terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sermão de Stª. Clara proferido em Faro por Frei Francisco de Santo Ambrósio no ano de 1681


Trago hoje a terreiro a notícia de se haver publicado, em 1681, um notável Sermão pronunciado na sé de Faro, por um ilustre, mas quase desconhecido franciscano, que dava pelo nome religioso de Frei Francisco de Santo Ambrósio. Confesso que pouco sei acerca do seu trajecto de vida, que deve ter percorrido com extrema humildade. O que dele conheço são uns breves fogachos referenciados oficialmente no seu desempenho eclesiástico. Assim, toda a gente sabe que o nosso Frei Ambrósio professou na Ordem de S. Francisco, na Província da Piedade, na qual se integrava o sul territorial, sendo por isso de admitir que se não nasceu no Algarve era provavelmente alentejano. Todavia, nada nos pode asseverar certezas, visto serem demasiados os casos que excedem e contrariam este raciocínio. Sei também que foi «religioso observante», isto é, pertencia às chamadas OFM (Ordem dos Frades Menores), que neste caso era a dos Frades Franciscanos Observantes, com regra simplificada pelo Papa Leão XIII (das Reformas1368 e 1897, cujo hábito era castanho com capuz curto). Os religiosos observantes eram mais populares, porque embora fizessem voto de pobreza, castidade e obediência, não estavam obrigados à reclusão conventual, andando por isso na “observação do mundo”, isto é, andavam na rua, colaborando com as populações em diversas actividades assistenciais. Por isso é que os seus conventos eram normalmente dentro das cidades para melhor interagirem e cooperarem com as populações urbanas, mais atreitas aos pecados mundanos e mais carecidas de assistência moral e religiosa.
Sabemos também que foi «Qualificador do Santo Ofício», isto é que foi agente especializado na censura de obras literárias e na pesquisa de ideias, atitudes e gestos que contrariassem a pureza da religião Católica Apostólica Romana. Os Qualificadores eram odiados dentro e fora da Igreja, porque deles partia a denúncia para do Santo Ofício. Na vida civil o seu equivalente eram os «Visitadores de Naus», agentes da autoridade que fiscalizavam as mercadorias que chegavam nos barcos estrangeiros para impedirem a entrada de livros e de folhas volantes que propagassem as ideias protestantes.
Além de censor foi também Guardião, isto é, frade superior ou principal dirigente, dos Conventos de S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Évora, da Vila de Odemira e da Cidade de Faro. Foi também Examinador, isto é, fazia a selecção dos melhores noviços conventuais para prosseguirem a vida religiosa, mas também fazia de analista ou avaliador sinodal. Foi, por fim, Confessor penitenciário do Bispado do Reino do Algarve e Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcântara, o que significa que superintendia no exercício sagrado da confissão aos sacerdotes, frades e freiras. Acima de tudo o nosso Frei Ambrósio, apesar dos cargos exercidos, nunca deixou de ser um simples Assistente no Convento de S. Francisco, em Lisboa. Por fim sei que faleceu no ano de 1700.
Da sua obra aqui ficam as referências de tudo o que veio a público, o que não sendo muito pode porém considerar-se notável, pois que a imprensa nessa época era um luxo e a edição em letra de forma, de um livro ou de um simples opúsculo, como era o caso dos sermões, dava ao seu autor uma reputação de que poucos se podiam vangloriar. Da sua lavra apenas possuo um raro exemplar do:
SERMAM DA GLORIOSA MADRE S. CLARA PREGADO NO CONVENTO DAS Religiosas de sua primeira regra da Assumpçaõ da Cidade de Faro; estando o Santissimo Sacramento manifesto. OFFERECIDO A SENHORA SOROR THEREZA MARIA DE JESUS, FILHA DO EXCELENTISSIMO SENHOR DVQVE DE CADAVAL. NO REAL CONVENTO DAS RELIGIOSAS Capuchas da primeira regra da gloriosa madre S. Clara, de N. Senhora da Quietaçaõ das Flamengas de Alcantara. PELLO R. P. FR. FRANCISCO DE SANTO AMBROSIO CONFESSOR DO dito Convento, Religioso observante da Provincia dos Algarves. Lisboa, Com as licenças necessárias, Na Impressaõ de Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor da Casa Real, Anno 1681, [2], 3-21, [1] p. (Na Biblioteca tem a cota: BN TR. 562410 P.)
A edição foi patrocinada, como facilmente se depreende, pelo Duque de Cadaval (D. Nuno Álvares Pereira de Melo), certamente por instância da sua filha, que estava internada como religiosa professa no Mosteiro das Flamengas de Alcântara, onde aliás era confessor precisamente o xabregano Frei Francisco de Santo Ambrósio. Desse respeitoso relacionamento, e da admiração que sentia pelo talento do seu confessor, surgiu certamente o pedido de publicação. Acrescente-se, conforme consta no citado opúsculo, que este sermão disserta sobre o tema "Ave Maria // Simile erit regnum Caelorum decem Virginibus: quae accipientes lampades suas exierunt obviam sponso & sponsae. Math. Cap. 25" (Ave Maria // o reino dos céus é como as dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo e da noiva. Mateus, cap. 25).
Confesso que tive a paciência de ler este sermão na íntegra, mas a experiência não me deixou seduzido a prosseguir a sua obra. A teologia não é seara de fácil penetração, ao contrário do que muita gente pensa. Em todo o caso, este espécime bibliográfico é bastante raro, embora seja obrigado a reconhecer que existem alguns exemplares em Portugal e no Brasil. Possuo outros sermões proferidos no Algarve da autoria de diferentes presbíteros, acerca dos quais devo aditar que são geralmente mais pequenos e mais acessíveis, nas asserções teológicas e filosóficas, dos que os de Frei Francisco de Santo Ambrósio.
Do mesmo Frei Ambrosio conheço um outro sermão com interesse regional, e que espero venha a figurar na Algarviana, o qual, a título de curiosidade, passo a citar:
SERMAM DO PRINCIPE DA IGREJA MEU SENHOR S. PEDRO PREGADO NA SANTA SEE DA CIDADE DE FARO. PELO R. P. FR. FRANCISCO DE S. AMBROSIO. Religioso observante da Provincia dos Algarves. SENDO GUARDIAM DO NOSSO PADRE S. FRANCISCO Da mesma Cidade. OFFERECIDO AO ILLUSTRISSIMO SENHOR MARCELLO DURASSO ARCEBISPO DE CALCEDONIA, E NUNCIO Apostolico cõ poderes de legado a Latere nos Reynos de Portugal. Imprenta Antonio Craesbeeck de Mello, LISBOA, 1681. Descrição: 1 fl. prel. não num., 17(+1) p. (19cm). Na Biblioteca Nacional está inserido numa miscelânea dos Reservados, onde está catalogado com a seguinte cota: RES. 3537//17 P
Obra de Frei Francisco de Santo Ambrósio foi compilada, pouco antes do seu falecimento, no livro que passo a citar, do qual conheço um exemplar na Biblioteca Nacional.
SERMÕES VARIOS, PREGADOS PELO REVERENDO PADRE FREY FRANCISCO DE SANTO AMBROZIO, RELIGIOSO OBSERVANTE, QUALIFICADOR DO Santo Officio, Guardiaõ que ha sido dos Conventos de N. P. S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Evora, da Villa de Odemira, da Cidade de Faro; onde foy Exzaminador, [sic] Confessor penitenciario do Bispado do Reyno do Algarve, Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcantara. ASSISTENTE EM O CONVENTO DE N. PADRE S. Francisco, desta Cidade de Lisboa, Provincia de Portugal. OFFERECIDO AO EXCELLENTISSIMO SENHOR MARQUEZ DE ALEGRETE PRIMEYRA PARTEImprenta BERNARDO DA COSTA, LISBOA, 1696. Este exemplar apresenta-se com 6 fls. prels., 333 i. e. 323 p. (Existe um erro de paginação: da 169 salta para a p.180).

