segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COSTA, Isabel Maria da Cruz de Brito


Senhora muito bondosa e estimada em Estoi, sua aldeia natal onde sempre residiu e onde veio a falecer a 19-9-1954, com 69 anos de idade.
Embora fosse uma senhora de excelsas qualidades humanas e cristãs, foi na companhia de seu esposo, o médico e poeta Augusto Emiliano da Costa, que mais e melhor se distinguiu, quer na assistência ao seu consultório, quer no apoio aos doentes mais pobres e às crianças desvalidas.
Sucumbiu ao cabo de alguns meses a uma doença incurável, deixando o marido e todo o povo da sua aldeia natal na mais inconsolável saudade.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BRITO, Maria Josefina Júdice Guerreiro de


Distintíssima senhora da melhor sociedade algarvia, natural da freguesia de Pêra, que faleceu em Faro, onde residia desde há décadas, em 4-6-1954, com 86 anos de idade.
Muito estimada pela sua lhaneza de trato e pela bondade de carácter, sobretudo pelos seus primorosos dotes de piedade e ternura pelos mais desfavorecidos. Toda a vida se ouviu falar do seu nome com estima e admiração, tendo juntamente com outras senhoras velado pelos pobres, combatendo a fome, o frio e a falta de lar das famílias mais carenciadas.
Era viúva do ilustre Dr. José Luís de Brito, que como juiz exerceu em Faro e noutras comarcas do País, sempre com a maior dignidade e isenção, o múnus da magistratura. Era mãe das senhoras Lucília de Brito Pavão Leal e Laura de Brito de Bivar Weinholtz, viúva do ilustre museólogo Dr. Justino Henrique de Bivar Weinholtz, e dos senhores Almirante José Augusto Guerreiro de Brito, que foi chefe do Estado Maior Naval; Eng.º Anastácio Guerreiro de Brito e António Guerreiro de Brito, que na altura vivia na Bélgica. Era avó das senhoras Maria Filomena de Brito Leal de Bivar Weinholtz, Maria Lucília de Brito Leal Monteiro e Isabel Maria de Brito Bivar da Silva e Sabbo; e dos senhores Eng.º Manuel de Bivar Weinholtz, Dr. Luiz Frederico de Bivar Weinholtz, 1.º tenente da Armada José Luís Sales Henriques de Brito, João Artur Sales Henriques de Brito e António Sales Henriques Guerreiro de Brito. Para além destes seus ilustres e mui dignos descendentes, deixou ainda 14 bisnetos.
Ficou sepultada em jazigo de família no cemitério de Pêra, tendo honrado o seu funeral a presença do Governador Civil do Distrito de Faro, eng.º Manuel de Mascarenhas Gaivão, ao lado do Comandante, e seu descendente, José Henriques de Brito, que representava o Ministro da Marinha, o Comandante Geral da Armada e o Director Geral da Marinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Gabriela da Fonseca de Bivar


Senhora da mais elevada sociedade farense e descendente das mais nobres e prestigiadas famílias algarvias. Era natural de Faro, onde faleceu a 5-5-1950, com 53 anos de idade. Era a esposa do conhecido e muito estimado Raul Cúmano de Bivar Weinholt, vereador na Câmara de Faro e presidente da Comissão Municipal de Turismo.
Dotada de uma educação esmerada, aliava a sua superior inteligência a um soberbo porte de nobreza, quer nos sentimentos como nas atitudes sociais, dedicando-se a obras de solidariedade para com os mais desprotegidos, com especial incidência nas crianças e nas mulheres pobres. As crianças do asilo de Santa Isabel em Faro foram objecto permanente do seu desvelo.
Gozava da mais profunda estima do povo farense, não só pelas suas origens como também pelas suas actividades de benemerência, auxiliando os desfavorecidos com boa parte dos seus bens de fortuna. Do seu finíssimo espírito e preclaras virtudes nasceu em torno do seu nome e da sua casa um ambiente de bondade e uma fama de santidade, que o povo animava a todo o momento com a divulgação de novos gestos de altruísmo e inimitável generosidade.
Um ano antes de falecer declarou-se-lhe uma doença incurável, com a qual lutou com grande coragem, padecendo de doloroso sofrimento que o povo foi acompanhando com indescritível tristeza. Por isso quando faleceu teve o maior enterro de que havia memória na cidade. As senhoras mais ilustres da sociedade algarvia, concentraram-se junto ao féretro, acompanhadas pelos representantes das principais instituições e autoridades locais. O município mandou colocar as bandeiras a meia haste em sinal de luto e em respeito à memória da sua ínclita cidadã.
Era filha de D. Maria Teresa Eusébio da Fonseca e do conhecido industrial José Alexandre da Fonseca, figura de proa da sociedade farense. Era irmã de D. Maria Teresa Fonseca Leal de Oliveira, do industrial José Alexandre Eusébio da Fonseca, do Dr. Manuel Eusébio da Fonseca, do major do Estado Maior, Jorge Eusébio da Fonseca e do comandante Henrique Eusébio da Fonseca, que foi capitão do porto de Olhão.
Era mãe de D. Isabel Luísa Fonseca de Bivar Azevedo e de José Manuel Fonseca de Bivar Weinholtz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Francisca Ribeiro de Carvalho Bivar


Ilustre benemérita e dama da mais nobre estirpe nacional, nascida em terras nortenhas, e falecida em Portimão, a 15-1-1946, com 84 anos de idade.
Veio para o Algarve como esposa do engenheiro agrónomo Francisco de Bivar Weinholtz, também ele pertencente a uma das mais notáveis e tradicionais famílias algarvias, grande benemérito local, estudioso e intelectual, a quem a cidade de Portimão muito ficou devendo.
Uma irmã de D. Maria Francisca havia-se ligado também em Portimão à família Maravilhas, de não menos tradição e popularidade local.
Foi sempre uma bondosíssima senhora, verdadeira protectora dos pobres, tendo nesse sentido presidido durante largos anos à Associação de Caridade de Portimão, financiando várias das iniciativas que ela própria promoveu em benefício dos mais desafortunados. Por essa razão é que o governo a condecorou com o oficialato da Ordem de Benemerência.
O seu funeral transformou-se numa das mais comoventes manifestações de pesar jamais vistas no Algarve, tendo a autarquia decretado luto municipal.
Acresce dizer que o município portimonense, após o falecimento de D. Maria Francisca, entrou imediatamente na posse do chamado palácio Bivar, que por morte de seu marido, e com sua absoluta concordância, coube em partilhas a seu sobrinho, Manuel de Almeida Coelho de Bivar, que por sua vez, no cumprimento dos desejos expressos pelo tio, o doou à Câmara para ser transformado num Hospital, num asilo ou em qualquer instituição de beneficência local.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VARGAS, Maria da Conceição Santinho


Benemérita local, faleceu em S. Marcos da Serra, vítima de congestão cerebral, a 16-1-1950, com 57 anos de idade.
Bondosíssima senhora, alma de eleição pela sua generosidade e benemerência, sempre preocupada com os desvalidos, que tratou e protegeu de uma forma a todos os títulos exemplar. O facto de ter sido muito esmoler e condoída para com os mais desafortunados, fizeram com que o povo a tratasse como a “Mãe dos Pobres”, devido aos gestos e atitudes que tomou em favor dos indigentes. Aliás, nesse sentido merece salientar o facto de haver doado um vasto terreno no qual se construiu a residência do médico e as instalações da farmácia de S. Marcos da Serra, na altura pouco mais do que uma vilória esquecida no mapa.
Era casada com o abastado proprietário e industrial José Ventura Vargas, de quem teve dois filhos: Mário Santinho Vargas e de José Santinho Vargas.
O seu funeral foi a maior manifestação de pesar que algum dia se realizou naquela vila.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TENGARRINHA, Teresa de Jesus Marques do Carmo


Nasceu em 1895, na vila de Monchique, e faleceu, de doença incurável, na sua residência de Portimão, a 31-12-1956.
Era uma senhora de reconhecidos dotes para as artes, embora fosse também grande apreciadora das Belas Letras. Casou-se com José Mendes Tengarrinha Júnior, agente do Banco de Portugal na cidade de Portimão, onde era muito estimado e apreciado pela sua educação, honradez e lisura de trato.
Era irmã de D. Maria Isabel Marques do Carmo de Oliveira Correia e do Dr. José Marques do Carmo, juiz desembargador muito conceituado na capital.
Foi mãe, extremosa e dedicada na apurada educação de seus dois filhos, que se tornariam notáveis cidadãos e reconhecidas figuras públicas na área da política, da cultura e da educação, refiro-me à Dr.ª Maria Margarida do Carmo Tengarrinha e ao Prof. Doutor José Manuel Marques do Carmo Tengarrinha.
Encontra-se sepultada no cemitério de Monchique.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.

sábado, 11 de dezembro de 2010

SANCHO, Maria Dias


Natural de S. Brás de Alportel, faleceu em Faro, a 28-9-1946, com 84 anos de idade. Senhora dotada de grande inteligência e com uma enorme sensibilidade para as artes. Ciente das perspectivas do futuro, e sobretudo das oportunidades suscitadas após a implantação da República, tratou de mandar educar os filhos, enviando-os para Faro e depois para Lisboa, onde todos deram boa conta das suas qualidades morais e intelectuais. Teve aliás o mesmo procedimento em relação aos netos, cujo sucesso foi igualmente notável no panorama intelectual português.
Por outro lado, D. Maria Sancho preocupou-se com a administração das suas propriedades e com os negócios do marido, sem nunca descurar os mais desprotegidos, de tal forma que distribuía regularmente avultadas esmolas pelos pobres e pelas instituições locais de beneficência social.
Acresce dizer que era mãe do escritor, então já falecido, José Dias Sancho e de D. Adelina Dias Sancho Nobre, casada com o Dr. João da Silva Nobre, em cuja residência faleceu, confortada pelo carinho dos seus familiares.
Era avó de Maria Júlia e Maria Spiridinova Dias Nobre, do artista João Nobre, do publicista e escritor Roberto Nobre, do Dr. José de Sousa Uva, que foi advogado em Faro, e do Dr. Alberto Dias de Sousa Uva, que residindo na cidade do Porto foi professor liceal e jornalista consagrado, chegando mesmo a ser director do diário «Primeiro de Janeiro».

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Homem que incendiou a Casa de Camilo


Em 1915 ocorreu um violento incêndio na freguesia de São Miguel de Seide, concelho de Vila Nova de Famalicão, precisamente na então designada "Casa Amarela", ou seja na velha mansarda que serviu de residência ao escritor Camilo Castelo Branco. Esse desastroso sinistro, que praticamente reduziria a escombros a notável habitação do emérito romancista, foi por muitos dos seus biógrafos considerado como um dos mais tristes episódios do itinerário camiliano. Nunca se chegaram a apurar as verdadeiras responsabilidades sobre a autoria do sinistro, pelo que na época chegou a correr em surdina que se tratara de uma vingança dos Farias (gente agressiva, virulenta e perigosa, a quem Camilo, nos seus romances, atribuíra vários crimes e atrocidades pouco abonatórios e bastante depreciativos do bom nome dessa família), cujos antigos ódios nunca se apaziguaram, nem mesmo depois do passamento do insigne romancista. Foi nessa residência, de grande imponência para o meio rural em que se achava inserida, que Camilo escreveu grande parte da sua obra literária, tendo nela sofrido os dissabores da vida e as agruras da progressiva cegueira, que o levariam ao dramático desfecho do suicídio. Nessa imponente "Casa Amarela", hoje Museu Camiliano, viveu e morreu aquele a que os seus biógrafos se referiam como o "torturado de Seide", pois que foi na freguesia de São Miguel de Seide que sofreu amargamente o desgosto de sentir o lento mas irreversível evoluir da doença crónica que o arrastaria para a perda total da visão, privando-o de desfrutar da leitura e, sobretudo, da escrita que sempre foi a sua única enxada para o sustento da vida.
Mas apesar das versões de vingança que durante anos se expendiram sobre o incêndio da casa de Camilo, o certo é que tudo não passou de um triste e involuntário incidente, que o seu próprio autor ocultou quase ate ao fim da vida. Mas, no princípio da década de oitenta do século passado, sentindo que a chama da vida já se lhe estava a extinguir, o inocente incendiário da Casa de Camilo chamou-me à sua presença para me contar a real versão dos factos, a qual, por sua vontade, escrevi e publiquei no vespertino «Diário de Notícias»
Passados todos estes anos resolvi agora exumar dos meus papéis e recortes de imprensa esse velho artigo que aqui deixo transcrito, na expectativa de que o mesmo possa ser útil aos estudiosos da obra camiliana.

