domingo, 1 de novembro de 2009

DAVIM, Joaquina Aboim da Ascensão



Benemérita protectora dos desvalidos, nasceu em Faro 1863 e faleceu na mesma cidade em 5-6-1942, com 79 anos de idade.
Esta espécie de mãe dos pobres foi a continuadora do projecto nacional engendrado pelo seu irmão, o benemérito coronel Rodrigo Aboim Ascensão, instituidor em Lisboa da «Associação Protectora da Primeira Infância» e em Faro do «Refúgio Aboim Ascensão», hoje designado por «Emergência Infantil», através dos quais pretendeu dar guarida e protecção às crianças abandonadas ou vítimas de maus tratos, derivando dessa circunstância a designação de “Refúgio”. Era ainda irmã de D.ª Maria da Piedade Ascensão Sande Lemos, que foi casada com o coronel Sande Lemos, um dos grandes obreiros da Associação dos Combatentes da Grande Guerra, que dirigiu ao longo de muito anos, dotando-a aliás de alguns dos seus próprios meios de fortuna.
A bondosíssima senhora, D.ª Joaquina Ascensão, casou-se em Faro com o Dr. Joaquim Rodrigues Davim, que para esta cidade viera colocado como notário, revelando-se um cidadão exemplar e de grande sensibilidade artística, ao ponto de ser considerado nos finais do século XIX, como um dos melhores poetas do Algarve. Não tiveram filhos naturais, mas como a determinada altura soube que seu marido possuía duas filhas, resultantes duma relação extraconjugal com uma modesta costureirinha, mandou que as meninas fossem recolhidas na sua casa, onde as educou e perfilhou, fazendo delas senhoras da primeira sociedade farense. Refiro-me à D.ª Silvina Davim, que conheci bem, casada com o Dr. Mário Lyster Franco, advogado, jornalista e escritor; e à D.ª Olímpia Davim, casada com o Dr. Manuel Rodrigues Júnior, antigo professor liceal, figura muito respeitada na sociedade farense.
A D.ª Joaquina era tia do Dr. José de Ascensão Contreiras, do Eng.º Manuel Aboim de Sande Lemos e do Dr. José Aboim de Sande Lemos, todos figuras de primeira plana na sociedade farense do século XX.
Levada pelos seus impulsos de benemerência e filantropia, qualidades que sempre pautaram a sua existência, legou vários dos seus importantes bens imobiliários ao «Refúgio Aboim Ascensão», à Ordem Terceira do Carmo, ao Seminário de São José e às «Filhas de Maria», todas instituições que na cidade de Faro se encarregavam de proteger os desvalidos e de combater a pobreza.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A inocência dos justos no inferno de Camarate


