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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Benfica-Sporting, farsa em um acto

A propósito do dérbi que se disputou esta semana na capital, entre o Benfica e o Sporting, lembrei-me de trazer aqui à colação dos meus leitores, a existência de um raro folheto, que guardo ciosamente na minha «Algarviana», intitulado Benfica-Sporting – Farsa em um Acto, da autoria de António Augusto dos Santos, editado em 1958 na velha tipografia União, propriedade da diocese de Faro.
O autor, que conheci muito bem, era então um jornalista da velha guarda, culto e inteligente, cavalheiro educado, gentil e sempre bem vestido, ao estilo britânico. Era alto, de recorte atlético, seco de carnes com voz de tenor, que se curvava ou descobria a cabeça, sempre que se cruzava com gente da sua privança. E do seu trato comum, a bem dizer, era só gente grada. O que não era o meu caso, visto ser então um jovem obscuro, ao contrário dele, que era um respeitável ancião. Ainda assim, tínhamos amigos comuns, como o Aníbal Guerreiro, antigo jornalista e um dos mais prestigiados empresários de Faro, o João Leal, hoje decano da imprensa algarvia, o Dr. Joaquim Magalhães, antigo reitor do Liceu, o Dr. Pinheiro da Cruz, professor da Tomás Cabreira, o Brito Figueiras, um gentleman que servia de mestre de cerimónias nos eventos da cidade, e tantos outros, que à memória não afluem neste instante.
O certo é que, por via da nossa frequência nas colunas dos jornais, tornamo-nos amigos com direito a cordiais cumprimentos e breves palavras de circunstância, porque a diferença de idades e estatuto de cidadania faziam-me muito pequeno a seu lado, mais do que a sua estatura física permitia aquilatar.
A única forma que tive de o compensar pela admiração que lhe dedicava, foi ter-lhe atribuído há cerca de dez anos, como membro da Comissão de Toponímia de Faro, uma praceta com o seu nome, algo distante do centro da cidade, é certo, mas ainda assim na freguesia de São Pedro, de que foi devoto e tanto acarinhou enquanto munícipe. A sua biografia, que anexo no final desta breve evocação de António Augusto Santos, escrevi-a para o meu «Dicionário dos Jornalistas e Colaboradores da Imprensa Algarvia», que permanece ainda inédito, e certamente assim permanecerá até ao fim dos meus dias.
António Augusto Santos
Resta-me acrescentar que esta “farsa em um acto” sobre uma suposta final da Taça de Portugal em 1958, não pretendia, segunda as palavras do próprio António Augusto Santos, caricaturar ninguém em particular, e muito menos os clubes em contenda, pelos quais tinha o maior apreço. Apenas escolheu os clubes da capital por serem os mais populares, e os que congregam, ainda hoje, mais adeptos. A peça só tem dois personagens.
Um é material, aqui designado como “T.S.F.”, que se percebe ser um rádio (ou telefonia, como se diz no Algarve), que o cidadão remediado possuía na sala de visitas para ouvir as notícias, as variedades ao almoço, os parodiantes de Lisboa, o folhetim radiofónico, e, aos domingos, o sacramental relato da bola, que entre as 15 e as 17 horas fazia as delícias e arrelias dos bons chefes de família.
O outro é físico, designado como Pedro Lagarto Verdelhão, de 45 anos de idade, identificado no texto simplesmente como “Lagarto”. Sem constituir uma personagem, aparecem também no meio da peça as interjeições da “Família”, que se presume ser a voz da esposa do “Lagarto”, pronunciada numa outra sala da casa, perguntando-lhe o resultado, se foi golo e de quem, ou, quando este grita com maior veemência, mandando-o calar porque o Zéquinha está prestes a pegar no sono. Ainda por cima a “Família” trata-o por “Lagartinho”, o que é de arrancar os cabelos.
A farsa em si, ocupa catorze páginas de um denso diálogo, entre os dois personagens, pronunciado na intimidade das paredes do lar, entre o “Lagarto” que critica a tácita e as escolhas do treinador, que desconfia da verdade desportiva, e que, por fim, vocifera contra o árbitro em desaprovação das suas decisões. Por vezes chama-lhe bandido, gatuno, urso de pelo… até chegar ao ponto de lhe desejar a morte. Como se percebe, o personagem físico é um sportinguista ferrenho, diria antes fanático, que deposita as suas esperanças nos violinos comandados pelo Peyroteo. O Sporting termina a primeira parte a vencer por 3-1, mas na segunda o Benfica, com Arsénio e Corona em destaque, chegou ao empate. Para desespero do Lagarto, que ouve pela rádio as incidências do desafio, o árbitro parece ter sido o culpado do triste desenlace, já que anulou aos 95 minutos um golo ao Sporting, prolongou a contenda até aos 112, altura em que Jesus Correia do Sporting centra para a área e Félix, defesa do Benfica, corta a bola com a mão. Penalti grita o povo, mas o árbitro fez “vista grossa” e deu por encerrada a contenda. O público insurge-se nas bancadas, mas a polícia e a guarda republicana “puseram termo ao conflito distribuindo «mãozinhas» de cavalo à portuguesa”.
Enquanto as equipas descansam por dez minutos até se reatar a partida com um prolongamento, o árbitro faz declarações à rádio para justificar as suas polémicas decisões. Mas, quando o árbitro teve o desplante de confessar à antena: “Neste 2º tempo, o Benfica, sabe… jogou mais”. Aí foi longe de mais, e o “Lagarto” não se conteve, caindo sobre ele a pés juntos esmagando-o numa ânsia de vandalismo: “Ah gatuno que ainda tens arrojo de falar desse modo”. E pronto, acabou-lhe com as válvulas, com o apito e com o pio. O prolongamento e o resultado final é que jamais saberemos, porque a TSF ficou em cacos aos pés do Lagarto.
Frontespício do folheto
Depois de ler esta “farsa” percebi o talento e as intenções do António Augusto Santos, ao caricaturar as dores e o sofrimento mental dos adeptos de futebol, perante as incidências dramáticas do nosso desporto rei, colocadas nas mãos de um único juiz, de que todos desconfiam, quer da competência quer sobretudo da isenção e honestidade. A ironia é um dos principais condimentos literários desta peça, a outra é a crítica exasperada à nossa proverbial desconfiança da integridade moral de quem decide, de quem ajuíza, face à paixão e fanatismo que caracteriza o adepto de futebol. Acrescento, porém, que para as gerações actuais deve ser difícil perceber quem foram os jogadores aqui citados, porque já todos faleceram, embora deva dizer que se fossem hoje atletas do Benfica e do Sporting, seriam dos melhores entre os melhores do mundo. Disso não tenho a menor dúvida.
Termino com esta saborosa descrição do cenário em que decorre a farsa «Benfica-Sporting»:
«Escritório em estilo Peyroteo, com o que há de mais requintado em Azevedo I. Estante, floreiras, cadeiras e secretária em estilo Jesus Correia. Carpete com um grande leão ás listas – o que há de mais Travassos II. Telefonia da marca R.A.D.I.O… . Sobre um sofá, um violino que não é propriamente um Stradivarius, mas uma recordação saudosa da velha orquestra de Alvalade. Albano e os restantes companheiros de equipa, não foram esquecidos. Vemo-los por todos os ângulos do escritório, dispostos aos pares em escalas diversas…»
Ah, já me esquecia de dizer, nesse ano de 1958 quem ganhou a Taça de Portugal foi o meu F. C. do Porto, que derrotou o Benfica por 1-0.
A biografia de António Augusto Santos poderá ser consultada, e descarregada, no meu blogue «Algarve - História e Cultura», através do seguinte link: 
http://algarvehistoriacultura.blogspot.com/2023/01/antonio-augusto-santos-jornalista-poeta.html

domingo, 14 de março de 2021

Acerca do Dia da Mulher e da ALGARVIANA – breve esclarecimento

O meu jovem amigo Tomás Severino Pinto Bravo, lembrou-se de comemorar o Dia da Mulher transcrevendo no Facebook um breve trecho da autoria do meu saudoso amigo Dr. Mário Lyster Franco, extraído de uma conferência que aquele brilhante intelectual algarvio pronunciou em diferentes certames literários, sob a epígrafe de «Mulheres e Jogos Florais».
Como estou directamente ligado aos últimos anos de vida desse emérito vulto da cultura algarvia, não posso deixar de acrescentar algumas palavras que justificam a publicação da referida conferência, a cuja edição estive ligado, e que, aliás, constituiu o derradeiro título da sua incomparável obra de escritor e jornalista.
Capa do opúsculo que editei em 1983 sob o 
sugestivo título de Mulheres e Jogos Florais
uma verdadeira homenagem à mulher, na 
figura mítica de Clemência Isaura, que viveu
no séc. XIV, e que passa por ser a inspiradora
dos primeiros certames literários da poesia
trovadoresca.

