sexta-feira, 8 de março de 2019

A origem histórica do Biquíni


Diz-se que a criação do biquíni teve origem no racionamento de tecidos e no baixo poder de compra das mulheres, durante o período da II Guerra Mundial, em cujo decurso um francês, engenheiro de automóveis, de seu nome Luis Réard, desenhou o traje de banho feminino ao mínimo, a que deu o nome de “Bikini”. Lembrou-se dessa designação porque a sua criação era uma verdadeira bomba atómica no mundo da moda. Ora, como dias antes, em Julho de 1946, os Estados Unidos haviam realizado uns testes nucleares na Micronésia, Oceano Pacífico, destruindo por completo o Atol de Bikini, pareceu-lhe que esse nome poderia ser adoptado ao seu modelo como uma forma de homenagem, mas também de protesto, pela destruição do ambiente e pelo uso de armas de destruição maciça.
Brigitte Bardot, aos 19 anos, em Cannes, causando
enorme sensação com o seu provocante biquíni
O projecto era tão ousado que nenhuma modelo se dispunha a usá-lo em público. Por isso Réard teve de contratar uma stripper, de corpo escultural, chamada Micheline Bernardini, que se dispôs a usá-lo num desfile de moda, junto a uma piscina, em Paris, a 11 de julho de 1946. O escândalo foi enorme, tornando-se de facto numa verdadeira "bomba atómica" lançada sobre o mundo da moda. Mas não se pense que se tornou num êxito rápido, como é costume acontecer na moda. Bem pelo contrário. A maioria dos países modernos reprovou o seu uso, e ainda hoje, em muitos países árabes é proibido o uso do biquíni nas praias, como se tratasse de uma afronta ao pudor. Tanto assim era que no primeiro concurso de Misse Mundo, realizado em Londres em 1951, proibiram-se as concorrentes de sequer tentarem experimentar o uso de biquíni no desfile final do certame. O argumento sustentado pelos membros do júri era, mais uma vez, o da preservação da moral e dos bons costumes.
Para que o mundo desse esse passo em frente precisava-se de uma mulher corajosa, que não tivesse medo de enfrentar a oposição dos mais conservadores e até da própria igreja, que contestava os excessos e liberdades da moda. Essa mulher, corajosa e desafiante, surgiu em 1953, durante o Festival de Cannes, na figura da jovem e deslumbrante actriz francesa Brigitte Bardot, que desceu à praia daquela famosa estância turística com um revolucionário biquíni, desenhado com motivos florais, como se a própria Eva voltasse de novo ao convívio dos mortais pecadores.
Repare-se nas reduzidas dimensões do bikini de Brigitte
Bardot, cujo talhe pouco difere dos modelos actuais.
A partir de então, as mulheres de todo o mundo passaram a usar os provocantes biquínis, cada mais curtos e ousados, para afirmarem a sua liberdade e a sua independência, sem medo de serem, por isso, acusadas de atrair a si os olhares concupiscentes dos homens.
Mas, será o biquíni assim tão recente como nos querem fazer crer os designers da moda?
Não tenho a certeza se já existiria, ou não, no tempo dos romanos uma indumentária, talvez mais para uso desportivo do que recreativo, semelhante ao que hoje designamos por biquíni. Em frescos de Pompeia encontraram-se várias pinturas de mulheres a exercitarem-se num ginásio, praticando pugilato e luta greco-romana, usando apenas duas peças de couro para taparem as partes íntimas. Isto faz supor que as mulheres na antiguidade clássica já usavam algo semelhante aos biquínis modernos, certamente nos banhos públicos e saunas privadas, mas talvez também durante a prática dos diversos jogos e competições em que as mulheres tinham o direito de participar.
Este é um assunto que não domino, nem posso asseverar que o uso das duas peças de reduzido vestuário, a que chamamos hoje biquíni, era já usado na antiguidade. O que posso garantir é que na localidade de Piazza Armerina, na Sicília central, foi descoberta a vila imperial romana de Casale, com dezenas de mosaicos de uma beleza esplendorosa, retratando cenas da vida quotidiana no século IV depois de Cristo. Em alguns desses mosaicos vêm-se várias jovens romanas, usando apenas duas peças muito semelhantes ao actual biquíni. Neles se observa que algumas jovens estavam a praticar luta, creio que pugilato - uma modalidade desportiva de tradição olímpica - mas noutros parecem estar a desfilar num cortejo religioso, escoltadas por outras mulheres, cobertas com tecidos transparentes, que talvez fossem as intocáveis vestais.
Mosaico da villa imperial romana de Piazza Armerina, na
 Sicília central, datado do século IV depois de Cristo.
 
Sem querer especular, julgo que algo semelhante ao biquíni já era usado na civilização romana pelas mulheres que frequentavam os banhos públicos, então designados por “Thermae” (de cujo étimo latino deriva a palavra Termas), sendo famosas em Roma as termas de Caracalla, de Nero, de Diocleciano, de Tito e de Trajano, frequentadas diariamente por milhares de patrícios de ambos os sexos, num cenário de majestosa beleza artística, rodeada de colunas e estátuas em mármore de Carrara. As termas públicas repartiam-se por diferentes espaços, para que os seus utentes usufruíssem de sucessivos estágios de temperatura nas águas. Assim, passavam primeiro pelo “Frigidarium”, onde os utentes se banhavam em água fria, passavam depois ao “Tepidarium”, de águas mornas, até chegarem ao “Caldarium” onde as águas quentes proporcionavam o relaxamento muscular. Associada ao uso medicinal da água e à sua fruição térmica, nasceu a ideia clássica do SPA, que mais não é do que uma sigla, cujo desdobramento significa "salus per aquam", uma expressão latina que se traduz literalmente como "saúde pela água".
Pormenor do mosaico anterior
As mais ricas e poderosas famílias romanas, que se estabeleceram ao longo do imenso império, trataram de recriar nas suas “villas” residenciais um equipamento termal, de que ainda hoje subsistem restos arqueológicos visíveis um pouco por todo o nosso país.
Aqui fica uma imagem do mosaico da Villa imperial romana de Piazza Armerina e duas fotos da então muito jovem Brigitte Bardot, em 1953, na praia de Cannes. A bela diva do cinema, está felizmente entre nós (tem hoje 84 anos de idade), embora há muito retirada dos olhares públicos. Muitos de nós se lembram dela pela sua deslumbrante beleza física, pela sua luta contra o uso de peles no vestuário da moda, pela sua cruzada na protecção dos animais domésticos e selvagens, mas certamente já poucos se lembrarão que ela foi a primeira mulher a usar um biquíni em público, desafiando os falsos pudores desta sociedade de hipócritas sibaritas, em que ainda hoje vivemos.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Castello, António

