segunda-feira, 18 de maio de 2026

Poesia popular antiabsolutista nos teatros de Lisboa. em 1826

As tabernas dos fadistas e das loureiras, nas vielas esconsas da Madragoa e do Bairro Alto, eram na viragem de Oitocentos frequentadas por toda a escória faquista da Lisboa castiça. Nesses antros do vício e do marialvismo bacoco, permanecia ainda o cheiro das sécias e dos peraltas. Pelos túneis da noite ouviam-se até de masdrugada os trinidos das guitarras, que as rameiras dos infectos alcouces acompanhavam com roufenhos trauteados.
Os caceteiros miguelistas, aguarela de Roque Gameiro

Cantavam versos de pé quebrado em repentinos improvisos, inspirados no álcool, para maldizer a vida ingrata e a sorte madrasta. Por vezes os chilreios das croias descambavam na invectiva política, no chiste acintoso e achincalhante para aqueles que decidiam o destino do povo. Não poupavam nas palavras nem nos insultos, trespassando sem piedade a honra dos grandes, dos poderosos decisores da vida estigmatizada dos pobres. A poesia popular, a voz do povo, entoada ao som da guitarra pela voz maviosa dos fadistas, fere com mais acutilância os políticos do que os punhais dos traiçoeiros algozes.
Lisboa Velha, Beco dos Cortumes
Os esbirros da Intendência Geral da Polícia, herdeiros da cartilha persecutória do velho Pina Manique, percorriam os bordéis de meia porta nas ruas do Bairro Alto, de Alfama, da Mouraria, do Benformoso e de tantas outras vielas escuras, onde se cantava o fado clandestino e se vendia a ilusão do amor mercenário. Os mais reacionários tafuis, caldeados com os moços de estrebaria e a vadiagem dos touros, arruaceiros sem eira nem beira, que o vulgo designava como "caceteiros" miguelistas, transacionavam segredos com os esbirros da Intendência, denunciando a rodos os acutilantes versejadores da política, que causavam escândalo entre os inocentes defensores do "Trono e do Altar".
Os responsáveis pela ordem pública, isto é, os beleguins da polícia de mãos dadas com 
os caceteiros, receavam que as ondas poético-subversivas que ecoavam nos botequins e nos alcouces pudessem vir a tomar proporções desastrosas. Por isso, trataram logo de lançar as suas "abelhas" para vigiarem todos os recantos da velha Lisboa, onde o povo se pudesse arregimentar para conviver, para se divertir e para vociferar contra o governo e a opressão política dos absolutista.
Dessa apertada vigilância apuraram-se variadíssimas informações e espúrias averiguações, de que resultaram dezenas de processos-crime contra desconhecidos. Como exemplo, damos aqui notícia de um desses casos ocorrido no Teatro da Rua dos Condes, onde pouco depois do golpe da «Abrilada», em 1824, se cantavam ao som da guitarra castiça uns versos contra os realistas apostólicos, que causaram escândalo e subida contestação entre as autoridades instituídas. Mais tarde, em 1826, houve quem participasse às autoridades que os mesmos versos haviam sido declamados ou cantados no teatro de Vila Franca de Xira, então também denominada de "Vila da Restauração", por ali ter ocorrida o golpe da Vilafrancada. O pior é que sendo terra de touros e de corridas era tida como bastião do marialvismo miguelista, sendo por isso de estranhar que no templo da arte de Talma se pronunciassem orações a Orfeu com tão acintoso significado contra D. Miguelzinho e os seus "inauferíveis direitos".
Sem mais delongas, reza assim a lira do povo, inspirada na intenção de exaltar, com o júbilo da ironia, a Constituição, subvertida em Carta Constitucional. A versalhada também não poupa a sotaina clerical, contra a qual desfere acerados motejos. Entrementes, desfere sobre os ignominiosos caceteiros miguelistas o epíteto de Marrecos, numa sarcástica alusão à popular alcunha de "corcundas", designação usada pelos liberais para classificar os seus opositores absolutistas como gente servil e escrava do poder Real. No fundo, estes versos enaltecem a Liberdade como direito individual e coletivoque a Constituição, como mãe de todas as leis, doava e garantia à nação lusa. Em suma, a nobreza e o absolutismo eram os principais alvos destes versos, inspirados no ideário liberal e na defesa do constitucionalismo-parlamentar.
Ouçamos a voz do povo, em forma de arremedo político:

                        Aqueles que tiram pecados
                        E cortam o ar co'a mão,
                        São bichinhos que não querem
                        Liberal Constituição.

                        Se conhecesse os Marrecos,
                        Com um chicote na mão,
                        Eu faria cantar todos:
                        Liberal Constituição.