E é tudo o que sei. Se alguém quiser acrescentar mais elementos que possam completar este breve apontamento, fico muito grato.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CARVALHO, Helena Emília Coelho de


Foi uma das senhoras mais ricas da sociedade farense no século XIX, e um dos partidos mais invejados pelos jovens do seu tempo. Além da beleza, elegância e instrução, a menina D.ª Helena tinha como principal atributo um notável dote, avaliado em várias centenas de contos, para oferecer a quem a levasse ao altar. E isso não era tarefa fácil, nem ao alcance de qualquer um dos seus jovens pretendentes. Por isso lhe chamavam a Helena de Tróia.
Nasceu, D. Helena Emília Coelho, em 1822, em Faro, na Rua Direita (Hoje Manuel Bivar), mais propriamente no edifício nobre que, nos meados do séc. XX,  serviu de sede ao Círculo Cultural do Algarve. Essa foi, aliás, uma casa com larga história na cidade, porque nela não só se aboletaram os oficias franceses das tropas de Junot, como antes também se havia nela estabelecido a primeira sede da Companhia de Pescarias do Algarve, precisamente pela mão do seu primeiro administrador José Coelho (parente do Marquês de Pombal).
José Coelho de Carvalho, o «Patriarca do Algarve»
Era filha do comendador José Coelho de Carvalho (Pedrógão Grande, 12-1-1776; Faro, 10-1-1856) a quem José Estêvão chamou «o Patriarca do Algarve», que foi o mais notável empresário comercial da cidade, apoiante da causa liberal e de cujo bolso pagou o sustento das tropas do Duque da Terceira, durante a ocupação da cidade em Julho de 1833. Segundo confessou Sá da Bandeira, em plena Câmara dos Deputados, entre 1834 e 1838, ou seja durante o período das guerrilhas, o velho Coelho de Carvalho gastou muitas dezenas de contos com o patrocínio das tropas governamentais. Durante a guerra-civil da «Patuleia», entre 1846-47, recebeu a patente de Tenente-Coronel, armou as milícias de Faro e pagou não só o sustento como ainda o equipamento do «Batalhão de Caçadores do Algarve», que ele próprio fundou para sustentar a causa Setembrista e defender a Junta Governativa do Algarve, à qual também pertencia. À frente desse batalhão colocou o seu filho mais velho, José Coelho de Carvalho Júnior, que conduziu os soldados algarvios até ao campo de batalha, sob comando do Conde de Melo.
A mãe de D. Helena, de seu nome D.ª Ana Ignacia da Cruz Coelho (Faro, 20-9-1797; Faro, 19-12-1868) foi outra das grandes senhoras do seu tempo, amiga dos pobres e das crianças desvalidas, protectora dos artistas e dos músicos, que fez das obras misericordiosas o principal objectivo da sua existência. De tal forma que a Venerável Ordem do Carmo, à qual pertencia a burguesia de Faro, deu-lhe túmulo na capela dos ossos da Igreja do Carmo, que é uma das referências artísticas da cidade.
A origem do seu nome prende-se com a herança da avó, D.ª Helena Carvalho, natural de Stª Catarina de Vila Facaia, concelho de Pedrógão Grande, que ali casou com o seu, julgo que ainda parente, José Coelho, o tal que veio fundar a Companhia de Pescarias do Algarve em Vila Real de Santo António, fixando depois residência em Faro. 
A D.ª Helena acabaria por ser a última sobrevivente dos cinco filhos que constituíram a ilustre prole do «Patriarca do Algarve»:
José Coelho de Carvalho Júnior, nascido em 1814 e falecido em Faro a 29-3-1855; foi vice-cônsul da Áustria, em 1835, e da Bélgica em 1840.
Sebastião José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro a 2-9-1828 e faleceu a 13-6-1874; licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, e abriu banca de advogado em Faro, onde foi também Governador Civil, desde 10-1-1863 até 30-3-1865.
António José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro, a 13-3-1836 e faleceu a 8-5-1887, que se dedicou à administração dos negócios da família e à exploração das suas propriedades agrícolas, que se distribuíam por diversos concelhos do litoral algarvios, desde Tavira até Lagos.
Joaquim José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro  em 1833 e faleceu em 1903; casou-se em 1856, em Lagos, com D.ª Camila Rita Ribeiro, rica proprietária local, e por isso foi Presidente da Câmara daquela cidade, aceitando mais tarde o lugar de Governador Civil, entre Julho e Setembro de 1870. Mas antes de casar teve uma relação amorosa com D. Maria das Dores Vizetto, uma bela e jovem tavirense, de origem italiana, que morreu tragicamente com a célebre epidemia do cólera-morbus em 1855. Dessa relação nasceu um filho, o famoso Joaquim José Coelho de Carvalho Júnior (1855-1934), advogado, diplomata e escritor, que viria a ser Reitor da Universidade de Coimbra, presidente da Academia das Ciências, Cônsul de Portugal no Rio Grande do Sul, Brasil (cargo que não chegou a exercer, por pedido de escusa), seguindo depois para Xangai (China), e, após larga interrupção, retomou a carreira consular em Huelva, na vizinha Andaluzia. Morreu no seu castelo do Arade, em Ferragudo, a 18-07-1934, com 79 anos de idade.
Para terminar este breve apontamento, resta-me acrescentar que D. Helena viria a casar com o Juiz-desembargador José Januário Teixeira Leite Pereira Castro, de quem teve um filho, Viriato de Castro, terminando os seus dias na casa deste, em Santa Marta de Penaguião, no dia 12 de Agosto de 1897.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

ALCOUTIM - Alfândega de baixos rendimentos no início do séc. XIX

(para o meu amigo Zé Varzeano, desejando que o seu blogue «Alcoutim Livre» continue a ser um alforge da nossa História Local e Regional)
A vila de Alcoutim, como terra de fronteira, possuía Alfândega, porém quase nada rendia à Fazenda Real (antecessor do atual Ministério das Finanças). Consultei os mapas da Alfândega de Alcoutim, depositados na Torre do Tombo, respeitantes ao século XIX, e os mais antigos que encontrei (com averbamentos) datavam de 1822. Neles constatei que naquele ano apenas se exportou "Cera em Rama" para a vizinha Espanha, e não se registaram importações. A cera, aqui referida, é naturalmente de abelha.
Mas num ofício do Escrivão da Alfândega, António Sebastião de Freitas, datado de 5-8-1822, dirigido à Junto do Comércio, relata-se a extrema pobreza daquela instituição aduaneira:
«(...) Acresce mais dizer a V.S. que esta Alfandega nada Rende nem para a Fazenda Real nem tão pouco emolumentos para os officiaes, pois os mesmos ordenados se lhe estão devendo por não haver rendimento com que se possão pagar. (...)»
Acrescenta ainda, o mesmo escrivão, que nesse ano fez uma apreensão de quatro cargas de peles de chibato que se dirigiam a Espanha, apreensão essa feita de noite e com grande perigo de vida, sendo os contrabandistas ilibados mais tarde e autorizados a recuperarem as suas peles por Ordem do Superintendente das Alfândegas do Algarve.
Por conseguinte, o contrabando fazia-se mesmo nestas fronteiras de escasso movimento alfandegário, e constata-se que o delito compensava o risco, talvez por alguma conivência e corrupção das autoridades vigentes. Por estas e por outras é que a revolução de 1822 foi tão bem acolhida pelas massas populares do Porto e depois de Lisboa.
ANTT, Junta do Comércio, Maço 315, doc. avulso.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O tempo da memória no miradouro da vida

José Carlos Vilhena Mesquita
«Toda a obra de arte é uma personalidade.
O artista vive nela, depois de ela ter vivido
longo tempo dentro dele» J.M.Vargas Vila