António Castello, aos quarenta anos

Empresário português radicado em Buenos Aires, capital da Argentina, onde mercê do seu trabalho, sacrifício e abnegação logrou montar um negócio de mecânica automóvel, que foi progredindo até chegar a tornar-se numa das maiores empresas daquela cidade.
Nasceu em 1881, no seio de uma família humilde e modesta, na freguesia de Estoi, concelho de Faro, e quando chegou aos 21 anos de idade, vendo-se sem emprego, sem esperança e sem futuro, optou pelo caminho que muitos rapazes da sua geração seguiram, o da emigração. Estávamos em 1902, e nessa altura corria no espírito aventureiro da juventude a atracção pela estrada atlântica, na perspectiva de aí alcançar uma nova oportunidade de vida. O futuro dos mais desfavorecidos encaminhava-se novamente para o Brasil, onde a língua era mãe e onde havia sempre uma mão amiga, que a colónia lusa que antes ali se havia radicado, estendia aos que chegavam imbuídos da mesma esperança de sucesso e de prosperidade. Foi assim nas últimas décadas do século XIX, uma quimera que enfeitiçou milhares e milhares de portugueses que do norte do país, do Minho, do Douro e das Beiras, desempregados pela praga da filoxera que destruiu os vinhedos onde ganhavam o pão, tiveram que emigrar, deixando as nossas terras setentrionais quase despovoadas.
Quando o feitiço do Brasil esmoreceu, surgiu um novo «El Dourado» na terra das pampas meridionais da América. Eram as terras do Rio da Prata, a nova e próspera Argentina, que se levantava numa onde de progresso, de crescimento económico e de desenvolvimento agro-industrial. Os pobres da Europa Ibérica e mediterrânica acorreram em massa, sequiosos de esperança, de trabalho e, sobretudo, de um futuro, que lhes permitisse erguer um lar e criar uma família. Foram, tal como o António Castelo, aos milhares de homens e mulheres, gente de todas as idades, de diferentes nações, línguas e credos, para lavrarem a terra, esventrarem as montanhas, extraírem o minério de cobre e de ferro, criarem o gado, lanígero. bovino e cavalar, enfim…, foram para estabelecer os fundamentos do mundo latino.
Buenos Aires, centro, Jardim de Julho, em 1920
O António Castelo, com seus 21 anos de idade, em plena posse do seu vigor e inteligência, empregou-se numa grande casa comercial, onde em breve seria o fiel de armazém, conquistando a simpatia dos patrões, dos clientes e dos seus compatriotas, que nele viram logo o talento do sucesso. Com o decorrer dos anos foi ganhando confiança e maior conhecimento sobre o trato e a dinâmica macroeconómica, e mercê do seu esforço e dedicação à empresa conseguiu fazer muitos negócios de âmbito intercontinental, tendo a Europa e em especial o nosso país como plataforma giratória do avultoso comércio da carne, das madeiras, do aço, das peles, etc.
Dez anos depois António Castello era já muito considerado entre a colónia portuguesa, por ser um jovem muito trabalhador e inteligente, sempre atento às inovações americanas e muito dedicado à leitura dos principais órgãos da imprensa europeia. Talvez por essa influência é que tornou fiel seguidor do ideário republicano, e grande admirador de Afonso Costa, então na pasta da Justiça, cuja reforma judicial costumava apontar como uma marca da moderna civilização ocidental. Foi por essa altura que começou a assentar raízes e a pensar criar o seu próprio negócio. Ouviu conselhos, auscultou os seus amigos mais proeminentes da colónia lusa de Buenos Aires, estudou as propostas de financiamento e decidiu avançar com um negócio da sua iniciativa.
Buenos Aires, capital da Argentina, cerca de 1920
O primeiro passo foi escolher uma mulher que o pudesse acompanhar nessa aventura que iria mudar a sua vida. Escolher uma jovem, filha de boas famílias da mãe-pátria, chamada Gertrudes que o fez feliz e lhe deu seis filhos. Ao fim de vinte anos de trabalho, deixou a casa comercial, onde trabalhara com tanto afinco, para avançar em sociedade com o seu amigo Francisco Viegas, na criação de uma empresa ligada ao ramo automóvel, um sector que começava a dar grandes frutos na Argentina. Essa empresa, com a designação de «Viegas y Castelo», ligada à venda e reparação de veículos, tornar-se-ia a breve trecho num dos principais estabelecimentos do ramo automóvel em Buenos Aires. Os clientes e amigos, assim como os seus compatriotas, passaram a tratá-lo por Dom António, em sinal de respeito e consideração pelo seu sucesso no difícil mundo empresarial.
Um dos seus amigos, entre os mais leais e sinceros, era o jornalista Francisco Paulo Madeira, que nas colunas do semanário «O Jornal Portuguez», de que era director e proprietário em Buenos Aires, publicava sempre notícias do seu amantíssimo Algarve, sobretudo de Loulé, de onde eram naturais muitos dos seus assinantes e leitores. Volta e meia surgiam nas colunas do seu jornal, a propósito das empresas portuguesas de maior sucesso na capital argentina, notícias sobre a empresa de António Castelo, assim como de outros algarvios que se dispersaram pelo país das Pampas.
Cabeçalho do jornal de Paulo Madeira em Buenos Aires
Vem a talhe de foice lembrar que este Francisco Paulo Madeira, natural de Alte, concelho de Loulé, deixou no Algarve um rasto de lenda e de heroísmo, por ter sido um corajoso e indomável lutador pela implantação da República. Era um homem inteligente e talentoso, que lutava pelos seus ideais com a luz da razão. Porém tinha um espírito muito difícil de contrariar, que ainda por cima fervia em pouca água. Por vezes, quando os seus adversários não se deixavam vencer pela razão das suas ideias, recorria então ao vigor, à coragem e destreza dos punhos.
Francisco Paulo Madeira, ainda jovem, revelara-se nas colunas do semanário «O Louletano», fundado em 9-1-1893, como um jornalista de grande ilustração e pureza de estilo, embora nas suas palavras e afirmações sempre refulgisse o ideário republicano e o seu espírito anticlerical. Anos depois, a 20-5-1909, teve a ousadia de fundar por sua conta e risco o semanário «O Povo Algarvio», que se apresentava como “semanário republicano independente”. Tinha como ódio de estimação o seu oponente monárquico, o semanário «Notícias de Loulé», fundado em 30-5-1909, e dirigido pelo padre Manuel Bazílio Correia. Este jornal além de ser monárquico era profundamente católico, fazendo dos republicanos, o alvo principal dos seus ataques, acusando-os de assassinos (por terem matado o Rei), de diabólicos coveiros da pátria e de anticristos. Estas diatribes enfureciam o Paulo Madeira que na tribuna do seu «Povo Algarvio» desancava os monárquicos com os maiores impropérios. Por vezes, o nível baixava a tal ponto que chegava a roçar na chinela. Daí nasceu um episódio desagradável que marcou a vida de Paulo Madeira, suscitando inclusivamente o desconforto de ter que emigrar da sua terra-natal para a longínqua Argentina. O caso conta-se em duas palavras. O Manuel Madeira envolveu-se em acesa polémica com o Padre Bazílio Correia, da qual resultaria a suspensão do jornal republicano, obrigando o Paulo Madeira a fundir o seu jornal com os «Ecos do Sul» de São Brás de Alportel, passando por isso a ser apelidado acintosamente pelo seu adversário monárquico como «o bifronte». Daí resultou que num belo dia o Paulo Madeira em plena via pública quisesse tirar desforço do padre, havendo punhos e cuspidelas pelo ar. Chegou-se a falar numa pistola virada às fraldas da sotaina que felizmente não chegou a disparar. O caso foi a tribunal, mas a República implantada dali a pouco sanou tudo. O jornal monárquico fechou as portas, o Paulo Madeira saiu por cima. Todavia, nos anos subsequentes ao novo regime a sua pena continuou agressiva, não poupando críticas às novas vereações camarárias nem aos deputados que no parlamento defendiam mais os interesses pessoais do que os da própria pátria. Não tardou muito a que os seus antigos correligionários lhe silenciassem a pena, considerando o Paulo Madeira como persona non grata aos olhos do povo de Loulé. Por essa razão, farto das lutas partidárias, emigrou par a Argentino, onde voltou a erguer a sua tribuna de jornalista, isenta de polémicas políticas e de interesses partidários.
Quando o seu amigo e compatriota, António Castello, faleceu aos 47 anos de idade, numa sexta-feira 13, do mês de Julho de 1928, no hospital de Buenos Aires, onde esteve internado alguns meses, Paulo Madeira, sentiu de forma muito profunda a sua morte, como uma enorme perda para toda a comunidade lusa. Traçou-lhe o elogio fúnebre numa comovente notícia da qual respigamos, em jeito de encerramento, estas sentidas palavras:
«Enérgico e sóbrio, empreendedor persistente e honrado como a própria honra, bem merecia melhor prémio às suas actividades do que aquele que a sorte lhe destinou. Bom, sumamente bom, quasi poderíamos dizer divinamente bom – já que a imensa bondade dos raros António Castello que hoje topamos na vida deve derivar, talvez daquele sopro divino com que Deus alentou o barro de que modelou o género humano – toda a sua vida foi consagrada ao bem dos outros, com um tão impressionante espírito de sacrifício, com uma tão voluntária boa vontade que, cativando os corações os obrigava à gratidão.»
Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, em 2018
António Castelo foi a enterrar no dia seguinte, no cemitério da Recoleta em Buenos Aires. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas, na sua esmagadora maioria emigrantes portugueses, que choravam a sua inesperada morte como uma perda irreparável. Deixou à viúva, Gertrudes Castello, a difícil tarefa de criar os seus seis filhos, alguns dos quais eram ainda de tenra idade. Por lá ficaram, em Buenos Aires, prosseguindo a empresa que o seu progenitor lhes deixou, até que o tempo os dispersou a todos pelos insondáveis meandros da vida.

