quinta-feira, 27 de abril de 2017

Efemérides algarvias – dia 22 Abril


José Dias Sancho, escritor, e poeta
1898 – Nasce em São Brás de Alportel, freguesia do concelho de Faro, o escritor José Dias Sancho, um dos mais polémicos e geniais da década de vinte, no século passado, por ter visado com fortes críticas as consagradas obras de Júlio Dantas e de Albino Forjaz de Sampaio, na época verdadeiros príncipes da literatura portuguesa. Nos dois volumes da obra «Ídolos de Barro», amesquinha de forma injusta e desleal aqueles geniais literatos, numa estratégia cobarde e soez, muito comum entre os jovens, que por não serem conhecidos pretendiam concitar a atenção do público, dizendo mal dos escritores mais famosos do seu tempo. Essa estratégia resultou apenas em descrédito da sua própria obra, que não chegou longe, em parte porque não houve tempo para amadurecer, crescer e convencer a crítica. Com efeito, a vida de José Dias Sancho cessaria pouco depois, de forma abrupta e inesperada, ainda na flor da juventude. Um desfecho cruel para uma vida que se adivinhava plena de realizações e de sucesso. Acerca deste escritor sambrasense leia-se o capítulo correspondente à evocação da sua vida e obra no meu livro, Confidências e Revelações de Mário Lyster Franco, pp. 153-159.
José Joaquim Coelho de Carvalho
1911 – Estreia-se no Teatro Nacional a peça «A infelicidade Legal» do famoso escritor Coelho de Carvalho. Nascido em 1855, na cidade de Tavira, Joaquim José Coelho de Carvalho Júnior, foi uma das figuras mais ilustres da cultura e da política do seu tempo. Da sua vasta biografia destaco o facto de ter sido reitor da Universidade de Coimbra (1919-21), Presidente da Academia das Ciências, Cônsul de Portugal no Brasil, em Xangai, China, e aqui ao lado, em Huelva, na vizinha Andaluzia, que ele tanto amava. Foi também dramaturgo, poeta, escritor, cronista…, enfim uma infinidade de actividades de que não existe hoje nenhuma figura, no Algarve, que se lhe possa comparar. O mapa de Angola, na zona nordeste, é todo da sua autoria, cuja realização prática quase suscitou uma guerra da França e da Bélgica contra Portugal, porque o nosso Coelho de Carvalho fartou-se de lhes roubar território colonial… de uma forma legal. Morreu quase octogenário, em 18-07-1934, na sua residência, que constituía o edifício histórico do Forte de São João do Arade, em Ferragudo, por ele arrematado em hasta pública ao Ministério da Marinha. Anos antes, ainda na vigência da República, o velho "Castelão do Arade", como poeticamente o tratavam os amigos e admiradores, foi preso sob a acusação, real e verdadeira, de ter sido o autor material e o instigador político de uma revolução, realizada de forma pacífica e sem derramamento de sangue, através do «Diário da República»!!! O elenco político, nomeado e oficialmente publicado no órgão oficial do regime, ficou conhecido como o "governo dos poetas", a que alguns jornalistas bem humorados chamaram "ministros do reumático".

1980 – Fundou-se a Associação de Voleibol de Faro, modalidade que até então era quase em exclusivo da responsabilidade do desporto escolar, cuja orientação e prática competitiva dependeu durante muitos anos da antiga «Mocidade Portuguesa».

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Efemérides algarvias – dia 21 Abril


