sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

UMA NOITE COM O FOGO em MONCHIQUE


José Carlos Vilhena Mesquita

Confesso que é sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores escritores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo, faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
Este livro, Uma Noite com o Fogo, que tivemos a honra de apresentar oficialmente em Faro, na livraria «O Pátio das Letras», está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que, no caso presente, constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do eu, aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao eu, denuncia claramente a existência duma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o eu. E na construção desse eu, surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.

Uma obra independente

Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário das obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se nesta Noite com o Fogo da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Acima de tudo este livro é uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio do António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, A.M.V. é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra Uma Noite com o Fogo é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, de crónicas nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicas e preterindo os conflitos socioeconómicos para construir um romance, que não sendo de intervenção é, acima de tudo, uma obra de arte.
Não existe neste livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do cento fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos, que se trata da serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens e, por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegético, desenvolvendo-se por vezes ao nível duma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador, para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural desta obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria Natureza, o Ambiente e a Floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal deste livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.

As personagens intradiegéticas

Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por “cenas de fulgor”, isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e sucessão, põe, por vezes em dúvida ou em confusão, as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do homem, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
Para terminar devo acrescentar que esta obra não se integra no Realismo Urbano dos seus romances anteriores, mas antes numa espécie de Naturalismo Burguês Telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem António Manuel Venda, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem, regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve, aliás, como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal desta obra é o ambiente natural da serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que o António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora, como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, alfarrobeiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fastasmagórico de um “Rasputine a preto e branco”, que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do “mágico-velhinho” de livros anteriores.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

A VIAGEM da PARKER 51

José Carlos Vilhena Mesquita

A literatura infantil tem experimentado ultimamente no nosso país grande desenvolvimento, a ponto de haver conquistado um espaço de verdadeiro sucesso no sector comercial livreiro, o que a todos tem agradavelmente surpreendido. Não há hoje nenhum adolescente, minimamente instruído, que não tenha lido as pedagógicas páginas literárias de um qualquer livro assinado por Matilde Rosa Araújo, Alice Vieira, Isabel Alçada ou Ana Maria Magalhães. Aliás estas duas últimas escritoras são em larga medida responsáveis pela evidente propulsão da literatura infanto-juvenil, a ponto de haverem criado colecções temáticas que os miúdos compram e lêem numa espécie de cadeia sequencial, o que tem contribuído para a boa formação moral e cultural das camadas jovens.
Diga-se de passagem que este género literário sofreu um grande impulso no início da década de oitenta, quando a reforma curricular do ensino básico e os novos projectos de implementação didáctica, fundamentados em inovadoras estratégicas pedagógicas, passaram a fazer parte da formação científica dos professores e da formação cívica dos alunos. A sensibilização dos professores para a nova literatura infantil, que se produzia no país e no estrangeiro, foi decisiva para o desabrochar de um género literário que até aí parecia adormecido.
Com efeito, quando no século XIX se começou a falar de pedagogia e João de Deus surgiu com a sua Cartilha, assistiu-se, precisamente com o poeta do Campo de Flores, ao aparecimento dos primeiros indícios de uma nova corrente literária. Antero de Quental apareceu logo a seguir com um insípido Tesouro Poético da Infância, em cujo género surgiria mais tarde Afonso Lopes Vieira com o Bartolomeu Marinheiro e sobretudo com os Animais Nossos Amigos, que fizeram as delícias de sucessivas gerações, nas quais me incluo. Era a República, então emergente, a dar os primeiros passos na formação pedagógica estudantil, através de uma certa exaltação dos valores patrióticos e das virtudes lusitanas, ressuscitando heróis e mitos do passado histórico.
Daí por diante assistiu-se a uma certa aceleração da literatura infantil pela mão de notáveis escritoras, envolvidas nas "guerras" sufragista e emancipalista das mulheres. Cito de memória a Ana de Castro Osório, com o livro de contos Para as Crianças, Virgínia de Castro e Almeida de que me lembro da História da Dona Redonda e da sua Gente, Maria Sofia de Santo Tirso (apadrinhada por Maria Amália Vaz de Carvalho) com a Boneca Cor de Rosa e outros livros de que não me recordo, mas que me lembro de ser visita esporádica na casa de meus pais. Seria, porém, injusto não deixar de referenciar outros nomes sonantes da literatura infantil como, por exemplo, Maria Archer (que viveu em Faro), António Boto que escreveu em prosa O Livro das Crianças, Emília de Sousa Costa com o Tagaté às do Futebol, Fernanda de Castro com as Aventuras da Mariazinha, Raul Brandão com o Portugal Pequenino, António Sérgio com Na Terra e no Mar, Aquilino Ribeiro de quem recebi em mão a oferta do Romance da Raposa e da Arca de Noé, Adolfo Simões Müller com as Aventuras do Trinca Fortes que era uma biografia de Camões, o Padre Moreira das Neves e António Manuel Couto Viana, de que fui amigo de ambos, escrevendo peças de teatro infantil que representávamos nas escolas, e tantos outros que a memória agora atraiçoa. Não posso passar adiante sem lembrar o Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos de Alves Redol e as Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, que foram escritores que marcaram a minha juventude e a minha formação intelectual.
No caso da literatura algarvia não há muitos e bons exemplos para aqui trazer à colação. Apenas destaco os livros Leonel Neves dedicados à literatura infanto-juvenil, como por exemplo Histórias do Zé Palão, O Polícia Bailarino, João Careca Mestre Detective e outros, infelizmente pouco conhecidos e mal divulgados, a necessitar de uma compilação em livro para oferecer às escolas, pelo menos as do Algarve. Mais recentemente duas escritoras algarvias, Maria Teresa Ramos com O Senhor Ambiente, e Maria Armanda Tavares Belo, com A Cebolinha Perdida e Outras Histórias, deram à literatura infantil um pequeno mas significativo contributo que merece ser aqui louvado.
A juntar aos autores citados cumpre agora destacar a obra de Idália Farinho Custódio, uma escritora natural de Loulé, que considero de incontestável talento e uma verdadeira mais-valia no actual panorama da literatura algarvia. A sua paixão pela literatura infantil advém certamente da sua formação profissional, pois como professora sentiu-se atraída para novas vias de motivação pedagógica de entre as quais a escrita é, certamente, a mais efectiva e proficiente. Começou há duas décadas atrás a publicar poesia para crianças, dando à estampa o livro Carrocel Superstar (1980) a que mais tarde daria seguimento com O Menino que era Poeta (1989). Dedicou-se também ao conto infantil publicando mais quatro livros: O Rouxinol e a Rosa (1981), A Viagem da Parker 51 (1985), O Segredo da Rainha (1991) e As Mãos do Meu Irmão (1997).
A utilidade e valor da obra de Idália Farinho no âmbito da formação ético-cultural das crianças não merece contestação. Muito pelo contrário, é de insofismável interesse pedagógico e a merecer todo o apoio das entidades oficiais, mormente da Direcção Regional de Educação do Algarve. Digo isto porque outros autores existem dedicados à literatura infantil no Algarve e por esse país fora, mas raras são as editoras sediadas na capital que apostam nos autores de província. E quem não publica com a chancela da Editorial Caminho, da Editorial Notícias, das Edições Asa ou da Porto Editora, não só não ganha os direitos autorais como também nunca sairá do anonimato, porque em volta dessas editoras existe um apoio mediático que facilita a divulgação das obras e a credibilização literária dos respectivos autores.
Não devendo vassalagem a ninguém a Dr.ª Idália Farinho Custódio pode contar com a colaboração da AJEA para levar por diante a reedição desta Viagem da Parker 51 que merece, em primeiro lugar, uma nota bastante positiva pela sua apresentação gráfica, mercê dos belíssimos desenhos de José Maria Oliveira que valorizam artisticamente toda a obra. Em segundo lugar, merece também nota positiva a forma incisiva como a autora desenvolveu a sua narrativa, que sendo para crianças impõe-se que seja breve, alegre e empolgante, cativando a atenção dos miúdos e enchendo as páginas com pouco texto para que estes as conquistem até ao último folgo, como quem vence a batalha da leitura.
Num livro de sessenta páginas é preciso pensar também na paciência e no esforço intelectual das crianças, que devem ver no livro um objecto de distracção e na leitura uma acção de prazer. É claro que para nós, mais velhos, o livro é uma fonte de conhecimentos, mas para as crianças é quase sempre uma prova de paciência e de esforço intelectual, porque exige que a leitura seja acompanhada do recurso à abstratização de imagens e à associação de ideias, tornando-se para isso imprescindível a concatenação dos conhecimentos adquiridos anteriormente. Por essa razão é que os livros infantis devem ter um público-alvo muito bem definido, segundo o escalão etário e a sua competente formação escolar. Atenta certamente a todos esses factores a autora construiu uma narrativa muito viva, carregada de peripécias, surpresas e imprevistos, numa sucessão de quadros ao jeito duma peça teatral, usando um vocabulário acessível mas rigoroso, quer na construção semântica quer na elaboração sintáctica das frases e sobretudo dos diálogos, que não sendo curtos são, porém, completos.
A ideia base que nos parece subjacente a este livro incide nos valores da amizade, da confiança, do respeito mútuo e, fundamentalmente, do amor. O personagem principal é a Caneta - como objecto indutor da escrita - que realiza uma viagem propiciadora de novos conhecimentos, de novos relacionamentos e de trocas culturais, que resultam no sucesso e na felicidade da protagonista. A frase lapidar ou mensagem global do livro – que a autora pretende fazer passar como “moral da história” – é tão sugestiva quanto apelativa: «Não deixes morrer a palavra AMOR! Ela tem que ser a Estrela Universal.» E, de facto, não haverá maior bandeira no ideário dum hipotético humanismo universal do que o Amor.
Na verdade, estamos perante uma fábula dos tempos modernos, pois que a Caneta assume um papel humanizado, nos seus defeitos e virtudes, que se deixa seduzir pelo mistério duma viagem a Nova Iorque, ao longo da qual se confronta com as fraquezas que nos são peculiares, como a inveja, o desprezo, a indiferença, o racismo, o egoísmo e a ambição. É curioso que nesta história a Caneta também tinha a sua presenção e vaidade, ao ser apontada como uma Parker - que é sinónimo de sucesso e prestígio - cuja risca dourada lhe dava um toque de classe e distinção. Em todo o caso assume a sua humildade de emigrante num país de oportunidades, onde por fim alcança o almejado sucesso numa companhia de circo, mercê da sua inteligência e dos seus dotes de escrita.
O surrealismo desta fábula, que é um misto de materialismo e espiritualidade, envolve o livro numa aura de simpatia e felicidade, que induz o leitor a penetrar num mundo de fantasia que lhe é querido e, nas idades mais jovens, muito peculiar. Vê-se que a autora estudou claramente os pontos de maior sensibilidade na narrativa para prender a atenção dos seus jovens leitores. E conseguiu-o até com os mais velhos, que nesta «Viagem» gostariam certamente de estar no papel da Parker 51. Para eles “os menos jovens” existe um certo saudosismo nesta caneta, pois recordo-me perfeitamente de possuir nos idos de sessenta uma Parker azul com um anel dourado, que emprestava aos seus possuidores um toque de requinte e um brilho de distinção, um pouco à imagem da protagonista desta bela história infantil.
Sugestivo é também o facto desta Caneta, no seu lusitanismo anglófilo, se ter cruzado com os nossos emigrantes na América, onde foi bem recebida e tratada com admiração, por força da sua mestria na arte da escrita. Tornou-se pois numa estrela de circo - aqui simbolicamente representado como fonte primordial do nosso imaginário infantil - devido à sua capacidade para escrever as palavras que o público lhe ditava. Curiosamente recusou-se a escrever a palavra «Guerra», por ser a mais maldita, a mais trágica e detestável do vocabulário humano, mas recebeu do público um estrondoso aplauso quando escreveu com luminosas cores a palavra «Amor».
O livro encerra com uma mensagem de fraternidade e amor, num amplexo que deve unir toda a humanidade, quaisquer que sejam as suas coordenadas geográficas ou as suas diferenças étnicas, culturais e religiosas. É por isso um livro recomendável para a educação e formação moral dos nossos filhos. Essa é também uma das razões pela qual a AJEA se orgulha de ter dado à estampa mais uma obra de sucesso, cuja autora, sendo louletana e algarvia de gema, merece todo o nosso apoio.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O aborto, uma questão civilizacional