sábado, 30 de outubro de 2010

Peste em Tavira no século XVII e o auxílio dos Franciscanos no seu combate


O surto pestífero que assolou o Algarve em 1646 foi trazido por um “navio de courama” oriundo do Norte de África que entrando pela foz do Gilão aportou junto à ponte de Tavira. A enfermidade espalhou-se imediatamente pela população dizimando a maior parte dos seus moradores. Dizem os relatos da época, certamente com grande exagero, que nessa altura, e só na cidade de Tavira, pereceram 5000 pessoas, não havendo chão sagrado que chegasse para soterrar tantas vítimas. E o desastre só não foi maior porque os frades franciscanos saíram do seu convento em auxílio dos pestíferos, providenciando-lhes conforto humano e religioso, fornecendo-lhes alimentos, agasalhos e até alguns poucos medicamentos, porque o contágio foi de tal forma acelerado que não subsistiam curativos médicos nem mesinhas caseiras que chegassem para acudir a tantos doentes.
O sacrifício dos padres franciscanos revelou-se inexcedível e eficaz, mas para isso tiveram de pagar um preço demasiado alto em vidas humanas, contando-se entre as vítimas alguns dos mais notáveis religiosos da Província da Piedade no Algarve. Lembro por exemplo o próprio Guardião do Convento, Frei Luiz de Beringel, que foi Pregador de grande reputação e não menos afamado Teólogo que morreu em cheiro de santidade. Mas também não devemos esquecer entre as vítimas da peste o notável Frei André de Cernache, que foi Confessor e decano do convento, muito querido entre o povo de Tavira pelas suas qualidades morais e sobretudo pelas suas manifestações de bondade. A eles se juntaram, no infortúnio da morte, outros religiosos, nomeadamente o Confessor Frei Manoel de Estremoz, Frei Basílio da Pedreira e Frei Luiz de Vila de Frades, ambos irmãos leigos. Estes frades foram inexcedíveis na sua dedicação aos habitantes da cidade, mostrando total despojamento pelas suas próprias vidas, pois que se expuseram ao contágio, acolhendo os doentes na Casa da Saúde da cidade, cujas ruas e praças ficaram quase desertas pelo terror da mortandade, num silêncio fúnebre e tenebroso, só entrecortado pelo som das campainhas que os pestíferos traziam ao peito para anunciarem a sua passagem.
Convém acrescentar que existiam naquela cidade cerca de três conventos, mas nenhum deles quis associar-se aos irmãos de S. Francisco com medo de perecerem no contágio da peste, facto que suscitou do rei D. João IV o seguinte desabafo: «Os meus frades (assim chamava sempre aos da Piedade) são bons religiosos, esperão a morte a pé quedo e não desamparão seus conventos».
Durante esse fatídico ano de 1646 a peste circunscreveu-se apenas à cidade de Tavira, mas nos anos seguintes estendeu-se a outras localidades do Algarve, principalmente a Faro, Loulé e Lagos, escapando milagrosamente Vila Nova de Portimão. E no heróico combate ao surto pestífero sempre se distinguiram os frades franciscanos, havendo até a registar o facto do povo de Portimão não querer deixar que os seus frades fossem acudir os seus irmãos religiosos no denodado esforço de lutarem contra o desenvolvimento do surto epidémico.
Perante o flagelo, el-rei D. João IV mandou de Lisboa ao Algarve os seus cirurgiões estrangeiros mais experimentados na cura desta epidemia, assim como medicamentos, boticários e enfermeiros especializados no combate ao contágio. Curiosamente estes emissários reais vinham todos destinados ao convento de franciscanos de Vila Nova de Portimão, cujo Guardião os mandava distribuir pelas várias localidades do Algarve, conforme achasse mais conveniente.
Pouco depois dava-se por extinto o surto epidémico em todo o Reino do Algarve, não chegando, felizmente, a estender-se o contágio à província do Alentejo. Todavia, e apesar dos seus nefastos resultados, desconhece-se ainda hoje o número, certo ou aproximado, das vítimas da peste no Algarve. Presumo que tenham sido alguns milhares.
Para se saber mais acerca deste surto epidémico, dos seus perniciosos estragos e, sobretudo, do esforço evidenciado pelos frades franciscanos no combate ao contágio, veja-se, como fonte histórica, a obra de Frei Manoel de Monforte, Chronica da Província da Piedade, Primeira Capucha de Toda a Ordem, & Regular Observância de Nosso Seraphico Padre Francisco, Lisboa, Officina de Miguel Deslandes, impressor de Sua Magestade, 1696, pp. 752-755.

João de Deus e a sua colaboração no «Bejense»


O poeta João de Deus, talvez nem toda a gente o saiba, colaborou assiduamente, em prosa e em verso, no semanário «O Bejense», órgão local do Partido Regenerador, em cujas colunas publicou durante vários anos alguns dos seus mais belos poemas, assim como belíssimas quadras de inspiração popular. Mas o mais importante é que algumas dessas notáveis produções poéticas foram recolhidas num pequeno, mas não menos interessante, livrinho da autoria de Rodrigo Veloso, que saiu a público com o título de Algumas Poesias pouco conhecidas de João de Deus, cuja edição teve apenas uma centena de exemplares (20 em papel de linho e 80 em papel vulgar) com anotações de Rodrigo Veloso, precedidas de um artigo de Antero de Quental intitulado «Divino Antero». Não esqueçamos que Antero dedicou o seu livro Sonetos, publicado em 1861, ao poeta João de Deus, de quem foi grande amigo e dedicado colega na Universidade de Coimbra.
O livrinho acima citado, de que existe um único exemplar, que tive a oportunidade de manusear, na Secção de Reservados da Biblioteca Nacional (antes de Lisboa e agora designada de Portugal), com o n.º 24 da edição de 100 que, diga-se em abono da verdade, nunca chegou a entrar no mercado comercial, tem, entre outras, um quadra que considerei verdadeiramente lapidar por ser dedicada ao Algarve, a qual no fundo é uma espécie de retrato da flor da amendoeira:
Abre a flor à luz que a enleva
Seu cálix cheio d’amor
E o sol nasce, passa e leva
Consigo perfume e flor.

Esta quadra é, como já disse, dedicada à flor da amendoeira, a qual, importa ressaltar que neste livrinho considerada por João de Deus como sendo a flor sagrada do Algarve

sábado, 23 de outubro de 2010

Corrupção na Câmara de Lagos, em 1784


LACOBRIGENSE, é o pseudónimo do autor de uma obra poética de carácter épico-narrativo, inspirada no modelo crítico-jocoso dos finais do século XVIII, na qual se revelam procedimentos da administração local relacionados com actos de corrupção, de enriquecimento indevido (locupletação) e de arbitrariedade política.
Na verdade, a obra intitulada A / MINISTRADA / Poema / critico / dado á luz / Por hum amador da tranquilidade lacobri- / gence. Anno / MDCCLXXXIV, é um poema narrativo, que se encontra dividido em seis cantos, preenchidos por estrofes de alexandrinos no género estilístico das obras clássicas. Têm porém um estrito sentido descritivo e exegético dos acontecimentos que suscitaram um generalizado motim popular dos moradores da cidade de Lagos contra as autoridades que exerciam a administração municipal, especialmente contra as arbitrariedades ditatoriais de um vereador em particular e do respectivo Juiz de Fora.
Todos os factos e personagens discriminados nesta obra poética são identificados e clarificados ao leitor com dezenas de notas que figuram no fim de cada canto. Basta esse simples aspecto para poder considerar-se esta obra poética como uma fonte de inegável interesse histórico. Por outro lado, ainda que se trate de um obra literária, e no género poético, pouco aconselhável como fonte histórica, não podemos deixar de salientar que nela se relatam factos verídicos, narrados em tom crítico e, por vezes, jocozo, o que não invalida o seu interesse e necessidade de ser dado à estampa com a chancela da edilidade local, quanto mais não seja como homenagem ao seu talentoso, embora ignorado, autor, que era certamente um lacobrigense.
Embora não tenha uma ideia de quem foi o seu autor, presumo que seria de apelido Vale, porque é essa a assinatura que aparece no fim da Introdução ao poema.
Este livro manuscrito abre com uma breve «Introdução» que passamos a transcrever:
«Os tumultos de Lagos originados das paixoens de alguns Ministros, como pela ellevação da Caza do Vereador Bento de Azevedo, tem sido objecto de rizo para huns, e de trabalhos para outros; mas de lastima para todos aquelles bons, e sinceros animos que se interessão no publico socego. A ultima dezordem que occazionou, e deu lugar a este pequeno Poêma, em que mais se observão as leis da verdade do que as Regras da Arte, se lhe fez de alguma utilidade, dando a conhecer os males e dezordens, a que nos conduz a discórdia, e a ambição, e preencherá o fim do seu Author, único e singular, que se propoz em ordenálo; e se alguém duvidar da variedade dos factos que nelle se apontão, o Author não tem duvida em apprezentar provas autenticas de todos elles, em qualquer Archivo, ou Livraria publica da Corte.»
Esta obra manuscrita poderá consultar-se na Biblioteca Nacional de Portugal, secção de Reservados, códice 6058.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

SOUSA, Manuela Gavilanes de


Professora primária, natural de Faro, onde faleceu a 12-11-1953, com apenas 40 anos de idade.
Era muito estimada pelos seus alunos, mas foi o seu belo carácter e as suas raras capacidades de trabalho que a distinguiram no conceito dos seus superiores hierárquicos e mesmo da sociedade farense. Tinha uma sólida formação moral e uma excelente preparação religiosa, pelo que era muito querida e enaltecida nos meios de maior elevação social, sendo mesmo apontada como um modelo a imitar pelas jovens estudantes do magistério Primário de Faro. Razões de saúde, mas também de competência profissional, suscitaram a sua requisição para os serviços de secretaria da Direcção do Distrito Escolar, onde se encontrava à data do seu precoce desaparecimento, o qual causou a maior consternação na cidade.
Era filha de Adelaide de Sousa Gavilanes e de Joaquim Gavilanes Puente, de origem espanhola e já então falecido; tinha como irmãos Joaquina Gavilanes de Sousa, que era assistente social em Olhão, Emílio Gavilanes de Sousa, comerciante, e Fernando Gavilanes de Sousa, que era funcionário superior do Grémio dos Armadores de Pesca da Sardinha, radicado em Lisboa.

SOUSA, Alexandrina da Fonseca Salter de


Ilustre senhora da melhor sociedade farense, assídua frequentadora dos bailes do Clube farense e dos espectáculos do Teatro Lethes, onde se fazia notar pela nobreza da sua postura, soberba elegância e requintada educação.
Creio que era natural de Faro, onde faleceu com 84 anos de idade nos finais de Abril de 1947. Foi casada com Alexandre Salter de Sousa, ilustre oficial da armada portuguesa que depois se dedicou à docência, sendo aliás um dos professores mais famosos do Liceu de Faro. Como matemático foi muito distinto e bastante admirado nos meios da sua especialidade.
A delicada senhora era mãe de D. Amélia Salter de Sousa Belmarço e de Eduardo Salter de Sousa; era sogra do ilustre Vidal Belmarço, director do Banco do Algarve, e avó de Maria Luísa Salter Belmarço Rocheta, D. Maria Alexandrina Salter da Fonseca, do Dr. Manuel José da Fonseca e Fernando Belmarço; era tia de D. Gabriela Fonseca de Bivar, D. Maria Teresa da Fonseca Leal de Oliveira, D. Stela da Fonseca Lã, José Alexandre Eusébio da Fonseca, comandante Henrique Eusébio da Fonseca, capitão Jorge Eusébio da Fonseca e Dr. Manuel Eusébio da Fonseca.

sábado, 24 de julho de 2010

PESSOA, Júlia Chelmicki


Figura notável da sociedade tavirense, que faleceu em Tavira nos princípios de Abril de 1947, com 91 anos de idade.
Era filha do famoso general José Carlos Conrado Chelmicki, que foi um dos militares mais distintos do seu tempo, natural de Varsóvia, que faleceu em Tavira, em 1890.
A ilustre senhora era madrasta de D. Ester Pessoa de Pádua Cruz, na companhia da qual sempre viveu em amor e harmonia, sendo tratada com o maior carinho e desvelo pela ilustre família Pessoa de Tavira, da qual também descende, como se sabe, o poeta da Mensagem.
Era viúva de João Daniel Gil Pessoa e irmã de D. Josefina Chelmicki Samora, residente em Lisboa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