domingo, 3 de março de 2019

MACHADO, José António Valeriano

Jornalista, poeta e dramaturgo, nasceu em Faro e faleceu em Lisboa, a 13-1-1954.
Espírito empreendedor e algo aventureiro, dotado de grandes capacidades de trabalho, inteligência repentina, argúcia de filósofo, talento a rodos, mas desperdiçado em actividades de inferior relevância. Escrevia com facilidade em prosa e em poesia, dispersando-se pelos jornais locais até chegar às colunas da imprensa da capital. A partir de então, com o nome estampado nos jornais diários, tornou-se numa figura de superior pertinência e destaque.
Republicano até à medula da alma, foi um dos chamados “heróis da Rotunda”, pois que, com armas na mão, tomou parte activa na Revolução do 5 de Outubro em 1910. Mas essa foi uma das suas medalhas de juventude de que pouco ou nada se orgulharia porque a República além da desilusão em que a transformaram os seus políticos, foi também um regime de grande conflitualidade na ordem pública, marcado por vários levantamentos militares, desobediência civil, terrorismo urbano, ataques bombistas, greves violentas do operariado, constantes crises governativas, em suma um clima de instabilidade política que só contribuiu para o descrédito do novo regime, em que as gerações jovens tinham depositado tantas esperanças.
Fachada do antigo Teatro Apolo, na Rua da Palma em Lisboa
A vida nesses atribulados anos também não lhe correu bem. Sentiu que os magros cobres granjeados no jornalismo não eram suficientes para governar a vida, razão pela qual tentou encontrar no teatro os meios de sobrevivência com que pudesse pagar as dívidas. Por isso, escreveu para o Teatro Apolo uma revista intitulada «Risos e Flores», que embora levada à cena não teve o sucesso almejado pelo seu autor.
Felizmente existem depositados na Biblioteca Nacional, em Lisboa, pelo menos dois exemplares impressos, desta peça teatral, sendo que um deles é o texto original, ou seja, a versão literária da mesma, datada de 1920, idealizada muito antes de ser levada à cena em Lisboa. Para elucidação dos bibliófilos, aqui fica a descrição deste pequeno e raro livro, com que José António Valeriano Machado se estreou nas letras e no teatro: Riso de Portugal, Riso Amarelo ou Risos e Flores, Lisboa, Tip. do Comércio, 1920.
A outra edição desta peça corresponde à versão que foi levada à cena no Teatro Apolo, contendo o texto e as coplas em verso, inspiradas no gosto popular, que compunham o corpo cénico desta revista teatral. Tem esse folheto, de apenas 14 páginas, a seguinte descrição bibliográfica: Coplas da Revista, em dois actos e 2 Quadros, Risos e Flores, música de Vasco Macedo e Bernardo Ferreira», 1920.
Desiludido com a situação política da sua amada República, mas também para escapar às responsabilidades que lhe eram imputadas em determinado processo judicial, emigrou para o Brasil onde se fixou durante alguns anos. Todavia, razões de vária índole, próprias do seu espírito aventureiro, não lhe permitiram alcançar o sucesso desejado.
Assim, desapontado com o Brasil, onde a vida não lhe correu de feição, regressou à pátria, fixando-se em Lisboa. Empregou-se na redacção de «O Século» - um diário de larga expansão e sucesso, porta-voz do nosso incipiente capitalismo - onde como jornalista desenvolveu intensa actividade. Foi na qualidade de redactor do «Século» que tomou parte no grupo de plumitivos que fundou a Associação dos Jornalistas Portugueses, cujo programa cultural e objectivos sociais defendeu e divulgou nos órgãos da capital. Desse núcleo embrionário surgiria mais tarde o Sindicato dos Jornalistas e a Associação da Imprensa de Portugal.
Receoso do seu futuro como jornalista, decidiu empregar-se como funcionário da União dos Grémios da Indústria Hoteleira, ao serviço da qual recebia um vencimento, que não sendo avultado era, contudo, infalível e suficiente para sobreviver. Nessas funções chegaria à idade da reforma, sem brilho nas letras, é certo, mas também sem sobressaltos na vida.
Sede da Emissora Rádio Graça, na rua da Verónica, Lisboa
No tempo em que residiu no Rio de Janeiro, escreveu e publicou um belo livro de versos, no qual constam várias composições poéticas datadas de Faro. Encontramos um exemplar na Biblioteca Nacional, em Lisboa, do qual aqui deixamos a descrição oficial: Cinzas… Poesia Tosca, Rio de Janeiro, Imp. Moderna Carinhas, 1926, 117 p., [4] f., 17 cm (BNP: L. 34979 P.). Curiosamente, este mesmo livrinho teve no ano seguinte, em 1927, uma nova edição, embora me pareça que deve ter sido apenas uma republicação da versão do ano anterior. Este procedimento não era raro nessa época, porque as edições de livros faziam-se primeiro com poucos exemplares (por vezes uma centena de exemplares) para testar o acolhimento público da obra, fazendo-se, em caso de resposta positiva, um aumento de exemplares à edição inicial. É por isso que em certas obras vemos no frontispício a indicação de 1º, 2º ou 3º milhar, em vez de 1ª, 2ª ou 3ª edição, por se tratar de um aumento da publicação de exemplares e não de edições espaçadas por diferentes anos de publicação.
Botão de lapela, Rádio Graça
Só lamentamos que este livro seja hoje raro de encontrar, até mesmo no Brasil, e, por isso, difícil de chegar às mãos do comum leitor. Infelizmente, à excepção da Biblioteca Nacional, em Lisboa, não existe em mais nenhuma outra biblioteca pública do nosso país.
Emblema da Rádio Graça, Lisboa
Nos últimos anos de vida, Valeriano Machado, pronunciou aos microfones da «Rádio Graça» de Lisboa uma palestra semanal sobre temas muito diversos, como a instrução graciosa e pós-laboral da classe operária, a moral nacionalista e a ética social, a conduta religiosa do povo, o combate à mendicidade e a assistência aos pobres, poesia popular e teatro radiofónico, a leitura e a educação cívica dos trabalhadores, etc... Na esteira desse programa radiofónico publicou um pequeno jornal, em forma de boletim, de que saíram impressos, entre 1941 e 1942, pelo menos seis números, cuja edição cessou devido aos condicionalismos da guerra. Esse boletim publicou-se com a designação de «Rádio Graça», sob a direcção de Valeriano Machado e edição de Américo dos Santos, Lisboa, 1941-1942. Os textos eram na sua maioria do Valeriano Machado, resumindo alguns programas difundidos, noticiando os melhoramentos do bairro da Graça, o sucesso de alguns dos seus moradores, assim como realçava os progressos técnicos da própria estação.
Algumas rádios dos Emissores Associados de Lisboa
Esta estação radiofónica, sediada no Bairro da Graça, daí a sua designação, iniciou a emissão publica em 27-3-1932, sob a égide de Américo Santos, um simples guarda-livros que teve a inteligência e ousadia de divisar novos projectos e mais promissores horizontes, através da fundação de uma modesta antena de rádio, que viria a tornar-se num verdadeiro caso de sucesso através da inovadora emissão do teatro radiofónico nos anos cinquenta do século vinte. Uma das peças mais aclamadas pelo público desse tempo foi o drama «A Força do Destino», que em 1954 chegou a ter entre os lisboetas uma audiência sem precedentes, a tal ponto que até a Emissora Nacional passou a inserir diariamente um espaço teatro radiofónico, à hora do almoço e à hora do jantar, com peças dos maiores dramaturgos nacionais e estrangeiros. Devido ao seu enquadramento num bairro lisboeta, a «Rádio Graça» era uma espécie de rádio local com fraca expansão hertziana. Não tinha hipóteses de competir com as grandes antenas que dominavam o espaço nacional, nomeadamente a «Emissora Nacional», o «Rádio Clube Português» e a «Rádio Renascença». Para poder ampliar o seu alcance, Américo Santos decidiu nos anos cinquenta juntar-se a uma quarta antena de âmbito nacional, os Emissores Associados de Lisboa. Deste modo, passou a fazer parte de um grupo de quatro estúdios com audiência nacional, no qual se integravam também a «Rádio Peninsular», o «Clube Radiofónico de Portugal», e a «Rádio Voz de Lisboa».
Disco de 78 rpm gravado na «Rádio Graça», a 4-12-1959
Idêntica estratégia ocorreu no norte do país em 1953, quando as rádios locais se associaram numa antena de larga expansão territorial designada por «Emissores do Norte Reunidos» (cuja antena esteve instalada no Canidelo, em Vila Nova de Gaia), que subsistiu até 1975, altura em que foi também nacionalizada, sendo hoje a «Rádio Comercial», fundada em 1979, a sucedânea natural do antigo emissor do Norte.
A popular «Rádio Graça» chegou a ter em Lisboa quase um milhar de associados, que pagavam as suas quotas para ouvir diariamente, as notícias locais, as canções e os fados mais populares, mas também os contos tradicionais portugueses, as palestras do desporto e da cultura, os preceitos sobre a vida cívica, e sobretudo as peças de teatro radiofónico, cujo patrocínio da marca de detergentes «Tide» foi o garante da sua sobrevivência até 1975, quando aquela emissora foi nacionalizada e logo a seguir encerrada, por não se enquadrar na linha convergente à nova ordem política.