José Carlos Vilhena Mesquita

No mês passado, era meu propósito escrever sobre aquilo a que chamo a questão civilizacional do aborto. Se não me expressei em devido tempo, isto é, antes do referendo, foi porque entendi que como professor não o devia fazer. Seria eticamente reprovável. Contive-me, por isso, no silêncio da responsabilidade, evitando abordar o assunto, até mesmo na privacidade do lar. Um tema de tão melindrosa e susceptível análise ético-religiosa exigia uma profunda reflexão, íntima, ajuizada e prudente.
Na verdade, nunca expressei publicamente a minha opinião sobre o aborto porque um professor, seja qual for o grau de ensino em que exerce o seu múnus profissional, é sempre uma referência, um modelo, um exemplo a imitar. Não só para os seus alunos, como até para a sociedade em geral, já que desde os alicerces da civilização clássica se confiou ao “pedagogo” a prestigiosa função social de educar os jovens no salutar espírito da defesa da verdade, da honra e da pátria. Foram esses, aliás, os supremos valores que embasaram as grandes civilizações e insuflaram a ética social no mundo ocidental. Com a Revolução Francesa e a consequente formação do estado moderno, aos valores sociais e direitos cívicos acrescentaram-se os deveres e as responsabilidades colectivas da administração pública, as quais são basilarmente quatro: educação, trabalho, saúde e habitação. Estes foram, e continuam a ser, os vectores sociopolíticos de cuja convergência resulta a plena consecução da Liberdade e da Cidadania.
Analisando esses vectores tradicionais, verificamos o quanto estão hoje pervertidos em nome da lógica economicista que tutela os destinos do Estado.
A educação atravessa uma crise de eficácia e de abaixamento de qualidade, porque o governo elegeu os professores como inimigos públicos, vilipendiando-os aos olhos da sociedade e diminuindo-lhes a autoridade profissional. Quando um país desprestigia socialmente os seus professores, é certo e sabido que o seu futuro está irreversivelmente hipotecado à ignorância, à insolência, à desfaçatez e ao desprezo pelos valores da ética social. A educação neste país corre a passos largos na direcção da sarjeta.
O trabalho, como um direito social – sobretudo como pedra angular da dignidade familiar, fonte de honra e orgulho para o trabalhador – está cada vez mais longe da esfera de protecção e fomento do Estado. Aliás tem-se assistido à forma vergonhosa como o governo tem combatido os moldes do antigo contrato social, tentando imitar os paradigmas nórdicos, absolutamente antinómicos com a nossa mentalidade latina. Para não arcar com as custas de protecção ao trabalhador, o governo tem procurado legislar a favor da precariedade do emprego, entregando nas mãos dum patronato sujeito à lógica do lucro, o destino de milhares de famílias.
A saúde, até aqui moldada num paradigma de protecção nacional aos cidadãos mais desfavorecidos, tem sido sistematicamente trucidada pela lógica economicista da actual administração pública. Faltam médicos, sobretudo na periferia, encerram-se maternidades, desumanizam-se os hospitais-centrais que passam a ser geridos como empresas, transformam-se os antigos hospitais das vilas e cidades de província em inconsequentes centros de saúde, onde a aspirina é remédio santo para todos os males. O pobre vai para o centro de saúde, o remediado para o hospital e o rico para a clínica privada. A saúde, tal como o país, não funciona nem beneficia os mais carenciados, porque o sector está submetido a uma teia de influências suscitadas pelas Ordens (dos médicos e dos farmacêuticos), cujos interesses corporativos se sobrepõem aos do próprio Estado.
A habitação, como obrigação social do Estado, tem vindo a perder o fulgor a que nos habituara em décadas anteriores. Apenas nas autarquias se assiste à construção de bairros sociais, ao apoio logístico das cooperativas habitacionais e, por vezes, à subsidiarização de projectos com relevância local. Ao contrário disso, o Estado acabou com os apoios ao “crédito jovem” e ao “juro bonificado” para os casais de baixos rendimentos que desejassem adquirir casa própria. Por outro lado, reduziu para metade os apoios ao “arrendamento jovem”, de que muito beneficiavam alguns estudantes pobres deslocados para as diversas universidades do país.
Neste caso, importa referir que a habitação é acima de tudo um negócio, que faz parte de um próspero sector económico, o da construção civil, que movimenta anualmente biliões de euros. Tem sido, aliás, um dos principais factores de enriquecimento da banca. Creio, muito particularmente, que o sector da construção, com toda a sua envolvência empresarial, adquiriu já o estatuto de Capitalismo Imobiliário, com uma abrangência universal muito semelhante (senão mesmo superior), ao dos tradicionais capitalismos: agrário, comercial, industrial e bancário ou financeiro. Mas isso são contas de um outro rosário, que não interessa trazer aqui à colação.
Acontece, como já todos nos apercebemos, que o mundo actual está em total remodelação. O paradigma político alterou-se profundamente. O Estado-social, paternalista e protector, está moribundo. Acabou a Guerra-Fria. Morreu o socialismo. Instalou-se a globalização.
Hoje tudo se perverteu. Os sindicatos perderam força junto dos quadros médios, e os próprios operários deixaram de confiar nos dirigentes laborais. Por outro lado, os partidos desacreditaram-se nos seus jogos de poder, nos interesses privados dos seus líderes, e nas teias da corrupção suscitados pelos grandes grupos económicos, cada vez mais internacionalistas e apátridas. Os chamados “grupos de pressão” deixaram de ser político-sociais, passando a ser exclusivamente económicos. E o Estado português tornou-se numa presa fácil da Banca e dos grandes grupos económicos, cujos lucros anuais são verdadeiramente escandalosos e imorais. Os políticos pactuam com os indecorosos lucros da Banca, porque sabem que quando saírem do governo terão à sua espera pingues empregos, para exercerem a perniciosa traficância de influências junto dos diversos poderes político-administrativos.
Por tudo isto, avizinha-se um novo contrato social, cada menos humanista e cada vez mais imoral. E nesse âmbito se inscreve a questão nacional do aborto, que, na lógica dos comportamentos globais, não podia ter outro resultado senão aquele que legitimamente os portugueses escolheram.
Face à crescente desresponsabilização do Estado na protecção da família, a opção favorável à Interrupção Voluntária da Gravidez, vulgo aborto, era a mais viável e a mais necessária aos interesses estabelecidos.
Um Estado, ou melhor, um governo, que não incentiva o crescimento das famílias porque não ampara as mães na flexibilidade das suas responsabilidades laborais, nem as apoias financeiramente no sustento e educação dos seus filhos, não pode deixar de incitar as mulheres ao aborto.
Bem sei que o aborto é imoral. Mas também sei que o estigma que impende sobre a consciência moral das mulheres deve ser tormentoso. Todavia, a prática do aborto é hoje, e cada vez mais, uma realidade incontornável. A alternativa é a clandestinidade, nas mãos abjectas duma abortadeira, raramente integrada num quadro clínico seguro, sendo em qualquer das circunstâncias altamente vexatório para a mulher.
As causas que levam a mulher a optar pelo aborto já foram amplamente debatidas.
A verdade é que ser mãe deve ser uma opção consciente, reflectida e assumida. A liberdade de decisão é, neste caso, absolutamente fulcral. Uma mulher que se sinta infeliz com a responsabilidade de ser mãe, é preferível que o não seja.
Todos sabemos que o espectro social do aborto incide especialmente nas mulheres jovens e nas mães pobres. As primeiras abortam porque não estão preparadas para serem mães, e as segundas, porque são geralmente casadas e já com mais do que dois filhos, não dispõem de meios financeiros, para sustentarem o crescimento da família.
Perante as circunstâncias actuais de carácter económico, social e comportamental, torna-se lógico aceitar o resultado deste referendo. Foi por isso que votei sim. A questão do aborto é hoje um fenómeno civilizacional, faz parte dos supremos desígnios da liberdade e da responsabilização social da mulher. Como cidadão, como marido e como pai, defenderei sempre os direitos da mulher, especialmente na sua livre opção de ser mãe.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Valha-nos Santa Rita, a justiceira do povo