DRAGO, Inês Maria de Azevedo e Silva


Escritora e poetisa, nasceu em Loulé a 5-6-1860 e faleceu na sua residência de férias em Lagoa a 16-8-1947, com 87 anos de idade.
Descendente de uma das mais distintas e prestigiadas famílias do Algarve, viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, onde se distinguiu pela sua esmerada educação e rara eloquência, como dramaturga, poetisa e escritora.
Era filha de D. Maria da Luz de Azevedo e Silva, natural de Loulé e prima de João de Azevedo Lobo, notável oficial do exército que se cobriu de glória nas campanhas de África, falecido em Novembro de 1947 na vila de Lagoa, com 73 anos de idade; e de a Sebastião Drago de Azevedo Lobo, natural de Lagoa onde possuía vastas propriedades e se notabilizou como presidente da Câmara Municipal.
A instrução tradicional a que as meninas do seu tempo estavam sujeitas, isto é, aprender a ler e declamar em francês, pintar, tocar piano e bordar seda, era para a sua flamejante inteligência muito pouco, razão pela qual teve a ousadia de frequentar como ouvinte – já que como aluna lhe estava vedada a inscrição – as aulas da escola Politécnica de Lisboa, o que sendo caso raro foi também uma agradável surpresa para a época, constituindo um exemplo desbravador dos caminhos que as gerações seguintes haveriam de trilhar.
Insatisfeita com a monotonia da vida procurou pacificar a alma no culto das musas, ao mesmo tempo que concentrava a sua erudição na escrita. Assim, deu à estampa em 1892 um drama em quatro actos intitulado A Pátria e o Coração, que teve a honra de ser acompanhado por um ilustre prefácio de Latino Coelho. Também sei que escreveu vários livros para crianças, nos géneros do teatro infantil, fábulas, pequenos contos moralistas e poesias de exaltação dos brios juvenis. Algumas dessas poesias foram musicadas para serem cantadas nas escolas e recreios infantis, sendo muitos dos seus versos decorados por sucessivas gerações. Alguns desses versos e cantigas ainda subsistiam na memória infantil muito depois da morte da sua autora.
A ilustre escritora e poetisa, que tinha o maior orgulho em dizer-se algarvia, conservou-se absolutamente lúcida até ao fim da vida, escrevendo e lendo sem óculos, lembrando-se dos seus antepassados familiares e de muitos episódios da plácida e ronceira sociedade algarvia dos seus tempos de infância.
Era uma verdadeira dama da antiga monarquia, um paradigma de ilustração e de civilidade, um modelo sem paralelo de que já não existem imitações.
Tinha à data da morte ainda um irmão, Sebastião Drago de Azevedo Lobo, que da capital veio tomar contas da herança em Lagoa, e um primo. João de Azevedo Lobo, residente na capital, ambos obviamente já desaparecidos.

domingo, 18 de julho de 2010

PERIER, Brites Pais de Mendonça d’Ayet du



Uma das mais distintas figuras da sociedade farense do seu tempo. Mulher ilustrada e de nobres origens, faleceu em Albufeira, com 78 anos de idade, a 21-12-1928. Viveu no Algarve uma grande parte da sua vida por razões de saúde, visto que sofria de uma pertinaz doença que a perseguiu e torturou durante quase toda a sua longa existência.
Imponente e impressionante dama, que marcava posição em qualquer roda de amigos pela sua relampejante inteligência e sólida cultura, refinada educação, boas maneiras, coração magnânimo de filantropia e benemerência, dotes que herdou das famílias nobres de que era originária. Com efeito, D. Brites du Perier descendia em linha recta dos Barões du Perier, nobres da mais pura linhagem, senhores feudais das ilhas de Hiéres. Era tia-avó de D. Branca d’Ayet de Senna Cabral, de D. Maria Francisca Leotte d’Ayet du Perier e de Luiz Carlos Leotte de Mendonça d’Ayet du Perier, residentes no Porto, mais precisamente na Foz do Douro, e ainda de Casimiro de Mascarenhas Leotte, que se havia fixado em Lisboa.

PASSOS, Maria Joaquina Dias


Era natural de São Brás de Alportel, onde faleceu com 69 anos de idade em 27-12-1921, ao tempo viúva de Bernardo Rodrigues de Passos, um dos comerciantes mais honrados e inteligentes daquela progressiva vila industrial. Era mãe extremosa, mas também muito ciosa da educação dos seus filhos, nomeadamente do poeta Bernardo de Passo e o escritor Boaventura Passos. As suas filhas, de entre as quais se destacava a escultora Rosalina de Passos, casaram-se com Virgílio de Passos, Francisco Romão Carvalho e António Passos Chaves, dos quais era sogra. Era tia do jornalista e escritor José Dias Sancho.
As suas notáveis qualidades humanas evidenciavam-se na forma como tratava os mais desafortunados, nos quais inclusivamente delegou a incumbência de transportarem a sua urna durante um dos mais concorridos funerais daquele tempo, que por sua determinação não teve qualquer pompa nem circunstância.
O seu filho Bernardo de Passos, com quem vivia grande parte do ano, ficou completamente destroçado, não aguentando por muito tempo tão dolorosa separação.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PALMA, Maria Mendonça Coelho


Senhora da primeira sociedade farense, faleceu, após prolongada doença, a 30-1-1937, com apenas 45 anos de idade.
Foi a primeira esposa do Dr. Joaquim Rita da Palma, um dos principais advogados de Faro; era sobrinha do Dr. José Francisco de Paula Mendonça, chefe da secretaria judicial de Faro; e mãe de D. Marília Mendonça Coelho Palma.
Ficou sepultada no cemitério de Estoi.
Na altura do seu falecimento estava em construção a magnífica vivenda situada na rua Justino Cúmano e que tem o nome de “Vivenda Marília”, que é uma das mais bonitas de Faro.

PALERMO, Maria Lizarda


Benemérita local, nasceu em Moncarapacho, onde viveu até à morte ocorrida em meados de Fevereiro de 1953, quando tinha 52 anos de idade. Era filha de José Luís Palermo, um dos mais abastados proprietários da região, que havia falecido poucos meses antes.
Na altura do seu precoce falecimento encontrava-se órfã e sem descendentes, pois que por razões de desvelo familiar dedicara-se inteiramente aos pais, descurando em absoluto a possibilidade de se casar. É certo que ao tempo não havia grande escolha de pretendentes, pois que seus meios de fortuna eram bastante significativos, receando os seus progenitores um casamento desigual e meramente por interesses económicos. Ficou, por isso, solteira, muito agarrada aos pais e amiga da Igreja.
Não admira que no leito de morte legasse quase toda a sua notável fortuna à Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, que a partir daí passou a ter um invejável rendimento anual. Também alguns amigos e sobretudo os pobres da aldeias receberam à sua morte largas esmolas.
Maria Lizarda Palermo foi uma senhora de rara bondade, extremamente esmoler e piedosa para com os mais desfavorecidos, sendo por isso uma benemérita local que o povo de Moncarapacho jamais poderá esquecer.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ORTIGÃO Peres, Mariana Ramalho



Nasceu em Faro e faleceu em Lisboa, a 25-7-1933, com 85 anos de idade. Era filha do advogado e notável político farense Dr. José Macedo de Ramalho Ortigão e de D. Tereza Augusta de Abreu Reis Duarte Ortigão, senhora da maior notoriedade na sociedade farense pela sua generosidade e filantropia, educadora e protectora dos desvalidos, razão pela qual tem o seu nome gravado numa das artérias do burgo. Deste ilustre e nobre casal nasceram onze filhos, sendo D. Mariana a segunda dessa ilustre prole, cuja bondade e natural generosidade deixou indeléveis marcas na memória dos mais desfavorecidos.
Foi casada, e estava viúva à data do seu passamento, com João Gomes Domingos Peres, figura notável de honestidade e competência profissional, que durante largos anos desempenhou as funções de Tesoureiro de Finanças na cidade de Silves. Como possuía avultados bens em Alcantarilha, fixou a sua residência naquela ridente freguesia do barlavento algarvio.
Era mãe de Ildefonso Ortigão Peres, António Ortigão Peres e do, então já falecido, coronel João Ortigão Peres, que foi adido militar na legação de Portugal em Paris.

ORTIGÃO, Maria del Carmen Roldan Ramalho



Ilustre senhora da melhor sociedade algarvia, natural de Faro, onde também faleceu a 13-7-1948, com 88 anos de idade.
Dotada das mais preclaras virtudes e de uma ilustrada educação moral e intelectual, dedicou grande parte da sua vida às obras pias, nomeadamente à Obra de Protecção às Raparigas, para a qual canalizou avultadas esmolas. O seu espírito afável e bondoso tornou-se num modelo a imitar na sociedade do seu tempo.
Era a viúva do general José de Abreu Macedo Ortigão, que foi uma das mais prestigiadas figuras do Algarve. Foi mãe do Dr. Miguel Roldan Ramalho Ortigão, que foi antigo Governador Civil do Distrito de Faro e sogra de D. Maria Amélia Ramalho Ortigão, também uma das mais notáveis damas da sociedade do seu tempo. Era avó de D. Maria Manuela, D. Maria Tereza, D. Maria Dora Ramalho Ortigão, e do Dr. Henrique José Ramalho Ortigão, que foi delegado procurador da República junto do Tribunal da Execução das Penas de Lisboa.
Era irmã do então já falecido eng.º Manuel Roldan y Pego e tia das Sr.as D. Maria Izabel Bravo Roldan de Ramires, casada com o eng.º Sebastião Ramires que foi deputado pelo Algarve; e D. Valentina Bravo Roldan Dourado, casada com Jaime Dourado.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

NOGUEIRA, Maria da Conceição Corte-Real Moniz


Senhora das mais fidalgas origens e da elite farense, nasceu em 1914 em Vila Nova de Portimão e faleceu em Faro, onde residia, a 31-12-1953, com apenas 39 anos de idade. Era enteada de D. Maria Luísa Leote do Rego Mendonça Corte-Real e filha do, então já falecido, médico Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que foi uma das figuras de maior relevo na sociedade algarvio nos finais de Oitocentos.
Foi esposa amantíssima do ilustre médico e publicista Dr. João Moniz Nogueira, na altura director da Casa de Saúde, da Aliança Francesa e presidente da Direcção Diocesana da Liga Católica.
Pelas suas qualidades humanas e diamantino carácter desfrutava de grande estima no seio da sociedade farense, sendo presença constante junto das famílias mais carenciadas, levando ajuda material e uma palavra de conforto aos doentes e idosos. As crianças desvalidas, que sobreviviam em lastimável pobreza, eram também objecto da sua extremosa caridade. Pelo seu bondosíssimo coração fazia parte de várias instituições de caridade, de benemerência social e pertencia á direcção da Acção Católica em Faro.
Deixou dois filhos, ainda crianças, que não se conformavam com tão precoce desenlace.
A notícia do seu falecimento deixou a cidade em estado de choque, a ponto de várias festas e bailes de passagem de ano terem sido canceladas em sinal de luto e em respeito à sua memória. O seu funeral, realizado no dia 1 de Janeiro foi uma manifestação do mais sentido pesar, com a presença de centenas de pessoas oriundas de quase todo o Algarve. Por sua determinação ficou soterrada em campa rasa, como símbolo da sua humildade e desdouro pelas glórias terrenas.
Era irmã de D. Francisca Castel-Branco de Mendonça Corte-Real Costa de Azevedo e de Francisco Castel Branco Corte-Real, que foi um dos mais abastados proprietários da cidade de Lagos; era cunhada do major Josino Francisco Costa de Azevedo, que foi professor do Colégio Militar de Lisboa; de Lucília Amália Libreiro de Mascarenhas Corte-Real; e de Joaquim Pedro da Silva Negrão, rico proprietário em Lagos.

domingo, 13 de junho de 2010

NOBRE, Adelina Dias Sancho


Ilustre senhora da melhor sociedade farense, esposa do conceituado médico Dr. João da Silva Nobre, republicano e democrata convicto, figura de proa da intelectualidade local, a quem a cidade erigiu nos anos oitenta um monumento mesmo defronte da sua residência.
Nasceu em S. Brás de Alportel e faleceu, de doença prolongada, em Faro a 16-1-1954, com 72 anos de idade. Era irmã do famoso poeta José Dias Sancho falecido tão prematuramente, quando ainda muito havia para esperar do seu invejável talento de escritor e jornalista.
Tinha uma esmerada educação, com natural propensão para a música e para as belas artes. Possuía um coração bondosíssimo, pelo que era muito querida dos pobres, que no consultório do marido recebiam não só esmolas como também os maiores cuidados médicos.
Teve quatro filhos: Júlia, Maria Espiritinova, Roberto e João. Os dois filhos tiveram carreiras notáveis em Lisboa, onde gozaram de certa celebridade. Com efeito, Roberto Nobre foi um conhecido cineasta, autor de numerosos livros sobre a 7.ª arte, cuja obra foi largamente enaltecida na vila de S. Brás de Alportel, onde aliás se comemorou recentemente o 1.º centenário do seu nascimento. O outro filho foi o notável compositor musical João Nobre, cuja obra ainda hoje merece os maiores encómios nos meios da especialidade.
Apesar do seu recato de esposa e de mãe, Adelina Dias Nobre sempre se disponibilizou para colaborar com as instituições de beneficência local, merecendo por isso os mais rasgados elogios dos seus concidadãos que sentiram enorme desgosto com a sua morte.