Entre os programas de maior sucesso da «Rádio Graça» distinguiam-se os contos, as lições de história pátria e as palestras infantis, para a educação e formação cívica das crianças, da autoria de Valeriano Machado. Convém esclarecer que este programa tinha sido primeiramente difundido pelo seu autor na «Rádio Hertz», que depois o fez ressurgir aos microfones da «Rádio Graça», ainda com mais sucesso e maior difusão. É curioso notar que cada um dos programas tinha uma lição pedagógica a incutir no espírito das crianças. Por isso era personalizado, isto é, tinha dedicatória a uma criança em particular, geralmente um filho ou neto de um associado da rádio, ou de um amigo do próprio autor. E o nome da criança era enunciado com todo o carinho, como que a pressagiar-lhe um auspicioso futuro. foram depois reunidas num volume que deu à estampa com o título de Lições do Avozinho, método aprazível e intuitivo, Lisboa, Tip. da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1940. A edição deste livro inscreveu-se no âmbito das Comemorações Centenárias, uma espécie de apoteose do regime de Salazar, cuja nação dimensionada pelos cinco continentes se apresentava em paz e em prosperidade, perante uma Europa em guerra, possuída do espírito nazi e ameaçada pelo espectro da autodestruição. O livro de Valeriano Machado, cujo conteúdo era de uma inocência desarmante, expressava uma mensagem patriótica e paternalista que na essência convinha à propaganda nacionalista do regime. As lições moralistas que o autor infundia no espírito das crianças, favoreciam a apologia do país onde florescia a paz e o bom entendimento entre os cidadãos, sem o divisionismo partidário nem a desordem da democracia. Sem ser essa a intenção de Valeriano Machado, as «lições do avozinho» foram usadas para ilustrar a trilogia de Salazar: “Deus, Pátria Família”.
Valeriano Machado foi casado com D. Emília Correia Machado, de quem teve dois filhos, ambos bem colocados na vida, a Dr.ª Marina Correia Valeriano Machado, residente no Brasil, ainda viva, que usa o nome literário de Marina Frazão, e António Correia Machado, residente em Lourenço Marques, que julgo já falecido.
Por minha iniciativa e proposta, a Comissão de Toponímia de Faro atribuiu o nome de Valeriano Machado a um largo da cidade, em preito de homenagem a um farense que se distinguiu na poesia, no teatro, na imprensa escrita e radiofónica.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

TERRAMOTO, Padre André Lopes

Nasceu em Olhão, no seio de uma família humilde, mas revelando-se uma criança inteligente e ávida pela leitura e o saber, foi enviada na flor da idade para Faro, onde ingressou no seminário de S. José a fim de prosseguir os seus estudos. Anos depois concluiu com razoáveis classificações o seu curso de presbítero, ordenou-se em 1903 na catedral diocesana de Faro. 
No princípio do século XX era um jovem de espírito simples e modesto, sem ambições de futuro nem projectos de carreira. Era bondoso, sereno e pouco expansivo. Refugiava-se no silêncio das suas leituras e na exegese da Bíblia, o livro pelo qual regrou a sua conduta e modelou o seu carácter. Como não tinha apoios nem recomendações de gente importante, tornou-se num sacerdote sem futuro nem ambições de poder. Daí que após os votos sagrados, a sua carreira sacerdotal tivesse sido um verdadeiro périplo pelo interior pobre e desprotegido do Algarve.
Começou por exercer o seu múnus religioso nas paróquias de Alcoutim, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Giões e Cacela. Tudo freguesias pobres e ignoradas do interior rural. As populações além de muito pobres eram na sua maioria analfabetas e carenciadas de quase tudo, nomeadamente dos mais elementares apoios sociais de educação e assistência médica. Nessas aldeias do interior algarvio sobrevivia-se na dependência da terra, através da agricultura e da pastorícia, sem que a maioria dos seus habitantes chegasse a sair da aldeia, para conhecer o mundo e a própria vida.
Por necessidade de serviço, e em benefício da Igreja, o Padre Terramoto recebeu a incumbência de acumular as suas funções presbiterais com a freguesia da Conceição de Tavira, onde foi, como sempre muito bem quisto e admirado, não só pelo bom exercício das suas competências ecuménicas, como principalmente pela sua dedicação aos mais pobres, aos desvalidos e às crianças. Foi nestas duas últimas freguesias, de Cacela e da Conceição de Tavira (conhecida por Cabanas de Tavira), que deixou mais arreigadas saudades. Em Vila Nova de Cacela ainda hoje há quem se lembre dele com profunda admiração e respeito, devido à acção religiosa que ali desenvolveu ao longo de 26 anos consecutivos, a paroquiar aquela pobre freguesia de pescadores, já então a sofrer uma indisfarçável decadência devido ao crescimento do concelho vizinho de Vila Real de Santo António.
Como homem educado e instruído nas letras canónicas, dedicou-se também à escrita, tendo inclusivamente colaborado assiduamente no semanário farense «Folha de Domingo», onde manteve durante anos uma secção intitulada «Reflexões obre o Evangelho», cujas mensagens aí explanadas serviram como guia espiritual e de meditação religiosa para muitos sacerdotes que nas suas paróquias, durante a missa dominical, explanavam na homilia as ideias transmitidas pelo padre Terramoto naquele jornal diocesano.
Perto dos seus derradeiros dias de vida, o Padre Terramoto sentiu faltar-lhe a saúde, recolhendo-se por isso à cidade de Faro, onde contou com o apoio do presbitério e da corte diocesana, no apoio à doença que o haveria de vitimar. Faleceu no dia 3 de Março de 1952. As gentes de Vila Nova de Cacela, com o assentimento do município de Vila Real de Santo António atribuíram-lhe uma das mais importantes artérias do casco urbano daquela praia piscatório, como homenagem de gratidão e de reconhecimento pela forma como dedicou os melhores anos da sua vida à protecção dos mais desfavorecidos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

