terça-feira, 30 de março de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.

FIALHO, Maria Antónia Cúmano


Descendente de uma ilustre família italiana e herdeira de notáveis bens materiais e pecuniários, senhora da mais alta estirpe e das mais conceituadas figuras do Algarve. Nasceu em Faro, aqui viveu e faleceu, a 17-6-1948, com 87 anos de idade, no seu invejável palácio de Santo António do Alto, ainda hoje um dos edifícios mais belos e notáveis de todo o Algarve.
Dotada de grande inteligência e enorme sensibilidade artística, era muito culta e ilustrada, conhecedora das principais cidades europeias e dos melhores museus do mundo. Por outro lado, era bastante religiosa, cuidava dos pobres e desvalidos que atendia com avultadas esmolas, sendo por isso muito estimada em todo o Algarve. A sua benemerência, fulcralizada em Faro e Portimão, estendia-se em toda a região, protegendo também as artes e a cultura. A sua inclinação artística e cultural herdara-a do pai, o Dr. Justino Cúmano, falecido em 1885, que além de médico foi também um conceituado arqueólogo e numismata.
No seu palácio de Santo António do Alto reuniu, em parte como herança dos seus ascendentes mas também como fruto da sua dedicação e amor à arte, uma valiosa colecção de quadros, esculturas, móveis e outros objectos de grande valor cultural que foi coleccionando ao longo da vida. Grande parte desse espólio foi depois repartido pelos seus herdeiros e hoje correm descritos nos catálogos de leiloeiros e coleccionadores de arte.
Era irmã de Paulo Cúmano, que faleceu com 92 anos de idade, a 21-6-1946, ou seja quatro dias depois dela, que embora estivesse já bastante doente não resistiu à comoção de tão dolorosa perda.
Era viúva do famoso industrial de conservas, João António Júdice Fialho, e mãe de D. Maria Justina Fialho de Sousa Coutinho, casada com D. António de Sousa Coutinho (herdeiro dos Condes de Linhares) e D. Isabel Maria Fialho de Mendonça; era avó de D. Maria Antónia de Sousa Coutinho Telles da Sylva, casada com D. José Carvalhal Telles da Sylva (herdeiro dos Condes de Tarouca) e D. Maria Constança de Sousa Coutinho Pulido Garcia, casada com José Pulido Garcia, abastado proprietário de Beja, e dos engenheiros D. Nuno e D. João de Sousa Coutinho.
Era cunhada de D. Ana de Bivar Cúmano e de D. Mariana Fialho Calado, casada com Basílio calado, abastado proprietário em Portimão.Era tia de D. Maria Luísa de Bivar de Sampaio e Melo, casada com o Dr. Lopo Vaz de Sampaio e Melo, de D. Maria Vitória, de D. Justina Cúmano, ambas residentes em Lisboa, e do Dr. Justino de Bivar Weinholtz (que foi conservador do Registo Predial e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Faro), do Dr. Raul de Bivar Weinoltz (que foi presidente da comissão municipal de Turismo de Faro), Luiz Frederico de Bivar Weinholtz, do Dr. Constantino de Bivar Cúmano, do eng.º Rui de Bivar Cúmano (que foi administrador do porto de Leixões), do Dr. Henrique de Bivar Cúmano (que foi naturalista do Museu de Bocage), do capitão Paulo Cúmano, de Lázaro Justino Cúmano, Francisco Constantino Cúmano, todos residentes em Lisboa, e de Francisco Fialho Calado, abastado proprietário em Portimão.
A ilustre Maria António Cúmano Fialho encontra-se sepultada no Cemitério da Esperança num magnífico mausoléu de família.

quinta-feira, 18 de março de 2010

FORMOSINHO, Maria Amélia Coelho de Carvalho Pimenta


Ilustre senhora, descendente das mais nobres famílias algarvias, casou com Bento Gomes Formosinho, distinto oficial do exército que exerceu as funções de governador civil de Faro. Era filha do conselheiro José dos Santos Duarte Pimenta, que foi um dos mais célebres magistrados do seu tempo.
Foi acima de tudo uma senhora de preclaras virtudes, muito admirada pela sua esmerada educação, fino porte e insignes atitudes de candura e bondade para com os mais pobres.
Teve quatro filhos: D. Josefa Margarida Pimenta Formosinho Guerreiro Tello; Dr. José dos Santos Pimenta Formosinho, notário e arqueólogo amador, assim como director e fundador do Museu de Lagos; Tenente Bento Pimenta Formosinho e Barnabé Pimenta Formosinho. Foi sogra de D. Maria José Fialho Barata Formosinho, de D. Beatriz Abranches Formosinho, de D. Olivia Novak Formosinho e do Dr. António Guerreiro Tello, ilustre clínico em Lagos.
Faleceu em Lagos, a 1-6-1953, com 87 anos de idade, tendo o seu funeral o acompanhamento de centenas de pessoas, numa sentida manifestação de pesar e saudade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

FONSECA, Marina Romero Santos


Bondosíssima senhora da melhor sociedade algarvia, natural de Faro, que faleceu em Lisboa nos finais de Outubro de 1947, com 71 anos de idade. Era viúva do coronel António dos Santos Fonseca e mãe da pianista D. Ema Romero Santos Fonseca da Câmara Reys, casada com o escritor Dr. Luís da Câmara Reys.
A ilustre benemérita farense era irmã de D. Clotilde Romero Reis e de D. Aida Fonseca Romero, ambas residentes em Faro, e era tia de D. Maria Cristina Sieuve Romero Penco de Almeida e de João Romero dos Reis, ambos residentes em Lisboa.

FERRO, Helena Tavares


Algarvia, creio que natural de Loulé, faleceu com 81 anos de idade, em Lisboa, a 21-4-1946, vítima de síncope cardíaca
Era casada com António Joaquim Ferro e mãe amantíssima do escritor António Ferro, ilustre director do Secretariado de Informação e grande obreiro da cultura nacionalista do “Estado Novo”. Era sogra do Dr. Augusto da Cunha, na altura director da revista «O Mundo Português».

