quarta-feira, 5 de junho de 2019

Faleceu a escritora Agustina Bessa Luís, cuja obra é uma indelével referência na literatura portuguesa

Agustina com seu amigo Manuel de Oliveira

Faleceu ontem, dia 4 de Junho de 2019, a escritora Agustina Bessa Luís, cuja obra é por todos os especialistas considerada como das mais representativas da literatura portuguesa contemporânea.
A nossa imortal escritora Agustina Bessa Luís, deixou-nos aos 96 anos de idade, de forma serena, tranquila e recatada, como aliás sempre viveu e escreveu os seus romances. Sem pedir licença, sem pagar favores, e sobretudo sem se submeter aos interesses instalados, quer fossem políticos, religiosos, económicos ou sociais. Agustina foi em todas as suas atitudes uma mulher do Norte - livre, soberana e independente. E isso causava a invídia e o ciúme daqueles que para serem notícia, e verem os seus livros figurarem nas colunas dos suplementos literários, tiveram que se filiar em partidos políticos e noutras maçonarias menos recomendáveis.
Tive o prazer de a conhecer pessoalmente, quando eu era ainda muito jovem, pelo que não me apercebi concretamente da sua importância no seio da nossa literatura. Sempre achei que sendo uma mulher do Norte não deveria ser muito boa escritora, porque me habituei no sinistro tempo do Fascismo a dar mais importância ao que acontecia ou vinha de Lisboa. É curioso que, passados mais de 40 anos do «25 de Abril», nada mudou - ainda hoje o que vem, ou acontece, em Lisboa é muito mais importante e de maior relevância do que aquilo que se passa em qualquer parte do país.
A província não tem valor nenhum. Lisboa é o centro do império, e o resto é paisagem. O meu pai dizia-me que o José Régio e o Aquilino (Mestre Aquilino, como ele o tratava) tinham sido os últimos valores da província. Não imaginava que a Agustina, filha de boas famílias durienses com negócios no Porto, viesse a ser gente, com nome e impacto nacional.
Lembro-me de alguns escritores, jovens talentosos, que apareciam no café «Magestic», no Porto, a tentear caminho, receberem do meu pai este desolador conselho: "vá para Lisboa e faça-se gente".
Proferi idêntico conselho, em público, na Biblioteca de Albufeira, à escritora Luísa Monteiro, minha conterrânea a viver, como eu, no Algarve. E lembro-me de a maioria dos presentes me repreenderem por tão infeliz sugestão. A própria Luísa Monteiro não aceitou o meu alvitre, e fez mal. Se tivesse ido, acredito que, com as amizades certas, teria conseguido penetrar na corte dos literatos, e seria hoje um nome consagrado da moderna literatura portuguesa.
Como grande admirador da sua obra, guardo na memória as imagens do nosso primeiro encontro, e das suas generosas palavras, doces e maternais. Mas do que jamais me poderei esquecer é da oferta de dois livros, que ela própria autografou e escolheu para mim, por começarem pela letra M (de Mesquita), e que guardo religiosamente - os romances «O Manto» e «A Muralha». Vou agora relê-los, em homenagem às gratas recordações da sua memória. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

João Mariano, o mago da penumbra e da imponderabilidade - na consagração de um artista algarvio de reputação nacional.

João Mariano, conceituado artista da fotografia

Venho mais uma vez à tribuna das redes sociais para falar de um algarvio, que, por mérito próprio e indubitável talento, logrou conquistar um lugar de destaque na exígua galeria do génio artístico nacional. Estou aqui, para felicitar o artista-fotógrafo, João Mariano, pela sua nomeação para os Prémios da Sociedade Portuguesa de Autores 2019, na categoria de Artes Visuais, com a exposição «Trezentos e sessenta e seis», acerca da qual publicou um belíssimo catálogo. Neste tipo de certames, o que importa é ser reconhecido, porque vencer é apenas uma questão de pormenor na escolha do júri.
Conheço de há muito o João Mariano, cuja obra artística tem sido elogiada pelos mais consagrados críticos da sua especialidade - a Fotografia, também designada como a oitava manifestação artística do Homem.
Em abono da verdade, impõe-se realçar que vincar presença, com independência e integridade moral, num mundo tão exigente e diversificado, como o da Arte, é muito difícil e ingrato, por todas as razões que dizem respeito ao confronto do talento, com a inteligência e o génio. Abstenho-me de falar, por exemplo, nos escolhos e entraves da proverbial inveja de que enferma a cultura lusíada. Num país onde se abatem as árvores para não fazerem sombra aos arbustos, é lógico que o talento de homens como João Mariano ofendem, ferem, a mesquinhez da nossa mediocridade.
A forca da morte espreita a vida do pescador
João Mariano tem feito exposições por todo o país e pelo estrangeiro, onde tem sido muito elogiado pela forma como capta o movimento do imperceptível, como evidencia o risco ou o desafio do perigo, nomeadamente dos mariscadores das pedras do velho Promontório de Sagres, face à brutalidade dos elementos naturais; como sente e transmite a leveza da solidez, até mesmo nas formas mais simples e fugazes da imperceptibilidade humana; como vislumbra a grandiosidade das coisas numa aparente frugalidade das formas; como materializa os fantasmas dos sentidos nos olores e nos sabores das coisas simples e belas da natureza. E todo o seu enorme talento consiste na capacidade de ver o invisível, ou seja, de sentir e tocar o que só o génio divisa. Essa sublime aptidão – ver e sentir o imponderável – define o intelecto de João Mariano, que aliás tem sido revelado à posteridade através de magníficos álbuns artísticos. São oito, no total, dos quais possuo dois, «Guerreiros do Mar» e «Lugares Pouco Comuns», verdadeiros monumentos da arte fotográfica, na difícil expressão do preto e branco, que não só dignificam o seu autor como um artista de eleição, como ainda exponenciam o nome do Algarve e da sua paradisíaca Aljezur no conceito e admiração do turismo à escala mundial.
Monstro do mar, captados pela objectiva do artista
Todas estas razões constituem forte motivo de orgulho para o município de Aljezur, na pessoa do meu amigo José Gonçalves, emérito vereador da cultura, e hoje presidente da edilidade, que sempre pugnou pelo prestígio da sua terra e dos seus munícipes, de entre os quais se tem distinguido os próprios pais do João Mariano. Refiro ao casal Zabel Moita e Ernesto Silva, dois artistas consagrados na difícil arte de esculpir o barro, inseridos na histórica tradição da cerâmica lusa, que deu a conhecer ao mundo os génios de Rosa Ramalho e Júlia Ramalho, José Franco, Herculano Elias, e de outros prestigiados nomes da nossa cerâmica figurativa. O Ernesto Silva, pai do João Mariano, tem uma particularidade muito especial – é um dos melhores poetas do Algarve, reconhecido e elogiado pela crítica da especialidade. Além disso, é detentor de uma memória prodigiosa, que lhe permite recordar, quase como se fosse ontem, alguns dos factos mais marcantes na história recente da vila de Aljezur. Quando vou a Aljezur passo sempre pelo seu atelier, para lhe dar um abraço, para apreciar as suas obras de arte, e, sobretudo, para o ouvir contar as histórias e tradições socioculturais das sacrificadas gentes de Aljezur, tão genialmente narradas pelo escritor algarvio Assis Esperança na sua obra imortal «Pão Incerto».
O apanhador de perceves diluído nas águas do mar
Para terminar, quero expressar aqui o meu regozijo por ver reconhecida pela SPA - Sociedade Portuguesa de Autores, a obra artística de João Mariano, cujo sucesso tem contribuído para o reconhecimento de Aljezur e da Costa Vicentina, como um dos últimos paraísos ambientais da Europa, com forte implicação no desenvolvimento turístico do Algarve e do nosso país.
Quando penso em Domingos Alvão, em Artur Pastor, em Eduardo Gageiro, em Mário Caldeira, ou em Zambrano Gomez - que fotografou a alma do povo algarvio (a pesca) – fico esperançado no futuro da arte fotográfica, e particularmente orgulhoso pelo reconhecimento da obra de João Mariano no contexto nacional.
© José Carlos Vilhena Mesquita

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Cartaz Turístico da aldeia de CACHOPO

Este deve ser o mais antigo documento turístico de Cachopo

A antiga comissão municipal de Turismo da cidade de Tavira, constituída por cidadãos locupletados entre os mais ilustres da sociedade local, mandaram imprimir na Tipografia Modelo, a 14-2-1953, um cartaz de propaganda das belezas naturais e turísticas da aldeia de Cachopo, perdida nos recônditos da serra do Caldeirão. O cartaz é simples, mas não é destituído de bom gosto. Tem as dimensões de 45x35cm, emoldurado a vermelho com cinco gravuras impressas a azul e uma belíssima quadra de Virgínio Pires, um dos mais talentosos poetas algarvios, que, tal como a belíssima aldeia de Cachopo, está hoje injustamente esquecido e ignorado. A quadra, ao jeito popular, personifica a aldeia que se dirige ao visitante, revelando-lhe as características revivificantes do seu o ar puro e das águas férreas das suas fontes:

Vivo encravada na serra,
Tenho a pureza do ar,
E a água férrea nas fontes
Noite e dia a murmurar.

