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domingo, 30 de janeiro de 2022

Honorato Santos, um ignorado historiador do Algarve

 Investigador e publicista, Honorato Artur Pires da Silva Santos, de seu nome completo, nasceu em 1879, na cidade de Faro, mais propriamente na belíssima casa do Cercado da Atalaia, que lhe pertencia e que ainda conheci, naquele peculiar traço arquitectónico genuinamente algarvio, mas que julgo ter sido expropriado para expandir a cidade, erguendo-se no seu lugar uma daquelas inestéticas torres habitacionais, uma “caixotada” de betão, muito similar a pombais humanos. Quando a filha, a Dr.ª Mariana Santos, foi viver para Coimbra e depois para Lisboa, resolveu acompanhá-la e aí continuar as suas aturadas pesquisas sobre o passado histórico do Algarve, tornando-se por essa razão num assíduo frequentador da Biblioteca Nacional e da Torre do Tombo. Faleceu em Lisboa, no amparo da sua única filha, a 4-2-1968, com quase 89 anos de idade.
Era um cidadão muito estimado e bastante respeitado entre os seus conterrâneos, mercê da sua finíssima educação e lhaneza de trato, assim como pela consideração social a que os seus razoáveis bens de fortuna davam plena justificação. Possuía uma privilegiada memória, era inteligente, perspicaz e persistente na sua avidez pelo conhecimento. Tornou-se conhecido pela sua natural apetência para a música, sendo um apreciado instrumentista de piano, frequentador das nobres tertúlias citadinas que se reuniam nas casas mais abastadas para cultuarem a arte de Orfeu.
Mais insaciável do que a música era a sua curiosidade em aprender a razão de ser das coisas, quer da simples agricultura até aos mais avançados segredos da ciência. Interessava-se por tudo. Porém, eram as coisas do passado que mais prendiam a sua atenção. Desde as famílias nobres até aos heróis populares, que se haviam distinguido ao longo dos séculos; desde os vestígios das mais antigas ocupações humanas até aos mais nobres edifícios do Algarve, tudo isso o interessava e lhe ocupava as horas de descanso para aprender e saber sempre mais. Tanto em Faro como em Olhão o nome do Honorato Santos era sinónimo de louvável dedicação à leitura, de rara persistência ao estudo e de forte apego à investigação histórica. As centenas de nótulas e pequenos artigos sobre “Velharias Históricas do Algarve” valeram-lhe a nomeação para o Instituto Arqueológico do Algarve, que era aliás o único título de que se orgulhava, e do qual fazia alarde nos seus cartões de visita.
Desempenhou diferentes cargos públicos na cidade de Faro, nomeadamente na Fazenda Pública, na Câmara e na Junta Escolar de Faro. Também dava aulas particulares de piano para jovens iniciados nos segredos da arte de Orfeu.
Não sei porque razão era vice-cônsul honorário da Bolívia em Faro, mas desconfio que fosse derivado das suas relações de amizade com algumas famílias ligadas ao negócio de exportação de frutos secos, cortiças, azeite e outras mercadorias regionais.
Entre os cargos que graciosa e honradamente desempenhou, destaca-se a de Sindico da Ordem Terceira de S. Francisco de Faro, prestando relevantes serviços de assistência social, no combate à indigência e no auxílio à saúde pública.
Em livro, com letra de imprensa, nunca deu à estampa nenhum dos seus trabalhos. É certo que tudo o que escrevia era bastante sintetizado, pequenas súmulas sobre pessoas e factos, instituições e monumentos do passado histórico algarvio. No fundo eram apenas curiosidades que se tentavam aclarar, resumos de teses elaboradas por autores consagrados, compilações de citações avulsas, transcrição de documentos publicados em obras raras, enfim um caudal de “coisas e loisas”, uma espécie de bric-à-brac da História do Algarve. Nunca escreveu uma obra de fundo, com verdadeira importância para o avanço da historiografia nacional. A maioria desses estudos, ou pequeníssimas monografias, “editou-as” ele em curiosos caderninhos manuscritos, guarnecidos com belas molduras geométricas, de cornucópias e arabescos coloridos, ilustrados com o brasão de Faro, esquissos de monumentos e outros desenhos, a maioria dos quais muito infantis e meramente decorativos. Esses “canhenhos” de notas históricas - encapados em papel de fantasia com motivos florais, ou em papel vegetal de diferentes cores – “editava-os” em várias cópias manuscritas, oferecendo-os ainda em vida aos amigos e familiares, encontrando-se hoje dispersos pelas bibliotecas regionais, pelas livrarias particulares de alguns bibliófilos (como é o meu caso) e até pelos alfarrabistas, que os vendem como preciosidades da historiografia regional. Os exemplares que possuo estão datados de Lisboa na década de cinquenta, mas tenho um exemplar sobre o brasão de Faro datado de 1941.
Guardo esses exemplares com enorme carinho, como se fossem raros espécimes bibliográficos, tendo por eles uma grande estima e sentimento de preservação, não só por serem manuscritos da sua própria mão, numa caligrafia muito redonda e regular, própria de um copista conventual, como também pelo facto de sentir que neles pulsa ainda, no seu vigor natural, a personalidade e o belo carácter do cidadão exemplar que foi Honorato Santos. Não sendo iluminados, como os velhos «Livros de Horas», contém também lindos desenhos de flores, borboletas, joaninhas, anjinhos, enfim, inocentes figuras decorativas com que ilustrava e enriquecia os seus humildes apontamentos, compulsados nos seus "infantis" cadernos. Esses curiosos estudos de Honorato Santos, embora sejam uns subsídios da história, algarvia redigidos com extrema humildade por quem não se sentindo um investigador gostava, porém, de dar pública notícia das suas incursões pelas bibliotecas e arquivos nacionais, aonde a esmagadora maioria dos seus comprovincianos nem sonhava vir a frequentar. Refiro-me à Biblioteca e Arquivo Histórico da Universidade de Coimbra, à Biblioteca Nacional e à Torre do Tombo, locais de culto da erudição nacional, que, em longas e determinadas épocas, foram uma espécie de segunda residência do Honorato Santos.
No fundo são preciosidades da esmerada generosidade e amor regionalista deste farense, hoje tão injustamente esquecido, cuja filha, a Dr.ª Mariana Santos, foi digna herdeira ao tornar-se bibliotecária-arquivista na Universidade de Coimbra e no Palácio da Ajuda, procedendo a aturadas investigações sobre a história da cultura e da filosofia portuguesa.
Creio que a estreia do Honorato Santos como colaborador da imprensa algarvia se terá efectuado nas colunas de «O Heraldo» de Faro, logo depois da implantação da República. Em «O Algarve», também de Faro, publicou dezenas de pequenos artigos sobre história local, etnografia e literatura algarvia. Mas foi no semanário «Correio do Sul» que mais se distinguiu, quando em 18-11-1928 iniciou a publicação da secção “Coisas Antigas do Algarve”, na qual deu a público centenas de nótulas sobre os mais diversos factos históricos e os mais relevantes monumentos da região.
Para futuras pesquisas da sua obra completa, devemos acrescentar que Honorato Santos, como emérito estudioso da história algarvia, colaborou nos seguintes órgãos da imprensa regional: «O Algarve» (1908), «Alma Luzitana» (1919), «Correio do Sul» (1928) «Anais do Município de Faro» (1969), neste caso já a título póstumo, com a edição pública e em primeira mão da pauta musical da "Valsa Faro" que compôs em honra da sua cidade natal.
Foi casado com D. Palmira Rita Machado Gonçalves dos Santos, falecida em Lisboa a 1-1-1945 e de quem teve, como já se disse, uma única filha, a Dr. Mariana Amélia Machado Santos, que além de ter sido assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e autora de valiosa obra científica na área das ciências sociais e humanas, seguiu depois a carreira de bibliotecária-arquivista na Biblioteca Nacional de Lisboa.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