terça-feira, 9 de março de 2010

AZEVEDO, Maria da Circuncisão Alves Cavaco de


Professora primária de grande talento artístico, indefectível divulgadora do sistema pedagógico de João de Deus. Era natural de Alte, concelho de Loulé, e nessa freguesia veio a falecer em 2-4-1944, nos braços do seu marido, o jornalista Cruz Azevedo.
Costuma dizer o povo que por detrás e um grande homem está uma grande mulher. E assim aconteceu de facto. O conhecido jornalista e redactor regional de «O Século», Cruz Azevedo tornou-se num dos mais conhecidos animadores culturais do Algarve, divulgador das efemérides regionais e impulsionador das comemorações festivas do Centenário de João de Deus, pertencendo porém a sua esposa grande parte do esforço que levou à obtenção dos fundos necessários à elevação do monumento que o autor do Campo de Flores possuiu em Faro.
A Prof.ª Maria Cavaco Azevedo é ainda hoje lembrada nas terras por onde exerceu o seu múnus profissional, pelo carinho que derramava sobre as crianças, oferecendo aos mais pobres o material escolar de que careciam, quando não lhes distribuía o pão que não possuíam em casa. Em Brancanes, no concelho de Olhão, onde desempenhou oficialmente os últimos anos de serviço, ensaiou com os alunos várias peças de teatro, organizou recitais de poesia e festejava sempre com júbilo as datas oficiais que rememoravam no espírito dos mais jovens a Restauração da nacionalidade e o dia de Camões. Aliás sempre divulgou o autor dos Lusíadas como um verdadeiro “pai da pátria” distribuindo às crianças alguns sonetos, que depois de decorados eram recitados perante os pais e familiares da comunidade estudantil olhanense.
Acima de tudo foi um bom exemplo de competência e dedicação à difícil arte de educar crianças num meio carenciado, onde o apelo do mar e da pesca era mais forte do que os bancos da escola.
No dia 14 de Maio, logo a seguir à sua morte, foi-lhe prestada uma sentida homenagem na Casa do Povo de Alte, terra da sua naturalidade, onde usaram da palavra o Dr. Matos Parreira, em representação da Junta de Província, e os Drs. Falcão Machado e Virgílio Fagulha em nome da Direcção Escolar. Seguiram-se os depoimentos de amizade e profunda saudade das suas colegas, Prof.as Maria Elisa Aboim e Maria de Lourdes Madeira. Por fim foi descerrada uma lápida, oferecida pelos seus antigos alunos, na casa onde faleceu a Prof.ª Maria cavaco Azevedo, seguindo-se uma romagem até ao cemitério onde foram depositados inúmeros ramos de flores no artístico mausoléu mandado erguer pelo inconsolável marido, o jornalista Cruz Azevedo.
O seu único filho, Hélder Cavaco Azevedo, foi um artista de raro talento, pintor a óleo e aguarela, que se dedicou na juventude à fotografia e ao cinema, produzindo alguns documentários para a Tobis e depois para a RTP sobre as pescas e outros traços da etnografia algarvia, não deixando também de filmar as belezas naturais que estiveram na base do arranque do turismo na região. Emigrou para África onde se fez um prestigiado fotógrafo, nunca deixando de produzir alguns filmes para as empresas de cinematografia. Regressado à cidade de Faro estabeleceu-se com ateliê de fotografia, dedicando-se esporadicamente à pintura e ao jornalismo, sendo inclusivamente o fundador do Elismo no Algarve.

segunda-feira, 8 de março de 2010

CABEÇADAS, Maria da Graça Guerreiro


Natural de Loulé, faleceu em Lisboa com 70 anos de idade a 12-1-1930. Era casada com o conceituado comerciante José Mendes Cabeçadas (ver este nome) e mãe do comandante José Mendes Cabeçadas Júnior, do capitão João Cabeçadas, de Joaquim Cabeçadas, de Nuno Cabeçadas e de Berta Cabeçadas; sendo irmã de Manuel Fernandes Guerreiro, conceituado comerciante estabelecido em Faro.
Muito apreciada nas suas qualidades humanas de bondade e generosidade, foi sepultada no cemitério oriental de Lisboa a 13-1-1930 perante numeroso e prestigiado acompanhamento.

CABEÇADAS, Judite Rosa


Foi a primeira mulher formada em Direito no Algarve.
Filha de Mariana Rosa Cabeçadas e do coronel Joaquim Mendes Cabeçadas. Estudou no Liceu de Faro e na Faculdade de Direito de Lisboa onde concluiu o seu curso a 25-7-1925, com excelentes classificações e apenas 24 anos de idade.
Empregou-se em Lisboa como ajudante notarial no cartório do Dr. Noronha Galvão, pensando vir a fixar-se em Faro nas mesmas funções.

quinta-feira, 4 de março de 2010

BRAGANÇA, Margarida da Conceição


Senhora de grande ilustração, natural de Lisboa que faleceu em Faro a 4-1-1936, com 92 anos de idade.
Senhora da melhor sociedade, muito culta e sobretudo bastante bondosa, sendo estimada pela sua afabilidade, esmerada educação e dotes de benemerência, ainda que parcos fossem os seus réditos económicos.
Era tia do pintor Carlos Augusto Lyster Franco, professor e antigo director da Escola Tomás Cabreira. Foi na sua companhia que veio para Faro, já viúva, tratando o sobrinho com um desvelo maternal. Aquele artista e notável professor comprou em sua honra uma campa perpétua, onde inclusivamente, em 1984, viria a ser sepultado o Dr. Mário Lyster Franco, na qual ainda jaz incógnito.
Era viúva do escultor Ernesto José Bragança

quarta-feira, 3 de março de 2010

BIVAR, Maria Luiza Hickling Pereira da Silva de

Distintíssima figura da primeira e mais afidalgada sociedade algarvia, natural de Ponta Delgada, faleceu em Faro a 17-7-1930, com 94 anos de idade. Era filha de D. Ana Hickling de Medeiros e do conselheiro Dr. Mateus António Pereira da Silva, antigo corregedor e deputado. Na altura do seu passamento era viúva do conselheiro Luiz de Bivar, antigo presidente da Câmara dos Pares e Juiz do Supremo Tribunal de Justiça.
Era irmã de D. Francisca Emília Cabreira, casada com o gen. Thomaz Cabreira, e de D. Ana Henriqueta de Bivar, esposa de Jerónimo de Bivar; e tia do coronel Thomaz Cabreira, antigo Ministro das Finanças e professor da Universidade de Lisboa; de António Cabreira, conde de Lagos e do eng.º agrónomo Manuel de Bivar Weinholtz, da D. Ana de Bivar Cumano, de Justino de Bivar Weinholtz, de D. Maria Luiza de Sampaio e Melo e dos srs. Luiz, Raul, Jerónimo de Bivar e Dr. Constantino de Bivar Cumano.

terça-feira, 2 de março de 2010

ASSIS, Joaquina de



Senhora da melhor sociedade farense, que faleceu nesta cidade, com 88 anos de idade, a 16-3-1930. Era mãe do Dr. Alexandre Pereira d’Assis, subinspector de saúde em Faro; de D. Gertrudes Assis de Figueiredo, viúva do Eng.º agrónomo Alexandre de Sousa Figueiredo. Tinha também uma filha, de que não sei o nome, casada com o judeu Abraão Ruah.
Era avó de D. Antónia de Figueiredo e Melo, esposa do Eng.º agrónomo Alexandre de Figueiredo e Melo; de D. Teolinda Barbosa, esposa de José Avelar Barbosa e de D. Maria Isabel Arouca Assis Simões esposa do Dr. José Monteiro Simões que era professor do Liceu de Faro.
Ao funeral de D. Joaquina d’Assis compareceram centenas de pessoas originárias de todas as classes sociais, pois que gozava de enorme prestígio social granjeado pelas suas acções de bondade e benemerência.

segunda-feira, 1 de março de 2010

ASCENSÃO, Olímpia Lamas de Aboim

Distinta senhora da melhor sociedade farense, viúva do benemérito coronel Rodrigo de Aboim Ascensão. Nasceu em Faro e faleceu na sua residência em Lisboa, a 13-10-1933, com 76 anos de idade. Foi sempre um modelo de virtudes e de grande carácter, defendendo os mais desfavorecidos e protegendo os humildes, seguindo nesse exemplo o seu saudoso marido, um dos amais altruístas e beneméritos cidadãos farenses, a quem se ficou a dever a fundação do Refúgio que tem o seu nome.
O féretro da veneranda D. Olímpia veio por via-férrea para Faro a fim de ser sepultado no jazigo de família no cemitério da Esperança