                        Tremeu toda a fradaria
                        Deu ao Papa uma sazão
                        Quando soube que tinhamos
                        Liberal Constituição. (1)

Creio que já todos perceberam que o último verso de cada quadra era uma espécie de refrão, pronunciado em uníssono pelos populares que se juntava em torno do fadista. Isto não só acontecia nas bodegas dos bairros lisboetas, onde ao som da castiça guitarra portuguesa se debicavam sardinhas e emborcavam malgas de carrascão tinto, numa algazarra de gritos, de lamentos e impropérios, contra os desfavores e tropeços da vida, numa clara introspeção pública ao sebastianismo lusíada.

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(1) Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, Maço 90 (denúncias avulsas).

sexta-feira, 24 de abril de 2026

«O Echo do Algarve» – primeiro jornal republicano

Decorria o período das Lutas Liberais, quando em 15 de Julho de 1833 surgiu, ainda que de forma bastante fugaz, o primeiro órgão da imprensa algarvia, sob a designação de «Chronica do Algarve», impresso em Faro, para noticiar os sucessos e avanços das forças liberais que desde o dia 24 de Junho ocupavam a região. Publicaram-se apenas as três edições iniciais porque as tropas liberais partiram poucos dias depois para Lisboa, onde a 24 de Julho alcançaram uma retumbante vitória militar.
O primeiro jornal editado no Algarve

Por conseguinte, a imprensa algarvia nasceu sob o signo da liberdade e inspirada nos valores daquilo a que poderíamos chamar hoje de esquerda revolucionária. Não admira, pois, que os periódicos seguintes, a «Verdade Nua», publicado em Lagos (1840), e «O Popular – Jornal do Algarve», editado em Faro (1847), tivessem uma inspiração acentuadamente liberal e revolucionária, mantendo na sua primacial radícula a consciência política da esquerda rebelde e libertadora.
Na esteira desse espírito, livre, independente e insubmisso, não admira que o terceiro jornal a ver a luz do prelo no Algarve tenha tido a ousadia de se apresentar como defensor do ideário republicano, o que, na época era quase um crime público. Foi, pois, sob a rebelde invocação da Liberdade e da conquista dos direitos e garantias do cidadão que nasceu, em 9-9-1868, na cidade de Lagos, o «Echo do Algarve», o primeiro jornal que nesta região se assumiu inquestionavelmente republicano. Sabemos que foi impresso na Tipografia Lacobrigense, cujo prelo, pelas deficiências de impressão, presumo que fosse antigo e bastante rudimentar. Pertencia a António Corrêa, o qual deve ter financiado a sua aquisição, já que antes nunca vira tal máquina nem percebia nada de artes gráficas. O jornal era produzido, na velha arte da composição manual, por dois jovens improvisados tipógrafos que antes trabalhavam como alfaiate e carpinteiro. Mas não eram únicos, já que também ali trabalhavam dois aprendizes e dois impressores que nunca tinham visto antes o rolo e o estrado do mais simples prelo. Era seu único redactor José Teixeira Simões, que acumulava com as funções de administrador, revisor de ortografia e por vezes de tipógrafo. Vemos assim, que naquela tipografia tudo era improvisação e boa-vontade, certamente irmanados pelo espírito republicano que os impelia a clamar por mais liberdade e justiça social. Apesar de todas as dificuldades, logísticas e financeiras, o jornal foi saindo a público, sempre com ferozes ataques à Igreja e ao clericalismo obscurantista, à Coroa e ao daninho luxo da Corte, à exploração dos pescadores pela Companhia de Pescarias, ao atraso científico no amanho dos campos e ao analfabetismo. As lutas eleitorais foram também assunto de especial enfoque, de tal forma que defendeu a candidatura a deputado de Sebastião Coelho de Carvalho, pelo Partido Histórico (sempre conhecido por Partido Progressista), contra um argentário de nome Alves d’Araújo, que ninguém conhecia na região, proposto pelo governo ao círculo eleitoral do barlavento algarvio.
O seu acintoso jornalismo, cuja inspiração política era uma mescla socialista e republicana, foi abertamente criticado pelo Governador Civil que assumiu o triste papel de caixa de ressonância do regalismo monárquico, dando cobertura a uma pertinaz e aleivosa onda de calúnias emanada pela eclésia lacobrigense, de tal forma violenta que suscitou o assalto à tipografia, despejando as caixas dos tipos (caracteres tipográficos), e destruindo o material de impressão, o que não só atrasava a edição como obrigava por vezes o «Echo de Lagos» a sair a público com apenas uma folha de duas páginas, para relatar os soezes acontecimentos de que era persistente alvo. Mercê dessas perseguições, o jornal deu a alma ao criador em 23-5-1868, ao cabo de 38 edições.
O segundo jornal editado no Algarve

