te importa o mundo?
Bastam-te o Céu
E o mar
Vai!
Porque depois de tanto caminhar
Ainda podes cingir o Infinito
Na expansão do seu grito.
Vai!
Despe o teu manto de magestade
E de poder
Sê pobre como as cigarras
E alegre como as papoilas.
Vai!
Sem chorar nem sofrer
Vai!
Que te importa a cadência dos instantes
E o tempo que passou
Vai!
Pelos caminhos que seguias dantes
E que a vida apagou.
Vai!
Segura em tuas mãos
Os teus cantos dispersos.
Vai!
E chama ao Sol, ao mar e à terra teus irmãos
Pois são da mesma carne dos teus versos.



J. C. Vilhena Mesquita (publicado no «Jornal Escrito»)

Portimonense Ilustres


Há dias perguntou-me um aluno se eu conhecia alguns portimonenses que se tivessem destacado pelas suas qualidades humanas e talento.
Assim, de memória ocorreram-me alguns, que a título de amostra aqui passo a citar:
Dr. Francisco Almeida Coelho de Bivar, possuía o título de Visconde de Bivar, que como deputado pelo Algarve conseguiu que o governo desse início, em Novembro de 1875, à construção da ponte, cujo projecto fora por ele apresentado e aprovado no parlamento.
I.J. Romeira Pacheco, fundador e proprietário do semanário «Reino do Algarve» que se editou de 1863 a 1864.
Luís Mascarenhas que fundou e dirigiu o semanário «O Município» que foi o primeiro que se publicou em Portimão, publicando depois o semanário «Correio do Meio-Dia» que pugnou pelos interesses portimonenses entre 1873 e 1878.
João António Júdice Fialho, grande impulsionador em Portimão da indústria conserveira.
António José Nunes da Glória, sacerdote de bondosíssimo coração e um dos pintores de maior talento no seu tempo.
José Joaquim Serpa, que foi Visconde de Alvor.
Damião António Lemos de Faria e Castro, erudito escritor e historiador.
Gaspar L. Canário, célebre professor de Medicina.
Padre José da Costa, conceituado professor de Belas Artes.
Dr. José Quirino Tadeu de Almeida, célebre médico e advogado de prestígio nacional.
Frei Manuel do Sepulcro, um dos mais conhecidos poetas do seu tempo.
José Joaquim Nunes, célebre filólogo e professor universitário.
Manuel Teixeira Gomes, escritor e antigo presidente da República.
José Francisco da Silva, almirante da marinha que foi ministro num dos governos da República.
Joaquim de Almeida Negrão.
Domingos Vieira.
D. Caetano Feu.

Gilberto Freyre no Algarve


O ilustre escritor, antropólogo e sociólogo brasileiro, Prof. Gilberto Freire, autor da famoso obra Casa Grande & Senzala, figura de prestígio universal que trabalhou para a UNESCO como investigador da miscigenação étnica em África e na América, visitou o nosso país em Agosto de 1951 a convite oficial do governo português.
Nesse âmbito deslocou-se ao Algarve na última semana de Agosto, tendo aqui permanecido durante quatro dias a recolher informações para uma obra que se propunha escrever sobre o nosso país e seu império. Vinha acompanhado de sua esposa e dois filhos, assim como por seu pai, o ilustre Dr. Manuel Freyre, antigo Juiz Federal na Baía. Acompanhava-os desde Lisboa o Dr. Manuel Rino, funcionário superior do SNI.
Como hóspede de honra do governo português esteve instalado na Pousada de S. Brás, de onde irradiou para os diferentes locais da região algarvia. Para melhor o elucidar e responder às questões que lhe aprouvesse colocar, sobre as diferenças orográficas, ambientais, antropológicas e históricas da região, foi o Dr. Mário Lyster Franco requisitado oficialmente para o acompanhar durante esses quatro dias. Desse contacto nasceu uma admiração mútua e uma sólida amizade entre ambos, comprovada na oferta de livros e no envio de amistosas missivas.
Pouco depois da sua vinda ao Algarve partiu o Prof. Gilberto Freyre para as nossas antigas colónias africanas, a fim de estudar os usos e costumes dos povos autóctones, assim como as heranças culturais carreadas pelos antigos escravos para o Brasil.
As impressões dessa visita ao Algarve foram publicadas no «Correio do Sul» n.º 1763 de 6-9-1951, numa espécie de entrevista concedida pelo célebre antropólogo àquele semanário farense.
J. C. Vilhena Mesquita

