sábado, 22 de agosto de 2009

Inauguração do Comboio em Faro


Foi a 21 de Fevereiro de 1889 que chegou a Faro o primeiro comboio. Era apenas uma viagem experimental, pelo que se compunha de pesados vagões de mercadorias, para testar a segurança da linha, que se encontrava em obras havia mais de vinte anos. Isso deveu-se ao facto de nesse tempo, e particularmente nessas duas décadas, ocorrerem momentos difíceis e até de algum dramatismo para a sobrevivência económica das regiões do Alentejo e Algarve, assoladas por secas, carestia de vida, desemprego e fome quase generalizada. A construção da linha de caminho de ferro foi uma forma de ocupação de mão-de-obra, mesmo que os carris tivessem de ser de madeira pitada de bronze para simular a linha original, que os ingleses vinham fiscalizar de forma descuidada. A frase “para inglês ver” tem aqui a sua origem.
Como então tudo se fazia de forma muito lenta, agravada pelas várias polémicas sobre o seu traçado (lembre-se o caso de Serpa e de Loulé), só mesmo nos últimos três anos é que a linha foi efectivamente montada desde Lisboa até Faro. Mas isso são contas doutro rosário, que não interessa aqui contar.
Depois daquela viagem experimental, importa frisar que foi a 1-7-1889 que chegou o primeiro comboio de passageiros a Faro. Nessa viagem inaugural chegava a Faro pela primeira vez o Dr. Ludovico de Menezes, conceituado veterinário e notável escritor a quem o Algarve muito deve. Extractamos de uma carta sua uma breve passagem em que descreve essa primeira viagem:
“Confirmo que foi precisamente num primeiro comboio, que eu, em 1 de Julho de 1889, desembarquei em Faro, estando a estação e cercanias repletas de povo que fora assistir ao feliz espectáculo da chegada.
Ao desembarque, um moço que tomou conta da minha mala, levou-me ao Hotel Nicola, através de ruas embandeiradas e janelas floridas de ranchos e damas em “toilettes” alegres e claras, abrigando-se do ardor daquele quente sol de Julho sob o pálio das papoilas floridas das suas umbelas. Ali me destinaram um exíguo quarto de segundo andar, escassamente mobilado e ali adormeci até vir o criado avisar-me que eram horas de jantar.
Nesse dia ao entardecer e depois do jantar, fui tomar lugar entre os cavaqueadores que discutiam alegremente o festivo acontecimento à porta da Havaneza, onde no interior, a dentro do balcão, pontificava António Tavares, seu proprietário, auxiliado por um rapaz de Albufeira, de nome Eduardo, se bem me lembro...”

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