segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COSTA, Isabel Maria da Cruz de Brito


Senhora muito bondosa e estimada em Estoi, sua aldeia natal onde sempre residiu e onde veio a falecer a 19-9-1954, com 69 anos de idade.
Embora fosse uma senhora de excelsas qualidades humanas e cristãs, foi na companhia de seu esposo, o médico e poeta Augusto Emiliano da Costa, que mais e melhor se distinguiu, quer na assistência ao seu consultório, quer no apoio aos doentes mais pobres e às crianças desvalidas.
Sucumbiu ao cabo de alguns meses a uma doença incurável, deixando o marido e todo o povo da sua aldeia natal na mais inconsolável saudade.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BRITO, Maria Josefina Júdice Guerreiro de


Distintíssima senhora da melhor sociedade algarvia, natural da freguesia de Pêra, que faleceu em Faro, onde residia desde há décadas, em 4-6-1954, com 86 anos de idade.
Muito estimada pela sua lhaneza de trato e pela bondade de carácter, sobretudo pelos seus primorosos dotes de piedade e ternura pelos mais desfavorecidos. Toda a vida se ouviu falar do seu nome com estima e admiração, tendo juntamente com outras senhoras velado pelos pobres, combatendo a fome, o frio e a falta de lar das famílias mais carenciadas.
Era viúva do ilustre Dr. José Luís de Brito, que como juiz exerceu em Faro e noutras comarcas do País, sempre com a maior dignidade e isenção, o múnus da magistratura. Era mãe das senhoras Lucília de Brito Pavão Leal e Laura de Brito de Bivar Weinholtz, viúva do ilustre museólogo Dr. Justino Henrique de Bivar Weinholtz, e dos senhores Almirante José Augusto Guerreiro de Brito, que foi chefe do Estado Maior Naval; Eng.º Anastácio Guerreiro de Brito e António Guerreiro de Brito, que na altura vivia na Bélgica. Era avó das senhoras Maria Filomena de Brito Leal de Bivar Weinholtz, Maria Lucília de Brito Leal Monteiro e Isabel Maria de Brito Bivar da Silva e Sabbo; e dos senhores Eng.º Manuel de Bivar Weinholtz, Dr. Luiz Frederico de Bivar Weinholtz, 1.º tenente da Armada José Luís Sales Henriques de Brito, João Artur Sales Henriques de Brito e António Sales Henriques Guerreiro de Brito. Para além destes seus ilustres e mui dignos descendentes, deixou ainda 14 bisnetos.
Ficou sepultada em jazigo de família no cemitério de Pêra, tendo honrado o seu funeral a presença do Governador Civil do Distrito de Faro, eng.º Manuel de Mascarenhas Gaivão, ao lado do Comandante, e seu descendente, José Henriques de Brito, que representava o Ministro da Marinha, o Comandante Geral da Armada e o Director Geral da Marinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Gabriela da Fonseca de Bivar


Senhora da mais elevada sociedade farense e descendente das mais nobres e prestigiadas famílias algarvias. Era natural de Faro, onde faleceu a 5-5-1950, com 53 anos de idade. Era a esposa do conhecido e muito estimado Raul Cúmano de Bivar Weinholt, vereador na Câmara de Faro e presidente da Comissão Municipal de Turismo.
Dotada de uma educação esmerada, aliava a sua superior inteligência a um soberbo porte de nobreza, quer nos sentimentos como nas atitudes sociais, dedicando-se a obras de solidariedade para com os mais desprotegidos, com especial incidência nas crianças e nas mulheres pobres. As crianças do asilo de Santa Isabel em Faro foram objecto permanente do seu desvelo.
Gozava da mais profunda estima do povo farense, não só pelas suas origens como também pelas suas actividades de benemerência, auxiliando os desfavorecidos com boa parte dos seus bens de fortuna. Do seu finíssimo espírito e preclaras virtudes nasceu em torno do seu nome e da sua casa um ambiente de bondade e uma fama de santidade, que o povo animava a todo o momento com a divulgação de novos gestos de altruísmo e inimitável generosidade.
Um ano antes de falecer declarou-se-lhe uma doença incurável, com a qual lutou com grande coragem, padecendo de doloroso sofrimento que o povo foi acompanhando com indescritível tristeza. Por isso quando faleceu teve o maior enterro de que havia memória na cidade. As senhoras mais ilustres da sociedade algarvia, concentraram-se junto ao féretro, acompanhadas pelos representantes das principais instituições e autoridades locais. O município mandou colocar as bandeiras a meia haste em sinal de luto e em respeito à memória da sua ínclita cidadã.
Era filha de D. Maria Teresa Eusébio da Fonseca e do conhecido industrial José Alexandre da Fonseca, figura de proa da sociedade farense. Era irmã de D. Maria Teresa Fonseca Leal de Oliveira, do industrial José Alexandre Eusébio da Fonseca, do Dr. Manuel Eusébio da Fonseca, do major do Estado Maior, Jorge Eusébio da Fonseca e do comandante Henrique Eusébio da Fonseca, que foi capitão do porto de Olhão.
Era mãe de D. Isabel Luísa Fonseca de Bivar Azevedo e de José Manuel Fonseca de Bivar Weinholtz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Francisca Ribeiro de Carvalho Bivar


