quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

SERRA, Manuel dos Santos


Faleceu na manhã do dia 29 de Novembro de 2018, no hospital distrital de Faro, aos 92 anos de idade o meu bom e querido amigo Dr. Manuel dos Santos Serra. Foi um dos mais notáveis médicos do Algarve, cuja vida profissional dedicou inteiramente ao bem comum. A qualquer hora do dia ou da noite recebia chamadas para acudir aos seus doentes, nunca deixando de comparecer, mesmo nos sítios mais recônditos do interior algarvio, para onde, nos primórdios da sua vida de "João Semana", se deslocava a cavalo ou, mais tarde, na sua pequena viatura, que por vezes serviu de ambulância nos casos mais urgentes.
Fixou residência e abriu consultório na pitoresca vila de Albufeira, quando ainda não se falava de turismo, mas que o seu espírito visionário já identificava e proclamava aos sete ventos como a Saint-Tropez do Algarve.
Todavia, no início dos anos cinquenta do século passado, quando iniciou a sua carreira médica, Albufeira era ainda uma vila pobre, ignorada e desconhecida no extremo sul do nosso país. E nesses tempos difíceis do pós-guerra, em que a ditadura apertava a vigilância sobre as figuras que mais se distinguiam na sociedade, nomeadamente no cultivo das letras e das artes ou no apoio aos mais desfavorecidos, é lógico que o Dr. Santos Serra foi alvo do escrutínio e da desconfiança salazarista. Não foram, por isso, fáceis os seus primeiros anos de vida profissional, numa sociedade amordaçada pelo medo e pela miséria.
Nas circunstâncias mais difíceis, carenciado de meios de higiene e de protecção ao contágio, dedicou-se durante anos ao combate da tuberculose, que grassava com especial incidência no seio dos lares mais desfavorecidos. Comparecia assiduamente nos bairros pobres, sobretudo dos marítimos, onde estudava o surto das doenças pulmonares, prestando os serviços de assistência médica de forma graciosa, por vezes correndo riscos de contágio durante os períodos mais intensos da tuberculose.
Apesar de todas as perseguições de que foi alvo, conseguiu levar por diante a sua cruzada em prol da saúde e da prestação graciosa de cuidados médicos aos pobres, aos velhos e às crianças, ajudando a Misericórdia de Albufeira a cumprir a sua missão de apoio aos mais carenciados.
Após o 25 de Abril seria nomeado Director do Centro de Saúde de Albufeira, cargo que desempenhou durante 22 anos com grande competência e a maior dedicação, razão pela qual recebeu oficialmente os mais subidos louvores.
Apresentando um dos seus livros, ao lado do poeta e do
presidente da Câmara de Albufeira, ambos já desaparecidos
Como aconteceu com muitas das figuras mais proeminentes da vida nacional, decidiu filiar-se no Partido Socialista, que, diga-se em abono da verdade, ajudara a fundar ainda antes da Revolução dos Cravos. E, sem nunca ter sido propriamente um político, aceitou presidir durante três mandatos à Assembleia Municipal de Albufeira. 
Além de ter sido um grande médico foi também um notável poeta, em meu entender um dos maiores do seu tempo, com uma obra vasta e de grande valor literário, que tive a honra de ressaltar nos vários eventos em que fiz a apresentação dos seus livros. Foi acima de tudo um cidadão exemplar, que muito amou a sua terra adoptiva - Albufeira, merecendo por tudo quanto fez pela saúde pública e pela cultura algarvia, uma homenagem que perpetue a sua memória, nomeadamente a atribuição do seu nome a uma rua, a um prémio literário que glorifique a poesia no Algarve, e se possível ao Centro de Saúde de Albufeira. Esta última sugestão foi já satisfeita pela actual Ministra da Saúde, nos dias imediatos ao falecimento do Dr. Santos Serra, o que me apraz aqui registar.
Resta-me acrescentar que o Dr. Santos Serra, havia-me pedido para fazer no dia 1 de Dezembro de 2018, a apresentação do seu último livro, a ANTOLOGIA POÉTICA - uma selecção, por si elaborada, dos poemas que compunham a sua vasta obra lírica. Recebi na semana anterior ao seu falecimento um exemplar dessa obra, para que pudesse preparar a minha palestra de apresentação. Infelizmente, foi nesse mesmo dia que se realizou o seu funeral. Curvo-me em sua homenagem, com o coração dilacerado, apresentando a sua esposa, seus filhos e netos os meus sinceros e sentidos pêsames.

