terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Elegia ao amor platónico, por uma ignorada poetisa de Tavira

Por esse Algarve em fora despertam agora do sono letárgico - quais mouras encantadas - as nossas amendoeiras em irradiantes floreiras de níveas cores. Olhando-as na berma das estradas ou nas férteis várzeas desta terra generosa, sentimos quão verdadeira é a lenda da nórdica princesa, cujo amor conjugal definhava de saudades pelos nevados campos da sua pátria.
Lembrei-me então de um poema, escrito à mais de setenta anos por uma poetisa tavirense, de enorme talento e polida ilustração, que em vida foi humildemente ignorada, e hoje permanece esquecida. 
Chamava-se Maria Amália Padinha. Certamente o meu amigo Ofir Renato Chagas saberá melhor do que eu de quem se trata, e até já lhe terá tecido os maiores elogios num dos seus livros sobre a ilustre cidade de Tavira.
Em homenagem ao seu enorme talento não resisto à tentação de aqui transcrever um dos seus poemas, uma elegia ao amor platónico - muito peculiar ao tempo em que viveu - que é também um hino à beleza naturalista e simbólica da flor da amendoeira.
Este poema, simplesmente assim titulado, foi publicado no jornal «A Ilha», nº 711, de 17-11-1945, que em S. Miguel, nos Açores, dava guarida aos jovens talentos que despontavam nos mais diversos recantos geográficos pátria de Camões.
Ouçamos então o seu belo poema, com a reverência que nos merecem os sentimentos que nele resplandecem:


Poema

Passaste junto à minha porta
e eu sorvi
o ar que respiraste...

Perto, muito perto
eu bem te vi...
Mas tão longe
- longe de mim -
quando passaste...

Olhaste indiferente
para a rua
sem reparares que ela
era diferente.
Sem notares que se abria
uma janela
e que alguém
espiava os teus passos...

O sol vinha beijar-me
à janela onde ficara
a meditar.
E deu-me aquele beijo
que em pensamento
um dia te pedira...

Foi então que me voltei
arrancada ao meu cismar...
.............
- Já te foste!...
e na escuridão amarga
tento ainda destronar
o ilusório sonho
que sonhei.

E é tão grande a minha dor,
tão grande o meu quebranto!...
E só
sem amparo,
choro...

Mas não sou eu só
que choro assim.

A minha amendoeira
num quadro todo branco
também chora comigo
odoroso pranto
em pétalas caído
sobre mim...

E essas pétalas que me cobrem
como nevado manto,
nem sei se são pétalas
se lágrimas do meu pranto!...

Tavira, 7 de Março de 1945.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A anedota dos "cangrejos" de Olhão

Não sou a pessoa certa para contar anedotas, mas não resisto à tentação de revelar esta, que ouvi em Olhão há alguns anos, porque funciona como uma anti-anedota, ou seja, não nos faz rir, mas antes reflectir sobre o carácter dos portugueses. Então aqui vai, tão fiel quanto possível ao linguajar dos "filhos d'Olhão":
Certo dia no cais de Olhão cruzaram-se dois pescadores locais, o mane Carocho e o mane Luice ("mane" é o mesmo que mano, forma carinhosa como se tratam os marítimos olhanenses).
O mane Luice (Lúcio) ia carregado com dois baldes, um em cada mão.
O mane Carocho, após lhe dar de vaia, reparou nos baldes, mas achou estranho que um deles estivesse tampado, enquanto o outro estava destapado, vendo-se claramente que trazia caranguejos.
Perante tão inusitada diferença, perguntou-lhe:
Ó mane Luice o que leva aí nos baldes?
Cangrejos móce...
Mas atão um dos baldes está tampado e o outro não, porquém?
É que no tampado levo cangrejos instrangeros, e no destapado levo cangrejos portugueses...
Mau, nã percebo... atão não tens medo que os cangrejos portugueses fujam do balde?
Eles bem tentam e até querem fugir... mas quando algum começa a subir os outros puxam-no para baixo !!! 
A moral desta anedota, é simples: os portugueses não se solidarizam uns com os outros, e, pior ainda, têm inveja daqueles que pretendendo sair da vulgaridade procuram subir na vida. Acontece que este comportamento de inveja contra aqueles que se distinguem pelos seus méritos e talentos, tem causado graves prejuízos no desenvolvimento do nosso povo, a todos os níveis e em todos os sectores da vida pública.
Acresce dizer, em remate desta anedota, que não foi por acaso que Camões terminou os Lusíadas com a palavra inveja. E, na verdade, a inveja tem sido ao longo de séculos o pecado mortal da nossa cultura, o fel em que se destila o carácter mesquinho dos portugueses. A anedota de Olhão é um retrato bem elucidativo do espírito lusíada. E por isso os olhanenses costumam dizer: a enveja mata móce...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um herói ignorado das lutas liberais no Algarve.