AMRAM, Sol Sequerra

Senhora de nação judia, educada nos moldes da sua tradição religiosa, que teve lugar cimeiro na sociedade farense. Faleceu na sua residência de Lisboa a 29-3-1934, com 58 anos de idade. Foi casada com o industrial Abrahão Amram que construiu a magnífica residência apalaçada na rua Filipe Alistão, onde se encontra hoje o Colégio Algarve.
Viveu durante largos anos em Faro e aqui lhe nasceram os seguintes filhos: D. Orovida Luna Amram Levy (que à data do passamento da mãe estava viúva de Salomão Isaac Levy) D. Raquel Amram, Samuel e Josuah Sequerra Amram.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Uma viagem através da Luz


José Carlos Vilhena Mesquita

Com a chancela da prestigiada Papiro Editora acaba de vir a público mais um livro de poesia de José Vieira Calado, poeta consagrado de que o Algarve, especialmente a cidade de Lagos, muito se orgulha. A obra intitula-se Viagem através da Luz, e inscreve-se naquilo a que podemos designar por poesia experimental, uma via mais no recente trajecto do pós-modernismo lírico. O livro é, em si mesmo, uma unidade poética, constituída por um único poema, repartida por vinte e nove fracções, digamos assim, cujo tema principal é a Luz sideral e o universo cósmico, cujos versos pretendem conduzir o leitor numa inebriante viagem através do espaço celeste. Em todo o caso, é bom que se diga, o livro não é uma obra de ciência, mas de poesia, nem é tão pouco um repisar dos caminhos desbravados por António Gedeão, quando transformou a Física e a Química num objecto poético, formando um novo estilo lírico que se poderia designar por poesia-científica. Não, este é um livro muito diferente, tanto na abrangência temática como na extensão unívoca do poema, sendo que apenas existem algumas similitudes na dimensão da mancha poética. Nas suas fraquezas e virtudes, este livro é bastante inovador, não só como peça de arte mas também como peça literária, sendo que na sua formulação diegética até parece mais próxima da primeira do que da segunda. E isto em nada deslustra a qualidade e valor desta obra.
A ninguém hoje assalta a dúvida de que a poesia de Vieira Calado está indubitavelmente ao nível do melhor que neste país se tem dado a público no sublime prelo de Orfeu. Conheço o poeta, e a sua obra, há mais de trinta anos e o que acabo de afirmar não é um exagero de amizade nem de admiração, mas tão só a simples constatação de um processo de vida literária, marcado pelo aperfeiçoamento e depuração das qualidades criativas do seu estro poético. Mas essa viagem de progressiva qualidade tem-se demonstrado não só na sublime concepção estética em que se inflamam os seus poemas como, muito especialmente, na sua idealização lírico-filosófica. Essas qualidades, convenhamos, não estão ao alcance de todos os poetas, mas tão só dos mais qualificados, criativos e inspirados. E nos seus poemas, como aliás na maioria das obras de arte consideradas de superior qualidade, nota-se que a inspiração poética não é repentina nem flamejante; bem pelo contrário, é pensada e exaustivamente reflectida, é ponderada e sopesada nos mais elevados valores e conceitos da estética e da metafísica filosófica.
Esta Viagem através da Luz é a mais recente produção de Vieira Calado, no contexto de uma obra de vasta dimensão, com dezassete títulos de poesia e três de prosa. Pela sua insistência e quantidade, pode afirmar-se que Vieira Calado é acima de tudo um poeta, no mais sublime e exigente que essa qualificação encerra, ainda que como prosador – e aqui relembro o seu belíssimo e enternecedor livro Merdock, sobre um simples cão que personificou os ideais de liberdade e agitou a academia farense nos anos cinquenta – se deva também considerá-lo como um escritor, a quem o ensaio literário e o estudo científico não são igualmente estranhos.
Neste livro vislumbra-se o plectro de Orfeu, mas num patamar muito superior ao que se costuma ver no contexto poético algarvio. Aqui a palavra supera o sentido meramente estético do verso poético, pelo que o parnasianismo da ortodoxia lírica que enforma a maioria dos poetas algarvios contemporâneos, está absolutamente distante, e diria até que totalmente fora dos horizontes poéticos de Vieira Calado. Mesmo se remontarmos aos seus dois primeiros livros, publicados ainda numa poesia “imberbe”, vemos que os seus versos são pujantes gritos de revolta contra a opressão salazarista e a privação das liberdades e garantias, em que se sustentava a obscenidade plutocrata do capitalismo vigente, afinal de contas problemas que hoje absurdamente se repõem num regime de liberdade e de democracia plena.
Em todo o caso, e retomando o fio crítico, a poesia de Vieira Calado, desde o seus primeiros vagidos poéticos que se assume nos antípodas estéticos aos cânones ortodoxos da poesia clássica e aos tradicionais figurinos líricos que enformam a nossa poesia desde os heróicos modelos do Romantismo e dos bucólicos tempos do Naturalismo até aos difíceis da anos resistência neo-realista. Foi na alvorada dos anos sessenta que os moldes clássicos da criação poética foram absolutamente implodidos, quando ainda ninguém imaginava possível a eclosão da grande revolução social do Maio de 68, cujos ténues sinais já se vislumbravam, mas que só foram possíveis através dos crescentes sinais de mudança e de contestação juvenil, que uma emergente geração nova fazia desfraldar aos ventos a bandeira da liberdade, cortando as cadeias que manietavam o pensamento e amortalhavam os redentores ideais do Mundo Novo.
Os poemas deste livro giram em torno duma espécie de viagem cósmica impulsionada à velocidade da luz pela força da palavra. A ideia incomensuravel do universo físico está patente neste livro através da persistente alusão aos seus elementosáconstituintes, com particular acinte na luz solar, fonte e gérmen de vida, nos astros que integram o nosso sistema astronómico (estrelas, cometas, planetas, quasares), assim como nas figuras que compõem o nosso universo mítico, como a Fénix, a cobra alada, a pedra filosofal, os grifos das trevas e os cavaleiros do apocalipse, os mitos da Esfinge, de Andrómeda e de Prometeu, enfim toda uma panóplia de aparente fantasia científica, que aqui é tratada e transmitida de forma etérea na volatilidade do verso poético.
Os poemas deste livro giram em torno da palavra filosófica, das imagens metafóricas surrealistas e da estética pós-moderna. Paradoxalmente estes poemas não estão titulados, porque não existe um tema específico para cada um deles. Na verdade são incursões nas profundezas do inconsciente, que se reflectem num encadeamento de ideias e de figurações do irreal, que sensibilizam esteticamente o leitor para novas concepções tropológicas. O poeta não escreve a pensar no leitor ou em que o possa interpretar. Por isso não me parece que estes poemas se possam considerar acessíveis a todos, mas antes, e sem desprimor, só para alguns, certamente para os mais inteligentes e mais aptos, que são os únicos capazes de interpretar e desfrutar das ideias do poeta, algo etéreas mas profundamente ontológicas nesta Viagem através da Luz.
No fundo, todo o livro constitui uma viagem, um trajecto de quadros cenáticos que se sucedem e se engastam de forma lógica para a constituição de um todo. Isso não acontece num livro de poesia, onde cada poema é uma viagem, é um itinerário de ideias e de alegorias que enlevam o pensamento do leitor numa inebriante mensagem de sentimentos, de emoções e de sensações estéticas.
Nesta Viagem através da Luz não acontece isso, porque os 29 poemas que constituem este livro têm uma relação conjunta, uma complementaridade entre si, e uma filiação global que os transformam num corpo, desarticulado é certo, mas consistente do ponto de vista das ideias e dos conceitos estéticos imanentes. Repare-se no simbolismo da Luz que dá o cerne a este livro e que, por isso mesmo, lhe é omnipresente, mas cuja essência não se consegue apreender, porque a luz vê-se, sente-se e invade-nos o espaço físico, mas não se consegue capturar ou impedir o seu curso natural, porque dela provém a fonte criativa da vida. A Luz neste livro é também a permanência da razão, é o estímulo e a sensação que invade o espírito do leitor, numa impressão inequivocamente etérea e volátil. Acima de tudo, o poema quis atribuir à Luz a ambivalência dialéctica do material e do espiritual. Mas, na verdade, a Luz é o símbolo da imaterialidade, da ilustração e da concepção do espírito, como génio criador da percepção das ideias e dos pensamentos superiores. Por isso, mas também por ser fonte de vida, é que se atribuem sentimentos de sacralidade e de divino endeusamento. No entanto, se a luz do Sol significa a vida, é certo que também traduz a visão espiritual e a inspiração criativa. A luz da Lua, por ser reflectida, simboliza uma forma de conhecimento infundido no pensamento racional e discursivo. Nela cabem a certeza, mas também o mistério. Cabe, portanto, ao leitor escolher se prefere a luz do sol, original e divina, ou a luz da Lua, reflectida, aparente e enigmático. Por mim, prefiro esta, e aprece-me que o Vieira Calado também.