Aqui deixo a biografia que escrevi sobre Manuel dos Santos Serra, para figurar na ALGARVIANA, se algum dia essa obra vier a ser publicada:
Manuel dos Santos Serra, médico e poeta, nasceu em Silveira, freguesia de Espinhal, concelho de Penela, em 23-1-1926, e faleceu no Hospital de Faro a 29 de Novembro de 2018, aos 92 anos de idade.
Veio com seus pais e irmãos em 1933 para a vila de Albufeira, onde desde então fixou a sua residência, sentindo-se por isso um algarvio de convicção e pura consciência regionalista. Fez a instrução primária em Albufeira, de se transferiu para o Liceu de Faro, concluindo na capital do Algarve os seus estudos secundários. Partiu depois para a Universidade de Coimbra, onde fez parte da Direcção da Associação Académica, concluindo em 1950 o curso de Medicina. Na Lusa Atenas fez amigos para o resto da vida, e nas esquinas da Universidade aprendeu os primeiros rudimentos de contestação ao regime salazarista. Os princípios revolucionários de luta pela Liberdade, pela Igualdade e pelos Direitos Humanos acompanharam-no para o resto da vida, mesmo que por vezes tivesse sofrido a ignomínia da perseguição política.
Admirador da cultura e das Belas Letras, cedo se apaixonou pelas musas e se deixou impressionar pela imagem de Orfeu, que o acompanhou nas horas mortas em que o seu talento se libertava da sisudez científica do médico para se espraiar no sonho, na sensibilidade e no lirismo amoroso do poeta. Dessa paixão pela poesia despontou a sua vontade interveniente na cultura, participando em tertúlias de poetas e literatos, nas quais defendeu sempre os lídimos valores do humanismo, da liberdade e da democracia, até mesmo quando falar dessa temática era quase um crime público.
Na sua especialidade colaborou no «Jornal do Médico» e apesar de muito assoberbado no trabalho clínico, sempre marcou a sua presença, em prosa e em poesia, nas colunas dos jornais regionais, publicando sobretudo crónicas de intervenção política e alguns contos literários. Na imprensa regional algarvia colaborou, entre outros, no «Correio do Sul», «Jornal de Albufeira», «Notícias de Albufeira», «Jornal Escrito», etc.
Assumidamente desafecto ao salazarismo, sofreu o acostumado ostracismo institucional que o impediu de dar melhor contributo à sociedade algarvia. Após a «Revolução de Abril» foi, durante três mandatos (1983-87, 1992-96, 1997-2001), Presidente da Assembleia Municipal de Albufeira e director do Centro de Saúde de Albufeira desde 1975 a 1997.
Dedicando um dos seus livros ao escritor Manuel Ribeiro
Relativamente à sua obra, podemos dizer que no primeiro livro, Romance Residual, nota-se uma espécie de decantação de flashes vivenciais para curtas sintetizações poéticas, sem peias estilísticas nem regras de composição. No segundo livro, A Desordem da Harmonia, assistimos a um apuro da forma e a uma beleza convulsiva na imagética lírica, sentindo-se um certo amadurecimento do próprio poeta. No terceiro livro, Mosaico de Palavras Oblíquas, os poemas, ainda que livres e fluidos, emanam duma luz interior, como sonhos peregrinos que evidenciam uma personalidade em busca de um ideal maior ou de um ente supremo. No seu mais recente livro, Sobreposições, nota-se uma certa evolução na sua poesia para níveis mais elevados, seguindo modelos estéticos cada vez mais próximos dos figurinos clássicos.
Em toda a sua obra o Dr. Manuel dos Santos Serra mostra-se possuidor de um espírito esclarecido e erudito, mas parece algo inconsciente da inatingível mensagem da sua poesia. Entre o real e a utopia espraiam-se os versos, por vezes longos, por vezes curtos, sem respeitar cânones nem limites. A poesia acontece... livre.
Pertence à Ordem dos Médicos, à Associação Portuguesa de Escritores, à Associação dos Escritores Médicos, ao Círculo Teixeira Gomes, à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, e à Associação dos Amigos de Albufeira.
Da sua lista de obras fazem parte os seguintes títulos:
Romance Residual, 1991; A Desordem da Harmonia, 1992; Mosaico de Palavras Oblíquas, 1997, Sobreposições, 2001; À Sombra do Silêncio, 2005; Albufeira 1950 – monografia médica, 2007; O Olhar das Palavras, 2007; Os Labirintos da Memória, 2009; Pomar de Pedras, 2011; Miradouro do Tempo, 2013; Retalhos de Cidadania, 2013; Navio Ancorado ao Sol, 2015; Arquipélago de Vozes, 2015; As Margens do Rio de Horas, 2017 e Antologia Poética, 2018. A partir de 2005 todos os seus livros foram editados exclusivamente pela editora Caleidoscópio.
Acerca de Manuel dos Santos Serra publiquei no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. V, pp. 495-496, a respectiva notícia biográfica, cujos informes naturalmente aqui se aproveitam.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SANTOS, Maria Estefânia dos


Foi uma das mais notáveis figuras femininas da sociedade algarvia durante a primeira metade do século XX, mercê da sua bondade e do seu espírito de solidariedade perante os mais carenciados, providenciando o sustento e educação das famílias mais pobres. A sua benemerência e candura fez com que o povo da aldeia marítima de Ferragudo, assim como as populações limítrofes à cidade de Portimão, atribuísse a D.ª Maria Estefânia da Silva o carinhoso epíteto de "Mãe dos Pobres".
Sei que nasceu em Olhão, mas desconheço a data precisa do seu nascimento. Presumo que tenha nascido no ano de 1888 ou 1889, porque contava 72 anos de idade quando faleceu, nos princípios de Junho de 1961. Era esposa do Dr. Luís António dos Santos, um jurista de espírito socialista, que a ajudou a promover várias acções de benemerência e filantropia. Aproveito para acrescentar uma breve palavra sobre este ainda hoje ignorado homem de letras, cujo talento poderia ter-lhe granjeado um lugar cimeiro na literatura portuguesa. Não aconteceu assim porque, após a viuvez, remeteu-se a um inexplicável silêncio, preferindo acabar os seus dias numa espécie de exílio dentro da pátria.
Em vez da prática forense, preferiu o conforto e a segurança da função pública, exercendo com proficiência o cargo de Conservador do Registo Civil, em cujo exercício directivo se manteve até à aposentação, ocorrida na vila de Sintra. Era um homem de grande inteligência e sensibilidade, que nas horas vagas se dedicava a escrever contos e novelas, inspiradas na sua própria experiência de vida, resultantes da convivência local e regional, sobretudo com os pescadores da bela aldeia de Ferragudo. Assim nasceu o único livro dado à estampa pelo Dr. Luís António dos Santos, a que deu o título de Barlavento, uma colectânea de «histórias da Terra e do Mar, bem observadas e bem urdidas, em que a narrativa flui com a correnteza natural de quem à experiência humana, lúcida e profunda, une uma experiência literária e um talento, sem os quais a primeira não podia exprimir-se harmoniosamente» - palavras justas e sinceras, apensas pelo escritor Domingos Monteiro no prefácio desse livro.
Panorama da aldeia de Ferragudo em 1906
A sua esposa, D.ª Maria Estefânia dos Santos, carreara para o casamento significativos meios de sobrevivência económica, que lhe permitiram viver com grande dignidade. Mas, em vez de os reter e os explorar em seu benefício, sempre dedicou os seus réditos aos pobres, aos doentes, aos velhos e muito especialmente à educação das crianças. Nesse âmbito, prestou particular atenção à instrução das meninas, futuras mulheres e esposas, às quais dedicava o melhor do seu esforço, dos seus rendimentos e até do seu próprio amor maternal. A essas crianças soube ministrar uma educação considerada suficiente para superarem os obstáculos da vida. Além do ensino das primeiras letras numa escola primária oficial, patrocinou também a instrução doméstica das meninas durante o seu trajecto de vida, preparando-as para o casamento e para a constituição do lar conjugal. Nesse âmbito, merece especial destaque a sua acção no financiamento da «Congregação das Filhas de Maria», que ela própria viria a dirigir durante alguns anos. Também merece o nosso aplauso a sua dedicação ao «Seminário de Férias de Ferragudo», para as crianças e jovens menos favorecidas.
Embora a protecção e a educação das crianças tenha constituído a sua principal preocupação, não deixa de ser verdade que D.ª Maria Estefânia foi principalmente uma alma benfeitora, e, por isso, muito justamente cognominada de «Mãe dos Pobres», sobretudo dos filhos do mar, que na aldeia de Ferragudo lutavam com grandes dificuldades de sobrevivência.
Carrinha algarvia circulando na aldeia de Ferragudo em 1910
A sua morte foi muito sentida. O seu funeral constituiu uma verdadeira manifestação de dor e de pesar. Compareceram ao doloroso préstito milhares de pessoas, oriundas de todo o Algarve. Diz, quem lá esteve, que um silêncio profundo e uma indisfarçável infelicidade pairava nos corações e rostos daqueles milhares de cidadãos anónimos, de todas as classes sociais, que se associaram a esta última homenagem para reverenciar aquela que foi uma das mais caridosas almas da burguesia algarvia do século vinte.
Como durante a maior parte da sua vida destinou o rendimento das suas propriedades para a protecção dos pobres e para o benefício da Igreja, deixou exarado em testamento que essas rendas continuariam destinadas a fins de benemerência social. A casa onde residia doou-a em testamento para ser convertida na residência paroquial de Ferragudo, assim como dois outros prédios, sitos naquela freguesia, seriam igualmente legados à Igreja. Os restantes bens foram deixados à Misericórdia de Lagoa, para benefício dos mais desfavorecidos. São mulheres deste carácter, benemerente e caridoso, que não existem hoje na nossa sociedade, onde o egoísmo e a indiferença tomou o poder e o destino.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SILVA, Filipa Eugénia de Oliveira Serrão Ferreira da