Como é do conhecimento público, trabalhei com o Dr. Mário Lyster Franco, entre 1980 e 1984, na actualização e edição dessa obra mestra da cultura algarvia, que tem por título «ALGARVIANA – Subsídios para uma bibliografia do Algarve e dos autores algarvios». Compareci diariamente, durante quatro anos, na «Casa do Cercado» em Faro, residência particular do Dr. Lyster Franco, onde procedi à redação de centenas de biobibliografias respeitantes aos autores referenciados para figurarem na referida obra. As referências eram pequenos verbetes, em forma de postal, onde constavam o nome do autor e a indicação de um ou mais livros, ignorando-se tudo o resto. E o meu trabalho consistia na pesquisa e redacção de todos os elementos necessários à elaboração do texto final. O autor, Dr. Mário Lyster Franco, então octogenário, havia parado há muitos anos com essa tarefa, devido aos afazeres com a publicação do seu jornal «Correio do Sul», o mais completo e mais cultural órgão de informação que se publicou a sul do Tejo. Além disso, um galopante glaucoma tinha-o deixado quase cego, razão pela qual tinha cessado toda a sua actividade literária e intelectual.
Nesse afã diário empreguei todas as minhas forças para refazer e actualizar a obra, por forma a que se editasse ainda em vida do seu autor. E aqui revelo que, ao contrário da sua vontade, não permiti que o meu nome figurasse ao lado do seu, como co-autor. Tive esse respeito e essa humildade. Dei o melhor de mim, e posso dizer que a obra nunca se teria iniciado nem publicado (ainda que apenas o 1º volume), sem o meu esforço. Escrevi mais de três centenas de biografias e apreciações críticas das obras dos autores, para integrarem os dois primeiros volumes - dos seis em que decidi repartir a obra final. Creio que hoje, a realidade editorial alterou-se completamente, com o surgimento de inúmeros autores algarvios, para além das obras, que dizendo respeito ao Algarve, terão de ser igualmente integradas na «Algarviana», pelo que a dimensão dessa obra, dos seis volumes que inicialmente julgava compreender, deverá estender-se pelo menos por mais dois, num total superior a três mil páginas.
No autógrafo que o Dr. Mário Lyster Franco 
me dedicou pode ler-se: «Ao chato do Mes-
quita esta chatice feita para chatear os outros, 
of(erece) o chatarrão-mór Mário Lyster Fran-
co. 28/VIII/83 A. D. [Anno Domini] 
Mas, o que agora me trás a terreiro é a justificação da publicação do opúsculo «Mulheres e Jogos Florais», um texto de excepcional beleza literária, o último da lavra do meu saudoso amigo Mário Lyster Franco.
Descobri o texto num amontoado de papeis, constituído por originais manuscritos e dactilografados, respeitantes a várias das suas conferências, pronunciadas no Algarve e em Lisboa. Entre elas estava precisamente este «Mulheres e Jogos Florais», que o Dr. Lyster Franco havia pronunciado nas cerimónias que encerravam esses certames literários, na Praia da Rocha, em Quarteira, e julgo que também em Armação de Pera. Depois de ler o texto insisti para que o publicasse, ao que recusou terminantemente. Mas eu não desistia, até porque o via a morrer sem que nenhuma alegria lhe proporcionasse motivação e força para se agarrar à vida. Nessa altura o então Presidente da Câmara de Faro, havia proibido a continuação da edição da Algarviana, o que até hoje se mantém. Para contrariar os que o condenavam ao silêncio e ao ostracismo, decidi editar na Litográfica do Sul, o texto final desta brilhante conferência. Para isso contei com a boa vontade do director das oficinas daquela empresa, que era um homem de grande sensibilidade cultural, chefe dos bombeiros locais e amante das tradições algarvias, de nome Tenório, figura que certamente os vilarealenses ainda se lembram. Fez-me um preço de amigos (doze contos por 300 exemplares), e o opúsculo sai a público em 1983, como a última produção do Dr. Mário Lyster Franco. É de facto um texto brilhante, dedicado às mulheres, à poesia e sobretudo ao amor. Infelizmente não teve a divulgação que merecia, nem circulou no mercado livreiro por falta de interesse, visto que nessa altura, tal como hoje, grassava entre os intelectuais uma má vontade, e até uma injusta ridicularização, sobre a importância dos Jogos Florais no incremento da nossa literatura e na descoberta de novos talentos.
Esta é a factura que a Litográfica do Sul me passou no
valor 12 mil escudos, respeitante aos custos de edição
dos 300 exemplares do livro Mulheres e JogosFlorais.
Como se vê foi editado em 24 de Maio de 1983, e fui
 eu quem pagou a edição.
Infelizmente, e apesar de ter patrocinado a sua edição, não trouxe comigo nenhum exemplar, a não ser o que o meu querido amigo Dr. Mário Lyster Franco teve a amabilidade de autografar, de uma forma irónica, mas verdadeira. Fui um “chato” na forma como insisti na sua edição, que serviu para chatear os que o tinham condenado ao silêncio e ao ostracismo, sobretudo o presidente da Câmara de Faro. Os políticos são sempre assim, traiçoeiros e traidores.
A quase totalidade dos exemplares deste opúsculo ficaram na «Casa do Cercado», não sabendo qual o destino que tiveram. A casa é hoje uma triste ruína. O seu espólio artístico e museológico, de altíssimo valor, presumo que a família vendeu aos melhores antiquários de Lisboa. Só a pinacoteca da família, constituída por vários quadros da autoria do pai, Carlos Augusto Lyster Franco, a que se juntavam muitos outros pintados pelos seus antigos colegas das Belas Artes, que com o decorrer dos anos se tornaram famosos artistas, valeria hoje dois ou três milhões de euros. E se não fosse eu, com a ajuda do Horácio Cavaco, então presidente da RTA, até a «Algarviana» teria sido vendida aos alfarrabistas da capital, como aliás aconteceu com milhares de outros livros, que faziam parte do espólio herdado não só do pai, que era também um cuidadoso bibliófilo, como também do seu sogro, o Dr. Rodrigues Davim, cuja avultada biblioteca foi repartida pelas suas duas filhas, sendo uma delas a D. Silvina casado com o Dr. Mário Lyster Franco. Esta é que é a mais pura das verdades.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Maria da Conceição Elói, uma mulher do povo que lutou pela educação e pela cultura algarvia