NEVES, Maria Dorotea de Aragão Rebelo


Oriunda das melhores famílias da velha fidalguia algarvia, nasceu em Loulé e faleceu na cidade do Porto, em casa de seus netos, no mês de Agosto de 1946, com 93 anos de idade.
Bondosíssima senhora, muito inteligente e culta, dotada das melhores qualidades humanas e cristãs, era na altura viúva do escrivão-notário em Faro, António Pedro Carrajola Travassos Neves, de quem teve os seguintes filhos: D. Beatriz Rebelo Neves Ayala, viúva do capitão-de-fragata Bernardo Diniz Ayala; e António Maria Rebelo Neves, conhecido maestro e professor do Liceu João de Deus em Faro.
Era tia de D. Maria Luiza de Albuquerque Rebelo; do capitão Luís Filipe de Albuquerque Rebelo, que foi comandante da escola regional de graduados da Mocidade Portuguesa no Algarve; e do Dr. Francisco de Albuquerque Rebelo, que foi Juiz de direito em Vila Real de St.º António.
Anos antes de falecer foi viver para a cidade Invicta na residência de sua neta, D. Maria Cristina de Ayala Portocarrero, casada com Luís Correia de Sá Portocarrero, gerente naquela cidade da empresa petrolífera Shell.

sábado, 12 de junho de 2010

NEGRÃO, Maria da Apresentação



Professora primária, natural de Lagos, faleceu em Portimão a 11-5-1948, com 86 anos de idade.
Era considerada como uma das mais importantes pedagogas do país, não só pelos seus dotes de inteligência e vocação profissional, como ainda pelo facto de ser uma das mais apetrechadas cientificamente para o exercício do múnus educativo, pois que era diplomada com o curso complementar da Escola Normal de Lisboa. Aliás, no Algarve e no seu tempo, era uma das raras professoras habilitadas com aquele curso, depois considerado de âmbito superior.
Dedicou-se toda a vida à causa do ensino, com extrema competência e muita ternura, sem excessivos rigores coactivos que desmotivassem ou atemorizassem os seus alunos. Durante 65 anos leccionou na cidade de Portimão e por mais do que uma vez recusou transferir-se para Lisboa, onde poderia beneficiar de melhores condições de trabalho, outros níveis de ensino e mais acentuados rendimentos financeiros. Em compensação do seu esforço e dedicação profissional recebeu, por mais de uma vez, provas do grande apreço que os portimonenses lhe dedicavam, prestando-lhe merecidas homenagens públicas de simpatia e reconhecimento.
Pode bem dizer-se que pelas suas delicadas mãos maternais passaram sucessivas gerações que lhe ficaram gratas e que nunca a esqueceram. As figuras mais notáveis de Portimão, sobretudo as que mais se distinguiam fora do Algarve, costumavam afirmar que o barro da sua inteligência foi a Prof.ª Maria Negrão quem primeiro o moldou em forma de personalidade e cavalheirismo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Rubio Zamorano, um revolucionário tragicamente assassinado no Algarve



Figura muito curiosa e, até certo ponto, misteriosa, que passou pelo Algarve de uma forma aventureira, ao espírito do romantismo oitocentista, mas que acabou aqui os seus dias de maneira trágica e violenta.
Na verdade, há figuras de que pouco se sabe hoje, mas que merecem ser ressarcidas do olvido pelo trajecto de vida que, no passado, consagraram ao Algarve. Por isso me lembrei hoje de trazer a terreiro a figura de José Florêncio Rubyo y Zamorano, súbdito espanhol, nascido em 1847 em Aiamonte, que ainda jovem se deixou influenciar por ideias revolucionárias, inspiradas no ideário republicano e no radicalismo anarquista. Embora pouco se saiba sobre as suas actividades políticas parece que andou envolvido nas organizações revolucionárias afectas à I Internacional, que incitaram à formação das “comissiones obreras” e à fundação da A.I.T., que congregaria as lutas os trabalhadores rurais andaluzes. Foram os anos da monarquia amadeísta, do rei Amadeu I, que entre 1868 e 1873 viveu tempos difíceis, sobretudo após a morte do general Prim nos finais de 1870, que desembocaram na implantação da I República em 1873, de efémera duração.
Ao que parece o jovem Florêncio Zamorano era adepto de uma solução republicana federalista para a Espanha, participando em acções revolucionárias em Huelva, Jaen e Cadiz. Todavia, parece que a partir de certa altura esteve também envolvido no projecto de cantonização da Andaluzia, à semelhança do que passava na Suiça, a qual passaria a repartir-se entre a Alta e a Baixa Andaluzia. Aos vinte e cinco anos de idade estaria ao serviço da Marinha, como cabo de artilharia numa fragata da Armada denominada «Numância», sendo por isso instigado pela Maçonaria Andaluza, à qual julgo que também pertenceu, a sublevar a guarnição e tomar a embarcação. Com efeito, em 1872 o jovem cabo Zamorano de uma forma corajosa e imprevista tomou de assalto a cabine do comandante e, qual pirata dos tempos modernos, levou a fragata até ao porto de Cadiz onde desembarcou a oficialidade sob prisão, partindo de seguida ao encontro dos revolucionários que conseguiram tomar o governo, depor o rei Amadeu I e instaurar a República.
Talvez porque o novo regime durou o tempo das “Rosas de Malherbe” e a “caça às bruxas” se iniciasse logo de seguida, o jovem cabo Zamorano procurou refúgio na orla costeira gaditana, até poder embarcar nuns galeões que vinham trabalhar nas armações da sardinha e do atum perto da Isla Higuerita ou Cristina, em águas fronteiras da Andaluzia com o Algarve, para onde na primeira oportunidade se escapuliu. Veio pois refugiar-se, em data que desconheço, mas que aponto próxima de 1874 ou 1875, na vila pombalina e próspero mercado sardinheiro, de Vila Real de Santo António, onde para além da acomodação também lograria estabelecer-se com uma loja de bebidas (venda de vinhos a retalho), através da qual alcançaria razoáveis proventos financeiros. Tempos depois casou-se com uma senhora do trato mercantil local, de quem, todavia, não teve filhos, nem com eles viviam descendentes até ao quarto grau de parentesco.[1]
Por razões que desconhecemos, mas que parecem ter como móbil fundamentações políticas, o infeliz do D. José Florêncio Rubio y Zamorano, quando no dia 10 de Janeiro de 1888, se dirigia na estrada de Moncarapacho para a Fuzeta a fim de comprar algumas pipas de vinho para o seu tráfico comercial, foi violentamente espancado por dois seus compatriotas que o deixaram praticamente sem vida. Dado o alarme foram os agressores capturados em flagrante delito e remetidos a ferros para a cadeia de Tavira. O coitado do Florêncio Zamorano foi ainda socorrido com vida e remetido para o hospital daquela cidade onde expiraria no dia seguinte. A competente autópsia realizada pelos médicos António Teixeira, Marcelino Peres e Joaquim Trindade, revelaria escoriações múltiplas e várias lesões internas dos órgãos vitrais de que resultaram hemorragias fatais. Parece que a intenção dos agressores não era a de roubar, mas tão só a de assassinar a vítima, daí o uso de tão bárbara violência. Especulou-se na altura que por detrás do crime estariam causas passionais, mas também se disse que tudo resultou de uma vingança de origem política, trazida do seu passado revolucionário em Espanha.

[1] Pelo menos é essa a inferência que se pode extrair do «Edital», que por seu falecimento foi mandado publicar em 3 de Janeiro de 1888 pelo Vice Cônsul de Espanha, José Mirabent y Pascual, o qual seria afixado em língua castelhana nos locais públicos, e assim anunciado oficialmente na imprensa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

MEALHA, Maria Mendonça


Benemérita local, nasceu em Loulé em 1852 e faleceu com 92 anos naquela vila em 5-11-1944. Foi uma senhora da primeira sociedade algarvia, mercê os seus elevados meios de fortuna, ficando porém apenas conhecida por ser a esposa de José da Costa Mealha, um espírito altruísta e generoso, que se tornou famosos por ter sido um dos mais empreendedores autarcas de Loulé, num tempo em que os rendimentos municipais eram escassos e em que os auxílios do poder central eram quase nulos ou se contavam por míseros contos de réis.
As obras de caridade realizadas por D.ª Maria Mendonça Mealha foram constantes, nomeadamente por alturas do Natal e da Páscoa, dedicando-se igualmente às obras pias da Igreja local, com avultados donativos. O Hospital e sobretudo a Misericórdia de Loulé recebeu das suas mãos significativos contributos financeiros, não regateando a outras instituições sociais e culturais o recurso aos seus benefícios.
Por sua vontade testamentária a Misericórdia de Loulé recebeu em prédios e acções cerca de 250 contos, distribuindo outros meios pecuniários pelos seus familiares, afilhados e criados. Acima de tudo foi uma senhora e bom coração, cujas profundas convicções religiosas se revelavam na generosidade do seu carácter.

domingo, 6 de junho de 2010

INGLÊZ, Maria Victória Sanches


Figura distintíssima da sociedade farense, herdeira de avultados bens e dos mais honrosos pergaminhos da áurea fidalguia do Algarve. Natural e residente em Faro, faleceu na sua casa a 5-6-1930 com 64 anos de idade. Era esposa do Dr. Virgílio Ramos Inglez e mãe de D. Maria Tereza Inglez Baião, D. Maria Manuela Inglez Ó Ramos e D. Maria Francisca Inglez Esquivel.
Considerada, na transição do século e na mudança de regime político, como uma figura de referência na sociedade farense, pela sua erudição, pelo seu porte fidalgo e, sobretudo, pela sua bondosíssima acção em prol dos mais desfavorecidos, que procuravam na nobre residência de D. Maria Victória um refúgio de protecção e de maternal carinho. Tinha, por isso, do seu lado não só os ricos como os pobres, além de que os mais humildes enfermos contavam sempre com a sua intercedência junto dos seus herdeiros para um internamento no Hospital da Misericórdia ou na Casa de Saúde de Faro, de que era proprietária.

GONÇALVES, Laura


Professora da Escola Tomás Cabreira, em Faro, cidade de onde era natural, que faleceu a 10-7-1933, com idade que desconheço, mas que presumo inferior a setenta anos, pois que se encontrava ainda no activo à data do seu passamento.
Foi uma das primeiras mestra a leccionar na oficina de costura e bordados na Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira, a cujas aulas durante mais de trinta anos nem um só dia faltou. Todos os anos fazia exposições dos seus trabalhos de Lavores naquela escola, recebendo sempre grandes elogios, alguns dos quais ficavam exagerados nos respectivos livros de visitas. Era uma senhora muito prendada - como então se dizia - e de grande sensilidade artística, muito criativa em desenho naturalista, inspirando-se sobretudo em motivos florais. Possuía um carácter de eleição, sendo por isso muito querida e estimada não só entre os seus colegas e alunos, como ainda no seio da sociedade farense. Tanto assim era que, pela quadra natalícia, vendia as suas rendas e bordados para financiar os bodos que, por essa ocasião, se distribuíam aos pobres.
O seu funeral revestiu-se do maior sentimento por parte dos colegas e sobretudo das alunos que ficaram inconsoláveis com tamanha perda. O elogio fúnebre foi pronunciado pelo então director daquele estabelecimento de ensino, o pintor Carlos Lyster Franco, que num sentido e comovente improviso enalteceu as qualidades e competências profissionais da defunta.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

GALEGO, Leonor de Guimarães


Benemérita local, Leonor Maria de Guimarães Guieiro Galego, de seu nome completo, faleceu em Faro a 26-12-1944, com 87 anos de idade.
Foi casada em primeiras núpcias com o benemérito e antigo presidente da Câmara Municipal de Faro, Domingos Joaquim Guieiro, falecido a 6-10-1913, um dos mais ricos cidadãos de Faro, que deixou a esposa como usufrutuária da fortuna por ele legada à Santa Casa da Misericórdia, na altura avaliada em cem contos.
Esse valiosíssimo legado era constituído principalmente por casas e salinas, fortuna essa que após o falecimento da viúva em 1944 passou para a efectiva posse da Misericórdia.
A viúva, D. Leonor Guimarães, casou-se em segundas núpcias com Belchior Martins Galego, que era ao tempo um conceituado comerciante da praça de Faro.
O viúvo, Belchior Martins Galego, contestou a sentença do Juiz da Comarca de Faro que, no cumprimento dos termos do legado testamentário de Domingos Guieiro, mandou entregar à Misericórdia de Faro, os bens que sua mulher, Leonor Guimarães, manteve em usufruto de vida. Só em Março de 1947 se decidiu definitivamente a questão, através da sentença do Tribunal da Relação de Lisboa que negava provimento ao recurso interposto por Belchior Galego, por considerar prescritos quaisquer direitos que o mesmo houvesse para reclamar à herança que Domingos Guieiro deixara à Misericórdia de Faro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