Ilustre benemérita e dama da mais nobre estirpe nacional, nascida em terras nortenhas, e falecida em Portimão, a 15-1-1946, com 84 anos de idade.
Veio para o Algarve como esposa do engenheiro agrónomo Francisco de Bivar Weinholtz, também ele pertencente a uma das mais notáveis e tradicionais famílias algarvias, grande benemérito local, estudioso e intelectual, a quem a cidade de Portimão muito ficou devendo.
Uma irmã de D. Maria Francisca havia-se ligado também em Portimão à família Maravilhas, de não menos tradição e popularidade local.
Foi sempre uma bondosíssima senhora, verdadeira protectora dos pobres, tendo nesse sentido presidido durante largos anos à Associação de Caridade de Portimão, financiando várias das iniciativas que ela própria promoveu em benefício dos mais desafortunados. Por essa razão é que o governo a condecorou com o oficialato da Ordem de Benemerência.
O seu funeral transformou-se numa das mais comoventes manifestações de pesar jamais vistas no Algarve, tendo a autarquia decretado luto municipal.
Acresce dizer que o município portimonense, após o falecimento de D. Maria Francisca, entrou imediatamente na posse do chamado palácio Bivar, que por morte de seu marido, e com sua absoluta concordância, coube em partilhas a seu sobrinho, Manuel de Almeida Coelho de Bivar, que por sua vez, no cumprimento dos desejos expressos pelo tio, o doou à Câmara para ser transformado num Hospital, num asilo ou em qualquer instituição de beneficência local.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VARGAS, Maria da Conceição Santinho


Benemérita local, faleceu em S. Marcos da Serra, vítima de congestão cerebral, a 16-1-1950, com 57 anos de idade.
Bondosíssima senhora, alma de eleição pela sua generosidade e benemerência, sempre preocupada com os desvalidos, que tratou e protegeu de uma forma a todos os títulos exemplar. O facto de ter sido muito esmoler e condoída para com os mais desafortunados, fizeram com que o povo a tratasse como a “Mãe dos Pobres”, devido aos gestos e atitudes que tomou em favor dos indigentes. Aliás, nesse sentido merece salientar o facto de haver doado um vasto terreno no qual se construiu a residência do médico e as instalações da farmácia de S. Marcos da Serra, na altura pouco mais do que uma vilória esquecida no mapa.
Era casada com o abastado proprietário e industrial José Ventura Vargas, de quem teve dois filhos: Mário Santinho Vargas e de José Santinho Vargas.
O seu funeral foi a maior manifestação de pesar que algum dia se realizou naquela vila.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TENGARRINHA, Teresa de Jesus Marques do Carmo