Poetisa e jornalista, Maria da Conceição de Sousa Elói nasceu em Paderne, freguesia do concelho de Albufeira, a 31-8-1898, e faleceu em Faro a 7-12-1979.
Desde criança, nos bancos da escola primária, que revelava aptidões para a poesia, escrevendo versos dedicados aos colegas e professores. Não tendo podido ir mais além nos estudos, conseguiu aumentar a sua educação através da leitura de autores clássicos e de algumas lições de francês e de piano, adquiridas na convivência com as famílias mais ilustradas de Paderne.
A vontade de auxiliar os pobres e de comunicar à sociedade a urgente necessidade de ajudar os mais desfavorecidos, levou-a editar, em Março de 1921, um jornal manuscrito inocentemente intitulado "a Avezinha", tendo como redactoras principais quatro meninas, e todas Marias, cujo coração transbordava de altruísmo e de amor pelo próximo. As quatro Marias, subscreviam os seus artigos e poesias, na pueril inocência das suas idades, com o pseudónimo de flores. Assim, além da Maria Conceição Elói, que assinava como Madressilva, colaboravam também a Maria Feliciana Marim Marques, como Violeta, a Maria da Conceição Mendes Costa Biker, como Rosa, e a Maria do Espírito Santo, como Hortênsia. Seguiu-lhes o exemplo, a ilustre Maria Francisca Arez Frias, que assinava os seus preciosos artigos com o pseudónimo de Gardénia. Ignoro, infelizmente, a identidade daquelas que assinavam com os criptónimos de Bonina, Urze, Assucena, Margarida, Camélia, Tília, etc. Pode mesmo dizer-se, que naquele pueril “jardim” despontou uma espécie de escola de jornalismo feminino.
Inspiravam-se as cândidas redactoras no culto da natureza, na bondade e na fraternidade, a tal ponto que parece estar na sua génese a intenção de angariar esmolas para uma velhinha que se encontrava cega, o que só se poderia fazer estendendo a triste notícia a todos os amigos padernenses espalhados pelo Algarve. A designação do jornal, algo infantil, demonstra a inocência das suas fundadoras, que julgando-se pobres criaturas indefesas e perdidas nos montes do barrocal, longe dos centros culturais e das grandes cidades, procuravam através do voo da sua “Avezinha” transmitir a todos os seus conterrâneos uma mensagem de amor e fraternidade, consentânea com o espírito cristão que a todas irmanava.
Depois da fase manuscrita, em que o jornalinho passava de mão em mão, com redobrados carinhos, o padre João Santos Silva, reconhecendo o esforço daquelas jovens e a utilidade daquele arauto da benemerência e da bondade, conseguiu que a diocese o aceitasse como boletim paroquial. Assim, em 17-7-1921, e sem quaisquer encargos para os seus fundadores, passou a editar-se em letra de forma, na tipografia União em Faro, aumentando o seu auditório e os seus horizontes de comunicação.
Tornou-se, deste modo, no primeiro jornal do povo de Paderne. E durante quinze anos foi cumprindo os seus objectivos, humanitários e culturais, até que a emigração para o Brasil da Maria Feliciana, e a morte do padre João dos Santos Silva, suscitaram em 28-12-1939 a mudança da sede do jornal para Faro, onde sobreviveu até à edição n.º 331 datada de 17-10-1953. Nesse período «a Avezinha» foi dirigida pelo padre Dr. Sesinando Oliveira Rosa, tendo estranhamente como proprietário do título o Padre José Gomes da Encarnação bondosíssima figura do presbitério diocesano. O apoio das suas fundadoras e dos seus beneméritos colaboradores foi esmorecendo até que se extinguiu.
Maria da Conceição Elói teve, felizmente, a alegria que ver ressurgir em Maio de 1977, a sua «Avezinha», pela mão de Arménio Aleluia Martins, seu dedicado amigo e admirador, que ainda tentou entregar-lhe o lugar de Directora que, modestamente, declinou. Continuou, porém, a colaborar até quase aos derradeiros dias da sua vida.
O talento, sobretudo poético, de Maria da Conceição Elói revelar-se-ia noutras colunas da comunicação social algarvia, nomeadamente na «Folha do Domingo» e «Correio do Sul» (ambos de Faro), no «Povo Algarvio» (de Tavira), na «Folha de Alte» (Loulé), nas revistas «Portugal Feminino» e «Almanaque de Santo António» (ambas de Lisboa) e em mais duas outras que se editavam no Brasil.
Consciente do seu valor, mas também desejosa de poder aferi-lo, concorreu a variadíssimos Jogos Florais, realizados tanto no Algarve como no resto do País, nomeadamente em Lisboa, Évora, Caldas da Rainha, Porto, Cascais. Desse modo obteve dezenas de prémios, entre 1ºs e 2°s lugares, assim como centenas de menções honrosas. Recebeu o último galardão em Lisboa, num concurso promovido pela revista «Mundo Rural», onde classificou em 2° lugar um dos seus contos. Ficou muito sensibilizada com o prémio atribuído e por isso decidiu ir a Lisboa, que foi dos raros actos públicos a que compareceu, pois o seu espírito modesto e simples não se compaginava com honrarias públicas.
Exerceu uma fecunda actividade literária durante quase setenta anos, escrevendo em verso todos os géneros de poesia, e em prosa redigiu belos contos literários e inúmeras crónicas jornalísticas. Como poetisa possuía especial apetência para a composição de sonetos.
No primeiro aniversário da sua morte o povo de Paderne homenageou-a com a colocação de uma lápida na casa onde nasceu, no sítio dos Montes Elóis, e uma placa evocativa junto do seu túmulo no cemitério local. Também lhe atribuiu o nome a uma das ruas da sua amada terra-natal.
Maria da Conceição Elói, na velhice
Em homenagem à sua obra poética, o Racal Clube de Silves escolheu-a para patrona dos VI Jogos Florais do Algarve, com a particularidade de ter sido a primeira mulher a receber essa distinção.
O jornal «a Avezinha», prestou-lhe, porém, a mais profunda e merecida homenagem de todas as que se haviam realizado, quando o seu director, Arménio Aleluia Martins, decidiu realizar o maior dos sonhos que a pobre poetisa nunca concretizou em vida - a publicação em livro dos seus versos. O título já ela o havia escolhido quando confidenciou à sua dilecta amiga Joselina: “Mal acordei esta manhã, passou-me pela mente, este pensamento com a rapidez de um relâmpago – se um dia publicasse um livro, gostaria que lhe pusessem: «Ecos da Minha Voz»...” Com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira o livro saiu a público em Janeiro de 1983, com o título de Ecos da Minha Voz, cumprindo-se a vontade da sua autora.
Acima de tudo Maria da Conceição Elói era uma mulher simples, alegre, afectuosa e expansiva. Tinha uma débil compleição física, era pequena e frágil, mas possuía um coração de ouro, uma alma de bondade e carinho, uma rara grandeza de espírito para uma mulher do campo, desprendida de vaidades e honrarias, que as mereceu, mas só as teve depois de morta.
Na sua lápide funerária incrustaram, em jeito de homenagem, este belo poema da sua autoria:
 
ANOITECEU...
 
Minha "irmã morte", quando tu chegares
Não tentes desviar o meu destino,
Nunca gostei de coisas singulares,
É tudo em mim, humilde e pequenino.
 
É tudo em mim, suave e cristalino,
Sem loucas alegrias, vãos pesares,
Eu canto a vida, como a voz do sino
Vai espalhando sons por esses ares...
 