ENCARNAÇÃO, José Roberto


Construtor civil, natural das Caldas de Monchique, faleceu nos princípios de Julho de 1950, no Instituto de Oncologia em Lisboa, vítima de doença incurável. Tinha 67 anos de idade, era filho do então já falecido José da Encarnação, antigo proprietário da Pensão Encarnação onde se hospedavam muitos dos doentes que naquelas termas procuravam alívio para os seus achaques de saúde.
Foi um dos mais conceituados empreiteiros do Algarve, muito inteligente, honesto, esforçado e competente, a quem se deve a construção do palácio da Embaixada de Portugal em Madrid. Também a ele se deve a edificação dos primeiros bairros sociais de arrendamento económico em Lisboa, Portimão, Setúbal e Olhão, os quais ainda se mantêm com ligeiros melhoramentos, pois que os seus prédios eram garantidos pela qualidade e competência da sua construção.
Pela sua dedicação ao trabalho, pela honradez e seriedade com que executava as suas obras, decidiu o governo agraciá-lo com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Industrial, tendo o governo espanhol aprovado também a outorga da medalha de ouro como recompensa pela valiosa colaboração por ele prestada nos trabalhos de edificação da grande Exposição Ibero-Americana, que se realizou em Sevilha.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Aforismos Algarvios


Não sou perito na importância sociocultural dos Provérbios, sendo certo que acredito que o nosso rifoneiro é uma espécie de orago da cultura popular. No fundo, o provérbio contém em si uma conjugação do saber empírico com a transmissão dos supremos valores da vida, como a ética, a moral, a justiça, a humildade, a coragem, a gratidão, a lealdade, a amizade e, em suma, a honradez. Os provérbios, adágios, aforismos, anexins ou simplesmente ditados populares, são na essência conselhos dirigidos aos mais jovens, transmitindo-lhes de forma sentenciosa, mas simples e memorizável, os melhores procedimentos ético-sociais.
Existem várias obras dedicadas à compilação do rifoneiro popular e do adagiário nacional. Algumas são especializadas em temas, profissões, regiões, épocas, etc. Conheço do Dr. José Pedro Machado, meu bom amigo já desaparecido, uma compilação monumental a que deu o sugestivo título de «O Grande Livro dos Provérbios», publicado pela Editorial Notícias em 1996. Em mais de seiscentas páginas compilou milhares desses aforismos populares, que os nossos avós tiveram a bondade de nos transmitir, quando ainda nem sabíamos ler. Talvez fosse essa mesma a origem dos provérbios, transmitir o saber adquirido pela experiência da vida aos que não sabiam ler ou não tinham qualquer outra fonte de informação. A forma simples e intuitiva dos avisos e conselhos contidos nos provérbios, é uma verdadeira lição de vida e de ensinamento, ainda hoje muito prática, acessível e útil. A musicalidade do provérbio ou ditado popular, expressa-se através da forma rimada e poética como é concebido.
Trago hoje a público apenas cinco ditados populares, que ouvi em diferentes lugares do Algarve, os quais, ao contrário do que seria expectável nesta região, não rimam, mas têm um peculiar "sabor" popular algarvio. Então vejamos:
«O pior ribeiro é o da porta» - significa que o mais difícil é dispor-se alguém a fazer qualquer coisa, porque o mais fácil é não fazer nada; ouvi este provérbio em Loulé.
«Barafunda não é peixe» - expressão que os pescadores usam para aconselhar calma e evitar zaragata; ouvi este ditado na ilha da Armona e em Olhão.
«Ficar à porta como o centeio» - provérbio usado para servir como termo de comparação; confesso que para o citadino é um pouco difícil de entender; ouvi-o em Moncarapacho.
«Quem vai a Alvor vai a Lagos, que é mais uma légua de areia» - ouvi esta sentença na praia do Alvor, cujo sentido me parece ser por demais evidente no espírito dos marítimos.
«Mais sofreu Nossa Senhora no Algarve» - expressão usada para aconselhar resignação; este ditado já o ouvi por todo o litoral algarvio; curiosamente é o único que consta no Grande Livro do Dr. José Pedro Machado.
Para terminar fica aqui o desafio: se algum dos meus amigos leitores conhecer algum provérbio genuinamente algarvio, agradeço que o compartilhe aqui, para que todos possamos desfrutar da sabedoria do nosso povo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

JÚDICE, António de Mascarenhas

Industrial e antigo colonialista, era natural da vila de Lagoa, onde faleceu em meados de Novembro de 1950, com 77 anos de idade.
Ainda jovem foi estudar para a Bélgica de onde regressou ao Algarve anos depois para se dedicar à indústria da pesca e sobretudo das conservas, de que foi um dos pioneiros, tal como aconteceu com seus tios fundadores da «Casa grande» da Mexilhoeira e com o seu primo João Júdice Fialho. 
Dotado de grande inteligência, oportuna visão para o negócio e espírito de risco, lançou armações para a captura do atum, criou cercos de pesca da sardinha e fundou fábricas em várias localidades, nomeadamente em Ferragudo, Lagos e Quarteira, unidades industriais que mais tarde juntou numa só empresa, a Mascarenhas Júdice & C.ª  Ld.ª, que dirigiu durante anos até transformar no Consórcio Português de Pesca e Conserva, em cuja direcção integrou os seus amigos e conterrâneos, o Dr. Carlos Fuzeta, advogado de grande prestígio, e o Dr. José Barbosa, ao tempo presidente do Tribunal de Contas.
O abastado proprietário e industrial António de Mascarenhas Júdice, teve ainda uma faceta colonialista pouco conhecida. Assim, e sem entrar em grandes pormenores, acrescentaremos apenas que foi director da Companhia Colonial do Buzi e gerente do Banco de Angola. 
No tempo da monarquia também se envolveu na política, apoiando sem reticências o partido franquista. Deixou a política a partir do momento em que o país se cobriu de luto pelo assassinato do rei D. Carlos. Julgando que foram as lutas partidárias e os interesses mesquinhos que cobriram a pátria de opróbrio e de luto, desistiu definitivamente da política.
Foi casado com D. Maria de Mascarenhas Grade Júdice, descendente das mais afidalgadas famílias do Algarve. Era pai do Visconde de Lagoa um dos mais ilustres historiadores e publicistas do Algarve. Era irmão dos então já falecidos Dr. Patrício Eugénio de Mascarenhas Júdice, que foi deputado pelo Algarve e faleceu ainda jovem, e do Dr. Pedro Paulo Mascarenhas Júdice, reputado escritor e arqueólogo que viveu em Silves.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Sousa, Cónego Joaquim Jorge de