Gravura antiga, presumo que do sec. XVII ou
XVIII, representando a antiga cidade de Tavira
1539 – O rei D. João II, anuindo a um requerimento do povo de Tavira, proibiu os alcaides-mores de fazerem parte da governação daquela cidade, isto é da vereação ou de qualquer outro cargo autárquico. Determinava também que se elegessem dois representantes, dos mesteres (artesãos e comerciantes) ou dos mecânicos (mareantes, pescadores, oleiros, ferreiros, etc), para fazerem parte da vereação. O ojectivo era evitar a concentração do poder externo, dando representação às actividades económicas locais. Os produtores manuais e mecânicos representavam a burguesia tavirense, rivalizavam com os “ricos homens” ou “homens bons”, proprietários rurais e urbanos que desempenhavam normalmente a administração pública. O facto de serem sempre os mesmos, acabaria por dar origem à fidalguia dos concelhos, que era o nível mais baixo da nobreza. 
Rótulo turístico, para colar nas malas de viagem,
oferecido pelo Hotel Aliança, de Faro, aos seus clientes
1653 – A Rainha D.ª Luísa de Gusmão fez mercê da alcaidaria-mor da vila do Alvor (antigo concelho extinto por Pombal e suprimido por Passos Manuel, em 1836), ao Conde de Odemira, D. Francisco de Faro (apelido e não naturalidade). O interesse desta alcaidaria estava nas suas pingues salinas, cuja produção se escoava em grande parte na transformação do pescado das armações do atum e das xávegas da sardinha. Estas salinas foram tão cobiçadas que chegaram às mãos dos Távoras, recaindo depois na posse da coroa, pelas razões sobejamente conhecidas.
1894 – Morre em Faro o Barão das Pontes de Marxil. Já escrevi detalhadamente sobre ele no meu livro sobre a «História do Teatro Lethes». Não obstante, deixo aqui alguns elementos biográficos. 
Frontaria do Café Aliança, de Faro, estilo neo-clássico
Quando o Ministro do Reino (primeiro-ministro nos tempos modernos) Fontes Pereira de Mello, visitou o Algarve em 1874, agraciou como de costume as figuras que mais se distinguiram no desenvolvimento local por acções de benemerência e filantropia. Um deles, Francisco Pedro da Silva Soares, construiu à sua custa uma pequena ponte férrea, na sua propriedade do Marxil, para dar passagem à linha do caminho-de-ferro. O benefício público justificou a outorga do título de Barão da Ponte de Marxil. Este Francisco Soares, nascido em Faro em 1830, dedicou-se ao comércio acumulando avultados meios de fortuna que distribuiu em acções de altruísmo, nomeadamente através da fundação do Asilo da Infância Desvalida de Nossa Senhora do Pé da Cruz, para o sexo feminino, e o já desaparecido Teatro 1º de Dezembro, que ficava ali na esquina da Rua Rebelo da Silva, onde está hoje uma sapataria, e esteve até há pouco tempo, no 1º andar, a sede da Companhia de Pescarias do Algarve. Além de comerciante foi também vereador da Câmara de Faro, e procurador à Junta Geral do Distrito. Quando em 1850 o Algarve sofreu uma seca severa, suscitando uma fome generalizada, como todos os flagelos que isso comporta, Francisco Soares instituiu a suas expensas um sopa dos pobres, que durou mais de um ano. Politicamente seguiu o Partido Regenerador, promovendo e patrocinando várias festas locais, nomeadamente a visita do grande Fontes Pereira de Mello ao Algarve. 
Decoração interior do Café Aliança, com fotos e caricaturas
de grandes vultos da cultura algarvia frequentadores do Café
Teve distintos e notáveis descendentes, nomeadamente José Pedro da Silva, um dos impulsionadores do turismo na cidade de Faro, proprietário dos estabelecimentos «Aliança», café, mercearia e hotel (que depois tomos o nome de Hotel Faro). A sua neta, Maria Isabel Pacheco Soares, foi uma notável pianista e senhora de grande cultura, que muito enobreceu o Algarve. Para terminar, acrescento que os Barões da Ponte de Marxil estão sepultados, em túmulo perpétuo, no cemitério privado da Ordem do Carmo, em Faro. Também ali se encontra sepultada sua mãe, Clara Maria dos Anjos Soares, nascida a 10-1-1793, e falecida a 9-8-1877, e seu irmão, António Francisco da Silva Soares, falecido em 17-9-1889.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Efemérides algarvias de 20 de Abril


Desenho de Luís Santos, com base em gravura antiga de Faro
1749 - Ocorreram em Faro violentos distúrbios da ordem pública que culminaram com o apedrejamento e quebra das vidraças do edifício do Paço Episcopal, pronunciando-se insultos e abjectas ofensas contra o Bispo da diocese farense, Frei Ignacio de Sancta Thereza (1741-1751). A razão dos tumultos prende-se com a vida privada do antístite, cujo escândalo suscitaria o seu afastamento da diocese. No seguimento dessa polémica, e com o advento do consulado pombalino, a diocese algarvia ficaria repartida em duas (Faro e Portimão), cujos prelados, recrutados ao corpo docente da universidade de Coimbra, nunca chegariam a tomar assento episcopal. Acresce dizer que o Frei Inácio, bispo do Algarve, faleceu em Faro a 15-04-1751, encontrando-se sepultado na cripta da Sé.
Jaime Pádua Franco

Caricatura de Júlio Dantas

1938 - Morre na Praia da Rocha um dos vultos fundacionais do turismo em Portugal, Jaime de Pádua Franco (1868-1938), a quem a propaganda de Portugal no estrangeiro ficaria devendo os mais assinalados serviços. Como algarvio e grande amigo de Tomás Cabreira, deve-se-lhe o financiamento e organização do I Congresso Regional Algarvio, realizado na Praia da Rocha, em Portimão, sua terra-natal, nos primeiros dias de Setembro de 1915.

1946 – Estreia-se em Lisboa, no Teatro Nacional, a célebre peça «Antígona», da autoria o escritor algarvio Júlio Dantas, baseada na homónima de Sófocles, referência incontornável da dramaturgia clássica grega.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Elegia ao amor platónico, por uma ignorada poetisa de Tavira

Por esse Algarve em fora despertam agora do sono letárgico - quais mouras encantadas - as nossas amendoeiras em irradiantes floreiras de níveas cores. Olhando-as na berma das estradas ou nas férteis várzeas desta terra generosa, sentimos quão verdadeira é a lenda da nórdica princesa, cujo amor conjugal definhava de saudades pelos nevados campos da sua pátria.
Lembrei-me então de um poema, escrito à mais de setenta anos por uma poetisa tavirense, de enorme talento e polida ilustração, que em vida foi humildemente ignorada, e hoje permanece esquecida. 
Chamava-se Maria Amália Padinha. Certamente o meu amigo Ofir Renato Chagas saberá melhor do que eu de quem se trata, e até já lhe terá tecido os maiores elogios num dos seus livros sobre a ilustre cidade de Tavira.
Em homenagem ao seu enorme talento não resisto à tentação de aqui transcrever um dos seus poemas, uma elegia ao amor platónico - muito peculiar ao tempo em que viveu - que é também um hino à beleza naturalista e simbólica da flor da amendoeira.
Este poema, simplesmente assim titulado, foi publicado no jornal «A Ilha», nº 711, de 17-11-1945, que em S. Miguel, nos Açores, dava guarida aos jovens talentos que despontavam nos mais diversos recantos geográficos pátria de Camões.
Ouçamos então o seu belo poema, com a reverência que nos merecem os sentimentos que nele resplandecem:


Poema

Passaste junto à minha porta
e eu sorvi
o ar que respiraste...