Como regressa ao ninho uma andorinha
Ao pressentir que a noite se avizinha,
E para repousar ali desceu,
 
Numa campa rasa ó minha "irmã morte!"
Quisera um epitáfio desta sorte:
"Minha aldeia, voltei! Anoiteceu"...

domingo, 21 de junho de 2020

CLEMENTINA, Maria

A actriz algarvia Maria Clementina
Actriz de teatro, Maria Clementina Borges de Sá, de seu nome completo, nasceu em Faro a 28-1-1897, e faleceu em Lisboa nos últimos dias de Dezembro de 1947, com 50 anos de idade. Era filha de D. Clementina Rato Borges de Sá e de João Bernardino Cardoso Sequeira Borges de Sá, que foi oficial do exército. Era, também, sobrinha-neta de Duarte de Sá, notável figura de intelectual e homem das artes, que foi o primeiro director do Conservatório de Lisboa.
Depois dos estudos primários frequentou a Escola de Arte de Representar, onde se distinguiu quase de imediato pelas suas qualidades para o canto, desenvolvendo muito as suas naturais aptidões com D. Eugénia Mantelli de quem foi dileta discípula.
As artes do palco, sobretudo o teatro, atraíam a sua curiosidade e natural ambição de sentir na alma os aplausos do público. Estreou-se então a 17-11-1919, no Teatro da Trindade, numa opereta, ou teatro musicado, muito na moda nesse tempo, intitulada «A Bela Risette», integrada na famosa companhia de Afonso Taveira.
Pouco depois integrou-se na companhia de Luz Veloso, que tinha como palco o famoso «Chiado Terrasse» (onde, a 18-12-1921, se realizou o célebre «Comício dos Novos», com Almada Negreiros a proclamar o Futurismo contra os modelos dominantes da arte), estreando-se no teatro declamado. Curiosamente tonou-se pouco depois em escriturada de Nascimento Fernandes, distinto artista algarvio e um dos mais prestigiados nos proscénios portugueses.
Estúdios da «Invicta Film», no Porto, pioneira do cinema luso
Quando se constituiu a «Companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro» entrou para o seu elenco, nele se mantendo até ao precoce cair do pano no teatro da sua vida. Na culminância da sua carreira artística passou ainda pelo Teatro Nacional D. Maria II, onde alcançou a simpatia da crítica, e também do público, sem, todavia, ter conseguido atingir o patamar a que outras divas do palco lograram ascender.
Não quis o destino, infelizmente, que a sua carreira fosse longa. Talvez por essa razão não tivesse tempo para provar o seu verdadeiro talento e lograr alcançar os grandes êxitos da ribalta. Pode dizer-se, sem melindrar a sua memória, que embora Maria Clementina fosse uma artista bastante popular, faltou-lhe, porém, o sucesso estrondoso, a endeusante fama e a paixão do público, para se tornar numa diva da Arte de Talma. Em todo o caso, a sua carreira fez-se de forma ascensional, com a crítica a render-lhe rasgados elogios e até, por vezes, a render-se ao seu talento. As suas preferências interpretativas incidiam nas figuras de recorte cómico, caricaturando de forma maliciosa, histriónica e satírica certos estereótipos da sociedade portuguesa
Georges Pallu, realizador francês da Invicta Film
grande impulsionador do cinema português
Maria Clementina foi acima de tudo uma actriz do teatro cómico, distinguindo-se em várias comédias (talvez o género mais do agrado nacional) com figuras da sua própria concepção, representando quadros de um memorável humor, entre o brejeirismo popular e o sardónico afrancesado. Para isso valia-se da sua inteligência, perspicácia e esmerada educação literária. A sua invejável cultura geral, associada aos dotes de criação literária, levaram-na para os caminhos da escrita, preparando por vezes com os colegas os textos de peças cómicas, revistas e quadros hilariantes que integrava, por vezes, em peças de cariz erudito ou de raiz clássica.
Talvez poucos saibam que Maria Clementina foi uma das actrizes pioneiras do cinema português, ainda no tempo do “mudo”, participando em dois filmes produzidos pela «Invicta Films», do Porto, e realizados pelo cineasta francês Georges Pallu, que foi o grande impulsionador da cinematografia portuguesa. A primeira fita é de 1922, e intitulava-se «O Destino»; a segunda é de 1925, e designava-se «A Tormenta». Devo acrescentar que o cineasta Georges Pallu foi contratado a 17-2-1918, pelo portuense Alfredo Nunes de Matos, dono da «Invicta Film», à célebre empresa cinematográfica «Pathé Frères» de Paris. Quando chegou a Portugal, a 12-3-1918, deu início ao cinema moderno, artístico e profissional, sem perder de vista as raízes históricas da cultura lusíada. Pode dizer-se que o Algarve ficou de algum modo ligado ao arranque da 7ª Arte no nosso país, já que o primeiro filme produzido, «Frei Bonifácio», foi escrito por Júlio Dantas, o mais célebre de todos os escritores algarvios do século XX.
Em 1924, o artista António Pinheiro, algarvio dos quatro costados, e leal amigo de Maria Clementina, realizou com a ajuda de Georges Pallu, que também escreveu o argumento e até participou como actor de uma fita, hoje totalmente ignorada, intitulada «Tinoco em Bolandas», na qual a Maria Clementina desempenhava a baronesa de Sandomil, um dos papéis principais.
Cena do filme «Tinoco em Bolandas», de António Pinheiro
Já no tempo do cinema sonoro, e no estertor da II Guerra Mundial, em 1945, quando o cinema luso estava em grande pujança, a cineasta Maria de Lurdes Dias Costa, que como atriz e locutora de rádio, usava o pseudónimo Bárbara Virgínia, convidou a Maria Clementina para um insignificante papel no filme «Três Dias Sem Deus», que não obteve a simpatia da crítica, nem do público. O argumento deste filme era uma adaptação da obra «Mundo Perdido», da autoria do algarvio adoptivo Gentil Marques, que conheci muito bem nos anos oitenta como grande impulsionador da imprensa turística no Algarve. A título de curiosidade se acrescenta que o filme, produzido como todos os anteriormente citados pela «Invicta Film», era do género drama, e chegou a ser exibido no Festival de Cannes, a 5-10-1946, sob o título de «Trois jours sans Dieu». A estreia no nosso país ocorreu 30 de A
gosto de 1946, mas não teve a adesão do público, e o sucesso tão aguardado resultaria em breve num inesperado fracasso.
Maria Clementina sendo aparentada, pelo lado paterno, com o Conde de Farrobo herdara-lhe os genes artísticos, que elevou até aos píncaros das suas possibilidades, com honra, rigor e competência profissional.
Descendente, pelo lado materno, de uma importante família de Lagos, era também sobrinha do tenente-coronel do Estado Maior do Exército Raul Frederico Rato e do Dr. Jerónimo Cabrita Rato, sendo prima do Dr. Afonso Eduardo Martins Zuquete, que foi Governador Civil de Leiria.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