José Carlos Vilhena Mesquita

Após dois anos de governação (infra)socrática, qualquer cidadão tem hoje plena consciência que vivemos tempos de perturbante intranquilidade social, provocada por uma política de cariz absolutamente invertida, que contraria os mais elementares ideais socialistas em que supostamente se deveria inspirar o colégio governativo. Por razões que se prendem ao foro da psicanálise-política, quando o PS assume o governo adopta uma política de direita, hostilizando o operariado industrial e os trabalhadores não-especializados, nivelando-os numa massa informe de proletarizados, de forma a esbater o seu poder de luta e a sua capacidade reivindicativa.
Apoderou-se do país e, sobretudo de quem trabalha, uma angustiante sensação de insegurança e de medo, um lancinante silêncio, um abominável terror branco, que a todos deprime, atormenta e humilha. Vivemos hoje sob o espectro da delação (tal como no tempo da PIDE), aterrorizados com a vil possibilidade de um colega de trabalho nos denunciar ao nosso superior hierárquico só para agradar às chefias, para lhes conquistar a confiança de um cão de fila, e com isso abichar sinecuras e favorecimentos. Vimos disso exemplo no episódico saneamento do Dr. Charrua, em que igualmente se vislumbram os reacendimentos de antagonismos partidários, supostamente apaziguados desde o consulado cavaquista.
A chibata do governo surgiu de forma alarmista, sob a invocação da crise económica. Mas, na verdade, o chicote do poder estrondeou sobre os débeis costados do povo de uma forma indirecta e induzida, mercê do velado apoio que o governo tem prestado aos grandes empresários oriundos dos sectores industrial, imobiliário e bancário, os quais ameaçam impunemente os trabalhadores com o desumano espectro do desemprego. É o terrorismo empresarial com que o governo parece mostrar-se complacente.
Toda esta política tem desembocado numa crescente proletarização dos sectores económicos. Deste modo, o governo vai conseguindo reduzir os serviços terciários, desvalorizando a qualificação, o prestígio e a influência socioeconómica da classe média, sociologicamente considerada como a pedra angular das democracias modernas e saudáveis.
Está claramente visto que a política deste governo se traduz numa absoluta rasoira social. Do seu nominal socialismo, só talvez ainda subsista o cheiro do fumo em que se vem esturricando a dignidade daqueles que, ao cabo de uma vida de trabalho, vêem agora cada vez mais longe a sua reforma, e pior do que isso, vêem cada vez mais perto a ameaça de um despedimento precoce. O que se passou com os professores, com os funcionários públicos ou o que se está a passar com os trabalhadores dos departamentos regionais do Ministério da Agricultura, é simplesmente abominável. A angústia e o terror paira agora sobre a cabeça de todos aqueles que trabalham, e muito particularmente sobre aquela geração que ajudou a levantar o país há trinta anos atrás, sustentando a esperança de ver um futuro mais próspero e mais justo para os seus filhos.
A mais recente bandeira do governo é o flexi-emprego, o flexi-trabalho, e outras flexibilizações que significam a genuflexão dos trabalhadores face aos poderes instalados. Essa flexi-política, imitada dos países nórdicos, não passa de uma contrafacção ciganóide, a exigir rápida intervenção da ASAE. Aliás a flexibilização do emprego e do trabalho, não passa duma política anti-social, de favorecimento e de indulgência dos poderes discricionários, não só do patronato como também do governo. E o que mais me assusta é precisamente a possibilidade do governo poder despedir os funcionários por razões de “flexibilização” dos serviços públicos, o que se traduzirá, a curto prazo, numa onda de saneamento partidário, que poderá mergulhar o país numa sanha de racismo político.
Quem votou no Socialismo Democrático, perfilha logicamente ideais induzidos e conquistados pela Revolução Francesa, cujos valores ético-sociais têm sido estranhamente vilipendiados, abjurados e até postergados por aqueles que precisamente dizem ser socialistas. É nesse aspecto que não se admite nem se justifica a actual política governativa.
Assistimos hoje, placidamente, à inversão total dos ideais socialistas que inspiraram a Revolução de Abril. Nunca, como agora, se viram índices tão elevados de prescrição médica de ansiolíticos, de anti-depressivos e de outros medicamentos estabilizadores do humor, para atenuarem a plangente situação em que se encontram milhares de famílias.
A justificação do falhanço geral deste país reside nos políticos e nesta despudorada partidocracia, que subalterniza os interesses do país, aos seus interesses de grupo e à ânsia de conquista do poder. A incompetência e a desfaçatez tomou conta do país – e tanto valem os do PS como os do PSD. Os homens íntegros, escrupulosos, competentes e honrados, fugiram, ou foram afastados, das fileiras partidárias. Em seu lugar instalaram-se os oportunistas e aventureiros, que os partidos aceitaram sem o mais ligeiro critério de selecção.
Com pungente ironia costumo dizer que em Portugal mal se sabe ler e quase nunca se sabe pensar. O governo, na senda dos seus predecessores, tem-se dedicado à destruição do antigo e exigente aparelho educativo, caricaturando grotescamente o nosso povo no seio da Europa, como sendo inferior e iletrado, quando na verdade têm sido os políticos portugueses a jungir-nos a canga da ignorância com reformas educativas inconsequentes, precárias ineficazes.
Resta-nos a esperança de ver assomar-se no horizonte a mítica sombra do redentor, fruto do proverbial sebastianismo, salvífico e regenerador da alma lusitana. Eis agora, erguida do húmus nacional, a esfíngica figura da justiceira do povo, a nossa Maria José Salgado, miscigenação populista da Padeira de Aljubarrota e do espírito de alterne em que revemos o nosso glorioso passado. Somos um povo encarnado na inveja, uma raça de águias que correram o mundo conquistando glórias, mas que perderam as asas em flamejantes pelejas, contra míticos e poderosos adversários, plasmados na invicta força da sua suprema coragem.
Mas temos agora, a nossa Maria José, qual St.ª Rita de Cássia, padroeira dos impossíveis, cuja força justiceira nos devolverá o orgulho nas glórias do passado, condenando ao degredo os nossos cerúleos adversários.
Abaixo o filosofismo socrático e o verde loureiro da esperança política...
Viva a Santa Ritinha de Cássia, que os nossos seis milhões de votos ainda farão erguer-se à Presidência da República... sem precisar de dar cavaco a ninguém.