(texto de apresentação da obra Viagem Através da Luz, da autoria de Vieira Calado, efectuada na livraria «Pátio das Letras», em Faro, a 18-01-2010)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

ALBUQUERQUE, Maria José de Mascarenhas Gaivão Mouzinho de


Viúva do grande herói Mouzinho de Albuquerque, que ele próprio considerou como a verdadeira estrela de todas as suas campanhas em África, que o seguiu em todas as incursões pelo vasto e inóspito continente, fiel companheira, colaboradora insubstituível, imprescindível na organização dos materiais científicos e na montagem dos hospitais de campanha, onde prestou preciosos auxílios de enfermagem aos soldados feridos pelos rebeldes inimigos.
Como mulher e esposa encarnou o paradigma da companheira inseparável, tornando-se no modelo da mulher portuguesa, que por todo o país recebeu provas da maior admiração e carinho, o que deixou o Algarve muito orgulhoso.
Aquela a quem o poeta Afonso Lopes Vieira chamou um dia “a primeira senhora portuguesa” era natural de Estombar, concelho de Silves, e faleceu em Lisboa em finais de Agosto de 1950, com 93 anos de idade. Descendia de uma ilustre família algarvia, aparentada com os ilustres Mascarenhas que se bateram heroicamente durante as Lutas Liberais.
Casou-se em 1883, na cidade e Coimbra, com o seu primo Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, na altura um desconhecido alferes que logo seria mobilizado para a Índia. Partiu o jovem casal num périplo pelo antigo império, durante o qual se haveria de cobrir de glória aquele heróico soldado, cuja carreira militar marcaria de forma indelével a história portuguesa nos finais do século XIX.
Acompanhou o percurso histórico de seu marido, sempre ao seu lado, como um anjo da guarda. Esteve com ele no governo de Lourenço Marques, na campanha contra o famoso Gungunhana, na estrepitosa campanha de Gaza, no violento combate de Macontene, no retorno ao governo de Lourenço Marques e depois no triunfal regresso à metrópole, à atribulada vida de Lisboa, às intrigas na corte e ao trágico episódio do suicídio de seu marido, até nisso um homem de honra que a pátria não soube merecer.
Em todos esses momentos, uns mais nobres e gloriosos, outros menos felizes e memoráveis, esteve D. Maria José Gaivão sempre presente com a postura de uma grande senhora, quase uma rainha a quem enojaria o trono. Os ano que se seguiram à viuvez, que duraram quase meio século, foram de total apagamento, afastando-se da balofa convivência social da nobre elite a que pertencia, para se refugiar numa aura de absoluta humildade, como se fosse um símbolo nacional das mais sublimes virtudes.
O seu funeral constituiu uma das maiores manifestações de patriótica saudade e de luto nacional por aquela que era a última senhora de uma plêiade de heroínas que a proletarização da República quase fizera esquecer.
Deixou parte dos seus bens aos pobres, ficando como herdeiros os seus sobrinhos, a saber, o Dr. João Pedro de Mascarenhas Gaivão, que foi juiz distintíssimo e presidente do Círculo Judicial de Bragança, o eng.º Manuel de Mascarenhas Gaivão, que foi Governador Civil da Horta, e o Dr. Pedro de Mascarenhas Gaivão, famoso advogado em Lisboa.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

LEMOS, Maria da Piedade Aboim Ascensão de Sande


Benemérita local e primeira figura da sociedade farense do seu tempo. Nasceu em Faro, em 1867, e faleceu em 25-3-1944, aos 77 anos de idade, na cidade de Lisboa, onde fixara residência alguns anos antes. Na altura do seu passamento estava ainda de luto pelo falecimento do marido, Coronel José de Sande Lemos, ocorrido em Lisboa a 27-3-1943.
Dotada de excelsas qualidades humanas, dedicou parte da sua vida a cuidar dos pobres e das crianças desvalidas, mercê dos seus avultados bens de fortuna. Foi, por isso, uma grande benemérita local, a quem se ficaram devendo os altíssimos donativos que canalizou ao longo da vida para o Refúgio Aboim Ascensão, hoje denominado por «Emergência Infantil».
Por outro lado, sendo esposa de um oficial do exército e herdeira e uma das mais notáveis casas agrícolas do Algarve, viu-se durante a I Grande Guerra privada da companhia do marido e do filho, o major Manuel Aboim de Sande Lemos, ficando por isso entregue à sua administração todos os meios de sobrevivência da família, que ela geriu com a maior competência e inteligente criatividade, o que em vez de diminuir acabou por resultar no crescimento do seus bens e recursos financeiros.
Esses avultados cabedais económicos soube-os distribuir benemeritamente pelos mais necessitados, nomeadamente a Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, em Faro, para cuja sobrevivência contribuiu por várias vezes com elevados donativos, garantindo assim a manutenção do convento, das suas obras pias e sobretudo da Igreja do Carmo, cujas despesas de restauro e do exercício religioso sempre cobriu com indefectível generosidade.
O funeral de D. Maria da Piedade, realizado no dia 28 de Março de 1944, no cemitério da Esperança em Faro, foi uma das maiores expressões de pesar e de reconhecimento social prestado pelos habitantes da cidade, que reconheciam nela a “mãe dos pobres”, epíteto com que sempre foi conhecida.
Era mãe do Engenheiro Major do exército Manuel Aboim Ascensão de Sande Lemos e do Dr. José Aboim Ascensão de Sande Lemos, tia do Dr. José Aboim Ascensão Contreiras e irmã da igualmente benemérita D. Joaquina Ascensão Davim e do Coronel Aboim Ascensão, fundador do Refúgio das Raparigas em Faro.