A maior interrogação do homem provém da natureza da sua existência. Quem somos, de onde vimos e para onde vamos, não é um esfíngico enigma tebano, nem tão pouco um ancestral mistério da filosofia escolástica grega. É, tão simplesmente, a dúvida fundacional da humanidade, que inspirou credos e religiões, sustentou doutrinas e ideologias, libertou povos e erigiu nações nos mais díspares quadrantes do globo. Mas, no fundo, as dúvidas que infundem esse indecifrável enigma, correspondem tão simplesmente à dimensão natural do tempo, ou seja à sua partição evolutiva em passado, presente e futuro. É essa a dimensão que do nosso Miradouro da Vida conseguimos vislumbrar.
Desde o primeiro frémito de vida até ao último suspiro em que se evola a alma, vemos perpassar pelo mirante da nossa existência o esplendor da criação, o regozijo da posse, o orgulho do saber, a aptidão imaginativa, o talento inventivo, a glória do sucesso, o reconhecimento social e o conforto da velhice. Mas o elo de ligação entre os elementos do tempo e as fases da vida chama-se Saudade. Aos que, no mirante da açoteia da vida, resistiram no vórtice do tempo às Parcas do destino, só lhes resta agora a volúpia de recordar, esse sensual prazer de poder afirmar eu vi, eu estive lá, eu conheci-o, eu sei como tudo aconteceu. O tempo faz a vida e faz o ancião, ambos são sinónimos de experiência e de sabedoria.
A origem da poesia provém etimologicamente do vocábulo grego “poiéw”, que traduz a ideia de fazer e criar. Por conseguinte, desde que os homens se uniram para fazer a civilização e criar o Estado – conceberem a soberania, a liberdade e a cidadania –, coube à poesia a missão de fazer lembrar e transmitir o passado, em palavras encadeadas pela musicalidade da rima, para que fossem facilmente decoradas e repassadas às gerações seguintes. Antes da invenção da escrita e do registo da História, foi a poesia quem uniu os povos e lhes infundiu a dimensão do tempo e a herança do passado, servindo-lhes de arauto e de mentor, para que nunca esquecessem de onde vinham, quem eram e para onde queriam prosseguir o seu caminho.
Daqui se infere que, desde as origens da civilização até ao devir intemporal da humanidade, sempre a poesia marcou indelével presença na transmissão da História e na construção da Cultura. A poesia é, pois, a charneira da Civilização. E mesmo que os povos pereçam e as nações se extingam, ecoará para sempre no Miradouro do Tempo uma voz do passado, como uma prece poética, suplicando aos vindouros que não olvidem os que ficaram para trás, encobertos na bruma da história. Essa voz, impetuosa e arrebatante, é a inconfundível voz dos poetas.
É precisamente essa voz, de lídimo poeta, que tenho a honra de apresentar, nesta progressiva cidade de Albufeira, na pessoa do Dr. Manuel dos Santos Serra, insigne cidadão e figura modelar da medicina algarvia, distinto humanista e incansável defensor dos supremos valores da Liberdade e da Democracia. Poucos serão os que hoje lhe poderão imitar tão profícuo trajeto de vida, porque para tanto lhes faltará não só o génio, como principalmente a humildade, a abnegação e o desprendimento para, em todos e em cada um, ver o irmão que sofre e precisa do seu solidário apoio, nas horas difíceis, em que por vezes, a vida, num segundo, se esvai e a alma se desvanece.
O livro que o Dr. Santos Serra traz hoje a público, tem por título Miradouro do Tempo. É um livro de poemas, que, tal como os anteriores, tem a chancela da Caleidoscópio. Apresenta na capa um belo quadro a óleo, sobre a baía de Sagres, da autoria do notável pintor Samora Barros. Uma opção inteligente e louvável, pois que aquele exímio pintor, e ilustre albufeirense, foi também um admirável cultor das musas.
A obra em si comporta 104 poemas, idealizados de forma livre, sem as peias métricas nem as sonoridades rítmicas, que a ortodoxia lírica impôs nos templos de Orfeu aos adoradores das musas. Uns são curtos e incisivos, enquanto outros são mais alongados nas suas lucubrações filosóficas, nas suas imagens poéticas ou nos seus subterfúgios metafóricos. O livro tem três fases distintas. A primeira é mais lírica, mais artística, mais consentânea com a produção anterior do poeta. Evidencia um espírito sonhador, utópico e idealista, no fundo revela o poeta na sua faceta mais cristalina. Os versos são curtos e os poemas são pequenos, como se fossem medalhões poéticos. Mas o seu embasamento filosófico obriga o leitor a uma reflexão mais atenta e prolongada. O lirismo é omnisciente. Repare-se nos primeiros poemas e na sua ponderação sobre o valor e necessidade da poesia, sobre a conceção poética e as ilusões do poeta. Vê-se que pela escadaria do poema fluem sentimentos de saudade, fantasia e alucinação, recordações de paraísos errantes e de alegrias juvenis, de desilusões, privações e morte. Em alguns poemas constatei recursos estilísticos não verificados em obras anteriores, como é o caso das repetições vocabulares dentro do mesmo verso, o que já não acontece nas fases seguintes do livro. Permita-se-me aqui destacar alguns poemas que se incluem nesta primeira parte: «Magos da Leitura», «Porquê», «Meditando» (verdadeira ode ao Mar), «História» (autobiográfico) e «A magia do verso» (verdadeiro hino à poesia).
A segunda fase do livro começa precisamente com o poema que serve de título a este livro, que merece ser lido, refletido, ponderado, dissecado, anatomizado e vagarosamente comentado. Jorge Luís Borges dizia que bastava um verso para salvar um livro, mas se fosse um poema então salva-se toda a obra do poeta. Neste caso, diria que são muitos os poemas que salvam este livro e dignificam para sempre a memória do poeta Manuel dos Santos Serra.
Esta parte do livro é mais romântica e mais intimista, porque reflete não só as experiências passadas como as vivências privadas do poeta. O prazer de recordar e a nostalgia da memória são muito prementes. Nota-se também nestes poemas uma sincera preocupação ecológica e uma profunda revolta, contra a destruição paisagística e os atropelos ambientais, perpetrados em nome do progresso e da modernidade. O Algarve e suas praias, os lugares históricos e a sua beleza ambiental, são assuntos recorrentes nos seus poemas. O amor e a natureza são nesta fase os temas fulcrais do livro. O amor oscila entre o platónico e o físico, mas o erotismo é a essência e a alma da poesia. A forma velada como se revela a sensualidade do amor é o mais sublime perfume da poesia. Mas é a Natureza que aqui se assume como uma espécie de heroína ou de personagem central, em torno da qual decorre o Tempo, esse invisível espaço pelo qual perpassa a vida e as incontornáveis transformações das mentalidades, das ideologias e das nações. A apologia da natureza é mística e ascética, e os poemas são como preces de exaltação à pureza e virgindade do que é natural, genuíno, íntegro e imaculado. O poeta é fruto da paisagem que lhe iluminou a infância, e lhe moldou a alma na terra perfumada pelas amendoeiras em flor.
O Dr. Santos Serra usando da palavra, ladeado por
Vilhena Mesquita e pela vereadora da cultura da C.M.A.
Por fim, sente-se no poeta o peso da idade, e essa é uma realidade transversal a todo o livro. Alguém disse que recordar é a voluptuosidade dos velhos. Essa é uma realidade constante neste livro. A angústia do tempo que passou e não pode ser revivido, a nostalgia de recordar o que se viu e não mais se vê, causa no poeta uma profunda amargura. A velhice é o desalento do herói. A anciania é o heroísmo de vencer o tempo no desconforto da saudade. Neste livro são vários os poemas sobre o descanso do guerreiro, cuja idade lhe sobrecarrega a memória de recordações que o tempo foi acumulando no cofre da alma. E o tempo está pejado de sombras que a luz da vida já não pode iluminar. O maior castigo da velhice é sem dúvida a saudade da lembrança.
Permita-se-me que destaque desta fase, entre muitos outros possíveis, apenas os seguintes poemas: «Algarve» (ode regionalista), «Ritual do Amor» (erotismo profundo), «Reencontro» (erótico-sensual), «Fatalismo» (sobre a vida e a morte) e «Decadência» (apostasia religiosa).
A terceira e última parte é aquela que faz da poesia o predestinado arauto da história. Fala dos tenebrosos mitos que dominavam os mares tumultuosos, e dos lusos argonautas que divisaram horizontes de esperança em terras longínquas, onde nunca chegara a promessa da civilização. Exalta o nome de um povo que foi de Gamas, Cabrais, Magalhães e Albuquerques, mas que agora nem desse passado se pode orgulhar, porque de mão estendida se deixou submeter à força bárbara da gente alheia. «Fomos jovens, rebeldes, musculados, / O que havia e não havia fomos ver, / O mundo quis saber o nosso nome / E registou-o em lendas, / Em papiro de aço / Fomos… / Fomos… / Fomos… / Hoje, a Pátria que nos resta, / Tem um ramo de rosas secas no regaço».
A par da poesia de temática histórica sucede-lhe a fase do Realismo Poético, um estilo raramente visto na moderna poesia portuguesa. Por isso considero que esta é a melhor parte do livro, por ser a mais fiel ao espírito revolucionário da poesia e também a mais consentânea com a personalidade do Dr. Manuel dos Santos Serra, um indómito defensor da liberdade e um intransigente protetor dos direitos humanos. Infelizmente são já raros os homens, que como ele se apaixonam pela nobreza dum ideal e pela soberania da justiça, lutando com todos as suas forças pela defesa da verdade e pela proteção dos mais fracos. Por isso é que os seus poemas não se eximem de retratar os dias negros que o nosso país tem vivido ultimamente, acusando sem temor os nossos governantes de serem os algozes duma pátria que civilizou o mundo. «Agora este pobre e velho povo / Como um deus doente, / Ultrajado, andrajoso, mal-amado / Pelos filhos infiéis / Cisma, cisma no milagre a inventar, / De fazer deste fraco povo, forte gente!»
A crise económica em que vivemos tem causado grande instabilidade social, gerando insegurança, desconforto e sobressalto na vida de todos os cidadãos. Um angustioso clima de egoísmo e de nefasto individualismo, uma exacerbação material da vida tomou conta dos destinos do mundo e derrubou os supremos valores do espírito, da moral e da ética. Vivemos hoje tempos de dependência e de subalternidade aos desígnios alheios, semelhantes aos que viram Camões perecer numa infame enxerga de hospício. A esperança perde-se a cada instante e o futuro reserva-nos dias sombrios de angústia e sofrimento. Resta-nos talvez a poesia e a leitura de livros como este para cuidarmos de resistir e de sobreviver o melhor que pudermos, contra este pacto de agressão internacional a que a pátria e o povo português se acha submetido.
O Dr. Santos Serra agradecendo ao declamador João Pires e a
Vilhena Mesquita a colaboração prestada na apresentação do livro
 