P.S. – este texto foi publicado em 2007, e refere-se a duas figuras, que se tornaram excessivamente mediáticas, deixando ao leitor o cuidado de as interpretar. Em todo o caso este texto serve também para identificar o país que temos o e o povo que somos.

domingo, 1 de Novembro de 2009

DAVIM, Joaquina Aboim da Ascensão



Benemérita protectora dos desvalidos, nasceu em Faro 1863 e faleceu na mesma cidade em 5-6-1942, com 79 anos de idade.
Esta espécie de mãe dos pobres foi a continuadora do projecto nacional engendrado pelo seu irmão, o benemérito coronel Rodrigo Aboim Ascensão, instituidor em Lisboa da «Associação Protectora da Primeira Infância» e em Faro do «Refúgio Aboim Ascensão», hoje designado por «Emergência Infantil», através dos quais pretendeu dar guarida e protecção às crianças abandonadas ou vítimas de maus tratos, derivando dessa circunstância a designação de “Refúgio”. Era ainda irmã de D.ª Maria da Piedade Ascensão Sande Lemos, que foi casada com o coronel Sande Lemos, um dos grandes obreiros da Associação dos Combatentes da Grande Guerra, que dirigiu ao longo de muito anos, dotando-a aliás de alguns dos seus próprios meios de fortuna.
A bondosíssima senhora, D.ª Joaquina Ascensão, casou-se em Faro com o Dr. Joaquim Rodrigues Davim, que para esta cidade viera colocado como notário, revelando-se um cidadão exemplar e de grande sensibilidade artística, ao ponto de ser considerado nos finais do século XIX, como um dos melhores poetas do Algarve. Não tiveram filhos naturais, mas como a determinada altura soube que seu marido possuía duas filhas, resultantes duma relação extraconjugal com uma modesta costureirinha, mandou que as meninas fossem recolhidas na sua casa, onde as educou e perfilhou, fazendo delas senhoras da primeira sociedade farense. Refiro-me à D.ª Silvina Davim, que conheci bem, casada com o Dr. Mário Lyster Franco, advogado, jornalista e escritor; e à D.ª Olímpia Davim, casada com o Dr. Manuel Rodrigues Júnior, antigo professor liceal, figura muito respeitada na sociedade farense.
A D.ª Joaquina era tia do Dr. José de Ascensão Contreiras, do Eng.º Manuel Aboim de Sande Lemos e do Dr. José Aboim de Sande Lemos, todos figuras de primeira plana na sociedade farense do século XX.
Levada pelos seus impulsos de benemerência e filantropia, qualidades que sempre pautaram a sua existência, legou vários dos seus importantes bens imobiliários ao «Refúgio Aboim Ascensão», à Ordem Terceira do Carmo, ao Seminário de São José e às «Filhas de Maria», todas instituições que na cidade de Faro se encarregavam de proteger os desvalidos e de combater a pobreza.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

A inocência dos justos no inferno de Camarate


José Carlos Vilhena Mesquita

Na história política do recém encerrado séculos vinte ocorreram, pelo menos, três crimes políticos que cobrem de opróbrio a nossa memória colectiva. Refiro-me aos assassinatos do rei D. Carlos, do general Humberto Delgado e do Primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. Passarei em revista os dois primeiros, para estanciar depois no último, o mais próximo no tempo, e talvez o mais infamante de todos, visto que ainda permanece irresoluto.
Em primeiro lugar o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro, Luís Filipe, perpetrado a 1-2-1908, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Foi uma execução pública da mais hedionda barbaridade, que deixou o país envergonhado perante o mundo civilizado. Ainda hoje custa a acreditar como foi possível que se tivesse chegado a tamanho extremo e a tão vil procedimento. Não me recordo de ter ouvido falar num pedido de desculpas à Família Real por parte da República ou do Estado que a representa, nem muito menos da Maçonaria, como autora material do crime e como entidade política responsável por muitas outras atrocidades. Atente-se no bom exemplo da Igreja Católica, ao reconhecer que cometeu graves erros no passado, nomeadamente através da Inquisição, pelos quais teve a honradez e a dignidade de pedir perdão à Humanidade.
O segundo crime político, que aguilhoou as nossas consciências, ocorreu em 1965, quando a PIDE assassinou o general Humberto Delgado, na raia espanhola, próximo de Badajoz. No conceito internacional o país perdeu toda a credibilidade política, sobretudo no Reino Unido e nos EUA, dissipando-se a condescendência de que Salazar usufruíra durante décadas com o seu “fascismo de cátedra” – como lhe chamou Unamuno. Quando o regime caiu, em 25 Abril de 1974, o país exigiu que os culpados fossem julgados. E o certo é que os autores materiais desse hediondo crime foram acusados e condenados em tribunal.
Por fim, o crime que mais enxovalhou o país foi a morte, em 4-12-1980, do então Primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, juntamente com mais seis acompanhantes, entre eles o Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa. Toda a gente percebeu nessa precisa noite que se tratou de um crime político. Porém, os seus camaradas da política entenderam que tudo não passou de um infeliz acidente. Perante a leitura dos relatórios exarados por peritos internacionais, pelas autoridades policiais e comissões de inquérito, que compulsaram provas e testemunhos indiciários de atentado bombista, parece incrível que durante todos estes anos os políticos se tivessem abroquelado por detrás da tese dum infeliz acidente. E a justiça passou ao lado da verdade.
O processo judicial prescreveu há cerca de três meses atrás. Veja-se o despudor com que se anunciou, urbi et orbi, que um caso de lesa história perdera o seu prazo de validade na justiça portuguesa. Isto é não só ridículo, como é, sobretudo, uma vergonha nacional. Significa tão-somente que a morte ou, mais presumivelmente, o assassinato de várias figuras públicas, sendo uma delas o chefe do poder executivo, tivesse passado impune aos olhos da justiça.
A verdade é unicamente esta: decorreram 26 anos sobre a trágica morte desses justos e inocentes portugueses, sem que nunca se lhes tivesse feito justiça, levando os culpados à barra dos tribunais. E não digam que não sabiam quem eram os autores do crime. Todas as provas indiciavam Sinan Lee Rodrigues e José Santos Esteves como autores materiais do atentado. Ainda há dias este último, que se tornou na figura pública do “Sô Zé”, declarou à revista «Focus» que fora o autor da bomba que matou Sá Carneiro. Mas como não convinha “desenterrar” o assunto, trataram logo de agitar o fantasma do “Apito Dourado” para desviarem a atenção da opinião pública. E o certo é que o caso foi imediatamente “abafado” para dar lugar aos mexericos duma Carolina, artista de alterne, que o país transformou na Maria Madalena do nosso pacóvio provincianismo. Depois do Zé Cabra, do Zé Maria, do Castelo Branco e das putativas figuras do alisbonado jet-set do parolismo nacional, eis que surge agora a celestial Carolina, cujo drama conjugal se tornou num best-seller e fez esgotar as edições da nossa imprensa, que, neste como noutros casos, se tem revelado cada vez mais acéfala, mercantil e sensacionalista.
Francisco Sá Carneiro foi, acima de tudo, um homem honrado, de superior inteligência e fortes convicções políticas, que as circunstâncias políticas e a injustiça dos homens transformariam num mártir da liberdade. Teve uma vida digna, que poderia ter sido longa e auspiciosa, mas que cessou abruptamente há vinte e seis anos atrás, numa fria noite de Dezembro. Entre a penumbra da traição política e a obscuridade duma vil emboscada, paira toda uma nação, ainda estupefacta e aturdida pela infamante interrogação da verdade. A infernal tese da inocência dos lobos na sanguífera noite de Camarate cobriu de opróbrio toda a geração política glorificada em Abril.
A sua mensagem ideológica e os valores éticos pelos quais tanto propugnou, foram em larga medida delidos pelo tempo, ou obliterados da memória nacional por aqueles que lhe sucederam. Foi inquestionavelmente um promissor político traiçoeiramente assassinado no vergonhoso inferno de Camarate.
Um povo pacífico, cordato e ordeiro, como o nosso, não pode rever-se no sangue derramado pelas vítimas inocentes do ominoso crime de Camarate.
O Governo e a Assembleia da República, já que não estão na disposição de levantarem a prescrição do caso Camarate, deveriam pedir publicamente desculpa aos descendentes das vítimas, por terem deixado impunes os algozes daqueles que morreram como justos ao serviço do governo e do Estado português. Enquanto isto não se fizer, cobrir-nos-emos todos de vergonha perante a memória das vítimas.
Enquanto não se dirimir a verdade e não se apontarem os algozes, continuaremos a pronunciar hosanas à glorífica liberdade conquistada ao sol de Abril, mas eclipsada e conspurcada pela occisiva noite de Camarate. A democracia portuguesa jamais conseguirá lavar o rosto angélico da sagrada liberdade com as lágrimas dos seus gloriosos mártires, porque na fímbria do seu divino manto se esconde o sangue dos inocentes, imolados no ominoso covil de Camarate. Somos um país de fatalismos e de brumas sebastiânicas, aguardando expectantemente – não o messiânico salvador, mas tão só a natural e humana justiça, que tarda... mas não deveria faltar.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Aquilo que verdadeiramente entra no livro de António Manuel Venda