Termina o apelativo cartaz com a promessa de levar àquele povo o progresso da rede telefónica, isto é, de quebrar o seu isolamento e de o colocar em contacto com o mundo. Está aqui bem expressa a importância das telecomunicações, que justificam a nossa civilização global. Deixo-vos a imagem desse curioso cartaz, que encontrei no meio de alguns dos meus velhos papéis.

domingo, 26 de maio de 2019

Quem foi o padre Francisco José Ferro?

Pagina central do «Povo Algarvio» de Tavira, publicando
em forma de folhetim o folheto do padre Francisco Ferro
Nas minhas actualizações, quase diárias, da Algarviana, do meu saudoso amigo Dr. Mário Lyster Franco, cuja edição ficou interrompida em 1982, tenho-me deparado com certas dificuldades na recolha de informação. A idade e a genica para a investigação já não é a mesma de há 40 anos. Falta-me a paciência para ir a Lisboa à procura disto ou daquilo na Biblioteca Nacional ou na Torre do Tombo, cujos cantos e recantos, fundos e refundos, eu conhecia ao pormenor e sem segredos. Mas hoje tudo mudou, e custa-me ver que tudo mudou para pior. Enfim, não vou falar disso agora. 
Num dos pequenos verbetes, que escrevi em 1980 para actualização da Algarviana, retirado no meio de centenas de outros, que guardo em caixas de sapatos, consta o nome do Padre Francisco José Ferro que passou por Tavira, tendo paroquiado a Igreja de Santa Maria do Castelo desde 1880 até à sua morte, que ocorreu naquela cidade em data que desconheço. Quem me mostrou um folheto da sua autoria foi o saudoso Abílio Gouveia, que sempre considerei como o mais esforçado, o mais competente e sacrificado intelectual do Algarve. Vivia frugalmente em Olhão e em matéria de bibliografia eclesiástica, literatura religiosa e ecuménica não conheci ninguém que o superasse. Sobre a história de Olhão, desde as suas origens arqueológicas até ao fulgor do capitalismo industrial, o Abílio Gouveia era uma das maiores autoridades como historiador e como bibliófilo, já que tinha na sua casa milhares de folhetos raros, manuscritos, jornais antigos, sermões, sentenças dos tribunais, enfim tinha tudo, tudo, tudo, o que pudesse interessar ao conhecimento do passado histórico da sua terra e do Algarve em geral. Infelizmente o Abílio Gouveia morreu em 1985, e até hoje nunca soube o que aconteceu à sua valiosíssima biblioteca, receando que se tenha perdido um dos mais raros e valiosos acervos bibliográficos do Algarve.
Transcrição no «Povo Algarvio» do folheto do Padre Ferro
O folheto que ele me mostrou tinha por título «Protesto contra os Actos de Selvageria praticados em Roma na noite de 12 de junho de 1881, dirigido ao Sanctissimo Padre Leão XIII». Apontei que se tratava da descrição do atentado praticado contra o Papa na noite de 12 para 13 de junho de 1881, em cujo texto o Padre Francisco José Ferro urdia em defesa do Santo Padre uma veemente acusação do acto ignominioso perpetrado pelos agressores do representante de Cristo na terra. Considerava mesmo que com esse acto estariam os seus agressores a recriar as ofensas que o Nazareno já havia sentido a caminho do Calvário. Apontei também que o texto era um arrazoado religioso intragável, palavroso e excessivamente retórico, dando a impressão que o Padre Ferro estaria, através desta publicação, a habilitar-se a um cargo ou sinecura que já trazia em mente poder alcançar junto do Bispo de Faro. Não sei se o conseguiu. O certo é que o folheto foi publicado em Tavira, no ano de 1882.
Há poucos anos atrás, vim a encontrar na minha colecção de jornais do Algarve, a edição nº 611 do «Povo Algarvio», de Tavira, datada de 24-03-1946, na qual se inseria, no rodapé da página 3, em jeito de folhetim – como era costume na época – a notícia da transcrição integral do mencionado folheto do padre Francisco José Ferro. Não resistimos à tentação de aqui transcrever o parágrafo de abertura, por dele ressaltar o facto dos redatores daquele órgão ainda se lembrarem do Padre Ferro, mas desconhecerem a edição anterior daquele folheto:
«Pessoa amiga deu-nos a conhecer o folheto cuja transcrição iniciamos hoje. Foi seu autor um Padre de quem nesta cidade ainda hoje se recorda, com saudade, a sua veneranda figura de Prior que durante tantos anos por aqui viveu e aqui morreu. Ressalta deste folheto, acima de tudo, o profundo fervor religioso do autor e a sua revolta contra os infames ultrajes perante os quais ergue a sua voz de Padre católico e de homem de bem. Por tudo isto e por não ser conhecida, nunca ouvimos falar nesta publicação, quisemos arquiva-la nas colunas do «Povo Algarvio».
Não fiz ainda a entrada do Padre Francisco José Ferro na letra F da Algarviana, porque me faltam os seus principais traços biográficos. Depois falta-me saber se escreveu mais coisas e se foram publicadas em letra de forma. Por fim, falta-me saber se na biblioteca municipal de Tavira ou na biblioteca da Diocese de Faro existe o curioso folheto de «Protesto contra os Actos de Selvageria praticados em Roma na noite de 12 de junho de 1881».

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Edifício Rádio Algarve - Antena Sul, vai ser vendido para especulação imobiliária

Edifício histórico da Rádio Algarve, oferta do Estado Novo
É pena que a Rádio Televisão Portuguesa, como entidade proprietária deste imóvel, já o tenha vendido, em Lisboa, e à socapa do Algarve, mas não dos políticos nem dos autarcas algarvios interesses. Parece que foi vendido a uma empresa imobiliária francesa, para no seu lugar construir um condomínio de luxo. É verdadeiramente criminosa a demolição deste edifício, que foi construído de raiz para nele se instalar a antiga Rádio Algarve, ao tempo o mais moderno meio de comunicação, que difundiu a cultura e a voz dos algarvios por todo o mundo. Foi uma generosa oferta do Estado Novo ao Algarve. Bem sei que a maioria dirá que se deve deitar abaixo, porque foi obra dos fascistas. Ainda assim acho lamentável que se destrua um dos poucos monumentos da História da Rádio ainda existentes no nosso país. Estive lá no verão passado com um radialista estrangeiro, que após breve visita às instalações considerou os estúdios de gravação de uma qualidade inexcedível, afirmando que seria impossível nos dias de hoje construir algo igual. Porque para além de ser imensamente dispendioso, também já não temos hoje materiais com a mesma qualidade de insonorização.
Neste estilo arquitectónico, que alguns ironicamente chamam «Português Suave», só temos em Faro o antigo Dispensário (hoje ocupado pelo centro médico), a escola Tomás Cabreira, o Liceu, as escolas do Carmo e da Sé, e, enfim, pouco mais.
Esta antiga sede da Rádio Algarve, possui alguns trabalhos de decoração artística muito valiosos, em azulejaria e baixos relevos de massa e cerâmica vidrada, que antes do edifício ser demolido devem ser retirados por técnicos especializados, a fim de ficarem preservados no Museu de Faro.
O pouco que ainda resta do antigo património decorativo da Rádio Algarve, continua a ser bastante valioso e cobiçado. Os trabalhos estão assinados por artistas de reputação nacional. Por isso sugiro que sejam retirados antes de demolirem o edifício. Devido à localização privilegiada do edifício, é óbvio que não irá resistir à cobiça dos empreiteiros.
Para terminar, faço lembrar que o terreno adjacente, e que pertencia à RDP Algarve, foi o primeiro estádio de futebol do Sporting Clube Farense. É claro que o primeiro recinto onde se iniciou o futebol no Algarve, foi no largo de S. Francisco. Mas onde o Farense começou a jogar oficialmente foi ali, no campo da Senhora da Saúde, em cujo topo norte se construiu um posto emissor de rádio. Se olharem para o terreno onde se implantou o edifício da RDP, vão perceber claramente, pelo seu nivelamento e dimensão, que foi um campo de futebol.