Uma das mais apreciadas senhoras da sociedade farense na primeira metade do século XX. Creio que era natural de Faro, filha de muito boas famílias, casou-se com o empresário de artes gráficas e jornalista José Ferreira da Silva, que foi um dos fundadores do semanário farense «O Algarve», cuja vida editorial se espraiou por mais de um século de existência. Devido à sua longevidade editorial, granjeou desde os finais dos anos setenta do século passado até à primeira década deste milénio, o honroso epíteto de «decano da imprensa algarvia».
Além de muito caridosa, e sempre preocupada com os mais desfavorecidos, era também muito culta, conhecedora da nossa literatura clássica e sempre ocupada na leitura dos textos que se publicavam no “seu” jornal, sendo a primeira a fazer críticas e reparos aos colaboradores que visitavam a redacção do jornal. A um deles prestava os maiores desvelos, um engenheiro silvicultor que residia na cidade, e fazia o favor de colaborar no seu jornal, usando apenas as iniciais do seu nome, que por feliz coincidência eram exactamente iguais às do filho. Isso fazia crer no público que o velho Ferreira da Silva deixara descendência capaz de dar continuidade à sua obra. Mas ao filho faltavam qualidades de toda a ordem, inclusivamente tinha um feitio insuportável que lhe valeu o epiteto de “Silvinha marau”.
Com efeito, o pobre do Silvinha, não tinha jeito nenhum para a escrita, divertindo-se enquanto pode a gozar dos bens que os pais lhe haviam deixado. Só depois do falecimento da mãe, é que tomou juízo e se dedicou de facto ao jornal, prosseguindo a sua publicação, nem sempre com a regularidade desejável, por vezes com o simples objectivo de manter a tipografia que herdara em laboração.
Na sua qualidade, burguesa e educada, D. Filipa Serrão e Silva fez-se irmã da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, uma organização religiosa de leigos muito selectiva nos seus aderentes. Dizia-se que na Ordem do Carmo só entrava a elite de Faro. E, de facto, assim era. Em todo o caso, era uma senhora muito bondosa e profundamente crente, sempre presente na missa dominical e nas festas religiosas da cidade, doando aos mais necessitados esmolas e bens de primeira necessidade. Razão pela qual gozava de gerais simpatias da choupana ao palácio. Já no fim da vida sobreveio-lhe uma doença que progressivamente lhe foi minando a saúde até ao desfecho final, que foi lento e doloroso.
Além de esposa amantíssima foi mãe extremosa de Dª. Basilisa da Conceição Serrão e Silva, que conheci muito bem, imitando a mãe como presença, nem sempre regular na tipografia e redacção do jornal; e de Artur José Serrão e Silva, que assumiu a direcção da empresa gráfica e do semanário «O Algarve».
Quando Dª. Filipa Serrão e Silva faleceu, a 17 de Agosto de 1952, com a apreciável idade de 79 anos, já era de há muito viúva daquele saudoso jornalista, José Ferreira da Silva, fundador e director do semanário farense «O Algarve».