Alan Villiers no Algarve


Nos finais de Maio de 1953 deslocou-se ao Algarve o oficial da armada e reputado escritor australiano Alan John Villiers, que se tornou famoso por várias acções militares e científicas, mais ou menos aventureiras, por si depois descritas nos principais órgãos da imprensa londrina. Tornou-se, assim, num misto de herói-romântico dos tempos modernos, que se cobriu de glória na 1.ª expedição ao Antárquico capitaneada pelo norueguês Carl Anton Larsen’s, e na volta ao mundo em 58 mil milhas marítimas, ao comando do seu navio-escola «Joseph Conrad» realizada entre os anos de 1934 e 1936.
Quando eclodiu a II Guerra Mundial alistou-se, em 1940, como tenente da marinha de guerra e, em 1944, era já comandante de uma companhia de fusileiros que participou na invasão da da Normandia e da Itália. Mais tarde tomou parte na ocupação militar de Rangum, da Malásia e das Índias Ocidentais. Além disso treinou os cadetes da armada britânica para desembarques militares no Oriente e foi professor da Escola Naval em Haberdovey, na Nova Gales, de onde saiu em 1950 para acompanhar a frota portuguesa do bacalhau a bordo navio «Argus».
Data desse ano o seu cruzamento com a cultura portuguesa e sobretudo com o estudo das arrojadas actividades pesqueiras da nossa frota e dos corajosos pescadores algarvios nas pescas longínquas da Terra Nova e da Gronelândia. Dessa viagem e dessa convivência resultaram vários artigos na imprensa estrangeira, nomeadamente no prestigiado «New York Times», relatando a dura pesca do bacalhau nos frígidos mares do norte, constatando inclusivamente que “nunca vira em toda a sua carreira marítima tamanha valentia como a dos portugueses”. Enquanto navegou no «Argus» filmou a faina pesqueira nos bancos gelados do bacalhau, dando origem a um belo documentário cinematográfico intitulado «A Campanha bacalhoeira de 1950», o qual foi traduzido em várias línguas e exibido nos principais cinemas do mundo inteiro. A sua acção jornalística, as suas conferências difundidas pelos microfones da BBC e o seu documentário, propagandearam o nome de Portugal, divulgando as suas glórias marítimas, as suas potencialidades pesqueiras e a coragem dos seus pescadores. Para o regime salazarista, o comandante Villiers foi uma benesse dos deuses, porque divulgou o país e prestigiou a nossa economia sem quaisquer encargos de propaganda.
Em 1951 publicou em livro o relato da sua viagem à terra do bacalhau num livro intitulado The Quest of the Schooner Argus, que teve enorme sucesso e foi traduzido em dezasseis línguas. Saiu no nosso país com o título A Campanha do Argus, e foi compreensivelmente laureada pelo SNI com o prémio Camões. A sua obra literária compõe-se de uma boa dúzia de sucessos editoriais que lhe granjearam prestígio mundial e lhe abriram as portas de muitas academias. Por outro lado, publicou milhares de artigos nos mais célebres jornais e revistas do mundo ilustrado, nomeadamente na National Geographic Magazine, na Reader’s Digest, etc.
A sua visita ao Algarve, efectuada a convite das autoridades oficiais, tinha como especial propósito a observação da chamada “tourada do mar”, que mais não era do que a sangueira resultante do içar dos atuns capturados nas armações para os barcos da pesca. O comandante Villiers ficou encantado com o que viu, tendo em seguida percorrido toda a costa algarvia e demorada as suas observações nas belas e paradisíacas praias que se espraiam de Sagresa até Vila Real de St.º António. Dessa sua expedição turística resultou a produção de um filme a cores intitulado «The Golden Beaches of Adventure», no qual também reproduz com realismo e autenticidade a faina do atum desde a montagem da armação até à captura dos tunídeos. Também nesse filme resulta claro que as praias de Monte Gordo e da Praia da Rocha, com seus casinos e hotéis de nível europeu, eram as mais prósperas e procuradas pelos turistas, que embora em número ainda escasso demandavam o litoral algarvio, quase todo o ano. As praias de Quarteira e Albufeira não foram esquecidas, dando particular destaque à sinuosidade das suas ruas mouriscas, e à brancura do seu peculiar e humilde urbanismo.
Refira-se, a concluir, que neste seu trabalho cinematográfico foi assistido por Joaquim Maia Águas, chefe de serviços de assistência aos pescadores do Grémio dos Armadores da Pesca do Bacalhau.
A questão agora coloca-se na seguinte interrogação: onde pára esse documentário? O seu actual visionamento resultaria num grande benefício pois que como facilmente se adivinha constitui um verdadeiro documento histórico dos primórdios do nosso pioneirismo turístico.