Faz hoje, 17 de Janeiro de 2016, precisamente 128 anos que faleceu em Silves, com 78 anos de idade, João Gregório de Figueiredo Mascarenhas, uma figura heróica e muito popular no Algarve, durante o conturbado período das Lutas Liberais.
Silves, ruínas do castelo, cerca de 1890
Nasceu a 24-06-1812 em S. Bartolomeu de Messines, e faleceu em Silves a 17-1-1889. Era filho do major José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, um respeitado proprietário local, casado com D. Catarina Jacintha Duarte Machado Guerreiro, também originária da fidalguia fundiária, com bens de nomeada no concelho de Silves. Descendia de um casal muito respeitado na ald
eia de São Bartolomeu de Messines, uma das mais prósperas e economicamente das mais poderosas do termo de Silves.
João Gregório Figueiredo Mascarenhas desde jovem que se tornou famoso pela sua destreza na caça, batendo toda a serra algarvia, desde as cordilheiras do Espinhaço de Cão e Monchique e até quase ao cume do Caldeirão. Nas suas batidas de caça por essas serranias agrestes do Algarve e Alentejo, era certo e sabido que voltava a casa com um carro de javalis, lebres, coelhos e corças. Conhecia os recônditos mais escabrosos da serra algarvia, e como ele não havia outro que se igualasse no manejo das armas de fogo.
Desenho de Silves, com a rua do castelo no séc. XIX
O conhecimento da serra e a destreza nas armas foram decisivos quando em 1833, incorporado no batalhão móvel de Lagos, seguia em expedição ao Alentejo para combater as guerrilhas miguelistas que assolavam as aldeias, montes e casais desde São Marcos até Ourique. No sítio do Valle da Mata, as guerrilhas montaram uma cilada com tal sucesso que conseguiram aprisionar o coronel Custódio Pires Bandeira, assim como todos os soldados que seguiam na frente do batalhão móvel de Lagos. Felizmente o João Figueiredo Mascarenhas seguia nesse momento na retaguarda e por isso conseguiu escapar juntamente com alguns camaradas de armas, que seguindo-lhe os passos lograram alcançar o sítio da Amorosa, onde se fizeram fortes, conseguindo rechaçar as guerrilhas que seguiam na sua peugada. Conhecedor do terreno conseguiu conduzir os seus homens pelos caminhos acidentados da serra algarvia, escapando incólumes à sanha impiedosa das guerrilhas, até chegar à cidade de Silves. Mas não se sentindo seguro rumou para Vila Nova de Portimão, onde dias depois teve de enfrentar o grosso das forças miguelistas. O ataque a Portimão foi uma das páginas mais heróicas das lutas civis no Algarve. As forças liberais, mal equipadas e em menor número do que as guerrilhas do Remechido, quase soçobraram ao cerco miguelista, não fosse, entre outros o heroísmo de João Gregório Figueiredo Mascarenhas, que numa posição arriscada conseguiu suster as investidas das forças inimigas. Porém, num dos ataques as guerrilhas vararam impiedosamente a sua posição de resistência, ferindo-o gravemente. O jovem Figueiredo Mascarenhas foi recolhido ao hospital onde recuperou a vida, mas não a capacidade para voltar ao efectivo, encontrando-se em convalescença quando foi assinada a Convenção de Evoramonte.
Panorâmica da cidade de Silves nos inícios do séc.XX
Após a guerra-civil retirou-se para a sua aldeia natal, onde se casou com D. Maria Mascarenhas Neto de Figueiredo, de quem teve dois filhos: Maria Elisa de Figueiredo Mascarenhas e José Gregório de Figueiredo Mascarenhas. Reassumindo os negócios e interesses de família, teve uma vida próspera, mantendo sempre a sua lhaneza de trato sem perder a postura fidalga nem os seus ideais de tolerância e de liberalidade. Repartiu a vida e os negócios entre a aldeia de Messines e a cidade de Silves, onde o seu heroísmo durante as lutas liberais seria sempre lembrado para exemplo das gerações futuras. O principal beneficiado do seu prestígio popular seria o filho, José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, que viria a ser também um militar e político de grande notoriedade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Augusto César Pires Soromenho, um escritor e militar algarvio hoje ignorado

Militar e escritor, nasceu em Vila Nova de Cacela a 5-5-1857 e faleceu na Quinta da Penha Longa em Sintra, onde se encontrava a veranear, a 10-8-1948, com 91 anos de idade.
Frequentou a Escola do Exército, onde concluiu em 1879 o curso da sua especialidade, na arma de infantaria, sendo sempre considerado como um dos melhores alunos. Abraçando a carreira militar fez a sua progressão de forma paulatina, mas sempre legal e justificada, mediante exame e concurso público. Assim ascendeu a alferes em 7-1-1880, depois a tenente em 18-2-1885, a capitão em 25-5-1894, a major em 16-5-1905, a tenente-coronel em 25-11-1909, e por fim a coronel em 9-12-1911. Para fazer o seu percurso ascensional na arma de infantaria aceitou vários destacamentos para prestar serviço em diferentes unidades e cumpriu diversas comissões exercidas fora da metrópole e do continente, durante as quais provou a sua bravura, a sua inteligência e os seus elevados conhecimentos de estratégia militar. A forma meritória como desempenhou as missões que lhe foram confiadas granjearam-lhe enorme prestígio e sucessivas promoções até atingir o posto de coronel, no qual se reformou em 5-6-1915.
No exercício da sua carreira militar, comandou sucessivamente os regimentos de Infantaria 13, 14 e 25, e interinamente a 4.ª Divisão Militar no ano de 1915, não tendo sido mobilizado para a Flandres por causa da sua avançada idade. Possuía diversas e prestigiadas condecorações, para além de numerosos louvores militares.
Dotado de sólida cultura dedicou-se ao longo da vida aos estudos militares, publicando as seguintes obras: Elucidário dos Comandantes dos Destacamentos e Diligências, Lisboa, 1895; um Manual de Justiça Militar (Lisboa, 1904), para uso castrense; e sobre o nosso glorioso passado histórico, publicou para uso nos liceus uma curiosa História dos Antigos Povos Orientais (Lisboa, 1900) que teve larga divulgação.
Era casado com D. Maria da Encarnação Soromenho e foi pai do Dr. Luís Soromenho, médico distinto, e do tenente Augusto Soromenho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diogo Tavares de Mello Leote, ministro da Justiça do 1º Governo Constitucional da República Portuguesa