Nasceu em 1895, na vila de Monchique, e faleceu, de doença incurável, na sua residência de Portimão, a 31-12-1956.
Era uma senhora de reconhecidos dotes para as artes, embora fosse também grande apreciadora das Belas Letras. Casou-se com José Mendes Tengarrinha Júnior, agente do Banco de Portugal na cidade de Portimão, onde era muito estimado e apreciado pela sua educação, honradez e lisura de trato.
Era irmã de D. Maria Isabel Marques do Carmo de Oliveira Correia e do Dr. José Marques do Carmo, juiz desembargador muito conceituado na capital.
Foi mãe, extremosa e dedicada na apurada educação de seus dois filhos, que se tornariam notáveis cidadãos e reconhecidas figuras públicas na área da política, da cultura e da educação, refiro-me à Dr.ª Maria Margarida do Carmo Tengarrinha e ao Prof. Doutor José Manuel Marques do Carmo Tengarrinha.
Encontra-se sepultada no cemitério de Monchique.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.

sábado, 11 de dezembro de 2010

SANCHO, Maria Dias


Natural de S. Brás de Alportel, faleceu em Faro, a 28-9-1946, com 84 anos de idade. Senhora dotada de grande inteligência e com uma enorme sensibilidade para as artes. Ciente das perspectivas do futuro, e sobretudo das oportunidades suscitadas após a implantação da República, tratou de mandar educar os filhos, enviando-os para Faro e depois para Lisboa, onde todos deram boa conta das suas qualidades morais e intelectuais. Teve aliás o mesmo procedimento em relação aos netos, cujo sucesso foi igualmente notável no panorama intelectual português.
Por outro lado, D. Maria Sancho preocupou-se com a administração das suas propriedades e com os negócios do marido, sem nunca descurar os mais desprotegidos, de tal forma que distribuía regularmente avultadas esmolas pelos pobres e pelas instituições locais de beneficência social.
Acresce dizer que era mãe do escritor, então já falecido, José Dias Sancho e de D. Adelina Dias Sancho Nobre, casada com o Dr. João da Silva Nobre, em cuja residência faleceu, confortada pelo carinho dos seus familiares.
Era avó de Maria Júlia e Maria Spiridinova Dias Nobre, do artista João Nobre, do publicista e escritor Roberto Nobre, do Dr. José de Sousa Uva, que foi advogado em Faro, e do Dr. Alberto Dias de Sousa Uva, que residindo na cidade do Porto foi professor liceal e jornalista consagrado, chegando mesmo a ser director do diário «Primeiro de Janeiro».

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Homem que incendiou a Casa de Camilo


Em 1915 ocorreu um violento incêndio na freguesia de São Miguel de Seide, concelho de Vila Nova de Famalicão, precisamente na então designada "Casa Amarela", ou seja na velha mansarda que serviu de residência ao escritor Camilo Castelo Branco. Esse desastroso sinistro, que praticamente reduziria a escombros a notável habitação do emérito romancista, foi por muitos dos seus biógrafos considerado como um dos mais tristes episódios do itinerário camiliano. Nunca se chegaram a apurar as verdadeiras responsabilidades sobre a autoria do sinistro, pelo que na época chegou a correr em surdina que se tratara de uma vingança dos Farias (gente agressiva, virulenta e perigosa, a quem Camilo, nos seus romances, atribuíra vários crimes e atrocidades pouco abonatórios e bastante depreciativos do bom nome dessa família), cujos antigos ódios nunca se apaziguaram, nem mesmo depois do passamento do insigne romancista. Foi nessa residência, de grande imponência para o meio rural em que se achava inserida, que Camilo escreveu grande parte da sua obra literária, tendo nela sofrido os dissabores da vida e as agruras da progressiva cegueira, que o levariam ao dramático desfecho do suicídio. Nessa imponente "Casa Amarela", hoje Museu Camiliano, viveu e morreu aquele a que os seus biógrafos se referiam como o "torturado de Seide", pois que foi na freguesia de São Miguel de Seide que sofreu amargamente o desgosto de sentir o lento mas irreversível evoluir da doença crónica que o arrastaria para a perda total da visão, privando-o de desfrutar da leitura e, sobretudo, da escrita que sempre foi a sua única enxada para o sustento da vida.
Mas apesar das versões de vingança que durante anos se expendiram sobre o incêndio da casa de Camilo, o certo é que tudo não passou de um triste e involuntário incidente, que o seu próprio autor ocultou quase ate ao fim da vida. Mas, no princípio da década de oitenta do século passado, sentindo que a chama da vida já se lhe estava a extinguir, o inocente incendiário da Casa de Camilo chamou-me à sua presença para me contar a real versão dos factos, a qual, por sua vontade, escrevi e publiquei no vespertino «Diário de Notícias»
Passados todos estes anos resolvi agora exumar dos meus papéis e recortes de imprensa esse velho artigo que aqui deixo transcrito, na expectativa de que o mesmo possa ser útil aos estudiosos da obra camiliana.