 Cónego da Sé de Faro, nasceu em Aljezur a 8-11-1911 e faleceu em Faro em 1998, com 87 anos de idade.
Ordenou-se presbítero a 25-7-1937 e a 8-11-1937 foi nomeado vigário Cooperador da Sé Catedral, e a 24 do mesmo mês passou a pároco encomendado da Sé de Faro.
Ainda antes da ordenação, já exercia o cargo de mestre de cerimónias, da Sé Catedral, funções que prestou, durante muitos anos.
durante muitos anos também, foi professor do Seminário Diocesano.
A 15/4/57, foi nomeado Notário Apostólico Substituto. A 3/5/58, foi nomeado Beneficiado, com assento e Voto no Cabido.
Foi professor de Religião e Moral na Escola Tomás Cabreira.
No exercício das suas competências religiosas, foi pároco na freguesia da Conceição de Faro e também assistente diocesano dos Cruzados de Fátima, da União Missionária do Clero e das Obras Missionárias.
Nas últimas décadas do século XX era dos mais conhecidos e respeitados sacerdotes da diocese algarvia, especialmente pelo facto do Padre Joaquim Jorge desempenhar as funções de Capelão da Santa Casa da Misericórdia de Faro. A bem dizer ele era o rosto da Misericórdia de Faro, dando-se por inteiro ao cuidado dos pobres e à protecção dos desvalidos. Com o avançar da idade a sua presença era menos notada em público, mas mesmo velho e doente nunca deixou de cumprir as suas obrigações, rezando com profundo sentimento e fervor a Eucaristia Dominical na Igreja do Pé da Cruz.
Recentemente, a Misericórdia de Faro fundou, no sítio da Torre de Natal, um lar para idosos, com capacidade para 58 utentes, ao qual atribuiu a designação de Estrutura Residencial Sénior Cónego Joaquim Jorge de Sousa, uma espécie de homenagem e de reconhecimento pela dedicação daquele sacerdote aos idosos e aos mais carenciados.
Importa aqui dar especial destaque aos artigos que o Padre Joaquim Jorge de Sousa publicou no «Correio do Sul» sobre a ascendência algarvia do escritor Ramalho Ortigão, sobre a passagem do poeta João de Deus pelo seminário de São José de Faro, e muitos outros estudos relativos à História Eclesiástica Algarvia publicados nos semanários farenses «O Algarve» e «Folha do Domingo».

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

ABOIM, José Vaz Júdice

Funcionário público e figura muito prestigiada na sociedade farense dos finais do século XIX até ao primeiro quartel da centúria seguinte. Desempenhou durante décadas as funções de secretário do Governo Civil de Faro, nas quais se aposentou poucos anos antes do seu passamento.
Faleceu em Lisboa a 16-1-1928, com 76 anos de idade, vitimado por uma síncope cardíaca, pouco depois de se ter deslocado à capital a fim de procurar remédio para a doença incurável de que padecia.

AZEVEDO, Manuel Vasques de


Funcionário público, respeitável despachante da Alfândega de Vila Real de St.º António, de onde era natural, e onde também viria a falecer, em meados de Novembro de 1951, com 66 anos de idade.
Beneficiava na sua terra natal de grande prestigio social, mercê da sua honestidade e da sua competência profissional, razões mais do que suficientes para o fazerem credor da simpatia e confiança dos seus conterrâneos. Não admira por isso que superiormente o tivessem sido escolhido  para desempenhar, por mais do que uma vez, as honrosas funções de vereador e de vice-presidente da Câmara Municipal da vila pombalina. 
Diga-se, em abono da verdade, que Manuel Vasques de Azevedo nunca foi político, mas tão somente um funcionário público que, por auferir vencimento do Estado, era obrigado a desempenhar funções autárquicas. Esse procedimento era muito comum no tempo da ditadura salazarista, para evitar que as despesas da administração autárquica pesassem nas finanças públicas e no orçamento do Estado. Também é verdade que no período do Estado Novo, sobretudo durante e após a II Guerra Mundial, as administrações autárquicas quase nada faziam, em termos de obras públicas, para não sobrecarregarem o Orçamento de Estado, devido ao pavor que o ditador tinha em relação ao possível descontrolo das finanças públicas. Quem sofria com isso eram as populações, que viam as suas cidades, vilas e aldeias, reduzidas ao marasmo e ao ronceirismo que tanto caracterizava o regime salazarista. Os próprios elencos autárquicos, por serem nomeados pelo governo, eram em geral desempenhados por funcionários do Estado, por militares e até sacerdotes religiosos, desde que as populações os considerassem competentes e honestos para o exercício das funções que lhes eram confiadas. Acontecia também que certos cidadãos na situação de reforma, só pelo facto de serem estipendiados pelo Estado eram obrigados ao desempenho de funções na administração pública, não lhes sendo possível pedir escusa dessas funções a não ser por razões atendíveis de saúde.
A título de simples pormenor se acrescenta que Manuel Vasques de Azevedo era casado com D. Maria Amália Piloto de Azevedo, senhora muito conhecida e respeitada no conceito das melhores famílias vilarealenses. Era irmão de D. Elvira de Azevedo Vaz Velho, que foi casada com João Machado Vaz Velho, residentes em Faro, onde beneficiavam de grande apreço e consideração social.



terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Algarve na opinião alheia


Muito se tem escrito ao longo dos tempos sobre o Algarve. Não iremos fazer aqui uma pesquisa exaustiva das opiniões críticas emitidas em livro por autores diversos e dispersos, porque a tanto não nos sobejaria nem a paciência nem o espaço. Faremos, apenas um breve bosquejo de algumas apreciações, que nos pareceram mais elucidativas, mas belas ou mais eloquentes. São uma espécie de caleidoscópio dos diversos ângulos pelos quais se podem apreciar as qualidades naturais, ambientais e humanas desta região bendita, que os portugueses e os estrangeiros admirammercê das suas particulares belezas e sobretudo das suas singularidades histórico-culturais.
Falcão Trigoso, Algarve, seca do figo, quadro de 1911
Assim, acerca do Algarve aqui ficam alguns informes coligidos a esmo. Comecemos pela caracterização do conceito histórico de Região:
«… o antigo "reino do Algarve", a última zona a incorporar-se na unidade territorial portuguesa, não teve apenas, com efeito, a sua individualidade bem reconhecida no título que usavam os nossos primeiros reis, mas sempre se considerou bem separado do resto do país: num documento de 1595, citado pelo Dr. Leite de Vasconcelos (Biblos,vol. VI, pág. 487), fala-se, por exemplo: da “estrada que vai de Tavira para Portugal”, e Baptista de Castro no seu Mapa de Portugal (vol. I. pág. 77), ainda escrevia que o Algarve ficava “separado de Portugal pelos montes Caldeirão e Monchique”. E só por esta circunstância se explica talvez o facto de ser o Algarve a única zona do país onde o distrito veio sobrepor-se exactamente à antiga divisão provincial, constituindo, por outro lado, uma razão até certo ponto atendível para que a ela se faça corresponder também uma região geográfica verdadeiramente digna deste nome.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 8.

«... quando se fala da região algarvia, é sobretudo a zona litoral do Algarve administrativo e histórico que queremos referir-nos. É, de facto, o seu manto de sedimentos secundários e terciários que "transforme le pays en un véritable jardin" no justo e autorizado dizer de Lapparent (Leçons de géographie physique, 3.ª ed., pág. 463). A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 136.
Algarve, família camponesa varejando a azeitona das oliveiras

«…quem entra no Algarve pelo caminho de ferro reconhece bem que não é em S. Marcos da Serra, onde o solo e a paisagem são ainda os do Alentejo, mas apenas em S. Bartolomeu de Messines, precisamente no limite setentrional da orla mesozóica, que de súbito nos julgamos transportados a um verdadeiro mundo à parte.» in A. de Amorim Girão, op. cit., p. 174.

«Tanto o Algarve se considerava dantes divisão distinta do resto de Portugal, que em certos documentos algarvios dos séculos XVI e XVII se fala dele como se fosse outra nação, por exemplo: em 1595 diz-se numa confrontação: “...a estrada que vai á aldeia de Moncarapacho e sidade de Tavira pêra Portugal...”; em 1607, noutra confrontação: “...dali sempre pella estrada de Portugal”, isto é, que vai para Portugal.» (J. L. V., Opúsculos, vol.V, p.330).