José Carlos Vilhena Mesquita

A primeira questão que se sobrepôs à leitura deste livro de António Manuel Venda, foi precisamente a mais elementar, isto é, a de saber se efectivamente estava, ou não, perante um romance na verdadeira acepção da palavra, e do teórico conceito que lhe é inerente. O trago de dúvida com que fiquei no final da sua leitura obriga-me a definir os termos e os conceitos em que me exprimo. Um pouco à laia de Voltaire, urge pois aclarar os conceitos com que nos expressamos para que a sintonia das palavras não se disperse na confusão ou no calor da discussão.
Comecemos por definir a palavra Romance, para perceber sem mais delongas aquilo que traduz o seu conceito. A palavra, na sua nudez original, deriva do étimo latino romanice, do qual descende romanicus, que significa, em latim popular, uma narrativa, verdadeira ou imaginária, escrita em prosa ou verso, repartida por cenas, quadros ou capítulos, pejados de pormenores e longas descrições, cuja acção se desenrola através de várias personagens, de entre as quais só algumas assumem o protagonismo de se tornarem no centro da diegese. Isto no que concerne à palavra.
Porém, no que incumbe ao conceito de romance, importa dizer que só muito tardiamente é que o mesmo foi equacionado, numa perspectiva mais simples, mais sintetizada, mas não menos abrangente. Com efeito, só no declinar do séculos XVIII é que se definiu o romance como “uma narração em prosa de uma acção fictícia que tem por quadro a pintura de costumes”. Dito desta forma não há nada mais simples, nem menos directo. E sendo assim, a obra O que entra nos livros, de António Manuel Venda, integra-se inquestionavelmente, tanto no conceito como na palavra, na correcta designação de romance. Não unicamente de “costumes” - porque isso está fora de moda e qualquer dia nem existe – mas de um maravilhoso fantástico, a que mais adiante nos referiremos com relativa acuidade.
Ao longo da História da Literatura Portuguesa publicaram-se diversos tipos de romances: históricos (Romantismo); sócio-moralistas (Naturalismo), ético-científicos (Realismo); político-revolucionários (Neorealismo); anti-dogmáticos e universalistas (Modernismo) psico-surrealistas (Pós-Modernismo), e outros que nem sei até como qualificá-los. Em todos estes modelos de criação ficionista o que está em causa são os costumes das sociedades humanas no tempo e no espaço, numa espécie de simbiose, ou de intercepção espacial, entre a História e a Sociologia.
Ora acontece que este romance, O que Entra nos Livros, afasta-se de todos estes modelos classificativos, ou de todas os movimentos literários que acabei de enunciar sumariamente, muito embora o seu discurso narrativo se integre naquilo a que chamo o “modernismo milenarista”. Isto é, na tentativa de criação artística através do pictorismo ficcionista da palavra, ascendendo a patamares supra-fantasistas, que rapidamente se transformam numa diegese fantástica, surreal, imateral e anti-ascética. Nada de novo, diríamos, se com isso não se cortassem definitiva e diametralmente os cânones da ficção dominante. O paradigma romancista, na sua feição soberana e imperante, preocupa-se com a construção de grandes quadros sociais, ao longo dos quais o autor vai fazendo uma descrição evolutiva dos interesses percepcionais e dos seus consequentes jogos de poder, assim como das virtudes e defeitos dos protagonistas, dos assimilados ou dos desintegrados numa sociedade enquistada nos defeituosos costumes do individualismo social. O romancista torna-se assim num crítico e num psicanalista da sociedade, no que isso tem de mais contraditório e de paradoxal, usando geralmente o amor e as relações laborais nas suas conexões e correspondências com as intrigas que vulcanizam os diversos poderes em que se reparte a vida real. O romancista é, em suma, um ficcionista do real.
No caso presente, a natural bonomia de António Manuel Venda, a sua candura bucólica, a sua inocência e pureza de carácter, insuflada dum certo torpor algarviista, influenciou decisivamente a sua inspiração e consequente criação artístico-literária, visivelmente enraizada nos telúricos vergéis da sua saudável Monchique, onde os romanos procuravam a cura para os seus achaques através do princípio natural da água, ou seja, o termalismo, modernamente designado por SPA, sigla romana que se traduz por “salute per aqua”.
Neste livro, como aliás, em quase todos os outros da sua lavra, a terra-natal, o Algarve e a peneplanície alentejana, que lhe serve hoje de residência e de ninho conjugal, estão presentes com uma insistente acuidade, e até por vezes com inusitado protagonismo . O mesmo acontece com as reminiscência da sua infância e juventude, aqui e ali afloradas, num contrastante quadro dos sentidos, entre a fresca e verdejante montanha e as estivais praias do barlavento algarvio. Essa enriquecedora vivência, a que certamente se conjugaria uma marcante e muito atenta convivência social, serviu-lhe, e provavelmente ainda lhe servirá, para povoar de vida os seus romances, os seus contos e novelas, cujo inquestionável talento, e insofismável sucesso literário, enobrece hoje não só a literatura portuguesa como, muito particularmente, o seu e nosso Algarve.
Relativamente ao estilo, à concepção narrativa deste livro, direi que impera na estruturalização dos seus capítulos uma insistente, e consistente, preocupação realista da envolvente descritiva, através do recurso ao enquadramento paisagístico em que decorre a diegese. A descrição das aves e animais que abundam no montado onde reside, dos pormenores sobre a flora alentejana e sobre o parco coberto florestal, a contrastar com a sua Monchique originária, é uma constante neste romance. A descrição das estradas por onde circula, com as alarmantes brigadas de transito (que por insistência descritiva acabam por o interceptar quase no final do livro), assim como as pessoas que na berma da estrada, nos largos e jardins das aldeias, aguardam serenamente o decurso dos seus dias, numa entediante monotonia. Apesar de aqui e ali depararmos com uma certa acintosidade crítica, contra a ditadura salazarista, mas também contra os políticos actuais, a que não escapam os autarcas, o certo é que a acção do romance decorre de forma lenta e parcimoniosa, à imagem do clima mental, mas também socioeconómico, que se vive nas terras sulinas. Apesar dessa aparente lentidão, desse torpor ao Sul, a minha atenção de leitor (ainda que pouco disponível para a ficção literária), não se conseguiu despegar das páginas que se iam sucedendo, envoltas no crescente mistério da fantasia que paira por detrás das palavras.
O autor, na sua prodigiosa imaginação, assume-se, quase despudoradamente, como personagem principal, como confidente do leitor, e por vezes como um cavaqueador tertuliano, do qual não nos podemos divorciar. Num estilo pós-moderno, o António Manuel Venda encanta-nos com a fantasia dum “mágico velhinho”, figura levemente fantástica, duma bonomia desarmante e quase infantil, muito invulgar por causa dessa inofensividade, contrária à agressividade das personagens surreais que caracterizam este género de literatura.
Acima de tudo, o livro está primorosamente bem escrito, escorreito na linguagem e absolutamente correcto na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista. Numa visão sintética e desconstrucionista da concepção narrativa, eu diria que este livro é uma espécie de alegoria aos Livros e ao Mundo da Escrita, cuja acção se desenvolve num quase monólogo entre o autor e o leitor. Numa estratégia modelarmente concebida, a atenção do leitor é constante e abruptamente interrompida pela desconcertante forma como se encerram os capítulos, deixando-lhe um trago de insaciável curiosidade. Desse estratagema narrativo resulta numa inebriante concentração do leitor na sucessão diegética das páginas, que o leva sempre por diante na progressiva sucessão dos capítulos.
Falando, ainda mais concretamente, deste livro, parece-me que, em primeiro lugar, dele ressalta a surpresa do título: «O que entra nos livros». Assim, de repente, apetece-me dizer que o que está dentro deste livro mais não é do que a própria alma do autor, consubstanciada no seu talento e genialidade, eufemisticamente identificada na figura do “mágico velhinho”. Acima de tudo, o que está dentro deste livro é a rara e mui singular capacidade imaginativo-fantasista do António Venda.
Curiosamente, ao contrário do que seria normal e expectável, este livro não se distancia dos anteriores; bem pelo contrário, engastasse no romance que o antecede, intitulado O Medo Longe de Ti. Não é a sua continuação, como se de uma saga se tratasse, mas antes de um romance de anamnese, em que uma das figuras secundárias e quase inócuas do livro anterior, passou, ou saltou qual malabarista, para o livro seguinte, como se tivesse vida própria, ou, talvez mais concretamente, como se já existisse antes de ser inventado. É a figura do “mágico velhinho”, uma criatura inventada pelo autor, inocentemente inspirado na «Branca de Neve e os Sete Anões», obviamente uma reminiscência da infância, modelado pela sua imaginação no aspecto físico do Dunga, mas com o carácter e os trejeitos do Zangado.
Tudo aparentemente infantil e inocente, mas que no decurso da narrativa se transforma numa misteriosa errância psicanalítica, pejada duma envolvência fantasista e quase fastasmática, geradora dum clima enigmático, nebuloso e enleante. O misterioso e insondável “mágico velhinho”, vagueava pelos livros, saindo de um e entrando noutro, numa irrequieta odisseia entre autores de diversos quadrantes culturais, aparentemente desconexa e sem qualquer critério, mas que, ao fim e ao cabo, revelava ou estava intimamente relacionada com as preferências literárias do próprio António Manuel Venda. Em certo sentido, o “mágico velhinho” constitui a personificação do espírito errante e irreverente do próprio autor.
Mas o mais desconcertante neste romance é o facto de ser apenas constituído por dois personagens, mais essa omnisciente figura do “mágico velhinho”. Em boa verdade, na intercepção dos diferentes estratos narrativos, estão apenas duas personagens, o Autor, especificamente identificado, e o Livreiro, um tal Sapinho Júnior, proprietário duma livraria em Évora, que numa simples carta indagava o “caríssimo romancista” sobre os verdadeiros traços fisionómicos do “mágico velhinho”. Esta missiva funciona como rastilho para despoletar todo o romance em torno de uma absoluta ficção: o “mágico velhinho”, esse pressuposto duende ou gnomo, híbrida figura inspirada no Dunga, um anão do humor infantil, que talvez por humildade do autor nunca poderia transformar-se num Merlim da Corte do Rei Artur.
O certo é que em torno do “mágico velhinho” nasce, cresce e se desenvolve, um belo romance, uma apaixonante história de fantasia e de mistério, que absorve e confunde a atenção do leitor, transformando-se numa espécie de romance policial, sem violência, sem sangue e sem criminosos.
Perante tudo isto, coloca-se-me, porém, e a priori, esta pertinente questão: terão os livros vida própria, e, por isso, a faculdade de gerarem descendência? Terão os personagens de ficção a possibilidade de se tornarem reais e de se independentizarem do berço/livro em que nasceram? Lendo atentamente O que Entra nos Livros, somos levados a crer que sim, os livros reproduzem-se e os personagens podem fugir deles para virem connosco passear por entre as nossas vidas.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Notas avulsas de História e Arqueologia