terça-feira, 21 de maio de 2019

O Perfume da Esteva – elegia poética da serra algarvia


Quem pesquisar no velho «Dicionário de Morais» a palavra Poesia, verificará que o seu significado, e sentido lexical, se traduz na «descripção ou pintura da Natureza, em estilo harmónico e métrico, diverso do prosaico». Quer isto dizer que poeta é aquele que sabe descrever a natureza com as tintas da harmonia, captando a beleza natural das coisas que compõem a vida, através da forma sensível como distribui as palavras. O poema constrói-se através da euritmia entre as imagens e as metáforas, na cadência musical da métrica rimática. Convenhamos então que a poesia é muito distinta da prosa, diria mesmo que é muito mais difícil e exigente, por ser toda ela imaginação, fantasia e sensibilidade, na dosagem certa para alcançar na autenticidade de um verso o êxtase da vida. Como disse Florbela Espanca, ser poeta «é ter de mil desejos o esplendor, e não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, é ter garras e asas de condor!»
 Pois bem, a questão primacial que aqui se coloca é exactamente a de saber se estamos perante um poeta, cujo livro, que agora se apresenta a público, deve ou não considerar-se com valor e merecimento, para figurar no galarim da literatura algarvia. Essa é uma questão a que só o tempo e a opinião pública poderão dar satisfatória resposta. Pela minha parte, e mercê da minha experiência, posso afiançar que O Perfume da Esteva é um livro de poesia, que vale a pena ler. Ora, sendo o Algarve uma nação de poetas, poder-se-á pensar que este é mais um livro de versos. Não, nada disso. Este é um livro para ficar, por se tratar de uma poesia inspirada na vida real, não das pessoas, mas dos animais, que tal como nós têm inteligência e sagacidade, têm personalidade, hábitos e sentimentos, a que chamamos instintos, por alegado cientismo.
Este livro, até pela eloquência do seu autor, está longe da poesia popular. Mas como também não obedece aos cânones formais da poesia clássica, não pode considerar-se como poesia lírica nem parnasiana. Está também muito longe daquelas versalhadas intimistas e obscuras, opacas e surreais, que deixam o leitor sem perceber nada do que o autor quer dizer.
No fundo, talvez se possa designar O Perfume da Esteva como um livro de poesia naturalista. Em todos os sentidos da estética lírica, parece inspirada num ecologismo realista, num sentimento de preservação ambiental, cuja mensagem incide no conhecimento e divulgação da diversidade cinegética do Algarve. O objectivo subjacente à mensagem poética é, tão simplesmente, o da protecção da natureza e da preservação da vida selvagem na serra algarvia.
O escritor António Venda fazendo o meu escorço biográfico

Advogado, professor, caçador… e poeta

O autor, Paulo Rosa, é um homem de leis, com banca de advocacia e militância no foro da «Trindade Maravilhosa» do nosso turismo, que se triangula entre Monchique (o pulmão do Algarve), a Praia da Rocha (embrião do turismo algarvio) e Lagos (base naval dos Descobrimentos Portugueses).
Mas, Paulo Rosa, também é professor por paixão, e jornalista por dedicação, vontade e talento. Por isso, tem responsabilidades na direcção do «Jornal de Monchique», um dos poucos órgãos de imprensa que ainda resistem no Algarve, e preside desde há um quarto de século à «Rádio Fóia». Quem o conhece, sabe que é um homem que a tudo mete ombros e que com todos colabora, de forma voluntária e fraterna. Por isso, cargos não lhe faltam. Todos graciosos, como é próprio dos homens que servem, sem o interesse de se servirem. Talvez por causa desse espírito de dar sem cuidar de receber, é que Camilo Castelo Branco disse a certa altura: «os poetas são capazes de povoar um céu devoluto, mas não têm iguais faculdades criadoras para algibeiras vazias».
Associativista e ambientalista, são os atributos que melhor caracterizam o espírito e o carácter de Paulo Rosa. E na vila de Monchique todos os têm por amigo sincero, afável e disponível, quer seja para esclarecer dúvidas burocráticas, preencher papéis, sugerir soluções, ou simplesmente para o convívio de uma boa e amena cavaqueira.
O livro, em si, é surpreendente, não só pela temática cinegética, como ainda pela eloquência com que analisa o ambiente e descreve a fauna - felizmente ainda subsistente na serra algarvia. A nomeação desses animais (que eu nem sabia que ainda existiam), as suas características e personalidade, os seus comportamentos e hábitos alimentares, os seus instintos de sobrevivência, são pormenores de suprema importância, descritos neste livro com o brilho e o realismo, que nem sempre as metáforas líricas permitem retratar.
São belíssimos poemas, onde a natureza ganha o brilho resplandecente da vida. Escreveu-os o Paulo Rosa, ao ritmo da inspiração, sem a preocupação de os repartir ou ordenar numa estrutura taxionómica da espécie, género, família, ordem e classe. O fulcro poético incide na natureza, sobretudo na forma como os animais silvestres subsistem no ambiente fragoso e agreste da serra algarvia. No equilíbrio sempre periclitante da conservação ambiental, não raras vezes devastado pelos infernais incêndios da serra algarvia, cabe-nos a todos a responsabilidade de contribuir com o nosso esforço, dedicação e inteligência, para a sua preservação e desenvolvimento. Este livro, O Perfume da Esteva é um exemplo de esforço, dedicação e eloquência, de quem conhece a fauna e a flora que inunda de vida, de cor e de inebriantes odores, esta inigualável serra de Monchique. A poesia, neste caso, é um pretexto, uma estratégia, ou melhor, um subterfúgio para dizer em poucas palavras e de uma forma acessível a todos, essa enormíssima mensagem de que os animais também têm uma vida, também têm direitos, também merecem respeito, porque, afinal, animais somos todos.
O filho do autor lendo um poema do livro

Animais de caça, numa ligação poética de vida

Aqui e ali, por entre os degraus do poema, corre e salta a lebre, numa fuga desenfreada. Mais além, é a perdiz que voa sobre as estrofes, deixando atónito o caçador, sem tempo para premir o gatilho. Lá no alto vê-se o pato-real, que no seu roteiro migratório vem pousar nas águas calmas das charcas agrícolas, para aqui fazer o ninho e criar a prole. Num voo estonteante, ziguezagueia e arrulha a rola brava, no anil dos céus. À espera da sua entrada estão os caçadores, mas só os mais exímios e experimentados conseguem um tiro certeiro. Os outros, os inábeis só gastam chumbo – mas não o tio Torrinha, que de tão cioso e avaro não desperdiçava um tiro, e assim “trazia o chumbo todo para casa”.
No domínio dos ares desfila o tordo e a galinhola, ecoa o silvo da águia-de-bonelli, despenha-se como um míssil sobre a presa o falcão-peregrino, a que não escapa o pombo torcaz, para desprezo do magro pisco. O guincho-da-tainha é uma ave falconiforme de perscrutante visão, para a qual tudo o que rasteja é alimento. Não há serpente que lhe escape. A cantar loas à vida, ouve-se ao longe, mas não se vê, o cuco canoro, que de visita aos ninhos alheios, vai dando a prole para adopção. No seu libré de cores garridas, esvoaça o gaio traiçoeiro de olhar perscrutante e assassino, à cata de infante em ninho alheio. Desde o lusco-fusco até ao dealbar da madrugada, impera “em domínios a olho e garra conquistados” o tenebroso e perscrutante bufo-real.
Fazendo a apresentação e apreciação crítica da obra
Nos domínios rasteiros, por entre os matos da serra, serpenteia a víbora-cornuda de picada fatal para o rato do campo. Este peçonhento ofídio, também designado por víbora das pedras, cuja cabeça triangular serve de talismã aos crentes no mau olhado, também se converte em cobiçado pitéu – quem diria – para o meigo ouriço cacheiro, para o intrépido saca-rabos (escalavardo na gíria popular), e até para o voraz javali. Mas, entre os pedernais da serra, também por ali vagueia a esquiva raposa, que persegue e mata o coelho, devora quando pode o lebrão, afinfa o dente no rato e lambe os beiços só de ver a capoeira do lavrador. Com o lince ibérico tudo o que mexe é refeição, só não se sabe quando nos dá a honra da sua visita, porque na serra algarvia o lince já foi mito e agora é uma fugaz realidade. Com o javali (navalheiro) é preciso ter muito cuidado, por ser o mais vadio da serra. Não é esquisito na dieta, que prefere satisfazer à noite, camuflado no mato, percorrendo quilómetros no encalce das suas presas. É o mais voraz da fauna algarvia, não lhe escapando a víbora e o licranço, a centopeia e a minhoca, o ninho da perdiz incauta, e, à falta de melhor, não desdenha ter por refeição a carocha e a formiga. Rabisca no chão a amêndoa, a castanha, o pinhão, e até mesmo a cevada, o centeio e o milho, mas quando vislumbra no horizonte a macieira corre lampeiro para abocanhar os frutos caídos, quando não investe pelo tronco acima como os felinos da selva.