Em suma…

A centúria de poemas que compõem este Miradouro do Tempo percorre uma panóplia temática muito diversificada. Numa rápida súmula posso afirmar que os temas principais, ou seja os que consegui padronizar, são de carácter ambiental, cósmico, religioso e sentimentais. Não obstante, é na oclusão da vida e no mistério que envolve a face obscura da morte, que se focaliza o núcleo lírico desta obra.
No que concerne à temática ambiental são constantes as evocações relacionadas substancialmente com a Água, enquanto fonte da vida, mas também com as chuvas e os rios, contrastando com os seus opostos, o sol, as secas e os incêndios, a luz, o brilho e a cor, tudo isto estrategicamente ordenado numa poesia de contrastes e de recordações. Mas não nos deixemos iludir nesta imbricada teia naturalista, porque é nela que o Mar se assume como elemento agregador e difusionista da mensagem poética deste livro. Diria mesmo que o mar é o tema fundacional na poesia de Santos Serra.
Mas, no âmbito dos elementos cósmicos o tema principal é o Tempo, não só na sua dimensão de passado como também na sua interpretação metafórica, sendo por vezes evidente a sua personificação, quer como sujeito quer como agente proactivo na execução poemática. Além do mais figura na composição do título da obra. Na conjugação poética do tempo recorre-se a elementos mais comuns como o vento e a tempestade, a primavera das flores ou as trovoadas do inverno, o azul do céu e o brilho das estrelas no ebúrneo firmamento algarvio.
Os elementos religiosos, embora escassos e, por vezes, dissimulados, estão latentes na poesia de Santos Serra. Deus é uma entidade omnisciente, mas só abstratamente revelada, enquanto a alma é um recurso funcional na construção diegética do poema. Aparecem fugazmente outros conceitos como o milagre, o paraíso, a igreja e até mesmo o Olimpo, numa alusão ao paganismo clássico.
Mais prementes e abundantes são os elementos sentimentais, de entre os quais impera o amor, platónico e físico, sendo neste caso de realçar o profundo erotismo que ressuma em dois poemas, que por serem muito belos, quase extasiantes, não resisto à tentação de aqui lhes citar os títulos: «Ritual de Amor» e «Reencontro». A par do amor seguem-se os afetos e enamoramentos, o ardor da paixão, o prazer do sexo, a liberdade de amar, mas também a fidelidade no contraste com a perfídia e o adultério. A saudade é, no caso do amor e da paixão, um sentimento avassalador, a que se juntam, como reforço poemático, as lágrimas e a dor da separação, a desilusão e a depressão, a doença e a morte.
Sem grande esforço analítico poderia afirmar que existe ao longo deste livro um fio condutor. É arrojado dizê-lo quando se trata de uma obra de poesia, mas não há dúvida que o tempo é o elo de ligação, mas a memória é o cerne e a alma de todo o livro. Mais curioso, ainda, é notar que a dimensão tempo, sendo o cadinho em que se fundem a generalidade dos poemas, assume-se aqui como um nostálgico sentimento de perda, e de privação, de algo que ficou no passado e já não volta nem se recupera. Essa nostalgia não é saudosista. É antes, e tão só, o puro sentimento lusíada da saudade, não de quem parte mas de quem vê partir.
Panorâmica do auditório durante a apresentação do livro
Se o que caracteriza o género poético é a harmoniosa beleza da palavra esculpida nos interstícios do poema, capaz de despertar no leitor sentimentos e emoções, de agitar sensibilidades e inspirar comoções, então sim, podemos afirmar que este é verdadeiramente um livro de poesia, cuja leitura nos elevará até aos sagrados altares da arte e da estética literária. Porque, na verdade, um poema é uma espécie de tela pintada com palavras, em cuja têmpera o poeta terá de selecionar as mais finas cores. Mas se quisermos ser mais abrangentes então podemos afirmar que toda a Arte é Poesia, porque ambas personificam o Belo e a Verdade.
Antes de ser Arte e Literatura, a poesia é essencialmente a voz sublime da Natureza. É claro que quando falo em Natureza estou a referir-me a tudo o que rodeia e consubstancia a vida. As correntes literárias vanguardistas tentaram alterar a função primacial da poesia, como expressão natural da vida, mas não só foram mal sucedidas como ainda tiveram uma efémera existência. A razão desse insucesso prende-se com a falta de sinceridade, porque só permanece e resiste tudo aquilo que é sincero e natural. A imitação do talento poético é a contrafação da arte, pelo que rapidamente se transforma em caricatura e tédio.
Em boa verdade, não é fácil tocar violino num rabecão.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um pomar de versos, em frutos de palavras


No mundo actual e no sentido materialista em que vivemos, a poesia parece ser algo que sobrevive ainda, mas de forma ilusória, desgarrada e sem futuro. Esta é a mais confrangedora das minhas constatações quando discorro com os meus alunos sobre a importância da poesia na aplicação a novas estratégias comerciais, ou sobre a inserção do metaforismo e da metonímia na linguagem mercantil e nas relações empresariais. É certo e sabido que me pedem de imediato uma definição de poesia, como se tudo na vida tivesse que ser concreto, objectivo e rigoroso. Como as definições são enunciações indiscutíveis, costumo dizer que a poesia é tudo aquilo que ficou para trás na tradução, servindo-me à letra da afirmação "The road not taken", do poeta americano Robert Frost (1874-1963), que considerava assim a poesia como tudo aquilo que não se consegue traduzir, isto é, que não se consegue definir por palavras simples, claras e intuitivas. O que Frost queria dizer é que tudo aquilo que escrevemos, isto é, que traduzimos da realidade, é prosa; mas o que não conseguimos dizer ou escrever com a clareza do real, é poesia.
Dito de outra forma, poesia é sentir sem racionalizar, isto é, não precisamos da erudição nem da ciência para compreender as coisas, basta senti-las para nos deixarmos emocionar por elas, experimentando-lhes as sensações e o impressionismo judicioso. Camões, quando quis revelar o que é o amor, fê-lo de forma a traduzir em si a própria poesia, afirmando que «é ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente». Significa isto que sentimento e razão constituem as duas faces da mesma moeda, porque ao fim e ao cabo a bipolarização entre o positivo e o negativo – entre o Yang e o Ying da filosofia Zen, entre o bem e o mal, o sagrado e o profano que fraterniza as religiões – são formas seculares de conhecimento que enraizaram a humanidade ao longo de milénios.
Por conseguinte, a poesia é intimista e sublime, demasiado pessoal para ser transmissível, e cuja expressividade necessita de uma imaginação fértil e fecunda para fazer-se sentir, tanto na pele como na alma. Poesia, poema e verso são como o tríptico Saussureano do signo, significado e significante. Estão interligados, fazem parte do mesmo corpo linguístico, ou, neste caso, do mesmo género literário. É assim mesmo que acontece neste livro, nesta tríade ou simbiose em que se traduz a poesia de Santos Serra.

