Decorria o período das Lutas Liberais, quando em 15 de Julho de 1833 surgiu, ainda que de forma bastante fugaz, o primeiro órgão da imprensa algarvia, sob a designação de «Chronica do Algarve», impresso em Faro, para noticiar os sucessos e avanços das forças liberais que desde o dia 24 de Junho ocupavam a região. Publicaram-se apenas as três edições iniciais porque as tropas liberais partiram poucos dias depois para Lisboa, onde a 24 de Julho alcançaram uma retumbante vitória militar. |
| O primeiro jornal editado no Algarve |
Por conseguinte, a imprensa algarvia nasceu sob o signo da liberdade e inspirada nos valores daquilo a que poderíamos chamar hoje de esquerda revolucionária. Não admira, pois, que os periódicos seguintes, a «Verdade Nua», publicado em Lagos (1840), e «O Popular – Jornal do Algarve», editado em Faro (1847), tivessem uma inspiração acentuadamente liberal e revolucionária, mantendo na sua primacial radícula a consciência política da esquerda rebelde e libertadora.
Na esteira desse espírito, livre, independente e insubmisso, não admira que o terceiro jornal a ver a luz do prelo no Algarve tenha tido a ousadia de se apresentar como defensor do ideário republicano, o que, na época era quase um crime público. Foi, pois, sob a rebelde invocação da Liberdade e da conquista dos direitos e garantias do cidadão que nasceu, em 9-9-1868, na cidade de Lagos, o «Echo do Algarve», o primeiro jornal que nesta região se assumiu inquestionavelmente republicano. Sabemos que foi impresso na Tipografia Lacobrigense, cujo prelo, pelas deficiências de impressão, presumo que fosse antigo e bastante rudimentar. Pertencia a António Corrêa, o qual deve ter financiado a sua aquisição, já que antes nunca vira tal máquina nem percebia nada de artes gráficas. O jornal era produzido, na velha arte da composição manual, por dois jovens improvisados tipógrafos que antes trabalhavam como alfaiate e carpinteiro. Mas não eram únicos, já que também ali trabalhavam dois aprendizes e dois impressores que nunca tinham visto antes o rolo e o estrado do mais simples prelo. Era seu único redactor José Teixeira Simões, que acumulava com as funções de administrador, revisor de ortografia e por vezes de tipógrafo. Vemos assim, que naquela tipografia tudo era improvisação e boa-vontade, certamente irmanados pelo espírito republicano que os impelia a clamar por mais liberdade e justiça social. Apesar de todas as dificuldades, logísticas e financeiras, o jornal foi saindo a público, sempre com ferozes ataques à Igreja e ao clericalismo obscurantista, à Coroa e ao daninho luxo da Corte, à exploração dos pescadores pela Companhia de Pescarias, ao atraso científico no amanho dos campos e ao analfabetismo. As lutas eleitorais foram também assunto de especial enfoque, de tal forma que defendeu a candidatura a deputado de Sebastião Coelho de Carvalho, pelo Partido Histórico (sempre conhecido por Partido Progressista), contra um argentário de nome Alves d’Araújo, que ninguém conhecia na região, proposto pelo governo ao círculo eleitoral do barlavento algarvio.