J. C. Vilhena Mesquita

O edifício da Caixa Geral de Depósitos em Faro

Suscitou enorme polémica a decisão do governo central de autorizar em meados dos anos quarenta, no século passado, da construção do actual edifício da Caixa Geral de Depósitos no início da Rua do Rego, actual rua de St.º António. Foi o que se pode dizer uma afronta à edilidade e ao povo farense, pois que desvirtuou completamente o equilíbrio urbanístico da baixa da cidade. Nessa altura, alguns cidadãos e até órgãos da imprensa local empertigaram-se nos protestos difundidos nas suas colunas, chegando mesmo a contestar o governo da ditadura pelo facto de não querer atender às justíssimas contestações dos cidadãos farenses, que aprovavam a construção daquela sucursal bancária noutra artéria da cidade.
Esta polémica andou em surdina até 24-2-1950, altura em que o Tribunal de Contas aprovou o contrato celebrado entre a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais a firma Fernando Pires Coelho Ld.ª para a execução da empreitada de construção daquele edifício da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência de Faro, no valor de 2.389.000$00. Acrescente-se que a mesma firma ganhara também a empreitada da construção da Caixa em Elvas pelo valor de 1.587.000$00.
J. C. Vilhena Mesquita

O Museu Marítimo de Faro

Criado por decreto de 4-1-1889, referendado pelo Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Emídio Júlio de Navarro, o Museu Industrial Marítimo de Faro, como então se designava, abriu as suas portas ao público em 24 de Novembro de 1889.
Esteve primeiramente instalado numas pequenas salas anexas ao antigo edifício da Escola Industrial e Comercial, próximo da Câmara de Faro. Mas como urgia expandir as instalações da Escola foi o espólio museológico transferido para uma velha casa na rua da Carreira, onde não servia os fins para que fora criado. Assim, acabaria por ser remetido para as magníficas salas do Palácio Pantojas, na rua de St.º António, onde hoje se acha o Clube Farense. Mas como aquele Clube precisasse de restaurar e remodelar as suas instalações foram novamente em bolandas as colecções do Museu Marítimo para as exíguas dependências da Escola de Alunos Marinheiros. Neste périplo muitas coisas desapareceram e outras se degradaram de forma quase irremediável, a ponto de haverem perdido muito do seu valor e de reduzirem toda a sua importância e interesse cultural.
Foi nestas condições, de abandono e esquecimento, que o foi desencantar o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que dedicou o melhor do seu esforço à recuperação das peças mais degradadas, restaurando umas, substituindo outras e acrescentando-lhe imensos artefactos da nossa secular actividade marítima. Felizmente, nesse insano trabalho de recuperação do antigo espólio do Museu Marítimo de Faro, pode contar com a boa vontade de alguns camaradas de armas e de outros cidadãos de boa vontade, nomeadamente o pintor Carlos Augusto Lyster Franco que o ajudou a restaurar muitas peças e principalmente lhe ofereceu vários quadros sobre a fauna marítima, que hoje decoram as paredes das actuais e aprazíveis instalações do Museu.
Em sinal de reconhecimento pelo seu esforço e pela inimitável dedicação prestada ao restauro e melhoramento do antigo espólio, foi com inteira justiça atribuído o seu nome ao renovado Museu Marítimo de Faro.
J. C. Vilhena Mesquita