Pomar de Pedras, assim se titula o poema que encerra, e ao mesmo tempo denomina este livro. Pela leitura deste poema, mas também pela maioria os versos que dão corpo e alma a este livro, sente-se uma mensagem de esperança, um alento de fé num sopro de vida: “as pedras perfilam-se no sonho da metamorfose / de cada pedra brotar uma flor” É a mesma mensagem, de esperança e de regeneração, que abre este livro, num belo poema sobre o verde, como signo imperecível da natureza e da vida. “Verde era o vento das liberdades de atingir… Verde era o oceano da viagem para as Índias dos sonhos… Verde era o agora e o porvir no cadinho viril de uma vontade”. Das reminiscências da feliz infância até ao laborioso sucesso de uma vida, juramentada a Hipócrates e à supressão do sofrimento, de tudo isso se faz velado eco e sublimação nos versos que compõem os poemas deste livro, que não fala de pedras, mas antes dos frutos que eternizam a existência humana: o amor e a lealdade, a verdade e a justiça, a solidariedade e o afecto, a honra e a dignidade, o respeito e a fidelidade.
O decantado poeta Eugénio de Castro dizia que o poema em si mesmo «embala a angústia nos braços decepados». É uma brilhante metáfora, que traduz toda a magia espiritual da concepção poética. E neste Pomar de Pedras é a metáfora, usada com incisiva regra e oportuno instante, sem excessos nem exageros, com a justa parcimónia do equilíbrio a que se submete o poeta do verso curto, sóbrio e enérgico. A brevidade do verso – composto por duas a cinco palavras, numa média de seis a doze sílabas – é a principal característica da poética de Santos Serra. A moderação exige a modelação da palavra, trabalho árduo e difícil, que aproxima o poeta do escultor, pois ambos sabem que o olhar de quem os observa não se pode dispersar pelo acessório, devendo concentrar-se no que é verdadeiramente essencial.
Ibne Ammar, grande poeta árabe, nascido em Estombar, usava também a palavra com parcimónia, recorrendo à simbologia das cores, como no signo Saussureano, para construir belas metáforas, de que esta sobre a impressão da leitura é verdadeiramente modelar: «Minha pupila liberta / Quem da página é cativo: / O branco, da margem certa / E da palavra, o negro vivo».
Também neste livro, de versos curtos, incisivos e inteligíveis, onde as metáforas e as imagens poéticas sobressaem vivas de cor e cintilância, se notam por vezes os subterfúgios do artista, que se revela na simbologia da luz e nos matizes pictóricos, ou na energia dos elementos naturais, para impressionar, não a pupila mas o espírito do leitor. São disso exemplo as frequentes invocações das árvores, da terra e da erva, das flores e dos frutos, dos rios e das fontes, do sol e da chuva, dos pássaros e do vento, do raio e do trovão. É por esses recursos poéticos que constatamos, nos interstícios do poema, a existência de um velado misticismo, a presença indefinida duma força criadora, a existência de um indistinto ente supremo, a vigilância dum espírito criador, e muitas vezes a omnipresença de um regulador dos sentidos, que inversamente funciona como catalisador dum impressionismo contemplativo.
Nota-se, nesta sequência, um incontido impressionismo saudosista quando recorda a Coimbra da sua juventude, presença omnisciente nos seus livros, aqui revisitada do Mondego e do Choupal ao Templo de Minerva, numa peregrinação de saudade dos “Que te veneram enquanto vivos / E te levam com eles para a eternidade». Alegram-se os sentidos e rejubilam as memórias quando no poema «Diferenças» relembra a sua chegada à Lusa Atenas: «Era ser livre sem peias de tirano / Era sentir o mar dentro de nós / Era encher de estrelas as noites cor de breu / Era ser rei de um reino de Utopia… / Hoje, mais de meio século / Do meu desembarque neste cais, / A eterna turbulência juvenil / Sobe à Acrópole a cantar».
A marca da tradição, da rebeldia juvenil e a nostalgia do tempo que passa, são punções indeléveis na poética de Santos Serra. Coimbra é a cidade do eterno retorno, o berço onde se fez homem, a radícula das paixões perpétuas e o núcleo das insanáveis saudades do vento que afaga e passa, mas não apaga.
João Pires declamando os poemas do livro do Dr. Manuel
dos Santos Serra na sessão de apresentação da obra, na
Biblioteca Municipal de Albufeira, 5-11-2011.
Outras terras e outras gentes são também aqui evocadas em formosos versos. Tem um destaque muito especial a cidade de Albufeira, louvada e enobrecida em refulgentes poemas de vida, cor e luminescência. O poema «História da Toponímia» descreve a antiguidade de Albufeira de uma forma lapidar, a merecer talvez outros rumos e liberdades, que uma simples página de livro não lhe pode oferecer. Os poemas sobre a «Praia do Peneco» e o «Passeio da Marginal» são igualmente refulgentes medalhas poéticas que os serviços oficiais poderiam avocar nos seus desdobráveis de divulgação turística. Mas outros poemas abundam neste livro que merecem igual destaque. Não querendo ser exaustivo nem maçador, destaco apenas alguns que me impressionaram pela qualidade das suas imagens e pelo brilho da sua inspiração: «Espelho», «O êxito…», «Narciso», «Último olhar», «2010», «Sol e lágrimas», «Ideal», «Cometa», «História breve», «No fim» (sobre Sagres), «O drama», e, por fim, o «Pomar de pedras», que dá o nome ao próprio livro.
Acresce dizer que a poesia de Santos Serra não obedece a modelos, e muito menos aos ortodoxos esquemas que enformaram durante séculos a estruturação lírica das palavras. A ordenação versífera escorre pelo papel à cadência repentina dos sentimentos, livre e solta, sem peias, nem falsos pudores, numa toada de absoluta liberdade criativa. O poeta quando atinge este nível, de elevação fecunda, de autonomia inventiva e de liberdade imaginativa, aproxima-se muito do artista plástico, que concebe na tela a imagem sem visionar o modelo. Quando assim acontece, estamos perante a Arte, na forma e na palavra.
Dizia Baudelaire, o eterno criador das Flores do Mal, que «os poetas são uma raça irritável». Referia-se logicamente ao efeito que a sua poesia causava na sociedade e no espírito político do seu tempo. Mas a noção de exaltação e de exacerbamento do espírito, que só a poesia é capaz de incutir e de produzir na alma do povo, causa de facto grande irritação e incómodo àqueles que pretendem orientar a existência humana para a mediocridade e obscurantismo. A poesia é por natureza revolucionária e não raras vezes foram os poetas, como no tempo de Baudelaire, que conduziram os humilhados e ofendidos, os despojados, os desempregados e toda a casta de desafortunados, para a sublevação nas ruas, nos campos e nas fábricas, em nome da liberdade e da justiça social. Quem não se lembra da importância da poesia de Ary dos Santos, de Natália Correia, de Manuel Alegre e de Zeca Afonso, no eclodir da revolução do «25 de Abril»…
De facto a poesia de Santos Serra, principalmente neste livro Pomar de Pedras, irrita e incomoda aqueles que vêem a existência humana como uma efémera e passageira viagem, desprovida de amarras para atracar no cais da eternidade. E no seguimento dessa asserção pode mesmo afirmar-se que a maioria dos poemas deste livro são verdadeiramente irritáveis, porque conseguem ver, para além do material e do sensível, aquilo que sendo puro contribui para a construção da realidade harmoniosa. Por isso é que Gaston Bachelard disse que «a função principal da poesia é transformar-nos», ou seja, o papel social e a utilidade funcional da poesia consiste, em última instância, no melhoramento da condição humana e no aperfeiçoamento das suas qualidades intrínsecas. Diria, em síntese, que o objectivo final da poesia é fazer de nós pessoas mais puras, mais sinceras, mais justas, leais e virtuosas, em suma, mais verdadeiras, mais sensíveis e emocionais.
Os poetas são irritáveis, sim, porque só eles sabem esgrimir as palavras em acutilantes golpes contra a iniquidade social, a perversão política e a corrupção moral. Não admira, por isso, que os poetas sejam geralmente incompatíveis com a política e o exercício do poder. É que ser poeta, como disse Florbela Espanca «é ser mais alto, é ser maior do que os homens… É ter fome, e ter sede de Infinito! É condensar o mundo num só grito!».
Mas na triste realidade em que vivemos, neste mundo de materialismos egoístas e de futilidades mesquinhas, os poetas são pouco valorizados e até desprezados. É confrangedor ouvir de gente bem instalada, e com responsabilidades sociais, palavras de avaliação depreciativa para com os nossos poetas, apelidando-os de quixotescas figuras, inválidos guerreiros na batalha da vida. Para a bestialidade dominante, os poetas são meros sonhadores, sem serventia nem utilidade. Quem manda, decide e ordena, não gosta de sentir, porque teme que o sentimento fragilize o comando. Enganam-se… porque só aqueles que sentem é que são capazes de compreender e de racionalizar a pungente amargura da injustiça, da desigualdade e da vilania. Um homem que ajuíza e decide deve ter sempre à sua cabeceira um livro de poesia, para que possa aprender a lição de que tudo passa e tudo se perdoa, na ligeira brisa da vida e na húmida bruma do tempo.
José Carlos Vilhena Mesquita
 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Júdice Fialho, o maior industrial conserveiro do Algarve