Perto, muito perto
eu bem te vi...
Mas tão longe
- longe de mim -
quando passaste...

Olhaste indiferente
para a rua
sem reparares que ela
era diferente.
Sem notares que se abria
uma janela
e que alguém
espiava os teus passos...

O sol vinha beijar-me
à janela onde ficara
a meditar.
E deu-me aquele beijo
que em pensamento
um dia te pedira...

Foi então que me voltei
arrancada ao meu cismar...
.............
- Já te foste!...
e na escuridão amarga
tento ainda destronar
o ilusório sonho
que sonhei.

E é tão grande a minha dor,
tão grande o meu quebranto!...
E só
sem amparo,
choro...

Mas não sou eu só
que choro assim.

A minha amendoeira
num quadro todo branco
também chora comigo
odoroso pranto
em pétalas caído
sobre mim...

E essas pétalas que me cobrem
como nevado manto,
nem sei se são pétalas
se lágrimas do meu pranto!...

Tavira, 7 de Março de 1945.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A anedota dos "cangrejos" de Olhão

Não sou a pessoa certa para contar anedotas, mas não resisto à tentação de revelar esta, que ouvi em Olhão há alguns anos, porque funciona como uma anti-anedota, ou seja, não nos faz rir, mas antes reflectir sobre o carácter dos portugueses. Então aqui vai, tão fiel quanto possível ao linguajar dos "filhos d'Olhão":
Certo dia no cais de Olhão cruzaram-se dois pescadores locais, o mane Carocho e o mane Luice ("mane" é o mesmo que mano, forma carinhosa como se tratam os marítimos olhanenses).
O mane Luice (Lúcio) ia carregado com dois baldes, um em cada mão.
O mane Carocho, após lhe dar de vaia, reparou nos baldes, mas achou estranho que um deles estivesse tampado, enquanto o outro estava destapado, vendo-se claramente que trazia caranguejos.
Perante tão inusitada diferença, perguntou-lhe:
Ó mane Luice o que leva aí nos baldes?
Cangrejos móce...
Mas atão um dos baldes está tampado e o outro não, porquém?
É que no tampado levo cangrejos instrangeros, e no destapado levo cangrejos portugueses...
Mau, nã percebo... atão não tens medo que os cangrejos portugueses fujam do balde?
Eles bem tentam e até querem fugir... mas quando algum começa a subir os outros puxam-no para baixo !!! 
A moral desta anedota, é simples: os portugueses não se solidarizam uns com os outros, e, pior ainda, têm inveja daqueles que pretendendo sair da vulgaridade procuram subir na vida. Acontece que este comportamento de inveja contra aqueles que se distinguem pelos seus méritos e talentos, tem causado graves prejuízos no desenvolvimento do nosso povo, a todos os níveis e em todos os sectores da vida pública.
Acresce dizer, em remate desta anedota, que não foi por acaso que Camões terminou os Lusíadas com a palavra inveja. E, na verdade, a inveja tem sido ao longo de séculos o pecado mortal da nossa cultura, o fel em que se destila o carácter mesquinho dos portugueses. A anedota de Olhão é um retrato bem elucidativo do espírito lusíada. E por isso os olhanenses costumam dizer: a enveja mata móce...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Um herói ignorado das lutas liberais no Algarve.

Faz hoje, 17 de Janeiro de 2016, precisamente 128 anos que faleceu em Silves, com 78 anos de idade, João Gregório de Figueiredo Mascarenhas, uma figura heróica e muito popular no Algarve, durante o conturbado período das Lutas Liberais.
Silves, ruínas do castelo, cerca de 1890
Nasceu a 24-06-1812 em S. Bartolomeu de Messines, e faleceu em Silves a 17-1-1889. Era filho do major José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, um respeitado proprietário local, casado com D. Catarina Jacintha Duarte Machado Guerreiro, também originária da fidalguia fundiária, com bens de nomeada no concelho de Silves. Descendia de um casal muito respeitado na ald
eia de São Bartolomeu de Messines, uma das mais prósperas e economicamente das mais poderosas do termo de Silves.
João Gregório Figueiredo Mascarenhas desde jovem que se tornou famoso pela sua destreza na caça, batendo toda a serra algarvia, desde as cordilheiras do Espinhaço de Cão e Monchique e até quase ao cume do Caldeirão. Nas suas batidas de caça por essas serranias agrestes do Algarve e Alentejo, era certo e sabido que voltava a casa com um carro de javalis, lebres, coelhos e corças. Conhecia os recônditos mais escabrosos da serra algarvia, e como ele não havia outro que se igualasse no manejo das armas de fogo.
Desenho de Silves, com a rua do castelo no séc. XIX
O conhecimento da serra e a destreza nas armas foram decisivos quando em 1833, incorporado no batalhão móvel de Lagos, seguia em expedição ao Alentejo para combater as guerrilhas miguelistas que assolavam as aldeias, montes e casais desde São Marcos até Ourique. No sítio do Valle da Mata, as guerrilhas montaram uma cilada com tal sucesso que conseguiram aprisionar o coronel Custódio Pires Bandeira, assim como todos os soldados que seguiam na frente do batalhão móvel de Lagos. Felizmente o João Figueiredo Mascarenhas seguia nesse momento na retaguarda e por isso conseguiu escapar juntamente com alguns camaradas de armas, que seguindo-lhe os passos lograram alcançar o sítio da Amorosa, onde se fizeram fortes, conseguindo rechaçar as guerrilhas que seguiam na sua peugada. Conhecedor do terreno conseguiu conduzir os seus homens pelos caminhos acidentados da serra algarvia, escapando incólumes à sanha impiedosa das guerrilhas, até chegar à cidade de Silves. Mas não se sentindo seguro rumou para Vila Nova de Portimão, onde dias depois teve de enfrentar o grosso das forças miguelistas. O ataque a Portimão foi uma das páginas mais heróicas das lutas civis no Algarve. As forças liberais, mal equipadas e em menor número do que as guerrilhas do Remechido, quase soçobraram ao cerco miguelista, não fosse, entre outros o heroísmo de João Gregório Figueiredo Mascarenhas, que numa posição arriscada conseguiu suster as investidas das forças inimigas. Porém, num dos ataques as guerrilhas vararam impiedosamente a sua posição de resistência, ferindo-o gravemente. O jovem Figueiredo Mascarenhas foi recolhido ao hospital onde recuperou a vida, mas não a capacidade para voltar ao efectivo, encontrando-se em convalescença quando foi assinada a Convenção de Evoramonte.
Panorâmica da cidade de Silves nos inícios do séc.XX
Após a guerra-civil retirou-se para a sua aldeia natal, onde se casou com D. Maria Mascarenhas Neto de Figueiredo, de quem teve dois filhos: Maria Elisa de Figueiredo Mascarenhas e José Gregório de Figueiredo Mascarenhas. Reassumindo os negócios e interesses de família, teve uma vida próspera, mantendo sempre a sua lhaneza de trato sem perder a postura fidalga nem os seus ideais de tolerância e de liberalidade. Repartiu a vida e os negócios entre a aldeia de Messines e a cidade de Silves, onde o seu heroísmo durante as lutas liberais seria sempre lembrado para exemplo das gerações futuras. O principal beneficiado do seu prestígio popular seria o filho, José Gregório de Figueiredo Mascarenhas, que viria a ser também um militar e político de grande notoriedade.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Augusto César Pires Soromenho, um escritor e militar algarvio hoje ignorado