NOGUEIRA, Maria da Conceição Corte-Real Moniz



Senhora das mais fidalgas origens e da elite farense, nasceu em 1914 em Vila Nova de Portimão e faleceu em Faro, onde residia, a 31-12-1953, com apenas 39 anos de idade. Era enteada de D. Maria Luísa Leote do Rego Mendonça Corte-Real e filha do, então já falecido, médico Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que foi uma das figuras de maior relevo na sociedade algarvia dos finais de Oitocentos.
Foi esposa amantíssima do ilustre médico e publicista Dr. João Moniz Nogueira, na altura director da Casa de Saúde, da Aliança Francesa e presidente da Direcção Diocesana da Liga Católica.
Pelas suas qualidades humanas e diamantino carácter desfrutava de grande estima no seio da sociedade farense, sendo presença constante junto das famílias mais carenciadas, levando ajuda material e uma palavra de conforto aos doentes e idosos. As crianças desvalidas, que sobreviviam em lastimável pobreza, eram também objecto da sua extremosa caridade. Pelo seu bondosíssimo coração fazia parte de várias instituições de caridade, de benemerência social e pertencia à direcção da Acção Católica em Faro.
Deixou dois filhos, ainda crianças, que muito sofreram com tão precoce desenlace.
A notícia do seu falecimento deixou a cidade em estado de choque, a ponto de várias festas e bailes de passagem de ano terem sido canceladas em sinal de luto e em respeito à sua memória. O seu funeral, realizado no dia 1 de Janeiro foi uma manifestação do mais sentido pesar, com a presença de centenas de pessoas oriundas de quase todo o Algarve. Por sua determinação ficou soterrada em campa rasa, como símbolo da sua humildade e desdouro pelas glórias terrenas.
Era irmã de D. Francisca Castel-Branco de Mendonça Corte-Real Costa de Azevedo e de Francisco Castel Branco Corte-Real, que foi um dos mais abastados proprietários da cidade de Lagos; era cunhada do major Josino Francisco Costa de Azevedo, que foi professor do Colégio Militar de Lisboa; de Lucília Amália Libreiro de Mascarenhas Corte-Real; e de Joaquim Pedro da Silva Negrão, rico proprietário em Lagos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Carlos Abreu

J. C. Vilhena Mesquita

Engenheiro mecânico e romancista, João Carlos Telo Baptista de Abreu Pimenta, de seu nome completo, que usava o pseudónimo literário de Carlos Abreu. Nasceu em 1926, na freguesia de São Sebastião, concelho de Lagos, no seio de uma abastada família da burguesia industrial, muito conceituada no Algarve, e faleceu em Outubro de 1999.
Fez os estudos secundários no Colégio Infante Sagres, em Lisboa, ingressando depois na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde concluiria, em 1951, com distinção a licenciatura em engenharia mecânica. Exerceu o seu múnus profissional em reputadas empresas de âmbito internacional sediadas em Lisboa e em Paris. Foi ao serviço das mesmas que percorreu a África e América Latina, numa odisseia mercantil que lhe permitiu conhecer diferentes culturas e adquirir impensáveis experiências de vida.
Em meados dos anos oitenta, retornou à terra-mãe após o que decidiu concentrar o melhor da sua atenção e do seu esforço na actividade cultural, nomeadamente na criação literária, tornando-se a escrita numa espécie de companheira fiel nos rebates de saudade das suas viagens e dos tempos felizes da sua juventude. Muitos desses momentos e dessas recordações materializou-as em belos quadros literários de um forte e expressivo realismo. Carlos Abreu revelou-se tardiamente como literato. Porém, depressa se tornou num valor seguro da cultura algarvia.
Como colaborador da imprensa algarvia estreou-se, em 1983, nas colunas do «Farol do Sul», passando pois pelas revistas «Nova Costa d’Oiro» e «Cadernos Históricos», e terminando no «Jornal de Lagos». Todos esses órgãos estavam sediados na sua terra-natal. Essa sua desinteressada colaboração na imprensa incidia geralmente em aspectos literários, muito particularmente na publicação de contos e de crónicas de belo recorte estilístico, a maioria das quais inspiradas nos actuais moldes da literatura britânica. Nessas crónicas revelava uma invejável cultura cosmopolita, estribada no conhecimento de diversas línguas e civilizações, nas suas experiências sociais e sobretudo nas viagens que realizou pelos quatro cantos do globo.
Os seus contos evidenciavam uma rara beleza estilística e uma grande versatilidade na construção do discurso literário. Já próximo do fim da vida dedicava-se aos estudos históricos regionais, sobretudo os que respeitassem à Náutica dos Descobrimentos. Não o fazia com grandes pretensões científicas, mas tão só pela simples curiosidade de saber mais sobre o glorioso passado da sua terra-natal. Por outro lado, Carlos Abreu era um inveterado apreciador das coisas marítimas e também um velejador que percorria a costa algarvia com a curiosidade de perscrutar os sentidos dos velhos argonautas seus antepassados.
Como intelectual e escritor foi membro de plenos direitos da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores e da Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve. Foi também Presidente da Direcção dos Estudos Marítimos de Lagos e vice-presidente da Academia de Música de Lagos, tendo igualmente pertencido aos corpos directivos do Círculo Cultural Teixeira Gomes e do Centro de Estudos Gil Eanes.
Quem teve o privilégio de privar com o Eng.º João Pimenta ou o escritor Carlos Abreu, sabe o quanto era estimado na sua cidade de Lagos, não só pela sua estampa de “cavalheiro britânico” como sobretudo pelas qualidades intelectuais e bonomia de carácter. Tinha amigos em todos os quadrantes sociais e à sua volta havia sempre quem o escutasse com atenção, admirando a forma como se exprimia, num tom sereno, baixo e pausado, próprio de um homem fino e educado. Pouco tempo antes de falecer tínhamos estado juntos no Centro Cultural de Lagos, onde fiz a apresentação do livro de Vieira Calado, Transparências, no fim da qual falamos dos seus projectos futuros, nomeadamente da preparação de um romance que tinha em mãos. A seu lado estava o também nosso comum amigo José Paula Borba e entre as suas preocupações recordo-me que destacava a centenária Sociedade Filarmónica com a sua notável escola de música, e a Misericórdia de Lagos a cuja benemerência não regateava elogios. A sua esposa, senhora de invejável beleza, segundo creio de origem britânica, subscrevia-lhe as preocupações, sobretudo na “cruzada” da música, cujo ensino entendia de fulcral importância na formação da juventude. Era um casal raro na nossa pequenina e por vezes tão provinciana sociedade.
Apesar de tudo, parecia estar bem de saúde e com vontade de prosseguir os seus projectos literários. Porém uma arreliadora insuficiência respiratória mantinha-o em tratamento médico, creio que em Coimbra e no Porto, onde se deslocava amiudadas vezes também para se actualizar junto das tertúlias literárias que o recebiam com agrado e satisfação. O seu porte elegante e cavalheiresco, o cachimbo inglês e os cigarros Gauloise, conferiam-lhe um semblante especial, a imagem de homem de outro pensar e de outros mundos. Verdadeiramente singular, Carlos Abreu era um estrangeirado, herdeiro da nobre cepa lacobrigense. Da sua estirpe havia poucos no Algarve e nesse alfobre de intelectuais, que é e sempre foi a cidade de Lagos, fica agora uma vaga insubstituível e uma profunda saudade.
A vida de Carlos Abreu foi uma odisseia pelo mundo fora, sobretudo em África e na América Latina, onde trabalhou como engenheiro mecânico na reparação naval ao serviço de uma empresa multinacional sediada em Paris. Dessa vivência e da sua intrínseca apetência para a escrita nasceram os seus romances Concurso Internacional, 1987; Em Busca de Ilusões, 1989; e Tolentino Venâncio, grande industrial, 1998, para além de dois livros de crónicas intitulados Gentes de Lagos, 1994 e Lagos, um certo tempo – Crónicas e reflexões, 1998.
Pouco tempo antes de falecer confidenciou-me que tinha prontos a entrar no prelo um romance intitulado «O Pescador de Sagres» e uma peça de teatro em três actos, «A Casa de Yolanda», cujos originais deverão permanecer em posse dos herdeiros. Projectava também dar a público uma compilação das suas melhores crónicas publicadas nos órgãos regionais acima referidos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