O caçador e o cão, um laço de amizade eterna

Todavia, que seria do caçador sem o auxílio do cão, que fareja a presa, que a persegue e faz levantar para o tiro certeiro do seu amo. Sim, além de ser o melhor amigo do homem, o cão é o complemento indispensável do caçador. E, nesse aspecto, o Paulo Rosa não se esqueceu de evocar neste livro o perdigueiro português, por muitos considerado o melhor cão de caça para a perdiz, capaz de superar todos os obstáculos, em terra, nos rios, charcos e pântanos, para abocanhar a presa abatida e trazê-la, como troféu, às mãos do caçador. E se nos densos matagais é capaz de rastejar, silencioso e prudente, para fazer levantar a esquiva perdiz, o mesmo acontece quando tem de se lançar à água para inquietar o pato-bravo até ao voo fatal. O cão para o caçador depressa se torna no seu braço-direito, até que de tão imprescindível convívio ascende ao conceito de pessoa humana, e mais do que isso, ao amor de um irmão. Quando a morte, os separa a ambos, desencadeia-se o drama da perda, a saudade que não se apaga. É assim para o caçador, mas também é igual para o cão, que não consegue esquecer o seu amo até ao fim da vida. A cadela Pitucha, consagrada neste livro com um belo poema, é o exemplo maior dessa afeição, quase sanguínea, entre o homem e o animal, deixando com a sua morte um vazio de saudade na perda duma amizade insubstituível: “Foste mas ficaste em mim porém, que o laço do afecto, não desata a morte”.
O Dr. Paulo Rosa, autor do livro, na sua breve alocução pública, 
explicando as razões que motivaram a publicação desta obra

O latim, na erudição e na ciência

Nestes belos e sensíveis poemas, Paulo Rosa recorre por vezes à mitologia e aos autores clássicos, para estabelecer pontes e urdir comparações, entre civilizações e culturas aparentemente distantes. O latim, a língua de Séneca, é também a expressão clássica dos jurisconsultos. Mas, neste caso, usa-a com parcimónia e apenas para seguir a nomenclatura binomial de Carlos Lineu. É de uso imprescindível para identificar os animais, que descreve nos seus poemas. Como exemplo, atente-se na “Cyanopica cyanus”, designação latina do popular “charneco”, isto é, da pega azul que julgo ter sido importada da Ásia. Para ser mais preciso, a nossa pega azul tem a designação de “Cyanopica cooki”, por ser uma sub-espécie daquela.
Mas, dizia eu, que o uso do latim demonstra também que o Paulo Rocha é um homem culto, que não faz das leis e dos códigos o seu exclusivo lenitivo de vida, sentindo que o foro é um convencional ajuste de normas, regras e preceitos, no ordenamento estrutural dessa inquietante dimensão que é a existência humana. Mas o espírito precisa da dúvida para construir a verdade.

O melhor reserva-se para o fim

Para mim os três últimos poemas, só por si, justificam a edição deste livro. Diria até, como o Jorge Luís Borges, que valem pelo livro todo, porque são a prova da existência de talento poético em Paulo Rosa. Têm tudo o que a poesia necessita de ter para ser considerada como arte, e constituir em si aquilo a que se convencionou designar por “Belas Letras”. Permitam-me que destaque, de entre os três, o poema «A caçada dos escritores», no qual o autor imaginou, como num quadro teatral, uma reunião entre homens de letras, que em comum têm a paixão pela caça. O poema tem a imaginação dos grandes poetas. A cena desenrola-se no céu, “num serão do eterno descanso a recordar aventuras, jornadas, festarolas”. Em palco estão Aquilino Ribeiro, Ramalho Ortigão, Bulhão Pato, Miguel Torga, e outros, “exímios no manejo da escopeta, do tacho e da pena”.
O poeta retrata toda a cena, com o brilho da ilustração e da vaidade, inerente às grandes celebridades: “Em tertúlia de lembranças e de relatos, salpimentadas de excesso quanto baste e com dose de vaidade posta a gosto”. A descrição tem a graça da ironia queirosiana, apimentada pelo chiste sardónico. Tem vivacidade narrativa através do requinte do pormenor, quer seja no aprumo da indumentária, quer seja no primor das armas. Tem movimento na forma como dialogam e como impõem a sua presença aos demais. Tem ritmo na sequência das interlocuções, nos dichotes e interpelações. Por exemplo, o Bulhão Pato que conhecemos como notável gastrónomo, demanda o Torga, exímio caçador de perdizes, para asseverar que: “as perdizes glorifico eu «à castelhana» e à minha moda tratarei de a sublimar, e um «arroz opulento» endeusarei se vindimos paspalhões se levantarem”. O auge da hilaridade e do picaresco chega na voz do Ramalho, que como bom portuense aproveitou logo para farpear os lisboetas, acusando-os de devorarem os perdigotos, ainda mal saídos do ninho, impedindo que as perdizes cresçam e a natureza progrida: “E vejam lá que em Lisboa até os servem que nem piscos, de alhada, nas tabernas”. E depois daquela truculenta cavaqueira, é mestre Aquilino Ribeiro quem organiza a linha e o rumo da caçada num marcial grito: «atenção avante em frente, e o resto é quimera, sonho e poesia».
O outro poema, intitulado «Um olhar de Ortega y Gasset», é uma composição lírica, séria, compacta e segura, uma espécie de homenagem à integridade moral e à honradez, daquele que foi o maior filósofo espanhol do século XX. Nesta composição o Paulo Rosa faz uma alusão ao perspectivismo e à teoria da razão vital, que enformou o pensamento filosófico de Gasset, cujo objectivo final era o de encontrar o “ser fundamental”. Ora, a resposta oferece-a o poeta nas palavras simples dos seus versos: «Muito estimável é a preocupação pelo que dever / mas só após esgotar o respeito pelo que é / pois um homem pode envilecer até com a sublimidade».
Por fim, o poema «A caça à mesa» é a recriação poética de uma caçada real, principal distração lúdica da nobreza cortesã. O poema constitui uma ode à rica gastronomia com que se deleitavam o rei e a sua vasta corte, após extenuante caçada em correrias de cães e cavalos, por entre serranias, campinas e moitedos. Tudo ali é fantasia e criação, num frémito de exaltação lírica, em que o coração ofegante do poeta, sente, recria e revive, o prazer da mesa e do convívio no lauto repasto das viandas cinegéticas. O poema que encerra o livro ilustra a forma como terminam todas as caçadas, isto é, num alegre convívio gastronómico, em que se consolidam amizades para o resto da vida.

