domingo, 12 de julho de 2009

Quem se lembra, em Faro, do Preto Cauteleiro?


Não haverá hoje muita gente que se lembre ainda de um pobre africano, que o vulgo conhecia como o “preto cauteleiro”, que num passo arrastado pelo carregar da idade, percorria as ruas de Faro vendendo lotaria. O seu vozeirão africano ecoava pelas artérias do burgo apregoando a sorte grande. Como trunfo e imagem de marca apresentava a sua própria cor. Nesses anos já distantes, ver-se um preto na rua era um sinal de sorte. E mais seria se ele nos propusesse a venda dessa mesma sorte. Por isso o seu sucesso como cauteleiro estava garantido. Por outro lado era um homem afável e muito reverente, com uma inocência maior do que o seu próprio tamanho, e um sotaque de escravo africano, a que só o bronze da voz imprimia algum respeito.

Não temos notícia de que algum dia tenha efectivamente passado pelas suas mãos o bilhete premiado. Não obstante, pode dizer-se que tinha os seus clientes certos e que no meio das figuras típicas de Faro era talvez o mais acarinhado, pela sua amabilidade de trato e pela benigna paciência com que aturava os seus incómodos detractores. Na verdade, era muito comum nesse tempo ver-se a criançada na rua a increpar os que por incapacidade física ou mental sobreviviam da caridade alheia. Na sua maioria eram pessoas que tinham perdido a razão, que já haviam sido gente, mas que se tornaram em farrapos humanos pelas circunstâncias malignas da própria vida. Por isso não era raro ver-se o “Tio Pedro” açodado por um rebanho de miúdos que atrás de si o invectivava com dichotes e outros impropérios de índole racista.
Eram atitudes próprias daqueles conturbados tempos de miséria e de revoltado silêncio, em que o regime salazarista fizera mergulhar o país, retendo-o debaixo da hipócrita capa da santidade religiosa em que todos os pobres seriam recompensados com o “reino dos céus”. Não só aos pobres como aos dementes, aos inválidos como aos velhos, aos mendigos como aos inadaptados, estava um lugar garantido no paraíso dos céus.
Eram esses “pobre-diabos” - que aguardavam arrimados às esquinas da baixa farense a tal guia de marcha para o paraíso - que a “moçanhada” aperreava com afrontas e agravos numa selvagem açulada, que por vezes desfilava em cortejo pelas ruas da cidade. A burguesia do comércio e os transeuntes achavam graça, porque na citadina galeria das “figuras típicas” existia uma panóplia de exemplares receptivos a todo o tipo de ridicularização social. Havia-os para todos os gostos e feitios. Embora não os tivéssemos conhecido, sabemos que no tempo do “Tio Pedro” existiam , entre outros o “Rafina”, o “Baguinho de Milho”, o “Cabo Barulho”, o “Ferragudo”, o “Pedro Nabo”, o “Papa Ratos”, o “Mosquito Raivoso”, o “Caetano”, o “Não dá ná”, o “Pina”, o “Pra Engordar”, o “Francisquinho Queimado”, etc.
O infeliz do “Tio Pedro”, quando perseguido pelos impropérios da garotada que lhe chamava “preto”, “tição”, “escarumba”, reagia com santificada paciência pedindo-lhes que o deixassem em paz ganhar a vida, ou simplesmente ficava em silêncio com um olímpico sorriso de desprezo nos seus grossos lábios de africano.
Não sei em que ano veio viver para Faro. O que sei é que trabalhava para o antigo Hotel Louletano. Era vê-lo, fardado a rigor, com o monograma do hotel bordado na lapela e uma vistosa barretina de grumete, perfilado no cais da estação ferroviária, qual soldado de Mouzinho, publicitando numa algaraviada inspirada num folclórico corridinho, as qualidades do hotel para o qual angariava hóspedes. Muito solícito e cerimonioso carregava as malas para a tipóia do hotel ou chamava um táxi para transportar os clientes até ao alto da Madalena. Tornou-se tão conhecido e apreciado pela burguesia citadina que, quando se levou à cena no Cine-Teatro Farense a revista «Ora Toma» existia uma rábula, desempenhada pelo artista amador José Moreira, na qual personificava o “Tio Pedro” com a farda do Hotel Louletano, no seu hilariante linguajar de africano. Parece que o “Tio Pedro”, embora achando piada ao quadro revisteiro, se queixou ao José Morreira de ter carregado na cor e de o pintar mais de preto do que ele era na realidade.
Nos finais de Março de 1954, morreu em Faro o “Tio Pedro”. Ninguém sabia a sua idade. Dizia quem o conheceu, ainda no tempo da monarquia, que devia rondar uma centúria de anos. Talvez fosse exagero. Ao certo o que sabemos é que sempre exerceu com honradez e inatacável seriedade a sua profissão de corretor do Hotel Louletano e, depois deste extinto, de cauteleiro da Casa da Sorte. Sustentou a sua família com os parcos proventos do seu trabalho e a ajuda das muitas famílias que o estimavam e, sobretudo, admiravam a sua notável honestidade. Era um homem bom, pobre e honrado, um modelo do tempo em que viveu.
O célebre artista Alberto Souza, numa das suas estadias em Faro, captou-lhe a alma numa magnífica aguarela, exemplo pouco comum na sua obra de consagrado pintor da aristocracia do seu tempo. O quadro que imortalizou a popular figura do “preto cauteleiro” foi adquirida numa exposição de arte pelo Dr. Luís Vaz de Sousa, então Governador Civil de Faro.
Ao funeral do "Ti Pedro" compareceram centenas de pessoas dos mais variadas estratos sociais, porque o “preto cauteleiro” sabia fazer amigos desde a choupana do pobre até ao solar do rico. Para os que apreciam pormenores, devemos acrescentar que o infortunado vendedor de cautelas chamava-se José António Pedro dos Santos Catraia, do qual ainda subsistem honrados descendentes.


J. C. Vilhena Mesquita

2 comentários:

  1. Conheci-o em 1954
    O meu avô tinha uma oficina no Largo da Caganita
    Ele chegou e o Mestre Zé disse-me que cumprimentasse o TI Pedro
    Apertei-lhe a mão a medo
    Tinha 4 anos
    Uma mão enorme e preta
    Ele sorriu candidamente e eu fiquei o dia inteiro a olhar para a mão a ver se mudava de cor

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    1. Obrigado pelo seu interessantíssimo comentário. Imagino a surpresa desse encontro, sobretudo se tivermos em linha de conta que o Ti Pedro era o único africano existente em Faro. Para uma criança deve ter sido um encontro inesquecível.

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