A figura mais notável da História da Industria Conserveira no Algarve, foi sem sombra para dúvidas João António Júdice Fialho, um homem inteligente e empreendedor, que nas primeiras décadas do século XX conseguiu conquistar os principais mercados europeus com as suas conservas de atum e de sardinha, mas também com as suas massas alimentícias, compotas e marmeladas. Foi dos poucos industriais das pescas que há mais de um século atrás soube visionar  o conceito de globalização à escala atlântica, investindo na aquisição de modernos meios de transformação industrial do pescado, cujos avultados lucros lhe permitiram diversificar a produção e reinvestir noutros segmentos de mercado. 
Palácio Fialho hoje propriedade da Diocese do Algarve
Proprietário e industrial de conservas, João António Júdice Fialho nasceu em Portimão a 17-4-1859 e faleceu em Lisboa, na Casa de Saúde de Benfica, a 17-3-1934, com 74 anos de idade. Os seus avantajados meios de fortuna permitiram-lhe reunir uma magnífica colecção de arte (quadros, porcelanas, mobiliário), fazendo-se distinguir na sociedade do seu tempo, tanto no país como no estrangeiro, como um mecenas e um magnata da cultura e da arte. A sua avultada fortuna permitiu-lhe construir na colina de St.º António do Alto, em Faro, uma magnifica residência ao estilo dos “chateaux” do Loire francês, que ficou conhecido, e ainda hoje se designa, como Palácio Fialho. Começou a construir-se em 1915, sob projecto do arquitecto Joaquim Manuel Norte Júnior, concluindo-se as obras em 1925, cuja cerimónia de inauguração contou com a presença das principais autoridades políticas, religiosas e militares do Algarve.
Nessa altura poucos se interessavam em Faro, ou no Algarve, pelo coleccionismo de peças artísticas e de antiguidades, paixão essa que herdou do sogro, o famoso Dr.  Justino Cúmano, que foi no último quartel do séc. XIX um verdadeiro mecenas da arte e da cultura algarvia, proprietário do Teatro Lethes e grande impulsionador da Arte de Talma no Algarve. 
Iniciou a sua actividade industrial precisamente na cidade de Faro onde fundou uma fábrica de álcool que por razões conjunturais teve efémera duração. Investiu depois no ramo da indústria da pesca do atum e da sardinha, sector tradicional mas de confiável retorno financeiro. Depressa se apercebeu da oportunidade do sector conserveiro, que nos finais do séc. XIX estava ainda a dar os primeiros passos, fundando algumas fábricas em Portimão e Lagos. Anos depois fundaria novas e sofisticadas unidades fabris na cidade de Faro, nas vilas de Olhão e Espinho, tendo por fim avançado para a ilha da Madeira, onde se tornou o principal industrial do sector, tal como aliás acontecia no Algarve. O número de operários, que tinha por sua conta nas diversas fábricas espalhadas pelo país, ascendia a largos milhares.
As marcas que lançou no mercado, sobretudo das suas conservas de sardinha eram as mais conhecidas na Europa, principalmente em Inglaterra, onde praticamente dominava esse sector de mercado. As latas de sardinha e de atum das fábricas algarvias da Casa Fialho foram imprescindíveis para a alimentação dos exércitos beligerantes durante a I Guerra Mundial.
Pedra de litografia usada nas conservas de Júdice Fialho
Júdice Fialho foi um dos maiores industriais de conservas da Europa, cujo sucesso se deve ao seu espírito criativo e empreendedor, capaz de ver à distância os interesses do mercado e a evolução do consumo em diferentes regiões do mundo. Com o elevado volume de negócios que manteve nos principais mercados mundiais, conseguiu reunir um pecúlio financeiro verdadeiramente invulgar, tornando-se num dos maiores capitalistas portugueses do seu tempo.
Teve uma vida de intenso trabalho, com muitos dissabores, traições e desilusões, que lhe endureceram o carácter. Retirou da sua experiência como empresário uma capacidade negocial invulgar e uma diplomacia nas relações exteriores muito peculiar. Soube extrair das relações com os políticos nacionais e estrangeiros grandes lições, umas positivas quando baseadas na honra, outras negativas quando envasadas na corrupção. De todas soube sempre colher ensinamentos que lhe foram muito úteis no seu longo percurso empresarial. Muitas dessas falsas amizades usou-as em proveito próprio. Não obstante, foi um dos maiores industriais das pescas e da transformação conserveira no país, com fábricas no Algarve e noutras regiões do país, contribuindo com as suas iniciativas empresariais para o desenvolvimento da economia nacional.
Panorâmica do palácio Fialho, actual Colégio do Alto
Curiosamente nos últimos anos de vida virou-se para a agricultura, tendo adquirido no Algarve vastas propriedades, situadas no Areal Gordo e Pereiro, as courelas das Caliças, as fazendas de Marachique e das Areias, do Vau da Rocha (em Portimão), Atalaia e Benefícios, assim como a famosa Quinta do Alto, onde construíra a sua residência. Mas também adquiriu as conhecidas Hortas de Olhão e dos Fumeiros, a quinta do Bom João e a vastíssima fazenda do Montenegro, sem esquecer ainda as valiosas e extensas propriedades dos salgados e reguengos de Portimão, em Boina e Arge, tendo por fim adquirido o antigo Morgado de Quarteira, que mais tarde o banqueiro Cupertino de Miranda compraria aos seus herdeiros para aí fundar o resorte turístico hoje conhecido como Vilamoura. Nessas propriedades desenvolveu culturas novas e empregou modernas máquinas, adubos e desinfestantes até aí desconhecidos na região. Algumas dessas máquinas existiam ainda há poucos anos nas arrecadações agrícolas da sua apalaçada residência, hoje transformada, ou adaptada às suas funções educativas, sob a designação de Colégio de Santo António do Alto. A ele se deve a introdução no Algarve das culturas intensivas do pimenteiro e do marmeleiro, cujas produções aproveitou para criar as primeiras agro-indústrias no género, além de ter também experimentado a exportação em lata da pasta de pimento e do doce de marmelo.
Também investiu na pesca do bacalhau, enviando vários navios da sua frota pesqueira do Algarve para os bancos na Terra Nova de onde voltavam carregados de peixe que era depois aqui submetido à secagem, embalagem e exportação para os mercados consumidores em todo o mundo. Embora o Algarve tivesse condições muito propícias à indústria da secagem do bacalhau, o certo é que depois da experiência da Casa Fialho praticamente não houve quem prosseguisse no aproveitamento desse sector.
Face aos seus negócios e aos avultados meios de fortuna, Júdice Fialho passava largas temporadas no estrangeiro usufruindo da avançada cultura dos países do centro europeu, adquirindo conhecimentos nos mais diversos meios, quer científicos quer artísticos. A sua educação e esmerado bom gosto, levou-o a coleccionar imensas obras de arte, principal-mente quadros, tapeçarias, esculturas e ricas porcelanas, com as quais decorou e enriqueceu o seu palácio de Faro.
soldagem das latas de conservas
Uma das suas características mais cativantes era a forma como tratava os seus colaboradores, desde o engenheiro até ao mais humilde trabalhador rural, que a todos conhecia pelo primeiro nome. A nenhum, sobretudo aos mais humildes, permitia que faltasse o sustento, diligenciando sempre trabalho para os activos e apoio financeiro para os velhos e doentes. Impõe-se também salientar que as fábricas conserveiras da empresa Júdice Fialho foram as primeiras no país a possuírem creches para os filhos das operárias e salas de aleitamento para que as mães pudessem cuidar dos seus bebés durante as horas de trabalho.Também lhes eram prestados serviços médicos e apoio farmacêutico, além de ensinamentos de puerícia e aconselhamento no planeamento familiar.
Em 17-4-1916, a Câmara Municipal de Portimão prestou-lhe uma homenagem pública, descerrando o seu retrato no salão nobre daquela edilidade, como prova de gratidão pelo desenvolvimento económico prestado à sua terra-natal.
Dois dias antes de falecer foi submetido a uma intervenção cirúrgica que correu satisfatoriamente, sucumbindo no pós-operatório por causa de um ataque  cardíaco, enfarte agudo do miocárdio.
Foi casado com D. Maria Antónia Cúmano Fialho, que era descendente de uma das mais prestigiadas famílias do Algarve, filha do médico italiano Dr. Justino Cúmano. Teve duas filhas, D. Justina Cúmano Fialho de Sousa Coutinho, casada com D. António de Sousa Coutinho, Conde de Linhares, e de D. Isabel Cúmano Fialho de Mendonça, viúva de Jorge de Mendonça.
O féretro do benemérito industrial chegou a Faro por via-férrea no dia 21-5-1934, ficando depositado no jazigo da família Cúmano até que ficasse pronto o mausoléu que a viúva mandou edificar no Cemitério da Esperança. O seu funeral foi uma grandiosa manifestação de pesar, demonstrada por milhares de pessoas que deviam ao defunto diferentes provas de amizade e de protecção. Vieram camionetas de todo o Algarve, especialmente de Portimão, Peniche e Sines, onde aquele industrial possuiu fábricas e propriedades agrícolas.
O nome de João António Júdice Fialho encontra-se imortalizado na toponímia das cidades de Faro, Sines e Portimão. Recentemente o município de Portimão atribuiu-lhe o nome a uma Escola do Ensino Básico dos 2º e 3º Ciclos.

Benzeduras e ditos populares na etnografia algarvia

Benzer o pão - Terminada a amassadura do pão, benze-se a massa e talha-se com a mão fazendo um gesto em cruz; quando a maça começa a levedar esta cresce de volume até atingir uma proporção que indica poder dar-se o trabalho por concluído, dizendo-se então: “Deus te acrescente / Deus te ponha a virtude / Que eu já fiz o que pude”. Esta crença e procedimento que era comum e habitual em todo o Algarve, hoje só se executa nas casas de campo e lavoura do interior algarvio, sobretudo em São Brás de Alportel, em Castro Marim, Silves, Monchique e Aljezur. No entanto, este dito era substituído em muitos lares onde se cozia pão, por uma ladainha popular, por um responso religioso, dirigido a Santo António ou a São Francisco, e por uma bênção igual à que viam e ouviam fazer na missa. Esta crença da benzedura e da ladainha religiosa usava-se não só na amassadura do pão, mas também no parto dos animais de curral. Era muito comum o uso de rezas e benzeduras por certos curandeiros e habilidosos de mãos, a que chamavam "endireita", uma espécie de fisioterapeuta popular que nas aldeias e terras do litoral algarvio costumava curar entorces e outras lesões articulares, que no Algarve costumam designar por "desmantalamentos". 
Cangrejo - No linguajar algarvio, significa caranguejo, daí a expressão muito peculiar de “andar ao cangrejo” que se traduz na apanha do caranguejo. Também é muito corrente dizer-se “cangrejar” que significa mourejar ou trabalhar muito, mas com pouco proveito.