Diogo Tavares de Mello Leote,  nasceu na vila de Albufeira a 7 de Janeiro de 1849, filho de Diogo Maria de Mello Leote e de D. Maria Emília Faria, oriundos das mais prestigiadas famílias da burguesia algarvia.
O Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, apesar de ser hoje uma figura ignorada na cultura algarvia, foi no passado século XIX-XX uma personalidade de relevo no galarim dos notáveis do Algarve.
Licenciou-se cum laude em Direito pela Universidade de Coimbra, optando pela carreira da magistratura, ao longo da qual percorreu um vasto périplo, primeiro como delegado do Ministério Público e depois como juiz de Direito nos tribunais administrativos das cidades da Horta e de Faro, onde fez amigos e foi muito acarinhado. No Algarve exerceu também a magistratura nas comarcas de Lagos, Olhão e Tavira, passando depois por Porto de Mós, Valpaços, Portalegre, Évora e Porto. Na cidade invicta ascendeu de forma gradual até se tornar num dos mais prestigiados Desembargadores do Tribunal da Relação do Porto, cujo prestígio e acção política justificaria em 1911 a sua nomeação para o alto cargo de Ministro da Justiça, no primeiro governo constitucional da República, presidido pelo Dr. João Chagas.
O dr. João Chagas, chefe do 1º governo constitucional, num
 momento de leitura e de lazer no seu gabinete ministerial
O ministro da Justiça, Dr. Diogo Leote, era de entre o corpo ministerial o único que não tinha ligações partidárias nem passado político que justificasse a sua nomeação para o governo, que como se sabe teve a duração da “rosa de Malherbe”. Em todo o caso, o ministro Leote sabedor das directrizes definidas pelo Governo Provisório em matéria de cultos religiosos, permitiu e assegurou a entrada em funcionamento da Tutoria da Infância de Lisboa, a criação do Tribunal das Trinas, onde se dirimiram os crimes contra a República, e, por fim, aprovou os serviços de mensuração antropométrica dos detidos nas cadeias de Coimbra. Para além disso, dedicou o seu tempo à gestão corrente do ministério, ou seja, a garantir o bom funcionamento dos serviços correntes da justiça e da segurança pública.
Devo acrescentar que este governo, o primeiro com legitimidade constitucional, teve origem no bloco de almeidistas e de camachistas que elegeu o Dr. Manuel de Arriaga para a presidência da República, em oposição aos afonsistas. Por isso foi de curta duração, aliás à semelhança da maioria dos que se constituíram na I República, vigorando apenas entre 4 de Setembro e 12 de Novembro de 1911, ou seja setenta dias. O carácter efémero da governação tornou-se na face negra do regime republicano por causa do seu sectarismo partidário, que acicatou interesses e posições ideológicas inconciliáveis. A instabilidade governativa tornou-se no sinónimo político da República.
Postal ilustrado, propaganda da República e da bandeira
nacional, com o elenco do 1º governo constitucional.
A propósito das ideias políticas do Dr. Diogo Leote, convém dizer que não foram isentas de polémica, e muito menos lineares com uma linha de rumo previsível e coerente. O facto de se recusar a servir interesses, quer económicos quer políticos, e de procurar ser isento e parcial, tal como o era na magistratura, tornava-o incompatível com a política. Em boa verdade, não foi homem de grandes convicções políticas nem de fidelidades partidárias. Sabia-se que era da esquerda monárquica, simpatizante do partido progressista, mas com o advento da República aderiu ao novo regime, sendo por isso etiquetado de adesivista. Em 1912, já depois de ter sido ministro, aderiu à União Republicana a convite do fundador e seu amigo, Dr. Brito Camacho, passando a militar nas fileiras unionistas, mas recusando-se a voltar às cadeiras do poder. O facto de ter vivido na cidade do Porto, e de ter conhecido a grandeza de alma daquele povo, contribuiu largamente para a sua nobreza de carácter, espírito de sacrifício e inquebrantável dedicação ao trabalho.
Ao longo da vida escreveu muito para os jornais e revistas relacionadas com a vida do foro, sendo particularmente assídua nas colunas da «Revista dos Tribunais», da qual saíram em separata alguns trabalhos da sua lavra. Da sua obra literária constam apenas dois títulos: «Baldio» e «O Pão». Mercê da sua carreira como homem do foro e da justiça, foi eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, o que muito o enobrecia, já que se trata de uma honraria com que se distinguem apenas os mais ilustres portugueses.
Importa, para finalizar, dizer ainda que o Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, foi casado com D.ª Maria Lúcia Pais d'Ayet, de quem teve um único filho, Diogo d'Ayet Leote, também ele uma figura respeitável na sociedade do seu tempo.
O seu Algarve e a sua humilde vila natal de Albufeira, tornaram-se numa miragem a que jamais regressaria. Faleceu na cidade do Porto a 8 de Março de 1920.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Canellas, Ignez Carolina

Natural de Faro, que em idade avançada foi viver para Lisboa, onde viria a falecer a 28 de Dezembro de 1903, com provecta idade. Foi uma mulher bonita das mais admiradas da cidade, frequentadora dos palcos sociais mais selectos e requintados, mas também dos palcos da arte de Thalma, como o Lethes e o 1º de Dezembro, neles conhecendo António Vicente Canellas, um notável artista de comédia, que nunca se deixou seduzir pelo profissionalismo, para não deixar o lar materno. Apaixonaram-se, casaram por amor, e tiveram dois filhos, um casal. Criaram-se aqui, mas a vida e os negócios levaram a família para fora do Algarve, sem nunca deixarem de ser cidadãos de conceituada honradez moral e social.
Panorâmica do interior do Teatro Lethes
Para quem não sabe, o actor Canellas, como era conhecido, teve noites de retumbante sucesso nos teatros do Algarve e Alentejo, representando papéis cómicos de grande exigência artística. Nos anos sessenta do século dezanove, o teatro Lethes de Faro gozava de fama nacional. Dizia-se que a família Cúmano, proprietária do imóvel e da companhia teatral, gastara centenas de contos para manter um “foyer” de grande nível e um guarda-roupa muito superior, dizia-se, ao do teatro D.Maria. Muitos dos seus actores, músicos e cantores de ópera, seguiram as suas carreiras nos teatros da capital, alguns deles com estrondoso êxito, como a Dores Aço (natural de Silves, casada com o actor José Ricardo), a sua irmã Teresa Aço (que foi casada com o actor-empresário Afonso Taveira), e tantos outros. Quando a companhia do Lethes ostentava nos seus programas o nome do actor Canellas, era garantia de casa cheia. Vinha gente de todo o lado para vê-lo representar papéis jocosos que só ele sabia fazer. Ouvir os seus hilariantes monólogos de um acto era lavar a alma de riso e boa disposição.
Alegoria à musica, 
pintura no tecto do teatro
Era mãe do conceituado Alfredo Canellas, farense de coração que se apaixonara pela África, onde chegou aos corpos gerentes da Companhia do Nyassa, uma das mais ricas e poderosas do nosso império colonial. Teve também uma filha, entretanto falecida, que foi casada com o Dr. Vianna de Lemos, outra grande figura do seu tempo, director da famosa Companhia de Papel do Prado.
O féretro de Ignez Carolina Canellas ficou no cemitério dos Prazeres, depositado no jazigo de Augusto César Fernandes, amigo íntimo do filho, não mais regressando ao seu Algarve natal. Os seus descendentes são hoje pessoas de bem, com vida feita na capital, que talvez não saibam quão notável foi a vida dos seus ascendentes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

«A Ministrada» Lacobrigense

Encontrei há anos na Biblioteca Nacional de Lisboa um interessante códice manuscrito sobre um episódio político ocorrido na cidade de Lagos em 1784. A época em que decorre a trama narrativa prendeu-me imediatamente a atenção, pois decorre no período historicamente designado por «Viradeira», isto é, nos anos subsequentes ao consulado pombalino. Está escrito em verso, repartido em cantos, como se tratasse de Os Lusíadas, em versão reduzida, num estilo crítico-jocoso. Ignoro o seu autor, porque nada consta que o identifique, o que me faz pressupor tratar-se de uma obra clandestina que nunca deve ter visto a luz do prelo.
Desse raro e valioso códice extratei um breve apontamento, no qual anotei os dizeres do rosto:
Brasão antigo de Lagos atribuído por D. Manuel em 1504
A
 MINISTRADA 
Poêma
 critico
dado á luz
Por hum amador da tranquilidade Lacobri- 
gence. Anno
MDCCLXXXIV. (1)