FREIRE, Albertina


Instrumentista e musicóloga, Albertina Maria de Sousa Freire, de seu nome completo, era, segundo creio, natural de Silves, e faleceu em Lisboa a 28-1-1954, com apenas 49 anos de idade.
Residiu em Faro na flor da idade, dando então mostras de enorme apetência para a música, razão pela qual partiu para a capital, onde aprofundaria os seus conhecimentos e as suas capacidades técnicas como exímia instrumentista. Quem a conheceu enaltecia-lhe a propensão natural para a música, evidenciando as suas ingénitas aptidões para os instrumentos de percussão e cordas. Mercê dessas raras qualidades foi convidada para tocar numa das orquestras da Emissora Nacional, onde era muito apreciada pelas suas qualidades de genial instrumentista e de disciplina no trabalho, nunca faltando a um ensaio, às gravações radiofónicas ou aos espectáculos.
Pelos seus dotes artísticos e pelo seu precoce desaparecimento, pode dizer-se que Albertina Freire passou ao lado de uma grande carreira no difícil mundo da música.
Tinha seis irmãos: Ilda Freire de Oliveira; Corina Freire, conhecida artista e cantora de teatro; Judite Freire Ferreira de Sousa, casada com o coronel José Cortes Ferreira de Sousa, que foi comandante do Regimento de Infantaria 4; Carlos, Jorge e Raul Freire, todos residentes em Faro.
O seu falecimento causou a maior consternação nos meios artísticos de Lisboa, ficando sepultada no cemitério dos Prazeres.

sábado, 24 de abril de 2010

Pascoal Turri, um colaboracionista dos invasores franceses, em Faro


Em boa verdade pouco sei acerca desta curiosa personagem que passou pelo Algarve de forma quase despercebida, se acaso não tivesse sido considerado “persona non grata”, para não dizer traidor, aos olhos daqueles que aqui o acolheram com estima e carinho.
Apesar da neblina que envolve o conhecimento das suas origens, sei que era de origem milanesa, isto é, que teria nascido na cidade de Milão em data que desconheço, mas que deverá ter ocorrido entre 1870 e 1880. O que sei é que como músico serviu em jovem o Regimento de Artilharia n.º 2, em Faro, cidade onde fixou residência e constitui família, consorciando-se, segundo creio, com uma senhora algarvia. Tinha, ao que parece, uma especial predilecção pela cultura francesa, presumo que por na família haverem laços de consanguinidade gaulesa. O que sei é que em Faro se estabeleceu com uma pequena loja de comércio que depressa expandiu para armazém de “secos e molhados” destinados à exportação. Pela sua inteligência e capacidade empresarial conseguiu reunir meios de fortuna muito razoáveis. Consta também que falava com desenvoltura na língua de Molière e que se correspondia com empresários das praças e portos da velha Gália, com os quais mantinha os seus negócios. Também se dizia, com a proverbial tolerância algarvia, que nutria simpatias pela Revolução e pela heróica figura de Napoleão, a quem chamava “o Imperador”. Mas disso nunca houve reflexos de quaisquer gestos de animosidade ou perseguição.
Pelo bom relacionamento estabelecido com os empresários franceses foi, desde 1803, nomeado cônsul da França no Algarve, cuja sede em Faro seria na casa Turri, também oficialmente grafada como Turi. Acontece que por causa do tão propalado Bloqueio Continental que os franceses pretendiam impor às relações comerciais com o Reino Unido, o nosso país se mostrou bastante remisso, em face da sua secular aliança emergente do Tratado de Windsor, dando com isso justificação às chamadas “invasões franceses”. E, como é de todos conhecido, Napoleão encarregou um dos seus mais famosos cabos de guerra – o general Jounot – de entre 1807 e 1808 encabeçar o movimento militar de invasão do território português. Nessa altura, o comerciante Pascoal Turri, rejubilante de alegria, colocou-se de imediato ao serviço das novas autoridades, que em Faro tiveram na figura do militar Maurrin um tolerante apaziguador, a quem só os olhanenses conseguiram tirar do sério, quebrando o hipócrita sossego em que a região se encontrava amorrinhada.
Logo após o 16 de Junho, que nesse glorioso ano de 1808 convulsionou o povo de Olhão contra os ocupantes franceses (e, por contas antigas, também contra os farenses), foi o afrancesado Pascoal Turri procurado na sua residência pela populaça, que em alvoroço pretendia fazer a patriótica justiça de prender, ou até matar, os traidores da lusa pátria. É claro que o Turri conseguiu escapulir-se a tempo de cair nas mãos da turba-multa, sem impedir porém que o mesmo acontecesse aos seus haveres pessoais e materiais, com os quais animava o comércio local. Fugiu então para a cidade de Loulé, onde escapou de vinganças e perfídias, até que, algum tempo decorrido, e pensando que as coisas já tivessem retornado aos eixos da rotina, retomou o caminho para Faro, em cuja cidade foi, porém, recebido a tiro por quem não se esquecera dos seus aleivosos favores prestados aos intrusos franceses.
Escapando com vida ao seus vingativos algozes fugiu para Lisboa, onde lhe perdi o rasto, não sei se por ter mudado de nome, ou se por dali ter partido para outros mundos de que não restam memória.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

FRANCO, Maria das Dores Dias Barbosa Lyster

Bondosíssima senhora, esposa do pintor e professor Carlos Augusto Lyster Franco, e mãe do Dr. Mário Lyster Franco, creio que natural do distrito de Braga, veio residir para Faro nos finais do século XIX, vindo a falecer nessa cidade a 1-4-1948.
Extremamente religiosa pertencia a várias associações de piedade e de beneficência, sendo para além disso das mais conceituadas e admiradas damas da sociedade farense do seu tempo.

domingo, 11 de abril de 2010

DAVIM, Joaquim Rodrigues


Advogado, poeta e publicista, nasceu em Águeda a 31-3-1869 e faleceu em Faro a 5-1-1923, vítima de enfarte cardíaco.
Estudou em Coimbra, formando-se em Direito em 1895, vindo para Faro em 1899 na qualidade de administrador do concelho, fixando aqui residência e escritório de advogado, exercendo, porém, com mais eficiência e proveito o notariado, funções em que aliás se manteria até à morte.
Foi um dos cidadãos mais queridos da sociedade farense do seu tempo, não admirando por isso que fosse convidado a desempenhar diversas funções de relevo político e sociocultural. Assim, foi membro da Junta Distrital, Reitor do Liceu de Faro e Presidente da Instituto Arqueológico do Algarve. Além disso era sócio efectivo da Academia das Ciências de Portugal e do Instituto Histórico do Minho.
Publicou centenas de poesias em jornais e revistas, muitas das quais depois imprimia em postal ou em folhas artísticas que distribuía pelos amigos. Acontecia que às vezes essas poesias eram vendidas para benefício de instituições de caridade social. Felizmente reuniu em livro a maioria das suas composições, distribuídas pelas seguintes obras: Sombras, 1889, Morta, 1898, Ode aos Artistas, 1900, Ode aos Heróis, 1908. Em prosa escreveu vários contos que reuniu no livro Telas Rústicas, deixando também publicado em opúsculo o discurso inaugural do Instituto Arqueológico do Algarve.
No seio da imprensa algarvia, o Dr. Rodrigues Davim dispersou a sua erudita colaboração por diversos órgãos: «Algarve e Alentejo» (1903), «O Algarve» (1908), «Correio do Sul» (1920), «Os Algarvios a João de Deus» (1924), etc.
Para terminar, acrescente-se que A Câmara Municipal de Faro, em finais Janeiro de 1928, por proposta do seu vice-presidente, Dr. Justino de Bivar Weinholtz, decidiu atribuir o nome daquele antigo notário e conceituado poeta a uma das ruas do novo bairro situado no Alto Rodes.

terça-feira, 30 de março de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.

LEMOS, Maria da Piedade Aboim Ascensão de Sande


Benemérita local e primeira figura da sociedade farense do seu tempo. Nasceu em Faro, em 1867, e faleceu em 25-3-1944, aos 77 anos de idade, na cidade de Lisboa, onde fixara residência alguns anos antes. Na altura do seu passamento estava ainda de luto pelo falecimento do marido, Coronel José de Sande Lemos, ocorrido em Lisboa a 27-3-1943.
Dotada de excelsas qualidades humanas, dedicou parte da sua vida a cuidar dos pobres e das crianças desvalidas, mercê dos seus avultados bens de fortuna. Foi, por isso, uma grande benemérita local, a quem se ficaram devendo os altíssimos donativos que canalizou ao longo da vida para o Refúgio Aboim Ascensão, hoje denominado por «Emergência Infantil».
Por outro lado, sendo esposa de um oficial do exército e herdeira e uma das mais notáveis casas agrícolas do Algarve, viu-se durante a I Grande Guerra privada da companhia do marido e do filho, o major Manuel Aboim de Sande Lemos, ficando por isso entregue à sua administração todos os meios de sobrevivência da família, que ela geriu com a maior competência e inteligente criatividade, o que em vez de diminuir acabou por resultar no crescimento do seus bens e recursos financeiros.
Esses avultados cabedais económicos soube-os distribuir benemeritamente pelos mais necessitados, nomeadamente a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, em Faro, para cuja sobrevivência contribuiu por várias vezes com elevados donativos, garantindo assim a manutenção do convento, das suas obras pias e sobretudo da Igreja do Carmo, cujas despesas de restauro e do exercício religioso sempre cobriu com indefectível generosidade.
O funeral de D. Maria da Piedade, realizado no dia 28 de Março de 1944, no cemitério da Esperança em Faro, foi uma das maiores expressões de pesar e de reconhecimento social prestado pelos habitantes da cidade, que reconheciam nela a “mãe dos pobres”, epíteto com que sempre foi conhecida.
Era mãe do Engenheiro Major do exército Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos e do Dr. José Aboim Ascensão de Sande Lemos, tia do Dr. José Aboim Ascensão Contreiras e irmã da igualmente benemérita D. Joaquina Ascensão Davim e do Coronel Aboim Ascensão, fundador do Refúgio das Raparigas em Faro.