D. António Barbosa Leão, bispo do Algarve

Aquele que foi um dos mais famosos prelados do Algarve, nasceu em Parada Todeia, antiga freguesia do concelho de Paredes a 17-10-1860 e faleceu como Prelado da Diocese do Porto a 21-6-1929. Era filho de Manuel Barbosa e de Maria Barbosa Leão, casal humilde, mas de inquestionável honradez, dedicação ao trabalho e grande seriedade.
Estudou no Colégio do Carmo, em Penafiel, e no Seminário Episcopal do Porto, onde se ordenou presbítero a 1-8-1886. Exerceu o professorado no Colégio da Formiga e no Seminário dos Carvalhos, até que em 4-9-1890 tornou-se pároco da freguesia da Lustosa no concelho de Lousada. Aí se manteve até 21-12-1904, passou a dedicar-se à pregação apostólica. A fama da sua erudição chegou ao conhecimento do governo e da Coroa que sugeriu a Roma, ao Papa Pio X que o nomeasse Bispo de Angola e Congo, o que sucedeu em Julho de 1907, depois do decreto de 13-2-1906 o haver incumbido dessas funções. Mas quando o bispo do Algarve, D. António Mendes Belo, foi designado Patriarca de Lisboa, o governo por decreto de 7-11-1907 nomeou D. António Barbosa Leão para o substituir na diocese de Faro, o que seria confirmado por Roma no mês seguinte. O novo prelado recebeu com satisfação a incumbência de dirigir a diocese algarvia, funções que desempenhou com competência e sentido de responsabilidade entre 3-4-1908 e 28-8-1919. Durante esse período desenvolveu algumas actividades e tomou posições notáveis no seio da diocese, nomeadamente em Dezembro de 1908, quando enviou a todos os párocos um inquérito para que estes respondessem acerca da antiguidade histórica da freguesia, rendimentos e outros meios de subsistência dos párocos. As respostas a esse inquérito são hoje muito consultadas pelos historiadores locais.
D. António Barbosa Leão, bispo de Faro

Por outro lado, em 1-2-1909, publicou a Pastoral da Páscoa, na qual abordava o ensino religioso. Em Fevereiro, mas do ano seguinte, apresentou ao governo um “Memorial” sobre as Côngruas como meio de sobrevivência dos párocos, enviando em Setembro um “Relatório” complementar, no qual sugeria os melhores meios para se proceder a uma nova dotação dos benefícios paroquiais. Mas quando dias depois se implantou a República tudo se alteraria na vida religiosa do país. A publicação da “Lei da Separação da Igreja do Estado” agravaria as relações políticas entre os dois poderes. Como reflexo desse antagonismo político, emergente da implantação do regime republicano, surgiu a publicação de uma Pastoral colectiva dos prelados portugueses, datada de 24-12-1910, na qual criticam de forma veemente as posições anti-clericais do governo.
Como o bispo do Algarve publicasse, precisamente um ano depois, uma pastoral em que acusava o regime de perseguir a Igreja e de subalternizar os párocos, o governo reagiu através da publicação do decreto de 6-1-1912 condenando-o à pena de desterro para fora da diocese durante dois anos, instaurando-lhe também um processo-crime. O prelado cumpriu o desterro indo viver para a sua casa da Parada, mas ao sair da diocese mandou publicar um protesto dirigido ao Presidente da República, cujo conteúdo reivindicativo pelas asserções impugnativas contra a arbitrariedade do poder temporal, constitui hoje um testemunho teológico bastante importante, sobretudo como documento histórico.
Terminado o desterro, voltou à diocese algarvia em 11-1-1914, sendo aqui recebido com grande júbilo pelos seus párocos e sobretudo pelos crentes pertencentes às classes sociais mais desfavorecidas. Teve a partir daí algumas iniciativas dignas de relevo. Assim, promoveu as comemorações do 1.º centenário do bispo D: Francisco Gomes do Avelar, falecido em Faro a 15-12-1816, em cuja homenagem o prelado mandou reunir entre 8 e 11 de Fevereiro de 1916 um congresso sobre as obras católicas no Algarve, cujos volumes de «Actas» são ainda hoje consideradas como fonte credível para a investigação histórica.
Saliente-se também o facto de D. Barbosa Leão ter publicado um folheto de 45 páginas no qual defendia sem rebuço o programa da União Católica e do Centro Católico Português, que suscitou grande polémica nos arraiais monárquicos, pelo facto do seu autor expender com sinceridade as suas posições políticas, face ao momento de confrontação bélica generalizada, que se vivia por toda a Europa. Havia, por essa razão, que salvar o país e garantir melhores condições de vida para os mais desfavorecidos, ajudando o governo e a República a levar por diante a sua política de reforma social.
Nos onze anos que D. Barbosa Leão esteve à frente da diocese algarvia, realizou uma obra fecunda de melhoramentos regionais, nomeadamente a construção do edifício do Seminário de S. José em Faro e da residência da cúria episcopal, onde viveu o próprio bispo.
Caricatura publicada na imprensa

Em Julho de 1919 foi nomeado Bispo do Porto, partindo de comboio para a cidade Invicta debaixo do aplauso do povo algarvio, assumindo a prelazia daquela diocese a 8-10-1919, onde permaneceu até à sua morte, ocorrida a 21-6-1929.
Quando se começou, em 15-1-1910, a publicar o quinzenário «Boletim do Algarve», órgão da diocese algarvia, foi D. António Barbosa Leão um dos seus mais assíduos colaboradores, publicando nessas colunas as suas Pastorais dirigidas à eclésia algarvia. Nele publicou em 1911 uma “Pastoral ao Clero” a propósito das relações da Igreja com a República, a qual causou grande polémica visto nela produzir afirmações liberais de quase franco republicanismo. Como já dissemos mais acima, essa atitude foi tida por abusiva e considerada de excessiva liberdade de opinião. Por isso recaiu sobre o ilustre prelado a adversidade do governo, que, em 6-1-1912, o penalizou com a proibição de não residir na sua diocese, partindo para a localidade de Parada, sua terra-natal, sobrepujado com o peso da injustiça dos homens.
Seja como for, D. António Barbosa Leão foi um homem inteligente, com inquestionáveis capacidades de escrita e talentos de orador, cuja preladia atravessou o conturbado período histórico da revolução republicana e da consolidação do novo regime. As pastorais que dirigiu ao presbitério algarvio e que publicou na imprensa local, para que todos tivessem conhecimento dos negócios eclesiásticos na região, foram medidas duma exemplar transparência, raramente imitada.
O povo algarvio tinha pelo bispo Barbosa Leão uma grande simpatia e respeito, disso não temos a mínima dúvida. 
Para além de ter fundado o «Boletim do Algarve», precursor do semanário paroquial «Folha do Domingo», que ainda se publica, dirigiu também a revista “Missões de Angola e Congo” e colaborou com o jornal “Novidades”, órgão nacional da Igreja Católica em Portugal. Publicou diversa propaganda religiosa e duas obras fundamentais para o espírito teológico da igreja: “A Largueza do Reino de Deus” e “De que Espírito Somos?”.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Carlos da Silva Fernandes, um homem que se fez a si próprio