Âncoras de Ossónoba?


Âncoras - No cabo de Palos, em Espanha, apareceram há quase cem anos atrás umas âncoras de chumbo com inscrições gregas e latinas. Uma dessas inscrições gregas referia-se a Júpiter Casio. A circunstância de Ossónoba ter sido rica em estanho, de nas suas moedas aparecerem um navio e peixes, e de em Faro ter sido encontrada uma inscrição consagrada a Júpiter, levou o arqueólogo espanhol, o Rev.º Fidel Fita, a aventar que talvez essa âncora fosse feita em Faro. Leite de Vasconcelos, numa curiosa nota crítica em O Archeologo Portugues, vol. XI, p. 382, rebate a opinião pois nem só nas moedas de Ossónoba aparecem aqueles emblemas, e a inscrição não é de Faro mas de Messines.

Foral do ALVOR e outras curiosidades


O FORAL manuelino do Alvor, também designado por foral novo, foi dado em Lisboa a 13-12-1585. Existe também um alvará para esta vila usar do foral de Silves (Chancelaria de D. Filipe I Livro 10, fl. 281). Veja-se também a Provisão de 14-12-1715, facultando ao Duque de Cadaval poder vender o sal das suas Marinhas d’Alvor sem embargo da disposição do Foral (Chancelaria de D. João V, livro 44, fl.37).
Forte do Alvor - Em Novembro de 1924 foi encontrada, soterrada na Rua do Mourão, uma lápide com a seguinte inscrição; «Sendo o Ilmº Bispo e Governador deste Reino, D. Fernando Barreto, mandou acabar este forte no ano de 1675». A pedra que era de altíssimo valor histórico, foi empregue na construção de um bebedouro, porque ninguém conseguiu demover o seu proprietário a oferecê-la  à autarquia de Portimão para o futuro Museu.
Igreja e romarias - O pórtico da Matriz do Alvor, em estilo manuelino de transição para a Renascença, é dos mais belos do Algarve. A igreja tem uma porta lateral também manuelina, sendo o seu interior de três naves, com curiosas colunas e arco da capela-mor bem talhado. Tem junto à igreja a capela da Senhora do Verde. Refira-se que à imagem do Senhor Jesus Crucificado de Alvor faziam-se romagens todas as sextas-feiras do mês de Março, que eram muito concorridas pelos devotos de Portimão, Lagoa, Silves e Lagos.


domingo, 11 de novembro de 2012

Origens do Turismo Algarvio - um dos fundadores do Hotel Bela Vista em Portimão

   
     Numa altura em que vivemos o ano jubilar do turismo português, mercê da realização em Lisboa, em 1911, do IV Congresso Internacional de Turismo; e em que estamos praticamente a abrir as comemorações centenárias do 1.º Congresso Regional Algarvio, realizado no Casino da Praia da Rocha, em 1915; impõe-se aqui, e agora, realçar e destinguir algumas figuras que estiveram na origem do processo nacional de fomento turístico. A maioria dessas personalidades estão hoje injustamente esquecidas e ignoradas, mercê do processo evolutivo dos tempos, mas também da ingratidão que tem caracterizado as gerações recentes. Acresce a tudo isso a ignorância institucionalizada pelo aparelho educativo nacional, que tem transformado uma nação com um glorioso passado num país periférico sem memória nem futuro.
    Assim, e de entre as muitas personalidades que estão ligadas à História do Turismo no Algarve, ocorreu-me lembrar hoje a  figura de Albino Paulino de Jesus, que foi Oficial da Marinha Mercante e empresário de turismo, natural de Ferragudo, onde, aliás, sempre residiu, vindo a falecer no hospital de Portimão, vítima de um lamentável acidente, a 27-9-1954, com 67 anos de idade.
Herdeiro de uma das mais conhecidas famílias do barlavento algarvio, que desde há décadas se havia envolvido no sector da Marinha Mercante em que Albino Paulino de Jesus ascendeu ao honroso posto de comissário, mercê dos seus dotes de inteligência, do seu trato afável e espírito empreendedor. Ligado aos transportes marítimos foi para Lisboa, onde abriu um escritório comercial na Rua de S. Julião, por cujas instalações passavam ao fim do dia muitos algarvios, desejosos de receber encomendas, levantar dinheiro, receber notícias dos seus familiares e até fazer alguns dos chamados negócios de oportunidade garantida.
Com os lucros do escritório lisboeta, montou um negócio de moagem no Alentejo que lhe permitiu juntar largos capitais financeiros. Ciente de que o Algarve era uma região de futuro, com emergentes potencialidades no sector do turismo, então largamente incentivado pelas instituições públicas e pela máquina de propaganda fundada pelo famoso António Ferro, de quem era, aliás, particular amigo, decidiu regressar à terra-mãe.

postal ilustrado editado nos princípios do séc. XX
Quando veio para o Algarve apercebeu-se que o apalaçado edifício da antiga Vila de N.ª Senhora das Dores, situado nas arribas da então desigada Praia de Santa Catarina (hoje Praia da Rocha), a cuja inauguração assistira em 1918, e que pertencia ao famoso industrial conserveiro António Júdice de Magalhães de Barros, estava muito degradado pelo abandono a que fora votado. Com efeito, a belíssima residência de traço neogótico, cujas janelas em arco ogival eram, e são, a sua principal característica arquitectónica, fora construída no topo da falésia, que debruçada sobre o mar permite o privilegiado visionamento daquela magnífica baía, de mar-chão e doiradas areias, que se estende desde a Ponta do Altar, em Ferragudo, até quase à Ponta da Piedade, em Lagos.
    A magestosa casa estivera ao abandono durante uma década, precisamente desde 1924, quando faleceu a esposa de Magalhães de Barros, até 1934, quando Henrique Bívar de Vasconcelos, que já possuía uma pensão no centro de Portimão, convenceu os herdeiros a arrendarem-lhe a "casa branca" para nela instalar uma moderna unidade hoteleira, que viria a ser inaugurada em 1936 sob a designação de Hotel Bela Vista. Face à crise económica que desde 1929 se instalara na América e se estendera à Europa (dando origem ao nazi-fascismo), muitas das casas bancárias e grandes industriais do país sofreram processos de insolvência que os obrigaram a vender o seu património. O imóvel agora transformado em Hotel foi um desses exemplos. Mas apesar de todas as contingências políticas e económicas desses conturbados anos, o turismo prosseguia o seu caminho, não só de preenchimento do lazer e revelação do hedonismo, mas também de novas terapias contra os flagelos da tuberculose, da asma e afecções pulmonares, contra o raquitismo, as artrites reumatóides, a psoríase e tantas outras doenças, para cujo combate e restabelecimento da saúde muito contribuíram as praias, os puros ares das montanhas e as águas medicinais das termas.