Quando jovem escrevi centenas de pequenas fichas (15x10cm), sobre diversos assuntos relacionados com o Algarve. A maior parte delas não constituem hoje grande novidade, devido à evolução dos estudos que entretanto se publicaram. Em todo o caso sempre aqui deixo algumas referências curiosas, para o caso de puderem ser proveitosas para quem nelas encontre qualquer interesse.

Origem do topónimo Loulé – O Prof. José Leite de Vasconcellos, na sua magistral obra Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 370, considera que o topónimo Loulé tem origem numa palavra árabe. Para o efeito refere alguns trabalhos publicados pelo Prof. David Lopes onde o assunto da toponímia portuguesa é amplamente versado. Aponta como os mais credíveis um artigo publicado na «Revista Lusitana», vol. XXIV e um outro, que nunca li, intitulado Os Árabes em Herculano, onde a pág. 80 refere a origem árabe do topónimo de Loulé. Confesso que não posso afiançar nada disto porque nunca vi esse artigo.

Forais de Loulé – o foral antigo foi exarado em Lisboa e datado de Agosto de 1266, encontrando-se à consulta pública no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso III, Livro I, fl. 83 verso, coluna 2.
O foral dos Mouros Forros foi dado em Lisboa a 12 de Julho de 1269, e encontra-se no mesmo arquivo, Livro I de Doações de D. Afonso III, fl. 97vº, col. 1; e Livro IV de Inquirições de D. Afonso III, fl. 8vº.
O foral manuelino foi dado em Lisboa a 20 de Agosto de 1504, e encontra-se no ANTT, Livro de Foraes Novos do Alemtejo, fl. 23vº, col. 1.

Furacão – A 14 de Janeiro de 1850, pelas 7, 30 horas da manhã fez-se sentir um fortíssimo furação que assolou a vila de Loulé. Dada a consistência do tecido urbano não houve vítimas nem gravosos prejuízos nas habitações, o mesmo já não se podendo afirmar em relação aos arredores da vila, onde o furacão quase varreu os pomares e arvoredos, levantando telhados, derrubando cimalhas, portas, janelas e pequenas construções para animais. Os prejuízos foram bastante significativos, deixando o ano de 1850 como uma referência na memória popular louletana.

Fundações arqueológicas no Mercado – foi construído no recinto das antigas muralhas, defronte da porta então designada de “Nossa Senhora do Carmo”, a qual havia sido demolida pouco antes da construção do mercado. Os trabalhos de desaterro puseram a descoberto alguns poços empedrados com uns 0,70 m. de largura de boca (semelhantes a outros que haviam também aparecido no Largo da Sé em Faro, aquando das escavações que ali se fizeram no início dos anos quarenta), silos de cereais e vestígios de alicerces. Quer nos poços, quer avulsos pelo local, recolheram-se vários objectos árabes e romanos que foram para o Museu de Belém, hoje designado por Museu Nacional de Arqueologia.

Inscrição romana – No sítio de Apra, arredores de Loulé, foi recolhida uma lápide com uma inscrição romana, que o Prof. Leite de Vasconcellos identificou como invocatória dos Deuses Lares.
Veja-se a este propósito as referências que aquele sábio faz a esta inscrição na sua obra As Religiões da Lusitânia, vol. III, p. 291.

Sepultura visigótica – O sábio José Leite de Vasconcellos, das várias vezes que visitou o Algarve, foi ver uma sepultura que se havia descoberto em Loulé, a qual logo definiu como remontando ao séc. V e à época visigótica. Nela encontrou um anel de ouro de boa feitura, e uma moeda também de ouro, designada por “tridente”, mandada cunhar por Eudóxia (421-450), que foi, como se sabe, esposa de Teodósio II.
Veja-se a este propósito a respectiva referência ao achado arqueológico publicado na revista Archeologo Portuguez, vol XII, p. 367; e uma outra referência publicada na mesma revista, vol. XIII, p. 355.
Acresce dizer que esta célebre revista, dirigido por Leite de Vasconcelos, foi reeditada em fac-símile pela Imprensa Nacional, mas também pode ser consultada on-line ou em CD-ROM.

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Documentos relativos a Loulé, séculos XII a XVI

Doação da Igreja de São Clemente ao Mestre de Santiago - "Carta de Escambo", datada de Lisboa em 1 de Dezembro de 1297, firmada por el-rei D. Dinis, através da qual se dava por escambo, isto é em troca, a D. João Osório, mestre da Ordem de Santiago, as vilas de Almodôvar e de Ourique, assim como os castelos de Aljezur e de Marrachique, com suas igrejas, e ainda a Igreja de S. Clemente de Loulé, tudo em permuta pela vila de Almada.
Este documento faz-nos perceber a importância económica daquela vila fronteira a Lisboa, e da pouca monta, em que para o erário régio era tido em linha de conta, todo o património aqui referido. Este documento encontrei-o em bom estado, escrito de forma escorreita e legível, sobre pergaminho bem conservado. Merece ser estudado e publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta V, Maço 4, documento n.º 1.

O Almoxarife de Loulé vendeu terras à Condessa D. Leonor - Num documento de pergaminho e em bom estado de conservação, datado de Loulé, a 4 de Agosto de 1286, podem constatar-se os termos da compra feita pela Condessa D. Leonor a Paio Miguel, almoxarife de Loulé, das heranças de Montouto, em Vale Longo, no termo de Évora, que ele tinha herdado de Pedro Anes.
Este documento é de leitura algo imbricada, mas está legível, em pergaminho bem conservado. Merece ser estudado e publicado, mas só por quem souber deslindar as transmissões nele referenciadas. As personagens citadas merecem também ser devidamente analisadas, nas suas relações com a Corte.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta III, Maço 7, documento n.º 4.

Sentença de pagamento de Dízima pelos Mouro Forros – O rei D. João I, firmou em Lisboa, a 8 de Dezembro de 1393, uma sentença pela qual foram julgados os Mouros Forros da Vila de Loulé, sendo condenados a pagarem a el-rei pelas terras que tinham de sesmaria, e que tinham sido primeiramente dos cristãos, uma dizima a El-Rei e outra à Igreja; e os cristãos, que tivessem terras que antes foram de Mouros, pagassem a mesma coisa.
Trata-se de um pergaminho em bom estado e que se lê sem dificuldade. Considero-o muito importante para aferir a igualdade de justiça em que ambas as comunidades eram tidas e apercebidas, isto é, em que coabitavam, na vila de Loulé. Século e meio depois da conquista da cidade ainda nela coexistia uma significativa comunidade de mouros, sendo designados por “Forros” porque lhes fora outorgada a liberdade por direito de Foral.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livro 1 dos Direitos Reais, fl. 242v-243v.