FIALHO, Maria Antónia Cúmano


Descendente de uma ilustre família italiana e herdeira de notáveis bens materiais e pecuniários, senhora da mais alta estirpe e das mais conceituadas figuras do Algarve. Nasceu em Faro, aqui viveu e faleceu, a 17-6-1948, com 87 anos de idade, no seu invejável palácio de Santo António do Alto, ainda hoje um dos edifícios mais belos e notáveis de todo o Algarve.
Dotada de grande inteligência e enorme sensibilidade artística, era muito culta e ilustrada, conhecedora das principais cidades europeias e dos melhores museus do mundo. Por outro lado, era bastante religiosa, cuidava dos pobres e desvalidos que atendia com avultadas esmolas, sendo por isso muito estimada em todo o Algarve. A sua benemerência, fulcralizada em Faro e Portimão, estendia-se em toda a região, protegendo também as artes e a cultura. A sua inclinação artística e cultural herdara-a do pai, o Dr. Justino Cúmano, falecido em 1885, que além de médico foi também um conceituado arqueólogo e numismata.
No seu palácio de Santo António do Alto reuniu, em parte como herança dos seus ascendentes mas também como fruto da sua dedicação e amor à arte, uma valiosa colecção de quadros, esculturas, móveis e outros objectos de grande valor cultural que foi coleccionando ao longo da vida. Grande parte desse espólio foi depois repartido pelos seus herdeiros e hoje correm descritos nos catálogos de leiloeiros e coleccionadores de arte.
Era irmã de Paulo Cúmano, que faleceu com 92 anos de idade, a 21-6-1946, ou seja quatro dias depois dela, que embora estivesse já bastante doente não resistiu à comoção de tão dolorosa perda.
Era viúva do famoso industrial de conservas, João António Júdice Fialho, e mãe de D. Maria Justina Fialho de Sousa Coutinho, casada com D. António de Sousa Coutinho (herdeiro dos Condes de Linhares) e D. Isabel Maria Fialho de Mendonça; era avó de D. Maria Antónia de Sousa Coutinho Telles da Sylva, casada com D. José Carvalhal Telles da Sylva (herdeiro dos Condes de Tarouca) e D. Maria Constança de Sousa Coutinho Pulido Garcia, casada com José Pulido Garcia, abastado proprietário de Beja, e dos engenheiros D. Nuno e D. João de Sousa Coutinho.
Era cunhada de D. Ana de Bivar Cúmano e de D. Mariana Fialho Calado, casada com Basílio calado, abastado proprietário em Portimão.Era tia de D. Maria Luísa de Bivar de Sampaio e Melo, casada com o Dr. Lopo Vaz de Sampaio e Melo, de D. Maria Vitória, de D. Justina Cúmano, ambas residentes em Lisboa, e do Dr. Justino de Bivar Weinholtz (que foi conservador do Registo Predial e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Faro), do Dr. Raul de Bivar Weinoltz (que foi presidente da comissão municipal de Turismo de Faro), Luiz Frederico de Bivar Weinholtz, do Dr. Constantino de Bivar Cúmano, do eng.º Rui de Bivar Cúmano (que foi administrador do porto de Leixões), do Dr. Henrique de Bivar Cúmano (que foi naturalista do Museu de Bocage), do capitão Paulo Cúmano, de Lázaro Justino Cúmano, Francisco Constantino Cúmano, todos residentes em Lisboa, e de Francisco Fialho Calado, abastado proprietário em Portimão.
A ilustre Maria António Cúmano Fialho encontra-se sepultada no Cemitério da Esperança num magnífico mausoléu de família.

quinta-feira, 18 de março de 2010

FORMOSINHO, Maria Amélia Coelho de Carvalho Pimenta


Ilustre senhora, descendente das mais nobres famílias algarvias, casou com Bento Gomes Formosinho, distinto oficial do exército que exerceu as funções de governador civil de Faro. Era filha do conselheiro José dos Santos Duarte Pimenta, que foi um dos mais célebres magistrados do seu tempo.
Foi acima de tudo uma senhora de preclaras virtudes, muito admirada pela sua esmerada educação, fino porte e insignes atitudes de candura e bondade para com os mais pobres.
Teve quatro filhos: D. Josefa Margarida Pimenta Formosinho Guerreiro Tello; Dr. José dos Santos Pimenta Formosinho, notário e arqueólogo amador, assim como director e fundador do Museu de Lagos; Tenente Bento Pimenta Formosinho e Barnabé Pimenta Formosinho. Foi sogra de D. Maria José Fialho Barata Formosinho, de D. Beatriz Abranches Formosinho, de D. Olivia Novak Formosinho e do Dr. António Guerreiro Tello, ilustre clínico em Lagos.
Faleceu em Lagos, a 1-6-1953, com 87 anos de idade, tendo o seu funeral o acompanhamento de centenas de pessoas, numa sentida manifestação de pesar e saudade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

FONSECA, Marina Romero Santos


Bondosíssima senhora da melhor sociedade algarvia, natural de Faro, que faleceu em Lisboa nos finais de Outubro de 1947, com 71 anos de idade. Era viúva do coronel António dos Santos Fonseca e mãe da pianista D. Ema Romero Santos Fonseca da Câmara Reys, casada com o escritor Dr. Luís da Câmara Reys.
A ilustre benemérita farense era irmã de D. Clotilde Romero Reis e de D. Aida Fonseca Romero, ambas residentes em Faro, e era tia de D. Maria Cristina Sieuve Romero Penco de Almeida e de João Romero dos Reis, ambos residentes em Lisboa.

FERRO, Helena Tavares


Algarvia, creio que natural de Loulé, faleceu com 81 anos de idade, em Lisboa, a 21-4-1946, vítima de síncope cardíaca
Era casada com António Joaquim Ferro e mãe amantíssima do escritor António Ferro, ilustre director do Secretariado de Informação e grande obreiro da cultura nacionalista do “Estado Novo”. Era sogra do Dr. Augusto da Cunha, na altura director da revista «O Mundo Português».

terça-feira, 16 de março de 2010

CLEMENTINA, Maria



Actriz de teatro, Maria Clementina Borges de Sá, de seu nome completo, nasceu em Faro a 28-1-1897, e faleceu em Lisboa nos últimos dias de Dezembro de 1947, com 50 anos de idade. Era filha de D. Clementina Rato Borges de Sá e de João Bernardino Cardosos Sequeira Borges de Sá, que foi oficial do exército, Era também sobrinha-neta de Duarte de Sá, notável figura de intelectual e homem das artes, que foi o primeiro director do Conservatório de Lisboa.
Depois dos estudos primários frequentou a Escola de Arte de Representar, onde se distinguiu quase de imediato pelas suas qualidades para o canto, desenvolvendo muito as suas naturais aptidões com D. Eugénia Mantelli de quem foi dilecta discípula.
As artes do palco, sobretudo o teatro atraíam a sua curiosidade e natural ambição de sentir na alma os aplausos do público. Estreou-se então a 17-11-1919, no Teatro da Trindade, numa opereta, ou teatro musicado, muito na moda nesse tempo, intitulada «A Bela Risette», integrada na famosa companhia de Afonso Taveira. Pouco depois integrou-se na companhia de Luz Veloso, estreando-se no teatro declamado e foi escriturada de Nascimento Fernandes, artista algarvio dos mais prestigiados nos proscénios portugueses. Quando se constituiu a companhia de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro entrou para o seu elenco, nele se mantendo até ao precoce cair do pano no teatro da sua vida.
A sua carreira, não foi longa nem marchetada de grandes êxitos, podendo até dizer-se que embora Maria Clementina fosse uma artista bastante popular, faltou-lhe porém o sucesso estrondoso, a endeusante fama e a paixão do público, para se tornar numa diva da Arte de Talma. Em todo o caso a sua carreira fez-se de forma ascensional, com a crítica a render-lhe rasgados elogios e por vezes até a render-se ao seu talento. As suas preferências interpretativas incidiam nas figuras de recorte cómico, caricaturando de forma maliciosa, histriónica e satírica certos esteriótipos da sociedade portuguesa
Maria Clementina foi acima de tudo uma actriz do teatro cómico, distinguindo-se em várias comédias (talvez o género mais do agrado nacional) com figuras da sua própria concepção, representando quadros de um memorável humor, entre o brejeirismo popular e o sardónico afrancesado. Para isso valia-se da sua inteligência, perspicácia e esmerada educação literária. A sua invejável cultura geral associada aos dotes de criação literária, levaram-na para os caminhos da escrita, preparando por vezes com os colegas os textos de peças cómicas, revistas e quadros hilariantes que integrava por vezes em peças de cariz erudita ou de raiz clássica.
Maria Clementina sendo aparentada, pelo lado paterno, com o Conde de Farrobo herdara-lhe os genes artísticos, que elevou até aos píncaros das suas possibilidades, com honra, rigor e competência profissional.
Descendente, pelo lado materno, de uma importante família de Lagos, era também sobrinha do tenente-coronel do Estado Maior do Exército Raul Frederico Rato e do Dr. Jerónimo Cabrita Rato, sendo prima do Dr. Afonso Eduardo Martins Zuquete, que foi Governador Civil de Leiria.

terça-feira, 9 de março de 2010

AZEVEDO, Maria da Circuncisão Alves Cavaco de


Professora primária de grande talento artístico, indefectível divulgadora do sistema pedagógico de João de Deus. Era natural de Alte, concelho de Loulé, e nessa freguesia veio a falecer em 2-4-1944, nos braços do seu marido, o jornalista Cruz Azevedo.
Costuma dizer o povo que por detrás e um grande homem está uma grande mulher. E assim aconteceu de facto. O conhecido jornalista e redactor regional de «O Século», Cruz Azevedo tornou-se num dos mais conhecidos animadores culturais do Algarve, divulgador das efemérides regionais e impulsionador das comemorações festivas do Centenário de João de Deus, pertencendo porém a sua esposa grande parte do esforço que levou à obtenção dos fundos necessários à elevação do monumento que o autor do Campo de Flores possuiu em Faro.
A Prof.ª Maria Cavaco Azevedo é ainda hoje lembrada nas terras por onde exerceu o seu múnus profissional, pelo carinho que derramava sobre as crianças, oferecendo aos mais pobres o material escolar de que careciam, quando não lhes distribuía o pão que não possuíam em casa. Em Brancanes, no concelho de Olhão, onde desempenhou oficialmente os últimos anos de serviço, ensaiou com os alunos várias peças de teatro, organizou recitais de poesia e festejava sempre com júbilo as datas oficiais que rememoravam no espírito dos mais jovens a Restauração da nacionalidade e o dia de Camões. Aliás sempre divulgou o autor dos Lusíadas como um verdadeiro “pai da pátria” distribuindo às crianças alguns sonetos, que depois de decorados eram recitados perante os pais e familiares da comunidade estudantil olhanense.
Acima de tudo foi um bom exemplo de competência e dedicação à difícil arte de educar crianças num meio carenciado, onde o apelo do mar e da pesca era mais forte do que os bancos da escola.
No dia 14 de Maio, logo a seguir à sua morte, foi-lhe prestada uma sentida homenagem na Casa do Povo de Alte, terra da sua naturalidade, onde usaram da palavra o Dr. Matos Parreira, em representação da Junta de Província, e os Drs. Falcão Machado e Virgílio Fagulha em nome da Direcção Escolar. Seguiram-se os depoimentos de amizade e profunda saudade das suas colegas, Prof.as Maria Elisa Aboim e Maria de Lourdes Madeira. Por fim foi descerrada uma lápida, oferecida pelos seus antigos alunos, na casa onde faleceu a Prof.ª Maria cavaco Azevedo, seguindo-se uma romagem até ao cemitério onde foram depositados inúmeros ramos de flores no artístico mausoléu mandado erguer pelo inconsolável marido, o jornalista Cruz Azevedo.
O seu único filho, Hélder Cavaco Azevedo, foi um artista de raro talento, pintor a óleo e aguarela, que se dedicou na juventude à fotografia e ao cinema, produzindo alguns documentários para a Tobis e depois para a RTP sobre as pescas e outros traços da etnografia algarvia, não deixando também de filmar as belezas naturais que estiveram na base do arranque do turismo na região. Emigrou para África onde se fez um prestigiado fotógrafo, nunca deixando de produzir alguns filmes para as empresas de cinematografia. Regressado à cidade de Faro estabeleceu-se com ateliê de fotografia, dedicando-se esporadicamente à pintura e ao jornalismo, sendo inclusivamente o fundador do Elismo no Algarve.

segunda-feira, 8 de março de 2010

CABEÇADAS, Maria da Graça Guerreiro


Natural de Loulé, faleceu em Lisboa com 70 anos de idade a 12-1-1930. Era casada com o conceituado comerciante José Mendes Cabeçadas (ver este nome) e mãe do comandante José Mendes Cabeçadas Júnior, do capitão João Cabeçadas, de Joaquim Cabeçadas, de Nuno Cabeçadas e de Berta Cabeçadas; sendo irmã de Manuel Fernandes Guerreiro, conceituado comerciante estabelecido em Faro.
Muito apreciada nas suas qualidades humanas de bondade e generosidade, foi sepultada no cemitério oriental de Lisboa a 13-1-1930 perante numeroso e prestigiado acompanhamento.