Reabertura do Cine-teatro ou inauguração do Cinema de St.º António em Faro



Depois das profundas e radicais obras de remodelação do velho cine-teatro, que se prolongaram por quase meio ano, reabriu em ante-estreia no dia 31-12-1953 com a nova designação de Cine Santo António. Não se tratava de uma invocação protectora do célebre taumaturgo, que nada tinha que ver com “fitas”, mas antes uma alusão à artéria para que se abria a nova frontaria, cujos escaparates ostentavam os “cartazes” das três sessões de cinema com que abriu ao público, na tarde da passagem de ano, data que ficou tristemente enlutada pelo imprevisto falecimento de D. Maria da Conceição Corte-Real Moniz Nogueira, o que deixou as principais famílias da cidade arredadas da inauguração do novo cinema.
Apesar de tudo o descerramento da nova sala de espectáculos fez-se com a maior pompa e circunstância, ficando as autoridades presentes na plena consciência que a cidade passava a partir de então a desfrutar de um notável e moderno equipamento cultural, o mais vistoso e saliente de todo o Algarve. Dizia-se até que na província seria apenas superado pelo cinema de Aveiro, que acabava de ser inaugurado e fora construído de raiz segundo os moldes mais modernos e eficazes, ficando equipado com a mais actualizada tecnologia para a projecção cinematográfica.
Com efeito, o novo cine-teatro apresentava-se com uma decoração moderna de enorme bom gosto, cuja remodelação dos espaços interiores transmitiam uma invulgar elegância e raro conforto, com certos requintes de indisfarcável luxo. As cadeiras de veludo, as frisas para a elite citadina, as vitrines com os últimos gritos da moda parisiense (que já então chegava a Faro), os bares e até as modernas instalações sanitárias, davam uma imagem de actualidade e bem-estar, que suscitaram a admiração das autoridades municipais, e sobretudo causaram o melhor apreço nos amantes da 7.ª arte. Sóbrio, elegante, atraente e confortável, eram os principais atributos do Cine Santo António, cuja máquina de projecção era nova e automática. Uma casa de espectáculos muito ampla e airosa, para quase 1500 espectadores, segura e protegida contra o risco de incêndio, equipada com modernas e permanentes mangueiras e agulhetas, com piquetes de bombeiros em todas as sessões.
Quando começaram as obras de remodelação do velho e desactualizado cine-teatro, as actividades comerciais da empresa proprietária não ficaram desactivada, pois que anos antes havia investido fortemente na construção de outra casa de espectáculos, o Cine-Esplanada, um magnífico e amplo espaço ao ar livre, à imitação de outras esplanadas cinéfilas inauguradas na Andaluzia e nas principais cidades da orla mediterrânea. Situava-se em frente ao recém inaugurado Mercado Municipal, equipamento de grande interesse económico, considerado na época inestético pela sua exagerada volumetria. Hoje, no lugar do Cine-Espalanada existe um enorme mamarracho habitacional e o antigo Mercado foi demolido para no seu espaço se erguer um moderno centro-comercial.
Na sessão solene de inauguração do Cinema Santo António usou da palavra, em nome da Direcção da empresa proprietária o Dr. António Miguel Galvão, figura muito prestigiada na cidade pela sua nobreza de carácter e pelo seu valor intelectual, colaborador assíduo nos jornais locais e autor de alguns trabalhos de incontestável valia científica sobre a Companhia de Pescarias do Algarve, de que era accionista e funcionário superior. Respondeu-lhe, com elogiosas palavras de felicitação e de louvor, o Dr. Manuel José da Fonseca, na dupla qualidade de delegado distrital da Inspecção Geral dos Espectáculos e de honrado secretário geral do Governo Civil, que, em nome das mais altas instância do Estado, agradecia a abertura do novo cinema, reconhecendo que o mesmo representava um enorme passo na senda do progresso e da actualização cultural da cidade de Faro. Por ser a mais alta individualidade presente, coube-lhe a honra de cortar a fita com que simbolicamente se abriu ao público a nova casa de espectáculos da cidade, recebendo de imediato um forte aplauso das entidades convidadas para o solene evento.
Convirá acrescentar que entre os membros da direcção da empresa proprietária do Cine Santo António, cuja capital era constituído por acções vendidas aos principais empresários da cidade, pontificava a figura de Virgílio Caiado, que cuidou com grande esmero da decoração e conforto da nova sala, tendo-se encarregado da aquisição do equipamento de projecção o conhecido industrial João Pires, ficando encarregado da fiscalização técnica das obras o eng.º João Correia da Fonseca, também ele um reputado cidadão, muito estimado entre os seus conterrâneos.