SENTENÇA contra o concelho da vila de Loulé, pela qual se viu obrigado a pagar a el-rei pelo foro de uma horta, duzentas libras de moeda antiga.
Documento em bom estado, feito pergaminho, datado de 23 de Julho de 1465. Tem oito folhas e é de leitura muito curiosa para quem se debruçar sobre o assunto com a paciência que ele merece.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XIII, Maço 3, documento n.º 6.

Privilégios da Vila de Loulé – Num documento datado de Estremoz, a 22 de Setembro de1497, declaram-se e confirmam-se os privilégios da vila de Loulé.
Interessante documento feito em pergaminho, com oito folhas, em bom estado e letra firme. Possui cópia anexa com a referência detalhada dos mesmos privilégios desde a sua origem.
Merece ser publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta III, Maço 12, documento n.º 2.

Sentença, datada de 13 de Março de 1587, pela qual foi determinado que a doação do ofício de Escrivão dos Órfãos de Loulé pertencia em exclusivo a El-Rei.
Documento em papel, com catorze folhas, em bom estado de conservação. É de relativo interesse.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XIII, Maço 6, documento n.º 12.

Propriedades que tinham sido dos Mouros –Trata-se de uns «Autos» feitos pelo Almoxarife de Loulé, a instâncias de El-Rei, para que sejam exaradas em novo Livro as propriedades dizimadoras que tinham sido dos Mouros, e que foram doadas a Diogo Fernandes Cavaleiro.
Documento importantíssimo para a definição das terras que pertenceram aos mouros da vila, os quais ali já não co-existiam há muitos anos. Trata-se de um códice, em papel, datado de 8 de Fevereiro de 1512. Encontra-se escrito em 27 folhas de papel, em bom estado de conservação. Merece ser publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XX, Maço 10, documento n.º 34.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

O poeta Salazar Mosocoso, na miséria

Publicou-se na imprensa algarvia, nos anos trinta do século passado, uma “Carta de Lisboa” da autoria do Dr. Ludovico de Meneses, na qual se instava aos homens da cultura e aos estudantes do Liceu de Faro para que abrissem uma subscrição público com o objectivo de acudir ao estado de miséria em que se encontrava o grande poeta lacobrigense Salazar Moscoso, então a residir na cidade de Santarém, onde aliás, pouco depois, viria a falecer.
A razão desse apelo à solidariedade intelectual prendia-se com o facto daquele ilustre poeta ter enviado ao Dr. Ludovico de Meneses (de quem fora colega e dilecto amigo no tempo em que ambos leccionaram no Liceu de Faro) uma carta contendo um pedido de auxílio entregue por intermédio de um amigo, cujo teor passo a transcrever:

Santarém, 3-4-1932
Meu caro Menezes

Apresento-te o meu excelente amigo Alfredo de Moraes, antigo jornalista e escritor distinto, de fino espírito e vasta ilustração, com cuja amizade me honro e congratulo.
Ele melhor do que eu, te exporá a minha angustiosa situação e a absoluta carência em que me encontro da assistência dos meus amigos e especialmente dos meus comprovincianos.
Sem mais abraça-te o teu velho amigo
Bartolomeu Salazar Moscozo


Nessa sua «Carta de Lisboa» o Dr. Ludovico de Menezes, para comprovar a beleza e inspiração lírica do seu dilecto amigo, publicou o seguinte sonetilho de Salazar Moscoso:

NUPCIAS

Ao teu solar que branqueja,
Sobre um alto monte erguido
Agora, com teu marido,
Vens recolhendo da igreja.

Tem o prado que floreja
Um frémito indefinido,
Todo o povo reunido
Do véu a fímbria te beija.

E os choupos, os amieiros,
Acompanham, mesureiros
As saudações da ribeira

Só as abelhas douradas
Choram por ver desfolhadas
As flores da laranjeira!

Este belo sonetilho, no qual o genial poeta exalta a vaporosa figura da mulher/noiva, constitui uma espécie de apoteose parnasiana da beleza feminina, cuja sequência rítmica do verbo lírico revela um poeta de rara inspiração e de profundo sentimentalismo romântico.

J.C.V.M.

O Paredão de Lagos


No dia 30 de Março de 1897 começaram os trabalhos de demolição das muralhas e baluartes da cidade de Lagos, cuja derruição se tornou insuperável para iniciar os trabalhos de construção do paredão que se projectara erguer sobre a baía do porto.
No livro de notas do tabelião Ramos, inscrito no notariado de Lagos, encontra-se lavrada uma escritura com o Ministério da Guerra e o Comando Geral de Engenheiros, representados pelo coronel comandante do Regimento de Infantaria 15 e pelo capitão de engenharia Castro, pela qual cedem as referidas muralhas e baluartes ao Ministério das Obras Públicas, representado pelo eng.º chefe da secção de hidráulica do distrito de Faro, Alexandre Maria Ortigão de Carvalho.
A autarquia de Lagos manifestou o seu público regozijo pela assinatura da referida escritura, pois desde há muitos anos que vinha solicitando junto das instâncias superiores a realização aquelas obras, consideradas de primacial importância para a contenção das cheias de inverno e para o alargamento da cidade. Prepararam-se desde logo grandes e pomposos festejos para assinalar a solenidade do lançamento da primeira pedra do referido “paredão”, anunciando-se a sua efectivação para Outubro desse ano, quando a cidade fosse visitado pelo rei D. Carlos I.

J.C.V.M.

Apeadeiro do Bom João, em Faro


A construção do apeadeiro ferroviário do Bom João, sito ao km 342,188, iniciou-se nos primeiros dias de Julho de 1950, sob a orientação técnica de um tal eng.º Fonseca, que era o chefe da 16.ª secção de Via e Obras da C.P.
O local escolhido situava-se mesmo em frente do bairro do mesmo nome, nas imediações da fábrica pertencente ao empresário E. Torres Pinto da Silva, que desse apeadeiro poderia tirar o melhor proveito para o transporte da sua produção industrial. A obra constituía em si um notável melhoramento, pois que não só viabilizaria a transformação dos vastos terrenos agrícolas que lhe estavam adjacentes em futuras urbanizações, como também facilitaria aos estudantes do Liceu de Faro um acesso rápido e cómodo por via-férrea. De tal forma assim foi que não tardou em ficar conhecido como o “apeadeiros dos estudantes”.
Actualmente, embora perdesse a serventia para a fábrica Torres Pinto, entretanto encerrada, continua a ser utilizada por outras indústrias limítrofes, pelos moradores do populoso bairro do Bom João e, muito especialmente, pelos estudantes do Liceu João de Deus.
Pouco depois deu-se também início à construção do apeadeiro da Porta do Mar, que permitia o acesso por via-férrea até ao coração da cidade antiga, junto ao quartel de bombeiros, precisamente no antigo cais da lota.
Acresce dizer, para concluir esta nótula, que o apeadeiro do Bom João foi inaugurado no dia 1 de Novembro de 1950.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Compra do Teatro Lethes, em Faro, pela Cruz Vermelha



Os herdeiros de Constantino Cúmano, grande benemérito local, venderam, em Junho de 1951, à sociedade da Cruz Vermelha Portuguesa o magnífico edifício do antigo Teatro Lethes. Segundo constou na época o imóvel foi transaccionado por 350 contos, comprometendo-se a nova entidade proprietária a não alterar a traça arquitectónica do edifício, garantindo ao mesmo tempo o restauro e recuperação do edifício.
O único problema que importava solucionar a breve trecho era o de assegurar a sede do Sport Lisboa e Faro, que ali se encontrava instalado há bastantes anos. Aquela agremiação desportiva tinha aliás grandes tradições, encontrando-se estruturalmente relacionada com a vida social da cidade, comprovada aliás pelos cerca de 800 sócios que mantinha nas suas fileiras. Na altura, muitos foram os cidadãos que clamaram contra a hipótese de desalojamento do popular clube desportivo, o que apesar de tudo veio a acontecer a contento de ambas as entidades, mercê de solução sugerida e apoiada pela edilidade local, transferindo-se a sede para as instalações no largo do Pé da Cruz.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Origens algarvias de Camões