O poeta Américo Telo proferindo a intervenção de encerramento da sessão
Concluindo com a outro grande poeta e caçador

Acima de tudo, estamos perante um livro que é uma elegia à natureza, e à biodiversidade ambiental do nosso Algarve. Nunca tinha lido nada igual ou até semelhante na poesia portuguesa. De tantos poetas famosos, que viveram de forma apaixonada o prazer da caça, raros foram, porém, os que escreveram com tanto entusiasmo, como o fez neste livro o Paulo Rosa. O caso mais recente, e o mais conhecido, é o livro de poemas de Manuel Alegre, um exímio caçador, dedicado ao seu cão de caça, um “Spaniel Bretão”, que de tanto conviver com a família, e por ter sido criado dentro de portas, se transformou num humano de quatro patas, que “ladrava quando queria falar”. Teve uma vida longa e feliz, com dezenas de prodigiosas caçadas, em que demonstrou o seu decisivo contributo para o sucesso final. Quando morreu toda a família ficou com a alma a sangrar de desgosto. É que tinham perdido um membro da família, que por acaso era cão. Daí que o poeta Manuel Alegre tenha escrito em 2002, um livro fabuloso, intitulado «Cão como nós» que é uma das mais primorosas obras poéticas do nosso tempo, inspirada num profundo e genuíno sentimento de amizade. O facto de ter este livro como único protagonista um cão, e ter como único homenageado um cão, faz desta obra um exemplo singular, que julgo ninguém mais irá imitar.
Para terminar, em nome da cultura, da preservação do ambiente, da natureza e da biodiversidade, faço aqui uma viva recomendação para a leitura deste livro de Paulo Rosa, O Perfume da Esteva, publicado pela editora «On y va», na primavera de 2019.
© José Carlos Vilhena Mesquita

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Folheto turístico de Vila do Bispo-Sagres, para a Exposição dos Centenários em 1940

Folheto turístico, anos 40?, sobre Vila do Bispo-Sagres

Entre os meus papéis velhos, fui encontrar aquilo que presumo ser um dos primeiros folhetos promocionais de turismo relacionados com a quase ignorada Vila do Bispo. Trata-se de uma folha, impressa dos dois lados a uma só cor, nas dimensões 23x33 cm, cujo tamanho nas tipografias antigas se designava por C4. Usava-se para diversos fins, geralmente para imprimir pequenos cartazes de publicidade, mas também como folhas volantes dos teatros e cinemas. Quando passaram a imprimir-se em três colunas, para facilitar a leitura e a inserção das imagens, houve quem se lembrasse de dobrar a folha em três partes, para a transformar numa espécie de tríptico informativo. Nasceram assim os desdobráveis, primeiro para fins religiosos destinados a divulgar as festividades e romarias, depois para fins educativos, informativos e turísticos. 
Folheto, verso, destaca o Infante
 Pela grafia do texto vê-se que respeita o acordo ortográfico de 1945, devendo datar, seguramente, da década de quarenta. Apresenta-se impresso em azul, com dez gravuras, em papel de razoável qualidade. O texto é curto, segue com rigor os factos históricos ligados ao Promontório de Sagres e à epopeia dos Descobrimentos Portugueses. Presumo que esta folha, possível desdobrável de propaganda turística, tenha sido editada na voragem das Comemorações dos Centenários de 1940, para ser distribuída no decurso da grande Exposição do Mundo Português. No âmbito dessas mesmas comemorações, realizou-se em Faro um grandioso certame, que decorreu em 1940 no Largo de S. Francisco, destinado a realçar o decisivo papel desempenhado pelo Algarve no arranque e no consequente sucesso dos descobrimentos henriquinos. E, certamente, durante esse magnífico evento de exaltação patriótica, que teve como Comissário Geral o pintor Carlos Porfírio, e como Presidente da Comissão Executiva o Dr. Júlio Dantas, estou certo que esta folha de propaganda turística foi também oferecida aos visitantes da grande exposição do Algarve.
Pórtico da Exposição dos Centenários em Faro, 1940
Resumindo e concluindo… esta folha é uma peça documental de raro interesse para o estudo do turismo, e da sua propaganda institucional no Algarve. Não está datada, nem o texto nela inserido tem indicação de autor. Algumas das fotos que ilustram esta folha de propaganda – talvez destinada a ser um hipotético desdobrável turístico – estão assinadas por Carmo, um fotógrafo profissional que fez vários trabalhos para o SPN (Secretariado de Propaganda Nacional). O texto da face interior diz respeito a Vila do Bispo, é mais curto e incisivo que o da face exterior, respeitante ao mítico promontório de Sagres. Estão ambos muito bem escritos, quer no rigor histórico, quer no estilo literário, sendo de realçar a mensagem que se pretende estabelecer entre o paralelismo do ambiente e a majestosidade da penedia, entre a grandiosidade do mar e a vastidão do desconhecido, tentando confluir nessa atracção mística a razão justificativa dos descobrimentos marítimos. A figura tutelar do Infante D. Henrique, cognominado o Navegador, apresenta-se pela máquina da propaganda aos olhos do mundo como o herói da epopeia dos Descobrimentos, da diáspora lusíada e da portugalidade, através da língua de Camões falada por 200 milhões de pessoas espalhadas pelos cinco continentes, em cujos mares e portos acostaram e se disseminaram os genes e a cultura deste bravo e corajoso povo, que hoje é apenas uma referência residual na história da humanidade.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A origem histórica do Biquíni


Diz-se que a criação do biquíni teve origem no racionamento de tecidos e no baixo poder de compra das mulheres, durante o período da II Guerra Mundial, em cujo decurso um francês, engenheiro de automóveis, de seu nome Luis Réard, desenhou o traje de banho feminino ao mínimo, a que deu o nome de “Bikini”. Lembrou-se dessa designação porque a sua criação era uma verdadeira bomba atómica no mundo da moda. Ora, como dias antes, em Julho de 1946, os Estados Unidos haviam realizado uns testes nucleares na Micronésia, Oceano Pacífico, destruindo por completo o Atol de Bikini, pareceu-lhe que esse nome poderia ser adoptado ao seu modelo como uma forma de homenagem, mas também de protesto, pela destruição do ambiente e pelo uso de armas de destruição maciça.
Brigitte Bardot, aos 19 anos, em Cannes, causando
enorme sensação com o seu provocante biquíni
O projecto era tão ousado que nenhuma modelo se dispunha a usá-lo em público. Por isso Réard teve de contratar uma stripper, de corpo escultural, chamada Micheline Bernardini, que se dispôs a usá-lo num desfile de moda, junto a uma piscina, em Paris, a 11 de julho de 1946. O escândalo foi enorme, tornando-se de facto numa verdadeira "bomba atómica" lançada sobre o mundo da moda. Mas não se pense que se tornou num êxito rápido, como é costume acontecer na moda. Bem pelo contrário. A maioria dos países modernos reprovou o seu uso, e ainda hoje, em muitos países árabes é proibido o uso do biquíni nas praias, como se tratasse de uma afronta ao pudor. Tanto assim era que no primeiro concurso de Misse Mundo, realizado em Londres em 1951, proibiram-se as concorrentes de sequer tentarem experimentar o uso de biquíni no desfile final do certame. O argumento sustentado pelos membros do júri era, mais uma vez, o da preservação da moral e dos bons costumes.
Para que o mundo desse esse passo em frente precisava-se de uma mulher corajosa, que não tivesse medo de enfrentar a oposição dos mais conservadores e até da própria igreja, que contestava os excessos e liberdades da moda. Essa mulher, corajosa e desafiante, surgiu em 1953, durante o Festival de Cannes, na figura da jovem e deslumbrante actriz francesa Brigitte Bardot, que desceu à praia daquela famosa estância turística com um revolucionário biquíni, desenhado com motivos florais, como se a própria Eva voltasse de novo ao convívio dos mortais pecadores.
Repare-se nas reduzidas dimensões do bikini de Brigitte
Bardot, cujo talhe pouco difere dos modelos actuais.
A partir de então, as mulheres de todo o mundo passaram a usar os provocantes biquínis, cada mais curtos e ousados, para afirmarem a sua liberdade e a sua independência, sem medo de serem, por isso, acusadas de atrair a si os olhares concupiscentes dos homens.
Mas, será o biquíni assim tão recente como nos querem fazer crer os designers da moda?
Não tenho a certeza se já existiria, ou não, no tempo dos romanos uma indumentária, talvez mais para uso desportivo do que recreativo, semelhante ao que hoje designamos por biquíni. Em frescos de Pompeia encontraram-se várias pinturas de mulheres a exercitarem-se num ginásio, praticando pugilato e luta greco-romana, usando apenas duas peças de couro para taparem as partes íntimas. Isto faz supor que as mulheres na antiguidade clássica já usavam algo semelhante aos biquínis modernos, certamente nos banhos públicos e saunas privadas, mas talvez também durante a prática dos diversos jogos e competições em que as mulheres tinham o direito de participar.
Este é um assunto que não domino, nem posso asseverar que o uso das duas peças de reduzido vestuário, a que chamamos hoje biquíni, era já usado na antiguidade. O que posso garantir é que na localidade de Piazza Armerina, na Sicília central, foi descoberta a vila imperial romana de Casale, com dezenas de mosaicos de uma beleza esplendorosa, retratando cenas da vida quotidiana no século IV depois de Cristo. Em alguns desses mosaicos vêm-se várias jovens romanas, usando apenas duas peças muito semelhantes ao actual biquíni. Neles se observa que algumas jovens estavam a praticar luta, creio que pugilato - uma modalidade desportiva de tradição olímpica - mas noutros parecem estar a desfilar num cortejo religioso, escoltadas por outras mulheres, cobertas com tecidos transparentes, que talvez fossem as intocáveis vestais.
Mosaico da villa imperial romana de Piazza Armerina, na
 Sicília central, datado do século IV depois de Cristo.
 