José Carlos Vilhena Mesquita

Na história política do recém encerrado séculos vinte ocorreram, pelo menos, três crimes políticos que cobrem de opróbrio a nossa memória colectiva. Refiro-me aos assassinatos do rei D. Carlos, do general Humberto Delgado e do Primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro. Passarei em revista os dois primeiros, para estanciar depois no último, o mais próximo no tempo, e talvez o mais infamante de todos, visto que ainda permanece irresoluto.
Em primeiro lugar o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro, Luís Filipe, perpetrado a 1-2-1908, no Terreiro do Paço, em Lisboa. Foi uma execução pública da mais hedionda barbaridade, que deixou o país envergonhado perante o mundo civilizado. Ainda hoje custa a acreditar como foi possível que se tivesse chegado a tamanho extremo e a tão vil procedimento. Não me recordo de ter ouvido falar num pedido de desculpas à Família Real por parte da República ou do Estado que a representa, nem muito menos da Maçonaria, como autora material do crime e como entidade política responsável por muitas outras atrocidades. Atente-se no bom exemplo da Igreja Católica, ao reconhecer que cometeu graves erros no passado, nomeadamente através da Inquisição, pelos quais teve a honradez e a dignidade de pedir perdão à Humanidade.
O segundo crime político, que aguilhoou as nossas consciências, ocorreu em 1965, quando a PIDE assassinou o general Humberto Delgado, na raia espanhola, próximo de Badajoz. No conceito internacional o país perdeu toda a credibilidade política, sobretudo no Reino Unido e nos EUA, dissipando-se a condescendência de que Salazar usufruíra durante décadas com o seu “fascismo de cátedra” – como lhe chamou Unamuno. Quando o regime caiu, em 25 Abril de 1974, o país exigiu que os culpados fossem julgados. E o certo é que os autores materiais desse hediondo crime foram acusados e condenados em tribunal.
Por fim, o crime que mais enxovalhou o país foi a morte, em 4-12-1980, do então Primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, juntamente com mais seis acompanhantes, entre eles o Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa. Toda a gente percebeu nessa precisa noite que se tratou de um crime político. Porém, os seus camaradas da política entenderam que tudo não passou de um infeliz acidente. Perante a leitura dos relatórios exarados por peritos internacionais, pelas autoridades policiais e comissões de inquérito, que compulsaram provas e testemunhos indiciários de atentado bombista, parece incrível que durante todos estes anos os políticos se tivessem abroquelado por detrás da tese dum infeliz acidente. E a justiça passou ao lado da verdade.
O processo judicial prescreveu há cerca de três meses atrás. Veja-se o despudor com que se anunciou, urbi et orbi, que um caso de lesa história perdera o seu prazo de validade na justiça portuguesa. Isto é não só ridículo, como é, sobretudo, uma vergonha nacional. Significa tão-somente que a morte ou, mais presumivelmente, o assassinato de várias figuras públicas, sendo uma delas o chefe do poder executivo, tivesse passado impune aos olhos da justiça.
A verdade é unicamente esta: decorreram 26 anos sobre a trágica morte desses justos e inocentes portugueses, sem que nunca se lhes tivesse feito justiça, levando os culpados à barra dos tribunais. E não digam que não sabiam quem eram os autores do crime. Todas as provas indiciavam Sinan Lee Rodrigues e José Santos Esteves como autores materiais do atentado. Ainda há dias este último, que se tornou na figura pública do “Sô Zé”, declarou à revista «Focus» que fora o autor da bomba que matou Sá Carneiro. Mas como não convinha “desenterrar” o assunto, trataram logo de agitar o fantasma do “Apito Dourado” para desviarem a atenção da opinião pública. E o certo é que o caso foi imediatamente “abafado” para dar lugar aos mexericos duma Carolina, artista de alterne, que o país transformou na Maria Madalena do nosso pacóvio provincianismo. Depois do Zé Cabra, do Zé Maria, do Castelo Branco e das putativas figuras do alisbonado jet-set do parolismo nacional, eis que surge agora a celestial Carolina, cujo drama conjugal se tornou num best-seller e fez esgotar as edições da nossa imprensa, que, neste como noutros casos, se tem revelado cada vez mais acéfala, mercantil e sensacionalista.
Francisco Sá Carneiro foi, acima de tudo, um homem honrado, de superior inteligência e fortes convicções políticas, que as circunstâncias políticas e a injustiça dos homens transformariam num mártir da liberdade. Teve uma vida digna, que poderia ter sido longa e auspiciosa, mas que cessou abruptamente há vinte e seis anos atrás, numa fria noite de Dezembro. Entre a penumbra da traição política e a obscuridade duma vil emboscada, paira toda uma nação, ainda estupefacta e aturdida pela infamante interrogação da verdade. A infernal tese da inocência dos lobos na sanguífera noite de Camarate cobriu de opróbrio toda a geração política glorificada em Abril.
A sua mensagem ideológica e os valores éticos pelos quais tanto propugnou, foram em larga medida delidos pelo tempo, ou obliterados da memória nacional por aqueles que lhe sucederam. Foi inquestionavelmente um promissor político traiçoeiramente assassinado no vergonhoso inferno de Camarate.
Um povo pacífico, cordato e ordeiro, como o nosso, não pode rever-se no sangue derramado pelas vítimas inocentes do ominoso crime de Camarate.
O Governo e a Assembleia da República, já que não estão na disposição de levantarem a prescrição do caso Camarate, deveriam pedir publicamente desculpa aos descendentes das vítimas, por terem deixado impunes os algozes daqueles que morreram como justos ao serviço do governo e do Estado português. Enquanto isto não se fizer, cobrir-nos-emos todos de vergonha perante a memória das vítimas.
Enquanto não se dirimir a verdade e não se apontarem os algozes, continuaremos a pronunciar hosanas à glorífica liberdade conquistada ao sol de Abril, mas eclipsada e conspurcada pela occisiva noite de Camarate. A democracia portuguesa jamais conseguirá lavar o rosto angélico da sagrada liberdade com as lágrimas dos seus gloriosos mártires, porque na fímbria do seu divino manto se esconde o sangue dos inocentes, imolados no ominoso covil de Camarate. Somos um país de fatalismos e de brumas sebastiânicas, aguardando expectantemente – não o messiânico salvador, mas tão só a natural e humana justiça, que tarda... mas não deveria faltar.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Aquilo que verdadeiramente entra no livro de António Manuel Venda