Trata-se de um longo poema épico repartido por seis cantos e dividido em estrofes, narrando certos acontecimentos populares, marcados por gestos de rebeldia e atitudes de amotinação colectiva, que aglutinaram a maioria dos habitantes de Lagos. A contestação popular dirigia-se principalmente contra um vereador e o Juiz de Fóra da cidade, que desempenhavam os seus cargos de forma despótica com violência e arbitrariedade. Todos os factos e personagens nele descritos são identificados e classificados em dezenas de notas que figuram no término de cada Canto. Em boa verdade, não é apenas uma obra poética que ficou inédita por razões políticas, mas antes um verdadeiro documento histórico, embora de cariz literário, urdido no género mais caro à tradição nacional e ao gosto popular. Sendo as estrofes escritas com objectivos políticos, ainda que em tom crítico-jocoso, este códice torna-se numa fonte de informação notável para a história regional, particularmente para a história da cidade de Lagos, acrescendo com isso a necessidade de o publicar.
Este códice manuscrito abre com a seguinte "Introdução", uma espécie de nota explicativa, que passo a transcrever: 
«Os tumultos de Lagos originados das paixões de alguns Ministros, como pela ellevação da Caza do Vereador Bento de Azevedo, tem sido objecto de rizo para huns, e de trabalho para outros; mas de lastima para todos aquelles bons, e sinceros animos que se interessão no publico socego. A ultima dezordem que occazionou, e deu logar a este pequeno Poêma, em que mais se observão as leis da Verdade do que as Regras da Arte, se lhe fez de alguma utilidade, dando a conhecer os males e dezordens, a que nos conduz a discordia, e a ambição, e preencherá o fim do seu Author, unico e singular, que se propoz em ordenálo; e se alguém duvidar da variedade dos factos que nelle se apontão, o Author não tem duvida em apprezentar provas autenticas de todos elles, em qualquer Archivo, ou livraria publica da Corte.»
Confesso que não consegui identificar o autor deste poema crítico-jocoso, muito embora presuma que se trate de um adversário político, talvez um antigo membro das anteriores vereações, cujo espírito progressista e burguês, certamente favorável ao reformismo pombalino, se opunha à mentalidade do monarquismo absolutista que com D. Maria I retornara ao poder, abjurando e derruindo a maioria das conquistas sociais alcançadas durante a administração josefina. 
Não obstante o manuscrito se apresentar anónimo - como aliás convinha ao seu carácter clandestino e aos seus objectivos subversivos - encontrei no final da "Introdução" que acima se transcreve uma assinatura de um único nome: Valle. Fiquei, porém, na dúvida se seria a identificação do autor ou do copista, já que desta «Ministrada» circularam vários exemplares manuscritos.
Seja como for, uma coisa é certa, este códice necessita de ser estudado e analisado por um historiador especializado no conhecimento da época, que prepare a sua publicação numa edição que elucide os leitores de todas as dúvidas que a sua leitura possa suscitar. As notas aduzidas no fim de cada Canto, são muito úteis e importantes para a identificação dos intervenientes na acção política, e sobretudo na contestação social descritas no poema, mas pareceram-me por vezes dúbias, algo veladas e pouco esclarecedoras para a compreensão da diegética histórico-literária. Só um especialista na matéria é que poderá dissipar todas as dúvidas, e até talvez identificar o seu autor.
____________________________
(1) Biblioteca Nacional de Lisboa, reservados, códice nº 6058.