sábado, 30 de outubro de 2010

Peste em Tavira no século XVII e o auxílio dos Franciscanos no seu combate


O surto pestífero que assolou o Algarve em 1646 foi trazido por um “navio de courama” oriundo do Norte de África que entrando pela foz do Gilão aportou junto à ponte de Tavira. A enfermidade espalhou-se imediatamente pela população dizimando a maior parte dos seus moradores. Dizem os relatos da época, certamente com grande exagero, que nessa altura, e só na cidade de Tavira, pereceram 5000 pessoas, não havendo chão sagrado que chegasse para soterrar tantas vítimas. E o desastre só não foi maior porque os frades franciscanos saíram do seu convento em auxílio dos pestíferos, providenciando-lhes conforto humano e religioso, fornecendo-lhes alimentos, agasalhos e até alguns poucos medicamentos, porque o contágio foi de tal forma acelerado que não subsistiam curativos médicos nem mesinhas caseiras que chegassem para acudir a tantos doentes.
O sacrifício dos padres franciscanos revelou-se inexcedível e eficaz, mas para isso tiveram de pagar um preço demasiado alto em vidas humanas, contando-se entre as vítimas alguns dos mais notáveis religiosos da Província da Piedade no Algarve. Lembro por exemplo o próprio Guardião do Convento, Frei Luiz de Beringel, que foi Pregador de grande reputação e não menos afamado Teólogo que morreu em cheiro de santidade. Mas também não devemos esquecer entre as vítimas da peste o notável Frei André de Cernache, que foi Confessor e decano do convento, muito querido entre o povo de Tavira pelas suas qualidades morais e sobretudo pelas suas manifestações de bondade. A eles se juntaram, no infortúnio da morte, outros religiosos, nomeadamente o Confessor Frei Manoel de Estremoz, Frei Basílio da Pedreira e Frei Luiz de Vila de Frades, ambos irmãos leigos. Estes frades foram inexcedíveis na sua dedicação aos habitantes da cidade, mostrando total despojamento pelas suas próprias vidas, pois que se expuseram ao contágio, acolhendo os doentes na Casa da Saúde da cidade, cujas ruas e praças ficaram quase desertas pelo terror da mortandade, num silêncio fúnebre e tenebroso, só entrecortado pelo som das campainhas que os pestíferos traziam ao peito para anunciarem a sua passagem.
Convém acrescentar que existiam naquela cidade cerca de três conventos, mas nenhum deles quis associar-se aos irmãos de S. Francisco com medo de perecerem no contágio da peste, facto que suscitou do rei D. João IV o seguinte desabafo: «Os meus frades (assim chamava sempre aos da Piedade) são bons religiosos, esperão a morte a pé quedo e não desamparão seus conventos».
Durante esse fatídico ano de 1646 a peste circunscreveu-se apenas à cidade de Tavira, mas nos anos seguintes estendeu-se a outras localidades do Algarve, principalmente a Faro, Loulé e Lagos, escapando milagrosamente Vila Nova de Portimão. E no heróico combate ao surto pestífero sempre se distinguiram os frades franciscanos, havendo até a registar o facto do povo de Portimão não querer deixar que os seus frades fossem acudir os seus irmãos religiosos no denodado esforço de lutarem contra o desenvolvimento do surto epidémico.
Perante o flagelo, el-rei D. João IV mandou de Lisboa ao Algarve os seus cirurgiões estrangeiros mais experimentados na cura desta epidemia, assim como medicamentos, boticários e enfermeiros especializados no combate ao contágio. Curiosamente estes emissários reais vinham todos destinados ao convento de franciscanos de Vila Nova de Portimão, cujo Guardião os mandava distribuir pelas várias localidades do Algarve, conforme achasse mais conveniente.
Pouco depois dava-se por extinto o surto epidémico em todo o Reino do Algarve, não chegando, felizmente, a estender-se o contágio à província do Alentejo. Todavia, e apesar dos seus nefastos resultados, desconhece-se ainda hoje o número, certo ou aproximado, das vítimas da peste no Algarve. Presumo que tenham sido alguns milhares.
Para se saber mais acerca deste surto epidémico, dos seus perniciosos estragos e, sobretudo, do esforço evidenciado pelos frades franciscanos no combate ao contágio, veja-se, como fonte histórica, a obra de Frei Manoel de Monforte, Chronica da Província da Piedade, Primeira Capucha de Toda a Ordem, & Regular Observância de Nosso Seraphico Padre Francisco, Lisboa, Officina de Miguel Deslandes, impressor de Sua Magestade, 1696, pp. 752-755.