J. C. Vilhena Mesquita

Compra do Lethes, em Faro, pela Cruz Vermelha


Os herdeiros de Constantino Cúmano, grande benemérito local, venderam, em Junho de 1951, à sociedade da Cruz Vermelha Portuguesa o magnífico edifício do antigo Teatro Lethes. Segundo constou na época o imóvel foi transaccionado por 350 contos, comprometendo-se a nova entidade proprietária a não alterar a traça arquitectónica do edifício, garantindo ao mesmo tempo o restauro e recuperação do edifício.
O único problema que importava solucionar a breve trecho era o de assegurar a sede do Sport Lisboa e Faro, que ali se encontrava instalado há bastantes anos. Aquela agremiação desportiva tinha aliás grandes tradições, encontrando-se estruturalmente relacionada com a vida social da cidade, comprovada aliás pelos cerca de 800 sócios que mantinha nas suas fileiras. Na altura, muitos foram os cidadãos que clamaram contra a hipótese de desalojamento do popular clube desportivo, o que apesar de tudo veio a acontecer a contento de ambas as entidades, mercê de solução sugerida e apoiada pela edilidade local, transferindo-se a sede para as instalações no largo do Pé da Cruz.

J. C. Vilhena Mesquita

O Cine Teatro Farense


Abriram-se as portas da cidade à 7.ª arte, num sábado festivo a 23 de Setembro de 1916, num moderno edifício situada na antiga horta da judiaria. A partir de então, os farenses passaram a dispor de uma ampla e confortável sala de espectáculos, logo considerada como a melhor da cidade e certamente uma das mais sofisticadas do Algarve.
As luzes da ribalta acenderam-se para uma peça de teatro já que as “fitas”, embora na moda, não existiam em quantidade suficiente para cobrirem as necessidades do país. O ainda embrionário cinema europeu, estava a atravessar uma fase muito complicada, resultante das amarguras da I Grande Guerra, produzindo com dificuldade curtas comédias para distrair a burguesia e animar os trabalhadores, descontentes com a vigente situação económica, marcada pela carestia de vida, pelo açambarcamento dos géneros de primeira necessidade e por uma galopante inflação.
Não admira pois que a peça, com que se abriram as portas do novo Cine-Teatro Farense, fosse uma comédia de levar às lágrimas, da autoria de Chagas Roquete intitulada «O Senhor Roubado». A Companhia convidada para o efeito pertencia ao antigo Ginásio de Lisboa, cuja direcção de actores estava a cargo dos ilustres artistas Maria Matos e Mendonça de Carvalho. Naturalmente para descerrar o palco houve que se pronunciar os discursos de circunstância oficial, cabendo essa função ao Dr. Pacheco Soares, hábil político e notável causídico, figura de proa na sociedade farense. A orquestra era composta pelos amadores da sociedade de artistas farenses, cuja regência coube ao Dr. Pedro Guerreiro, também ele um conhecido jurista farense, que se dedicava com alma e coração à divina arte da música. É curioso que o Dr. Pedro Guerreiro além de improvisado maestro era também um inspirado compositor musical, fornecendo muitas das suas criativas partituras às bandas e filarmónicas que pontificavam um pouco por toda a região algarvia, em alvoroçado despique.