Carlos da Silva Fernandes
O trajecto de vida do cidadão Carlos da Silva Fernandes foi muito curioso, ao estilo do self-made man, que teve altos e baixos, sucessos e desilusões, que o levaram de uma situação de riqueza até quase ao descalabro. Mas enquanto outros desistem e se revoltam contra a vida e acusam os outros do seu infortúnio, com Carlos Fernandes aconteceu precisamente o contrário. Levantou-se do chão e voltou a vencer. O facto de ser um homem culto e de grande inteligência, associada à rara capacidade de fazer amigos e de prever os acontecimentos a uma certa distância no tempo, permitiu-lhe ter quase sempre do seu lado o sucesso nos negócios e um vasto leque de relações de trabalho.
Começou o seu trajecto de vida nos meios artísticos e culturais de Lisboa o que lhe permitiu tornar-se conhecido em certos sectores empresariais da capital, estabelecendo uma teia de afinidades que aproveitou para se lançar noutros voos. Avançou então no caminho da indústria, tornando-se proprietário de uma fundição que laborou muitíssimo bem até ao “25 de Abril”, com uma carteira de negócios ligada ao ultramar e a alguns países da Europa. Todavia, aguçou-se-lhe no espírito a paixão pela política, e por isso se desleixou com a direcção e volume de negócios da sua empresa. Fundou com outros utópicos democratas o Partido Republicano, e na ânsia da sua afirmação eleitoral fez-se à estrada e viajou pelo país inteiro, restabelecendo relações e amizades antigas. 
Mas a política tirou-lhe a disponibilidade para se dedicar à sua empresa, a tal ponto que a situação da fundição se tornou insustentável. A falência aconteceu num ápice e a quimera da política esfumou-se à mesma velocidade com que se esboroaram os negócios e o descalabro da sua empresa industrial.
Face à difícil situação económica em que se encontrava, decidiu vender os produtos fabricados que tinha em armazém, assim como os móveis e outros objectos que possuía em sua casa, tornando-se de um momento para o outro nem vendedor ambulante, que percorria as feiras e mercados do país. Estabeleceu novas relações e amizades constatando que entre os seus novos colegas de profissão não existia nem organização, nem ordem e muito menos um espírito solidário que os pudesse ajudar em situações imprevisíveis de crise. Assim, decide criar uma associação de vendedores ambulantes, da qual se tornaria num líder natural, não só pelos seus dotes de inteligência, como ainda pela sua cultura, pela sua lhaneza de trato e até pela sua anterior experiência política, num projecto que não obstante ter falhado sempre lhe proporcionou um vasto conhecimento das relações humanas. Tornou-se, assim numa espécie de porta estandarte dos vendedores ambulantes, e nessa qualidade visitou ministérios e foi presença activa em certos momentos na Assembleia da República.
Dessa sua actividade comercial, relacionada com os mercados e a venda ambulante, resultou a eleição para presidente da direcção da Feimercal - Associação dos Feirantes e Vendedores Ambulantes, à frente da qual prestou inestimável colaboração no sentido da abertura de um mercado mensal em Paderne.
Panorâmica da aldeia de Paderne
Em boa verdade, Carlos Fernandes tornara-se num padernense de alma e coração, nascendo esse amor e essa forte convicção regionalista a partir do jornal «Avezinha». Curiosamente, foi em Armação de Pêra que tomou contacto com a leitura deste semanário, sentindo desde logo uma forte empatia por este humilde órgão da imprensa regional algarvia, não só pela sua curiosa designação como, sobretudo, pelo seu forte pendor cultural. Procurando conhecer melhor as origens e os dirigentes do jornal, deslocou-se à freguesia de Paderne, onde depois de se relacionar com as pessoas tratou logo de colaborar com artigos e notícias, relacionados com a vida comercial da região e até com o fomento cultural, de que tanto carecia a freguesia pela qual logo se apaixonara.
Gostava tanto do jornal como da aldeia, pelo que tratou em breve de adquirir uma casa onde fixou a sua residência. Contrariando as origens e até as expectativas de grandes negócios, Carlos Fernandes deixou Lisboa, onde nascera e vivera muitos anos, transferindo-se para a província por uma questão de felicidade e de paz interior, que encontrou nessa pacata aldeia algarvia.
Arménio Aleluia Martins, director e refundador do jornal
 «Avezinha», hoje museu de imprensa em Paderne
Carlos Fernandes pela sua bagagem cultural, e até pelo seu porte físico, era um homem de forte personalidade, mas de grande afabilidade social, cuja dimensão humana era muito rara nos dias de hoje. Apesar de todas as vicissitudes da vida, soube sempre lutar e vencer os escolhos que teve de enfrentar no difícil mundo dos negócios e do comércio, sabendo sempre cativar e manter as relações humanas. Nem sempre abundante de meios financeiros, era a amizade o melhor capital que possuía.
A sua inclusão no meu «Dicionário dos Jornalistas e Homens de Letras do Algarve» é uma espécie de homenagem a um homem de fáceis relações humanas e de exuberante trato social, que fez da sua colaboração no jornal «A Avezinha» uma válvula de escape, uma forma de dar largas às suas inatas capacidades de homem de letras que nunca chegou a ser por desencontros do destino.
Carlos da Silva Fernandes, foi aquilo a que o vulgo chama "o homem dos sete instrumentos", pois que durante a sua vida desempenhou actividades profissionais de sucesso no mundo da indústria, do comércio e até da comunicação social, tendo sido um dedicado colaborador do jornal «A Avezinha», órgão sediado na humilde freguesia de Paderne, concelho de Albufeira, cuja audiência de leitores se espalhava pelo mundo inteiro. 
Resta-me acrescentar, para concluir, que Carlos da Silva Fernandes, nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1921, e faleceu em Paderne, onde ficou sepultado, no concelho de Albufeira, a 17 de Junho de 2005, com 83 anos de idade.