Sem querer especular, julgo que algo semelhante ao biquíni já era usado na civilização romana pelas mulheres que frequentavam os banhos públicos, então designados por “Thermae” (de cujo étimo latino deriva a palavra Termas), sendo famosas em Roma as termas de Caracalla, de Nero, de Diocleciano, de Tito e de Trajano, frequentadas diariamente por milhares de patrícios de ambos os sexos, num cenário de majestosa beleza artística, rodeada de colunas e estátuas em mármore de Carrara. As termas públicas repartiam-se por diferentes espaços, para que os seus utentes usufruíssem de sucessivos estágios de temperatura nas águas. Assim, passavam primeiro pelo “Frigidarium”, onde os utentes se banhavam em água fria, passavam depois ao “Tepidarium”, de águas mornas, até chegarem ao “Caldarium” onde as águas quentes proporcionavam o relaxamento muscular. Associada ao uso medicinal da água e à sua fruição térmica, nasceu a ideia clássica do SPA, que mais não é do que uma sigla, cujo desdobramento significa "salus per aquam", uma expressão latina que se traduz literalmente como "saúde pela água".
Pormenor do mosaico anterior
As mais ricas e poderosas famílias romanas, que se estabeleceram ao longo do imenso império, trataram de recriar nas suas “villas” residenciais um equipamento termal, de que ainda hoje subsistem restos arqueológicos visíveis um pouco por todo o nosso país.
Aqui fica uma imagem do mosaico da Villa imperial romana de Piazza Armerina e duas fotos da então muito jovem Brigitte Bardot, em 1953, na praia de Cannes. A bela diva do cinema, está felizmente entre nós (tem hoje 84 anos de idade), embora há muito retirada dos olhares públicos. Muitos de nós se lembram dela pela sua deslumbrante beleza física, pela sua luta contra o uso de peles no vestuário da moda, pela sua cruzada na protecção dos animais domésticos e selvagens, mas certamente já poucos se lembrarão que ela foi a primeira mulher a usar um biquíni em público, desafiando os falsos pudores desta sociedade de hipócritas sibaritas, em que ainda hoje vivemos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Castello, António

António Castello, aos quarenta anos

Empresário português radicado em Buenos Aires, capital da Argentina, onde mercê do seu trabalho, sacrifício e abnegação logrou montar um negócio de mecânica automóvel, que foi progredindo até chegar a tornar-se numa das maiores empresas daquela cidade.
Nasceu em 1881, no seio de uma família humilde e modesta, na freguesia de Estoi, concelho de Faro, e quando chegou aos 21 anos de idade, vendo-se sem emprego, sem esperança e sem futuro, optou pelo caminho que muitos rapazes da sua geração seguiram, o da emigração. Estávamos em 1902, e nessa altura corria no espírito aventureiro da juventude a atracção pela estrada atlântica, na perspectiva de aí alcançar uma nova oportunidade de vida. O futuro dos mais desfavorecidos encaminhava-se novamente para o Brasil, onde a língua era mãe e onde havia sempre uma mão amiga, que a colónia lusa que antes ali se havia radicado, estendia aos que chegavam imbuídos da mesma esperança de sucesso e de prosperidade. Foi assim nas últimas décadas do século XIX, uma quimera que enfeitiçou milhares e milhares de portugueses que do norte do país, do Minho, do Douro e das Beiras, desempregados pela praga da filoxera que destruiu os vinhedos onde ganhavam o pão, tiveram que emigrar, deixando as nossas terras setentrionais quase despovoadas.
Quando o feitiço do Brasil esmoreceu, surgiu um novo «El Dourado» na terra das pampas meridionais da América. Eram as terras do Rio da Prata, a nova e próspera Argentina, que se levantava numa onde de progresso, de crescimento económico e de desenvolvimento agro-industrial. Os pobres da Europa Ibérica e mediterrânica acorreram em massa, sequiosos de esperança, de trabalho e, sobretudo, de um futuro, que lhes permitisse erguer um lar e criar uma família. Foram, tal como o António Castelo, aos milhares de homens e mulheres, gente de todas as idades, de diferentes nações, línguas e credos, para lavrarem a terra, esventrarem as montanhas, extraírem o minério de cobre e de ferro, criarem o gado, lanígero. bovino e cavalar, enfim…, foram para estabelecer os fundamentos do mundo latino.
Buenos Aires, centro, Jardim de Julho, em 1920
O António Castelo, com seus 21 anos de idade, em plena posse do seu vigor e inteligência, empregou-se numa grande casa comercial, onde em breve seria o fiel de armazém, conquistando a simpatia dos patrões, dos clientes e dos seus compatriotas, que nele viram logo o talento do sucesso. Com o decorrer dos anos foi ganhando confiança e maior conhecimento sobre o trato e a dinâmica macroeconómica, e mercê do seu esforço e dedicação à empresa conseguiu fazer muitos negócios de âmbito intercontinental, tendo a Europa e em especial o nosso país como plataforma giratória do avultoso comércio da carne, das madeiras, do aço, das peles, etc.
Dez anos depois António Castello era já muito considerado entre a colónia portuguesa, por ser um jovem muito trabalhador e inteligente, sempre atento às inovações americanas e muito dedicado à leitura dos principais órgãos da imprensa europeia. Talvez por essa influência é que tornou fiel seguidor do ideário republicano, e grande admirador de Afonso Costa, então na pasta da Justiça, cuja reforma judicial costumava apontar como uma marca da moderna civilização ocidental. Foi por essa altura que começou a assentar raízes e a pensar criar o seu próprio negócio. Ouviu conselhos, auscultou os seus amigos mais proeminentes da colónia lusa de Buenos Aires, estudou as propostas de financiamento e decidiu avançar com um negócio da sua iniciativa.
Buenos Aires, capital da Argentina, cerca de 1920