Postal antigo, traje rural da algarvia
Do ponto de vista natural, ambiental e orográfico, o Algarve aparece-nos descrito e apreciado como uma região distinta, com culturas próprias e exclusivas, um clima ameno e dócil, uma réstia, em suma, do paraíso terrestre:

«As culturas arvenses, e, em especial, da amendoeira, da figueira e da alfarrobeira, têm um considerável desenvolvimento nesta sub-região (o litoral) que mais parece um pomar, onde o homem, no dizer do Portugal Pequenino, “é, como o árabe, mais hortelão do que lavrador”; e algumas espécies vegetais próprias dos climas quentes, como a palmeira, a bananeira, o esparto, etc., contribuem ainda para dar-lhe um aspecto inédito em Portugal.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed., p.140.
Amendoeiras em flor, camponesa algarvia

«...Todo o Algarve é um pomar cultivado com esmero. A gente ao Alentejo, quando vê um bocado de terra bem tratado, diz: - É um pedacinho do Algarve». (Raul Brandão, Os Pescadores.

«...as casinhas aglomeradas, muito brancas, escorrem luz brilhante, como numa paisagem de esmalte...» Mariana Santos, «O Barranco do Velho», in Biblos, vol. VIII, 203.

«…o Algarve que é um pomar cultivado com esmero, e a costa, a mais recortada e piscosa de Portugal, com as suas praias esplêndidas, a água que às vezes parece caldo azul e ao pé dos areais as armações do atum, o peixe que com a sardinha dá mais dinheiro em Portugal.» Maria Angelina e Raul Brandão, Portugal Pequenino, Lisboa, 1930, p. 109.

sábado, 26 de janeiro de 2019

VILHENA, Francisco Augusto da Silveira Almeida

Notabilíssima figura da elite farense do último quartel do século XIX, detentor de avultados meios de fortuna, que o vulgo conhecia e respeitava sob o título de Visconde do Cabo de Santa Maria. Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Faro, onde marcou vincada presença social como político e jornalista. Defendeu as ideias avançadas do socialismo, e quando jovem chegou mesmo a simpatizar com a filosofia política de Proudhon e da Comuna de Paris. Tinha uma ilustração sólida, adquirida através da leitura dos grandes clássicos da literatura europeia e das obras filosóficas que marcaram o surgimento das ideias libertárias, do republicanismo operário e até mesmo do próprio anarquismo. Com o avançar da idade amansou os impulsos ideológicos, açaimou os projectos de justiça social cogitados na juventude, e tornou-se num cidadão pacato e empreendedor, num empresário de sucesso da opinião pública através do seu monumental jornal, o «Algarve e Alemtejo».
    Francisco Augusto da Silveira Almeida Vilhena, nasceu na vila de Ílhavo a 10-7-1848 - um dos históricos alfobres da miscigenação algarvia, através da emigração de marítimos que das praias do sul demandavam a costa do norte à procura de casamento -, e faleceu em Faro a 6-2-1928, com 80 anos de idade. Teve a desdita de ser monárquico e de assistir à queda do trono reinante, cabendo-lhe a honra de fazer a transição para o novo regime, entregando a autarquia a Bernardo de Passos (recém nomeado pela República como Administrador do Concelho), e o governo civil da região aos republicanos de Tavira. Sem nunca ter deixado de defender a democracia e a soberania nacional, acreditou no regime monárquico como veículo credível das ideias reformistas de uma sociedade mais justa e mais igualitária. Mas essa quimera nunca existiu, nem na democracia moderna. 
Veio para Faro com cerca de vinte anos de idade, para se empregar como aspirante de alfândega. Alguns anos depois ascendeu ao posto de director da Alfândega de Faro e mais tarde exerceu idênticas funções nas de Olhão e Vila Real de Santo António.
Interessou-se desde muito jovem pela política filiando-se no Partido Progressista, em cujas fileiras militava praticamente toda a sua família. Desempenhou funções públicas e políticas de assinalável relevo, nomeadamente as de Governador Civil substituto, presidente, eleito por diversas vezes, da Câmara Municipal de Faro, presidente da Junta Geral do Distrito, director da Companhia de Pescarias do Algarve, director da Companhia de Pescarias do Cabo de Santa Maria, Ramalhete e Forte, prior da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Faro, etc.
Como jornalista dispersou a sua prosa por vários periódicos de Lisboa e da província, obviamente afectos ao Partido Progressista, e dentro dessa linha política fundou e dirigiu em Faro os jornais «Comércio do Sul», «Progresso do Sul» e «Algarve e Alemtejo». Extintos estes periódicos, que não sobreviveram à implantação da República, manteve assídua colaboração nas colunas de «O Algarve» de Faro, publicando numerosos artigos sobre assuntos de pesca. Apesar de não ter uma instrução académica superior foi, contudo, um autodidacta e um estudioso incansável, evidenciando grande prestabilidade e admirável bondade para com os mais desprotegidos.
Pela sua dedicação à política e grande dinamismo nos meios industriais ligados às pescas, o rei D. Carlos concedeu-lhe em vida o título de Visconde do Cabo de Santa Maria, por decreto de 29-11-1898 e mais tarde elevou-o à grandeza de Conde por decreto de 3-4-1905.
Curiosamente foi o último presidente da Câmara Municipal de Faro no regime monárquico, cabendo-lhe a honra de empossar os seus sucessores republicanos. Por ironia do destino, assistiu à derrocada da monarquia e à extinção da república democrática.
Por fim, resta acrescentar que foi casado com D. Isabel Amália Coelho de Carvalho, nascida a 5-1-1854, oriunda da mais notável e possidente família da cidade de Faro. Dessa união nasceram vários filhos, de entre os quais destacamos Ventura Coelho de Vilhena e Francisco de Almeida Vilhena. Os seus avultados meios de fortuna foram sendo paulatinamente delapidados ao longo de décadas, perdendo-se também com a emergência do regime republicano o enorme prestígio social e político de que gozava a família Almeida Vilhena.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