A primeira questão que se sobrepôs à leitura deste livro de António Manuel Venda, foi precisamente a mais elementar, isto é, a de saber se efectivamente estava, ou não, perante um romance na verdadeira acepção da palavra, e do teórico conceito que lhe é inerente. O trago de dúvida com que fiquei no final da sua leitura obriga-me a definir os termos e os conceitos em que me exprimo. Um pouco à laia de Voltaire, urge pois aclarar os conceitos com que nos expressamos para que a sintonia das palavras não se disperse na confusão ou no calor da discussão.
Comecemos por definir a palavra Romance, para perceber sem mais delongas aquilo que traduz o seu conceito. A palavra, na sua nudez original, deriva do étimo latino romanice, do qual descende romanicus, que significa, em latim popular, uma narrativa, verdadeira ou imaginária, escrita em prosa ou verso, repartida por cenas, quadros ou capítulos, pejados de pormenores e longas descrições, cuja acção se desenrola através de várias personagens, de entre as quais só algumas assumem o protagonismo de se tornarem no centro da diegese. Isto no que concerne à palavra.
Porém, no que incumbe ao conceito de romance, importa dizer que só muito tardiamente é que o mesmo foi equacionado, numa perspectiva mais simples, mais sintetizada, mas não menos abrangente. Com efeito, só no declinar do séculos XVIII é que se definiu o romance como “uma narração em prosa de uma acção fictícia que tem por quadro a pintura de costumes”. Dito desta forma não há nada mais simples, nem menos directo. E sendo assim, a obra O que entra nos livros, de António Manuel Venda, integra-se inquestionavelmente, tanto no conceito como na palavra, na correcta designação de romance. Não unicamente de “costumes” - porque isso está fora de moda e qualquer dia nem existe – mas de um maravilhoso fantástico, a que mais adiante nos referiremos com relativa acuidade.