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

José Mora, um artista algarvio que se perdeu no altar da fama


Nos finais século XIX, princípios do seguinte, era Lisboa, então como hoje, não só a capital do Império, como também o fulcro da cultura e da criação artística nacional. Razão pela qual se transformara num autêntico magnete de sedução e aliciamento para os novos e mais promissores talentos nacionais. O jovem algarvio José Mora, foi mais um dos que emigraram para a capital à procura de uma oportunidade de vida e do tão almejado sucesso. Alcançou-o, embora vagamente, no teatro.
Igreja matriz de Portimão, centro cívico do velho burgo
 Os primeiros paços na Arte de Talma iniciou-os na sua terra natal, a sempre próspera mas ignorada Vila Nova de Portimão, centro portuário de grande projecção regional, pelo qual se escoavam muitas toneladas de conservas de peixe, de figo, amêndoa, azeite, vinhos e aguardentes, cortiça, esparto, e uma miríade de outras produções locais, de entre as quais se distinguiam os citrinos de Silves. Várias foram as famílias que naquele porto se distinguiram e enriqueceram pelo seu empreendedorismo, desde os Bivares aos Vilarinhos, fomentadores da indústria corticeira, dos Júdice Fialhos, os Feus, magnatas da indústria transformadora das pescas, passando pelos escritórios de exportação da família Teixeira Gomes, que viria a distinguir-se na política, chegando à mais alta magistratura nacional, mas também na literatura portuguesa, conquistando lugar de destaque entre os maiores do seu tempo.
Vista parcial de Vila Nova de Portimão, cerca de 1906
Deixando o seu grupo de amadores e os improvisados tablados, que a muito sacrifício se erguiam nas associações operárias, passou depois José Mora a tentar a sua sorte no Teatro Lethes, em Faro. Distinguiu-se logo pelo fulgor histriónico da sua voz, e pela estampa física, tenteando o êxito em pequenos monólogos poéticos e depois em peças mais exigentes de autores consagrados. A família Cúmano, sustentava o palco e a Companhia do Lethes, com a ampla generosidade da sua avultada fortuna, que apesar de tudo não conseguiu resistir à morte do seu principal promotor, nem à crise provocada pelo célebre Ultimatum, que no fim de século exauriu as finanças públicas e mergulhou o país na maior carência e austeridade. Perante a realidade, dura e crua, não restava ao jovem José Mora outra solução senão rumar à capital, para onde, aliás, se costumavam dirigir os que nesse tempo dessem provas de talento e de competência profissional.
O antigo Teatro Avenida em Lisboa, hoje inexistente
Mercê das suas capacidades naturais de inteligência para se adaptar à interpretação, e da sua prodigiosa memória para decorar rapidamente os papéis de cena, em breve arranjaria trabalho. Esteou-se, ao que parece, no Teatro Avenida, do conceituado empresário Luiz Galhardo, a 7 de Agosto de 1914. Mas um amigo, reconhecendo-lhe as qualidades levou-o para a Companhia Taveira, no Teatro da Trindade, que aliás já o conheciam aqui do Lethes. Pouco depois foi para o Teatro Gymnasio, do célebre Actor Valle – que também já tinha vindo a Faro – e dali não tardou a ir para o Teatro D. Amélia, cujo empresário, o ilustre Visconde de S. Luiz Braga, pontificava pela descoberta dos melhores talentos na Arte de Talma, que dali seguiam quase todos para os glorificados palcos do S. Carlos e D. Maria.
Os antigos Teatros de Lisboa
Com que pena, à distância de mais de um século, avaliamos hoje a carreira de José Mora, uma grande promessa do teatro na capital, em cujos tablados, e eram muitos, se representavam diferentes géneros, da tragédia à comédia, com particular relevo para a interpretação das peças de grandes vultos da dramaturgia nacional, desde Garrett, Herculano, Pinheiro Chagas, Mendes Leal, D. João da Câmara, Lopes de Mendonça, Marcelino Mesquita até ao jovem Júlio Dantas. Tivesse ele mais juízo e mais cuidado na escolha das suas amizades, e certamente estaríamos hoje a falar de uma grande figura do tablado artístico nacional. Deixou-se seduzir pela estúrdia da vida nocturna, misturando a bebida com os amores mercenários, confundindo as exigências do trabalho com o laxismo da boémia. Em breve começou a dar sinais de decadência. Faltava aos ensaios, embriagava-se com a malta da estiva, contraiu doenças, desempregou-se, enfim… apressou a morte, quando os traços da juventude ainda ornavam o seu rosto de Apolo.
Perdeu-se um talento que dera sinais de grande exuberância no papel do Romão Alquilador, nessa imortal peça «A Severa» de Júlio Dantas, que depois se transformaria num dos romances de maior sucesso na literatura portuguesa. Na opinião dos melhores críticos de teatro, com assento na imprensa do início de século, foi José Mora muito elogiado, não só na «Severa» como ainda nos dramas de «Maria Antonieta», na «Morgadinha de Valflor», de Pinheiro Chagas, na comédia «Negócios são Negócios», e em muitas outras que já não chegou senão a papéis secundários.
Nasceu este desafortunado rapaz na então Vila Nova de Portimão, em12 de Agosto de 1879 e faleceu em Lisboa a 29 de janeiro de 1928, com 48 anos de idade. É assim a vida artística, por vezes por vezes o caminho do êxito e da fama torna-se tão sinuoso e labiríntico que pode conduzir os incautos à caverna do Minotauro.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Sebastião Ferreira, notável professor e digno fundador da Mutualidade Popular de Faro

Sebastião Ferreira
Recordo hoje o professor Sebastião José Ferreira, um notável professor primário, que educou gerações no elevado sentido do termo educare, isto é, formar e modelar o carácter das crianças, transmitindo-lhes valores éticos e morais, indicando-lhes o sentido da fraternidade e do bem comum. É hoje uma figura absolutamente ignorada, quer em Loulé, sua terra-natal, quer em Faro, onde pontificou um lugar de destaque na sociedade do seu tempo através da fundação da Mutualidade Popular, uma espécie de sindicato e montepio da classe dos professores primários no Algarve.
Sebastião José Ferreira, foi professor e inspector do Ensino Primário. Nasceu em 1880, na progressiva vila de Loulé, e veio a falecer em Lisboa (na casa de seu genro, o conhecido e igualmente muito estimado Dr. Faustino Vidal) a 14-10-1953, com 73 anos de idade.
Como professor primário chegou a desfrutar de certa proeminência social, não só pelas suas naturais aptidões para a docência, como ainda pela forma afável e compreensiva como tratava as crianças, sobretudo nos momentos cruciais da sua avaliação final, já que Sebastião Ferreira foi examinador regional da instrução primária, qualidade em que percorreu diversos estabelecimentos de ensino. Sabemos também que desempenhou o seu múnus profissional em vários pontos do Algarve, após o que se fixou em Faro, onde mercê das suas qualidades humanas e profissionais recebeu justíssimos louvores dos seus concidadãos, que lhe reconheceram atributos de honra e de bondade dignos da maior reverência. A sua experiência e competência profissional valeram-lhe a tão honrosa quanto justa nomeação para o cargo de Inspector do Ensino Primário, que julgo ter exercido quase exclusivamente no Algarve, e em cujas funções se reformaria pouco antes de se declarar a doença que lhe roubaria a vida.
O prof. Sebastião Ferreira, tornou-se pelo seu diamantino carácter numa das figuras mais distintas de Faro, não só pela dedicação à educação das crianças, como particularmente com a situação económica e profissional dos seus colegas, de cujo desempenho dependia a formação intelectual e social das gerações futuras. Por essa razão foi convidado a participar nos corpos gerentes da Mutualidade Popular de Faro, que ajudara a fundar, e que era uma espécie de montepio dos professores primários. A essa brilhante instituição, que ainda hoje existe, prestou assídua colaboração, devendo-se-lhe os mais valiosos e relevantes serviços.
O seu carácter bondoso e afável, as suas atitudes de constante e discreta benemerência, não lhe deixavam ter rivais nem inimigos, criando à sua volta uma verdadeira onda magnética de empatia social. A bem dizer toda a sociedade farense da primeira metade do século XX, tinha pelo Prof. Sebastião Ferreira, uma profunda amizade, verdadeira estima e grande consideração.
Foi casado com D. Maria da Piedade Ferreira, de quem teve duas filhas, duas notáveis mulheres do seu tempo, que ainda tive o prazer de conhecer pessoalmente, refiro-me à Dr.ª Noémia Ferreira Nabais, ilustre médica que exercia clínica em Lisboa, casada com o não menos famoso Dr. Faustino Vidal Nabais; e à Dr. Nídia Ferreira Neto, advogada de sólida formação intelectual e cidadã da mais rara sensibilidade cultural, que foi delegada do Instituto Maternal do Algarve, casada com João da Silva Neto, um dos mais ricos proprietários do Algarve, que foi vereador da Câmara de Faro e director da Companhia de Pescarias do Algarve, da qual era um dos principais accionistas. O seu filho, o Dr. João Manuel Ferreira Neto, foi um dos mais prestigiados funcionários superiores da TAP, falecido no declinar deste século, poucos meses depois da morte da sua querida mãe, cidadã das mais ilustres de Faro.
Jardim Manuel Bivar, cerca de 1940