O facto do primeiro jornal republicano algarvio ter visto a luz do prelo na cidade de Lagos deverá estar relacionado com a existência de uma elite local de cariz político-cultural, cujas origens se prendem com uma estirpe revolucionária visível desde 1816 na formação de uma loja maçónica designada por «Philantropia ao Oriente de Lagos n.º 2600», que se manteve activa até 1823, sendo os seus membros pronunciados na Devassa instaurada em 14-1-1824, pela Intendência Geral da Polícia.[1] Constatei recentemente que o número dos maçons, pertencentes à loja «Filantropia», era porém superior aos trinta cidadãos inicialmente pronunciados na chamada Devassa de Lagos.[2] Em 1842 esta loja maçónica, subordinada ao Grande Oriente Lusitano, foi restaurada com a mesma designação. Todavia, em 1844, já não existia, sendo então instaurada uma nova loja maçónica com a designação de «Concórdia II n.º 4200», a qual em 1848 abateu colunas, para as reerguer no ano seguinte mercê da constituição do Grande Oriente de Portugal.[3] Já agora, devo acrescentar que a maçonaria em Lagos durante o período da Regeneração quase não se deu pela sua existência, mas em 1905 existia um triângulo muito ativo que trabalhou na preparação da revolução republicana, tendo-se em 1911 formado uma loja com a designação de «Lacóbriga n.º 326», que se manteve ativa até à instauração da ditadura militar em 1926.
Importa acrescentar que a cidade de Lagos foi no século XIX e até sensivelmente ao fim da I República, um verdadeiro alfobre de notáveis jornalistas e escritores, areópago de brilhantes intelectuais que muito dignificaram a cultura algarvia. Aproveito o ensejo para aqui lembrar, num breve exercício de memória, alguns eméritos publicistas da praça lacobrigense, como Bartolomeu Salazar Moscoso, João Bonança, Jeronymo Bicker Cabral, Afonso Cañet de Castro, António Cabreira, José Joaquim Nunes, António Joaquim Correia Júnior, Augusto Feio Soares de Azevedo, João Pedro Correia Tello, António Augusto Lobo de Miranda, Joaquim José Serpa, José António Guerreiro Gascon, José Bento Formosinho, António Sabino Simões Neto, Júlio Dantas entre tantos outros.
primeiro jornal republicano algarvio

O conteúdo formal dos jornais
Nessa altura, os jornais eram como que montras da realidade envolvente, abrindo com o chamado “artigo de fundo”, não assinado, mas da autoria do diretor, no qual se expunha a posição ideológica e formal do jornal face aos principais momentos políticos; seguindo-se depois as notícias, raramente tituladas e apenas separadas por um “filete” (traço negro). No rodapé do jornal, ocupando toda a largura da página e geralmente o reverso da mesma, figurava o «Folhetim», no qual se inseria um conto, uma novela ou até mesmo um romance de um autor clássico – embora não fosse raro publicarem-se textos literários de autores locais. Nas páginas interiores desfilavam as mais diversas secções, com particular incidência nas que se designavam por «Carta de…» ou «Correspondências», que eram noticiários das freguesias do concelho a que o jornal dizia respeito; a que se seguiam os «Bilhetes de Visita» (coluna social), a «Necrologia», o «Teatro», as «Artes e Letras», a «Gazetilha» (retratos satíricos em verso), «Charadas», «Ecos» (noticiário internacional), «Sports», «Anúncios Oficiais», etc…
Não me vou demorar a evocar todos os periódicos republicanos que se editaram no Algarve, mas em todo o caso, importa destacar os semanários «Districto de Faro», «O Algarve», «A Mocidade», «O Heraldo» e «O Sul», todos sedeados em Faro, mas que nos primórdios do século vinte assumiram a importante função de caixa de ressonância das ideias libertárias e do reformismo democrático. Coube à imprensa regional o fundamental e decisivo exercício de propagandear a República no seio do povo, despertando na alma e coração dos humilhados e ofendidos a necessidade da revolução.

[1] A relação dos seus membros, em número de trinta, foi publicada por Manoel João Paulo Rocha, Monographia – As forças militares de Lagos nas guerras da Restauração e Peninsular e nas pugnas pela Liberdade, Porto, 1910, p. 403.

 [2] ANTT, Desembargo do Paço, Processos Diversos (Maçonaria de Lagos), Maço 829, nºs 97-108.

 [3] Cf. A. H. de Oliveira Marques, Dicionário de Maçonaria Portuguesa, 2 vols., Lisboa, Editorial Delta, 1986, vol. II, cols. N.º 826-827.