Ao longo da História da Literatura Portuguesa publicaram-se diversos tipos de romances: históricos (Romantismo); sócio-moralistas (Naturalismo), ético-científicos (Realismo); político-revolucionários (Neorealismo); anti-dogmáticos e universalistas (Modernismo) psico-surrealistas (Pós-Modernismo), e outros que nem sei até como qualificá-los. Em todos estes modelos de criação ficionista o que está em causa são os costumes das sociedades humanas no tempo e no espaço, numa espécie de simbiose, ou de intercepção espacial, entre a História e a Sociologia.
Ora acontece que este romance, O que Entra nos Livros, afasta-se de todos estes modelos classificativos, ou de todas os movimentos literários que acabei de enunciar sumariamente, muito embora o seu discurso narrativo se integre naquilo a que chamo o “modernismo milenarista”. Isto é, na tentativa de criação artística através do pictorismo ficcionista da palavra, ascendendo a patamares supra-fantasistas, que rapidamente se transformam numa diegese fantástica, surreal, imateral e anti-ascética. Nada de novo, diríamos, se com isso não se cortassem definitiva e diametralmente os cânones da ficção dominante. O paradigma romancista, na sua feição soberana e imperante, preocupa-se com a construção de grandes quadros sociais, ao longo dos quais o autor vai fazendo uma descrição evolutiva dos interesses percepcionais e dos seus consequentes jogos de poder, assim como das virtudes e defeitos dos protagonistas, dos assimilados ou dos desintegrados numa sociedade enquistada nos defeituosos costumes do individualismo social. O romancista torna-se assim num crítico e num psicanalista da sociedade, no que isso tem de mais contraditório e de paradoxal, usando geralmente o amor e as relações laborais nas suas conexões e correspondências com as intrigas que vulcanizam os diversos poderes em que se reparte a vida real. O romancista é, em suma, um ficcionista do real.
No caso presente, a natural bonomia de António Manuel Venda, a sua candura bucólica, a sua inocência e pureza de carácter, insuflada dum certo torpor algarviista, influenciou decisivamente a sua inspiração e consequente criação artístico-literária, visivelmente enraizada nos telúricos vergéis da sua saudável Monchique, onde os romanos procuravam a cura para os seus achaques através do princípio natural da água, ou seja, o termalismo, modernamente designado por SPA, sigla romana que se traduz por “salute per aqua”.
Neste livro, como aliás, em quase todos os outros da sua lavra, a terra-natal, o Algarve e a peneplanície alentejana, que lhe serve hoje de residência e de ninho conjugal, estão presentes com uma insistente acuidade, e até por vezes com inusitado protagonismo . O mesmo acontece com as reminiscência da sua infância e juventude, aqui e ali afloradas, num contrastante quadro dos sentidos, entre a fresca e verdejante montanha e as estivais praias do barlavento algarvio. Essa enriquecedora vivência, a que certamente se conjugaria uma marcante e muito atenta convivência social, serviu-lhe, e provavelmente ainda lhe servirá, para povoar de vida os seus romances, os seus contos e novelas, cujo inquestionável talento, e insofismável sucesso literário, enobrece hoje não só a literatura portuguesa como, muito particularmente, o seu e nosso Algarve.
Relativamente ao estilo, à concepção narrativa deste livro, direi que impera na estruturalização dos seus capítulos uma insistente, e consistente, preocupação realista da envolvente descritiva, através do recurso ao enquadramento paisagístico em que decorre a diegese. A descrição das aves e animais que abundam no montado onde reside, dos pormenores sobre a flora alentejana e sobre o parco coberto florestal, a contrastar com a sua Monchique originária, é uma constante neste romance. A descrição das estradas por onde circula, com as alarmantes brigadas de transito (que por insistência descritiva acabam por o interceptar quase no final do livro), assim como as pessoas que na berma da estrada, nos largos e jardins das aldeias, aguardam serenamente o decurso dos seus dias, numa entediante monotonia. Apesar de aqui e ali depararmos com uma certa acintosidade crítica, contra a ditadura salazarista, mas também contra os políticos actuais, a que não escapam os autarcas, o certo é que a acção do romance decorre de forma lenta e parcimoniosa, à imagem do clima mental, mas também socioeconómico, que se vive nas terras sulinas. Apesar dessa aparente lentidão, desse torpor ao Sul, a minha atenção de leitor (ainda que pouco disponível para a ficção literária), não se conseguiu despegar das páginas que se iam sucedendo, envoltas no crescente mistério da fantasia que paira por detrás das palavras.