Militar e escritor, nasceu em Vila Nova de Cacela a 5-5-1857 e faleceu na Quinta da Penha Longa em Sintra, onde se encontrava a veranear, a 10-8-1948, com 91 anos de idade.
Frequentou a Escola do Exército, onde concluiu em 1879 o curso da sua especialidade, na arma de infantaria, sendo sempre considerado como um dos melhores alunos. Abraçando a carreira militar fez a sua progressão de forma paulatina, mas sempre legal e justificada, mediante exame e concurso público. Assim ascendeu a alferes em 7-1-1880, depois a tenente em 18-2-1885, a capitão em 25-5-1894, a major em 16-5-1905, a tenente-coronel em 25-11-1909, e por fim a coronel em 9-12-1911. Para fazer o seu percurso ascensional na arma de infantaria aceitou vários destacamentos para prestar serviço em diferentes unidades e cumpriu diversas comissões exercidas fora da metrópole e do continente, durante as quais provou a sua bravura, a sua inteligência e os seus elevados conhecimentos de estratégia militar. A forma meritória como desempenhou as missões que lhe foram confiadas granjearam-lhe enorme prestígio e sucessivas promoções até atingir o posto de coronel, no qual se reformou em 5-6-1915.
No exercício da sua carreira militar, comandou sucessivamente os regimentos de Infantaria 13, 14 e 25, e interinamente a 4.ª Divisão Militar no ano de 1915, não tendo sido mobilizado para a Flandres por causa da sua avançada idade. Possuía diversas e prestigiadas condecorações, para além de numerosos louvores militares.
Dotado de sólida cultura dedicou-se ao longo da vida aos estudos militares, publicando as seguintes obras: Elucidário dos Comandantes dos Destacamentos e Diligências, Lisboa, 1895; um Manual de Justiça Militar (Lisboa, 1904), para uso castrense; e sobre o nosso glorioso passado histórico, publicou para uso nos liceus uma curiosa História dos Antigos Povos Orientais (Lisboa, 1900) que teve larga divulgação.
Era casado com D. Maria da Encarnação Soromenho e foi pai do Dr. Luís Soromenho, médico distinto, e do tenente Augusto Soromenho.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Diogo Tavares de Mello Leote, ministro da Justiça do 1º Governo Constitucional da República Portuguesa