domingo, 13 de novembro de 2016

Joaquim Ignez, um herói popular de Loulé

Uma aura de lenda e de heroísmo popular envolve a figura, hoje absolutamente ignorada, de Joaquim Ignez, um pobre e ignaro pastor, nascido e criado na aldeia de Salir, concelho de Loulé. Pouco ou nada se conhece sobre as suas origens familiares, sabendo-se apenas que manejava uma funda com insuperável pontaria e conduzia um rebanho de cabras, com tanta humanidade e carinho que as amestrara na arte de comunicarem, respondendo aos seus comandos e chamamentos.
Panorâmica da vila de Loulé, no último quartel do séc. XIX
Residia no sítio dos Palmeiros, não longe de Salir, e vivia do produto do seu rebanho. Ganhava o sustento com honestidade, sacrifício e trabalho. Tornou-se conhecido, respeitado e admirado pelos louletanos, pela seriedade com que vendia o proveito do seu rebanho, mas também o produto da caça silvestre, mercê da destreza com que manejava a funda. Acima de tudo fruía do prestígio da sua valentia e da coragem com que defendia o seu rebanho ao calcorrear as brenhas da serra algarvia.
Nos tempos do “foge-foge” andava o povo no Algarve esbaforido com a opressão dos exércitos estrangeiros, primeiro foram os franceses e depois os ingleses. Não havia sossego, e no chamado “ano do barulho”, em 1833, ocorreu o desembarque da esquadra liberal nas praias de Altura/Cacela, de que resultou a invasão do Algarve pelas tropas do Duque da Terceira. Entre 24 de Junho e 20 de Julho de 1833, esteve todo o Reino do Algarve submetido aos desígnios dos novos ocupantes, cujo efectivo militar era sobretudo constituído por mercenários franceses, belgas, suíços, ingleses, etc.
O governador do Algarve, general Mollelos, fervoroso servidor do Trono e do Altar, fiel súbdito de D. Miguel e do absolutismo, receando o confronto com o exército invasor, desconfiando da motivação dos seus soldados e da eficácia do seu armamento, decidiu retirar-se do Algarve e reagrupar forças em Beja. Foi uma decisão desastrosa para a sobrevivência da causa miguelista. Na verdade, constituiu o princípio do fim do absolutismo e a afirmação do liberalismo em Portugal.
Ponte, supostamente romana, sobre a ribeira da Tôr
Mas, nos primeiros dias da ocupação do Algarve pelas tropas do Duque da Terceira, houve que distribuir a força militar pelas principais cidades e vilas da região, a fim de impor aos seus habitantes as novas autoridades, inventariar recursos e requisitar meios para a sobrevivência dos novos senhores.
Para a vila de Loulé destacaram um batalhão de mercenários belgas, que à imagem do que já haviam feito os seus camaradas franceses em Faro e Olhão, cometeram certos abusos e exerceram arbitrariedades que os louletanos não esperavam, nem podiam tolerar. Parece que os soldados estrangeiros, na visita de inspecção que fizeram à freguesia de Salir, desrespeitaram a fé católica. Diz-se que foram à igreja local na procura de valores que não encontrarem, e por represália tiraram as imagens dos santos e depuseram-nas no átrio, cometendo gestos impúdicos e proferindo palavras que vexaram a fé católica e ofenderam a honra dos salirenses. O povo empertigou-se e os mercenários belgas responderam com prepotência e impetuosidade, causando alarme e escândalo entre o povo da serra algarvia.
A humilde Igreja da Tôr, palco das diatribes belgas
Consta que a notícia da agressão belga chegou aos ouvidos do Joaquim Ignez que preparou a vingança com a paciência e o método de um verdadeiro guerrilheiro. Conhecedor dos meandros e recônditos da serra, Joaquim Ignez esperou que o batalhão belga retirasse da sua aldeia natal em direcção a Loulé, para numa das passagens da ribeira de Salir, a mais favorável e frequentada pelos almocreves, surpreender os soldados com a destreza e perícia da sua funda, atacando à pedrada os soldados, ferindo vários e matando três. A confusão que se instalou entre os belgas foi enorme, mas depois que se recompuseram do susto empreenderam uma impiedosa caça ao homem, com batidas pelos montes e disparos atrabiliários, sem qualquer critério ou justificação. O pobre do Joaquim Ignez conseguiu escapar-se graças à colaboração do seu rebanho que encobria a sua presença e apagava os trilhos da sua peugada.
A partir de então a fama do pastor de Salir correu célere entre os montes da serra algarvia, tornando-se numa figura quase mítica, num herói popular que defendeu a honra dos seus humildes conterrâneos contra a injustiça e opressão dos ocupantes estrangeiros. A cabeça do humilde pastor foi posta a prémio. Lavraram-se autos de culpa e iniciaram-se os processos de captura, que decorreram durante anos sem efectivo resultado. O povo serviu-lhe de escudo, protegendo-o com o seu silêncio e auxílio material, frustrando a perseguição movida pelas autoridades liberais. Diz-se que o Joaquim Ignez homiziado na serra algarvia, chegou a acompanhar os homens do Remexido, preferido manejar a sua silenciosa e certeira funda em vez do cobarde e estrondoso fuzil.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

CÚMANO, Paulo

Maria Antónia Cúmano, 1861-1948
Abastado proprietário e benemérito local, nasceu a 17-05-1856, na freguesia de S. Pedro, em Faro, e residiu da rua do mesmo nome, no palacete que pertenceu ao Dr. Lázaro Doglioni, no qual esteve sediado o Arquivo Distrital quase até aos finais do séc.XX. Aqui viria a falecer, em 21-6-1948, com a provecta idade de 92 anos de idade.
Foi o último descendente do Dr. Justino Cúmano, notável médico, arqueólogo e numismata, nascido em Veneza a 20-02-1818, e falecido em Faro a 13-03-1885, que se havia consorciado em 17-05-1855 com a ilustre dama farense, Dª Maria Victória Pereira de Mattos, de quem teve quatro filhos: Paulo Cúmano, Maria Antónia Cúmano (nascida em 1861, e que foi casada com o conhecido proprietário João António Júdice Fialho), Isabel Cúmano (nascida a 6-06-1866, e que foi casada com o ilustre engº agrónomo Manuel de Bivar Gomes da Costa Weinholtz [1861-1901], que foi reitor do Liceu de Faro e deputado pelo Algarve), e Constantino Cúmano (que foi casado com a cunhada Ana Hickling de Bivar Weinholtz).
Isabel Cúmano, 1866-1918
Era um cidadão ilustre e muito querido na sociedade farense, não só pelas suas origens familiares e avultados meios de fortuna, como também pela sua afabilidade, pela sua bondade e filantropia, ajudando sempre as instituições de apoio aos mais carenciados.

Quando faleceu encontrava-se viúvo, desde há muitos anos, de D.ª Rosa Carvalho Machado, estando ainda vivos as suas filhas D. Maria Vitória e D. Maria Justina, proprietárias da Casa Paris, extinta alguns anos depois, e os seus filhos, capitão Paulo Cúmano, Lázaro Cúmano e Francisco Constantino Cúmano, todos a residirem em Lisboa. O seu filho cap. Paulo Cumano ficou conhecido por ser inspector e figura proeminente dos quadros superiores da PVDE, polícia internacional para a defesa do estado, que se ocupava quase em exclusivo da vigilância e perseguição aos adversários políticos do regime salazarista.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

ORTIGÃO, Berta Lúcio Pousão Pereira Ramalho

Figura de grande prestígio e distinção social, cujas origens entroncam nas principais famílias da alta burguesia algarvia do século XX. Era irmã do famoso poeta e causídico olhanense, João Lúcio, que faleceu cedo demais para uma carreira nas letras que se adivinhava de grande sucesso.
Era sobrinha do malogrado e genial pintor Henrique Pousão, do qual herdara grande parte da sua obra artística, que reservava na sua residência, juntamente com muitos dos pertencentes particulares do irmão, reunindo assim um dos mais valiosos espólios da cultura algarvia. Esse valioso e importante acervo artística – composto por inéditos de João Lúcio, correspondência epistolar, fotos de família, assim como esquissos, quadros e fotos de Henrique Pousão - acabou depois por se dispersar pelos herdeiros da família, sendo hoje praticamente impossível voltar a reuni-lo
Faro, panorâmica ribeirinha, anos 20 do século passado
Berta Ortigão nasceu em Olhão, em 1896, tendo completado a sua instrução básica através de perceptoras particulares que lhe ministraram o conhecimento da cultura clássica, a ponto de se fazer notar a sua opinião, e a sua crítica, junto das figuras ilustres que frequentavam o lar materno. Era, acima de tudo, uma mulher inteligente e perspicaz, de forte cultura humanística, que gostava de vincar as suas convicções monárquicas, contra os abusos e despautérios do revolucionarismo desembolado que se instalara no país após 1910.
Casou-se com o Dr. Silvestre Falcão Ramalho Ortigão, conceituado causídico na praça de Faro, grande proprietário rural e urbano, herdeiro de avultados meios de fortuna, e de prestigiados pergaminhos familiares. Em Faro fixou D.ª Berta a sua residência conjugal. Na sociedade farense foi sempre muito respeitada e admirada, não só pelas suas qualidades morais e fino trato social, como sobretudo pela sua ilustração e espírito mecenático. Não havia concerto, peça de teatro, conferência ou exposição de arte, tanto em Faro como em Olhão, que não contasse com a presença de D. Berta Ortigão. Era como que um atestado de qualidade, que a cidade fazia questão de manter.
No início da década de sessenta do século passado, então viúva e depauperada pela doença que se manifestava de forma prolongada, foi para Lisboa onde durante vários meses procurou alívio para os seus padecimentos. Faleceu a 20 de Março de 1963, com 66 anos de idade, realizando-se o seu funeral dois dias depois em Faro, ficando depositada em jazigo de família no cemitério da Esperança.