Vem a talhe de foice lembrar que a residência de Sebastião Ferreira e a vastíssima propriedade onde nasceu a Dr.ª Nídia Neto foram expropriadas pelo Estado, e por ínfimo valor, nos conturbados anos do pós “25 de Abril”, para nela se erigir o Instituto Politécnico de Faro, depois transformado em Campus da Penha da actual Universidade do Algarve. A casa apalaçada que hoje se encontra junto à avenida de acesso à estrada de Olhão, estava anteriormente situada nas imediações da actual Escola Superior de Tecnologia.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Mário de Oliveira, um jornalista na fundação e organização competitiva do futebol algarvio, nos primórdios do século XX

Numa altura em que muito se fala, nos órgãos de comunicação desportiva, sobre o reconhecimento e validação dos campeonatos de futebol realizados a partir de 1921 até 1934, ocorreu-me evocar aqui a memória de um grande jornalista, que quando ainda vivia em Faro, sugeriu a formação de torneio de futebol que englobasse todos os clubes do país. Foi, por isso, escolhido para fazer parte da comissão organizadora do primeiro campeonato de Portugal, realizado em 1921, conquistado pelo Futebol Clube do Porto.
Mário de Oliveira, numa
das suas últimas fotos
Chamava-se Mário Fernando de Oliveira, embora ficasse conhecido pelo primeiro e último nome, por ser desse modo que sempre assinou os seus escritos, ao longo da sua profícua existência de homem público. Além da sua actividade profissional, desenvolvida numa das maiores empresas públicas do país, os CTT, ocupava os seus tempos livres na divulgação e fomento do desporto, mais propriamente na implementação do futebol. Pode dizer-se que, a seguir ao artista e professor Carlos Lyster Franco (principal divulgador do futebol, nomeadamente das suas regras junto das camadas jovens), foi Mário de Oliveira quem mais se dedicou e se destacou na formação e organização competitiva do futebol no Algarve. Presumo que nunca lhe prestaram qualquer homenagem de gratidão e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos princípios do século passado não só no fomento do desporto como também no jornalismo, nomeadamente na fundação do jornal «A Bola», que ainda hoje se publica.
Inspector reformado dos CTT e conceituado jornalista da imprensa diária e regional, Mário Fernando de Oliveira, nasceu em Lisboa, a 26-11-1890 e faleceu na capital a 25-5-1969, com 78 anos de idade. À data do seu falecimento era considerado como o decano dos jornalistas desportivos, tendo ainda a glória de ser um dos últimos sobreviventes que fundaram o “glorioso SLB” – Sport Lisboa e Benfica. A este propósito devo acrescentar que o jornalista, Mário Fernando de Oliveira, era em 1945 o sócio nº 85 do Sport Lisboa e Benfica, cabendo-lhe a honra de ter sido o último plumitivo a fazer uma entrevista a Cosme Damião, publicada na edição nº 11, de 5-3-1945, do jornal «A Bola». Para os benfiquistas a figura de Cosme Damião é quase mítica, pois além de ter sido um dos fundadores do clube, foi também atleta e capitão da equipa, treinador, dirigente e, por fim, jornalista desportivo ao serviço das “águias”.
Praça da Rainha, em Faro, em torno do «Jardim do Ba-
   calhau» realizaram-se as primeiras corridas de bicicletas
Estudou no antigo Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, onde concluiu o curso especial de telégrafos que lhe permitiu, em 1909, ingressar nos C. T. T. como aspirante auxiliar.
Em 1911 veio para Faro desempenhar o cargo de chefe de serviços da secção electrotécnica dos Correios Telégrafos e telefones de Portugal, aqui se demorando até 1916. Durante esse período dedicou-se também ao jornalismo, colaborando não só na imprensa local como ainda em órgãos da capital, enviando daqui notícias sobre diversos assuntos da política, da indústria pesqueira e do desenvolvimento regional. Entre 1912 e 1916 foi colaborador e depois assumidamente redactor de «O Algarve», semanário de Faro, fundado em 1908, que foi o decano da imprensa algarvia. Durante a sua estadia no Algarve dedicou-se à divulgação do desporto – ciclismo, natação e sobretudo do futebol –, tendo-se empenhado na oficialização estatutária dos clubes locais, na composição de torneios regionais e na organização dos meios reguladores da prática desportiva. Nesse âmbito, foi designado como delegado da Associação de Futebol do Algarve para integrar a comissão organizadora do primeiro Campeonato de Portugal.
Praça D. Carlos I, local onde se organizaram os primeiros
desafios de futebol com os alunos do Liceu de Faro
No prosseguimento da sua vida profissional, transferiu-se em 1926 para Lisboa, a fim de assumir a chefia da circunscrição técnica de Lisboa, passando em 1935 a chefe dos serviços telefónicos da capital. Todas as promoções nos C. T. T., foram alcançadas por meio de concurso ou de provas públicas, e sempre com as melhores classificações. Pertenceu ao conselho disciplinar dos C. T. T., e redigiu o primeiro regulamento interno daquele organismo. Foi director da Associação de Classe do Pessoal Maior dos Correios e Telégrafos e redactor do «Boletim» que lhe serviu de órgão público. Foi chefe de serviços de 1.ª classe até que se reformou no quadro de inspectores dos CTT.
Como jornalismo desenvolveu ao longo da vida uma intensa e meritória actividade, sobretudo nos órgãos de informação desportiva. Assim, entre 1916 e 1920 foi colaborador de «O Sport» de Lisboa, e seu director de 1921 a 1924; escreveu assiduamente e com inspirada mordacidade, de 1922 a 1923, no «Cega-Rega», semanário humorístico, dirigido por Raul Neves Reis; foi redactor desportivo, em 1924, de «A Pátria», jornal dirigido pelo Dr. Nuno Simões, distinto intelectual e homem público; foi director de «O Sport Ilustrado» em 1934 e do semanário de critica sociopolítica «Pão, Pão...». Como redactor e colaborador pertenceu aos quadros de «Os Sports» (1925-1931); do «Correio Desportivo» (1926); de «A Bola» (desde 1932); do «Stadium» (1933); do «Sprint» (1934); da «Voz Desportiva», de Coimbra; etc. Colaborou quase até ao fim da vida na secção desportiva do jornal «O Século», etc., etc.
Capa da primeira história do SLB, uma
obra de referência de Mário de Oliveira
Acresce dizer que Mário de Oliveira ocupou ao longo da vida importantes cargos directivos nas Federações Portuguesas de Ciclismo e de Natação. Aliás foi por sua iniciativa que se começaram a realizar as corridas anuais de ciclismo designadas por «Chama da Pátria», que se mantiveram durante a vigência do regime salazarista. como uma festiva expressão popular do desporto nacional. Também ao seu espírito de iniciativa, dedicação e capacidade de trabalho, se ficou a dever organização do I Congresso Nacional de Futebol, realizado em 1938 na capital, comemorando-se dessa forma o 50.º aniversário da introdução do futebol em Portugal.
Como publicista deu à estampa os seguintes títulos: No Forte de Caxias, Lisboa, 1918; O Treino do Nadador, Lisboa, 1934; A Organização Nacional do Futebol e as suas grandes competições nacionais, tese apresentada no I Congresso Nacional de Futebol, realizado em Lisboa, em 1938, por iniciativa do jornal «O Século». No concurso de novelas desportivas, levado a cabo pelo jornal «Os Sports», obteve um dos primeiros prémios pela novela publicada naquele órgão. Como fervoroso adepto benfiquista, publicou de parceria com Rebelo da Silva, seu colega na redacção do «Século», o livro História do Benfica, que obteve largo êxito, sendo hoje quase uma raridade bibliográfica.