Diogo Tavares de Mello Leote,  nasceu na vila de Albufeira a 7 de Janeiro de 1849, filho de Diogo Maria de Mello Leote e de D. Maria Emília Faria, oriundos das mais prestigiadas famílias da burguesia algarvia.
O Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, apesar de ser hoje uma figura ignorada na cultura algarvia, foi no passado século XIX-XX uma personalidade de relevo no galarim dos notáveis do Algarve.
Licenciou-se cum laude em Direito pela Universidade de Coimbra, optando pela carreira da magistratura, ao longo da qual percorreu um vasto périplo, primeiro como delegado do Ministério Público e depois como juiz de Direito nos tribunais administrativos das cidades da Horta e de Faro, onde fez amigos e foi muito acarinhado. No Algarve exerceu também a magistratura nas comarcas de Lagos, Olhão e Tavira, passando depois por Porto de Mós, Valpaços, Portalegre, Évora e Porto. Na cidade invicta ascendeu de forma gradual até se tornar num dos mais prestigiados Desembargadores do Tribunal da Relação do Porto, cujo prestígio e acção política justificaria em 1911 a sua nomeação para o alto cargo de Ministro da Justiça, no primeiro governo constitucional da República, presidido pelo Dr. João Chagas.
O dr. João Chagas, chefe do 1º governo constitucional, num
 momento de leitura e de lazer no seu gabinete ministerial
O ministro da Justiça, Dr. Diogo Leote, era de entre o corpo ministerial o único que não tinha ligações partidárias nem passado político que justificasse a sua nomeação para o governo, que como se sabe teve a duração da “rosa de Malherbe”. Em todo o caso, o ministro Leote sabedor das directrizes definidas pelo Governo Provisório em matéria de cultos religiosos, permitiu e assegurou a entrada em funcionamento da Tutoria da Infância de Lisboa, a criação do Tribunal das Trinas, onde se dirimiram os crimes contra a República, e, por fim, aprovou os serviços de mensuração antropométrica dos detidos nas cadeias de Coimbra. Para além disso, dedicou o seu tempo à gestão corrente do ministério, ou seja, a garantir o bom funcionamento dos serviços correntes da justiça e da segurança pública.
Devo acrescentar que este governo, o primeiro com legitimidade constitucional, teve origem no bloco de almeidistas e de camachistas que elegeu o Dr. Manuel de Arriaga para a presidência da República, em oposição aos afonsistas. Por isso foi de curta duração, aliás à semelhança da maioria dos que se constituíram na I República, vigorando apenas entre 4 de Setembro e 12 de Novembro de 1911, ou seja setenta dias. O carácter efémero da governação tornou-se na face negra do regime republicano por causa do seu sectarismo partidário, que acicatou interesses e posições ideológicas inconciliáveis. A instabilidade governativa tornou-se no sinónimo político da República.
Postal ilustrado, propaganda da República e da bandeira
nacional, com o elenco do 1º governo constitucional.
A propósito das ideias políticas do Dr. Diogo Leote, convém dizer que não foram isentas de polémica, e muito menos lineares com uma linha de rumo previsível e coerente. O facto de se recusar a servir interesses, quer económicos quer políticos, e de procurar ser isento e parcial, tal como o era na magistratura, tornava-o incompatível com a política. Em boa verdade, não foi homem de grandes convicções políticas nem de fidelidades partidárias. Sabia-se que era da esquerda monárquica, simpatizante do partido progressista, mas com o advento da República aderiu ao novo regime, sendo por isso etiquetado de adesivista. Em 1912, já depois de ter sido ministro, aderiu à União Republicana a convite do fundador e seu amigo, Dr. Brito Camacho, passando a militar nas fileiras unionistas, mas recusando-se a voltar às cadeiras do poder. O facto de ter vivido na cidade do Porto, e de ter conhecido a grandeza de alma daquele povo, contribuiu largamente para a sua nobreza de carácter, espírito de sacrifício e inquebrantável dedicação ao trabalho.
Ao longo da vida escreveu muito para os jornais e revistas relacionadas com a vida do foro, sendo particularmente assídua nas colunas da «Revista dos Tribunais», da qual saíram em separata alguns trabalhos da sua lavra. Da sua obra literária constam apenas dois títulos: «Baldio» e «O Pão». Mercê da sua carreira como homem do foro e da justiça, foi eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, o que muito o enobrecia, já que se trata de uma honraria com que se distinguem apenas os mais ilustres portugueses.
Importa, para finalizar, dizer ainda que o Dr. Diogo Tavares de Mello Leote, foi casado com D.ª Maria Lúcia Pais d'Ayet, de quem teve um único filho, Diogo d'Ayet Leote, também ele uma figura respeitável na sociedade do seu tempo.
O seu Algarve e a sua humilde vila natal de Albufeira, tornaram-se numa miragem a que jamais regressaria. Faleceu na cidade do Porto a 8 de Março de 1920.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Canellas, Ignez Carolina

Natural de Faro, que em idade avançada foi viver para Lisboa, onde viria a falecer a 28 de Dezembro de 1903, com provecta idade. Foi uma mulher bonita das mais admiradas da cidade, frequentadora dos palcos sociais mais selectos e requintados, mas também dos palcos da arte de Thalma, como o Lethes e o 1º de Dezembro, neles conhecendo António Vicente Canellas, um notável artista de comédia, que nunca se deixou seduzir pelo profissionalismo, para não deixar o lar materno. Apaixonaram-se, casaram por amor, e tiveram dois filhos, um casal. Criaram-se aqui, mas a vida e os negócios levaram a família para fora do Algarve, sem nunca deixarem de ser cidadãos de conceituada honradez moral e social.
Panorâmica do interior do Teatro Lethes
Para quem não sabe, o actor Canellas, como era conhecido, teve noites de retumbante sucesso nos teatros do Algarve e Alentejo, representando papéis cómicos de grande exigência artística. Nos anos sessenta do século dezanove, o teatro Lethes de Faro gozava de fama nacional. Dizia-se que a família Cúmano, proprietária do imóvel e da companhia teatral, gastara centenas de contos para manter um “foyer” de grande nível e um guarda-roupa muito superior, dizia-se, ao do teatro D.Maria. Muitos dos seus actores, músicos e cantores de ópera, seguiram as suas carreiras nos teatros da capital, alguns deles com estrondoso êxito, como a Dores Aço (natural de Silves, casada com o actor José Ricardo), a sua irmã Teresa Aço (que foi casada com o actor-empresário Afonso Taveira), e tantos outros. Quando a companhia do Lethes ostentava nos seus programas o nome do actor Canellas, era garantia de casa cheia. Vinha gente de todo o lado para vê-lo representar papéis jocosos que só ele sabia fazer. Ouvir os seus hilariantes monólogos de um acto era lavar a alma de riso e boa disposição.
Alegoria à musica, 
pintura no tecto do teatro
Era mãe do conceituado Alfredo Canellas, farense de coração que se apaixonara pela África, onde chegou aos corpos gerentes da Companhia do Nyassa, uma das mais ricas e poderosas do nosso império colonial. Teve também uma filha, entretanto falecida, que foi casada com o Dr. Vianna de Lemos, outra grande figura do seu tempo, director da famosa Companhia de Papel do Prado.
O féretro de Ignez Carolina Canellas ficou no cemitério dos Prazeres, depositado no jazigo de Augusto César Fernandes, amigo íntimo do filho, não mais regressando ao seu Algarve natal. Os seus descendentes são hoje pessoas de bem, com vida feita na capital, que talvez não saibam quão notável foi a vida dos seus ascendentes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