     O turismo algarvio dava então os primeiros passos, fazendo da Praia da Rocha e das termas de Monchique os seus principais pólos de atracção, tendo como oferta a amenidade do clima, a paradisíaca envolvência das suas praias, e os seus novos hotéis. A par dessa oferta e da evolução dos tempos, despontavam também os casinos, que acompanharam o desenvolvimento turístico da orla costeira. O Hotel Bela Vista foi um dos precursores do turismo moderno, com boas condições de higiéne, de conforto e de recato. Talvez por isso os seus primeiros hóspedes tenham sido estrangeiros, da orla mediterrânica, sobretudo espanhóis, gente rica, educada e empreendedora, que fugia dos horrores da guerra civil. Parece que entre esses clientes estavam figuras da política e da cultura ibérica, atraídos pela família dos irmãos Feu, industriais conserveiros oriundos da Andaluzia que também aqui se refugiaram no último quartel do séc. XIX, decidindo fixar-se em Portimão e investir no mesmo ramo industrial em que eram reconhecidos peritos. É curioso assinalar que o turismo, uma nova indústria relacionada com o lazer da burguesia, esteve em muitos aspectos diretamente relacionada com as origens da indústria conserveira em Portimão. 
     A década de trinta foi conturbadíssima na Europa. A crise económica desacreditou a democracia e deu origem a regimes políticos autocráticos e centralistas, estribados na ordem, no autoritarismo e na força militar. Em Portugal emergiu o Estado Novo, sob a figura emblemática de Salazar, cujo regime designado por Corporativismo era um decalque, mais suave e menos militarisado, do fascismo italiano. Apesar da não participação na II Guerra Mundial, o nosso país passou por uma difícil crise económica a que o turismo não poderia ficar incólome. Portugal transformou-se numa pátria de exílio para muitas coroas reinantes que haviam sido destituídas com a guerra, mas também foi um local de refúgio para muitas famílias abastadas, empresários, proprietários, artistas e "dealers" de toda a casta de mercadorias, proliferando o mercado paralelo e os negócios obscuros, sobretudo do ouro e do volfrâmio. Muitos dos estrangeiros que aqui procuravam a paz, o socego e a segurança, eram judeus, fugidos às desumanas perseguições dos nazis alemães, a célebre "solução final", como lhe chamou Hitler, que visava o extermínio raça hebraica, e o apagamento da cultura e da religião judaica. Por isso, o nosso país transformou-se, nesses primeiros anos da década de quarenta, numa espécie de plataforma de fuga para a América, ou, mais concretamente, numa plataforma de saída da Europa.
    Não admira que, nestas circunstâncias, os hotéis de Lisboa, mas também os da linha costeira até ao Estoril e Cascais, estivessem totalmente preenchidos de clientes, a maioria dos quais em trânsito. E no meio dos clientes mais abastados camuflavam-se os espiões de ambos os lados do conflito.
estado actual do Hotel Bela Vista, após recente restauro
     O turismo no Algarve poucos benefícios teve com a guerra, ou melhor, com a estadia e passagem dos refugiados. Por isso os hotéis, nomeadamente o da Bela Vista, não conseguiram sobreviver face às dificuldades de abastecimento, à carestia de vida e às dificuldades de acesso ao financiamento.  O resultado prático foi a insolvência da maioria dessas novas unidades.
    Foi no rescaldo desses conturbados anos da guerra que regressou ao Algarve um dos seus filhos pródigos, Albino Paulino de Jesus, detentor de um invejável pecúlio financeiro e decidido a investir na Praia da Rocha, aonde viria a refundar o conhecido Hotel Bela Vista, à frente do qual se manteve como sócio-gerente durante largos anos. Também pensou fazer o mesmo na praia do Estoril, mas quedou-se apenas pela aquisição de uma bela vivenda onde passava férias ou se hospedava sempre que ia a Lisboa.
Com o avançar da idade decidiu recolher-se à sua aldeia natal, a bonita freguesia de Ferragudo onde comprou um antigo e amplo moinho no cimo duma colina sobranceira ao rio Arade, de onde desfrutava uma soberba panorâmica sobre a foz e a linha prateada da costa marítima. Acalentava o sonho de restaurar o velho e altaneiro moinho para nele instalar uma pousada turística, cujas obras estavam plácidamente evoluindo. Porém, um estúpido e fatídico desastre interrompeu o mais bonito sonho da sua vida.
    O acidente deu-se na Praça Visconde de Bivar, em Portimão, quando o infeliz Albino Paulino de Jesus, que pretendia tomar lugar na camioneta da carreira para Faro, se deixou atropelar pela mesma ficando praticamente esmagado pelos rodados do pesado veículo. Expirou pouco depois no hospital local, sem que os cuidados médicos de que foi alvo pudessem evitar o triste desenlace.
Era casado com D.ª Alda Reis Paulino de Jesus e foi pai da Dr.ª Maria Carolina Paulino de Jesus, de D. Maria Celeste, de Fernando e de Adelino Reis Paulino de Jesus. Era irmão de António e de Artur Paulino de Jesus, que foram ambos muito conceituados e experientes comandantes da Marinha Mercante.
 

«O tempo está Pégo» expressão de Castro Marim


 Pégo foi a designação mais surpreendente que o Prof. Leite de Vasconcelos registou como muito frequentemente aplicada em Castro Marim, sobretudo quando aplicada ao vento de sudoeste: o tempo está Pégo. Na realidade era, e creio que ainda é, um dito muito comum naquela antiga vila raiana, como se comprova pelo seguinte ditado: “Quando Dês q’ria / do Pégo aventava /e do Norte chovia”. Segundo o eminente etnólogo “Pégo” provém do mesmo étimo  latino, pelagus, que significa mar (cf. Opúsculos, III, p. 477).

Etimologia Tiponímica de Castro Marim

 
vista panorâmica do Castelo de Castro Marim
O Prof. José Leite de Vasconcelos, na sua monumental Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 622, dá curiosas achegas para a etimologia do topónimo Castro Marim.
Afirma inclusivamente que é um dos mais estranhos topónimos meridionais em que entra um genitivo. Diz também que por vezes se traduz o étimo latino por “Castelo da beira-mar”, face à designação Castrum Marini. Daquilo que o grande sábio não tem dúvida é que o topónimo Castro é raríssimo na região sul do país, e que, por isso, não lhe repugnava que Castro Marim proviesse da época visigótica.
 

CASTRO MARIM - Documentos Históricos


emblema da Ordem de Cristo

     Ordem de Cristo - A Bula do Papa João XXII, “Ad ea ex quibus cultus angeatur”, instituiu a Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, a pedido de El-rei D. Dinis, dando para sua residência a Vila de Castro Marim. Pela dita Bula a Ordem apropriou-se de todos os rendimentos, jurisdições e regalias de que beneficiava a Ordem dos Templários, extinta pelo Papa Clemente V; também nessa Bula nomeava para grão-mestre Egídio Martins, sujeitando-se a Ordem de Cristo à visitação dos abades de Alcobaça. Dada em Avinhão, a 14-3-1319. Escrita em pergaminho, com selo de chumbo pendente.
ANTT, Gaveta VII, Maço 5, doc. 2; acrescente-se ainda outra Bula relativa ao mesmo assunto em ANTT, Gaveta VII, Maço 8, doc. 5 e docs. 6 e 8.
 Doação de Impostos à Ordem de Cristo da vintena de todo o pão que passasse pelo rio Guadiana e da terça da barca que passasse de Castro Marim para Aiamonte. Pergaminho em bom estado, assinado por D. Manuel I e datado de Lisboa a 14-5-1504. 
ANTT, Gaveta VII, Maço 11, doc. 10.
Acordo fronteiriço entre Castro Marim e Aiamonte, pelo qual se ordenava que os barcos e batéis que entrassem pela foz do Guadiana para cada uma das ditas vilas não fossem embargados pelos moradores dos respectivos lugares. Pergaminho em mau estado, datado de 1288.

Vila de Castro Marim, desenho pub. Livro de Duarte d'Armas
ANTT, Gaveta XV, Maço 15, doc. 21.
Escambo - Pergaminho em bom estado, com selo pendente de cera, datado de Leiria a 7-11-1372, que trata do escambo feito entre D. Fernando e o mestre da Ordem de Cristo, pelo qual el-rei trocou Castelo de Vide por Castro Marim. 
ANTT, Gaveta VII, Maço 14, doc. 1
Traslado de uma inquirição que se realizou a respeito dos lugares de Castro Marim e de Aiamonte. Escrito sobre papel, com 12 folhas e em bom estado, datado de 10-11-1537.
 ANTT, Gaveta XIV, Maço 5, doc. 15.
Livro do Tombo da Ordem de Cristo
Anadel-mor - Apontamentos a respeito de Garcia de Melo, anadel-mor de Castro Marim. Escrito em papel, com 2 fls., em bom estado, datado de 1509.
ANTT, Gaveta XX, Maço 5, d. 14.
 Foral antigo encontra-se no ANTT, Maço de Autos sobre Direitos Reaes e da Ordem de Cristo, n.º 1, e tb. a fls. 18 e 22, estando datado de 1-5-1282. Veja-se tb. no Livro I do Rei D. Afonso III, fl. 141, e Livro I do Rei D. Dinis, fl. 44vº. Ver tb. os Autos entre as Partes, os moradores da mesma vila e Lopo Mendes seu comendador, nos quais se deu contra este Sentença a 21-3-1504 para que não levasse mais direitos do que aqueles que estipulava o Foral. O foral manuelino, ou Foral Novo, foi dado em Lisboa a 20-8-1504, encontrando-se no Livro de Foraes Novos do Alemtejo, fl. 24, col. I.
Sentença dada pelo infante D. Henrique, duque de Viseu e regedor da Ordem de Cristo, a favor de Diogo Lopes de Freitas, contra Martim Vicente Garrido, pela qual foi condenado a pagar dois barcos bons e aparelhados como o que levara carregado de trigo pela foz do rio de Castro Marim sem pagar o direito de portagem na forma do seu foral. Escrito em papel, bem conservado e com selo de chapa. Dada em Estombar, a 20 de Janeiro de 1447.