Acresce dizer que D.ª Berta não teve filhos, mas as suas relações familiares eram muito vastas. Assim, pelo casamento era cunhada de Teresa Falcão Ramalho Ortigão, Rita Ramalho Ortigão Pinto Cortês (casada com o Dr. Carlos Pinto Cortês), Sebastiana Ramalho Ortigão, capitão João Falcão Ramalho Ortigão (que casou e residiu em Vila Viçosa) e Joaquim Ramalho Ortigão. Era tia de Maria Luísa Pousão Pereira Moreno da Cunha, Maria Eugénia Ramalho Ortigão Delgado (casada com o comandante aviador Francisco Delgado), Drª Maria Rita Ortigão Cortês, Maria Eduarda Pousão Pereira de Figueiredo, Maria Luísa Pousão Sancho Moniz Pereira (poetisa que foi casada com o Cor. Nuno Moniz Pereira, casal que conheci muito bem), engº Ruy Pereira Ramalho Ortigão, João Manuel Pousão Sepúlveda de Figueiredo, Jorge Pousão Pereira de Figueiredo e Joaquim Manuel Pousão Ferreira (casado com Alzira Franco Marques Pousão Ferreira).

sábado, 13 de agosto de 2016

ÁPODOS LOCAIS



“DITADOS TÓPICOS” foi a designação que José Leite de Vasconcelos inventou para designar aquelas expressões, de tipo adesivante, que servem para caracterizar certas pessoas, ou determinadas populações, que ficaram presas a factos do passado, que por bem ou por mal, abonam o seu carácter e as suas características de vida. Sem querer discordar do nosso último sábio, prefiro a designação de “ÁPODOS LOCAIS” para referenciar certos adágios ou ditos com repercussão regional.Alguns são simples e de imediata compreensão, quase não constituindo insulto para quem os profere, nem suscitando melindre para quem os ouve e acata. Estão neste âmbito chamar “serrenhos” aos habitantes da serra algarvia, que parece de somenos agressividade insultuosa do que “montanheiro”, designação que os citadinos usam para definir os arcaicos, ignaros e desconfiados habitantes das aldeias serranas.Do mesmo modo, parece tolerável chamar “carecas” aos de Faro, ou “melos” e “melinhos” aos de Olhão. Tem tudo a ver com o Barão de Faro (família Ortigão) que era careca, e com o Barão de Olhão, que era de apelido Melo. Tudo simples, compreensível e até tolerável. Já não se pode dizer o mesmo quando se classificam os louletanos de “caceteiros”, os sambrasenses de “cachamorreiros” ou se designa depreciativamente os de Monchique como “monchiqueiros, dando a entender que a salutar e verdejante vila termal não passava de uma alfurja.Menos admissíveis e convenientes eram, porém, certas designações ou expressões que, funcionando linguisticamente como ápodos, feriam a susceptibilidade das populações locais. Incluem-se, neste caso, a designação de “linguareiros” para os habitantes de Lagoa, e de “casmurros” para os da freguesia de Budens, no concelho de Lagos. Aos do Alvor chamam-lhe “os que roubaram o Senhor”, por causa de uma lenda popular muito deturpada e pior interpretada. Maldosa e pessimamente narrada tem sido, ao longo de muitos anos, a historieta dos de Tavira (e também dos de Lagos), que por ganância, egoísmo ou temor de partilha, se diz que “comem na gaveta”. O mesmo acontece quando em Faro se fala do “agulheiro”, uma falsa lenda que por não ter pés nem cabeça caiu no olvido e no perdão dos farenses. Já a mesma tolerância e perdão não poderá esperar quem tiver a ousadia de afirmar que “quando zurra um burro é meio-dia em Porches”. Aquela tão velha quanto bela aldeia de Porches, cujos pescadores desafiavam os mares mais longínquos, nunca perdoariam tamanha insolência. Em Porches já não há burros…Os de Armação de Pera dão uma casca tremenda quando se lhes diz: “larga o prego”, os de Estoi quando se lhes fala no “garrocho”, e os de Olhão desencadeiam um arraial de trolha quando lhes falam nos “canudos do órgão”. Igualmente insultados se sentem os de Lagos quando se lhes fala na história do Maio, ou do “quanto mais longe mais luze”. É certo e sabido que o “tresluze” do Maio desencadeia no ânimo lacobrigense uma valente bofetada ou um soco nos dentes do engraçadinho que proferir tão insultuosa expressão. Pior do que tudo isso é proferir em Monte Gordo, sobretudo junto dos pescadores a que chamam “Cuícos”, a frase “moce agarra o pato”. Arreia-se o tresmalho e vai tudo pelos ares, a soco, pontapé e naifada… 
Aos de Vila Real de Santo António não se deve falar no poço velho e muito menos se deve perguntar se bebem “água do povo novo”. A resposta vem de imediato, de cima para baixo e com o punho fechado. Já vi um incauto, a instâncias de falsos amigos, pedir à mesa do café “água do povo novo”, saindo pela porta fora quase a toque de caixa. Isto sim são ápodos locais, por serem maldosos, insidiosos e estigmatizantes.Logicamente não vou contar nenhuma dessas histórias, visto serem demasiado escabrosas e inconvenientes para serem agora desenterradas. Certamente era isso que os meus leitores queriam, mas reservo-me por razões de respeito para uma ocasião mais aprazada, e mais segura…