«A Ministrada» Lacobrigense

Encontrei há anos na Biblioteca Nacional de Lisboa um interessante códice manuscrito sobre um episódio político ocorrido na cidade de Lagos em 1784. A época em que decorre a trama narrativa prendeu-me imediatamente a atenção, pois decorre no período historicamente designado por «Viradeira», isto é, nos anos subsequentes ao consulado pombalino. Está escrito em verso, repartido em cantos, como se tratasse de Os Lusíadas, em versão reduzida, num estilo crítico-jocoso. Ignoro o seu autor, porque nada consta que o identifique, o que me faz pressupor tratar-se de uma obra clandestina que nunca deve ter visto a luz do prelo.
Desse raro e valioso códice extratei um breve apontamento, no qual anotei os dizeres do rosto:
Brasão antigo de Lagos atribuído por D. Manuel em 1504
A
 MINISTRADA 
Poêma
 critico
dado á luz
Por hum amador da tranquilidade Lacobri- 
gence. Anno
MDCCLXXXIV. (1)

Trata-se de um longo poema épico repartido por seis cantos e dividido em estrofes, narrando certos acontecimentos populares, marcados por gestos de rebeldia e atitudes de amotinação colectiva, que aglutinaram a maioria dos habitantes de Lagos. A contestação popular dirigia-se principalmente contra um vereador e o Juiz de Fóra da cidade, que desempenhavam os seus cargos de forma despótica com violência e arbitrariedade. Todos os factos e personagens nele descritos são identificados e classificados em dezenas de notas que figuram no término de cada Canto. Em boa verdade, não é apenas uma obra poética que ficou inédita por razões políticas, mas antes um verdadeiro documento histórico, embora de cariz literário, urdido no género mais caro à tradição nacional e ao gosto popular. Sendo as estrofes escritas com objectivos políticos, ainda que em tom crítico-jocoso, este códice torna-se numa fonte de informação notável para a história regional, particularmente para a história da cidade de Lagos, acrescendo com isso a necessidade de o publicar.
Este códice manuscrito abre com a seguinte "Introdução", uma espécie de nota explicativa, que passo a transcrever: 
«Os tumultos de Lagos originados das paixões de alguns Ministros, como pela ellevação da Caza do Vereador Bento de Azevedo, tem sido objecto de rizo para huns, e de trabalho para outros; mas de lastima para todos aquelles bons, e sinceros animos que se interessão no publico socego. A ultima dezordem que occazionou, e deu logar a este pequeno Poêma, em que mais se observão as leis da Verdade do que as Regras da Arte, se lhe fez de alguma utilidade, dando a conhecer os males e dezordens, a que nos conduz a discordia, e a ambição, e preencherá o fim do seu Author, unico e singular, que se propoz em ordenálo; e se alguém duvidar da variedade dos factos que nelle se apontão, o Author não tem duvida em apprezentar provas autenticas de todos elles, em qualquer Archivo, ou livraria publica da Corte.»
Confesso que não consegui identificar o autor deste poema crítico-jocoso, muito embora presuma que se trate de um adversário político, talvez um antigo membro das anteriores vereações, cujo espírito progressista e burguês, certamente favorável ao reformismo pombalino, se opunha à mentalidade do monarquismo absolutista que com D. Maria I retornara ao poder, abjurando e derruindo a maioria das conquistas sociais alcançadas durante a administração josefina. 
Não obstante o manuscrito se apresentar anónimo - como aliás convinha ao seu carácter clandestino e aos seus objectivos subversivos - encontrei no final da "Introdução" que acima se transcreve uma assinatura de um único nome: Valle. Fiquei, porém, na dúvida se seria a identificação do autor ou do copista, já que desta «Ministrada» circularam vários exemplares manuscritos.
Seja como for, uma coisa é certa, este códice necessita de ser estudado e analisado por um historiador especializado no conhecimento da época, que prepare a sua publicação numa edição que elucide os leitores de todas as dúvidas que a sua leitura possa suscitar. As notas aduzidas no fim de cada Canto, são muito úteis e importantes para a identificação dos intervenientes na acção política, e sobretudo na contestação social descritas no poema, mas pareceram-me por vezes dúbias, algo veladas e pouco esclarecedoras para a compreensão da diegética histórico-literária. Só um especialista na matéria é que poderá dissipar todas as dúvidas, e até talvez identificar o seu autor.
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(1) Biblioteca Nacional de Lisboa, reservados, códice nº 6058.