Inaugurada a sala com tão hilariante peça, procedeu-se no dia seguinte ao descerramento da tela cinematográfica, ou melhor animatográfica, com uma matinée de breves fitas de cinema mudo. O efeito de gargalhada era garantido, pois que o público não resistia às tropelias, correrias, atropelos, balbúrdias e confusões provocadas por uns actores muito rápidos e ágeis a fugir da polícia, a despenharem-se em perigosas quedas amparadas por imprevistos mas proverbiais amortecimentos, por bombeiros que em vez de apagar ainda ateavam mais fogos, por automóveis que se cruzavam na frente de comboios em arrepiantes tangentes, pelos atribulados embates ou acelaradas perseguições de “donas elviras” cujos condutores escapavam milagrosamente de aparatosos acidentes. O público designava essas curtas metragens pela popular designação de «Pamplinas», protagonizadas por Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Lloyd, uma autêntica trindade maravilhosa do cinema cómico, na altura ainda mudo, pois que os farenses só assistiriam à primeira fita sonora em 1930.
Com o decorrer dos anos o velho Cine-Teatro Farense foi-se degradando e desactualizando, tornando-se até numa sala desajustada às necessidades do cinema moderno, razão pela qual as sucessivas visitas da Inspecção Geral de Espectáculos vinham sucessivamente apelando aos proprietários que fizessem melhoramentos sob pena de cessação do alvará de exploração e do consequente encerramento da sala.
Para obstar ao problema decidiu-se a gerência pela remodelação da velha casa de espectáculos encerrando as portas a 4-5-1952, tendo como derradeira projecção o filme intitulado «Paraíso Perdido».
Nessa altura, já a empresa tinha o projecto de arquitectura aprovado nas instâncias convenientes para a construção do novo edifício. A demolição das antigas instalações iniciou-se logo no dia 5 de Maio, mantendo-se a implantação da nova sala no mesmo lugar da anterior. O número de lugares manteve idêntico ao anterior, ou seja com uma lotação a rondar os 1400 espectadores, mas desta vez instalados em confortáveis fauteils, metade dos quais na plateia, tendo como inovação um semicírculo de frisas destinado às famílias mais distintas e à entidades oficiais. Construiu-se um balcão novo e cómodo, que substituiu a popular geral, cujos frequentadores poderiam também admirar modernas vitrines alugadas pelas principais casas comerciais da cidade. O palco foi bastante ampliado para receber companhias de teatro e de ópera e a cabine de projecção foi alargada e equipada com a mais moderna maquinaria da especialidade.
Os objectivos a preencher pelas novas instalações do Cine-Teatro Farense consistiam numa visibilidade perfeita para todos, boa acústica, comodidade geral, decoração elegante, boas condições de higiene com amplas instalações sanitárias, vestiários, iluminação, aquecimento, cabines telefónicas, bares, equipamento de bombeiros e de primeiros socorros, etc. Em suma, de um velho e desactualizado cinema de província passou-se a uma nova e moderna casa de espectáculos, ao nível do que melhor se conhecia na capital.
A empresa que explorava o cine-teatro era a mesma que havia investido pouco antes largo cabedais na construção do Cinema Esplanada, dedicado à animação cultural durante o período de verão, sendo por essa razão que o negócio se manteria em acção até à época de inverno, para então serem inauguradas as novas instalações na concorrida rua de Santo António.


J. C. Vilhena Mesquita (publicado no «Jornal Escrito»)