sábado, 20 de junho de 2020

CABRITA, Francisco Neto


Médico e autarca, nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a 20-12-1899, onde também viria a falecer em 30-12-1949, com apenas 49 anos de idade. Era filho de D. Conceição Neto Cabrita e do abastado proprietário local Domingos Sequeira Cabrita, cujo espírito empreendedor lhe permitiu reunir significativos meios de fortuna.
Busto do Dr. Francisco Cabrita,
erigido frente ao Centro de Saúde
da freguesia de S. B. de Messines
Frequentou o Liceu de Faro e formou-se em Medicina, pela Universidade de Coimbra, em 15-12-1926, fixando-se logo a seguir como clínico na sua aldeia natal. Aqui desenvolveu o seu múnus clínico e aqui soube granjear vastíssimo prestígio entre a população local. O povo simples e carente, amava-o com absoluta sinceridade, a ponto de o cognominarem como “o pai dos pobres”. Este honroso epíteto, deveu-se não só ao exercício do seu múnus de forma gratuita, como ainda à forma como protegia os mais desfavorecidos, pagando os medicamentos do seu bolso e, não raras vezes, saldando as dívidas das famílias mais pobres nas mercearias locais. Naquela bonita terra, que também serviu de berço a João de Deus, o maior poeta algarvio de sempre, era o Dr. Francisco Cabrita a figura mais querida e popular, pela forma desinteressada com que serviu o bem comum, e muito particularmente pela forma altruísta como protegeu os mais carenciados.
No inicio da década de trinta, assistiu-se à consolidação do Estado Novo e à consagração de Salazar como Primeiro Ministro. O país mergulhou numa onda reorganizativa da vida social, com base na regulamentação legislativa das novas instituições. As Casas do Povo foram um exemplo flagrante do engajamento sociocultural das populações rurais. Imbuído desse espírito e fazendo parte dessa onda nacional, se posicionava o Dr. Francisco Cabrita que, em 1934, promoveu a criação da Casa do Povo de Messines, da qual seria logicamente o seu primeiro presidente.
Fervoroso adepto das ideias nacionalistas, tornou-se pela sua bondade e dedicação aos pobres, numa espécie de cacique local, razão pela qual assumiu, em 1935, e durante alguns anos, sem remuneração, a presidência da Câmara Municipal de Silves. Quando o ministro Duarte Pacheco pensou no incremento do turismo (que se encontrava desde 1933 sob a alçada do SPN - Secretariado da Propaganda Nacional), para cujo impulso inicial contou com a decisiva ajuda de António Ferro, avançou-se em todo o país, na esteira das Comemorações Centenárias de 1940, para a criação das comissões de iniciativa municipal de Arte e Turismo. Na zona litoral, em particular nas praias de maior potencial turístico, de que era paradigma emergente a Praia da Rocha, Quarteira e Monte Gordo, no Algarve, evolui-se para a criação local das Juntas de Turismo, tendo o Dr. Francisco Cabrita fundado e presidido à da Praia de Armação de Pêra, devendo-se à sua enérgica iniciativa a construção da Avenida Marginal, que ainda hoje é o local mais aprazível daquela estância turística.
Tratando-se de uma figura muito conhecida e respeitada em todo o Algarve, não admira que fosse convidado a aceitar o exercício, em simultâneo, das funções de médico da Casa do Povo, da Federação das Caixas de Previdência e da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. Na visita aos seus doentes deslocava-se a cavalo pelos campos adentro, munido dos apetrechos médicos, fazendo todo o tipo de assistência médica, desde partos a fraturas ósseas, de pequenas cirurgias até ao tratamento de tuberculosos em adiantado estado de doença. E raras foram as vezes em que perdeu um paciente. A tuberculose e as doenças infecto-contagiosas, sobretudo nas camadas infantis, eram na época um flagelo, a que o Dr. Cabrita deu o melhor do seu esforço, num combate permanente entre a vida e a morte.
Busto do Dr.Francisco Cabrita, autoria do escultor José Carlos
O pedestal, em grés de Silves, é um trabalho de Bruno Matos.
Por outro lado, em face das suas convicções políticas, de nacionalista e entusiasta admirador do Doutor Oliveira Salazar, tornou-se no comandante de lança da Legião Portuguesa no Algarve. Faço lembrar que o único benefício que usufruía desse cargo era o de figurar nos lugares cimeiros das celebrações políticas e religiosas, sobretudo nas procissões pascais. Embora a Legião fosse uma espécie de milícia militar, de pouco lhe serviria o Dr. Francisco Cabrita que não fora soldado nem sabia disparar uma arma.
A determinada altura sentiu-se doente e caiu no leito durante largos meses, num cruciante sofrimento de que resultaria a sua morte prematura. Uma doença cancerosa vitimou-o precocemente, numa altura em que acalentava realizar vários projectos locais, para o desenvolvimento da indústria na sua aldeia natal, e para a saúde pública no concelho de Silves.
Em face de todas as iniciativas que promoveu, quer como médico quer como político local, o Dr. Francisco Cabral era certamente a figura pública mais conhecida do barlavento algarvio, razão pela qual o seu funeral, com mais de seis mil pessoas presentes, foi uma das maiores manifestações de pesar alguma vez presenciadas no Algarve.
Era casado com D. Inácia Nobre Figueira Neto Cabrita e pai de Domingos Manuel Figueira Neto Cabrita.
Por decisão da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu de Messines foi dado o seu nome à rua onde sempre viveu e faleceu.

sábado, 2 de maio de 2020

Capitão David Neto, um algarvio fiel a Salazar


Uma das figuras que apoiou Salazar e o Estado Novo, foi o capitão David Neto, um militar de grande integridade moral, que se fartou das incongruências da República, da falta de autoridade governativa, das hesitações da nossa política externa, e do partidarismo em que mergulhara a vida nacional. Teve um papel importante na defesa territorial das possessões africanas, que compunham o grosso do nosso império, e comportou-se exemplarmente, com bravura e dignidade no seio do C.E.F., que tão heroicamente defenderam a bandeira e os interesses nacionais na I Guerra Mundial. Em sua memória, aqui fica um breve esboço da sua vida, e da sua personalidade, não só como militar, mas também como escritor.
David Rodrigues Neto, de seu nome completo, nasceu na freguesia do Algoz, concelho de Silves, a 31-3-1895 e faleceu em Portimão a 4-1-1971, com 75 anos de idade. Acima de tudo foi um digno militar, um honrado advogado e um honesto político nacionalista.