domingo, 13 de novembro de 2016

Joaquim Ignez, um herói popular de Loulé

Uma aura de lenda e de heroísmo popular envolve a figura, hoje absolutamente ignorada, de Joaquim Ignez, um pobre e ignaro pastor, nascido e criado na aldeia de Salir, concelho de Loulé. Pouco ou nada se conhece sobre as suas origens familiares, sabendo-se apenas que manejava uma funda com insuperável pontaria e conduzia um rebanho de cabras, com tanta humanidade e carinho que as amestrara na arte de comunicarem, respondendo aos seus comandos e chamamentos.
Panorâmica da vila de Loulé, no último quartel do séc. XIX
Residia no sítio dos Palmeiros, não longe de Salir, e vivia do produto do seu rebanho. Ganhava o sustento com honestidade, sacrifício e trabalho. Tornou-se conhecido, respeitado e admirado pelos louletanos, pela seriedade com que vendia o proveito do seu rebanho, mas também o produto da caça silvestre, mercê da destreza com que manejava a funda. Acima de tudo fruía do prestígio da sua valentia e da coragem com que defendia o seu rebanho ao calcorrear as brenhas da serra algarvia.
Nos tempos do “foge-foge” andava o povo no Algarve esbaforido com a opressão dos exércitos estrangeiros, primeiro foram os franceses e depois os ingleses. Não havia sossego, e no chamado “ano do barulho”, em 1833, ocorreu o desembarque da esquadra liberal nas praias de Altura/Cacela, de que resultou a invasão do Algarve pelas tropas do Duque da Terceira. Entre 24 de Junho e 20 de Julho de 1833, esteve todo o Reino do Algarve submetido aos desígnios dos novos ocupantes, cujo efectivo militar era sobretudo constituído por mercenários franceses, belgas, suíços, ingleses, etc.
O governador do Algarve, general Mollelos, fervoroso servidor do Trono e do Altar, fiel súbdito de D. Miguel e do absolutismo, receando o confronto com o exército invasor, desconfiando da motivação dos seus soldados e da eficácia do seu armamento, decidiu retirar-se do Algarve e reagrupar forças em Beja. Foi uma decisão desastrosa para a sobrevivência da causa miguelista. Na verdade, constituiu o princípio do fim do absolutismo e a afirmação do liberalismo em Portugal.
Ponte, supostamente romana, sobre a ribeira da Tôr
Mas, nos primeiros dias da ocupação do Algarve pelas tropas do Duque da Terceira, houve que distribuir a força militar pelas principais cidades e vilas da região, a fim de impor aos seus habitantes as novas autoridades, inventariar recursos e requisitar meios para a sobrevivência dos novos senhores.
Para a vila de Loulé destacaram um batalhão de mercenários belgas, que à imagem do que já haviam feito os seus camaradas franceses em Faro e Olhão, cometeram certos abusos e exerceram arbitrariedades que os louletanos não esperavam, nem podiam tolerar. Parece que os soldados estrangeiros, na visita de inspecção que fizeram à freguesia de Salir, desrespeitaram a fé católica. Diz-se que foram à igreja local na procura de valores que não encontrarem, e por represália tiraram as imagens dos santos e depuseram-nas no átrio, cometendo gestos impúdicos e proferindo palavras que vexaram a fé católica e ofenderam a honra dos salirenses. O povo empertigou-se e os mercenários belgas responderam com prepotência e impetuosidade, causando alarme e escândalo entre o povo da serra algarvia.
A humilde Igreja da Tôr, palco das diatribes belgas
Consta que a notícia da agressão belga chegou aos ouvidos do Joaquim Ignez que preparou a vingança com a paciência e o método de um verdadeiro guerrilheiro. Conhecedor dos meandros e recônditos da serra, Joaquim Ignez esperou que o batalhão belga retirasse da sua aldeia natal em direcção a Loulé, para numa das passagens da ribeira de Salir, a mais favorável e frequentada pelos almocreves, surpreender os soldados com a destreza e perícia da sua funda, atacando à pedrada os soldados, ferindo vários e matando três. A confusão que se instalou entre os belgas foi enorme, mas depois que se recompuseram do susto empreenderam uma impiedosa caça ao homem, com batidas pelos montes e disparos atrabiliários, sem qualquer critério ou justificação. O pobre do Joaquim Ignez conseguiu escapar-se graças à colaboração do seu rebanho que encobria a sua presença e apagava os trilhos da sua peugada.
A partir de então a fama do pastor de Salir correu célere entre os montes da serra algarvia, tornando-se numa figura quase mítica, num herói popular que defendeu a honra dos seus humildes conterrâneos contra a injustiça e opressão dos ocupantes estrangeiros. A cabeça do humilde pastor foi posta a prémio. Lavraram-se autos de culpa e iniciaram-se os processos de captura, que decorreram durante anos sem efectivo resultado. O povo serviu-lhe de escudo, protegendo-o com o seu silêncio e auxílio material, frustrando a perseguição movida pelas autoridades liberais. Diz-se que o Joaquim Ignez homiziado na serra algarvia, chegou a acompanhar os homens do Remexido, preferido manejar a sua silenciosa e certeira funda em vez do cobarde e estrondoso fuzil.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