UMA NOITE COM O FOGO


José Carlos Vilhena Mesquita

Confesso que é sempre um prazer falar da obra do escritor António Manuel Venda, um dos mais jovens e promissores escritores da nova vaga literária, que tem emprestado às letras nacionais o brilho do seu talento e da sua ilustração intelectual. Devo acrescentar que o que mais me impressiona na sua forma de ser e de estar, assim como na sua personalidade de escritor, é a sua intrínseca e natural simplicidade, o seu espírito humilde e discreto, assim como a feição despretensiosa como encara o sucesso da sua obra e da sua relevante posição no contexto da moderna literatura portuguesa. Esses são apenas aspectos pessoais e muito particulares do homem/autor, que se reflectem e evidenciam na sua escrita e no seu próprio processo de criação narrativa, sendo, em minha opinião, de uma desconcertante simplicidade na forma como escolhe as palavras mais comuns para construir um texto muito difícil de elaborar, mas fácil de entender. Esta simbiose da facilidade da escrita e da compreensão do discurso narrativo, faz com que a sua obra literária se torne muito acessível e de apetecível leitura, sobretudo para o público jovem.
Este livro, Uma Noite com o Fogo, que tivemos a honra de apresentar oficialmente em Faro, na livraria «O Pátio das Letras», está integralmente redigido num discurso indirecto livre, que, no caso presente, constitui um recurso literário, ou uma estratégia de construção estilística, muito difícil de conceber e até mesmo muito raro de se ver no actual panorama da nossa literatura. Em todo o caso, o autor faz uso constante das exclamações, das interrogações, das reticências e dos localizadores temporais e espaciais que denunciam a presença do eu, aliás sempre recorrente e quase omnipresente na construção diegética da obra. Este recurso ao eu, denuncia claramente a existência duma trindade diegética, consubstanciada na simultaneidade do autor, do narrador e da personagem principal numa só figura – o eu. E na construção desse eu, surgem como aglutinadores do discurso indirecto os verbos declarativos, sendo que os processos de subordinação desaparecem neste modo discursivo, fundindo-se a voz do narrador com a personagem principal, como se falassem ambas em simultâneo. Mas, no fundo, o que torna este livro numa obra de singular relevância é a sua formulação narrativa, assente numa consistente estrutura sintáctica e numa bem concebida elaboração frásica, em cujo âmago sobressai a sua construção semiótica, atribuindo um forte pendor simbólico aos pequenos enfoques em que decorre a acção diegética. Por outro lado, todo o livro é trespassado por constantes retrocessos no processo narrativo, entre o passado da meninice do narrador/personagem, pleno de bucolismo e ingenuidade, em contraste com o tempo presente, cujo ambiente social e envolvência natural se foi desgastando e adulterando no assoberbante vórtice materialista da vida moderna.

Uma obra independente

Dificilmente se pode classificar esta obra do ponto de vista estético. Não segue correntes nem estilos predefinidos. Ao contrário das obras anteriores, António Manuel Venda distancia-se nesta Noite com o Fogo da estética neo-realista, tão do seu gosto literário, para fazer uma breve incursão pelo romance experimental da nova vaga anglo-saxónica. Daí que seja difícil de definir ou de enquadrar esta obra numa corrente estética reconhecida, pelo que a melhor maneira de a classificar será precisamente considerá-la como obra independente, livre e sem alinhados clichés estéticos, fugindo assim aos modelos literários e a outros figurinos academicamente estabelecidos.
Acima de tudo este livro é uma obra de arte, esboçada numa pintura de emoções e de sobressaltos, na qual sobressai avassaladora a luz do fogo, entrecortada pela tisne penumbra dos fumos e das cinzas que cobrem de horrendo negrume a noite de todos os desafios e de todos os desencantos. Neste quadro já não se vislumbra a outrora verdejante paisagem da serra algarvia, mas vê-se em traço impressionista a exasperada e indignada luta do autor contra um cenário de catástrofe, que se torna insuperável devido à falta de concertação de meios e de união de esforços para compor com outras tintas um panorama cenatório de heróicos sucessos humanos. O que inflama este livro é precisamente a centelha de génio do António Manuel Venda, cuja indefinida corrente estética faz transparecer um estilo muito peculiar, estruturalmente descritivo com movimentações bruscas e muito imprevisíveis, mas intrinsecamente pictórico, numa espécie de naturalismo pós-milenarista, transfigurando a placidez dos seres e dos espaços naturais em fantásticas mutações oníricas, sem serem terrificamente intranquilas ou pavorosas. Bem pelo contrário, a sua criatividade literária revela-se numa acentuada imaginação estética, muito forte e diversificada em subterfúgios cinéfilos e em fobias de íntimo psicologismo.
No meu conceito, A.M.V. é um escritor da dialéctica espiritual, em toda a plenitude desse aparente contra-senso, cuja obra Uma Noite com o Fogo é sumamente difícil de qualificar, pois que não sendo um livro de contos, de crónicas nem de ensaios, também não é uma novela nem um romance, na verdadeira acepção teórica desse género literário. Por necessidade de funcionalidade analítica, digamos que se trata de uma crónica-romanceada, na qual o texto descritivo supera claramente o narrativo, obliterando o uso de personagens, suprimindo as localizações físicas, omitindo as referências cronológicos e preterindo os conflitos socioeconómicas para construir um romance, que não sendo de intervenção é, acima de tudo, uma obra de arte.
Não existe neste livro um único diálogo, um único momento em que o autor recorra ao discurso directo, talvez porque também nele não existam personagens, nem mesmo pessoas identificadas com nomes próprios. Nada neste livro está identificado, nem no tempo nem no espaço, certamente para que o leitor não se distraia nem se afaste do cento fulcralizador da narrativa – o fogo na floresta. Muito embora não se identifique o lugar onde decorre a acção diegética, deduz-se não só pelas origens do autor como ainda pelos constantes feedbacks autobiográficos, que se trata da serra de Monchique. Percebe-se que é nas terras do seu berço, porque no início do livro o autor-narrador-personagem dirige-se no seu automóvel a grande velocidade para sul, deixando para trás o Alentejo, correndo na direcção dos montes da sua infância, sugestionado pelas dramáticas imagens da floresta em chamas que pouco antes haviam sido difundidas pela televisão.
Tudo o que se vê e sente neste livro é a percepção da dramática falta de meios, e da natural insuficiência humana, na luta contra o fogo. São as chamas diabolicamente a lavrar na serra, como se fossem um indestrutível e incontrolável monstro, a cuja avassaladora força e impiedosa devastação se submetem a exuberante, mas indefesa, natureza e as populações locais, cujos bens e, por vezes, até as próprias vidas, se perdem numa luta titânica contra a força dos elementos, que nem o engenho nem a bravura humana conseguem superar.
O fogo assume neste livro um enquadramento preponderante, no espaço cenático e na construção diegético, desenvolvendo-se por vezes ao nível duma personagem que se transfigura entre uma luminosa referência no horizonte e uma dócil linha de fogo, que rasteja aos pés do narrador, para logo se transmutar num mar de alterosas labaredas, que tudo devora e devasta numa impiedosa onda de cinzas e calcinados destroços. O fogo é como que a personagem superestrutural desta obra. É nele que se materializa a violência, o desastre, a morte e a devastação, numa concentração activa contra a própria Natureza, o Ambiente e a Floresta, numa espécie de trindade dos elementos, que em Monchique dá o cerne e a vida àquele povo e àquele território. O espectro do fogo e da incineração da serra de Monchique tem sido ao longo de séculos uma ameaça constante, um traiçoeiro inimigo, um monstro terrífico e catastrófico que tudo reduz a cinzas, transformando a beleza natural dos ricos montados de sobro, das florestas de pinheiros e de castanheiros, em horrendos campos de escombros e cinzas.
Desde há séculos que a riqueza do povo monchiquense se tem estribado na produção agro-pecuária e numa prolífera indústria florestal, mercê de um microclima favorável à silvicultura. Por isso não admira que o tema principal deste livro tivesse incidido precisamente na dramática descrição do devastador incêndio ali ocorrido (neste caso em 2004), que durante dias lavrou impiedosamente por toda a serra, reduzindo a cinzas uma vasta concentração florestal formada por diversas espécies arbóreas, algumas delas únicas e insubstituíveis, cujo repovoamento e substituição ocupará várias décadas e algumas gerações até que definitivamente se volte a reconstituir na sua plenitude.