João de Deus e a sua colaboração no «Bejense»


O poeta João de Deus, talvez nem toda a gente o saiba, colaborou assiduamente, em prosa e em verso, no semanário «O Bejense», órgão local do Partido Regenerador, em cujas colunas publicou durante vários anos alguns dos seus mais belos poemas, assim como belíssimas quadras de inspiração popular. Mas o mais importante é que algumas dessas notáveis produções poéticas foram recolhidas num pequeno, mas não menos interessante, livrinho da autoria de Rodrigo Veloso, que saiu a público com o título de Algumas Poesias pouco conhecidas de João de Deus, cuja edição teve apenas uma centena de exemplares (20 em papel de linho e 80 em papel vulgar) com anotações de Rodrigo Veloso, precedidas de um artigo de Antero de Quental intitulado «Divino Antero». Não esqueçamos que Antero dedicou o seu livro Sonetos, publicado em 1861, ao poeta João de Deus, de quem foi grande amigo e dedicado colega na Universidade de Coimbra.
O livrinho acima citado, de que existe um único exemplar, que tive a oportunidade de manusear, na Secção de Reservados da Biblioteca Nacional (antes de Lisboa e agora designada de Portugal), com o n.º 24 da edição de 100 que, diga-se em abono da verdade, nunca chegou a entrar no mercado comercial, tem, entre outras, um quadra que considerei verdadeiramente lapidar por ser dedicada ao Algarve, a qual no fundo é uma espécie de retrato da flor da amendoeira:
Abre a flor à luz que a enleva
Seu cálix cheio d’amor
E o sol nasce, passa e leva
Consigo perfume e flor.

Esta quadra é, como já disse, dedicada à flor da amendoeira, a qual, importa ressaltar que neste livrinho considerada por João de Deus como sendo a flor sagrada do Algarve