CÚMANO, Paulo

Maria Antónia Cúmano, 1861-1948
Abastado proprietário e benemérito local, nasceu a 17-05-1856, na freguesia de S. Pedro, em Faro, e residiu da rua do mesmo nome, no palacete que pertenceu ao Dr. Lázaro Doglioni, no qual esteve sediado o Arquivo Distrital quase até aos finais do séc.XX. Aqui viria a falecer, em 21-6-1948, com a provecta idade de 92 anos de idade.
Foi o último descendente do Dr. Justino Cúmano, notável médico, arqueólogo e numismata, nascido em Veneza a 20-02-1818, e falecido em Faro a 13-03-1885, que se havia consorciado em 17-05-1855 com a ilustre dama farense, Dª Maria Victória Pereira de Mattos, de quem teve quatro filhos: Paulo Cúmano, Maria Antónia Cúmano (nascida em 1861, e que foi casada com o conhecido proprietário João António Júdice Fialho), Isabel Cúmano (nascida a 6-06-1866, e que foi casada com o ilustre engº agrónomo Manuel de Bivar Gomes da Costa Weinholtz [1861-1901], que foi reitor do Liceu de Faro e deputado pelo Algarve), e Constantino Cúmano (que foi casado com a cunhada Ana Hickling de Bivar Weinholtz).
Isabel Cúmano, 1866-1918
Era um cidadão ilustre e muito querido na sociedade farense, não só pelas suas origens familiares e avultados meios de fortuna, como também pela sua afabilidade, pela sua bondade e filantropia, ajudando sempre as instituições de apoio aos mais carenciados.

Quando faleceu encontrava-se viúvo, desde há muitos anos, de D.ª Rosa Carvalho Machado, estando ainda vivos as suas filhas D. Maria Vitória e D. Maria Justina, proprietárias da Casa Paris, extinta alguns anos depois, e os seus filhos, capitão Paulo Cúmano, Lázaro Cúmano e Francisco Constantino Cúmano, todos a residirem em Lisboa. O seu filho cap. Paulo Cumano ficou conhecido por ser inspector e figura proeminente dos quadros superiores da PVDE, polícia internacional para a defesa do estado, que se ocupava quase em exclusivo da vigilância e perseguição aos adversários políticos do regime salazarista.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

ORTIGÃO, Berta Lúcio Pousão Pereira Ramalho

Figura de grande prestígio e distinção social, cujas origens entroncam nas principais famílias da alta burguesia algarvia do século XX. Era irmã do famoso poeta e causídico olhanense, João Lúcio, que faleceu cedo demais para uma carreira nas letras que se adivinhava de grande sucesso.
Era sobrinha do malogrado e genial pintor Henrique Pousão, do qual herdara grande parte da sua obra artística, que reservava na sua residência, juntamente com muitos dos pertencentes particulares do irmão, reunindo assim um dos mais valiosos espólios da cultura algarvia. Esse valioso e importante acervo artística – composto por inéditos de João Lúcio, correspondência epistolar, fotos de família, assim como esquissos, quadros e fotos de Henrique Pousão - acabou depois por se dispersar pelos herdeiros da família, sendo hoje praticamente impossível voltar a reuni-lo
Faro, panorâmica ribeirinha, anos 20 do século passado
Berta Ortigão nasceu em Olhão, em 1896, tendo completado a sua instrução básica através de perceptoras particulares que lhe ministraram o conhecimento da cultura clássica, a ponto de se fazer notar a sua opinião, e a sua crítica, junto das figuras ilustres que frequentavam o lar materno. Era, acima de tudo, uma mulher inteligente e perspicaz, de forte cultura humanística, que gostava de vincar as suas convicções monárquicas, contra os abusos e despautérios do revolucionarismo desembolado que se instalara no país após 1910.
Casou-se com o Dr. Silvestre Falcão Ramalho Ortigão, conceituado causídico na praça de Faro, grande proprietário rural e urbano, herdeiro de avultados meios de fortuna, e de prestigiados pergaminhos familiares. Em Faro fixou D.ª Berta a sua residência conjugal. Na sociedade farense foi sempre muito respeitada e admirada, não só pelas suas qualidades morais e fino trato social, como sobretudo pela sua ilustração e espírito mecenático. Não havia concerto, peça de teatro, conferência ou exposição de arte, tanto em Faro como em Olhão, que não contasse com a presença de D. Berta Ortigão. Era como que um atestado de qualidade, que a cidade fazia questão de manter.
No início da década de sessenta do século passado, então viúva e depauperada pela doença que se manifestava de forma prolongada, foi para Lisboa onde durante vários meses procurou alívio para os seus padecimentos. Faleceu a 20 de Março de 1963, com 66 anos de idade, realizando-se o seu funeral dois dias depois em Faro, ficando depositada em jazigo de família no cemitério da Esperança.

Acresce dizer que D.ª Berta não teve filhos, mas as suas relações familiares eram muito vastas. Assim, pelo casamento era cunhada de Teresa Falcão Ramalho Ortigão, Rita Ramalho Ortigão Pinto Cortês (casada com o Dr. Carlos Pinto Cortês), Sebastiana Ramalho Ortigão, capitão João Falcão Ramalho Ortigão (que casou e residiu em Vila Viçosa) e Joaquim Ramalho Ortigão. Era tia de Maria Luísa Pousão Pereira Moreno da Cunha, Maria Eugénia Ramalho Ortigão Delgado (casada com o comandante aviador Francisco Delgado), Drª Maria Rita Ortigão Cortês, Maria Eduarda Pousão Pereira de Figueiredo, Maria Luísa Pousão Sancho Moniz Pereira (poetisa que foi casada com o Cor. Nuno Moniz Pereira, casal que conheci muito bem), engº Ruy Pereira Ramalho Ortigão, João Manuel Pousão Sepúlveda de Figueiredo, Jorge Pousão Pereira de Figueiredo e Joaquim Manuel Pousão Ferreira (casado com Alzira Franco Marques Pousão Ferreira).