CABEÇADAS, Judite Rosa


Foi a primeira mulher formada em Direito no Algarve.
Filha de Mariana Rosa Cabeçadas e do coronel Joaquim Mendes Cabeçadas. Estudou no Liceu de Faro e na Faculdade de Direito de Lisboa onde concluiu o seu curso a 25-7-1925, com excelentes classificações e apenas 24 anos de idade.
Empregou-se em Lisboa como ajudante notarial no cartório do Dr. Noronha Galvão, pensando vir a fixar-se em Faro nas mesmas funções.

quinta-feira, 4 de março de 2010

BRAGANÇA, Margarida da Conceição


Senhora de grande ilustração, natural de Lisboa que faleceu em Faro a 4-1-1936, com 92 anos de idade.
Senhora da melhor sociedade, muito culta e sobretudo bastante bondosa, sendo estimada pela sua afabilidade, esmerada educação e dotes de benemerência, ainda que parcos fossem os seus réditos económicos.
Era tia do pintor Carlos Augusto Lyster Franco, professor e antigo director da Escola Tomás Cabreira. Foi na sua companhia que veio para Faro, já viúva, tratando o sobrinho com um desvelo maternal. Aquele artista e notável professor comprou em sua honra uma campa perpétua, onde inclusivamente, em 1984, viria a ser sepultado o Dr. Mário Lyster Franco, na qual ainda jaz incógnito.
Era viúva do escultor Ernesto José Bragança

quarta-feira, 3 de março de 2010

BIVAR, Maria Luiza Hickling Pereira da Silva de

Distintíssima figura da primeira e mais afidalgada sociedade algarvia, natural de Ponta Delgada, faleceu em Faro a 17-7-1930, com 94 anos de idade. Era filha de D. Ana Hickling de Medeiros e do conselheiro Dr. Mateus António Pereira da Silva, antigo corregedor e deputado. Na altura do seu passamento era viúva do conselheiro Luiz de Bivar, antigo presidente da Câmara dos Pares e Juiz do Supremo Tribunal de Justiça.
Era irmã de D. Francisca Emília Cabreira, casada com o gen. Thomaz Cabreira, e de D. Ana Henriqueta de Bivar, esposa de Jerónimo de Bivar; e tia do coronel Thomaz Cabreira, antigo Ministro das Finanças e professor da Universidade de Lisboa; de António Cabreira, conde de Lagos e do eng.º agrónomo Manuel de Bivar Weinholtz, da D. Ana de Bivar Cumano, de Justino de Bivar Weinholtz, de D. Maria Luiza de Sampaio e Melo e dos srs. Luiz, Raul, Jerónimo de Bivar e Dr. Constantino de Bivar Cumano.

terça-feira, 2 de março de 2010

ASSIS, Joaquina de



Senhora da melhor sociedade farense, que faleceu nesta cidade, com 88 anos de idade, a 16-3-1930. Era mãe do Dr. Alexandre Pereira d’Assis, subinspector de saúde em Faro; de D. Gertrudes Assis de Figueiredo, viúva do Eng.º agrónomo Alexandre de Sousa Figueiredo. Tinha também uma filha, de que não sei o nome, casada com o judeu Abraão Ruah.
Era avó de D. Antónia de Figueiredo e Melo, esposa do Eng.º agrónomo Alexandre de Figueiredo e Melo; de D. Teolinda Barbosa, esposa de José Avelar Barbosa e de D. Maria Isabel Arouca Assis Simões esposa do Dr. José Monteiro Simões que era professor do Liceu de Faro.
Ao funeral de D. Joaquina d’Assis compareceram centenas de pessoas originárias de todas as classes sociais, pois que gozava de enorme prestígio social granjeado pelas suas acções de bondade e benemerência.

segunda-feira, 1 de março de 2010

ASCENSÃO, Olímpia Lamas de Aboim

Distinta senhora da melhor sociedade farense, viúva do benemérito coronel Rodrigo de Aboim Ascensão. Nasceu em Faro e faleceu na sua residência em Lisboa, a 13-10-1933, com 76 anos de idade. Foi sempre um modelo de virtudes e de grande carácter, defendendo os mais desfavorecidos e protegendo os humildes, seguindo nesse exemplo o seu saudoso marido, um dos amais altruístas e beneméritos cidadãos farenses, a quem se ficou a dever a fundação do Refúgio que tem o seu nome.
O féretro da veneranda D. Olímpia veio por via-férrea para Faro a fim de ser sepultado no jazigo de família no cemitério da Esperança

AMRAM, Sol Sequerra

Senhora de nação judia, educada nos moldes da sua tradição religiosa, que teve lugar cimeiro na sociedade farense. Faleceu na sua residência de Lisboa a 29-3-1934, com 58 anos de idade. Foi casada com o industrial Abrahão Amram que construiu a magnífica residência apalaçada na rua Filipe Alistão, onde se encontra hoje o Colégio Algarve.
Viveu durante largos anos em Faro e aqui lhe nasceram os seguintes filhos: D. Orovida Luna Amram Levy (que à data do passamento da mãe estava viúva de Salomão Isaac Levy) D. Raquel Amram, Samuel e Josuah Sequerra Amram.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uma viagem através da Luz


José Carlos Vilhena Mesquita

Com a chancela da prestigiada Papiro Editora acaba de vir a público mais um livro de poesia de José Vieira Calado, poeta consagrado de que o Algarve, especialmente a cidade de Lagos, muito se orgulha. A obra intitula-se Viagem através da Luz, e inscreve-se naquilo a que podemos designar por poesia experimental, uma via mais no recente trajecto do pós-modernismo lírico. O livro é, em si mesmo, uma unidade poética, constituída por um único poema, repartida por vinte e nove fracções, digamos assim, cujo tema principal é a Luz sideral e o universo cósmico, cujos versos pretendem conduzir o leitor numa inebriante viagem através do espaço celeste. Em todo o caso, é bom que se diga, o livro não é uma obra de ciência, mas de poesia, nem é tão pouco um repisar dos caminhos desbravados por António Gedeão, quando transformou a Física e a Química num objecto poético, formando um novo estilo lírico que se poderia designar por poesia-científica. Não, este é um livro muito diferente, tanto na abrangência temática como na extensão unívoca do poema, sendo que apenas existem algumas similitudes na dimensão da mancha poética. Nas suas fraquezas e virtudes, este livro é bastante inovador, não só como peça de arte mas também como peça literária, sendo que na sua formulação diegética até parece mais próxima da primeira do que da segunda. E isto em nada deslustra a qualidade e valor desta obra.
A ninguém hoje assalta a dúvida de que a poesia de Vieira Calado está indubitavelmente ao nível do melhor que neste país se tem dado a público no sublime prelo de Orfeu. Conheço o poeta, e a sua obra, há mais de trinta anos e o que acabo de afirmar não é um exagero de amizade nem de admiração, mas tão só a simples constatação de um processo de vida literária, marcado pelo aperfeiçoamento e depuração das qualidades criativas do seu estro poético. Mas essa viagem de progressiva qualidade tem-se demonstrado não só na sublime concepção estética em que se inflamam os seus poemas como, muito especialmente, na sua idealização lírico-filosófica. Essas qualidades, convenhamos, não estão ao alcance de todos os poetas, mas tão só dos mais qualificados, criativos e inspirados. E nos seus poemas, como aliás na maioria das obras de arte consideradas de superior qualidade, nota-se que a inspiração poética não é repentina nem flamejante; bem pelo contrário, é pensada e exaustivamente reflectida, é ponderada e sopesada nos mais elevados valores e conceitos da estética e da metafísica filosófica.
Esta Viagem através da Luz é a mais recente produção de Vieira Calado, no contexto de uma obra de vasta dimensão, com dezassete títulos de poesia e três de prosa. Pela sua insistência e quantidade, pode afirmar-se que Vieira Calado é acima de tudo um poeta, no mais sublime e exigente que essa qualificação encerra, ainda que como prosador – e aqui relembro o seu belíssimo e enternecedor livro Merdock, sobre um simples cão que personificou os ideais de liberdade e agitou a academia farense nos anos cinquenta – se deva também considerá-lo como um escritor, a quem o ensaio literário e o estudo científico não são igualmente estranhos.
Neste livro vislumbra-se o plectro de Orfeu, mas num patamar muito superior ao que se costuma ver no contexto poético algarvio. Aqui a palavra supera o sentido meramente estético do verso poético, pelo que o parnasianismo da ortodoxia lírica que enforma a maioria dos poetas algarvios contemporâneos, está absolutamente distante, e diria até que totalmente fora dos horizontes poéticos de Vieira Calado. Mesmo se remontarmos aos seus dois primeiros livros, publicados ainda numa poesia “imberbe”, vemos que os seus versos são pujantes gritos de revolta contra a opressão salazarista e a privação das liberdades e garantias, em que se sustentava a obscenidade plutocrata do capitalismo vigente, afinal de contas problemas que hoje absurdamente se repõem num regime de liberdade e de democracia plena.
Em todo o caso, e retomando o fio crítico, a poesia de Vieira Calado, desde o seus primeiros vagidos poéticos que se assume nos antípodas estéticos aos cânones ortodoxos da poesia clássica e aos tradicionais figurinos líricos que enformam a nossa poesia desde os heróicos modelos do Romantismo e dos bucólicos tempos do Naturalismo até aos difíceis da anos resistência neo-realista. Foi na alvorada dos anos sessenta que os moldes clássicos da criação poética foram absolutamente implodidos, quando ainda ninguém imaginava possível a eclosão da grande revolução social do Maio de 68, cujos ténues sinais já se vislumbravam, mas que só foram possíveis através dos crescentes sinais de mudança e de contestação juvenil, que uma emergente geração nova fazia desfraldar aos ventos a bandeira da liberdade, cortando as cadeias que manietavam o pensamento e amortalhavam os redentores ideais do Mundo Novo.
Os poemas deste livro giram em torno duma espécie de viagem cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia incomensuravel do universo físico está patente neste livro através da persistente alusão aos seus elementosáconstituintes, com particular acinte na luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que compõem o nosso universo mítico, como a Fénix, a cobra alada, a pedra filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na volatilidade do verso poético.
Os poemas deste livro giram em torno da palavra filosófica, das imagens metafóricas surrealistas e da estética pós-moderna. Paradoxalmente estes poemas não estão titulados, porque não existe um tema específico para cada um deles. Na verdade são incursões nas profundezas do inconsciente, que se reflectem num encadeamento de ideias e de figurações do irreal, que sensibilizam esteticamente o leitor para novas concepções tropológicas. O poeta não escreve a pensar no leitor ou em que o possa interpretar. Por isso não me parece que estes poemas se possam considerar acessíveis a todos, mas antes, e sem desprimor, só para alguns, certamente para os mais inteligentes e mais aptos, que são os únicos capazes de interpretar e desfrutar das ideias do poeta, algo etéreas mas profundamente ontológicas nesta Viagem através da Luz.
No fundo, todo o livro constitui uma viagem, um trajecto de quadros cenáticos que se sucedem e se engastam de forma lógica para a constituição de um todo. Isso não acontece num livro de poesia, onde cada poema é uma viagem, é um itinerário de ideias e de alegorias que enlevam o pensamento do leitor numa inebriante mensagem de sentimentos, de emoções e de sensações estéticas.
Nesta Viagem através da Luz não acontece isso, porque os 29 poemas que constituem este livro têm uma relação conjunta, uma complementaridade entre si, e uma filiação global que os transformam num corpo, desarticulado é certo, mas consistente do ponto de vista das ideias e dos conceitos estéticos imanentes. Repare-se no simbolismo da Luz que dá o cerne a este livro e que, por isso mesmo, lhe é omnipresente, mas cuja essência não se consegue apreender, porque a luz vê-se, sente-se e invade-nos o espaço físico, mas não se consegue capturar ou impedir o seu curso natural, porque dela provém a fonte criativa da vida. A Luz neste livro é também a permanência da razão, é o estímulo e a sensação que invade o espírito do leitor, numa impressão inequivocamente etérea e volátil. Acima de tudo, o poema quis atribuir à Luz a ambivalência dialéctica do material e do espiritual. Mas, na verdade, a Luz é o símbolo da imaterialidade, da ilustração e da concepção do espírito, como génio criador da percepção das ideias e dos pensamentos superiores. Por isso, mas também por ser fonte de vida, é que se atribuem sentimentos de sacralidade e de divino endeusamento. No entanto, se a luz do Sol significa a vida, é certo que também traduz a visão espiritual e a inspiração criativa. A luz da Lua, por ser reflectida, simboliza uma forma de conhecimento infundido no pensamento racional e discursivo. Nela cabem a certeza, mas também o mistério. Cabe, portanto, ao leitor escolher se prefere a luz do sol, original e divina, ou a luz da Lua, reflectida, aparente e enigmático. Por mim, prefiro esta, e aprece-me que o Vieira Calado também.