sábado, 30 de dezembro de 2017

MARTINS, Dr. António Pedro da Silva

Dr. António Pedro da Silva Martins

Poucos se lembrarão hoje deste médico, natural de Portimão, que alcançou grande prestígio em Lisboa, onde teve reputação de proficiente, bondoso e solidário com os desafortunados da vida. Chamaram-lhe, como aliás acontecia com muitos outros, “o médico dos pobres”, por exercer a clínica de forma graciosa e com a generosidade de ainda lhes oferecer os medicamentos. Era assim, de carácter pródigo e fraterno, a que acrescia uma personalidade afectuosa, cordial e filantrópica.
Tinha sempre uma palavra de conforto e, sobretudo, de esperança para com os seus doentes, que o procuravam de todo o país, atraídos pela sua fama de competência e bondade. Mas era também franco e leal, enérgico e decidido, quando precisava de tomar medidas urgentes, imprescindíveis e necessárias ao sucesso do seu múnus profissional. Na sua mente corria sempre o ideal de servir os fracos e os desprotegidos, e talvez por isso nem sempre fosse bem compreendido pelos seus pares. Aos jovens costumava dizer que a liberdade só podia alcançar-se através da educação, da perseverança e dedicação ao trabalho, isto é, da instrução académica e da competência profissional. E disso fez o seu lema de vida.
Nasceu em 1893, na então Vila Nova de Portimão, onde após a escolarização básica e secundária, transitou para o Liceu de Faro, em cuja cidade viveu e sentiu os conturbados tempos da implantação da República. Seguiu depois para a Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Medicina com distinção. Aí fixou residência e abriu depois consultório, na esquina da Rua do Salitre para a Praça da Brasil.
Ainda jovem aderiu ao Partido Republicano Português, filiando-se depois no Partido Democrático do Dr. Afonso Costa, cujas ideias e propostas políticas se coadunavam com o seu espírito humanista de democrata interventivo. Talvez pela sua refulgente inteligência ou pelo seu activismo social, tivesse o nome chegado aos ouvidos do Dr. Leonardo Coimbra, um homem do norte, franco e leal, enérgico e empreendedor, cujas ideias revolucionárias e notável sucesso como filósofo e literato, justificaram a sua ascensão para sobraçar, por duas vezes, em dois ministérios distintos, a pasta da Instrução Pública. O último dos elencos a que deu o seu contributo político, foi em 1923, no 37º governo da República (7-12-1922 a 15-11-1923), liderado pelo célebre António Maria da Silva, fundador da Carbonária e Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano. O honrado, mas efémero, ministro da Instrução, Leonardo Coimbra, chamou ao seu serviço, na qualidade de secretário particular, o jovem médico Dr. António Pedro da Silva Martins, que infelizmente não chegou a aquecer o lugar, por à imagem e semelhança da vida governativa republicana, não ter durado o seu ministério senão algumas semanas. Em todo o caso, daí terá nascido uma amizade que perdurou até à morte prematura daquele que foi um dos maiores intelectuais do século vinte. Lembro que da iniciativa de Leonardo Coimbra que surgiram as Escolas Primárias Superiores, destinadas à formação de professores; recordo que foi ele quem reformou a Biblioteca Nacional; quem fundou a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde foi professor e director; quem congregou o cenáculo intelectual da «Nova Seara» e da «Renascença Portuguesa», cujo órgão literária «A Águia» seria das revistas de maior sucesso no seu tempo; lembro, por fim, que foi ele quem fundou as Universidades Populares, que por todo o país levaram as luzes da ilustração aos cidadãos anónimos da classe operária.
A amizade com Leonardo Coimbra fez com que Silva Martins aceitasse o seu convite para leccionar nas antigas Escolas Primárias Superiores, depois designadas como Escolas do Magistério Primário, mantendo-se ligado ao ensino, como médico escolar, até se reformar do funcionalismo público no Ministério da Educação.
Vila Nova de Portimão, zona portuária, em 1914
Nunca esqueceu a sua terra natal, onde vinha com frequência visitar familiares e passar férias na Rocha, sendo essa a razão por que aceitou dirigir o Hospital da Misericórdia de Portimão, durante alguns meses, creio que no início da década de cinquenta do século passado.
Na sua casa da Rua do Salitre, em Lisboa, recebia doentes a toda a hora, sem qualquer tipo de discriminação, social ou económica, sempre com aquele espírito de missão humanitária que os verdadeiros discípulos de Hipócrates sabem desenvolver em prol dos desafortunados.

