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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Benfica-Sporting, farsa em um acto

A propósito do dérbi que se disputou esta semana na capital, entre o Benfica e o Sporting, lembrei-me de trazer aqui à colação dos meus leitores, a existência de um raro folheto, que guardo ciosamente na minha «Algarviana», intitulado Benfica-Sporting – Farsa em um Acto, da autoria de António Augusto dos Santos, editado em 1958 na velha tipografia União, propriedade da diocese de Faro.
O autor, que conheci muito bem, era então um jornalista da velha guarda, culto e inteligente, cavalheiro educado, gentil e sempre bem vestido, ao estilo britânico. Era alto, de recorte atlético, seco de carnes com voz de tenor, que se curvava ou descobria a cabeça, sempre que se cruzava com gente da sua privança. E do seu trato comum, a bem dizer, era só gente grada. O que não era o meu caso, visto ser então um jovem obscuro, ao contrário dele, que era um respeitável ancião. Ainda assim, tínhamos amigos comuns, como o Aníbal Guerreiro, antigo jornalista e um dos mais prestigiados empresários de Faro, o João Leal, hoje decano da imprensa algarvia, o Dr. Joaquim Magalhães, antigo reitor do Liceu, o Dr. Pinheiro da Cruz, professor da Tomás Cabreira, o Brito Figueiras, um gentleman que servia de mestre de cerimónias nos eventos da cidade, e tantos outros, que à memória não afluem neste instante.
O certo é que, por via da nossa frequência nas colunas dos jornais, tornamo-nos amigos com direito a cordiais cumprimentos e breves palavras de circunstância, porque a diferença de idades e estatuto de cidadania faziam-me muito pequeno a seu lado, mais do que a sua estatura física permitia aquilatar.
A única forma que tive de o compensar pela admiração que lhe dedicava, foi ter-lhe atribuído há cerca de dez anos, como membro da Comissão de Toponímia de Faro, uma praceta com o seu nome, algo distante do centro da cidade, é certo, mas ainda assim na freguesia de São Pedro, de que foi devoto e tanto acarinhou enquanto munícipe. A sua biografia, que anexo no final desta breve evocação de António Augusto Santos, escrevi-a para o meu «Dicionário dos Jornalistas e Colaboradores da Imprensa Algarvia», que permanece ainda inédito, e certamente assim permanecerá até ao fim dos meus dias.
António Augusto Santos
Resta-me acrescentar que esta “farsa em um acto” sobre uma suposta final da Taça de Portugal em 1958, não pretendia, segunda as palavras do próprio António Augusto Santos, caricaturar ninguém em particular, e muito menos os clubes em contenda, pelos quais tinha o maior apreço. Apenas escolheu os clubes da capital por serem os mais populares, e os que congregam, ainda hoje, mais adeptos. A peça só tem dois personagens.
Um é material, aqui designado como “T.S.F.”, que se percebe ser um rádio (ou telefonia, como se diz no Algarve), que o cidadão remediado possuía na sala de visitas para ouvir as notícias, as variedades ao almoço, os parodiantes de Lisboa, o folhetim radiofónico, e, aos domingos, o sacramental relato da bola, que entre as 15 e as 17 horas fazia as delícias e arrelias dos bons chefes de família.
O outro é físico, designado como Pedro Lagarto Verdelhão, de 45 anos de idade, identificado no texto simplesmente como “Lagarto”. Sem constituir uma personagem, aparecem também no meio da peça as interjeições da “Família”, que se presume ser a voz da esposa do “Lagarto”, pronunciada numa outra sala da casa, perguntando-lhe o resultado, se foi golo e de quem, ou, quando este grita com maior veemência, mandando-o calar porque o Zéquinha está prestes a pegar no sono. Ainda por cima a “Família” trata-o por “Lagartinho”, o que é de arrancar os cabelos.
A farsa em si, ocupa catorze páginas de um denso diálogo, entre os dois personagens, pronunciado na intimidade das paredes do lar, entre o “Lagarto” que critica a tácita e as escolhas do treinador, que desconfia da verdade desportiva, e que, por fim, vocifera contra o árbitro em desaprovação das suas decisões. Por vezes chama-lhe bandido, gatuno, urso de pelo… até chegar ao ponto de lhe desejar a morte. Como se percebe, o personagem físico é um sportinguista ferrenho, diria antes fanático, que deposita as suas esperanças nos violinos comandados pelo Peyroteo. O Sporting termina a primeira parte a vencer por 3-1, mas na segunda o Benfica, com Arsénio e Corona em destaque, chegou ao empate. Para desespero do Lagarto, que ouve pela rádio as incidências do desafio, o árbitro parece ter sido o culpado do triste desenlace, já que anulou aos 95 minutos um golo ao Sporting, prolongou a contenda até aos 112, altura em que Jesus Correia do Sporting centra para a área e Félix, defesa do Benfica, corta a bola com a mão. Penalti grita o povo, mas o árbitro fez “vista grossa” e deu por encerrada a contenda. O público insurge-se nas bancadas, mas a polícia e a guarda republicana “puseram termo ao conflito distribuindo «mãozinhas» de cavalo à portuguesa”.
Enquanto as equipas descansam por dez minutos até se reatar a partida com um prolongamento, o árbitro faz declarações à rádio para justificar as suas polémicas decisões. Mas, quando o árbitro teve o desplante de confessar à antena: “Neste 2º tempo, o Benfica, sabe… jogou mais”. Aí foi longe de mais, e o “Lagarto” não se conteve, caindo sobre ele a pés juntos esmagando-o numa ânsia de vandalismo: “Ah gatuno que ainda tens arrojo de falar desse modo”. E pronto, acabou-lhe com as válvulas, com o apito e com o pio. O prolongamento e o resultado final é que jamais saberemos, porque a TSF ficou em cacos aos pés do Lagarto.
Frontespício do folheto
Depois de ler esta “farsa” percebi o talento e as intenções do António Augusto Santos, ao caricaturar as dores e o sofrimento mental dos adeptos de futebol, perante as incidências dramáticas do nosso desporto rei, colocadas nas mãos de um único juiz, de que todos desconfiam, quer da competência quer sobretudo da isenção e honestidade. A ironia é um dos principais condimentos literários desta peça, a outra é a crítica exasperada à nossa proverbial desconfiança da integridade moral de quem decide, de quem ajuíza, face à paixão e fanatismo que caracteriza o adepto de futebol. Acrescento, porém, que para as gerações actuais deve ser difícil perceber quem foram os jogadores aqui citados, porque já todos faleceram, embora deva dizer que se fossem hoje atletas do Benfica e do Sporting, seriam dos melhores entre os melhores do mundo. Disso não tenho a menor dúvida.
Termino com esta saborosa descrição do cenário em que decorre a farsa «Benfica-Sporting»:
«Escritório em estilo Peyroteo, com o que há de mais requintado em Azevedo I. Estante, floreiras, cadeiras e secretária em estilo Jesus Correia. Carpete com um grande leão ás listas – o que há de mais Travassos II. Telefonia da marca R.A.D.I.O… . Sobre um sofá, um violino que não é propriamente um Stradivarius, mas uma recordação saudosa da velha orquestra de Alvalade. Albano e os restantes companheiros de equipa, não foram esquecidos. Vemo-los por todos os ângulos do escritório, dispostos aos pares em escalas diversas…»
Ah, já me esquecia de dizer, nesse ano de 1958 quem ganhou a Taça de Portugal foi o meu F. C. do Porto, que derrotou o Benfica por 1-0.
A biografia de António Augusto Santos poderá ser consultada, e descarregada, no meu blogue «Algarve - História e Cultura», através do seguinte link: 
http://algarvehistoriacultura.blogspot.com/2023/01/antonio-augusto-santos-jornalista-poeta.html

domingo, 14 de março de 2021

Acerca do Dia da Mulher e da ALGARVIANA – breve esclarecimento

O meu jovem amigo Tomás Severino Pinto Bravo, lembrou-se de comemorar o Dia da Mulher transcrevendo no Facebook um breve trecho da autoria do meu saudoso amigo Dr. Mário Lyster Franco, extraído de uma conferência que aquele brilhante intelectual algarvio pronunciou em diferentes certames literários, sob a epígrafe de «Mulheres e Jogos Florais».
Como estou directamente ligado aos últimos anos de vida desse emérito vulto da cultura algarvia, não posso deixar de acrescentar algumas palavras que justificam a publicação da referida conferência, a cuja edição estive ligado, e que, aliás, constituiu o derradeiro título da sua incomparável obra de escritor e jornalista.
Capa do opúsculo que editei em 1983 sob o 
sugestivo título de Mulheres e Jogos Florais
uma verdadeira homenagem à mulher, na 
figura mítica de Clemência Isaura, que viveu
no séc. XIV, e que passa por ser a inspiradora
dos primeiros certames literários da poesia
trovadoresca.