O primeiro passo foi escolher uma mulher que o pudesse acompanhar nessa aventura que iria mudar a sua vida. Escolher uma jovem, filha de boas famílias da mãe-pátria, chamada Gertrudes que o fez feliz e lhe deu seis filhos. Ao fim de vinte anos de trabalho, deixou a casa comercial, onde trabalhara com tanto afinco, para avançar em sociedade com o seu amigo Francisco Viegas, na criação de uma empresa ligada ao ramo automóvel, um sector que começava a dar grandes frutos na Argentina. Essa empresa, com a designação de «Viegas y Castelo», ligada à venda e reparação de veículos, tornar-se-ia a breve trecho num dos principais estabelecimentos do ramo automóvel em Buenos Aires. Os clientes e amigos, assim como os seus compatriotas, passaram a tratá-lo por Dom António, em sinal de respeito e consideração pelo seu sucesso no difícil mundo empresarial.
Um dos seus amigos, entre os mais leais e sinceros, era o jornalista Francisco Paulo Madeira, que nas colunas do semanário «O Jornal Portuguez», de que era director e proprietário em Buenos Aires, publicava sempre notícias do seu amantíssimo Algarve, sobretudo de Loulé, de onde eram naturais muitos dos seus assinantes e leitores. Volta e meia surgiam nas colunas do seu jornal, a propósito das empresas portuguesas de maior sucesso na capital argentina, notícias sobre a empresa de António Castelo, assim como de outros algarvios que se dispersaram pelo país das Pampas.
Cabeçalho do jornal de Paulo Madeira em Buenos Aires
Vem a talhe de foice lembrar que este Francisco Paulo Madeira, natural de Alte, concelho de Loulé, deixou no Algarve um rasto de lenda e de heroísmo, por ter sido um corajoso e indomável lutador pela implantação da República. Era um homem inteligente e talentoso, que lutava pelos seus ideais com a luz da razão. Porém tinha um espírito muito difícil de contrariar, que ainda por cima fervia em pouca água. Por vezes, quando os seus adversários não se deixavam vencer pela razão das suas ideias, recorria então ao vigor, à coragem e destreza dos punhos.
Francisco Paulo Madeira, ainda jovem, revelara-se nas colunas do semanário «O Louletano», fundado em 9-1-1893, como um jornalista de grande ilustração e pureza de estilo, embora nas suas palavras e afirmações sempre refulgisse o ideário republicano e o seu espírito anticlerical. Anos depois, a 20-5-1909, teve a ousadia de fundar por sua conta e risco o semanário «O Povo Algarvio», que se apresentava como “semanário republicano independente”. Tinha como ódio de estimação o seu oponente monárquico, o semanário «Notícias de Loulé», fundado em 30-5-1909, e dirigido pelo padre Manuel Bazílio Correia. Este jornal além de ser monárquico era profundamente católico, fazendo dos republicanos, o alvo principal dos seus ataques, acusando-os de assassinos (por terem matado o Rei), de diabólicos coveiros da pátria e de anticristos. Estas diatribes enfureciam o Paulo Madeira que na tribuna do seu «Povo Algarvio» desancava os monárquicos com os maiores impropérios. Por vezes, o nível baixava a tal ponto que chegava a roçar na chinela. Daí nasceu um episódio desagradável que marcou a vida de Paulo Madeira, suscitando inclusivamente o desconforto de ter que emigrar da sua terra-natal para a longínqua Argentina. O caso conta-se em duas palavras. O Manuel Madeira envolveu-se em acesa polémica com o Padre Bazílio Correia, da qual resultaria a suspensão do jornal republicano, obrigando o Paulo Madeira a fundir o seu jornal com os «Ecos do Sul» de São Brás de Alportel, passando por isso a ser apelidado acintosamente pelo seu adversário monárquico como «o bifronte». Daí resultou que num belo dia o Paulo Madeira em plena via pública quisesse tirar desforço do padre, havendo punhos e cuspidelas pelo ar. Chegou-se a falar numa pistola virada às fraldas da sotaina que felizmente não chegou a disparar. O caso foi a tribunal, mas a República implantada dali a pouco sanou tudo. O jornal monárquico fechou as portas, o Paulo Madeira saiu por cima. Todavia, nos anos subsequentes ao novo regime a sua pena continuou agressiva, não poupando críticas às novas vereações camarárias nem aos deputados que no parlamento defendiam mais os interesses pessoais do que os da própria pátria. Não tardou muito a que os seus antigos correligionários lhe silenciassem a pena, considerando o Paulo Madeira como persona non grata aos olhos do povo de Loulé. Por essa razão, farto das lutas partidárias, emigrou par a Argentino, onde voltou a erguer a sua tribuna de jornalista, isenta de polémicas políticas e de interesses partidários.
Quando o seu amigo e compatriota, António Castello, faleceu aos 47 anos de idade, numa sexta-feira 13, do mês de Julho de 1928, no hospital de Buenos Aires, onde esteve internado alguns meses, Paulo Madeira, sentiu de forma muito profunda a sua morte, como uma enorme perda para toda a comunidade lusa. Traçou-lhe o elogio fúnebre numa comovente notícia da qual respigamos, em jeito de encerramento, estas sentidas palavras:
«Enérgico e sóbrio, empreendedor persistente e honrado como a própria honra, bem merecia melhor prémio às suas actividades do que aquele que a sorte lhe destinou. Bom, sumamente bom, quasi poderíamos dizer divinamente bom – já que a imensa bondade dos raros António Castello que hoje topamos na vida deve derivar, talvez daquele sopro divino com que Deus alentou o barro de que modelou o género humano – toda a sua vida foi consagrada ao bem dos outros, com um tão impressionante espírito de sacrifício, com uma tão voluntária boa vontade que, cativando os corações os obrigava à gratidão.»
Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, em 2018
António Castelo foi a enterrar no dia seguinte, no cemitério da Recoleta em Buenos Aires. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas, na sua esmagadora maioria emigrantes portugueses, que choravam a sua inesperada morte como uma perda irreparável. Deixou à viúva, Gertrudes Castello, a difícil tarefa de criar os seus seis filhos, alguns dos quais eram ainda de tenra idade. Por lá ficaram, em Buenos Aires, prosseguindo a empresa que o seu progenitor lhes deixou, até que o tempo os dispersou a todos pelos insondáveis meandros da vida.