O seu acintoso jornalismo, cuja inspiração
política era uma mescla socialista e republicana, foi abertamente criticado
pelo Governador Civil que assumiu o triste papel de caixa de ressonância do
regalismo monárquico, dando cobertura a uma pertinaz e aleivosa onda de
calúnias emanada pela eclésia lacobrigense, de tal forma violenta que suscitou
o assalto à tipografia, despejando as caixas dos tipos (caracteres
tipográficos), e destruindo o material de impressão, o que não só atrasava a
edição como obrigava por vezes o «Echo de Lagos» a sair a público com apenas
uma folha de duas páginas, para relatar os soezes acontecimentos de que era
persistente alvo. Mercê dessas perseguições, o jornal deu a alma ao criador em
23-5-1868, ao cabo de 38 edições. |
| O segundo jornal editado no Algarve |
O facto do primeiro jornal republicano algarvio
ter visto a luz do prelo na cidade de Lagos deverá estar relacionado com a
existência de uma elite local de cariz político-cultural, cujas origens se
prendem com uma estirpe revolucionária visível desde 1816 na formação de uma
loja maçónica designada por «Philantropia ao Oriente de Lagos n.º 2600», que se
manteve activa até 1823, sendo os seus membros pronunciados na Devassa
instaurada em 14-1-1824, pela Intendência Geral da Polícia.[1]
Constatei recentemente que o número dos maçons, pertencentes à loja
«Filantropia», era porém superior aos trinta cidadãos inicialmente pronunciados
na chamada Devassa de Lagos.[2]
Em 1842 esta loja maçónica, subordinada ao Grande Oriente Lusitano, foi
restaurada com a mesma designação. Todavia, em 1844, já não existia, sendo
então instaurada uma nova loja maçónica com a designação de «Concórdia II n.º
4200», a qual em 1848 abateu colunas, para as reerguer no ano seguinte mercê da
constituição do Grande Oriente de Portugal.[3]
Já agora, devo acrescentar que a maçonaria em Lagos durante o período da
Regeneração quase não se deu pela sua existência, mas em 1905 existia um
triângulo muito ativo que trabalhou na preparação da revolução republicana,
tendo-se em 1911 formado uma loja com a designação de «Lacóbriga n.º 326», que
se manteve ativa até à instauração da ditadura militar em 1926. Importa acrescentar que a cidade de Lagos foi no
século XIX e até sensivelmente ao fim da I República, um verdadeiro alfobre de
notáveis jornalistas e escritores, areópago de brilhantes intelectuais que
muito dignificaram a cultura algarvia. Aproveito o ensejo para aqui lembrar,
num breve exercício de memória, alguns eméritos publicistas da praça
lacobrigense, como Bartolomeu Salazar Moscoso, João Bonança, Jeronymo Bicker
Cabral, Afonso Cañet de Castro, António Cabreira, José Joaquim Nunes, António
Joaquim Correia Júnior, Augusto Feio Soares de Azevedo, João Pedro Correia
Tello, António Augusto Lobo de Miranda, Joaquim José Serpa, José António
Guerreiro Gascon, José Bento Formosinho, António Sabino Simões Neto, Júlio
Dantas entre tantos outros. |
| primeiro jornal republicano algarvio |
O conteúdo formal dos jornais
Nessa altura, os jornais eram como que montras da realidade envolvente, abrindo com o chamado “artigo de fundo”, não assinado, mas da autoria do diretor, no qual se expunha a posição ideológica e formal do jornal face aos principais momentos políticos; seguindo-se depois as notícias, raramente tituladas e apenas separadas por um “filete” (traço negro). No rodapé do jornal, ocupando toda a largura da página e geralmente o reverso da mesma, figurava o «Folhetim», no qual se inseria um conto, uma novela ou até mesmo um romance de um autor clássico – embora não fosse raro publicarem-se textos literários de autores locais. Nas páginas interiores desfilavam as mais diversas secções, com particular incidência nas que se designavam por «Carta de…» ou «Correspondências», que eram noticiários das freguesias do concelho a que o jornal dizia respeito; a que se seguiam os «Bilhetes de Visita» (coluna social), a «Necrologia», o «Teatro», as «Artes e Letras», a «Gazetilha» (retratos satíricos em verso), «Charadas», «Ecos» (noticiário internacional), «Sports», «Anúncios Oficiais», etc…
Não me vou demorar a evocar todos os periódicos republicanos que se editaram no Algarve, mas em todo o caso, importa destacar os semanários «Districto de Faro», «O Algarve», «A Mocidade», «O Heraldo» e «O Sul», todos sedeados em Faro, mas que nos primórdios do século vinte assumiram a importante função de caixa de ressonância das ideias libertárias e do reformismo democrático. Coube à imprensa regional o fundamental e decisivo exercício de propagandear a República no seio do povo, despertando na alma e coração dos humilhados e ofendidos a necessidade da revolução.