Como é do conhecimento público, trabalhei com o Dr. Mário Lyster Franco, entre 1980 e 1984, na actualização e edição dessa obra mestra da cultura algarvia, que tem por título «ALGARVIANA – Subsídios para uma bibliografia do Algarve e dos autores algarvios». Compareci diariamente, durante quatro anos, na «Casa do Cercado» em Faro, residência particular do Dr. Lyster Franco, onde procedi à redação de centenas de biobibliografias respeitantes aos autores referenciados para figurarem na referida obra. As referências eram pequenos verbetes, em forma de postal, onde constavam o nome do autor e a indicação de um ou mais livros, ignorando-se tudo o resto. E o meu trabalho consistia na pesquisa e redacção de todos os elementos necessários à elaboração do texto final. O autor, Dr. Mário Lyster Franco, então octogenário, havia parado há muitos anos com essa tarefa, devido aos afazeres com a publicação do seu jornal «Correio do Sul», o mais completo e mais cultural órgão de informação que se publicou a sul do Tejo. Além disso, um galopante glaucoma tinha-o deixado quase cego, razão pela qual tinha cessado toda a sua actividade literária e intelectual.
Nesse afã diário empreguei todas as minhas forças para refazer e actualizar a obra, por forma a que se editasse ainda em vida do seu autor. E aqui revelo que, ao contrário da sua vontade, não permiti que o meu nome figurasse ao lado do seu, como co-autor. Tive esse respeito e essa humildade. Dei o melhor de mim, e posso dizer que a obra nunca se teria iniciado nem publicado (ainda que apenas o 1º volume), sem o meu esforço. Escrevi mais de três centenas de biografias e apreciações críticas das obras dos autores, para integrarem os dois primeiros volumes - dos seis em que decidi repartir a obra final. Creio que hoje, a realidade editorial alterou-se completamente, com o surgimento de inúmeros autores algarvios, para além das obras, que dizendo respeito ao Algarve, terão de ser igualmente integradas na «Algarviana», pelo que a dimensão dessa obra, dos seis volumes que inicialmente julgava compreender, deverá estender-se pelo menos por mais dois, num total superior a três mil páginas.
No autógrafo que o Dr. Mário Lyster Franco 
me dedicou pode ler-se: «Ao chato do Mes-
quita esta chatice feita para chatear os outros, 
of(erece) o chatarrão-mór Mário Lyster Fran-
co. 28/VIII/83 A. D. [Anno Domini] 
Mas, o que agora me trás a terreiro é a justificação da publicação do opúsculo «Mulheres e Jogos Florais», um texto de excepcional beleza literária, o último da lavra do meu saudoso amigo Mário Lyster Franco.
Descobri o texto num amontoado de papeis, constituído por originais manuscritos e dactilografados, respeitantes a várias das suas conferências, pronunciadas no Algarve e em Lisboa. Entre elas estava precisamente este «Mulheres e Jogos Florais», que o Dr. Lyster Franco havia pronunciado nas cerimónias que encerravam esses certames literários, na Praia da Rocha, em Quarteira, e julgo que também em Armação de Pera. Depois de ler o texto insisti para que o publicasse, ao que recusou terminantemente. Mas eu não desistia, até porque o via a morrer sem que nenhuma alegria lhe proporcionasse motivação e força para se agarrar à vida. Nessa altura o então Presidente da Câmara de Faro, havia proibido a continuação da edição da Algarviana, o que até hoje se mantém. Para contrariar os que o condenavam ao silêncio e ao ostracismo, decidi editar na Litográfica do Sul, o texto final desta brilhante conferência. Para isso contei com a boa vontade do director das oficinas daquela empresa, que era um homem de grande sensibilidade cultural, chefe dos bombeiros locais e amante das tradições algarvias, de nome Tenório, figura que certamente os vilarealenses ainda se lembram. Fez-me um preço de amigos (doze contos por 300 exemplares), e o opúsculo sai a público em 1983, como a última produção do Dr. Mário Lyster Franco. É de facto um texto brilhante, dedicado às mulheres, à poesia e sobretudo ao amor. Infelizmente não teve a divulgação que merecia, nem circulou no mercado livreiro por falta de interesse, visto que nessa altura, tal como hoje, grassava entre os intelectuais uma má vontade, e até uma injusta ridicularização, sobre a importância dos Jogos Florais no incremento da nossa literatura e na descoberta de novos talentos.
Esta é a factura que a Litográfica do Sul me passou no
valor 12 mil escudos, respeitante aos custos de edição
dos 300 exemplares do livro Mulheres e JogosFlorais.
Como se vê foi editado em 24 de Maio de 1983, e fui
 eu quem pagou a edição.
Infelizmente, e apesar de ter patrocinado a sua edição, não trouxe comigo nenhum exemplar, a não ser o que o meu querido amigo Dr. Mário Lyster Franco teve a amabilidade de autografar, de uma forma irónica, mas verdadeira. Fui um “chato” na forma como insisti na sua edição, que serviu para chatear os que o tinham condenado ao silêncio e ao ostracismo, sobretudo o presidente da Câmara de Faro. Os políticos são sempre assim, traiçoeiros e traidores.
A quase totalidade dos exemplares deste opúsculo ficaram na «Casa do Cercado», não sabendo qual o destino que tiveram. A casa é hoje uma triste ruína. O seu espólio artístico e museológico, de altíssimo valor, presumo que a família vendeu aos melhores antiquários de Lisboa. Só a pinacoteca da família, constituída por vários quadros da autoria do pai, Carlos Augusto Lyster Franco, a que se juntavam muitos outros pintados pelos seus antigos colegas das Belas Artes, que com o decorrer dos anos se tornaram famosos artistas, valeria hoje dois ou três milhões de euros. E se não fosse eu, com a ajuda do Horácio Cavaco, então presidente da RTA, até a «Algarviana» teria sido vendida aos alfarrabistas da capital, como aliás aconteceu com milhares de outros livros, que faziam parte do espólio herdado não só do pai, que era também um cuidadoso bibliófilo, como também do seu sogro, o Dr. Rodrigues Davim, cuja avultada biblioteca foi repartida pelas suas duas filhas, sendo uma delas a D. Silvina casado com o Dr. Mário Lyster Franco. Esta é que é a mais pura das verdades.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

João Peres publica as suas «Memórias militares no Estado Português da Índia»