Fez os seus estudos preparatórios na terra natal e os secundários em Faro, transferindo-se depois para a Universidade de Coimbra, onde iniciou o curso que teve de interromper por causa da participação de Portugal na I Guerra Mundial. Assim, assentou praça em 20-7-1915, sendo nos dois seguintes promovido a alferes e a tenente, até que em 1922 ascendeu ao posto de capitão, iniciando a partir daí uma carreira de armas que prosseguiu até à patente de Major, em 1935, mas que bem poderia ter sido mais fulgurante, se não fosse a sua vontade de concluir os estudos superiores e enveredar pelo foro.
Como militar portou-se com valentia e heroísmo, sobretudo nos insalubres campos da Flandres, sofrendo nas trincheiras a contaminação infecciosa das doenças que dizimaram mais militares do que os ignominiosos ataques do exército alemão. Basta dizer que as suas primeiras promoções foram obtidas nos campos da França durante a Grande Guerra, por actos de valentia, recebendo por isso várias condecorações nacionais e estrangeiras. Infelizmente, na célebre batalha de La Lys, ocorrida no fatídico “9 de Abril” de 1918, foi incapaz de suster o ataque das forças alemãs, esmagadoramente superiores em efectivos e equipamento militar, sendo as nossas linhas dizimadas até que os últimos resistentes, como o alferes David Neto, foram feito prisioneiros e internados num campo de concentração. Porém, o nosso intrépido algarvio conseguiu evadir-se do campo, prosseguindo um plano de fuga que o levou até à Dinamarca. Seduzido pelo conhecimento de novas culturas e ideias, decidiu demorar-se pela Europa, mesmo depois do armistício assinado em Novembro de 1918, percorrendo sobretudo a Bélgica e a Inglaterra.
Quando, anos depois, retornou a Portugal, preferiu voltar a estudar Direito, matriculando-se primeiro na Universidade de Coimbra e depois em Lisboa, onde viria a concluir o curso em 1926, logo após a «Revolução do 28 de Maio», em que participou activa e decididamente, sendo até apontado como um dos oficiais mais destemidos no avanço sobre a capital, afirmando-se um nacionalista convicto que expendia publicamente a necessidade de instaurar uma ditadura militar para salvar a pátria da incompetência dos políticos e da partidocracia instalada. Como recompensa foi nomeado comandante do Batalhão de Caçadores 5, cujas fortes convicções nacionalistas comprovou, no ano seguinte, ao colocar-se na linha da frente contra as revoluções do “7 de Fevereiro” e do “26 de Agosto”, ambas do ano de 1927, recebendo pouco depois, pela valentia debaixo de fogo, a condecoração da Torre-e-Espada.
Capitão David Neto Informa Salazar sobre a derrota do
Reviralho na Revolta de 26 de Agosto de 1931 - Lisboa
Talvez porque esperasse melhor retribuição política pela sua esforçada conduta militar, sentiu uma profunda desilusão com o regime salazarista, a tal ponto que decidiu retornar às origens, fixando-se na cidade de Portimão, onde se revelaria um cidadão impoluto e da mais relevante dedicação à sua província e ao seu povo. Nem parecia ser o mesmo major David Neto que todos conheciam, um contumaz nacionalista que escreveu na imprensa violentíssimos textos contra o “regabofe” republicano, publicando em 1933 um livro bastante polémico, demolidor das ideias de democracia sem responsabilidade e de liberdade sem ordem, que lançaram o país no caos e na bancarrota. Esse livro intitulou-se Doa a quem Doer, teve largas repercussões na imprensa e até no governo do recente “Estado Novo” de Oliveira Salazar – que embora apreciando certas críticas sobre o passado republicano e certas afirmações de esperança em relação ao rumo que tomava a nova situação política – o certo é que o não convidou para altos cargos da administração pública. Certamente desiludido com as expectativas a que se julgaria com direito, decidiu em 1935 afastar-se definitivamente da vida militar e optar pela advocacia. Creio, porém, que mesmo na vida forense o seu sucesso não foi significativo.
Pouco depois decidiu fixar-se definitivamente na cidade de Portimão, onde tinha bens de monta e desejava prosseguir a advocacia. Não creio que tivesse sido lá muito bem sucedido nas suas aspirações forenses. Em todo o caso, deixou marcas naquela cidade, nomeadamente em 1946 quando teve um gesto de altruísmo que veio demonstrar à saciedade não só a sua generosidade como ainda a superioridade do seu carácter.
Esse gesto consistiu na doação ao Instituto Português de Oncologia de uma vasto terreno em Portimão, para nele se instalar o centro de diagnóstico e tratamento do cancro. A escritura de doação do terreno foi firmada a 22-10-1947, pelo outorgante doador, pela sua esposa D. Maria Firmina Júdice de Abreu Neto e pelo chefe da secção de finanças de Portimão, em representação do Estado, tendo assistido ao acto o governador civil do distrito, Dr. Antero Cabral. A escritura foi lavrada nas notas da Dr.ª Mariana Carapeto dos Santos Patrício, notária naquela cidade, na qual se definiu que o terreno doado ao Instituto Português de Oncologia tinha 15.000 m2, situado no sítio de S. Sebastião, junto à estrada para o Alvor, no qual aquele Instituto se responsabilizaria pela construção de uma unidade hospitalar para o combate ao cancro, a qual na altura ficou orçada em 12 mil contos.
Não sei se o mesmo veio ou não a ser aproveitado para o fim em vista. Em todo o caso a oferta do terreno para o desenvolvimento da saúde em Portimão é uma prova do seu altruísmo e amor regionalista.
Mas o facto mais relevante e mais curioso na vida do ex-major David Rodrigues Neto foi o facto de ter perdido a confiança em Salazar e no regime nacionalista, tomando fortes posições contra o «Estado Novo» ao ponto de chegar a ser preso pela PIDE e sofrer a humilhação de ser julgado no Tribunal Plenário de Lisboa, em Conselho de Guerra e até mesmo no Tribunal da Comarca de Portimão, onde defendera vários pleitos judiciais. Durante as campanhas para a Presidência da República esteve sempre ao lado da oposição, quer na candidatura, em 1951, do almirante Quintão Meireles, quer, em 1958, na heroica campanha eleitoral do general Humberto Delgado, ao longo da qual tomou posições muito críticas contra o regime vigente.
Na imprensa algarvia colaborou no «Comércio de Portimão» e sobretudo no «Correio do Sul», cujo director, o Dr. Mário Lyster Franco, era seu amigo e antigo correligionário como simpatizante do movimento nacionalista. Mesmo quando o major David Neto se tornou em “persona non grata” ao regime nunca o «Correio do Sul», nem o seu director, lhe fecharam as portas. Creio até que entre eles existia alguma consonância nas críticas que em surdina faziam ao regime salazarista, que com o tempo vinha apodrecendo em favoritismos clientelares e em perseguições políticas absolutamente desumanas.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Castello, António