O autor, na sua prodigiosa imaginação, assume-se, quase despudoradamente, como personagem principal, como confidente do leitor, e por vezes como um cavaqueador tertuliano, do qual não nos podemos divorciar. Num estilo pós-moderno, o António Manuel Venda encanta-nos com a fantasia dum “mágico velhinho”, figura levemente fantástica, duma bonomia desarmante e quase infantil, muito invulgar por causa dessa inofensividade, contrária à agressividade das personagens surreais que caracterizam este género de literatura.
Acima de tudo, o livro está primorosamente bem escrito, escorreito na linguagem e absolutamente correcto na estrutura frásica e na concordância gramatical, em que por vezes o autor se coloca, diegeticamente, com pruridos de perfeccionista. Numa visão sintética e desconstrucionista da concepção narrativa, eu diria que este livro é uma espécie de alegoria aos Livros e ao Mundo da Escrita, cuja acção se desenvolve num quase monólogo entre o autor e o leitor. Numa estratégia modelarmente concebida, a atenção do leitor é constante e abruptamente interrompida pela desconcertante forma como se encerram os capítulos, deixando-lhe um trago de insaciável curiosidade. Desse estratagema narrativo resulta numa inebriante concentração do leitor na sucessão diegética das páginas, que o leva sempre por diante na progressiva sucessão dos capítulos.
Falando, ainda mais concretamente, deste livro, parece-me que, em primeiro lugar, dele ressalta a surpresa do título: «O que entra nos livros». Assim, de repente, apetece-me dizer que o que está dentro deste livro mais não é do que a própria alma do autor, consubstanciada no seu talento e genialidade, eufemisticamente identificada na figura do “mágico velhinho”. Acima de tudo, o que está dentro deste livro é a rara e mui singular capacidade imaginativo-fantasista do António Venda.
Curiosamente, ao contrário do que seria normal e expectável, este livro não se distancia dos anteriores; bem pelo contrário, engastasse no romance que o antecede, intitulado O Medo Longe de Ti. Não é a sua continuação, como se de uma saga se tratasse, mas antes de um romance de anamnese, em que uma das figuras secundárias e quase inócuas do livro anterior, passou, ou saltou qual malabarista, para o livro seguinte, como se tivesse vida própria, ou, talvez mais concretamente, como se já existisse antes de ser inventado. É a figura do “mágico velhinho”, uma criatura inventada pelo autor, inocentemente inspirado na «Branca de Neve e os Sete Anões», obviamente uma reminiscência da infância, modelado pela sua imaginação no aspecto físico do Dunga, mas com o carácter e os trejeitos do Zangado.
Tudo aparentemente infantil e inocente, mas que no decurso da narrativa se transforma numa misteriosa errância psicanalítica, pejada duma envolvência fantasista e quase fastasmática, geradora dum clima enigmático, nebuloso e enleante. O misterioso e insondável “mágico velhinho”, vagueava pelos livros, saindo de um e entrando noutro, numa irrequieta odisseia entre autores de diversos quadrantes culturais, aparentemente desconexa e sem qualquer critério, mas que, ao fim e ao cabo, revelava ou estava intimamente relacionada com as preferências literárias do próprio António Manuel Venda. Em certo sentido, o “mágico velhinho” constitui a personificação do espírito errante e irreverente do próprio autor.
Mas o mais desconcertante neste romance é o facto de ser apenas constituído por dois personagens, mais essa omnisciente figura do “mágico velhinho”. Em boa verdade, na intercepção dos diferentes estratos narrativos, estão apenas duas personagens, o Autor, especificamente identificado, e o Livreiro, um tal Sapinho Júnior, proprietário duma livraria em Évora, que numa simples carta indagava o “caríssimo romancista” sobre os verdadeiros traços fisionómicos do “mágico velhinho”. Esta missiva funciona como rastilho para despoletar todo o romance em torno de uma absoluta ficção: o “mágico velhinho”, esse pressuposto duende ou gnomo, híbrida figura inspirada no Dunga, um anão do humor infantil, que talvez por humildade do autor nunca poderia transformar-se num Merlim da Corte do Rei Artur.
O certo é que em torno do “mágico velhinho” nasce, cresce e se desenvolve, um belo romance, uma apaixonante história de fantasia e de mistério, que absorve e confunde a atenção do leitor, transformando-se numa espécie de romance policial, sem violência, sem sangue e sem criminosos.
Perante tudo isto, coloca-se-me, porém, e a priori, esta pertinente questão: terão os livros vida própria, e, por isso, a faculdade de gerarem descendência? Terão os personagens de ficção a possibilidade de se tornarem reais e de se independentizarem do berço/livro em que nasceram? Lendo atentamente O que Entra nos Livros, somos levados a crer que sim, os livros reproduzem-se e os personagens podem fugir deles para virem connosco passear por entre as nossas vidas.
José Carlos Vilhena Mesquita