CAIRES, Luthgarda de

Poetisa, escritora e publicista, Eduarda Luthgarda do Livramento Guimarães, de seu nome completo, nasceu em Vila Real de St.º António, a 17-11-1858, e faleceu em Lisboa, a 30-03-1935, na sua casa, na Avenida da Liberdade, n.º 53-1º, aos 76 anos de idade, vítima de cancro da mama.
Fez a escolaridade básica na sua terra-natal, mas o falecimento do pai não lhe permitiu prosseguir os estudos.  Partiu para Faro, onde também não foi muito feliz, seguindo depois para Lisboa. Casou-se muito jovem, mais por necessidade do que por amor, e teve uma filha, Clotilde, cuja morte prematura a deixou destroçada para o resto da vida. Na capital conheceu o advogado João de Caires, um homem fino, delicado e com razoáveis posses financeiras. Casaram, tiveram um filho e pode dizer-se que foram felizes. Pelo menos proporcionou à jovem Luthgarda os meios necessários para dar azo ao seu talento, podendo a partir de então dedicar-se em exclusivo ao culto de Orfeu. A música e as Belas Letras, eram notoriamente a sua verdadeira paixão.
Tocava razoavelmente bem alguns instrumentos de cordas, como harpa, cítara e violino. Mas era no piano e no órgão que se entretinha a compor as melodias para as quais escrevia os seus poemas. Não sendo cantora lírica, pois que para isso não recebera instrução, possuía, porém, uma voz de cristalino timbre que fazia as delícias do marido e do filho, seus principais admiradores. Mas a sua negra sina depressa lhe ensombrou mais esse pormenor de felicidade. Sentindo fortes dores de garganta, supostamente resultantes de pólipos nas cordas vocais, foi, por conselho médico, submetida a uma desastrosa intervenção cirúrgica, que a impediria de voltar a cantar. Esse triste episódio da sua vida retratou-o com pungente realismo no seu romance O Doutor Vampiro, publicado em 1921, no qual a classe médica e a sua vontade de explorar os doentes constituíam o centro da trama romanesca. A imprensa e a crítica especializada teceram-lhe rasgados elogios, concordando com a maioria das críticas endossadas aos clínicos, que de forma pouco correcta encaravam a medicina como um negócio.
Passou então a dedicar-se exclusivamente às letras e às obras de caridade, que aliás constituíram o lenitivo da sua vida. Creio que a sua estreia literária se terá efectuado por volta de 1905 nas colunas de vários jornais lisboetas, não se sabendo ao certo qual o primeiro, mas sei, com toda a certeza, que foram «O Século», e quase em simultâneo o «Diário de Notícias», os alvos preferenciais da sua prestimosa colaboração. Como desde logo revelasse um estilo de prosa muito fino e elegante, só ao alcance dos grandes escritores, tornou-se objecto de comentário nos meios intelectuais da época. Os jornais brasileiros, que então mantinham acesa cooperação intelectual com o nosso país, foram igualmente contemplados com a generosa colaboração dessa tão precoce quanto misteriosa musa das letras.
Como mulher culta e ilustrada, mostrou-se interessada pelos grandes temas sociais do seu tempo, nomeadamente pela luta sufragista e emancipadora das mulheres, nitidamente imbuída do espírito que moviam outras figuras notáveis, como Ana de Castro Osório ou a sua comprovinciana Maria Veleda. Sabendo, através das suas correspondentes francesas, mulheres instruídas e modernas, do que se estava a passar na pátria de Rousseau e Voltaire, decidiu escrever para os jornais portugueses e estrangeiros entusiásticos artigos a defender os direitos e os interesses femininos, desde há séculos depreciados e até vilipendiados por uma sociedade masculinizada, a que os poderes públicos e a própria constituição davam legitimidade e protecção legal. Aliás, no decorre da sua vida, iniciou nas colunas da imprensa lisboeta verdadeiras batalha cívicas contra o analfabetismo que assolava preferencialmente o sexo feminino; contra a falta de direitos das mulheres, que se agravavam quando adquiriam o estatuto de esposas, passando quase a ser encaradas como objectos ou bens de propriedade dos maridos; contra o desvalimento das mulheres solteiras, das viúvas e abandonadas; contra a falta de protecção das mães solteiras, que por falta de meios de subsistência se viam muitas vezes compelidas a enjeitar os filhos ou a condená-los à mendicidade.
Luthgarda, gravura de Manuel Cabanas
Apesar do seu nome ser muito conhecido e respeitado na imprensa da capital, sendo aliás apontado como sinónimo de mulher culta e intelectualizada, o certo é que só em 1910 faria a sua verdadeira estreia em livro, publicando uma compilação de versos intitulada Glicínias, que teve estrondoso acolhimento nos meios literários da especialidade. Animada pelo sucesso obtido e motivada pela implantação da República, publicou logo em seguida o poemeto A Bandeira Portuguesa, através do qual se colocava ao lado do poeta Guerra Junqueiro, defendendo de forma empolgada e entusiástica a conservação das cores azul e branca no pendão nacional. Isto deu uma certa polémica com Teófilo Braga, que sustentava o verde e vermelho para a nova bandeira republicana, o que aliás veio a prevalecer. Acresce esclarecer que Luthgarda de Caires nunca foi republicana, mas também nunca se imiscuiu em quaisquer campanhas a favor do regresso à monarquia. Tornou-se politicamente independente, nunca aplaudindo a política partidária que arruinaria o regime republicano. Manteve-se pela vida fora à parte da política, e nem mesmo a acalmia do Estado Novo a demoveu a mudar de opinião e muito menos a simpatizar com a ditadura.
Em 1911 publicou o seu primeiro volume de prosa, uma colectânea de contos intitulada Dança do Destino, igualmente muito bem recebida pela crítica. Mas no ano seguinte voltou à poesia, dando à estampa um novo livro, As Papoilas, mais romântico e pueril do que os anteriores. Em 1916 dedicou à mãe e à sua filha Clotilde, tão prematuramente falecida, uma bela obra de poesia a que deu o título de Sombras e Cinzas. Continuaria depois a publicar novos livros de versos, que tal como os anteriores foram sempre muito aplaudidos pela crítica, como foi o caso de Pombas Feridas, Nossa Senhoras de Lourdes, e O Vagabundo. Por fim, em 1922, publicou nova colectânea de perfumados versos, a que deu o sugestivo título de Violetas, e no qual se insere o poema “Florinha das Ruas”, com que Luthgarda havia recebido o 1.º prémio dos Jogos Florais de Ceuta. Esse poema, tornou-se aliás bastante popular, a ponto de raras serem as senhoras, e até as crianças das escolas, que não o soubessem declamar.
Vem a propósito lembrar que a Condessa de Ribas e Madalena Brion, duas ilustres senhoras da primeira sociedade lisboeta, sugestionadas pela ética social do poema, e sobretudo pela popularidade que o mesmo atingira nos meios mais carenciadas, decidiram fundar uma instituição para a protecção de meninas pobres, à qual deram precisamente a designação de «Florinha das Ruas». Esse estabelecimento, criado à imagem das suas beneméritas instituidoras, esteve sediada num prédio no Campo de Santana, em Lisboa, que o tempo se encarregou de arruinar, e de assim fazer esquecer tão importante fundação.
Em prosa publicou ainda A Lenda de Guiomar, Árvores Benditas, Águas Passadas... (novelas), e dois livros de contos para crianças, intitulados Cavalinho Branco e o Palácio das Três Estrelas.
Acima de tudo, Luthgarda de Caires deixou uma obra de incontestável valor literário, norteada pelos altos princípios morais que modelaram a sua vida como cidadã e como mulher. Porém o seu nome será para sempre lembrado pela sua grande dedicação a variadíssimas obras de caridade, tendo-se principalmente à protecção das crianças e ao acompanhamento moral e conforto social dos presos. Assim, não podemos esquecer que em 1914 foi ela quem promoveu o auxílio às crianças doentes no Hospital da Estefânia, em cujo seguimento criou em 1924 o Natal do Hospitais, com o apoio logístico e financeiro do «Diário de Notícias». Tudo começou quando, por sua iniciativa, o «Diário de Notícias» abriu uma subscrição para comprar brinquedos para as crianças doentes nos hospitais. Foi uma bola de neve, que anualmente crescia de sucesso, a tal ponto que os artistas de circo e do teatro infantil se disponibilizaram para ir aos hospitais confortar as crianças. A partir daí nunca mais parou de crescer esta brilhante iniciativa, que hoje é transmitida pela televisão para o país, e por cabo para o mundo inteiro.
Também pugnou na imprensa pela abolição do uso de capuz, e às vezes de máscara, a que obrigatoriamente estavam sujeitos os presos da penitenciária de Lisboa. Essa prática foi efectivamente abolida quando o Dr. Rodrigo Rodrigues dirigiu o referido estabelecimento penal, por concordar com as objecções tecidas na imprensa pela poetisa Luthgarda de Caires. Também viu satisfeitas as suas críticas tecidas às vexatórias grades que defendiam as janelas do Aljube, então destinado ao internamento das mulheres condenadas por crimes públicos. Parecia-lhe que seria suficiente reduzir para apenas uma, em vez de três, as grades com que se pretendia impedir a fuga das prisioneiras, o que só muito raramente havia acontecido.
Na imprensa nacional, Luthgarda de Caires colaborou assiduamente no «Diário de Notícias», «O Século», «A Capital», «Correio da Manhã», «Ecos da Avenida», nas revistas «Brasil e Portugal», «Enciclopédia do Lar», etc., etc...
Monumento erigido a Luthgarda de
Caires no Jardim de V.R.Stº António
 