O meu amigo João Peres teve a amabilidade de me oferecer, com amável dedicatória, o seu último livro «Memórias, militares no Estado Português da Índia», prefaciado por Mário Proença, numa co-edição do Núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes e do jornal «O Olhanense». Devo confessar que tenho pelo cidadão João Peres o maior apreço e consideração, não só pelas acções que tem desenvolvido em prol da sua cidade natal, como muito especialmente pelo povo de Olhão.
João Peres
O meu amigo João Peres foi um conceituado funcionário bancário até 2009, data da sua aposentação, mas foi como autarca que melhor o conheci e aprendi a admirar. Primeiro como vereador e depois como secretário executivo da Junta de Freguesia de Olhão. A seu convite participei em vários eventos e homenagens de índole histórica e cultural, quer a título individual quer como presidente da AJEA.
Manda a justiça realçar que, em todos os actos cívicos promovidos por aquela Junta, apercebi-me sempre da sua competência e do elevado zelo com que cuidada do mais ínfimo pormenor, para que tudo, no fim, corresse bem e fosse um sucesso. Pessoas com o sentido de responsabilidade do João Peres eram, nessa altura como ainda hoje, muito raras, porque em geral quem realiza e produz deixa-se seduzir pela ambição, que suscita a luz da vaidade. Nunca o João Peres se aproximava dos lustres da ribalta, para chamar a si a vã glória do sucesso ou do poder. A sua principal característica era a forma humilde, tímida até, como declinava os elogios que lhe eram devidos, endossando-os sempre para a sua Gracinda, que então presidia com enorme simpatia à Junta de freguesia de Olhão.
As circunstâncias do tempo e da política, acabariam por levá-lo depois a assumir a presidência do executivo da Junta, creio que por dois mandatos, e recentemente a presidir à assembleia da freguesia de Quelfes.
Mas de todas as conversas que com ele mantive, as que mais me emocionavam eram as suas recordações de África e da fatídica guerra colonial, da qual também eu guardava nefastas lembranças, quando no Natal de 1964 recebi a notícia da morte do meu irmão Álvaro Manuel Vilhena Mesquita, caído em combate na Guiné.
O João Peres é o exemplo do bom e modesto português, que apesar de todas as circunstâncias, nunca se arrependeu nem algum dia deixou de se orgulhar de ter defendido a Pátria na guerra colonial. Para defesa da honra e dignidade de todos os que a seu lado defenderam a nação lusíada, escreveu vários artigos na imprensa regional, nomeadamente no jornal «O Olhanense», elogiando aqueles que preservaram o nome e a glória de Portugal em África. E quando já quase nos íamos esquecendo dos que nas antigas colónias zelaram pela soberania nacional, o amigo João Peres bradava alto e com orgulho, que muitos dos seus camaradas haviam regressado à pátria diminuídos na sua integridade física, moral e psíquica. E foi com lucidez e coragem, que reivindicou o título de heróis nacionais para todos os soldados portugueses (brancos, negros e mestiços), que no capim da savana derramaram o próprio sangue, quando não perderam, na flor da idade, a sua própria vida.
Por causa dessa intransigente defesa dos valores, que enformam a pátria portuguesa, é que o João Peres foi eleito presidente do núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes. Actualmente preside à Mesa da Assembleia-Geral, continuando a desenvolver acções de grande merecimento público, nos domínios da cultura e da acção social.
Para todos os que se interessam pela história da guerra colonial, lembro que o meu amigo João Peres já publicou outros trabalhos de grande interesse, nomeadamente «Retratos» em 2012, e «Memórias – Olhanenses na guerra do Ultramar», em 2013. Em 2016, complementou os trabalhos anteriores num livro de maior fôlego e abrangência intitulado «Memórias – combatentes na guerra do Ultramar», no qual analisa e descreve a vida, o sofrimento e sacrifício de alguns heróis que a seu lado combateram em África.
Este livro, que por amável deferência me ofereceu, narra com grande realismo as circunstâncias em que sobreviviam, com indizíveis dificuldades, as nossas forças militares nos antigos estados da Índia Portuguesa. A sua leitura é de um interesse fundamental, sobretudo para quem pretenda conhecer, ao pormenor, a bravura e a conduta heroica desenvolvida pelos soldados e oficiais algarvios nas antigas possessões do oriente. Neste livro relatam-se os sacrifícios e privações, o sofrimento e a saudade, a coragem e a valentia com que desempenharam as suas missões; mas também os momentos de lazer, os folguedos e tropelias, o bom humor com que tentavam dissipar a saudade e o temor da morte. Nele se descreve a acção militar, mas também o trajecto de vida de 27 jovens militares algarvios, que o João Peres resgatou do injusto esquecimento, a que todos nós votamos, aqueles que heroicamente defenderam a honra e glória de Portugal, na longínqua Goa, em Damão, Pequeno e Grande, e na mítica cidade de Diu.
Uma última palavra para as centenas de fotografias que ilustram este livro, muitas das quais são verdadeiros documentos para a história da nossa guerra no oriente.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

COMO SE FAZ UMA RECENSÃO CRÍTICA

Uma recensão crítica é uma avaliação e como tal deve ser operada com rigor e isenção, unicamente por especialistas na matéria cuja apreciação deve ser chancelada por uma instituição científica, para que a mesma possa ter credibilidade e ser objecto de referência. O recensor (passo o neologismo) é um ser crítico, que deve pugnar pelo progresso da ciência e do conhecimento, através do seu distanciamento da obra e do autor, fazendo da isenção e da objectividade a sua bandeira e o seu lema de trabalho. Basta estes dois atributos para que a sua recensão possa ser credível e respeitada.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O tempo da memória no miradouro da vida

José Carlos Vilhena Mesquita
«Toda a obra de arte é uma personalidade.
O artista vive nela, depois de ela ter vivido
longo tempo dentro dele» J.M.Vargas Vila


