domingo, 12 de julho de 2009

O Cine Teatro Farense


Abriram-se as portas da cidade à 7.ª arte, num sábado festivo a 23 de Setembro de 1916, num moderno edifício situada na antiga horta da judiaria. A partir de então, os farenses passaram a dispor de uma ampla e confortável sala de espectáculos, logo considerada como a melhor da cidade e certamente uma das mais sofisticadas do Algarve.
As luzes da ribalta acenderam-se para uma peça de teatro já que as “fitas”, embora na moda, não existiam em quantidade suficiente para cobrirem as necessidades do país. O ainda embrionário cinema europeu, estava a atravessar uma fase muito complicada, resultante das amarguras da I Grande Guerra, produzindo com dificuldade curtas comédias para distrair a burguesia e animar os trabalhadores, descontentes com a vigente situação económica, marcada pela carestia de vida, pelo açambarcamento dos géneros de primeira necessidade e por uma galopante inflação.
Não admira pois que a peça, com que se abriram as portas do novo Cine-Teatro Farense, fosse uma comédia de levar às lágrimas, da autoria de Chagas Roquete intitulada «O Senhor Roubado». A Companhia convidada para o efeito pertencia ao antigo Ginásio de Lisboa, cuja direcção de actores estava a cargo dos ilustres artistas Maria Matos e Mendonça de Carvalho. Naturalmente para descerrar o palco houve que se pronunciar os discursos de circunstância oficial, cabendo essa função ao Dr. Pacheco Soares, hábil político e notável causídico, figura de proa na sociedade farense. A orquestra era composta pelos amadores da sociedade de artistas farenses, cuja regência coube ao Dr. Pedro Guerreiro, também ele um conhecido jurista farense, que se dedicava com alma e coração à divina arte da música. É curioso que o Dr. Pedro Guerreiro além de improvisado maestro era também um inspirado compositor musical, fornecendo muitas das suas criativas partituras às bandas e filarmónicas que pontificavam um pouco por toda a região algarvia, em alvoroçado despique.
Inaugurada a sala com tão hilariante peça, procedeu-se no dia seguinte ao descerramento da tela cinematográfica, ou melhor animatográfica, com uma matinée de breves fitas de cinema mudo. O efeito de gargalhada era garantido, pois que o público não resistia às tropelias, correrias, atropelos, balbúrdias e confusões provocadas por uns actores muito rápidos e ágeis a fugir da polícia, a despenharem-se em perigosas quedas amparadas por imprevistos mas proverbiais amortecimentos, por bombeiros que em vez de apagar ainda ateavam mais fogos, por automóveis que se cruzavam na frente de comboios em arrepiantes tangentes, pelos atribulados embates ou acelaradas perseguições de “donas elviras” cujos condutores escapavam milagrosamente de aparatosos acidentes. O público designava essas curtas metragens pela popular designação de «Pamplinas», protagonizadas por Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Lloyd, uma autêntica trindade maravilhosa do cinema cómico, na altura ainda mudo, pois que os farenses só assistiriam à primeira fita sonora em 1930.
Com o decorrer dos anos o velho Cine-Teatro Farense foi-se degradando e desactualizando, tornando-se até numa sala desajustada às necessidades do cinema moderno, razão pela qual as sucessivas visitas da Inspecção Geral de Espectáculos vinham sucessivamente apelando aos proprietários que fizessem melhoramentos sob pena de cessação do alvará de exploração e do consequente encerramento da sala.
Para obstar ao problema decidiu-se a gerência pela remodelação da velha casa de espectáculos encerrando as portas a 4-5-1952, tendo como derradeira projecção o filme intitulado «Paraíso Perdido».
Nessa altura, já a empresa tinha o projecto de arquitectura aprovado nas instâncias convenientes para a construção do novo edifício. A demolição das antigas instalações iniciou-se logo no dia 5 de Maio, mantendo-se a implantação da nova sala no mesmo lugar da anterior. O número de lugares manteve idêntico ao anterior, ou seja com uma lotação a rondar os 1400 espectadores, mas desta vez instalados em confortáveis fauteils, metade dos quais na plateia, tendo como inovação um semicírculo de frisas destinado às famílias mais distintas e à entidades oficiais. Construiu-se um balcão novo e cómodo, que substituiu a popular geral, cujos frequentadores poderiam também admirar modernas vitrines alugadas pelas principais casas comerciais da cidade. O palco foi bastante ampliado para receber companhias de teatro e de ópera e a cabine de projecção foi alargada e equipada com a mais moderna maquinaria da especialidade.
Os objectivos a preencher pelas novas instalações do Cine-Teatro Farense consistiam numa visibilidade perfeita para todos, boa acústica, comodidade geral, decoração elegante, boas condições de higiene com amplas instalações sanitárias, vestiários, iluminação, aquecimento, cabines telefónicas, bares, equipamento de bombeiros e de primeiros socorros, etc. Em suma, de um velho e desactualizado cinema de província passou-se a uma nova e moderna casa de espectáculos, ao nível do que melhor se conhecia na capital.
A empresa que explorava o cine-teatro era a mesma que havia investido pouco antes largo cabedais na construção do Cinema Esplanada, dedicado à animação cultural durante o período de verão, sendo por essa razão que o negócio se manteria em acção até à época de inverno, para então serem inauguradas as novas instalações na concorrida rua de Santo António.


J. C. Vilhena Mesquita (publicado no «Jornal Escrito»)

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