SERRA, Manuel dos Santos


Faleceu na manhã do dia 29 de Novembro de 2018, no hospital distrital de Faro, aos 92 anos de idade o meu bom e querido amigo Dr. Manuel dos Santos Serra. Foi um dos mais notáveis médicos do Algarve, cuja vida profissional dedicou inteiramente ao bem comum. A qualquer hora do dia ou da noite recebia chamadas para acudir aos seus doentes, nunca deixando de comparecer, mesmo nos sítios mais recônditos do interior algarvio, para onde, nos primórdios da sua vida de "João Semana", se deslocava a cavalo ou, mais tarde, na sua pequena viatura, que por vezes serviu de ambulância nos casos mais urgentes.
Fixou residência e abriu consultório na pitoresca vila de Albufeira, quando ainda não se falava de turismo, mas que o seu espírito visionário já identificava e proclamava aos sete ventos como a Saint-Tropez do Algarve.
Todavia, no início dos anos cinquenta do século passado, quando iniciou a sua carreira médica, Albufeira era ainda uma vila pobre, ignorada e desconhecida no extremo sul do nosso país. E nesses tempos difíceis do pós-guerra, em que a ditadura apertava a vigilância sobre as figuras que mais se distinguiam na sociedade, nomeadamente no cultivo das letras e das artes ou no apoio aos mais desfavorecidos, é lógico que o Dr. Santos Serra foi alvo do escrutínio e da desconfiança salazarista. Não foram, por isso, fáceis os seus primeiros anos de vida profissional, numa sociedade amordaçada pelo medo e pela miséria.
Nas circunstâncias mais difíceis, carenciado de meios de higiene e de protecção ao contágio, dedicou-se durante anos ao combate da tuberculose, que grassava com especial incidência no seio dos lares mais desfavorecidos. Comparecia assiduamente nos bairros pobres, sobretudo dos marítimos, onde estudava o surto das doenças pulmonares, prestando os serviços de assistência médica de forma graciosa, por vezes correndo riscos de contágio durante os períodos mais intensos da tuberculose.
Apesar de todas as perseguições de que foi alvo, conseguiu levar por diante a sua cruzada em prol da saúde e da prestação graciosa de cuidados médicos aos pobres, aos velhos e às crianças, ajudando a Misericórdia de Albufeira a cumprir a sua missão de apoio aos mais carenciados.
Após o 25 de Abril seria nomeado Director do Centro de Saúde de Albufeira, cargo que desempenhou durante 22 anos com grande competência e a maior dedicação, razão pela qual recebeu oficialmente os mais subidos louvores.
Apresentando um dos seus livros, ao lado do poeta e do
presidente da Câmara de Albufeira, ambos já desaparecidos
Como aconteceu com muitas das figuras mais proeminentes da vida nacional, decidiu filiar-se no Partido Socialista, que, diga-se em abono da verdade, ajudara a fundar ainda antes da Revolução dos Cravos. E, sem nunca ter sido propriamente um político, aceitou presidir durante três mandatos à Assembleia Municipal de Albufeira. 
Além de ter sido um grande médico foi também um notável poeta, em meu entender um dos maiores do seu tempo, com uma obra vasta e de grande valor literário, que tive a honra de ressaltar nos vários eventos em que fiz a apresentação dos seus livros. Foi acima de tudo um cidadão exemplar, que muito amou a sua terra adoptiva - Albufeira, merecendo por tudo quanto fez pela saúde pública e pela cultura algarvia, uma homenagem que perpetue a sua memória, nomeadamente a atribuição do seu nome a uma rua, a um prémio literário que glorifique a poesia no Algarve, e se possível ao Centro de Saúde de Albufeira. Esta última sugestão foi já satisfeita pela actual Ministra da Saúde, nos dias imediatos ao falecimento do Dr. Santos Serra, o que me apraz aqui registar.
Resta-me acrescentar que o Dr. Santos Serra, havia-me pedido para fazer no dia 1 de Dezembro de 2018, a apresentação do seu último livro, a ANTOLOGIA POÉTICA - uma selecção, por si elaborada, dos poemas que compunham a sua vasta obra lírica. Recebi na semana anterior ao seu falecimento um exemplar dessa obra, para que pudesse preparar a minha palestra de apresentação. Infelizmente, foi nesse mesmo dia que se realizou o seu funeral. Curvo-me em sua homenagem, com o coração dilacerado, apresentando a sua esposa, seus filhos e netos os meus sinceros e sentidos pêsames.

Aqui deixo a biografia que escrevi sobre Manuel dos Santos Serra, para figurar na ALGARVIANA, se algum dia essa obra vier a ser publicada:
Manuel dos Santos Serra, médico e poeta, nasceu em Silveira, freguesia de Espinhal, concelho de Penela, em 23-1-1926, e faleceu no Hospital de Faro a 29 de Novembro de 2018, aos 92 anos de idade.
Veio com seus pais e irmãos em 1933 para a vila de Albufeira, onde desde então fixou a sua residência, sentindo-se por isso um algarvio de convicção e pura consciência regionalista. Fez a instrução primária em Albufeira, de se transferiu para o Liceu de Faro, concluindo na capital do Algarve os seus estudos secundários. Partiu depois para a Universidade de Coimbra, onde fez parte da Direcção da Associação Académica, concluindo em 1950 o curso de Medicina. Na Lusa Atenas fez amigos para o resto da vida, e nas esquinas da Universidade aprendeu os primeiros rudimentos de contestação ao regime salazarista. Os princípios revolucionários de luta pela Liberdade, pela Igualdade e pelos Direitos Humanos acompanharam-no para o resto da vida, mesmo que por vezes tivesse sofrido a ignomínia da perseguição política.
Admirador da cultura e das Belas Letras, cedo se apaixonou pelas musas e se deixou impressionar pela imagem de Orfeu, que o acompanhou nas horas mortas em que o seu talento se libertava da sisudez científica do médico para se espraiar no sonho, na sensibilidade e no lirismo amoroso do poeta. Dessa paixão pela poesia despontou a sua vontade interveniente na cultura, participando em tertúlias de poetas e literatos, nas quais defendeu sempre os lídimos valores do humanismo, da liberdade e da democracia, até mesmo quando falar dessa temática era quase um crime público.
Na sua especialidade colaborou no «Jornal do Médico» e apesar de muito assoberbado no trabalho clínico, sempre marcou a sua presença, em prosa e em poesia, nas colunas dos jornais regionais, publicando sobretudo crónicas de intervenção política e alguns contos literários. Na imprensa regional algarvia colaborou, entre outros, no «Correio do Sul», «Jornal de Albufeira», «Notícias de Albufeira», «Jornal Escrito», etc.
Assumidamente desafecto ao salazarismo, sofreu o acostumado ostracismo institucional que o impediu de dar melhor contributo à sociedade algarvia. Após a «Revolução de Abril» foi, durante três mandatos (1983-87, 1992-96, 1997-2001), Presidente da Assembleia Municipal de Albufeira e director do Centro de Saúde de Albufeira desde 1975 a 1997.
Dedicando um dos seus livros ao escritor Manuel Ribeiro
Relativamente à sua obra, podemos dizer que no primeiro livro, Romance Residual, nota-se uma espécie de decantação de flashes vivenciais para curtas sintetizações poéticas, sem peias estilísticas nem regras de composição. No segundo livro, A Desordem da Harmonia, assistimos a um apuro da forma e a uma beleza convulsiva na imagética lírica, sentindo-se um certo amadurecimento do próprio poeta. No terceiro livro, Mosaico de Palavras Oblíquas, os poemas, ainda que livres e fluidos, emanam duma luz interior, como sonhos peregrinos que evidenciam uma personalidade em busca de um ideal maior ou de um ente supremo. No seu mais recente livro, Sobreposições, nota-se uma certa evolução na sua poesia para níveis mais elevados, seguindo modelos estéticos cada vez mais próximos dos figurinos clássicos.
Em toda a sua obra o Dr. Manuel dos Santos Serra mostra-se possuidor de um espírito esclarecido e erudito, mas parece algo inconsciente da inatingível mensagem da sua poesia. Entre o real e a utopia espraiam-se os versos, por vezes longos, por vezes curtos, sem respeitar cânones nem limites. A poesia acontece... livre.
Pertence à Ordem dos Médicos, à Associação Portuguesa de Escritores, à Associação dos Escritores Médicos, ao Círculo Teixeira Gomes, à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, e à Associação dos Amigos de Albufeira.
Da sua lista de obras fazem parte os seguintes títulos:
Romance Residual, 1991; A Desordem da Harmonia, 1992; Mosaico de Palavras Oblíquas, 1997, Sobreposições, 2001; À Sombra do Silêncio, 2005; Albufeira 1950 – monografia médica, 2007; O Olhar das Palavras, 2007; Os Labirintos da Memória, 2009; Pomar de Pedras, 2011; Miradouro do Tempo, 2013; Retalhos de Cidadania, 2013; Navio Ancorado ao Sol, 2015; Arquipélago de Vozes, 2015; As Margens do Rio de Horas, 2017 e Antologia Poética, 2018. A partir de 2005 todos os seus livros foram editados exclusivamente pela editora Caleidoscópio.
Acerca de Manuel dos Santos Serra publiquei no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. V, pp. 495-496, a respectiva notícia biográfica, cujos informes naturalmente aqui se aproveitam.