A maior interrogação do homem provém da natureza da sua existência. Quem somos, de onde vimos e para onde vamos, não é um esfíngico enigma tebano, nem tão pouco um ancestral mistério da filosofia escolástica grega. É, tão simplesmente, a dúvida fundacional da humanidade, que inspirou credos e religiões, sustentou doutrinas e ideologias, libertou povos e erigiu nações nos mais díspares quadrantes do globo. Mas, no fundo, as dúvidas que infundem esse indecifrável enigma, correspondem tão simplesmente à dimensão natural do tempo, ou seja à sua partição evolutiva em passado, presente e futuro. É essa a dimensão que do nosso Miradouro da Vida conseguimos vislumbrar.
Desde o primeiro frémito de vida até ao último suspiro em que se evola a alma, vemos perpassar pelo mirante da nossa existência o esplendor da criação, o regozijo da posse, o orgulho do saber, a aptidão imaginativa, o talento inventivo, a glória do sucesso, o reconhecimento social e o conforto da velhice. Mas o elo de ligação entre os elementos do tempo e as fases da vida chama-se Saudade. Aos que, no mirante da açoteia da vida, resistiram no vórtice do tempo às Parcas do destino, só lhes resta agora a volúpia de recordar, esse sensual prazer de poder afirmar eu vi, eu estive lá, eu conheci-o, eu sei como tudo aconteceu. O tempo faz a vida e faz o ancião, ambos são sinónimos de experiência e de sabedoria.
A origem da poesia provém etimologicamente do vocábulo grego “poiéw”, que traduz a ideia de fazer e criar. Por conseguinte, desde que os homens se uniram para fazer a civilização e criar o Estado – conceberem a soberania, a liberdade e a cidadania –, coube à poesia a missão de fazer lembrar e transmitir o passado, em palavras encadeadas pela musicalidade da rima, para que fossem facilmente decoradas e repassadas às gerações seguintes. Antes da invenção da escrita e do registo da História, foi a poesia quem uniu os povos e lhes infundiu a dimensão do tempo e a herança do passado, servindo-lhes de arauto e de mentor, para que nunca esquecessem de onde vinham, quem eram e para onde queriam prosseguir o seu caminho.
Daqui se infere que, desde as origens da civilização até ao devir intemporal da humanidade, sempre a poesia marcou indelével presença na transmissão da História e na construção da Cultura. A poesia é, pois, a charneira da Civilização. E mesmo que os povos pereçam e as nações se extingam, ecoará para sempre no Miradouro do Tempo uma voz do passado, como uma prece poética, suplicando aos vindouros que não olvidem os que ficaram para trás, encobertos na bruma da história. Essa voz, impetuosa e arrebatante, é a inconfundível voz dos poetas.
É precisamente essa voz, de lídimo poeta, que tenho a honra de apresentar, nesta progressiva cidade de Albufeira, na pessoa do Dr. Manuel dos Santos Serra, insigne cidadão e figura modelar da medicina algarvia, distinto humanista e incansável defensor dos supremos valores da Liberdade e da Democracia. Poucos serão os que hoje lhe poderão imitar tão profícuo trajeto de vida, porque para tanto lhes faltará não só o génio, como principalmente a humildade, a abnegação e o desprendimento para, em todos e em cada um, ver o irmão que sofre e precisa do seu solidário apoio, nas horas difíceis, em que por vezes, a vida, num segundo, se esvai e a alma se desvanece.
O livro que o Dr. Santos Serra traz hoje a público, tem por título Miradouro do Tempo. É um livro de poemas, que, tal como os anteriores, tem a chancela da Caleidoscópio. Apresenta na capa um belo quadro a óleo, sobre a baía de Sagres, da autoria do notável pintor Samora Barros. Uma opção inteligente e louvável, pois que aquele exímio pintor, e ilustre albufeirense, foi também um admirável cultor das musas.
A obra em si comporta 104 poemas, idealizados de forma livre, sem as peias métricas nem as sonoridades rítmicas, que a ortodoxia lírica impôs nos templos de Orfeu aos adoradores das musas. Uns são curtos e incisivos, enquanto outros são mais alongados nas suas lucubrações filosóficas, nas suas imagens poéticas ou nos seus subterfúgios metafóricos. O livro tem três fases distintas. A primeira é mais lírica, mais artística, mais consentânea com a produção anterior do poeta. Evidencia um espírito sonhador, utópico e idealista, no fundo revela o poeta na sua faceta mais cristalina. Os versos são curtos e os poemas são pequenos, como se fossem medalhões poéticos. Mas o seu embasamento filosófico obriga o leitor a uma reflexão mais atenta e prolongada. O lirismo é omnisciente. Repare-se nos primeiros poemas e na sua ponderação sobre o valor e necessidade da poesia, sobre a conceção poética e as ilusões do poeta. Vê-se que pela escadaria do poema fluem sentimentos de saudade, fantasia e alucinação, recordações de paraísos errantes e de alegrias juvenis, de desilusões, privações e morte. Em alguns poemas constatei recursos estilísticos não verificados em obras anteriores, como é o caso das repetições vocabulares dentro do mesmo verso, o que já não acontece nas fases seguintes do livro. Permita-se-me aqui destacar alguns poemas que se incluem nesta primeira parte: «Magos da Leitura», «Porquê», «Meditando» (verdadeira ode ao Mar), «História» (autobiográfico) e «A magia do verso» (verdadeiro hino à poesia).
A segunda fase do livro começa precisamente com o poema que serve de título a este livro, que merece ser lido, refletido, ponderado, dissecado, anatomizado e vagarosamente comentado. Jorge Luís Borges dizia que bastava um verso para salvar um livro, mas se fosse um poema então salva-se toda a obra do poeta. Neste caso, diria que são muitos os poemas que salvam este livro e dignificam para sempre a memória do poeta Manuel dos Santos Serra.
Esta parte do livro é mais romântica e mais intimista, porque reflete não só as experiências passadas como as vivências privadas do poeta. O prazer de recordar e a nostalgia da memória são muito prementes. Nota-se também nestes poemas uma sincera preocupação ecológica e uma profunda revolta, contra a destruição paisagística e os atropelos ambientais, perpetrados em nome do progresso e da modernidade. O Algarve e suas praias, os lugares históricos e a sua beleza ambiental, são assuntos recorrentes nos seus poemas. O amor e a natureza são nesta fase os temas fulcrais do livro. O amor oscila entre o platónico e o físico, mas o erotismo é a essência e a alma da poesia. A forma velada como se revela a sensualidade do amor é o mais sublime perfume da poesia. Mas é a Natureza que aqui se assume como uma espécie de heroína ou de personagem central, em torno da qual decorre o Tempo, esse invisível espaço pelo qual perpassa a vida e as incontornáveis transformações das mentalidades, das ideologias e das nações. A apologia da natureza é mística e ascética, e os poemas são como preces de exaltação à pureza e virgindade do que é natural, genuíno, íntegro e imaculado. O poeta é fruto da paisagem que lhe iluminou a infância, e lhe moldou a alma na terra perfumada pelas amendoeiras em flor.
O Dr. Santos Serra usando da palavra, ladeado por
Vilhena Mesquita e pela vereadora da cultura da C.M.A.
Por fim, sente-se no poeta o peso da idade, e essa é uma realidade transversal a todo o livro. Alguém disse que recordar é a voluptuosidade dos velhos. Essa é uma realidade constante neste livro. A angústia do tempo que passou e não pode ser revivido, a nostalgia de recordar o que se viu e não mais se vê, causa no poeta uma profunda amargura. A velhice é o desalento do herói. A anciania é o heroísmo de vencer o tempo no desconforto da saudade. Neste livro são vários os poemas sobre o descanso do guerreiro, cuja idade lhe sobrecarrega a memória de recordações que o tempo foi acumulando no cofre da alma. E o tempo está pejado de sombras que a luz da vida já não pode iluminar. O maior castigo da velhice é sem dúvida a saudade da lembrança.
Permita-se-me que destaque desta fase, entre muitos outros possíveis, apenas os seguintes poemas: «Algarve» (ode regionalista), «Ritual do Amor» (erotismo profundo), «Reencontro» (erótico-sensual), «Fatalismo» (sobre a vida e a morte) e «Decadência» (apostasia religiosa).
A terceira e última parte é aquela que faz da poesia o predestinado arauto da história. Fala dos tenebrosos mitos que dominavam os mares tumultuosos, e dos lusos argonautas que divisaram horizontes de esperança em terras longínquas, onde nunca chegara a promessa da civilização. Exalta o nome de um povo que foi de Gamas, Cabrais, Magalhães e Albuquerques, mas que agora nem desse passado se pode orgulhar, porque de mão estendida se deixou submeter à força bárbara da gente alheia. «Fomos jovens, rebeldes, musculados, / O que havia e não havia fomos ver, / O mundo quis saber o nosso nome / E registou-o em lendas, / Em papiro de aço / Fomos… / Fomos… / Fomos… / Hoje, a Pátria que nos resta, / Tem um ramo de rosas secas no regaço».
A par da poesia de temática histórica sucede-lhe a fase do Realismo Poético, um estilo raramente visto na moderna poesia portuguesa. Por isso considero que esta é a melhor parte do livro, por ser a mais fiel ao espírito revolucionário da poesia e também a mais consentânea com a personalidade do Dr. Manuel dos Santos Serra, um indómito defensor da liberdade e um intransigente protetor dos direitos humanos. Infelizmente são já raros os homens, que como ele se apaixonam pela nobreza dum ideal e pela soberania da justiça, lutando com todos as suas forças pela defesa da verdade e pela proteção dos mais fracos. Por isso é que os seus poemas não se eximem de retratar os dias negros que o nosso país tem vivido ultimamente, acusando sem temor os nossos governantes de serem os algozes duma pátria que civilizou o mundo. «Agora este pobre e velho povo / Como um deus doente, / Ultrajado, andrajoso, mal-amado / Pelos filhos infiéis / Cisma, cisma no milagre a inventar, / De fazer deste fraco povo, forte gente!»
A crise económica em que vivemos tem causado grande instabilidade social, gerando insegurança, desconforto e sobressalto na vida de todos os cidadãos. Um angustioso clima de egoísmo e de nefasto individualismo, uma exacerbação material da vida tomou conta dos destinos do mundo e derrubou os supremos valores do espírito, da moral e da ética. Vivemos hoje tempos de dependência e de subalternidade aos desígnios alheios, semelhantes aos que viram Camões perecer numa infame enxerga de hospício. A esperança perde-se a cada instante e o futuro reserva-nos dias sombrios de angústia e sofrimento. Resta-nos talvez a poesia e a leitura de livros como este para cuidarmos de resistir e de sobreviver o melhor que pudermos, contra este pacto de agressão internacional a que a pátria e o povo português se acha submetido.
O Dr. Santos Serra agradecendo ao declamador João Pires e a
Vilhena Mesquita a colaboração prestada na apresentação do livro
 

Em suma…

A centúria de poemas que compõem este Miradouro do Tempo percorre uma panóplia temática muito diversificada. Numa rápida súmula posso afirmar que os temas principais, ou seja os que consegui padronizar, são de carácter ambiental, cósmico, religioso e sentimentais. Não obstante, é na oclusão da vida e no mistério que envolve a face obscura da morte, que se focaliza o núcleo lírico desta obra.
No que concerne à temática ambiental são constantes as evocações relacionadas substancialmente com a Água, enquanto fonte da vida, mas também com as chuvas e os rios, contrastando com os seus opostos, o sol, as secas e os incêndios, a luz, o brilho e a cor, tudo isto estrategicamente ordenado numa poesia de contrastes e de recordações. Mas não nos deixemos iludir nesta imbricada teia naturalista, porque é nela que o Mar se assume como elemento agregador e difusionista da mensagem poética deste livro. Diria mesmo que o mar é o tema fundacional na poesia de Santos Serra.
Mas, no âmbito dos elementos cósmicos o tema principal é o Tempo, não só na sua dimensão de passado como também na sua interpretação metafórica, sendo por vezes evidente a sua personificação, quer como sujeito quer como agente proactivo na execução poemática. Além do mais figura na composição do título da obra. Na conjugação poética do tempo recorre-se a elementos mais comuns como o vento e a tempestade, a primavera das flores ou as trovoadas do inverno, o azul do céu e o brilho das estrelas no ebúrneo firmamento algarvio.
Os elementos religiosos, embora escassos e, por vezes, dissimulados, estão latentes na poesia de Santos Serra. Deus é uma entidade omnisciente, mas só abstratamente revelada, enquanto a alma é um recurso funcional na construção diegética do poema. Aparecem fugazmente outros conceitos como o milagre, o paraíso, a igreja e até mesmo o Olimpo, numa alusão ao paganismo clássico.
Mais prementes e abundantes são os elementos sentimentais, de entre os quais impera o amor, platónico e físico, sendo neste caso de realçar o profundo erotismo que ressuma em dois poemas, que por serem muito belos, quase extasiantes, não resisto à tentação de aqui lhes citar os títulos: «Ritual de Amor» e «Reencontro». A par do amor seguem-se os afetos e enamoramentos, o ardor da paixão, o prazer do sexo, a liberdade de amar, mas também a fidelidade no contraste com a perfídia e o adultério. A saudade é, no caso do amor e da paixão, um sentimento avassalador, a que se juntam, como reforço poemático, as lágrimas e a dor da separação, a desilusão e a depressão, a doença e a morte.
Sem grande esforço analítico poderia afirmar que existe ao longo deste livro um fio condutor. É arrojado dizê-lo quando se trata de uma obra de poesia, mas não há dúvida que o tempo é o elo de ligação, mas a memória é o cerne e a alma de todo o livro. Mais curioso, ainda, é notar que a dimensão tempo, sendo o cadinho em que se fundem a generalidade dos poemas, assume-se aqui como um nostálgico sentimento de perda, e de privação, de algo que ficou no passado e já não volta nem se recupera. Essa nostalgia não é saudosista. É antes, e tão só, o puro sentimento lusíada da saudade, não de quem parte mas de quem vê partir.
Panorâmica do auditório durante a apresentação do livro
Se o que caracteriza o género poético é a harmoniosa beleza da palavra esculpida nos interstícios do poema, capaz de despertar no leitor sentimentos e emoções, de agitar sensibilidades e inspirar comoções, então sim, podemos afirmar que este é verdadeiramente um livro de poesia, cuja leitura nos elevará até aos sagrados altares da arte e da estética literária. Porque, na verdade, um poema é uma espécie de tela pintada com palavras, em cuja têmpera o poeta terá de selecionar as mais finas cores. Mas se quisermos ser mais abrangentes então podemos afirmar que toda a Arte é Poesia, porque ambas personificam o Belo e a Verdade.
Antes de ser Arte e Literatura, a poesia é essencialmente a voz sublime da Natureza. É claro que quando falo em Natureza estou a referir-me a tudo o que rodeia e consubstancia a vida. As correntes literárias vanguardistas tentaram alterar a função primacial da poesia, como expressão natural da vida, mas não só foram mal sucedidas como ainda tiveram uma efémera existência. A razão desse insucesso prende-se com a falta de sinceridade, porque só permanece e resiste tudo aquilo que é sincero e natural. A imitação do talento poético é a contrafação da arte, pelo que rapidamente se transforma em caricatura e tédio.
Em boa verdade, não é fácil tocar violino num rabecão.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um pomar de versos, em frutos de palavras