No âmbito da imprensa algarvia, Luthgarda de Caires colaborou sobretudo em poesia, em «Districto de Faro» (1911), «O Heraldo» (1912), «Correio Teatral» (1923), «Correio do Sul» (1924) e «O Algarve», todos de Faro; «A Província do Algarve» (1914) de Tavira e a revista «Nossa Terra» fundada em Maio de 1931 em Vila Real de St.º António. Mas a b em dizer foi o «Correio do Sul» que após a morte de Luthgarda se tornou no principal divulgador da sua nobre actividade social em prol das crianças, assim como da sua talentosa obra poética.
Moderna estátua de Luthgarda de
 Caires, erigida no cais de VRSA 
A relevância da sua obra literária e da sua acção cívica em prol das crianças, justificaram que por parte do governo fosse condecorada com as comendas de Santiago e da Ordem da Benemerência. Curiosamente, foi o ditador Oliveira Salazar quem, em 1931, lhe atribuiu o Oficialato da Benemerência. Também no Brasil havia sido há muito homenageada com a medalha de prata, pela excelsa magnitude da sua obra literária, aquando das comemorações do Centenário da Independência, realizadas em 1922.
Em 20-5-1936, um ano após a sua morte, a autarquia vilarealense aprovou por unanimidade uma proposta apresentada pelo presidente Matias Sanches, na qual atribuiu o nome da poetisa sua conterrânea ao antigo Largo da Fonte, junto do qual se situava aliás a casa onde nascera. Mais tarde, em Abril de 1966, voltou a autarquia a homenagem a sua memória, descerrando um busto, da autoria do consagrado escultor Raul Xavier, na pequena praça que tem o seu nome.
Existe actualmente uma estátua a corpo inteiro na poetisa, num recanto do jardim que se estende ao longo da bela marginal do seu “Rio Encantado”, em Vila Real de Santo António.
Para terminar, devemos acrescentar que do seu casamento com o Dr. João de Caires, teve um único filho, Álvaro Guimarães de Caires,  que viria a ser médico,  e foi um notável investigador da História da Medicina em Portugal, para além de um abalizado crítico de arte.
Acima de tudo Luthgarda de Caires foi uma mulher de campanhas nacionais. E como já aqui dissemos ficará para sempre lembrada como a criadora do Natal dos Hospitais, que actualmente já não se confina a Lisboa mas a todo o país, continuando o «Diário de Notícias», tal como na sua origem, a promover aquela que foi, e continua a ser, a mais louvável das suas iniciativas.
Em resumo, a obra literária de Luthgarda de Caires compõe-se dos seguintes títulos: Glycinias, 1910; A bandeira portuguesa, 1910; Papoulas, 1912; A dança do destino, contos e narrativas, 1913; A revolta, da autoria de Nelly Roussel, adaptação em verso de Luthgarda de Caires, 1914; Sombras e cinzas, 1916, (2.ª ed. 195?) O Doutor Vampiro, romance, 1923 Violetas, 1925 O palácio das três estrelas, novela infantil, 1931.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

A beleza das mulheres de Silves

O terceiro conde de Carnarvon
Vem de longe a fama encantatória das mulheres do sul peninsular, cuja fascinante beleza deixava os mareantes do norte europeu absolutamente rendidos, subjugados ao feitiço dos olhos místicos e desafiantes destas sereias das terras mouriscas. E quantos forasteiros, das mais remotas origens, aqui se deixaram prender nas teias do amor. O Algarve, a quem o Conde Shomberg Lippe, chamara «um pedaço do Paraíso Terrestre», proporcionava aos que aqui renovavam a sua pátria, todas as condições para uma vida serena e feliz.
O fruto, que desta terra mais fama granjeou na voz dos poetas, foi a rosa mística das suas belas agarenas. Por todo o mediterrâneo se espalhou o maravilhoso mito da cativante beleza das mulheres do algarve-andaluz. Contavam-se histórias de sedução ardente e de cativantes amarras, em que se deixavam enlear os viandantes. Dizia-se até que as sereias subiam as falésias das praias algarvias para acender fogueiras, com que se davam a conhecer aos marinheiros os melhores ancoradouros. Aqui aportados deixavam-se enfeitiçar pela invulgar beleza das mulheres algarvias. Enfim, fantasias que adoçavam a realidade da vida, que era bem mais difícil, árdua e até cruel, para os que a sorte não bafejava.
Henry John George Herbert
conde de Carvarvon
O terceiro Conde de Carnarvon, Henry George Herbert, cujo espírito viageiro o tornou célebre, numa das suas visitas pelo sul peninsular, deve ter sido um desses marinheiros que se deixou seduzir pela incandescente beleza da mulher algarvia. Com efeito, numa das sessões em que interveio no Parlamento inglês teceu, em 1836, rasgados elogios às mulheres algarvias, em especial às de Silves, cidade que visitara para apreciar as suas antigualhas mouriscas. Ouçamos as suas palavras, que são um mimo, um panegírico poético, uma bandeira de propaganda regionalista, quiçá até um cartaz turístico que não deveríamos descurar nos tempos que correm:
«As mulheres de Silves, assim como as de todo o Algarve, são extremamente formosas de feições, e muitas vezes também de figura: tez pálida, mas clara, olhos ensombrados por longas pestanas negras e sempre belos, tendo quasi sempre a distingui-los uma expressão pensativa e bondosa, que se reflete no sorriso, dando-lhe carácter. Os encantos das espanholas maravilham e atraem os olhares, mas a beleza algarvia, menos ardente, é dotada de mais ternura e nem por isso penetra menos fundo no coração
Panorâmica da cidade de Silves, em 1883
Esta expressiva declaração de Lorde Carnarvon – que foi uma distinta figura da nobreza, da política e da literatura britânica, que deixou nas suas obras notáveis descrições das terras e das gentes do sul peninsular – pode ler-se num opúsculo muito interessante e curioso, realizado e editado pelos serviços de propaganda da embaixada da Grã-Bretanha em Portugal. Numa edição de esmerado cuidado, com belas ilustrações e impressa em papel couché, veio a público com o sugestivo título: Portugal na Literatura Inglesa – Famosos escritores ingleses prestam homenagem a Portugal, Lisboa, Embaixada Britânica, 1943 (16 p., impresso a 2 colunas, ilustrado, 25 cm).
Para os possíveis interessados, acrescento que o exemplar que vi e consultei na Biblioteca Nacional de Lisboa, tinha a cota: L. 117620 V.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Dois sermões proferidos por Fr. Francisco da Cunha na Sé de Faro, no séc. XVIII