sábado, 23 de outubro de 2010

Corrupção na Câmara de Lagos, em 1784


LACOBRIGENSE, é o pseudónimo do autor de uma obra poética de carácter épico-narrativo, inspirada no modelo crítico-jocoso dos finais do século XVIII, na qual se revelam procedimentos da administração local relacionados com actos de corrupção, de enriquecimento indevido (locupletação) e de arbitrariedade política.
Na verdade, a obra intitulada A / MINISTRADA / Poema / critico / dado á luz / Por hum amador da tranquilidade lacobri- / gence. Anno / MDCCLXXXIV, é um poema narrativo, que se encontra dividido em seis cantos, preenchidos por estrofes de alexandrinos no género estilístico das obras clássicas. Têm porém um estrito sentido descritivo e exegético dos acontecimentos que suscitaram um generalizado motim popular dos moradores da cidade de Lagos contra as autoridades que exerciam a administração municipal, especialmente contra as arbitrariedades ditatoriais de um vereador em particular e do respectivo Juiz de Fora.
Todos os factos e personagens discriminados nesta obra poética são identificados e clarificados ao leitor com dezenas de notas que figuram no fim de cada canto. Basta esse simples aspecto para poder considerar-se esta obra poética como uma fonte de inegável interesse histórico. Por outro lado, ainda que se trate de um obra literária, e no género poético, pouco aconselhável como fonte histórica, não podemos deixar de salientar que nela se relatam factos verídicos, narrados em tom crítico e, por vezes, jocozo, o que não invalida o seu interesse e necessidade de ser dado à estampa com a chancela da edilidade local, quanto mais não seja como homenagem ao seu talentoso, embora ignorado, autor, que era certamente um lacobrigense.
Embora não tenha uma ideia de quem foi o seu autor, presumo que seria de apelido Vale, porque é essa a assinatura que aparece no fim da Introdução ao poema.
Este livro manuscrito abre com uma breve «Introdução» que passamos a transcrever:
«Os tumultos de Lagos originados das paixoens de alguns Ministros, como pela ellevação da Caza do Vereador Bento de Azevedo, tem sido objecto de rizo para huns, e de trabalhos para outros; mas de lastima para todos aquelles bons, e sinceros animos que se interessão no publico socego. A ultima dezordem que occazionou, e deu lugar a este pequeno Poêma, em que mais se observão as leis da verdade do que as Regras da Arte, se lhe fez de alguma utilidade, dando a conhecer os males e dezordens, a que nos conduz a discórdia, e a ambição, e preencherá o fim do seu Author, único e singular, que se propoz em ordenálo; e se alguém duvidar da variedade dos factos que nelle se apontão, o Author não tem duvida em apprezentar provas autenticas de todos elles, em qualquer Archivo, ou Livraria publica da Corte.»
Esta obra manuscrita poderá consultar-se na Biblioteca Nacional de Portugal, secção de Reservados, códice 6058.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

SOUSA, Manuela Gavilanes de


Professora primária, natural de Faro, onde faleceu a 12-11-1953, com apenas 40 anos de idade.
Era muito estimada pelos seus alunos, mas foi o seu belo carácter e as suas raras capacidades de trabalho que a distinguiram no conceito dos seus superiores hierárquicos e mesmo da sociedade farense. Tinha uma sólida formação moral e uma excelente preparação religiosa, pelo que era muito querida e enaltecida nos meios de maior elevação social, sendo mesmo apontada como um modelo a imitar pelas jovens estudantes do magistério Primário de Faro. Razões de saúde, mas também de competência profissional, suscitaram a sua requisição para os serviços de secretaria da Direcção do Distrito Escolar, onde se encontrava à data do seu precoce desaparecimento, o qual causou a maior consternação na cidade.
Era filha de Adelaide de Sousa Gavilanes e de Joaquim Gavilanes Puente, de origem espanhola e já então falecido; tinha como irmãos Joaquina Gavilanes de Sousa, que era assistente social em Olhão, Emílio Gavilanes de Sousa, comerciante, e Fernando Gavilanes de Sousa, que era funcionário superior do Grémio dos Armadores de Pesca da Sardinha, radicado em Lisboa.

SOUSA, Alexandrina da Fonseca Salter de


Ilustre senhora da melhor sociedade farense, assídua frequentadora dos bailes do Clube farense e dos espectáculos do Teatro Lethes, onde se fazia notar pela nobreza da sua postura, soberba elegância e requintada educação.
Creio que era natural de Faro, onde faleceu com 84 anos de idade nos finais de Abril de 1947. Foi casada com Alexandre Salter de Sousa, ilustre oficial da armada portuguesa que depois se dedicou à docência, sendo aliás um dos professores mais famosos do Liceu de Faro. Como matemático foi muito distinto e bastante admirado nos meios da sua especialidade.
A delicada senhora era mãe de D. Amélia Salter de Sousa Belmarço e de Eduardo Salter de Sousa; era sogra do ilustre Vidal Belmarço, director do Banco do Algarve, e avó de Maria Luísa Salter Belmarço Rocheta, D. Maria Alexandrina Salter da Fonseca, do Dr. Manuel José da Fonseca e Fernando Belmarço; era tia de D. Gabriela Fonseca de Bivar, D. Maria Teresa da Fonseca Leal de Oliveira, D. Stela da Fonseca Lã, José Alexandre Eusébio da Fonseca, comandante Henrique Eusébio da Fonseca, capitão Jorge Eusébio da Fonseca e Dr. Manuel Eusébio da Fonseca.