No mundo actual e no sentido materialista em que vivemos, a poesia parece ser algo que sobrevive ainda, mas de forma ilusória, desgarrada e sem futuro. Esta é a mais confrangedora das minhas constatações quando discorro com os meus alunos sobre a importância da poesia na aplicação a novas estratégias comerciais, ou sobre a inserção do metaforismo e da metonímia na linguagem mercantil e nas relações empresariais. É certo e sabido que me pedem de imediato uma definição de poesia, como se tudo na vida tivesse que ser concreto, objectivo e rigoroso. Como as definições são enunciações indiscutíveis, costumo dizer que a poesia é tudo aquilo que ficou para trás na tradução, servindo-me à letra da afirmação "The road not taken", do poeta americano Robert Frost (1874-1963), que considerava assim a poesia como tudo aquilo que não se consegue traduzir, isto é, que não se consegue definir por palavras simples, claras e intuitivas. O que Frost queria dizer é que tudo aquilo que escrevemos, isto é, que traduzimos da realidade, é prosa; mas o que não conseguimos dizer ou escrever com a clareza do real, é poesia.
Dito de outra forma, poesia é sentir sem racionalizar, isto é, não precisamos da erudição nem da ciência para compreender as coisas, basta senti-las para nos deixarmos emocionar por elas, experimentando-lhes as sensações e o impressionismo judicioso. Camões, quando quis revelar o que é o amor, fê-lo de forma a traduzir em si a própria poesia, afirmando que «é ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente». Significa isto que sentimento e razão constituem as duas faces da mesma moeda, porque ao fim e ao cabo a bipolarização entre o positivo e o negativo – entre o Yang e o Ying da filosofia Zen, entre o bem e o mal, o sagrado e o profano que fraterniza as religiões – são formas seculares de conhecimento que enraizaram a humanidade ao longo de milénios.
Por conseguinte, a poesia é intimista e sublime, demasiado pessoal para ser transmissível, e cuja expressividade necessita de uma imaginação fértil e fecunda para fazer-se sentir, tanto na pele como na alma. Poesia, poema e verso são como o tríptico Saussureano do signo, significado e significante. Estão interligados, fazem parte do mesmo corpo linguístico, ou, neste caso, do mesmo género literário. É assim mesmo que acontece neste livro, nesta tríade ou simbiose em que se traduz a poesia de Santos Serra.

Pomar de Pedras, assim se titula o poema que encerra, e ao mesmo tempo denomina este livro. Pela leitura deste poema, mas também pela maioria os versos que dão corpo e alma a este livro, sente-se uma mensagem de esperança, um alento de fé num sopro de vida: “as pedras perfilam-se no sonho da metamorfose / de cada pedra brotar uma flor” É a mesma mensagem, de esperança e de regeneração, que abre este livro, num belo poema sobre o verde, como signo imperecível da natureza e da vida. “Verde era o vento das liberdades de atingir… Verde era o oceano da viagem para as Índias dos sonhos… Verde era o agora e o porvir no cadinho viril de uma vontade”. Das reminiscências da feliz infância até ao laborioso sucesso de uma vida, juramentada a Hipócrates e à supressão do sofrimento, de tudo isso se faz velado eco e sublimação nos versos que compõem os poemas deste livro, que não fala de pedras, mas antes dos frutos que eternizam a existência humana: o amor e a lealdade, a verdade e a justiça, a solidariedade e o afecto, a honra e a dignidade, o respeito e a fidelidade.
O decantado poeta Eugénio de Castro dizia que o poema em si mesmo «embala a angústia nos braços decepados». É uma brilhante metáfora, que traduz toda a magia espiritual da concepção poética. E neste Pomar de Pedras é a metáfora, usada com incisiva regra e oportuno instante, sem excessos nem exageros, com a justa parcimónia do equilíbrio a que se submete o poeta do verso curto, sóbrio e enérgico. A brevidade do verso – composto por duas a cinco palavras, numa média de seis a doze sílabas – é a principal característica da poética de Santos Serra. A moderação exige a modelação da palavra, trabalho árduo e difícil, que aproxima o poeta do escultor, pois ambos sabem que o olhar de quem os observa não se pode dispersar pelo acessório, devendo concentrar-se no que é verdadeiramente essencial.
Ibne Ammar, grande poeta árabe, nascido em Estombar, usava também a palavra com parcimónia, recorrendo à simbologia das cores, como no signo Saussureano, para construir belas metáforas, de que esta sobre a impressão da leitura é verdadeiramente modelar: «Minha pupila liberta / Quem da página é cativo: / O branco, da margem certa / E da palavra, o negro vivo».
Também neste livro, de versos curtos, incisivos e inteligíveis, onde as metáforas e as imagens poéticas sobressaem vivas de cor e cintilância, se notam por vezes os subterfúgios do artista, que se revela na simbologia da luz e nos matizes pictóricos, ou na energia dos elementos naturais, para impressionar, não a pupila mas o espírito do leitor. São disso exemplo as frequentes invocações das árvores, da terra e da erva, das flores e dos frutos, dos rios e das fontes, do sol e da chuva, dos pássaros e do vento, do raio e do trovão. É por esses recursos poéticos que constatamos, nos interstícios do poema, a existência de um velado misticismo, a presença indefinida duma força criadora, a existência de um indistinto ente supremo, a vigilância dum espírito criador, e muitas vezes a omnipresença de um regulador dos sentidos, que inversamente funciona como catalisador dum impressionismo contemplativo.
Nota-se, nesta sequência, um incontido impressionismo saudosista quando recorda a Coimbra da sua juventude, presença omnisciente nos seus livros, aqui revisitada do Mondego e do Choupal ao Templo de Minerva, numa peregrinação de saudade dos “Que te veneram enquanto vivos / E te levam com eles para a eternidade». Alegram-se os sentidos e rejubilam as memórias quando no poema «Diferenças» relembra a sua chegada à Lusa Atenas: «Era ser livre sem peias de tirano / Era sentir o mar dentro de nós / Era encher de estrelas as noites cor de breu / Era ser rei de um reino de Utopia… / Hoje, mais de meio século / Do meu desembarque neste cais, / A eterna turbulência juvenil / Sobe à Acrópole a cantar».
A marca da tradição, da rebeldia juvenil e a nostalgia do tempo que passa, são punções indeléveis na poética de Santos Serra. Coimbra é a cidade do eterno retorno, o berço onde se fez homem, a radícula das paixões perpétuas e o núcleo das insanáveis saudades do vento que afaga e passa, mas não apaga.
João Pires declamando os poemas do livro do Dr. Manuel
dos Santos Serra na sessão de apresentação da obra, na
Biblioteca Municipal de Albufeira, 5-11-2011.
Outras terras e outras gentes são também aqui evocadas em formosos versos. Tem um destaque muito especial a cidade de Albufeira, louvada e enobrecida em refulgentes poemas de vida, cor e luminescência. O poema «História da Toponímia» descreve a antiguidade de Albufeira de uma forma lapidar, a merecer talvez outros rumos e liberdades, que uma simples página de livro não lhe pode oferecer. Os poemas sobre a «Praia do Peneco» e o «Passeio da Marginal» são igualmente refulgentes medalhas poéticas que os serviços oficiais poderiam avocar nos seus desdobráveis de divulgação turística. Mas outros poemas abundam neste livro que merecem igual destaque. Não querendo ser exaustivo nem maçador, destaco apenas alguns que me impressionaram pela qualidade das suas imagens e pelo brilho da sua inspiração: «Espelho», «O êxito…», «Narciso», «Último olhar», «2010», «Sol e lágrimas», «Ideal», «Cometa», «História breve», «No fim» (sobre Sagres), «O drama», e, por fim, o «Pomar de pedras», que dá o nome ao próprio livro.
Acresce dizer que a poesia de Santos Serra não obedece a modelos, e muito menos aos ortodoxos esquemas que enformaram durante séculos a estruturação lírica das palavras. A ordenação versífera escorre pelo papel à cadência repentina dos sentimentos, livre e solta, sem peias, nem falsos pudores, numa toada de absoluta liberdade criativa. O poeta quando atinge este nível, de elevação fecunda, de autonomia inventiva e de liberdade imaginativa, aproxima-se muito do artista plástico, que concebe na tela a imagem sem visionar o modelo. Quando assim acontece, estamos perante a Arte, na forma e na palavra.
Dizia Baudelaire, o eterno criador das Flores do Mal, que «os poetas são uma raça irritável». Referia-se logicamente ao efeito que a sua poesia causava na sociedade e no espírito político do seu tempo. Mas a noção de exaltação e de exacerbamento do espírito, que só a poesia é capaz de incutir e de produzir na alma do povo, causa de facto grande irritação e incómodo àqueles que pretendem orientar a existência humana para a mediocridade e obscurantismo. A poesia é por natureza revolucionária e não raras vezes foram os poetas, como no tempo de Baudelaire, que conduziram os humilhados e ofendidos, os despojados, os desempregados e toda a casta de desafortunados, para a sublevação nas ruas, nos campos e nas fábricas, em nome da liberdade e da justiça social. Quem não se lembra da importância da poesia de Ary dos Santos, de Natália Correia, de Manuel Alegre e de Zeca Afonso, no eclodir da revolução do «25 de Abril»…
De facto a poesia de Santos Serra, principalmente neste livro Pomar de Pedras, irrita e incomoda aqueles que vêem a existência humana como uma efémera e passageira viagem, desprovida de amarras para atracar no cais da eternidade. E no seguimento dessa asserção pode mesmo afirmar-se que a maioria dos poemas deste livro são verdadeiramente irritáveis, porque conseguem ver, para além do material e do sensível, aquilo que sendo puro contribui para a construção da realidade harmoniosa. Por isso é que Gaston Bachelard disse que «a função principal da poesia é transformar-nos», ou seja, o papel social e a utilidade funcional da poesia consiste, em última instância, no melhoramento da condição humana e no aperfeiçoamento das suas qualidades intrínsecas. Diria, em síntese, que o objectivo final da poesia é fazer de nós pessoas mais puras, mais sinceras, mais justas, leais e virtuosas, em suma, mais verdadeiras, mais sensíveis e emocionais.
Os poetas são irritáveis, sim, porque só eles sabem esgrimir as palavras em acutilantes golpes contra a iniquidade social, a perversão política e a corrupção moral. Não admira, por isso, que os poetas sejam geralmente incompatíveis com a política e o exercício do poder. É que ser poeta, como disse Florbela Espanca «é ser mais alto, é ser maior do que os homens… É ter fome, e ter sede de Infinito! É condensar o mundo num só grito!».
Mas na triste realidade em que vivemos, neste mundo de materialismos egoístas e de futilidades mesquinhas, os poetas são pouco valorizados e até desprezados. É confrangedor ouvir de gente bem instalada, e com responsabilidades sociais, palavras de avaliação depreciativa para com os nossos poetas, apelidando-os de quixotescas figuras, inválidos guerreiros na batalha da vida. Para a bestialidade dominante, os poetas são meros sonhadores, sem serventia nem utilidade. Quem manda, decide e ordena, não gosta de sentir, porque teme que o sentimento fragilize o comando. Enganam-se… porque só aqueles que sentem é que são capazes de compreender e de racionalizar a pungente amargura da injustiça, da desigualdade e da vilania. Um homem que ajuíza e decide deve ter sempre à sua cabeceira um livro de poesia, para que possa aprender a lição de que tudo passa e tudo se perdoa, na ligeira brisa da vida e na húmida bruma do tempo.
José Carlos Vilhena Mesquita
 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uma viagem através da Luz