Em 1730, vendiam-se na casa de Rodrigo da Maya, um livreiro que teve a sua época, sediado no bairro oriental da Sé de Lisboa, várias publicações de índole religiosas. Havia de tudo, desde estampas e pagelas piedosas até aos sermões para a doutrinação ecuménica do rebanho patriarcal. Para servir os leigos e profanos, ou seja, o público em geral, não faltavam também ali os folhetos de cordel, pequenos fólios in-quarto, relatando prodígios insólitos e rocambolescos, como assombrações, encantos, génios demoníacos e toda a casta de fenómenos, caldeados com milagres e curas de origem divina.
Sé de Faro, no século XIX
Na imprensa do tempo, sobretudo na «Gazeta de Lisboa» publicavam-se pequenas notícias, pagas à linha pelos livreiros e editores, dando conta da vinda a público desses folhetos e opúsculos de inspiração religiosa. A intenção e expectativa era a de serem brindados pela Patriarcal ou até pela Casa Real, com a suprema graça de uma compra por grosso para distribuição pelas diversas casas de frades religiosos existentes na diocese.
Foi um desses anúncios que vi na edição nº 35, de quinta-feira 31-8-1730, a páginas 280 da «Gazeta» a referência à seguinte publicação:
Oraçaõ fúnebre, Laudatoria Historica, e Panegyrica nas Exequias do Summo Pontifice Benedicto XIII, de gloriosa memoria, que na Sè da Cidade de Faro, Reyno do Algarve, pregou o Padre Mestre Fr. Francisco da Cunha Augustiniano, mandou celebrar o Emminentissimo Senhor Cardeal Pereira do Titulo de Santa Susana, do Conselho de S. Magestade, dignissimo Bispo do dito Bispado fazendo nellas Pontifical. Lisboa na oficina Augustiniana, 1730.
O que me prendeu-me a atenção foi o facto de se tratar de um evento religioso realizado em Faro, certamente na Sé, que deve ter sido presenciado pelos mais altos representantes das autoridades civis e militares. Procurei indagar da sua existência na Biblioteca Nacional tendo constatado que existe mais do que uma cópia disponível à leitura pública.
O saudoso Abílio Gouveia, que tinha na sua biblioteca uma vasta coleção de sermões e outros folhetos relativos ao Algarve, disse-me que tinha um exemplar, mas não pude havê-lo à mão, para o poder asseverar. Nessa altura, o Abílio Gouveia era já bastante idoso, reservava-se na sua residência como um eremita, e tinha a sua biblioteca muito a recato dos olhares alheios.
Acerca do autor deste folheto, Frei Francisco da Cunha, padre mendicante da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, consultei as obras em que se arrima o conhecimento geral de tudo quanto no passado se publicou na lusa língua. Refiro-me à Biblioteca Lusitana, de Barbosa Machado (vol. II, p. 140), e ao Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva (vol IX, pp. 282-283).
Por eles coligi o pouco que se conhece acerca deste Frei Francisco da Cunha, que nasceu em Lisboa, em data que ignoro, mas que se presume ter sido ainda no século XVI. Consta que era filho de Domingos de Araújo, que foi um honrado Escrivão dos Feitos da Coroa, e de Bárbara da Cunha, os quais presumo terem sido ambos de boa e reconhecida índole. Ainda muito jovem estudou Humanidades e Latim, antes de dar entrada, a 6-03-1714, no convento da Graça, em Lisboa, na sagrada congregação dos Eremitas de Santo Agostinho. Na reclusão do cenóbio dedicou-se com perseverança ao estudo da teologia, da exegese bíblica, da filosofia aristotélica e da escolástica. O seu sacrifício foi coroado com a nomeação para Leitor de Teologia no convento onde professara. Pouco depois foi requestado para o exercício das mesmas funções no convento da sua ordem em Leiria, passando depois a Prior daquela prestigiada casa religiosa.
Voltou anos depois a Lisboa, onde foi prior do convento da Penha de França. Sabe-se que quando os agostinianos se reuniram em assembleia magna, na cidade de Perugia, na Itália, o nosso Frei Francisco da Cunha foi nomeado para presidir ao Capítulo Geral da Ordem, o que terá sido para ele uma subida honra. Após a sua estadia na capital da Úmbria, foi nomeado Procurador da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Lisboa para integrar a Cúria Romana, junto do Sumo Pontífice. Esse terá sido o momento áureo da sua carreira religiosa.
Quando voltou à pátria lusa, não foi longo o seu repouso na tranquilidade conventual, pois seria pouco depois nomeado Vigário Provincial do Reino do Algarve, com assento na Sé de Faro. É durante a sua estadia no Algarve que se estreia nas letras da fé católica, através da publicação do opúsculo acima referido.
O prelado desta diocese, o cardeal José Pereira de Lacerda (1662-1738), de quem foi amigo pessoal, nomeou-o para o exercício da alta dignidade de Examinador Sinodal da Bispado de Faro. Os seus dotes de orador fizeram-se destacar nas festas religiosas e nas celebrações ecuménicas da fé católica, pronunciando no púlpito da Sé de Faro notáveis sermões de que é exemplo o que aqui pronunciou por ocasião do Natal de 1731:
Sermam Panegyrico do Glorioso grande, ou mayor Santo S. Joseph fundado no Decreto da Sagrada Congregaçaõ dos Emminentissimos Cardeaes em 19 de Dezembro de 1726, pelo que se manda pòr S. Jozé na Ladainha dos Santos depois de S. Joaõ Bautista, prégado na Sé de Faro, pelo P. M. Fr. Francisco da Cunha, na Festa que lhe faz o Cardial Pereira. Lisboa, na Officina Augustiniana, 1731.
Embora já sem importância para o Algarve, o frade eremita calçado dos agostinianos, Francisco da Cunha, publicou em 1743 a sua mais reputada e extensa obra, cujo interesse literário excede largamente as anteriores, até pelo facto de na época causar alguma celeuma contestatória nos meios profanos e da autonomia popular. Aqui vai citada nos termos em que a descreve o Dicionário Bibliográfico de Inocêncio da Silva:
Oraçaõ academica panegyrica histórica encomiástica profano-sacra, pelos felicissimos sucessos e victoriosas armas da Serenissima Rainha de Bohemia, com a descripçaõ do mesmo Reyno, e corte de Praga, e das suas victorias do Panaro e Mano, adornada de varias poesias e muitos versos dos melhores engenhos portuguezes. Lisboa, na Officina Alvarense, 1743.
Sei que publicou ainda, com o pseudónimo de Ricardo Fineca Fascunh, que mais não é do que o anagrama de Francisco Cunha, um opúsculo intitulado:
Relaçam da prodigioza navegaçam da nao chamada S. Pedro, e S. Joam da Companhia de Macao, por merce da milagrozissima Imagem de N. S. de Penha de França, com a explicaçam, e pintura da grande cobra, que se achou na dita nao, e se criou dentro em huma pipa de agoa..., escrita por hum devoto domestico da mesma Senhora, Ricardo Fineça Fascunh. Lisboa, na oficina de Jozé da Silva da Natividade, 1743.
Curiosamente, nesse mesmo ano deu à estampa um outro opúsculo, no mesmo estilo dos anteriores, e de carácter laudatório e histórico, dedicada à rainha consorte de D. João V, que só por mera curiosidade passo a citar:
Oraçam academica, panegyrica, historica, encomiastica, profana-sacra, consagra, tributa e oferece à mesma soberana e Senhora D. Maria Theresa Augusta, Christina, Amélia Walburga de Austria / O.M. Fr. Francisco da Cunha Augustiniano. Lisboa, na Oficina Alvarense, 1743.
E nada mais conheço deste frade agostiniano, que tenha verdadeiro interesse para o estudo do Algarve ou que mereça constar na «Algarviana». Como se vê e comprova, apenas publicou cinco trabalhos, todos eles de inspiração religiosa, cujo interesse e valor histórico-cultural, se pode considerar muito reduzido.
Para terminar devo acrescentar que em 1759 há notícia de Frei Francisco da Cunha ainda vivo, ignorando-se onde e em que ano terá perecido.