sábado, 24 de julho de 2010

PESSOA, Júlia Chelmicki


Figura notável da sociedade tavirense, que faleceu em Tavira nos princípios de Abril de 1947, com 91 anos de idade.
Era filha do famoso general José Carlos Conrado Chelmicki, que foi um dos militares mais distintos do seu tempo, natural de Varsóvia, que faleceu em Tavira, em 1890.
A ilustre senhora era madrasta de D. Ester Pessoa de Pádua Cruz, na companhia da qual sempre viveu em amor e harmonia, sendo tratada com o maior carinho e desvelo pela ilustre família Pessoa de Tavira, da qual também descende, como se sabe, o poeta da Mensagem.
Era viúva de João Daniel Gil Pessoa e irmã de D. Josefina Chelmicki Samora, residente em Lisboa.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

DRAGO, Inês Maria de Azevedo e Silva


Escritora e poetisa, nasceu em Loulé a 5-6-1860 e faleceu na sua residência de férias em Lagoa a 16-8-1947, com 87 anos de idade.
Descendente de uma das mais distintas e prestigiadas famílias do Algarve, viveu a maior parte da sua vida em Lisboa, onde se distinguiu pela sua esmerada educação e rara eloquência, como dramaturga, poetisa e escritora.
Era filha de D. Maria da Luz de Azevedo e Silva, natural de Loulé e prima de João de Azevedo Lobo, notável oficial do exército que se cobriu de glória nas campanhas de África, falecido em Novembro de 1947 na vila de Lagoa, com 73 anos de idade; e de a Sebastião Drago de Azevedo Lobo, natural de Lagoa onde possuía vastas propriedades e se notabilizou como presidente da Câmara Municipal.
A instrução tradicional a que as meninas do seu tempo estavam sujeitas, isto é, aprender a ler e declamar em francês, pintar, tocar piano e bordar seda, era para a sua flamejante inteligência muito pouco, razão pela qual teve a ousadia de frequentar como ouvinte – já que como aluna lhe estava vedada a inscrição – as aulas da escola Politécnica de Lisboa, o que sendo caso raro foi também uma agradável surpresa para a época, constituindo um exemplo desbravador dos caminhos que as gerações seguintes haveriam de trilhar.
Insatisfeita com a monotonia da vida procurou pacificar a alma no culto das musas, ao mesmo tempo que concentrava a sua erudição na escrita. Assim, deu à estampa em 1892 um drama em quatro actos intitulado A Pátria e o Coração, que teve a honra de ser acompanhado por um ilustre prefácio de Latino Coelho. Também sei que escreveu vários livros para crianças, nos géneros do teatro infantil, fábulas, pequenos contos moralistas e poesias de exaltação dos brios juvenis. Algumas dessas poesias foram musicadas para serem cantadas nas escolas e recreios infantis, sendo muitos dos seus versos decorados por sucessivas gerações. Alguns desses versos e cantigas ainda subsistiam na memória infantil muito depois da morte da sua autora.
A ilustre escritora e poetisa, que tinha o maior orgulho em dizer-se algarvia, conservou-se absolutamente lúcida até ao fim da vida, escrevendo e lendo sem óculos, lembrando-se dos seus antepassados familiares e de muitos episódios da plácida e ronceira sociedade algarvia dos seus tempos de infância.
Era uma verdadeira dama da antiga monarquia, um paradigma de ilustração e de civilidade, um modelo sem paralelo de que já não existem imitações.
Tinha à data da morte ainda um irmão, Sebastião Drago de Azevedo Lobo, que da capital veio tomar contas da herança em Lagoa, e um primo. João de Azevedo Lobo, residente na capital, ambos obviamente já desaparecidos.