António Castello, aos quarenta anos

Empresário português radicado em Buenos Aires, capital da Argentina, onde mercê do seu trabalho, sacrifício e abnegação logrou montar um negócio de mecânica automóvel, que foi progredindo até chegar a tornar-se numa das maiores empresas daquela cidade.
Nasceu em 1881, no seio de uma família humilde e modesta, na freguesia de Estoi, concelho de Faro, e quando chegou aos 21 anos de idade, vendo-se sem emprego, sem esperança e sem futuro, optou pelo caminho que muitos rapazes da sua geração seguiram, o da emigração. Estávamos em 1902, e nessa altura corria no espírito aventureiro da juventude a atracção pela estrada atlântica, na perspectiva de aí alcançar uma nova oportunidade de vida. O futuro dos mais desfavorecidos encaminhava-se novamente para o Brasil, onde a língua era mãe e onde havia sempre uma mão amiga, que a colónia lusa que antes ali se havia radicado, estendia aos que chegavam imbuídos da mesma esperança de sucesso e de prosperidade. Foi assim nas últimas décadas do século XIX, uma quimera que enfeitiçou milhares e milhares de portugueses que do norte do país, do Minho, do Douro e das Beiras, desempregados pela praga da filoxera que destruiu os vinhedos onde ganhavam o pão, tiveram que emigrar, deixando as nossas terras setentrionais quase despovoadas.
Quando o feitiço do Brasil esmoreceu, surgiu um novo «El Dourado» na terra das pampas meridionais da América. Eram as terras do Rio da Prata, a nova e próspera Argentina, que se levantava numa onde de progresso, de crescimento económico e de desenvolvimento agro-industrial. Os pobres da Europa Ibérica e mediterrânica acorreram em massa, sequiosos de esperança, de trabalho e, sobretudo, de um futuro, que lhes permitisse erguer um lar e criar uma família. Foram, tal como o António Castelo, aos milhares de homens e mulheres, gente de todas as idades, de diferentes nações, línguas e credos, para lavrarem a terra, esventrarem as montanhas, extraírem o minério de cobre e de ferro, criarem o gado, lanígero. bovino e cavalar, enfim…, foram para estabelecer os fundamentos do mundo latino.
Buenos Aires, centro, Jardim de Julho, em 1920
O António Castelo, com seus 21 anos de idade, em plena posse do seu vigor e inteligência, empregou-se numa grande casa comercial, onde em breve seria o fiel de armazém, conquistando a simpatia dos patrões, dos clientes e dos seus compatriotas, que nele viram logo o talento do sucesso. Com o decorrer dos anos foi ganhando confiança e maior conhecimento sobre o trato e a dinâmica macroeconómica, e mercê do seu esforço e dedicação à empresa conseguiu fazer muitos negócios de âmbito intercontinental, tendo a Europa e em especial o nosso país como plataforma giratória do avultoso comércio da carne, das madeiras, do aço, das peles, etc.
Dez anos depois António Castello era já muito considerado entre a colónia portuguesa, por ser um jovem muito trabalhador e inteligente, sempre atento às inovações americanas e muito dedicado à leitura dos principais órgãos da imprensa europeia. Talvez por essa influência é que tornou fiel seguidor do ideário republicano, e grande admirador de Afonso Costa, então na pasta da Justiça, cuja reforma judicial costumava apontar como uma marca da moderna civilização ocidental. Foi por essa altura que começou a assentar raízes e a pensar criar o seu próprio negócio. Ouviu conselhos, auscultou os seus amigos mais proeminentes da colónia lusa de Buenos Aires, estudou as propostas de financiamento e decidiu avançar com um negócio da sua iniciativa.
Buenos Aires, capital da Argentina, cerca de 1920
O primeiro passo foi escolher uma mulher que o pudesse acompanhar nessa aventura que iria mudar a sua vida. Escolher uma jovem, filha de boas famílias da mãe-pátria, chamada Gertrudes que o fez feliz e lhe deu seis filhos. Ao fim de vinte anos de trabalho, deixou a casa comercial, onde trabalhara com tanto afinco, para avançar em sociedade com o seu amigo Francisco Viegas, na criação de uma empresa ligada ao ramo automóvel, um sector que começava a dar grandes frutos na Argentina. Essa empresa, com a designação de «Viegas y Castelo», ligada à venda e reparação de veículos, tornar-se-ia a breve trecho num dos principais estabelecimentos do ramo automóvel em Buenos Aires. Os clientes e amigos, assim como os seus compatriotas, passaram a tratá-lo por Dom António, em sinal de respeito e consideração pelo seu sucesso no difícil mundo empresarial.
Um dos seus amigos, entre os mais leais e sinceros, era o jornalista Francisco Paulo Madeira, que nas colunas do semanário «O Jornal Portuguez», de que era director e proprietário em Buenos Aires, publicava sempre notícias do seu amantíssimo Algarve, sobretudo de Loulé, de onde eram naturais muitos dos seus assinantes e leitores. Volta e meia surgiam nas colunas do seu jornal, a propósito das empresas portuguesas de maior sucesso na capital argentina, notícias sobre a empresa de António Castelo, assim como de outros algarvios que se dispersaram pelo país das Pampas.
Cabeçalho do jornal de Paulo Madeira em Buenos Aires
Vem a talhe de foice lembrar que este Francisco Paulo Madeira, natural de Alte, concelho de Loulé, deixou no Algarve um rasto de lenda e de heroísmo, por ter sido um corajoso e indomável lutador pela implantação da República. Era um homem inteligente e talentoso, que lutava pelos seus ideais com a luz da razão. Porém tinha um espírito muito difícil de contrariar, que ainda por cima fervia em pouca água. Por vezes, quando os seus adversários não se deixavam vencer pela razão das suas ideias, recorria então ao vigor, à coragem e destreza dos punhos.
Francisco Paulo Madeira, ainda jovem, revelara-se nas colunas do semanário «O Louletano», fundado em 9-1-1893, como um jornalista de grande ilustração e pureza de estilo, embora nas suas palavras e afirmações sempre refulgisse o ideário republicano e o seu espírito anticlerical. Anos depois, a 20-5-1909, teve a ousadia de fundar por sua conta e risco o semanário «O Povo Algarvio», que se apresentava como “semanário republicano independente”. Tinha como ódio de estimação o seu oponente monárquico, o semanário «Notícias de Loulé», fundado em 30-5-1909, e dirigido pelo padre Manuel Bazílio Correia. Este jornal além de ser monárquico era profundamente católico, fazendo dos republicanos, o alvo principal dos seus ataques, acusando-os de assassinos (por terem matado o Rei), de diabólicos coveiros da pátria e de anticristos. Estas diatribes enfureciam o Paulo Madeira que na tribuna do seu «Povo Algarvio» desancava os monárquicos com os maiores impropérios. Por vezes, o nível baixava a tal ponto que chegava a roçar na chinela. Daí nasceu um episódio desagradável que marcou a vida de Paulo Madeira, suscitando inclusivamente o desconforto de ter que emigrar da sua terra-natal para a longínqua Argentina. O caso conta-se em duas palavras. O Manuel Madeira envolveu-se em acesa polémica com o Padre Bazílio Correia, da qual resultaria a suspensão do jornal republicano, obrigando o Paulo Madeira a fundir o seu jornal com os «Ecos do Sul» de São Brás de Alportel, passando por isso a ser apelidado acintosamente pelo seu adversário monárquico como «o bifronte». Daí resultou que num belo dia o Paulo Madeira em plena via pública quisesse tirar desforço do padre, havendo punhos e cuspidelas pelo ar. Chegou-se a falar numa pistola virada às fraldas da sotaina que felizmente não chegou a disparar. O caso foi a tribunal, mas a República implantada dali a pouco sanou tudo. O jornal monárquico fechou as portas, o Paulo Madeira saiu por cima. Todavia, nos anos subsequentes ao novo regime a sua pena continuou agressiva, não poupando críticas às novas vereações camarárias nem aos deputados que no parlamento defendiam mais os interesses pessoais do que os da própria pátria. Não tardou muito a que os seus antigos correligionários lhe silenciassem a pena, considerando o Paulo Madeira como persona non grata aos olhos do povo de Loulé. Por essa razão, farto das lutas partidárias, emigrou par a Argentino, onde voltou a erguer a sua tribuna de jornalista, isenta de polémicas políticas e de interesses partidários.
Quando o seu amigo e compatriota, António Castello, faleceu aos 47 anos de idade, numa sexta-feira 13, do mês de Julho de 1928, no hospital de Buenos Aires, onde esteve internado alguns meses, Paulo Madeira, sentiu de forma muito profunda a sua morte, como uma enorme perda para toda a comunidade lusa. Traçou-lhe o elogio fúnebre numa comovente notícia da qual respigamos, em jeito de encerramento, estas sentidas palavras:
«Enérgico e sóbrio, empreendedor persistente e honrado como a própria honra, bem merecia melhor prémio às suas actividades do que aquele que a sorte lhe destinou. Bom, sumamente bom, quasi poderíamos dizer divinamente bom – já que a imensa bondade dos raros António Castello que hoje topamos na vida deve derivar, talvez daquele sopro divino com que Deus alentou o barro de que modelou o género humano – toda a sua vida foi consagrada ao bem dos outros, com um tão impressionante espírito de sacrifício, com uma tão voluntária boa vontade que, cativando os corações os obrigava à gratidão.»
Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, em 2018
António Castelo foi a enterrar no dia seguinte, no cemitério da Recoleta em Buenos Aires. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas, na sua esmagadora maioria emigrantes portugueses, que choravam a sua inesperada morte como uma perda irreparável. Deixou à viúva, Gertrudes Castello, a difícil tarefa de criar os seus seis filhos, alguns dos quais eram ainda de tenra idade. Por lá ficaram, em Buenos Aires, prosseguindo a empresa que o seu progenitor lhes deixou, até que o tempo os dispersou a todos pelos insondáveis meandros da vida.