sábado, 2 de maio de 2020

Capitão David Neto, um algarvio fiel a Salazar


Uma das figuras que apoiou Salazar e o Estado Novo, foi o capitão David Neto, um militar de grande integridade moral, que se fartou das incongruências da República, da falta de autoridade governativa, das hesitações da nossa política externa, e do partidarismo em que mergulhara a vida nacional. Teve um papel importante na defesa territorial das possessões africanas, que compunham o grosso do nosso império, e comportou-se exemplarmente, com bravura e dignidade no seio do C.E.F., que tão heroicamente defenderam a bandeira e os interesses nacionais na I Guerra Mundial. Em sua memória, aqui fica um breve esboço da sua vida, e da sua personalidade, não só como militar, mas também como escritor.
David Rodrigues Neto, de seu nome completo, nasceu na freguesia do Algoz, concelho de Silves, a 31-3-1895 e faleceu em Portimão a 4-1-1971, com 75 anos de idade. Acima de tudo foi um digno militar, um honrado advogado e um honesto político nacionalista.
Fez os seus estudos preparatórios na terra natal e os secundários em Faro, transferindo-se depois para a Universidade de Coimbra, onde iniciou o curso que teve de interromper por causa da participação de Portugal na I Guerra Mundial. Assim, assentou praça em 20-7-1915, sendo nos dois seguintes promovido a alferes e a tenente, até que em 1922 ascendeu ao posto de capitão, iniciando a partir daí uma carreira de armas que prosseguiu até à patente de Major, em 1935, mas que bem poderia ter sido mais fulgurante, se não fosse a sua vontade de concluir os estudos superiores e enveredar pelo foro.
Como militar portou-se com valentia e heroísmo, sobretudo nos insalubres campos da Flandres, sofrendo nas trincheiras a contaminação infecciosa das doenças que dizimaram mais militares do que os ignominiosos ataques do exército alemão. Basta dizer que as suas primeiras promoções foram obtidas nos campos da França durante a Grande Guerra, por actos de valentia, recebendo por isso várias condecorações nacionais e estrangeiras. Infelizmente, na célebre batalha de La Lys, ocorrida no fatídico “9 de Abril” de 1918, foi incapaz de suster o ataque das forças alemãs, esmagadoramente superiores em efectivos e equipamento militar, sendo as nossas linhas dizimadas até que os últimos resistentes, como o alferes David Neto, foram feito prisioneiros e internados num campo de concentração. Porém, o nosso intrépido algarvio conseguiu evadir-se do campo, prosseguindo um plano de fuga que o levou até à Dinamarca. Seduzido pelo conhecimento de novas culturas e ideias, decidiu demorar-se pela Europa, mesmo depois do armistício assinado em Novembro de 1918, percorrendo sobretudo a Bélgica e a Inglaterra.
Quando, anos depois, retornou a Portugal, preferiu voltar a estudar Direito, matriculando-se primeiro na Universidade de Coimbra e depois em Lisboa, onde viria a concluir o curso em 1926, logo após a «Revolução do 28 de Maio», em que participou activa e decididamente, sendo até apontado como um dos oficiais mais destemidos no avanço sobre a capital, afirmando-se um nacionalista convicto que expendia publicamente a necessidade de instaurar uma ditadura militar para salvar a pátria da incompetência dos políticos e da partidocracia instalada. Como recompensa foi nomeado comandante do Batalhão de Caçadores 5, cujas fortes convicções nacionalistas comprovou, no ano seguinte, ao colocar-se na linha da frente contra as revoluções do “7 de Fevereiro” e do “26 de Agosto”, ambas do ano de 1927, recebendo pouco depois, pela valentia debaixo de fogo, a condecoração da Torre-e-Espada.
Capitão David Neto Informa Salazar sobre a derrota do
Reviralho na Revolta de 26 de Agosto de 1931 - Lisboa
Talvez porque esperasse melhor retribuição política pela sua esforçada conduta militar, sentiu uma profunda desilusão com o regime salazarista, a tal ponto que decidiu retornar às origens, fixando-se na cidade de Portimão, onde se revelaria um cidadão impoluto e da mais relevante dedicação à sua província e ao seu povo. Nem parecia ser o mesmo major David Neto que todos conheciam, um contumaz nacionalista que escreveu na imprensa violentíssimos textos contra o “regabofe” republicano, publicando em 1933 um livro bastante polémico, demolidor das ideias de democracia sem responsabilidade e de liberdade sem ordem, que lançaram o país no caos e na bancarrota. Esse livro intitulou-se Doa a quem Doer, teve largas repercussões na imprensa e até no governo do recente “Estado Novo” de Oliveira Salazar – que embora apreciando certas críticas sobre o passado republicano e certas afirmações de esperança em relação ao rumo que tomava a nova situação política – o certo é que o não convidou para altos cargos da administração pública. Certamente desiludido com as expectativas a que se julgaria com direito, decidiu em 1935 afastar-se definitivamente da vida militar e optar pela advocacia. Creio, porém, que mesmo na vida forense o seu sucesso não foi significativo.
Pouco depois decidiu fixar-se definitivamente na cidade de Portimão, onde tinha bens de monta e desejava prosseguir a advocacia. Não creio que tivesse sido lá muito bem sucedido nas suas aspirações forenses. Em todo o caso, deixou marcas naquela cidade, nomeadamente em 1946 quando teve um gesto de altruísmo que veio demonstrar à saciedade não só a sua generosidade como ainda a superioridade do seu carácter.
Esse gesto consistiu na doação ao Instituto Português de Oncologia de uma vasto terreno em Portimão, para nele se instalar o centro de diagnóstico e tratamento do cancro. A escritura de doação do terreno foi firmada a 22-10-1947, pelo outorgante doador, pela sua esposa D. Maria Firmina Júdice de Abreu Neto e pelo chefe da secção de finanças de Portimão, em representação do Estado, tendo assistido ao acto o governador civil do distrito, Dr. Antero Cabral. A escritura foi lavrada nas notas da Dr.ª Mariana Carapeto dos Santos Patrício, notária naquela cidade, na qual se definiu que o terreno doado ao Instituto Português de Oncologia tinha 15.000 m2, situado no sítio de S. Sebastião, junto à estrada para o Alvor, no qual aquele Instituto se responsabilizaria pela construção de uma unidade hospitalar para o combate ao cancro, a qual na altura ficou orçada em 12 mil contos.
Não sei se o mesmo veio ou não a ser aproveitado para o fim em vista. Em todo o caso a oferta do terreno para o desenvolvimento da saúde em Portimão é uma prova do seu altruísmo e amor regionalista.
Mas o facto mais relevante e mais curioso na vida do ex-major David Rodrigues Neto foi o facto de ter perdido a confiança em Salazar e no regime nacionalista, tomando fortes posições contra o «Estado Novo» ao ponto de chegar a ser preso pela PIDE e sofrer a humilhação de ser julgado no Tribunal Plenário de Lisboa, em Conselho de Guerra e até mesmo no Tribunal da Comarca de Portimão, onde defendera vários pleitos judiciais. Durante as campanhas para a Presidência da República esteve sempre ao lado da oposição, quer na candidatura, em 1951, do almirante Quintão Meireles, quer, em 1958, na heroica campanha eleitoral do general Humberto Delgado, ao longo da qual tomou posições muito críticas contra o regime vigente.
Na imprensa algarvia colaborou no «Comércio de Portimão» e sobretudo no «Correio do Sul», cujo director, o Dr. Mário Lyster Franco, era seu amigo e antigo correligionário como simpatizante do movimento nacionalista. Mesmo quando o major David Neto se tornou em “persona non grata” ao regime nunca o «Correio do Sul», nem o seu director, lhe fecharam as portas. Creio até que entre eles existia alguma consonância nas críticas que em surdina faziam ao regime salazarista, que com o tempo vinha apodrecendo em favoritismos clientelares e em perseguições políticas absolutamente desumanas.