Manuel Severim de Faria afirma que Antão Vaz de Camões, filho de João Vaz de Camões e de Inês Gomes da Silva, casou com Guiomar Vaz da Gama (descendente directo dos Gamas do Algarve, originários do Alentejo) que teve um filho chamado Simão Vaz de Camões, que casando com Ana de Macedo tiveram Luís Vaz de Camões, o poeta nacional e mentor da cultura lusíada.
Também li sobre Camões um artigo de Julião Quintinha intitulado “Camões no Algarve”, publicado no «Correio do Sul» de 27-8-1922. A fonte do artigo era o escritor anti-semita Mário Saa que lhe terá confidenciado que Camões tinha no Algarve um tio chamado Pero Vaz de Camões, na casa do qual aliás se refugiara quando em 1546 fugiu de Lisboa por causa dos amores com sua prima Isabel Tavares. O alcaide-mor de Silves e o alcaide-mor de Lagos eram seus parentes, presumindo-se que ele esteve refugiado no morgado de Boina, que era de um outro seu parente próximo, irmão do poeta Jorge da Silva ali refugiado também por essa altura, por via dos seus amores com uma infanta da Corte. O poeta partiu de Lisboa para o Algarve pouco antes de seguir para a Índia. Parece que o tio, Pero Vaz de Camões, tinha sangue judeu, sendo talvez as origens de cristão-novo a causa das perseguições movidas pela Inquisição de Goa contra o poeta dos Lusíadas.

sábado, 26 de Setembro de 2009

Museu Marítimo de Faro


Criado por decreto de 4-1-1889, referendado pelo Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Emídio Júlio de Navarro, o Museu Industrial Marítimo de Faro, como então se designava, abriu as suas portas ao público em 24 de Novembro de 1889.
Esteve primeiramente instalado numas pequenas salas anexas ao antigo edifício da Escola Industrial e Comercial, próximo da Câmara de Faro. Mas como urgia expandir as instalações da Escola foi o espólio museológico transferido para uma velha casa na rua da Carreira, onde não servia os fins para que fora criado. Assim, acabaria por ser remetido para as magníficas salas do Palácio Pantojas, na rua de St.º António, onde hoje se acha o Clube Farense. Mas como aquele Clube precisasse de restaurar e remodelar as suas instalações foram novamente em bolandas as colecções do Museu Marítimo para as exíguas dependências da Escola de Alunos Marinheiros. Neste périplo muitas coisas desapareceram e outras se degradaram de forma quase irremediável, a ponto de haverem perdido muito do seu valor e de reduzirem toda a sua importância e interesse cultural.
Foi nestas condições, de abandono e esquecimento, que o foi desencantar o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que dedicou o melhor do seu esforço à recuperação das peças mais degradadas, restaurando umas, substituindo outras e acrescentando-lhe imensos artefactos da nossa secular actividade marítima. Felizmente, nesse insano trabalho de recuperação do antigo espólio do Museu Marítimo de Faro, pode contar com a boa vontade de alguns camaradas de armas e de outros cidadãos de boa vontade, nomeadamente o pintor Carlos Augusto Lyster Franco que o ajudou a restaurar muitas peças e principalmente lhe ofereceu vários quadros sobre a fauna marítima, que hoje decoram as paredes das actuais e aprazíveis instalações do Museu.
Em sinal de reconhecimento pelo seu esforço e pela inimitável dedicação prestada ao restauro e melhoramento do antigo espólio, foi com inteira justiça atribuído o seu nome ao renovado Museu Marítimo de Faro.

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Gilberto Freyre no Algarve


O ilustre escritor, antropólogo e sociólogo brasileiro, Prof. Gilberto Freire, autor da famoso obra Casa Grande & Senzala, figura de prestígio universal que trabalhou para a UNESCO como investigador da miscigenação étnica em África e na América, visitou o nosso país em Agosto de 1951 a convite oficial do governo português.
Nesse âmbito deslocou-se ao Algarve na última semana de Agosto, aqui tendo permanecido durante quatro dias a recolher informações para uma obra que se propunha escrever sobre o nosso país e seu império. Vinha acompanhado de sua esposa e dois filhos assim como por seu pai, o ilustre Dr. Manuel Freyre, antigo Juiz Federal na Baía. Acompanhava-os desde Lisboa o Dr. Manuel Rino, funcionário superior do SNI.
Como hóspede de honra do governo português esteve instalado na Pousada de S. Brás, de onde irradiou para os diferentes locais da região. Para o elucidar e responder às questões que lhe aprouvesse colocar, foi o Dr. Mário Lyster Franco requisitado oficialmente para o acompanhar durante esses quatro dias. Desse contacto nasceu uma admiração mútua e uma sólida amizade entre ambos, comprovada na oferta de livros e no envio de amistosas missivas.
Pouco depois da sua vinda ao Algarve partiu o Prof. Gilberto Freyre para as nossas antigas colónias africanas, a fim de estudar os usos e costumes dos povos autóctones, assim como as heranças culturais carreadas pelos antigos escravos para o Brasil.
As impressões dessa visita ao Algarve foram publicadas no «Correio do Sul» n.º 1763 de 6-9-1951, numa espécie de entrevista concedida pelo célebre antropólogo àquele semanário farense.

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Professores do Liceu de Faro em 1932



Numa notícia publicada na imprensa local, ficamos a saber que no final do ano lectivo de 1932, realizou-se um almoço de confraternização dos professores do Liceu de Faro, servido na cantina daquele estabelecimento de ensino. Do elenco docente constavam as seguintes personalidades:
Dulce de Freitas; Ofelia Azinheira; Donatila Baptista; José Monteiro Simões; António de Sousa Agostinho Júnior; Armando Cassiano; Jorge Silvio Pélico d’Oliveira Neto; David Pacheco; Aleixo da Cunha; Sousa Bazílio; Cruz Malpique; António Rebelo Neves; Silva Pera; Manuel Alexandre; Francisco Fernandes Lopes; António dos Ramos Bentes; tenente-coronel José Guerreiro Fogaça; José Rebelo Neves; Vidal Belmarço; Ricardo Bensaúde; José de Sousa Gago.
Faltou por indisposição momentânea o Reitor, Dr. José Júlio Rodrigues, que só apareceu no fim do almoço, e faltou por doença o Dr. Silveira Ramos.
Para quem viveu nessa época, e felizmente ainda hoje contacta com a sociedade mais culta da cidade de Faro, ou para aqueles que conhecem minimamente a história da cultura algarvia, fácil se torna afirmar, e concluir, que no Liceu de Faro exerciam o múnus da docência uma verdadeira elite intelectual, que hoje facilmente se constituiria num escol científico do mais elevado nível universitário.
Os destaques deixámo-los para os que nos queiram interpelar sobre o assunto.

domingo, 6 de Setembro de 2009

Esplanada de São Luís Parque, em Faro

Inaugurou-se em Faro no dia 1 de Julho de 1950 a esplanada “S. Luís Parque” mandada construir pela empresa do Cine-Teatro Farense, dotando assim a cidade de um espaço destinado privilegiado para a realização de espectáculos durante a temporada de verão, que decorria entre meados de Junho e finais de Setembro.
A localização, a extensão e comodidade do recinto permitiu às autoridades competentes na matéria qualificá-la como a melhor do país, tendo em consideração que reúne os meios necessários para a realização de todo o tipo de espectáculos, desde a projecção de cinema, a representação de peças de teatro, espectáculos desportivos (boxe, por exemplo) récitas estudantis, espectáculos de variedades, festivais de folclore, bailes, festas dos santos populares, etc. Em suma, previa-se que assumisse um papel fulcral nas actividades culturais e recreativas da cidade durante a época de verão, numa altura em que a indústria do turismo começava a dar os primeiros passos.
Para a festa da inauguração, realizada a 1 e 2 de Julho de 1950, organizou-se um programa festivo no qual tomaram parte a orquestra dirigida pelo maestro Fernando de Carvalho, as artistas Júlia Barroso (algarvia muito conhecida e apreciada), José António, Maria do Carmo, Maria Pazzo, Graciette Melo e Rui de Mascarenhas, num misto de fados e canções, tão do agrado popular. Para apresentar os artistas, animar o público e quebrar a saturação musical, actuaram também dois grandes artistas da rádio e conhecidos comediantes do teatro de revista, Humberto Madeira e Miguel Simões, que depois de fazerem algumas burlescas imitações de figuras populares, procederam a um hilariante “sketch” composto em verso, entre o “sr. Lucas e o Dr. Matias”, no qual retratavam num finíssimo humor negro algumas das mais conhecidas figuras da região. Os artistas eram acompanhados com solos de viola executados por Alfredo Costa. A noite encerrou com um animado baile.
O cinema em si só foi inaugurado a 3 e 4 de Julho com a projecção do célebre filme Joana d’Arc, interpretada pela consagrada artista Ingrid Bergman, que teve casa cheia, numa agradável noite, de amena temperatura, quase tropical.
Creio que, infelizmente, os nomes dos artistas aqui citados já não fazem parte do mundo dos vivos. Também infelizmente já não existe a magnífica esplanada de Faro, onde nos finais dos anos setenta ainda cheguei a ver algumas fitas, que por serem reprises tinham a plateia quase deserta. Também ali ouvi Júlio Iglésias num espectáculo memorável e também por ali passaram vários artistas da nossa moderna canção.
Esta pequena nota serve para avivar a memória dos farenses que na antiga esplanada viveram momentos de prazer e de felicidade, lamentando que no mamaracho denominado “Alhandra”, implantado naquele espaço, não exista um pequeno estúdio de cinema com o nome de “S. Luís Parque”.