terça-feira, 14 de julho de 2009

João de Deus, o Camões do Algarve


Quando as tropas napoleónicas invadiram pela primeira vez o nosso país em 1808, o seu comandante em chefe, general Junot, sendo uma pessoa culta e admiradora do nosso passado histórico, depressa se apercebeu que no Algarve havia uma certa propensão para a poesia, cujos habitantes vivendo numa terra próspera e benigna eram grandes admiradores de Camões, por ser o primeiro e mais notrável vate da língua pátria.
Não sei se por natural constatação, consciência da realidade ou se por galanteria política, o certo é que numa “Proclamação aos Habitantes do Reino de Portugal” aquele general francês, e futuro Marquês de Abrantes, afirmou que “les provinces d’Algarves... auront peutêtre un jour leur Camoens”
Aproveitando esse presságio, o erudito poeta Joaquim d’Araújo (1868-1917), um dos mais notáveis da geração romântica de Coimbra nos anos noventa, amigo íntimo de Gonçalves Crespo, Guilherme de Azevedo, António Feijó, Guerra Junqueiro e João de Deus, dedicou ao poeta algarvio um soneto em que lhe atribuiu a honra de poder considerar-se o Camões do Algarve. Não resistimos à tentação de transcrever esse soneto:


Tem um sorriso límpido e tranquilo,
Cheio d’amor, de transparência e luz,
Que nas serenas telas de Murilo
Brilharia na face de Jesus.

Não se cansa ninguém jamais de ouvi-lo,
De si derrama pérolas a flux,
O seu olhar é um luminoso asilo,
Que veste os rotos e agasalha os nus.

Ó cismador de Heresta e de Marina!
Há nessa tua palidez divina
Um quê sombrio de tristeza e dó.

E eu ao ver o teu vulto austero e doce
Digo comigo: - Enfim realizou-se
A espanholada imensa do Junot...

Joaquim d’Araújo

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