domingo, 7 de agosto de 2016

ALBUQUERQUE, Teresa de Jesus Lopes de Pina Manique e

Senhora muito respeitada da burguesia farense, que pelo casamento se tornaria herdeira de prestigiados pergaminhos sociais no seio da elite nacional. Deve ter sido das primeiras mulheres a concluir um curso universitário, e quase de certeza a primeira portuguesa licenciada em Engenharia Agronómica.
Nasceu em Faro, na centúria de oitocentos, e foi das primeiras meninas a estudar no Liceu Nacional de Faro. Aliás, chegou a frequentar aquele estabelecimento com as suas irmãs, o que atesta a superioridade mental e intelectual da família, cujo espírito evoluído e moderno se diferenciava largamente da restante sociedade farense, cuja tradição reservava para as meninas um papel mais comedido e reservado. As “meninas do Liceu”, como então lhes chamavam, eram três irmãs, pertencentes à família Jesus Lopes, de origens sociais modestas, que se estabelecera com enorme sucesso no sector mercantil e agro-industrial.
Quando a Teresinha quando foi para Lisboa estudar optou pela investigação no Instituto de Engenharia Agronómica, onde foi protegida e tratada como a mais rara flor daquela instituição científica. A sua primazia conferiu-lhe um estatuto muito especial a ponto de ter conquistado o coração de um dos alunos mais proeminentes do instituto e da própria sociedade lisboeta. Refiro-me ao conhecido engenheiro agrónomo e silvicultor José de Pina Manique e Albuquerque, figura de proa da Estação Agronómica Nacional, de quem teve uma única filha, Helena Guiomar de Pina Manique Albuquerque.
A engª Teresa tinha mais duas irmãs, igualmente casadas com figuras de referência na sociedade científica nacional: a Dr.ª Branca Lopes Martins, então já viúva do famoso Prof. Doutor Augusto da Silva Martins; e a Dr.ª Maria João Lopes do Paço, esposa do prestigiado arqueólogo e etnólogo Afonso do Paço, que curiosamente foi sempre um militar de carreira, alcandorando-se ao posto de Tenente-Coronel.
Viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, mas quando vinha ao Algarve nunca se esquecia de visitar a sua terra-natal, onde mantinha laços familiares, relações de amizade e beneficência, contribuindo pecuniariamente para as principais instituições de caridade, protecção à infância e auxílio mútuo. Costumava passar férias no Algarve, nomeadamente na estância termal de Monchique e, mais tarde, na Praia da Rocha, sendo essas estadias alvo de notícia na imprensa regional algarvia.
A engª Teresa de Jesus Lopes residiu durante décadas na Avenida da República, em Lisboa, onde viria a falecer a 18-8-1965.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

RIO, Maria do Céu

Exemplo dos Lavores femininos
Haverá ainda hoje certamente muitas senhoras farenses que se recordam de Dª Maria do Céu Rio, uma prestigiada professora de Lavores Femininos, que ensinou a muitas jovens meninas os primeiros rudimentos das artes manuais, e da educação feminina, especialmente das chamadas artes menores. Mas os principais aspectos desse tipo de ensino prendiam-se com a chamada educação feminina, relacionadas com actividades domésticas, como bordar, costurar, passajar, remendar e até reciclar roupa usada, mas também pintar, modelar o barro, fazer tapeçarias, e até cozinhar. Noções de higiene, de puerícia e de civilidade, eram igualmente veiculadas às jovens alunas. 
Esta conceituada professora de Lavores e de Educação Feminina não nasceu no Algarve, mas isso não obstou a que fosse considerada, nos anos quarenta e cinquenta do século XX, como uma das mais apreciadas e respeitadas professoras do Ensino Técnico Profissional no Algarve. 
Maria do Céu Rio, nasceu em Lisboa no ano de 1890, e fez toda a sua formação escolar e profissional na capital, onde viria a conhecer o seu marido, José Fernandes Guerreiro, algarvio que julgo nascido em Loulé, também professor-mestre na área do Ensino Técnico-Profissional.
Por razões de facilidade de colocação profissional, e também por conveniência conjugal, decidiram ambos concorrer à Escola Industrial e Comercial de Faro, em cujo quadro docente foram integrados, na qualidade de mestres nas suas áreas de especialização, ela nos Lavores e ele no Desenho Industrial e Oficinas. Ambos adquiriram rapidamente uma certa aura de competência e de prestígio profissional, que lhes foi conferida pelos colegas, mas principalmente pelos alunos, que reconheciam na Profª Maria do Céu uma forte veia artística e uma apetência natural para o desenho, para a pintura, e muito especialmente para os bordados e tapeçarias. Por outro lado, era uma senhora muito simpática, de boa educação, porte fino e lanheza de trato. Mostrava-se sempre condoída com a infelicidade alheia, com os pobres e as agruras dos necessitados, participando com o seu esforço e os seus lavores artísticos na angariação de meios para acudir às crianças desvalidas e às famílias mais desfavorecidas. Era em tudo um coração terno, de espírito solidário e benfazejo.
Um lenço bordado na aula de Lavores
Ao longo da sua vida dedicou-se ao estudo das artes tradicionais portugueses, particularmente na área da tapeçaria, aprendendo as técnicas mais exigentes, não só de Portalegre como também de Arraiolos, inclusivamente os bordados de Castelo Branco, e outras técnicas mais populares mas menos exigentes.
Mercê da sua disponibilidade e espírito cooperante, mas também pelo seu talento artístico e grande aptidão para o restauro de obras de arte, foi-lhe pedido que efectuasse o restauro das tapeçarias de Tavira existentes no Museu da Figueira da Foz, o que fez com que se dedicasse ao estudo dos tapetes tradicionais franceses executados na conformidade das técnicas de Aubusson.
Trabalhou na Escola Industrial e Comercial de Faro durante mais de trinta anos, até à aposentação por limite de idade, granjeando provas da maior admiração e simpatia por parte dos seus colegas, alunas e funcionários, que não regateavam elogios aos seus gestos de bondade e de generosidade, mas também às provas da sua elevada competência profissional.
Faleceu a 25 de Setembro de 1974, quando tinha 74 anos de idade, e toda a sociedade farense sentiu com extremo pezar o seu desaparecimento. A Escola Industrial e Comercial de Faro deu a público um voto de luto pelo falecimento da Profª Maria do Céu Rio, cujo inconsolável marido ainda continuava ligado àquela instituição de ensino.