Faleceu em Lisboa, no dia 27 de Outubro de 1952, com 59 anos de idade, deixando viúva Dª Adelaide Augusta Monteiro da Silva Saturnino Martins, senhora de preclaras qualidade morais que sempre muito de contristava com o facto de não lhe ter dado a felicidade da descendência. Era irmão do prestigiado comerciante em Portimão José Tadeu da Silva Martins, casado com Isabel Cabrita Tadeu Martins, e tio de Maria de Lurdes Tadeu de Almeida Henriques, casada com o Capitão João Afonso Henriques; de Maria José Tadeu de Almeida Figueiredo, casada com o Tenente Josefeth Monteiro de Figueiredo; e de António Pedro Tadeu de Almeida Martins, à época ainda aluno do Instituto Industrial de Lisboa.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Um belo soneto místico de Cândido Guerreiro


Entre os mais consagrados poetas do Algarve assume particular relevo a obra lírica de Cândido Guerreiro, cujo aspecto físico de místico ancião, com longas barbas brancas, conferiam-lhe o sagrado halo bíblico de um velho profeta. Ainda hoje respeitamos a sua memória, e lembramos com eterna saudade a sua inspiração de aedo latino, que cantou com invejável beleza a mensagem de Deus, a primazia do Amor e da Virtude, a suprema grandeza da Pátria, os desígnios do Homem e da Família, a hegemonia da Estética e a prevalência do Belo e da Perfeição, na figura tutelar da mulher e da mãe.
Cândido Guerreiro, aos 80 anos de idade
De todos são conhecidas as suas humildes origens, na serrenha aldeia de Alte, em cujas fontes bebeu muita da sua inspiração poética e do seu refulgente génio criativo, transmitido à luz da estampa nos mais belos sonetos de que se pode ufanar a lírica algarvia. A sua obra assenta na trindade lírica do Amor, como valor supremo da existência humana, na transfiguração da vida através do mistério da Morte, e na eternidade de Deus. Não houve na nossa poética contemporânea um emitente da palavra divina com tão genial inspiração como Cândido Guerreiro, sem todavia cair na singeleza lamechas do beato que faz da poesia uma espécie de oração hipócrita do fanático devoto. Não, o poeta Cândido Guerreiro nunca teve uma postura cívica que se pudesse dizer comprometida com a religião ou com a Igreja. No dealbar da República chegou mesmo a protagonizar rebarbativas polémicas e a sustentar infelizes diatribes com o clero louletano. Foram episódios desagradáveis que encheram as colunas dos periódicos da época, e dos quais julgo que nenhuma das partes saiu incólume. O próprio poeta a eles se haveria de referir, mais tarde, como arrebatamentos do espírito republicano – excessos que o tempo justificava, mas que com o avançar da idade lhe suscitavam um certo constrangimento, a par de um intrínseco arrependimento.
Cândido Guerreiro foi um fecundo e vibrante idealista que amava a Liberdade, julgando nela personificados os supremos ideais da República. Enganou-se, ou melhor, foi vítima das circunstâncias da vida e do tempo, que transformaram as quimeras da República numa panaceia infundida no embuste e na ilusão.
Apesar da sua liberalidade política, e do seu republicanismo ideológico, Cândido Guerreiro foi, acima de tudo, um poeta, que deixava transparecer nos seus versos a personalidade de um homem crente, pleno de fé e de espírito religioso. Os sonetos de Cândido Guerreiro, na sua pluridiversidade temática, exaltam o Amor, a Mulher, o Algarve, Deus, e a Morte. Todavia, a maioria dos seus belos sonetos evidenciam um profundo misticismo, um indisfarçável espírito religioso. A figura imaculada da mulher, a divindade feminina e a Virgem Maria, são uma contante presença nos seus versos. O mesmo acontece nos poemas dirigidos à divina corte do reino dos céus, que glorifica a hagiografia da fé católica, com magistrais sonetos, que poderiam considerar-se orações religiosas, para honra e graça dos nossos santos mais populares, como Stº António, S. Vicente, S. Tomás de Aquino, S. Lourenço, S. Tiago ou até mesmo a nossa Rainha Santa Isabel, de tão grata memória para os pobres e desvalidos.
É nesse espírito místico, religioso, crente e devoto que se inscreve este soneto, «O Cipreste», oferecido pela mão do próprio poeta ao seu amigo Dr. Amadeu Fereira d’Almeida, embaixador, escritor, colecionador de arte e mecenas das letras pátrias, no qual resplandece o simbolismo da árvore que homenageia no campo de batalha a glória dos heróis, e no campo santo a saudade dos vivos pelos seus entes queridos.
O remate deste soneto relembra a perenidade da vida face à certeza da morte, sem deixar de iluminar a escuridão do Fim com a luz da Esperança, que há-de refulgir no dia da Ressurreição, abrindo princípio a uma diferente forma de existência.
Ouçamos então este belo soneto de Cândido Guerreiro, um louvor à esperança e uma perseverante afirmação da fé religiosa na redenção da vida humana.

O Cipreste

Eilo: milagre d’uma sepultura
Alevantou aos ares a folhagem
E é agora o Monarca da paisagem,
O Senhor da Montanha e da lonjura.

Aponta para o céu: nesta mensagem,
Nesta oração da terra para a altura,
Homens ou aves: é a mão segura
Que vos indica o rumo da viagem.

E a humana argila, abscôndita e defunta
Em pirâmide verde convertida,
Em verde chama enorme de lucerna,

Exclamação e súplica, pergunta:
- Quando serei eu luz n prometida
Ressurreição da Carne e Vida Eterna?



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

CRUZ, José Nunes da

Ambulância dos Bombeiros da Cruz Lusa de Faro
Funcionário da Junta Autónoma das Estradas, natural de Lisboa, faleceu a 10-5-1953, em Faro, com 69 anos de idade.
Veio para o Algarve no exercício do seu múnus profissional e fixou residência em Faro por volta de 1923, tornando-se num cidadão muito apreciado pelas suas qualidades de trabalho e igualmente respeitado pela sua nobreza de carácter, lhaneza de trato e esmerada educação.
Muito preocupado com as questões de solidariedade social, fundou a Associação dos Bombeiros Voluntários da Cruz Lusa, da qual foi durante largos anos esforçado comandante, sacrificando em benefício dos outros a sua disponibilidade e muitos dos seus bens.
Em reconhecimento da sua dedicação ao bem comum a edilidade farense atribuiu o seu nome a uma das artérias da cidade.
Carro da Escada Magirus dos Bombeiros de Faro
Foi casado com D. Maria Luísa Correia Nunes da Cruz, de quem teve cinco filhos: Maria José Correia Nunes da Cruz Seruca, casada com Lister Morgado Seruca, que foi um dedicado funcionário da CUF, então residente no Barreiro; Maria Luísa Correia Nunes da Cruz de Castro, casada com Fernando Marques de Castro, secretário da circunscrição do Chinde, na antiga província do Zambeze em Moçambique, depois transferido para a cidade do Porto; e Carolina Correia Nunes da Cruz, António Correia Nunes da Cruz, ambos alunos do Liceu de Faro, e José Correia Nunes da Cruz, à época aluno do Instituto Superior Técnico.
Ao seu funeral compareceram representantes das principais corporações de Bombeiros do país, ficando o féretro de José Nunes da Cruz depositado no talhão dos Soldados da Paz no Cemitério da Esperança, em Faro.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