José Carlos Vilhena Mesquita

Com a chancela da prestigiada Papiro Editora acaba de vir a público mais um livro de poesia de José Vieira Calado, poeta consagrado de que o Algarve, especialmente a cidade de Lagos, muito se orgulha. A obra intitula-se Viagem através da Luz, e inscreve-se naquilo a que podemos designar por poesia experimental, uma via mais no recente trajecto do pós-modernismo lírico. O livro é, em si mesmo, uma unidade poética, constituída por um único poema, repartida por vinte e nove fracções, digamos assim, cujo tema principal é a Luz sideral e o universo cósmico, cujos versos pretendem conduzir o leitor numa inebriante viagem através do espaço celeste. Em todo o caso, é bom que se diga, o livro não é uma obra de ciência, mas de poesia, nem é tão pouco um repisar dos caminhos desbravados por António Gedeão, quando transformou a Física e a Química num objecto poético, formando um novo estilo lírico que se poderia designar por poesia-científica. Não, este é um livro muito diferente, tanto na abrangência temática como na extensão unívoca do poema, sendo que apenas existem algumas similitudes na dimensão da mancha poética. Nas suas fraquezas e virtudes, este livro é bastante inovador, não só como peça de arte mas também como peça literária, sendo que na sua formulação diegética até parece mais próxima da primeira do que da segunda. E isto em nada deslustra a qualidade e valor desta obra.
A ninguém hoje assalta a dúvida de que a poesia de Vieira Calado está indubitavelmente ao nível do melhor que neste país se tem dado a público no sublime prelo de Orfeu. Conheço o poeta, e a sua obra, há mais de trinta anos e o que acabo de afirmar não é um exagero de amizade nem de admiração, mas tão só a simples constatação de um processo de vida literária, marcado pelo aperfeiçoamento e depuração das qualidades criativas do seu estro poético. Mas essa viagem de progressiva qualidade tem-se demonstrado não só na sublime concepção estética em que se inflamam os seus poemas como, muito especialmente, na sua idealização lírico-filosófica. Essas qualidades, convenhamos, não estão ao alcance de todos os poetas, mas tão só dos mais qualificados, criativos e inspirados. E nos seus poemas, como aliás na maioria das obras de arte consideradas de superior qualidade, nota-se que a inspiração poética não é repentina nem flamejante; bem pelo contrário, é pensada e exaustivamente reflectida, é ponderada e sopesada nos mais elevados valores e conceitos da estética e da metafísica filosófica.
Esta Viagem através da Luz é a mais recente produção de Vieira Calado, no contexto de uma obra de vasta dimensão, com dezassete títulos de poesia e três de prosa. Pela sua insistência e quantidade, pode afirmar-se que Vieira Calado é acima de tudo um poeta, no mais sublime e exigente que essa qualificação encerra, ainda que como prosador – e aqui relembro o seu belíssimo e enternecedor livro Merdock, sobre um simples cão que personificou os ideais de liberdade e agitou a academia farense nos anos cinquenta – se deva também considerá-lo como um escritor, a quem o ensaio literário e o estudo científico não são igualmente estranhos.
Neste livro vislumbra-se o plectro de Orfeu, mas num patamar muito superior ao que se costuma ver no contexto poético algarvio. Aqui a palavra supera o sentido meramente estético do verso poético, pelo que o parnasianismo da ortodoxia lírica que enforma a maioria dos poetas algarvios contemporâneos, está absolutamente distante, e diria até que totalmente fora dos horizontes poéticos de Vieira Calado. Mesmo se remontarmos aos seus dois primeiros livros, publicados ainda numa poesia “imberbe”, vemos que os seus versos são pujantes gritos de revolta contra a opressão salazarista e a privação das liberdades e garantias, em que se sustentava a obscenidade plutocrata do capitalismo vigente, afinal de contas problemas que hoje absurdamente se repõem num regime de liberdade e de democracia plena.
Em todo o caso, e retomando o fio crítico, a poesia de Vieira Calado, desde o seus primeiros vagidos poéticos que se assume nos antípodas estéticos aos cânones ortodoxos da poesia clássica e aos tradicionais figurinos líricos que enformam a nossa poesia desde os heróicos modelos do Romantismo e dos bucólicos tempos do Naturalismo até aos difíceis da anos resistência neo-realista. Foi na alvorada dos anos sessenta que os moldes clássicos da criação poética foram absolutamente implodidos, quando ainda ninguém imaginava possível a eclosão da grande revolução social do Maio de 68, cujos ténues sinais já se vislumbravam, mas que só foram possíveis através dos crescentes sinais de mudança e de contestação juvenil, que uma emergente geração nova fazia desfraldar aos ventos a bandeira da liberdade, cortando as cadeias que manietavam o pensamento e amortalhavam os redentores ideais do Mundo Novo.
Os poemas deste livro giram em torno duma espécie de viagem cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia incomensuravel do universo físico está patente neste livro através da persistente alusão aos seus elementosáconstituintes, com particular acinte na luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que compõem o nosso universo mítico, como a Fénix, a cobra alada, a pedra filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na volatilidade do verso poético.
Os poemas deste livro giram em torno da palavra filosófica, das imagens metafóricas surrealistas e da estética pós-moderna. Paradoxalmente estes poemas não estão titulados, porque não existe um tema específico para cada um deles. Na verdade são incursões nas profundezas do inconsciente, que se reflectem num encadeamento de ideias e de figurações do irreal, que sensibilizam esteticamente o leitor para novas concepções tropológicas. O poeta não escreve a pensar no leitor ou em que o possa interpretar. Por isso não me parece que estes poemas se possam considerar acessíveis a todos, mas antes, e sem desprimor, só para alguns, certamente para os mais inteligentes e mais aptos, que são os únicos capazes de interpretar e desfrutar das ideias do poeta, algo etéreas mas profundamente ontológicas nesta Viagem através da Luz.
No fundo, todo o livro constitui uma viagem, um trajecto de quadros cenáticos que se sucedem e se engastam de forma lógica para a constituição de um todo. Isso não acontece num livro de poesia, onde cada poema é uma viagem, é um itinerário de ideias e de alegorias que enlevam o pensamento do leitor numa inebriante mensagem de sentimentos, de emoções e de sensações estéticas.
Nesta Viagem através da Luz não acontece isso, porque os 29 poemas que constituem este livro têm uma relação conjunta, uma complementaridade entre si, e uma filiação global que os transformam num corpo, desarticulado é certo, mas consistente do ponto de vista das ideias e dos conceitos estéticos imanentes. Repare-se no simbolismo da Luz que dá o cerne a este livro e que, por isso mesmo, lhe é omnipresente, mas cuja essência não se consegue apreender, porque a luz vê-se, sente-se e invade-nos o espaço físico, mas não se consegue capturar ou impedir o seu curso natural, porque dela provém a fonte criativa da vida. A Luz neste livro é também a permanência da razão, é o estímulo e a sensação que invade o espírito do leitor, numa impressão inequivocamente etérea e volátil. Acima de tudo, o poema quis atribuir à Luz a ambivalência dialéctica do material e do espiritual. Mas, na verdade, a Luz é o símbolo da imaterialidade, da ilustração e da concepção do espírito, como génio criador da percepção das ideias e dos pensamentos superiores. Por isso, mas também por ser fonte de vida, é que se atribuem sentimentos de sacralidade e de divino endeusamento. No entanto, se a luz do Sol significa a vida, é certo que também traduz a visão espiritual e a inspiração criativa. A luz da Lua, por ser reflectida, simboliza uma forma de conhecimento infundido no pensamento racional e discursivo. Nela cabem a certeza, mas também o mistério. Cabe, portanto, ao leitor escolher se prefere a luz do sol, original e divina, ou a luz da Lua, reflectida, aparente e enigmático. Por mim, prefiro esta, e aprece-me que o Vieira Calado também.