(texto de apresentação da obra Viagem Através da Luz, da autoria de Vieira Calado, efectuada na livraria «Pátio das Letras», em Faro, a 18-01-2010)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

ALBUQUERQUE, Maria José de Mascarenhas Gaivão Mouzinho de


Viúva do grande herói Mouzinho de Albuquerque, que ele próprio considerou como a verdadeira estrela de todas as suas campanhas em África, que o seguiu em todas as incursões pelo vasto e inóspito continente, fiel companheira, colaboradora insubstituível, imprescindível na organização dos materiais científicos e na montagem dos hospitais de campanha, onde prestou preciosos auxílios de enfermagem aos soldados feridos pelos rebeldes inimigos.
Como mulher e esposa encarnou o paradigma da companheira inseparável, tornando-se no modelo da mulher portuguesa, que por todo o país recebeu provas da maior admiração e carinho, o que deixou o Algarve muito orgulhoso.
Aquela a quem o poeta Afonso Lopes Vieira chamou um dia “a primeira senhora portuguesa” era natural de Estombar, concelho de Silves, e faleceu em Lisboa em finais de Agosto de 1950, com 93 anos de idade. Descendia de uma ilustre família algarvia, aparentada com os ilustres Mascarenhas que se bateram heroicamente durante as Lutas Liberais.
Casou-se em 1883, na cidade e Coimbra, com o seu primo Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, na altura um desconhecido alferes que logo seria mobilizado para a Índia. Partiu o jovem casal num périplo pelo antigo império, durante o qual se haveria de cobrir de glória aquele heróico soldado, cuja carreira militar marcaria de forma indelével a história portuguesa nos finais do século XIX.
Acompanhou o percurso histórico de seu marido, sempre ao seu lado, como um anjo da guarda. Esteve com ele no governo de Lourenço Marques, na campanha contra o famoso Gungunhana, na estrepitosa campanha de Gaza, no violento combate de Macontene, no retorno ao governo de Lourenço Marques e depois no triunfal regresso à metrópole, à atribulada vida de Lisboa, às intrigas na corte e ao trágico episódio do suicídio de seu marido, até nisso um homem de honra que a pátria não soube merecer.
Em todos esses momentos, uns mais nobres e gloriosos, outros menos felizes e memoráveis, esteve D. Maria José Gaivão sempre presente com a postura de uma grande senhora, quase uma rainha a quem enojaria o trono. Os ano que se seguiram à viuvez, que duraram quase meio século, foram de total apagamento, afastando-se da balofa convivência social da nobre elite a que pertencia, para se refugiar numa aura de absoluta humildade, como se fosse um símbolo nacional das mais sublimes virtudes.
O seu funeral constituiu uma das maiores manifestações de patriótica saudade e de luto nacional por aquela que era a última senhora de uma plêiade de heroínas que a proletarização da República quase fizera esquecer.
Deixou parte dos seus bens aos pobres, ficando como herdeiros os seus sobrinhos, a saber, o Dr. João Pedro de Mascarenhas Gaivão, que foi juiz distintíssimo e presidente do Círculo Judicial de Bragança, o eng.º Manuel de Mascarenhas Gaivão, que foi Governador Civil da Horta, e o Dr. Pedro de Mascarenhas Gaivão, famoso advogado em Lisboa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

LEMOS, Maria da Piedade Aboim Ascensão de Sande


Benemérita local e primeira figura da sociedade farense do seu tempo. Nasceu em Faro, em 1867, e faleceu em 25-3-1944, aos 77 anos de idade, na cidade de Lisboa, onde fixara residência alguns anos antes. Na altura do seu passamento estava ainda de luto pelo falecimento do marido, Coronel José de Sande Lemos, ocorrido em Lisboa a 27-3-1943.
Dotada de excelsas qualidades humanas, dedicou parte da sua vida a cuidar dos pobres e das crianças desvalidas, mercê dos seus avultados bens de fortuna. Foi, por isso, uma grande benemérita local, a quem se ficaram devendo os altíssimos donativos que canalizou ao longo da vida para o Refúgio Aboim Ascensão, hoje denominado por «Emergência Infantil».
Por outro lado, sendo esposa de um oficial do exército e herdeira e uma das mais notáveis casas agrícolas do Algarve, viu-se durante a I Grande Guerra privada da companhia do marido e do filho, o major Manuel Aboim de Sande Lemos, ficando por isso entregue à sua administração todos os meios de sobrevivência da família, que ela geriu com a maior competência e inteligente criatividade, o que em vez de diminuir acabou por resultar no crescimento do seus bens e recursos financeiros.
Esses avultados cabedais económicos soube-os distribuir benemeritamente pelos mais necessitados, nomeadamente a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, em Faro, para cuja sobrevivência contribuiu por várias vezes com elevados donativos, garantindo assim a manutenção do convento, das suas obras pias e sobretudo da Igreja do Carmo, cujas despesas de restauro e do exercício religioso sempre cobriu com indefectível generosidade.
O funeral de D. Maria da Piedade, realizado no dia 28 de Março de 1944, no cemitério da Esperança em Faro, foi uma das maiores expressões de pesar e de reconhecimento social prestado pelos habitantes da cidade, que reconheciam nela a “mãe dos pobres”, epíteto com que sempre foi conhecida.
Era mãe do Engenheiro Major do exército Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos e do Dr. José Aboim Ascensão de Sande Lemos, tia do Dr. José Aboim Ascensão Contreiras e irmã da igualmente benemérita D. Joaquina Ascensão Davim e do Coronel Aboim Ascensão, fundador do Refúgio das Raparigas em Faro.

NOGUEIRA, Maria da Conceição Corte-Real Moniz



Senhora das mais fidalgas origens e da elite farense, nasceu em 1914 em Vila Nova de Portimão e faleceu em Faro, onde residia, a 31-12-1953, com apenas 39 anos de idade. Era enteada de D. Maria Luísa Leote do Rego Mendonça Corte-Real e filha do, então já falecido, médico Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que foi uma das figuras de maior relevo na sociedade algarvia dos finais de Oitocentos.
Foi esposa amantíssima do ilustre médico e publicista Dr. João Moniz Nogueira, na altura director da Casa de Saúde, da Aliança Francesa e presidente da Direcção Diocesana da Liga Católica.
Pelas suas qualidades humanas e diamantino carácter desfrutava de grande estima no seio da sociedade farense, sendo presença constante junto das famílias mais carenciadas, levando ajuda material e uma palavra de conforto aos doentes e idosos. As crianças desvalidas, que sobreviviam em lastimável pobreza, eram também objecto da sua extremosa caridade. Pelo seu bondosíssimo coração fazia parte de várias instituições de caridade, de benemerência social e pertencia à direcção da Acção Católica em Faro.
Deixou dois filhos, ainda crianças, que muito sofreram com tão precoce desenlace.
A notícia do seu falecimento deixou a cidade em estado de choque, a ponto de várias festas e bailes de passagem de ano terem sido canceladas em sinal de luto e em respeito à sua memória. O seu funeral, realizado no dia 1 de Janeiro foi uma manifestação do mais sentido pesar, com a presença de centenas de pessoas oriundas de quase todo o Algarve. Por sua determinação ficou soterrada em campa rasa, como símbolo da sua humildade e desdouro pelas glórias terrenas.
Era irmã de D. Francisca Castel-Branco de Mendonça Corte-Real Costa de Azevedo e de Francisco Castel Branco Corte-Real, que foi um dos mais abastados proprietários da cidade de Lagos; era cunhada do major Josino Francisco Costa de Azevedo, que foi professor do Colégio Militar de Lisboa; de Lucília Amália Libreiro de Mascarenhas Corte-Real; e de Joaquim Pedro da Silva Negrão, rico proprietário em Lagos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carlos Abreu

J. C. Vilhena Mesquita

Engenheiro mecânico e romancista, João Carlos Telo Baptista de Abreu Pimenta, de seu nome completo, que usava o pseudónimo literário de Carlos Abreu. Nasceu em 1926, na freguesia de São Sebastião, concelho de Lagos, no seio de uma abastada família da burguesia industrial, muito conceituada no Algarve, e faleceu em Outubro de 1999.
Fez os estudos secundários no Colégio Infante Sagres, em Lisboa, ingressando depois na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde concluiria, em 1951, com distinção a licenciatura em engenharia mecânica. Exerceu o seu múnus profissional em reputadas empresas de âmbito internacional sediadas em Lisboa e em Paris. Foi ao serviço das mesmas que percorreu a África e América Latina, numa odisseia mercantil que lhe permitiu conhecer diferentes culturas e adquirir impensáveis experiências de vida.
Em meados dos anos oitenta, retornou à terra-mãe após o que decidiu concentrar o melhor da sua atenção e do seu esforço na actividade cultural, nomeadamente na criação literária, tornando-se a escrita numa espécie de companheira fiel nos rebates de saudade das suas viagens e dos tempos felizes da sua juventude. Muitos desses momentos e dessas recordações materializou-as em belos quadros literários de um forte e expressivo realismo. Carlos Abreu revelou-se tardiamente como literato. Porém, depressa se tornou num valor seguro da cultura algarvia.
Como colaborador da imprensa algarvia estreou-se, em 1983, nas colunas do «Farol do Sul», passando pois pelas revistas «Nova Costa d’Oiro» e «Cadernos Históricos», e terminando no «Jornal de Lagos». Todos esses órgãos estavam sediados na sua terra-natal. Essa sua desinteressada colaboração na imprensa incidia geralmente em aspectos literários, muito particularmente na publicação de contos e de crónicas de belo recorte estilístico, a maioria das quais inspiradas nos actuais moldes da literatura britânica. Nessas crónicas revelava uma invejável cultura cosmopolita, estribada no conhecimento de diversas línguas e civilizações, nas suas experiências sociais e sobretudo nas viagens que realizou pelos quatro cantos do globo.
Os seus contos evidenciavam uma rara beleza estilística e uma grande versatilidade na construção do discurso literário. Já próximo do fim da vida dedicava-se aos estudos históricos regionais, sobretudo os que respeitassem à Náutica dos Descobrimentos. Não o fazia com grandes pretensões científicas, mas tão só pela simples curiosidade de saber mais sobre o glorioso passado da sua terra-natal. Por outro lado, Carlos Abreu era um inveterado apreciador das coisas marítimas e também um velejador que percorria a costa algarvia com a curiosidade de perscrutar os sentidos dos velhos argonautas seus antepassados.
Como intelectual e escritor foi membro de plenos direitos da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores e da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve. Foi também Presidente da Direcção dos Estudos Marítimos de Lagos e vice-presidente da Academia de Música de Lagos, tendo igualmente pertencido aos corpos directivos do Círculo Cultural Teixeira Gomes e do Centro de Estudos Gil Eanes.
Quem teve o privilégio de privar com o Eng.º João Pimenta ou o escritor Carlos Abreu, sabe o quanto era estimado na sua cidade de Lagos, não só pela sua estampa de “cavalheiro britânico” como sobretudo pelas qualidades intelectuais e bonomia de carácter. Tinha amigos em todos os quadrantes sociais e à sua volta havia sempre quem o escutasse com atenção, admirando a forma como se exprimia, num tom sereno, baixo e pausado, próprio de um homem fino e educado. Pouco tempo antes de falecer tínhamos estado juntos no Centro Cultural de Lagos, onde fiz a apresentação do livro de Vieira Calado, Transparências, no fim da qual falamos dos seus projectos futuros, nomeadamente da preparação de um romance que tinha em mãos. A seu lado estava o também nosso comum amigo José Paula Borba e entre as suas preocupações recordo-me que destacava a centenária Sociedade Filarmónica com a sua notável escola de música, e a Misericórdia de Lagos a cuja benemerência não regateava elogios. A sua esposa, senhora de invejável beleza, segundo creio de origem britânica, subscrevia-lhe as preocupações, sobretudo na “cruzada” da música, cujo ensino entendia de fulcral importância na formação da juventude. Era um casal raro na nossa pequenina e por vezes tão provinciana sociedade.
Apesar de tudo, parecia estar bem de saúde e com vontade de prosseguir os seus projectos literários. Porém uma arreliadora insuficiência respiratória mantinha-o em tratamento médico, creio que em Coimbra e no Porto, onde se deslocava amiudadas vezes também para se actualizar junto das tertúlias literárias que o recebiam com agrado e satisfação. O seu porte elegante e cavalheiresco, o cachimbo inglês e os cigarros Gauloise, conferiam-lhe um semblante especial, a imagem de homem de outro pensar e de outros mundos. Verdadeiramente singular, Carlos Abreu era um estrangeirado, herdeiro da nobre cepa lacobrigense. Da sua estirpe havia poucos no Algarve e nesse alfobre de intelectuais, que é e sempre foi a cidade de Lagos, fica agora uma vaga insubstituível e uma profunda saudade.
A vida de Carlos Abreu foi uma odisseia pelo mundo fora, sobretudo em África e na América Latina, onde trabalhou como engenheiro mecânico na reparação naval ao serviço de uma empresa multinacional sediada em Paris. Dessa vivência e da sua intrínseca apetência para a escrita nasceram os seus romances Concurso Internacional, 1987; Em Busca de Ilusões, 1989; e Tolentino Venâncio, grande industrial, 1998, para além de dois livros de crónicas intitulados Gentes de Lagos, 1994 e Lagos, um certo tempo – Crónicas e reflexões, 1998.
Pouco tempo antes de falecer confidenciou-me que tinha prontos a entrar no prelo um romance intitulado «O Pescador de Sagres» e uma peça de teatro em três actos, «A Casa de Yolanda», cujos originais deverão permanecer em posse dos herdeiros. Projectava também dar a público uma compilação das suas melhores crónicas publicadas nos órgãos regionais acima referidos.