domingo, 3 de março de 2019

MACHADO, José António Valeriano

Jornalista, poeta e dramaturgo, nasceu em Faro e faleceu em Lisboa, a 13-1-1954.
Espírito empreendedor e algo aventureiro, dotado de grandes capacidades de trabalho, inteligência repentina, argúcia de filósofo, talento a rodos, mas desperdiçado em actividades de inferior relevância. Escrevia com facilidade em prosa e em poesia, dispersando-se pelos jornais locais até chegar às colunas da imprensa da capital. A partir de então, com o nome estampado nos jornais diários, tornou-se numa figura de superior pertinência e destaque.
Republicano até à medula da alma, foi um dos chamados “heróis da Rotunda”, pois que, com armas na mão, tomou parte activa na Revolução do 5 de Outubro em 1910. Mas essa foi uma das suas medalhas de juventude de que pouco ou nada se orgulharia porque a República além da desilusão em que a transformaram os seus políticos, foi também um regime de grande conflitualidade na ordem pública, marcado por vários levantamentos militares, desobediência civil, terrorismo urbano, ataques bombistas, greves violentas do operariado, constantes crises governativas, em suma um clima de instabilidade política que só contribuiu para o descrédito do novo regime, em que as gerações jovens tinham depositado tantas esperanças.
Fachada do antigo Teatro Apolo, na Rua da Palma em Lisboa
A vida nesses atribulados anos também não lhe correu bem. Sentiu que os magros cobres granjeados no jornalismo não eram suficientes para governar a vida, razão pela qual tentou encontrar no teatro os meios de sobrevivência com que pudesse pagar as dívidas. Por isso, escreveu para o Teatro Apolo uma revista intitulada «Risos e Flores», que embora levada à cena não teve o sucesso almejado pelo seu autor.
Felizmente existem depositados na Biblioteca Nacional, em Lisboa, pelo menos dois exemplares impressos, desta peça teatral, sendo que um deles é o texto original, ou seja, a versão literária da mesma, datada de 1920, idealizada muito antes de ser levada à cena em Lisboa. Para elucidação dos bibliófilos, aqui fica a descrição deste pequeno e raro livro, com que José António Valeriano Machado se estreou nas letras e no teatro: Riso de Portugal, Riso Amarelo ou Risos e Flores, Lisboa, Tip. do Comércio, 1920.
A outra edição desta peça corresponde à versão que foi levada à cena no Teatro Apolo, contendo o texto e as coplas em verso, inspiradas no gosto popular, que compunham o corpo cénico desta revista teatral. Tem esse folheto, de apenas 14 páginas, a seguinte descrição bibliográfica: Coplas da Revista, em dois actos e 2 Quadros, Risos e Flores, música de Vasco Macedo e Bernardo Ferreira», 1920.
Desiludido com a situação política da sua amada República, mas também para escapar às responsabilidades que lhe eram imputadas em determinado processo judicial, emigrou para o Brasil onde se fixou durante alguns anos. Todavia, razões de vária índole, próprias do seu espírito aventureiro, não lhe permitiram alcançar o sucesso desejado.
Assim, desapontado com o Brasil, onde a vida não lhe correu de feição, regressou à pátria, fixando-se em Lisboa. Empregou-se na redacção de «O Século» - um diário de larga expansão e sucesso, porta-voz do nosso incipiente capitalismo - onde como jornalista desenvolveu intensa actividade. Foi na qualidade de redactor do «Século» que tomou parte no grupo de plumitivos que fundou a Associação dos Jornalistas Portugueses, cujo programa cultural e objectivos sociais defendeu e divulgou nos órgãos da capital. Desse núcleo embrionário surgiria mais tarde o Sindicato dos Jornalistas e a Associação da Imprensa de Portugal.
Receoso do seu futuro como jornalista, decidiu empregar-se como funcionário da União dos Grémios da Indústria Hoteleira, ao serviço da qual recebia um vencimento, que não sendo avultado era, contudo, infalível e suficiente para sobreviver. Nessas funções chegaria à idade da reforma, sem brilho nas letras, é certo, mas também sem sobressaltos na vida.
Sede da Emissora Rádio Graça, na rua da Verónica, Lisboa
No tempo em que residiu no Rio de Janeiro, escreveu e publicou um belo livro de versos, no qual constam várias composições poéticas datadas de Faro. Encontramos um exemplar na Biblioteca Nacional, em Lisboa, do qual aqui deixamos a descrição oficial: Cinzas… Poesia Tosca, Rio de Janeiro, Imp. Moderna Carinhas, 1926, 117 p., [4] f., 17 cm (BNP: L. 34979 P.). Curiosamente, este mesmo livrinho teve no ano seguinte, em 1927, uma nova edição, embora me pareça que deve ter sido apenas uma republicação da versão do ano anterior. Este procedimento não era raro nessa época, porque as edições de livros faziam-se primeiro com poucos exemplares (por vezes uma centena de exemplares) para testar o acolhimento público da obra, fazendo-se, em caso de resposta positiva, um aumento de exemplares à edição inicial. É por isso que em certas obras vemos no frontispício a indicação de 1º, 2º ou 3º milhar, em vez de 1ª, 2ª ou 3ª edição, por se tratar de um aumento da publicação de exemplares e não de edições espaçadas por diferentes anos de publicação.
Botão de lapela, Rádio Graça
Só lamentamos que este livro seja hoje raro de encontrar, até mesmo no Brasil, e, por isso, difícil de chegar às mãos do comum leitor. Infelizmente, à excepção da Biblioteca Nacional, em Lisboa, não existe em mais nenhuma outra biblioteca pública do nosso país.
Emblema da Rádio Graça, Lisboa
Nos últimos anos de vida, Valeriano Machado, pronunciou aos microfones da «Rádio Graça» de Lisboa uma palestra semanal sobre temas muito diversos, como a instrução graciosa e pós-laboral da classe operária, a moral nacionalista e a ética social, a conduta religiosa do povo, o combate à mendicidade e a assistência aos pobres, poesia popular e teatro radiofónico, a leitura e a educação cívica dos trabalhadores, etc... Na esteira desse programa radiofónico publicou um pequeno jornal, em forma de boletim, de que saíram impressos, entre 1941 e 1942, pelo menos seis números, cuja edição cessou devido aos condicionalismos da guerra. Esse boletim publicou-se com a designação de «Rádio Graça», sob a direcção de Valeriano Machado e edição de Américo dos Santos, Lisboa, 1941-1942. Os textos eram na sua maioria do Valeriano Machado, resumindo alguns programas difundidos, noticiando os melhoramentos do bairro da Graça, o sucesso de alguns dos seus moradores, assim como realçava os progressos técnicos da própria estação.
Algumas rádios dos Emissores Associados de Lisboa
Esta estação radiofónica, sediada no Bairro da Graça, daí a sua designação, iniciou a emissão publica em 27-3-1932, sob a égide de Américo Santos, um simples guarda-livros que teve a inteligência e ousadia de divisar novos projectos e mais promissores horizontes, através da fundação de uma modesta antena de rádio, que viria a tornar-se num verdadeiro caso de sucesso através da inovadora emissão do teatro radiofónico nos anos cinquenta do século vinte. Uma das peças mais aclamadas pelo público desse tempo foi o drama «A Força do Destino», que em 1954 chegou a ter entre os lisboetas uma audiência sem precedentes, a tal ponto que até a Emissora Nacional passou a inserir diariamente um espaço teatro radiofónico, à hora do almoço e à hora do jantar, com peças dos maiores dramaturgos nacionais e estrangeiros. Devido ao seu enquadramento num bairro lisboeta, a «Rádio Graça» era uma espécie de rádio local com fraca expansão hertziana. Não tinha hipóteses de competir com as grandes antenas que dominavam o espaço nacional, nomeadamente a «Emissora Nacional», o «Rádio Clube Português» e a «Rádio Renascença». Para poder ampliar o seu alcance, Américo Santos decidiu nos anos cinquenta juntar-se a uma quarta antena de âmbito nacional, os Emissores Associados de Lisboa. Deste modo, passou a fazer parte de um grupo de quatro estúdios com audiência nacional, no qual se integravam também a «Rádio Peninsular», o «Clube Radiofónico de Portugal», e a «Rádio Voz de Lisboa».
Disco de 78 rpm gravado na «Rádio Graça», a 4-12-1959
Idêntica estratégia ocorreu no norte do país em 1953, quando as rádios locais se associaram numa antena de larga expansão territorial designada por «Emissores do Norte Reunidos» (cuja antena esteve instalada no Canidelo, em Vila Nova de Gaia), que subsistiu até 1975, altura em que foi também nacionalizada, sendo hoje a «Rádio Comercial», fundada em 1979, a sucedânea natural do antigo emissor do Norte.
A popular «Rádio Graça» chegou a ter em Lisboa quase um milhar de associados, que pagavam as suas quotas para ouvir diariamente, as notícias locais, as canções e os fados mais populares, mas também os contos tradicionais portugueses, as palestras do desporto e da cultura, os preceitos sobre a vida cívica, e sobretudo as peças de teatro radiofónico, cujo patrocínio da marca de detergentes «Tide» foi o garante da sua sobrevivência até 1975, quando aquela emissora foi nacionalizada e logo a seguir encerrada, por não se enquadrar na linha convergente à nova ordem política.

Entre os programas de maior sucesso da «Rádio Graça» distinguiam-se os contos, as lições de história pátria e as palestras infantis, para a educação e formação cívica das crianças, da autoria de Valeriano Machado. Convém esclarecer que este programa tinha sido primeiramente difundido pelo seu autor na «Rádio Hertz», que depois o fez ressurgir aos microfones da «Rádio Graça», ainda com mais sucesso e maior difusão. É curioso notar que cada um dos programas tinha uma lição pedagógica a incutir no espírito das crianças. Por isso era personalizado, isto é, tinha dedicatória a uma criança em particular, geralmente um filho ou neto de um associado da rádio, ou de um amigo do próprio autor. E o nome da criança era enunciado com todo o carinho, como que a pressagiar-lhe um auspicioso futuro. foram depois reunidas num volume que deu à estampa com o título de Lições do Avozinho, método aprazível e intuitivo, Lisboa, Tip. da Gazeta dos Caminhos de Ferro, 1940. A edição deste livro inscreveu-se no âmbito das Comemorações Centenárias, uma espécie de apoteose do regime de Salazar, cuja nação dimensionada pelos cinco continentes se apresentava em paz e em prosperidade, perante uma Europa em guerra, possuída do espírito nazi e ameaçada pelo espectro da autodestruição. O livro de Valeriano Machado, cujo conteúdo era de uma inocência desarmante, expressava uma mensagem patriótica e paternalista que na essência convinha à propaganda nacionalista do regime. As lições moralistas que o autor infundia no espírito das crianças, favoreciam a apologia do país onde florescia a paz e o bom entendimento entre os cidadãos, sem o divisionismo partidário nem a desordem da democracia. Sem ser essa a intenção de Valeriano Machado, as «lições do avozinho» foram usadas para ilustrar a trilogia de Salazar: “Deus, Pátria Família”.
Valeriano Machado foi casado com D. Emília Correia Machado, de quem teve dois filhos, ambos bem colocados na vida, a Dr.ª Marina Correia Valeriano Machado, residente no Brasil, ainda viva, que usa o nome literário de Marina Frazão, e António Correia Machado, residente em Lourenço Marques, que julgo já falecido.
Por minha iniciativa e proposta, a Comissão de Toponímia de Faro atribuiu o nome de Valeriano Machado a um largo da cidade, em preito de homenagem a um farense que se distinguiu na poesia, no teatro, na imprensa escrita e radiofónica.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