A minha homenagem a Pete Seeger, e à música Folk

Em 19 de Maio de 2014 escrevi no Facebook uma breve evocação de um dos mais acérrimos defensores da liberdade e da igualdade de direitos nos EUA, Pete Seeger, que com seu inseparável banjo cantou, declamou poesia, discursou e comocionou os que escutavam a sua mensagem humanista. Muitas vezes foi insultado, agredido e impedido de poder comunicar a simples mensagem de que todos os homens são iguais, qualquer que seja a sua raça, credo ou nacionalidade. Viveu mais de noventa anos, sempre insatisfeito com a falta de solidariedade e de compromisso global com a paz. Faleceu a 27 de Janeiro de 2014.
Transcrevo agora o que sobre ele escrevi no Facebook, para que fique eternamente lembrado no meu blogue.
Nas ocupações da vida, que nos absorvem a alma, deixei passar em claro a notícia da morte Pete Seeger, aquele que foi talvez o pai da música Folk americana. 
Acima de tudo, Pete Seeger foi um grande democrata e um incansável defensor dos direitos humanos. Lembro-me das suas pacíficas campanhas contra a guerra no Vietname e das repercussões que isso teve nos jovens europeus da minha geração.
Apesar da minha paixão por tudo o que é genuinamente português, confesso-me um admirador incondicional da musica Folk, sobretudo da música de Pete Seeger e dos acordes do seu Banjo, nomeadamente quando nele se fazem sentir as influências europeias do folclore irlandês e escocês. 
Quando eu nasci já Pete Seeger lutava há muito pelos direitos das minorias raciais nos EUA e pela implementação plena da democracia no seu país. Por isso foi preso, várias vezes, suscitando enorme escândalo no país que se considera o berço da democracia moderna. Usou a música Folk para divulgar a sua mensagem de liberdade e de fraternidade para toda a humanidade. Essa batalha não foi ainda ganha e Pete Seeger acabou por deixar este mundo, aos 94 anos de idade, na passado dia 27 de Janeiro, com o travo amargo de quem tinha ainda muito para fazer, muito para lutar e muito de bom para oferecer à humanidade.
Ao longo da vida coleccionou inúmeros êxitos, que lhe deram fama, glória e fumos de eternidade. De entre todas as suas canções, aqui vos deixo uma que foi um êxito na voz de Bob Dylan e de Joan Baez. O video que vamos ouvir foi feito muito próximo da sua morte, no meio das crianças que tanto amava, numa espécie de jamboree da juventude. A canção intitula-se "Forever Young" e, no fim, podem ainda ouvir os inconfundíveis acordes do seu tradicional Banjo. Desfrutem da belíssima mensagem filosófico-poética desta canção que, apesar da idade de Pete Seeger, consegue-se discernir na sua plenitude. Espero que se comovam (como eu me comovi) com esta simbiose entre a velhice e a juventude, numa esperançosa mistura da sabedoria com a inocência.

Aqui vos deixo o poema da autoria de Bob Dylan não sua versão original. Na sua singeleza é absolutamente magistral.


May God bless and keep you always
May your wishes all come true
And let others do for you
May you always do for others
And climb on every rung
May you build a ladder to the stars May you stay forever young.
May you always know the truth
May you grow up to be righteous May you grow up to be true And see the lights surrounding you
Forever young, forever young
May you always be courageous Stand upright and be strong And may you stay forever young. May you stay forever young.
When the winds of changes shift
May your hands always be busy May your feet always be swift May you have a strong foundation May your heart always be joyful
May you stay forever young.
May your song always be sung And may you stay forever young.
Forever young, forever young

https://youtu.be/Ezyd40kJFq0


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Uma figura do Iberismo, cônsul de Espanha em Faro

Panorâmica da antiga doca de Faro na década de vinte
Uma das figuras que permanece ignorada na cultura algarvia e até mesmo nas relações transfronteiriças luso-espanholas, é a de D. Álvaro Seminário, que nos princípios da sua carreira diplomática, precisamente em 1923-1924, exerceu na cidade de Faro as funções de Cônsul de Espanha. Durante essa curta passagem deixou no seio da elite farense um perfume de elegância, de donjuanismo, muito raro e invejável, numa sociedade ronceira e provinciana.
Em todo o caso, deixou sólidas amizades e uma grande admiração entre os mais recatados e ilustres farenses, para não falar já dos corações dardejados pelo traiçoeiro cupido, abandonados à pressa por uma retirada estratégica. 
Jardim Manuel Bivar e praça de táxis de Faro, anos vinte
Elegante e afável no trato, cativava facilmente amizades, até pela sua sólida cultura, aliás demonstrada no livro de memórias e sensações que publicou com o título de «España y Portugal - Incitaciones a una política de acercamiento espiritual», publicado pela famosa editora Espasa-Calpe, em 1940. Nesse livro deu relevo ao amor que sentia pelas duas pátrias que trazia no coração, advogando com sincera convicção a necessidade de estreitamento das relações políticas, económicas e culturais entre os dois países irmãos, dando como exemplo as opiniões de vários outros escritores, que haviam anteriormente sugerido um abatimento das fronteiras físicas em prol duma união intelectual da velha Ibéria. Essa ideia não era nova, pois já havia sido propalada nos anos setenta da centúria de Oitocentos, tendo então entre nós como principais defensores os mais conceituados intelectuais republicanos e socialistas, de entre os quais destaco Antero de Quental, Teófilo Braga, Júlio de Matos e Oliveira Martins.
Capa da obra de Álvaro Seminário
Na sociedade farense dos loucos anos vinte, Álvaro Seminário marcou posição de relevo, não só pela sua admirável educação como também pela sua cativante cavaqueira no Clube Farense, na Havaneza e nos cafés mais concorridos da cidade, onde fazia amigos com extrema facilidade. Pode mesmo dizer-se que foi um dos cônsules espanhóis que mais simpatias soube arrecadar na burguesa cidade de Faro.
Distinto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, não admira que fosse galardoado com numerosas condecorações, de entre as quais assume particular destaque a Comenda da Ordem de Cristo com que o governo português o soube premiar pela leal amizade que dedicou ao nosso país.
Álvaro Seminário Martinez, de seu nome completo, após uma brilhante carreira diplomática, retirou-se da política no pós-guerra, na qualidade de Ministro plenipotenciário de Espanha para a América Latina, vindo a falecer na sua residência em Madrid, a 30-12-1950.
Embora não tivesse ocupado o melhor do seu tempo na escrita, sei que da sua autoria se publicaram ainda os seguintes livros:
Cuadernos de Derecho Consular, 1932; El consul de España en América, 1935; El doctor James Brown Scott y los teólogos españoles de los siglos XVI y XVII, 1946 [conferencia pronunciada por Álvaro Seminario, Ministro Plenipotenciario, director de política de América].