(texto de apresentação da obra Viagem Através da Luz, da autoria de Vieira Calado, efectuada na livraria «Pátio das Letras», em Faro, a 18-01-2010)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Casa das Areias, de Luísa Monteiro


José Carlos Vilhena Mesquita
O romance, A Casa das Areias, da autoria de Luísa Monteiro, destina-se a um público adulto e culto, não é um livro banal nem ao alcance de todos. Para o lermos necessitamos de uma certa cultura e uma certa maturidade literária. Não é um livro difícil, quer na escrita quer na trama romanesca. Em todo o caso é um livro que exige do leitor uma certa capacidade intelectual para perceber a saga de duas famílias que se desenrola durante quase um século. Possui uma estrutura de longa duração, sem se tornar enfadonho, maçador, parado ou ronceiro. Bem pelo contrário. Desenvolve-se com alguma celeridade, dando não raras vezes às personagens retratadas uma vida efémera, sem pujança nem peso narrativo, mas com um vínculo por vezes mítico do amor inatingível, dilacerante e frustrante.
A grande lição a retirar sumariamente deste livro é que o amor não se cura no casamento. A liberdade de sentir e de amar sem peias nem regras constitui a essência do amor. Só é livre quem ama. Mas só verdadeiramente ama quem despojado de interesses materiais faz do amor o valor supremo da vida.
O cenário espácio-temporal desta obra é o século XX na região minhota, que aliás, retrata de forma magistral em todos os aspectos, quer no ambiente natural, quer na envolvência social embasada na má distribuição da riqueza. Mas incide mais concretamente no concelho de Vila Nova de Famalicão. Os campos, as culturas, os costumes, as tradições, a gastronomia, a religiosidade nos seus tabus e fetiches, em suma, os defeitos e virtudes da gente simples e humilde, que conceptualiza na verticalidade dos princípios éticos da honra, a bandeira duma alma popular erguida e defendida ao longo de séculos.
Existem na contextualidade narrativa dois vectores primaciais que conduzem como linhas de força todo o romance: um vector feminino dominado pela figura de Ana, cujas origens judaicas fazem dela uma mulher enigmática, cobiçada na sua irradiante beleza, invejável na sua fortuna, inimitável na sua sedutora sensualidade. Uma matrona de numerosa prole, escoriada em avultados cabedais que a tornam aos olhos do vulgo numa mulher poderosa, admirada e temida.
O lado narrativo masculino é dominado por Camilo Augusto, um brasileiro de torna-viagem, boçal e agressivo, dourado pela riqueza granjeada entre selvagens. Uma figura carregada de traços camilianos, que definhará mais tarde de paixão pela judia que repudia os seus encantos materiais por não lhe suportar a negritude da alma.
Visível é também neste livro o choque de culturas numa certa conflitualidade de gerações. O emancipalismo feminista de Ana espelhado na sua luta pela liberdade de pensamento e de acção, na sua independência, na integridade do seu território e no desprezo pelo macho, ainda que deixando-se possuir por ele, é sinónimo duma força de carácter que inspirará todos os seus descendentes.
Daí que a narrativa se reparta entre a riqueza e a pobreza, a independência moral e a subserviência dos que rodeiam as figuras sobre as quais assenta toda a estrutura romanesca. Neste ambiente social desenvolve-se um tempo diacrónico cujas balizas, ainda que difíceis de definir parecem estabelecer-se entre o fim do século XIX e os conturbados anos revolucionários do pós-25 de Abril. Como marcos surgem as duas guerras mundiais, que escalavraram a fortuna de ambas as famílias e moldaram novas mentalidades. A sucessão do tempo é também a substituição das personagens pelos seus descendentes que assumem progressivamente o papel de protagonistas na diegese narrativa. É disso exemplo o caso de Teresa, a filha de Ana, que vai sendo substituída pela radiosa figura de Esmeralda. O mesmo acontece ao vector masculino que tem em Augusto, filho de Camilo Augusto, que será substituído por Agostinho. Ou seja a narrativa passa de avós para netos numa incontrolável sucessão de tempo e de novas mentalidades. Em todo o caso, nota-se que é o vector feminino o vencedor, pela constância da sua força, do seu orgulho, da sua perseverança e do seu denodo. O vector masculino é retractado de uma forma mais torpe, mais desleal, mais sabuja.
A descrição da envolvência diegética é um dos pontos fortes deste livro. As cores, os cheiros, as formas, os sons e as texturas ressaltam do livro duma forma muito viva, muito real, que lhe dão a aparência da verdade através do constante recurso a imagens poéticas, extrapolações metafóricas e comparações analépticas.
Uma das facetas mais interessantes do livro é aquela que se prende com a arqueologia dos sentidos, atraindo a atenção do leitor para os cheiros, sabores, sons, texturas e visões de um Minho deslumbrante e sedutor. No contexto da estimulação sensitiva a autora recorre ao prazer gastronómico, fazendo constantes referências aos pratos e iguarias minhotas. A estratégia prandial foi aliás muito usada por Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro e tantos outros autores da nossa melhor safra literária.
Não menos curiosa é também a descrição dos moribundos, que tem algo de plangente e teatral, no fundo é a atracção lírica pela morte, como redentora da vida. A despedida da vida, quando não ocorre de forma repentina e acidental, tem algo de romântico, o que na literatura clássica se explorou quase até à exaustão. Com a Luísa Monteiro não é tanto assim, embora elabore quadros de morte profundamente sentidos. Não obstante poupa tempo e espaço com as personagens secundárias que surgem de forma quase espontânea, mas também morrem num ápice, deixando breve rasto na narrativa. Para dar uma certa autenticidade ao romance insere-lhe figuras reais como, por exemplo, Adolfo Casais Monteiro, nomes de empresas, de indústrias de ruas, freguesias e locais que verdadeiramente ainda hoje existem, deixando o leitor intrigado, confuso e surpreendido, pela ousadia de se misturar a realidade com a ficção. Mas isso é mais uma estratégia ou recurso literário para construir a saga destas duas famílias que atravessam todo o século XX, perdendo paulatinamente o seu protagonismo económico, para se esvaecerem na voragem do tempo e nas mudanças socias operadas.
Merece também que destaquemos o recurso ao rifoneiro popular, citando com a parcimónia necessária alguns provérbios adequados à construção narrativa. O mesmo acontece com a frugal utilização de vocábulos minhotos carregados de conotações brejeiras, eróticas, sarcásticas ou ridicularizantes. Tudo usado na proporção do quanto baste, sem exageros enfastiantes que, não raramente, banalizam e diminuem a qualidade da obra.
Por fim, e após sucessivas alterações geracionais dá-se a reunião dos dois vectores iniciais: o feminino da judia Ana e o masculino do brasileiro de torna-viagem Camilo Augusto. As duas narrativas que evoluem de forma distinta até ao último terço do romance acabam por confluir no casamento dos netos de ambos, Agostinho da parentela masculina e Esmeralda da feminina. O fruto de ambos, Eduarda, personifica a libertação e a vitória das mulheres num mundo dominado pelos homens. «Por isso, aos dezasseis anos despediu-se da família, ajustou o violino às costas e deu gás à lambreta azul que lhe ofereceram no aniversário. Para trás, uma geração densa de Evas, que ao longo de décadas assumiram o sacrifício de uma vida fora do Paraíso, ao lado de homens e rodeadas de filhos. Mas a genética tem caprichos muito curiosos e, de vez em quando, produz seres cujos comportamentos denotam uma intoxicação qualquer das marcas da eugenia, resultando daí personalidade pouco comum à árvore da genealogia».