TERRAMOTO, Padre André Lopes

Nasceu em Olhão, no seio de uma família humilde, mas revelando-se uma criança inteligente e ávida pela leitura e o saber, foi enviada na flor da idade para Faro, onde ingressou no seminário de S. José a fim de prosseguir os seus estudos. Anos depois concluiu com razoáveis classificações o seu curso de presbítero, ordenou-se em 1903 na catedral diocesana de Faro. 
No princípio do século XX era um jovem de espírito simples e modesto, sem ambições de futuro nem projectos de carreira. Era bondoso, sereno e pouco expansivo. Refugiava-se no silêncio das suas leituras e na exegese da Bíblia, o livro pelo qual regrou a sua conduta e modelou o seu carácter. Como não tinha apoios nem recomendações de gente importante, tornou-se num sacerdote sem futuro nem ambições de poder. Daí que após os votos sagrados, a sua carreira sacerdotal tivesse sido um verdadeiro périplo pelo interior pobre e desprotegido do Algarve.
Começou por exercer o seu múnus religioso nas paróquias de Alcoutim, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Giões e Cacela. Tudo freguesias pobres e ignoradas do interior rural. As populações além de muito pobres eram na sua maioria analfabetas e carenciadas de quase tudo, nomeadamente dos mais elementares apoios sociais de educação e assistência médica. Nessas aldeias do interior algarvio sobrevivia-se na dependência da terra, através da agricultura e da pastorícia, sem que a maioria dos seus habitantes chegasse a sair da aldeia, para conhecer o mundo e a própria vida.
Por necessidade de serviço, e em benefício da Igreja, o Padre Terramoto recebeu a incumbência de acumular as suas funções presbiterais com a freguesia da Conceição de Tavira, onde foi, como sempre muito bem quisto e admirado, não só pelo bom exercício das suas competências ecuménicas, como principalmente pela sua dedicação aos mais pobres, aos desvalidos e às crianças. Foi nestas duas últimas freguesias, de Cacela e da Conceição de Tavira (conhecida por Cabanas de Tavira), que deixou mais arreigadas saudades. Em Vila Nova de Cacela ainda hoje há quem se lembre dele com profunda admiração e respeito, devido à acção religiosa que ali desenvolveu ao longo de 26 anos consecutivos, a paroquiar aquela pobre freguesia de pescadores, já então a sofrer uma indisfarçável decadência devido ao crescimento do concelho vizinho de Vila Real de Santo António.
Como homem educado e instruído nas letras canónicas, dedicou-se também à escrita, tendo inclusivamente colaborado assiduamente no semanário farense «Folha de Domingo», onde manteve durante anos uma secção intitulada «Reflexões obre o Evangelho», cujas mensagens aí explanadas serviram como guia espiritual e de meditação religiosa para muitos sacerdotes que nas suas paróquias, durante a missa dominical, explanavam na homilia as ideias transmitidas pelo padre Terramoto naquele jornal diocesano.
Perto dos seus derradeiros dias de vida, o Padre Terramoto sentiu faltar-lhe a saúde, recolhendo-se por isso à cidade de Faro, onde contou com o apoio do presbitério e da corte diocesana, no apoio à doença que o haveria de vitimar. Faleceu no dia 3 de Março de 1952. As gentes de Vila Nova de Cacela, com o assentimento do município de Vila Real de Santo António atribuíram-lhe uma das mais importantes artérias do casco urbano daquela praia piscatório, como homenagem de gratidão e de reconhecimento pela forma como dedicou os melhores anos da sua vida à protecção dos mais desfavorecidos.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

ENCARNAÇÃO, José Roberto


Construtor civil, natural das Caldas de Monchique, faleceu nos princípios de Julho de 1950, no Instituto de Oncologia em Lisboa, vítima de doença incurável. Tinha 67 anos de idade, era filho do então já falecido José da Encarnação, antigo proprietário da Pensão Encarnação onde se hospedavam muitos dos doentes que naquelas termas procuravam alívio para os seus achaques de saúde.
Foi um dos mais conceituados empreiteiros do Algarve, muito inteligente, honesto, esforçado e competente, a quem se deve a construção do palácio da Embaixada de Portugal em Madrid. Também a ele se deve a edificação dos primeiros bairros sociais de arrendamento económico em Lisboa, Portimão, Setúbal e Olhão, os quais ainda se mantêm com ligeiros melhoramentos, pois que os seus prédios eram garantidos pela qualidade e competência da sua construção.
Pela sua dedicação ao trabalho, pela honradez e seriedade com que executava as suas obras, decidiu o governo agraciá-lo com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Industrial, tendo o governo espanhol aprovado também a outorga da medalha de ouro como recompensa pela valiosa colaboração por ele prestada nos trabalhos de edificação da grande Exposição Ibero-Americana, que se realizou em Sevilha.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

JÚDICE, António de Mascarenhas

Industrial e antigo colonialista, era natural da vila de Lagoa, onde faleceu em meados de Novembro de 1950, com 77 anos de idade.
Ainda jovem foi estudar para a Bélgica de onde regressou ao Algarve anos depois para se dedicar à indústria da pesca e sobretudo das conservas, de que foi um dos pioneiros, tal como aconteceu com seus tios fundadores da «Casa grande» da Mexilhoeira e com o seu primo João Júdice Fialho. 
Dotado de grande inteligência, oportuna visão para o negócio e espírito de risco, lançou armações para a captura do atum, criou cercos de pesca da sardinha e fundou fábricas em várias localidades, nomeadamente em Ferragudo, Lagos e Quarteira, unidades industriais que mais tarde juntou numa só empresa, a Mascarenhas Júdice & C.ª  Ld.ª, que dirigiu durante anos até transformar no Consórcio Português de Pesca e Conserva, em cuja direcção integrou os seus amigos e conterrâneos, o Dr. Carlos Fuzeta, advogado de grande prestígio, e o Dr. José Barbosa, ao tempo presidente do Tribunal de Contas.
O abastado proprietário e industrial António de Mascarenhas Júdice, teve ainda uma faceta colonialista pouco conhecida. Assim, e sem entrar em grandes pormenores, acrescentaremos apenas que foi director da Companhia Colonial do Buzi e gerente do Banco de Angola. 
No tempo da monarquia também se envolveu na política, apoiando sem reticências o partido franquista. Deixou a política a partir do momento em que o país se cobriu de luto pelo assassinato do rei D. Carlos. Julgando que foram as lutas partidárias e os interesses mesquinhos que cobriram a pátria de opróbrio e de luto, desistiu definitivamente da política.
Foi casado com D. Maria de Mascarenhas Grade Júdice, descendente das mais afidalgadas famílias do Algarve. Era pai do Visconde de Lagoa um dos mais ilustres historiadores e publicistas do Algarve. Era irmão dos então já falecidos Dr. Patrício Eugénio de Mascarenhas Júdice, que foi deputado pelo Algarve e faleceu ainda jovem, e do Dr. Pedro Paulo Mascarenhas Júdice, reputado escritor e arqueólogo que viveu em Silves.