sábado, 9 de julho de 2016

ASCENSÃO, Coronel Rodrigo António d’Aboim

Casal Aboim Ascensão, 
 como  filho Rodrigo
Militar e político, nasceu em Faro, a 23-8-1859, e faleceu com 70 anos de idade em Lisboa, a 22-1-1930. Era filho de Manuel Joaquim Ascensão e de D.ª Maria da Piedade de Mascarenhas Aboim, oriunda de uma das mais ricas e prestigiadas famílias do Algarve.
Possuía um primoroso carácter e uma inexcedível bondade, sempre muito preocupado com os mais desfavorecidos e, sobretudo, com o combate à pobreza, nunca se alheando do progresso da sua terra natal e do Algarve em geral, razão pela qual era muito estimado e admirado pelos seus conterrâneos.
Cor. Rodrigo Ascensão
O coronel Aboim Ascensão foi um militar prestigiadíssimo, que realizou com alta distinção o curso do Colégio Militar, seguindo depois para a Escola do Exército, onde cursou com alto aproveitamento a arma de cavalaria, na qual se manteve com enorme competência e muita paixão até ao fim da vida. No exercício das suas competências militares serviu durante muitos anos na Guarda Fiscal, nas patentes de tenente e capitão sendo depois promovido a 2.º comandante da Circunscrição do Sul. Serviu como capitão ajudante o general visconde de S. Januário, figura de proa do Exército durante a monarquia. Aliás foi durante o anterior regime que o cor. Aboim Ascensão adquiriu grande influência política, não só em Faro, como também em Lisboa. Isso valeu-lhe a nomeação para Governador Civil do Funchal, onde desempenhou as suas funções com acerto e agrado dos interesses madeirenses.
busto em Lisboa
Na sua dedicação filantrópica e benemerente registe-se a sua acção como fundador, em 1901, da Associação Protectora da Primeira Infância de Lisboa, da qual era presidente honorário.
O cor. Aboim Ascensão possuía várias condecorações e mercês honoríficas, de entre as quais distinguimos a de comportamento exemplar e as comendas de Santiago da Espada, de S. Bento, de Aviz e de Mérito Militar Espanhol.
Deixou em testamento vários donativos com os quais contemplou diversos estabelecimentos de assistência, nomeadamente a Associação Protectora da Primeira Infância de Lisboa, a Associação de Beneficência e Instrução do Campo Grande e o Asilo de D. Pedro. Por outro lado, deixou um importante legado para a criação em Faro de uma casa de caridade, para recolha de velhos e crianças desamparadas que se denominaria por «Refúgio Aboim Ascensão». Com efeito, em 1933, o seu sobrinho e genro, Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos (1), no seguimento da referrida vontade testamentária, instituiu o «Refugio Aboim Ascensão», que primeiramente funcionou como lactário (2) e centro de apoio a mães solteiras, evoluindo depois para a prestação de serviços médicos às crianças recém-nascidas e bebés prematuros. O espírito que desde a sua fundação sempre presidiu a esta instituição foi o do nobre sentimento de apoio à primeira infância, espírito que ainda subsiste, cada vez com maior acuidade e sucesso mercê da dedicação e proficiência do Dr. Luís Villas Boas que em 1985 a resgatou do abatimento e ruína em que se encotrava.
Monumento em Faro ao cor. A.Ascensão 
Na verdade tive a infeliz experiência de constatar, nos anos setenta e oitenta, o estado de degradação e de descrédito em que se deixara submergir aquela benemérita instituição. Era visível a falta de asseio e pobreza dos seus internados, que pela manhã se espalhavam pelas ruas da baixa farense, de cabeça rapada e roupa andrajosa, pedindo esmola para comer uma sopa. Isto era identificativo da forma pouco correcta como as crianças estavam a ser tratadas, não sendo despiciendo suspeitar que essas crianças pudessem ter sofrido abusos de toda a espécie. Felizmente, em 1 de Agosto de 1985, o Dr. Luís Villa-Boas, também ele um militar de prestígio e de elevada integridade moral, tomou conta da instituição, estabelecendo depois diversos acordos de cooperação com os Ministérios da Segurança Social, da Justiça, da Saúde e da Educação, e muito especialmente com a Câmara Municipal de Faro, que desde a sua fundação tem prestado um inestimável apoio ao Refúgio. A coordenação de todos esses esforços deu origem ao grande Centro de Acolhimento Temporário de Emergência, vulgo «Emergência Infantil», o primeiro a ser criado no país, para crianças recém-nascidas, dos 0 aos 6 anos de idade, sendo certo que algumas delas permanecem para além dessa idade conforme a especificidade dos casos.
O coronel Rodrigo Ascensão foi casado com D. Olímpia Covachi d'Arrábida Lamas Aboim Ascensão, de quem tinha uma única filha, D. Maria da Piedade Lamas de Aboim Ascensão de Sande e Lemos, casada com o Eng.º Manuel de Aboim Ascensão de Sande Lemos, instituidor, como disse, do «Refúgio». Era irmão de D. Joaquina d’Ascensão Davim, casado com o Dr. Rodrigues Davim, e de D. Maria da Piedade Aboim d’Ascensão, casada com o cor. Sande Lemos. Desta radícula social descendem as mais notáveis e lutocráticas famílias da cidade de Faro.

(1) Manuel Aboim de Ascensão Sande Lemos, nasceu em Faro, a 4-7-1899, e faleceu em Lisboa, a 16-5-2001. Seguiu a carreira militar, na senda dos seus ascendentes, tendo sido um dos oficiais do C.E.P (Corpo Expedicionário Português) condecorados na I Guerra Mundial, por actos de coragem e valentia. Entre outros cargos de prestígio militar, social, cultural e político, merecem particular referência os seguintes: Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica de Independência de Portugal. Presidente do Conselho Supremo da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar. Secretário-Director da Associação Protectora da Primeira Infância. Fundador da Ordem dos Engenheiros. Fundador da Caixa de Previdência dos Engenheiros. Fundador da Associação de Beneficência Refúgio Aboim Ascenção. Fundador da Obra Social da Guarda Fiscal. Membro n.º 31 Emérito da Academia de Engenharia. Posterior a 22 de Mar de 1996. Membro n. 31 Emérito da Academia de Engenharia.

(2) O lactário (adaptação do francês crêche) destinava-se a combater a mortalidade infantil, divulgando às mães conhecimentos de puerícia, higiene e alimentação. Por isso, os lactários ficavam perto de maternidades, hospitais, infantários, e outras instituições de saúde materno-infantil, que garantiam alimentação adequada não só aos bébés como também às mães que amamentavam. No fundo os lactários funcionavam como cantinas para crianças pobres, mas também como escolas para jovens mães.