[texto de apresentação da obra «A Casa das Areias», de Luísa Monteiro, proferido a 8-7-2000 no auditório da Câmara Municipal de Albufeira]

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A Capital do Sotavento


José Carlos Vilhena Mesquita

Nem sempre os nossos políticos produzem matéria editorial digna de apreço científico, ou pelo menos digna de interesse divulgativo, que permita explicitar publicamente os seus projectos, os seus vínculos ideológicos, os seus anseios e aspirações. Raros são, pois, os que pelo seu talento ou atributos intelectuais conseguem reunir ao longo da sua vida política um corpus documental, cuja ordenação lógica seja propiciadora do seu desvelamento político-socio-ideológico.
A compilação em livro das intervenções pronunciadas pelos políticos constitui uma destemida forma de exposição pública daqueles que nada temendo por muito terem para legar, pretendem naturalmente deixar às gerações vindouras o testemunho da sua competência técnica e idoneidade moral. Por isso, raros são os autarcas que por esse país fora se arrojam a publicar em livro os seus discursos, intervenções políticas, pareceres oficiais e projectos de fomento ou de estruturalização dos municípios a que presidem. Não é o caso do eng.º José Macário Correia, figura sobejamente conhecida do municipalismo algarvio, cujo denodado esforço permitiu que a cidade de Tavira figurasse no mapa nacional do progresso e do desenvolvimento, de uma forma sustentada, racional e quase científica. Nesse aspecto o seu exemplo tem sido paradigmático e merece, para além do nosso aplauso, a sugestão de vir a servir de modelo àqueles que, apenas visando a sua perpetuidade no poder, cuidam de agradar às chefias partidárias e seus confrades descurando o benefício das comunidades em que se inserem.
A publicação do livro Tavira – Capital do Sotavento, da autoria de Macário Correia, vê-se que não persegue objectivos promocionais ou eleiçoeiros, pois que se limita a compilar as suas intervenções públicas a favor da cidade que lhe serviu de berço. Aliás o eng.º Macário Correia é um político de nome feito, gravado nos anais do regime democrático, não com letras de ouro mas antes com letras de honra, de rigor, de sacrifício e de íntegra verticalidade. Não precisa, por conseguinte, de publicar livros para se afirmar no ingrato mundo da política. Já provou, nos anos que esteve no Parlamento, que é um homem de grande aplicação e esforço, quer no planeamento quer na execução de projectos estruturalizantes que beneficiem o país, não receando mesmo que a impopularidade de certas intervenções pudesse prejudicar-lhe a imagem ou menoscabar as ambições políticas. Por isso, não virou costas à contestação nem receou a erosão política, quando foi preciso dar a cara e proceder a reformas de reordenamento do território, de defesa do ambiente ou de pugnar pela saúde pública. A posteriori provou-se a sensatez e a racionalidade das suas decisões, ao mesmo tempo que cresciam as suas convicções regionalistas, a ponto de voltar à sua terra-natal para abraçar a presidência do município.
O livro agora editado vai seguramente tornar-se numa fonte de estudo para os analistas do nosso municipalismo, podendo com o decorrer do tempo vir a transformar-se num útil documento de trabalho para os investigadores de história local e regional. A obra reparte-se em cinco secções distintas, obedecendo à lógica descendente, ou seja, partindo do geral para o particular, ou melhor, da formalização da problemática para a individualização do problema, que aqui constitui, em estrito senso, a cidade de Tavira. Por isso, Macário Correia começa por analisar os grandes desafios do poder local, a filosofia municipalista enquanto descentralização e relacionamento interinstitucional, passando pela modernização administrativa, ordenamento do território, defesa do ambiente, tolerância político-partidária e cooperação internacional.
Na secção seguinte disserta sobre os grandes desafios que se antepõem ao Algarve no dealbar do novo milénio. A pedra de toque é a regionalização. Mas, como se sabe, o projecto foi rejeitado pelo voto popular, por se recear uma burocratização da província e um aumento da despesa pública, mercê da previsível distribuição de novos cargos políticos. A generalização das infra-estruturas básicas e a potencialização dos recursos naturais, a gestão do Plano Nacional da Água, a despoluição ambiental, a cooperação com a Andaluzia e o alargamento da União Europeia, são outros dos temas abordados e analisados nesta secção.
As três últimas partes do livro focalizam-se em Tavira, mormente na sua riqueza ambiental, na singularidade do seu património histórico, nas estratégias de desenvolvimento rural, na rentabilização e fomento das pescas, na renovação do equipamento social, desportivo e cultural, na política habitacional na ocupação dos tempos livres da juventude e no aparelho educativo - do qual sobressai o desiderato da criação de uma Universidade em Tavira.
Não há dúvida nenhuma que através deste livro ficamos a conhecer a obra política de Macário Correia, nos seus anseios, nas suas virtudes e até nas suas angústias, pois que nem todos os projectos se consumaram, mais por falta de apoios externos e vontade política do que por inépcia ou escassa aplicação do seu promotor. Por isso é que este livro é uma espécie de retrato da eficiência política e competência técnica do seu autor, que claramente se assume como um autarca da nova vaga (mais inspirado em princípios científicos do que em objectivos políticos), podendo a sua edição servir de proveito e exemplo aos seus congéneres algarvios.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

UMA NOITE COM O FOGO em MONCHIQUE


José Carlos Vilhena Mesquita
Confesso que é sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores escritores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo, faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
Este livro, Uma Noite com o Fogo, que tivemos a honra de apresentar oficialmente em Faro, na livraria «O Pátio das Letras», está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que, no caso presente, constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do eu, aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao eu, denuncia claramente a existência duma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o eu. E na construção desse eu, surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.

Uma obra independente

Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário das obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se nesta Noite com o Fogo da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Acima de tudo este livro é uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio do António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, A.M.V. é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra Uma Noite com o Fogo é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, de crónicas nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicas e preterindo os conflitos socioeconómicos para construir um romance, que não sendo de intervenção é, acima de tudo, uma obra de arte.
Não existe neste livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do cento fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos, que se trata da serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens e, por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegético, desenvolvendo-se por vezes ao nível duma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador, para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural desta obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria Natureza, o Ambiente e a Floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal deste livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.

As personagens intradiegéticas

Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por “cenas de fulgor”, isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e sucessão, põe, por vezes em dúvida ou em confusão, as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do homem, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
Para terminar devo acrescentar que esta obra não se integra no Realismo Urbano dos seus romances anteriores, mas antes numa espécie de Naturalismo Burguês Telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem António Manuel Venda, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem, regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve, aliás, como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal desta obra é o ambiente natural da serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que o António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora, como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, alfarrobeiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fastasmagórico de um “Rasputine a preto e branco”, que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do “mágico-velhinho” de livros anteriores.

[texto de apresentação do livro Uma Noite com o Fogo, de António Manuel Venda, edição da Quetzal Editora, apresentado em 24-04-2009, na livraria Pátio das Letras, em Faro]