As personagens intradiegéticas

Neste livro as personagens são figuras literárias, embora não sejam pessoas nem propriamente personagens narrativas, mas antes espaços, contornos, delineamentos de cenas dramáticas, sem sangue nem violência humana, mas antes com o dramatismo da destruição plena e irreversível do fogo na floresta, o que dá às figuras do romance uma personalização muito especial e muito activa naquilo a que podemos designar por “cenas de fulgor”, isto é, os momentos em que a narrativa chama o leitor para o centro da acção diegética, fazendo-o sentir a experiência e a dramatização do quadro literário.
Dado que as personagens deste romance adquirem pouca expressividade literária, até porque se confundem com a triangulação do autor-narrador-personagem, pois que lhe são próximas das suas memórias de infância, ou que lhe são íntimas como é o caso dos seus familiares, percebe-se que são personagens de opaca identidade ou de esbatida descrição física e de sofrível afirmação psicológica. Podemos mesmo afirmar que neste livro as personagens não são proeminentes nem afirmativas, permanentes ou insistentes, sendo simplesmente meros suportes da narrativa, quase figurantes secundários, uma espécie de dramatis personae num palco desprovido de um multiforme enquadramento cenático. Por outro lado, o tempo da acção diegética é também triangular e pluridimensionado entre o passado e o presente e – aqui é que está a diferença – a inexistência do futuro, aliás impossibilitado pela devastação do fogo.
É curioso que neste livro o tempo diegético constitui uma espécie de fusão das diferentes dimensões do próprio tempo, que se espraia, se confunde e se mescla numa sucessão interactiva entre tempo biológico, tempo psicológico, tempo histórico e tempo ontológico. O poliedro construído no cerne da narrativa entre o tempo, a sua duração e sucessão, põe, por vezes em dúvida ou em confusão, as noções de início e de fim, de presente e de passado, esbatendo-se as suas naturais coordenadas de espaço e de referencial, dando azo a que a narrativa assuma uma certa autonomização de linguagem, não só para a concepção do espaço recente, ausente e irreal, como ainda para a sua distanciação tridimensional entre o passado, o presente e o narrador-personagem. Isso vê-se ou constata-se em momentos fulcrais da narrativa, quando a imaginação do narrador resvala para o fantástico, confundindo a realidade com a fantasia, construindo um diálogo surdo mas visivelmente sensorial entre personagens reais e irreais, numa dinâmica multifronte e inapreensível.
Salta à mente do leitor a necessidade de reflectir, como participante intradiegético, num processo de autognose individual e intimista sobre o devir do homem, sobre o ambiente que o rodeia e sobre a preservação do património natural, que não lhe pertence, mas que é um legado a ser integralmente transmitido às gerações vindouras.
Para terminar devo acrescentar que esta obra não se integra no Realismo Urbano dos seus romances anteriores, mas antes numa espécie de Naturalismo Burguês Telúrico, pois que a narrativa é concebida pelo autor-personagem António Manuel Venda, que se ausentou do espaço natural que lhe foi berço para o centro urbano e burguês, onde fez a sua formação intelectual e a sua adaptação ao espírito materialista dominante, no qual se adapta mas que repudia em face das referências naturalistas, sinceras, desinteressadas e solidárias, onde fez a sua socialização primacial.
O autor-narrador-personagem, regressa neste livro ao espaço natural das suas origens, que descreve, aliás, como sendo o espaço da interacção moral entre o sacrifício do trabalho árduo, a coragem solidária, a honradez social, a ética espiritual e fraterna, contra o egoísmo do materialismo insensível e desumanizante. O cerne principal desta obra é o ambiente natural da serra de Monchique, em toda a sua plenitude, sendo por demais evidente que o António Manuel Venda faz a descrição da envolvente biodiversidade da fauna e da flora, como alguém que conhece ao pormenor os diferentes elementos naturalistas, enumerando distintas espécies arbóreas, como amieiros, sobreiros, azinheiras, alfarrobeiras, medronheiros, castanheiros e pinheiros, em cujo ambiente é sempre possível que o leitor seja confrontado com episódios de imaginosa fantasia, entre o pícaro e o trágico, como a descrição de perigosas alclaras, fugidios texugos e javalis, moribundos escalavardos, misturados com o espectro fastasmagórico de um “Rasputine a preto e branco”, que presumo venha a ser aproveitado para um próximo romance, à imagem do “mágico-velhinho” de livros anteriores.

