quinta-feira, 4 de outubro de 2012

João Fernandes, pradigma do anónimo pescador olhanense


   O povo de Olhão orgulha-se, ainda hoje, da grande epopeia que um grupo de pescadores locais empreendeu num frágil caíque, atravessando o temeroso Atlântico em direcção às terras de Vera Cruz, para dar de viva voz ao rei exilado, D. João VI, a boa nova da revolta dos olhanenses contra o jugo napoleónico. Foi um gesto heróico que pressagiou a libertação da pátria face à opressão militar dos franceses. Esse é um facto histórico que todos os anos ali se comemora no dia 16 de Junho, considerado muito justamente como feriado municipal.
Mas o que ninguém comemora é o dia do pescador ou do marítimo olhanense, que bem poderia ser assinalado no dia 19 de Agosto, data de nascimento do célebre Patrão Joaquim Lopes, verdadeiro paradigma da bravura e heroísmo das gentes de Olhão.
Em contraponto lembrei-me de trazer para à ribalta deste espaço a memória de um velho lobo-do-mar, cuja vida representa em si mesma a humildade e o sacrifício, mas também a tenacidade e a honradez do povo olhanense. Chamava-se João Fernandes, nasceu em Olhão e nunca conheceu outra vida que não fosse a do mar. Faleceu, anonimamente, sem pompa nem circunstância, em fins de Outubro de 1951, tinha então 85 anos de idade. Era, à data da sua morte o decano dos pescadores portugueses ligados à faina do bacalhau.
Começou em criança a enfrentar os perigos do mar nos velhos caíques de Olhão que sulcavam os mares de Larache, e foi ainda muito jovem que aceitou o desafio de partir num bacalhoeiro para os gelados e traiçoeiros bancos pesqueiros da Gronelândia. A forma como se comportou durante anos seguidos, defrontando indizíveis dificuldades e privações, granjearam-lhe a fama de lobo-do-mar, resistindo sempre com invulgar valentia aos perigos que teve de enfrentar.
Teve também a glória de ter sido um dos primeiros olhanenses a partir para a Terra Nova, revelando-se com o decorrer do tempo como um exímio pescador, aguentando estoicamente as agruras da solidão, do frio e dos enregelantes nevoeiros que cobriam os mares da Gronelândia, pejados de bacalhau mas também de vagas alterosas, que, por mais de uma vez, o lançaram nas gélidas águas de onde dificilmente se sobrevive. A divina mão da providência, sob a invocação do Santo Cristo, sempre o salvou das águas traiçoeiras e dos gélidos frios que fustigavam as terras e os mares do bacalhau.

Dois dóris da pesca do bacalhau no Atlântico Norte, pertencentes ao lugre
de quatro mastros, que se vê ao longe, um dos conhecidos “cisnes brancos”
construídos em aço na década quarenta, nos estaleiros de S. Jacinto, Aveiro
Pode, sem exagero, afirmar-se que homens como o João Fernandes eram considerados como dos mais duros e corajosos que o mundo algum dia conheceu. E esses homens eram denominados na gíria do mar como os "pescadores-de-dóri", uma espécie de espectros humanos da mais rija têmpera, moldados no aço dos grandes bancos da Terranova e do Canal da Gronelândia. Não obstante pescarem no Verão, o ambiente e a temperatura destas águas era sempre frígido, e os lusos pescadores fainavam solitários dentro de pequenos botes, a que chamavam dóris, trazidos para os enregelantes mares, do ocidente europeu e América do Norte, nos conveses de enormes veleiros ou lugres de quatro mastros, que denominavam por navios-mãe, mas aos quais também chamavam "cisnes-brancos", por serem dessa cor as embarcações que o governo português mandou construir, nos finais da década de trinta, nos estaleiros de Aveiro (substituídos pela construção naval em aço, em São Jacinto), de Viana ou do Barreiro. Esses lugres, primeiramente construídos em madeira e depois em aço, eram pintados de branco para poderem ser divisados à distância debaixo dos brumosos céus da Terra Nova. A nossa frota bacalhoeira era a mais numerosa e bem equipada do mundo, tendo a particularidade de ser acompanhada por um navio hospital, que inclusivamente socorria os pescadores de outras nações que nessas águas fainavam em compita com os nossos interesses. Aos porões dos veleiros regressavam todas as noites os nossos bravos pescadores, para extirpar, salgar e empilhar os milhares de peixes içados para bordo do navio-mãe, provenientes dos 30 a 50 dóris, lançados diariamente nas águas gélidas. Relembro que cada dóri tinha a bordo um único pescador que usando longas linhas de 500 anzóis, se fosse experiente e esforçado, podia encher o bote duas ou três vezes por dia. À noite regressavam, à vela ou a remos, ao navio-mãe, embora o dia de trabalho não estivesse ainda terminado, pois tinham que limpar e salgar o peixe no porão. Este foi o método tradicional da pesca do bacalhau, que perdurou largas décadas no séc. XX, acabando por ser superado pelo actual sistema de arrasto.
A tudo isto escapou o velho lobo-do-mar, que depois de enviuvar e de ver arruinada a saúde, pediu que o recolhessem no Asilo das Irmãzinhas dos Pobres, em Campolide, que o trataram com muito carinho, desvelo e admiração, até ao último sopro de vida.

A título de curiosidade, acrescentamos que teve duas filhas, Deolinda Fernandes Pereira e Albertina Fernandes Carolas, ambas já falecidas. Mas isso hoje pouco importa, porque ninguém se lembra, nem ninguém quer saber, quem foi o pobre do João Fernandes, esse anónimo lobo-do-mar, sacrificado marítimo e honrado filho do glorioso povo de Olhão.

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