domingo, 3 de março de 2019

MACHADO, José António Valeriano

Jornalista, poeta e dramaturgo, nasceu em Faro e faleceu em Lisboa, a 13-1-1954.
Espírito empreendedor e algo aventureiro, dotado de grandes capacidades de trabalho, inteligência repentina, argúcia de filósofo, talento a rodos, mas desperdiçado em actividades de inferior relevância. Escrevia com facilidade em prosa e em poesia, dispersando-se pelos jornais locais até chegar às colunas da imprensa da capital. A partir de então, com o nome estampado nos jornais diários, tornou-se numa figura de superior pertinência e destaque.
Republicano até à medula da alma, foi um dos chamados “heróis da Rotunda”, pois que, com armas na mão, tomou parte activa na Revolução do 5 de Outubro em 1910. Mas essa foi uma das suas medalhas de juventude de que pouco ou nada se orgulharia porque a República além da desilusão em que a transformaram os seus políticos, foi também um regime de grande conflitualidade na ordem pública, marcado por vários levantamentos militares, desobediência civil, terrorismo urbano, ataques bombistas, greves violentas do operariado, constantes crises governativas, em suma um clima de instabilidade política que só contribuiu para o descrédito do novo regime, em que as gerações jovens tinham depositado tantas esperanças.
Fachada do antigo Teatro Apolo, na Rua da Palma em Lisboa
A vida nesses atribulados anos também não lhe correu bem. Sentiu que os magros cobres granjeados no jornalismo não eram suficientes para governar a vida, razão pela qual tentou encontrar no teatro os meios de sobrevivência com que pudesse pagar as dívidas. Por isso, escreveu para o Teatro Apolo uma revista intitulada «Risos e Flores», que embora levada à cena não teve o sucesso almejado pelo seu autor.
Felizmente existem depositados na Biblioteca Nacional, em Lisboa, pelo menos dois exemplares impressos, desta peça teatral, sendo que um deles é o texto original, ou seja, a versão literária da mesma, datada de 1920, idealizada muito antes de ser levada à cena em Lisboa. Para elucidação dos bibliófilos, aqui fica a descrição deste pequeno e raro livro, com que José António Valeriano Machado se estreou nas letras e no teatro: Riso de Portugal, Riso Amarelo ou Risos e Flores, Lisboa, Tip. do Comércio, 1920.
A outra edição desta peça corresponde à versão que foi levada à cena no Teatro Apolo, contendo o texto e as coplas em verso, inspiradas no gosto popular, que compunham o corpo cénico desta revista teatral. Tem esse folheto, de apenas 14 páginas, a seguinte descrição bibliográfica: Coplas da Revista, em dois actos e 2 Quadros, Risos e Flores, música de Vasco Macedo e Bernardo Ferreira», 1920.
Desiludido com a situação política da sua amada República, mas também para escapar às responsabilidades que lhe eram imputadas em determinado processo judicial, emigrou para o Brasil onde se fixou durante alguns anos. Todavia, razões de vária índole, próprias do seu espírito aventureiro, não lhe permitiram alcançar o sucesso desejado.
Assim, desapontado com o Brasil, onde a vida não lhe correu de feição, regressou à pátria, fixando-se em Lisboa. Empregou-se na redacção de «O Século» - um diário de larga expansão e sucesso, porta-voz do nosso incipiente capitalismo - onde como jornalista desenvolveu intensa actividade. Foi na qualidade de redactor do «Século» que tomou parte no grupo de plumitivos que fundou a Associação dos Jornalistas Portugueses, cujo programa cultural e objectivos sociais defendeu e divulgou nos órgãos da capital. Desse núcleo embrionário surgiria mais tarde o Sindicato dos Jornalistas e a Associação da Imprensa de Portugal.
Receoso do seu futuro como jornalista, decidiu empregar-se como funcionário da União dos Grémios da Indústria Hoteleira, ao serviço da qual recebia um vencimento, que não sendo avultado era, contudo, infalível e suficiente para sobreviver. Nessas funções chegaria à idade da reforma, sem brilho nas letras, é certo, mas também sem sobressaltos na vida.
Sede da Emissora Rádio Graça, na rua da Verónica, Lisboa
No tempo em que residiu no Rio de Janeiro, escreveu e publicou um belo livro de versos, no qual constam várias composições poéticas datadas de Faro. Encontramos um exemplar na Biblioteca Nacional, em Lisboa, do qual aqui deixamos a descrição oficial: Cinzas… Poesia Tosca, Rio de Janeiro, Imp. Moderna Carinhas, 1926, 117 p., [4] f., 17 cm (BNP: L. 34979 P.). Curiosamente, este mesmo livrinho teve no ano seguinte, em 1927, uma nova edição, embora me pareça que deve ter sido apenas uma republicação da versão do ano anterior. Este procedimento não era raro nessa época, porque as edições de livros faziam-se primeiro com poucos exemplares (por vezes uma centena de exemplares) para testar o acolhimento público da obra, fazendo-se, em caso de resposta positiva, um aumento de exemplares à edição inicial. É por isso que em certas obras vemos no frontispício a indicação de 1º, 2º ou 3º milhar, em vez de 1ª, 2ª ou 3ª edição, por se tratar de um aumento da publicação de exemplares e não de edições espaçadas por diferentes anos de publicação.
Botão de lapela, Rádio Graça
Só lamentamos que este livro seja hoje raro de encontrar, até mesmo no Brasil, e, por isso, difícil de chegar às mãos do comum leitor. Infelizmente, à excepção da Biblioteca Nacional, em Lisboa, não existe em mais nenhuma outra biblioteca pública do nosso país.
Emblema da Rádio Graça, Lisboa
Nos últimos anos de vida, Valeriano Machado, pronunciou aos microfones da «Rádio Graça» de Lisboa uma palestra semanal sobre temas muito diversos, como a instrução graciosa e pós-laboral da classe operária, a moral nacionalista e a ética social, a conduta religiosa do povo, o combate à mendicidade e a assistência aos pobres, poesia popular e teatro radiofónico, a leitura e a educação cívica dos trabalhadores, etc... Na esteira desse programa radiofónico publicou um pequeno jornal, em forma de boletim, de que saíram impressos, entre 1941 e 1942, pelo menos seis números, cuja edição cessou devido aos condicionalismos da guerra. Esse boletim publicou-se com a designação de «Rádio Graça», sob a direcção de Valeriano Machado e edição de Américo dos Santos, Lisboa, 1941-1942. Os textos eram na sua maioria do Valeriano Machado, resumindo alguns programas difundidos, noticiando os melhoramentos do bairro da Graça, o sucesso de alguns dos seus moradores, assim como realçava os progressos técnicos da própria estação.
Algumas rádios dos Emissores Associados de Lisboa
Esta estação radiofónica, sediada no Bairro da Graça, daí a sua designação, iniciou a emissão publica em 27-3-1932, sob a égide de Américo Santos, um simples guarda-livros que teve a inteligência e ousadia de divisar novos projectos e mais promissores horizontes, através da fundação de uma modesta antena de rádio, que viria a tornar-se num verdadeiro caso de sucesso através da inovadora emissão do teatro radiofónico nos anos cinquenta do século vinte. Uma das peças mais aclamadas pelo público desse tempo foi o drama «A Força do Destino», que em 1954 chegou a ter entre os lisboetas uma audiência sem precedentes, a tal ponto que até a Emissora Nacional passou a inserir diariamente um espaço teatro radiofónico, à hora do almoço e à hora do jantar, com peças dos maiores dramaturgos nacionais e estrangeiros. Devido ao seu enquadramento num bairro lisboeta, a «Rádio Graça» era uma espécie de rádio local com fraca expansão hertziana. Não tinha hipóteses de competir com as grandes antenas que dominavam o espaço nacional, nomeadamente a «Emissora Nacional», o «Rádio Clube Português» e a «Rádio Renascença». Para poder ampliar o seu alcance, Américo Santos decidiu nos anos cinquenta juntar-se a uma quarta antena de âmbito nacional, os Emissores Associados de Lisboa. Deste modo, passou a fazer parte de um grupo de quatro estúdios com audiência nacional, no qual se integravam também a «Rádio Peninsular», o «Clube Radiofónico de Portugal», e a «Rádio Voz de Lisboa».
Disco de 78 rpm gravado na «Rádio Graça», a 4-12-1959
Idêntica estratégia ocorreu no norte do país em 1953, quando as rádios locais se associaram numa antena de larga expansão territorial designada por «Emissores do Norte Reunidos» (cuja antena esteve instalada no Canidelo, em Vila Nova de Gaia), que subsistiu até 1975, altura em que foi também nacionalizada, sendo hoje a «Rádio Comercial», fundada em 1979, a sucedânea natural do antigo emissor do Norte.
A popular «Rádio Graça» chegou a ter em Lisboa quase um milhar de associados, que pagavam as suas quotas para ouvir diariamente, as notícias locais, as canções e os fados mais populares, mas também os contos tradicionais portugueses, as palestras do desporto e da cultura, os preceitos sobre a vida cívica, e sobretudo as peças de teatro radiofónico, cujo patrocínio da marca de detergentes «Tide» foi o garante da sua sobrevivência até 1975, quando aquela emissora foi nacionalizada e logo a seguir encerrada, por não se enquadrar na linha convergente à nova ordem política.

Entre os programas de maior sucesso da «Rádio Graça» distinguiam-se os contos, as lições de história pátria e as palestras infantis, para a educação e formação cívica das crianças, da autoria de Valeriano Machado. Convém esclarecer que este programa tinha sido primeiramente difundido pelo seu autor na «Rádio Hertz», que depois o fez ressurgir aos microfones da «Rádio Graça», ainda com mais sucesso e maior difusão. É curioso notar que cada um dos programas tinha uma lição pedagógica a incutir no espírito das crianças. Por isso era personalizado, isto é, tinha dedicatória a uma criança em particular, geralmente um filho ou neto de um associado da rádio, ou de um amigo do próprio autor. E o nome da criança era enunciado com todo o carinho, como que a pressagiar-lhe um auspicioso futuro. foram depois reunidas num volume que deu à estampa com o título de Lições do Avozinho, método aprazível e intuitivo, Lisboa, Tip. da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1940. A edição deste livro inscreveu-se no âmbito das Comemorações Centenárias, uma espécie de apoteose do regime de Salazar, cuja nação dimensionada pelos cinco continentes se apresentava em paz e em prosperidade, perante uma Europa em guerra, possuída do espírito nazi e ameaçada pelo espectro da autodestruição. O livro de Valeriano Machado, cujo conteúdo era de uma inocência desarmante, expressava uma mensagem patriótica e paternalista que na essência convinha à propaganda nacionalista do regime. As lições moralistas que o autor infundia no espírito das crianças, favoreciam a apologia do país onde florescia a paz e o bom entendimento entre os cidadãos, sem o divisionismo partidário nem a desordem da democracia. Sem ser essa a intenção de Valeriano Machado, as «lições do avozinho» foram usadas para ilustrar a trilogia de Salazar: “Deus, Pátria Família”.
Valeriano Machado foi casado com D. Emília Correia Machado, de quem teve dois filhos, ambos bem colocados na vida, a Dr.ª Marina Correia Valeriano Machado, residente no Brasil, ainda viva, que usa o nome literário de Marina Frazão, e António Correia Machado, residente em Lourenço Marques, que julgo já falecido.
Por minha iniciativa e proposta, a Comissão de Toponímia de Faro atribuiu o nome de Valeriano Machado a um largo da cidade, em preito de homenagem a um farense que se distinguiu na poesia, no teatro, na imprensa escrita e radiofónica.