domingo, 18 de julho de 2010

PERIER, Brites Pais de Mendonça d’Ayet du



Uma das mais distintas figuras da sociedade farense do seu tempo. Mulher ilustrada e de nobres origens, faleceu em Albufeira, com 78 anos de idade, a 21-12-1928. Viveu no Algarve uma grande parte da sua vida por razões de saúde, visto que sofria de uma pertinaz doença que a perseguiu e torturou durante quase toda a sua longa existência.
Imponente e impressionante dama, que marcava posição em qualquer roda de amigos pela sua relampejante inteligência e sólida cultura, refinada educação, boas maneiras, coração magnânimo de filantropia e benemerência, dotes que herdou das famílias nobres de que era originária. Com efeito, D. Brites du Perier descendia em linha recta dos Barões du Perier, nobres da mais pura linhagem, senhores feudais das ilhas de Hiéres. Era tia-avó de D. Branca d’Ayet de Senna Cabral, de D. Maria Francisca Leotte d’Ayet du Perier e de Luiz Carlos Leotte de Mendonça d’Ayet du Perier, residentes no Porto, mais precisamente na Foz do Douro, e ainda de Casimiro de Mascarenhas Leotte, que se havia fixado em Lisboa.

PASSOS, Maria Joaquina Dias


Era natural de São Brás de Alportel, onde faleceu com 69 anos de idade em 27-12-1921, ao tempo viúva de Bernardo Rodrigues de Passos, um dos comerciantes mais honrados e inteligentes daquela progressiva vila industrial. Era mãe extremosa, mas também muito ciosa da educação dos seus filhos, nomeadamente do poeta Bernardo de Passo e o escritor Boaventura Passos. As suas filhas, de entre as quais se destacava a escultora Rosalina de Passos, casaram-se com Virgílio de Passos, Francisco Romão Carvalho e António Passos Chaves, dos quais era sogra. Era tia do jornalista e escritor José Dias Sancho.
As suas notáveis qualidades humanas evidenciavam-se na forma como tratava os mais desafortunados, nos quais inclusivamente delegou a incumbência de transportarem a sua urna durante um dos mais concorridos funerais daquele tempo, que por sua determinação não teve qualquer pompa nem circunstância.
O seu filho Bernardo de Passos, com quem vivia grande parte do ano, ficou completamente destroçado, não aguentando por muito tempo tão dolorosa separação.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PALMA, Maria Mendonça Coelho


Senhora da primeira sociedade farense, faleceu, após prolongada doença, a 30-1-1937, com apenas 45 anos de idade.
Foi a primeira esposa do Dr. Joaquim Rita da Palma, um dos principais advogados de Faro; era sobrinha do Dr. José Francisco de Paula Mendonça, chefe da secretaria judicial de Faro; e mãe de D. Marília Mendonça Coelho Palma.
Ficou sepultada no cemitério de Estoi.
Na altura do seu falecimento estava em construção a magnífica vivenda situada na rua Justino Cúmano e que tem o nome de “Vivenda Marília”, que é uma das mais bonitas de Faro.

PALERMO, Maria Lizarda


Benemérita local, nasceu em Moncarapacho, onde viveu até à morte ocorrida em meados de Fevereiro de 1953, quando tinha 52 anos de idade. Era filha de José Luís Palermo, um dos mais abastados proprietários da região, que havia falecido poucos meses antes.
Na altura do seu precoce falecimento encontrava-se órfã e sem descendentes, pois que por razões de desvelo familiar dedicara-se inteiramente aos pais, descurando em absoluto a possibilidade de se casar. É certo que ao tempo não havia grande escolha de pretendentes, pois que seus meios de fortuna eram bastante significativos, receando os seus progenitores um casamento desigual e meramente por interesses económicos. Ficou, por isso, solteira, muito agarrada aos pais e amiga da Igreja.
Não admira que no leito de morte legasse quase toda a sua notável fortuna à Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, que a partir daí passou a ter um invejável rendimento anual. Também alguns amigos e sobretudo os pobres da aldeias receberam à sua morte largas esmolas.
Maria Lizarda Palermo foi uma senhora de rara bondade, extremamente esmoler e piedosa para com os mais desfavorecidos, sendo por isso uma benemérita local que o povo de Moncarapacho jamais poderá esquecer.