Apresentação do livro, realizada a 24-04-2009, na livraria Pátio das Letras, em Faro

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Casa das Areias, de Luísa Monteiro


José Carlos Vilhena Mesquita
O romance, A Casa das Areias, da autoria de Luísa Monteiro, destina-se a um público adulto e culto, não é um livro banal nem ao alcance de todos. Para o lermos necessitamos de uma certa cultura e uma certa maturidade literária. Não é um livro difícil, quer na escrita quer na trama romanesca. Em todo o caso é um livro que exige do leitor uma certa capacidade intelectual para perceber a saga de duas famílias que se desenrola durante quase um século. Possui uma estrutura de longa duração, sem se tornar enfadonho, maçador, parado ou ronceiro. Bem pelo contrário. Desenvolve-se com alguma celeridade, dando não raras vezes às personagens retratadas uma vida efémera, sem pujança nem peso narrativo, mas com um vínculo por vezes mítico do amor inatingível, dilacerante e frustrante.
A grande lição a retirar sumariamente deste livro é que o amor não se cura no casamento. A liberdade de sentir e de amar sem peias nem regras constitui a essência do amor. Só é livre quem ama. Mas só verdadeiramente ama quem despojado de interesses materiais faz do amor o valor supremo da vida.
O cenário espácio-temporal desta obra é o século XX na região minhota, que aliás, retrata de forma magistral em todos os aspectos, quer no ambiente natural, quer na envolvência social embasada na má distribuição da riqueza. Mas incide mais concretamente no concelho de Vila Nova de Famalicão. Os campos, as culturas, os costumes, as tradições, a gastronomia, a religiosidade nos seus tabus e fetiches, em suma, os defeitos e virtudes da gente simples e humilde, que conceptualiza na verticalidade dos princípios éticos da honra, a bandeira duma alma popular erguida e defendida ao longo de séculos.
Existem na contextualidade narrativa dois vectores primaciais que conduzem como linhas de força todo o romance: um vector feminino dominado pela figura de Ana, cujas origens judaicas fazem dela uma mulher enigmática, cobiçada na sua irradiante beleza, invejável na sua fortuna, inimitável na sua sedutora sensualidade. Uma matrona de numerosa prole, escoriada em avultados cabedais que a tornam aos olhos do vulgo numa mulher poderosa, admirada e temida.
O lado narrativo masculino é dominado por Camilo Augusto, um brasileiro de torna-viagem, boçal e agressivo, dourado pela riqueza granjeada entre selvagens. Uma figura carregada de traços camilianos, que definhará mais tarde de paixão pela judia que repudia os seus encantos materiais por não lhe suportar a negritude da alma.
Visível é também neste livro o choque de culturas numa certa conflitualidade de gerações. O emancipalismo feminista de Ana espelhado na sua luta pela liberdade de pensamento e de acção, na sua independência, na integridade do seu território e no desprezo pelo macho, ainda que deixando-se possuir por ele, é sinónimo duma força de carácter que inspirará todos os seus descendentes.
Daí que a narrativa se reparta entre a riqueza e a pobreza, a independência moral e a subserviência dos que rodeiam as figuras sobre as quais assenta toda a estrutura romanesca. Neste ambiente social desenvolve-se um tempo diacrónico cujas balizas, ainda que difíceis de definir parecem estabelecer-se entre o fim do século XIX e os conturbados anos revolucionários do pós-25 de Abril. Como marcos surgem as duas guerras mundiais, que escalavraram a fortuna de ambas as famílias e moldaram novas mentalidades. A sucessão do tempo é também a substituição das personagens pelos seus descendentes que assumem progressivamente o papel de protagonistas na diegese narrativa. É disso exemplo o caso de Teresa, a filha de Ana, que vai sendo substituída pela radiosa figura de Esmeralda. O mesmo acontece ao vector masculino que tem em Augusto, filho de Camilo Augusto, que será substituído por Agostinho. Ou seja a narrativa passa de avós para netos numa incontrolável sucessão de tempo e de novas mentalidades. Em todo o caso, nota-se que é o vector feminino o vencedor, pela constância da sua força, do seu orgulho, da sua perseverança e do seu denodo. O vector masculino é retractado de uma forma mais torpe, mais desleal, mais sabuja.
A descrição da envolvência diegética é um dos pontos fortes deste livro. As cores, os cheiros, as formas, os sons e as texturas ressaltam do livro duma forma muito viva, muito real, que lhe dão a aparência da verdade através do constante recurso a imagens poéticas, extrapolações metafóricas e comparações analépticas.
Uma das facetas mais interessantes do livro é aquela que se prende com a arqueologia dos sentidos, atraindo a atenção do leitor para os cheiros, sabores, sons, texturas e visões de um Minho deslumbrante e sedutor. No contexto da estimulação sensitiva a autora recorre ao prazer gastronómico, fazendo constantes referências aos pratos e iguarias minhotas. A estratégia prandial foi aliás muito usada por Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro e tantos outros autores da nossa melhor safra literária.
Não menos curiosa é também a descrição dos moribundos, que tem algo de plangente e teatral, no fundo é a atracção lírica pela morte, como redentora da vida. A despedida da vida, quando não ocorre de forma repentina e acidental, tem algo de romântico, o que na literatura clássica se explorou quase até à exaustão. Com a Luísa Monteiro não é tanto assim, embora elabore quadros de morte profundamente sentidos. Não obstante poupa tempo e espaço com as personagens secundárias que surgem de forma quase espontânea, mas também morrem num ápice, deixando breve rasto na narrativa. Para dar uma certa autenticidade ao romance insere-lhe figuras reais como, por exemplo, Adolfo Casais Monteiro, nomes de empresas, de indústrias de ruas, freguesias e locais que verdadeiramente ainda hoje existem, deixando o leitor intrigado, confuso e surpreendido, pela ousadia de se misturar a realidade com a ficção. Mas isso é mais uma estratégia ou recurso literário para construir a saga destas duas famílias que atravessam todo o século XX, perdendo paulatinamente o seu protagonismo económico, para se esvaecerem na voragem do tempo e nas mudanças socias operadas.
Merece também que destaquemos o recurso ao rifoneiro popular, citando com a parcimónia necessária alguns provérbios adequados à construção narrativa. O mesmo acontece com a frugal utilização de vocábulos minhotos carregados de conotações brejeiras, eróticas, sarcásticas ou ridicularizantes. Tudo usado na proporção do quanto baste, sem exageros enfastiantes que, não raramente, banalizam e diminuem a qualidade da obra.
Por fim, e após sucessivas alterações geracionais dá-se a reunião dos dois vectores iniciais: o feminino da judia Ana e o masculino do brasileiro de torna-viagem Camilo Augusto. As duas narrativas que evoluem de forma distinta até ao último terço do romance acabam por confluir no casamento dos netos de ambos, Agostinho da parentela masculina e Esmeralda da feminina. O fruto de ambos, Eduarda, personifica a libertação e a vitória das mulheres num mundo dominado pelos homens. «Por isso, aos dezasseis anos despediu-se da família, ajustou o violino às costas e deu gás à lambreta azul que lhe ofereceram no aniversário. Para trás, uma geração densa de Evas, que ao longo de décadas assumiram o sacrifício de uma vida fora do Paraíso, ao lado de homens e rodeadas de filhos. Mas a genética tem caprichos muito curiosos e, de vez em quando, produz seres cujos comportamentos denotam uma intoxicação qualquer das marcas da eugenia, resultando daí personalidade pouco comum à árvore da genealogia».

[texto de apresentação da obra «A Casa das Areias», de Luísa Monteiro, proferido a 8-7-2000 no auditório da Câmara Municipal de Albufeira]