[texto de apresentação do livro O que entra nos livros, da autoria de António Manuel Venda, edição da Ambar Editora, proferido em 29-09-2007, na Estalagem da Fóia, em Monchique]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Notas avulsas de História e Arqueologia

Quando jovem escrevi centenas de pequenas fichas (15x10cm), sobre diversos assuntos relacionados com o Algarve. A maior parte delas não constituem hoje grande novidade, devido à evolução dos estudos que entretanto se publicaram. Em todo o caso sempre aqui deixo algumas referências curiosas, para o caso de puderem ser proveitosas para quem nelas encontre qualquer interesse.

Origem do topónimo Loulé – O Prof. José Leite de Vasconcellos, na sua magistral obra Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 370, considera que o topónimo Loulé tem origem numa palavra árabe. Para o efeito refere alguns trabalhos publicados pelo Prof. David Lopes onde o assunto da toponímia portuguesa é amplamente versado. Aponta como os mais credíveis um artigo publicado na «Revista Lusitana», vol. XXIV e um outro, que nunca li, intitulado Os Árabes em Herculano, onde a pág. 80 refere a origem árabe do topónimo de Loulé. Confesso que não posso afiançar nada disto porque nunca vi esse artigo.

Forais de Loulé – o foral antigo foi exarado em Lisboa e datado de Agosto de 1266, encontrando-se à consulta pública no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso III, Livro I, fl. 83 verso, coluna 2.
O foral dos Mouros Forros foi dado em Lisboa a 12 de Julho de 1269, e encontra-se no mesmo arquivo, Livro I de Doações de D. Afonso III, fl. 97vº, col. 1; e Livro IV de Inquirições de D. Afonso III, fl. 8vº.
O foral manuelino foi dado em Lisboa a 20 de Agosto de 1504, e encontra-se no ANTT, Livro de Foraes Novos do Alemtejo, fl. 23vº, col. 1.

Furacão – A 14 de Janeiro de 1850, pelas 7, 30 horas da manhã fez-se sentir um fortíssimo furação que assolou a vila de Loulé. Dada a consistência do tecido urbano não houve vítimas nem gravosos prejuízos nas habitações, o mesmo já não se podendo afirmar em relação aos arredores da vila, onde o furacão quase varreu os pomares e arvoredos, levantando telhados, derrubando cimalhas, portas, janelas e pequenas construções para animais. Os prejuízos foram bastante significativos, deixando o ano de 1850 como uma referência na memória popular louletana.

Fundações arqueológicas no Mercado – foi construído no recinto das antigas muralhas, defronte da porta então designada de “Nossa Senhora do Carmo”, a qual havia sido demolida pouco antes da construção do mercado. Os trabalhos de desaterro puseram a descoberto alguns poços empedrados com uns 0,70 m. de largura de boca (semelhantes a outros que haviam também aparecido no Largo da Sé em Faro, aquando das escavações que ali se fizeram no início dos anos quarenta), silos de cereais e vestígios de alicerces. Quer nos poços, quer avulsos pelo local, recolheram-se vários objectos árabes e romanos que foram para o Museu de Belém, hoje designado por Museu Nacional de Arqueologia.

Inscrição romana – No sítio de Apra, arredores de Loulé, foi recolhida uma lápide com uma inscrição romana, que o Prof. Leite de Vasconcellos identificou como invocatória dos Deuses Lares.
Veja-se a este propósito as referências que aquele sábio faz a esta inscrição na sua obra As Religiões da Lusitânia, vol. III, p. 291.

Sepultura visigótica – O sábio José Leite de Vasconcellos, das várias vezes que visitou o Algarve, foi ver uma sepultura que se havia descoberto em Loulé, a qual logo definiu como remontando ao séc. V e à época visigótica. Nela encontrou um anel de ouro de boa feitura, e uma moeda também de ouro, designada por “tridente”, mandada cunhar por Eudóxia (421-450), que foi, como se sabe, esposa de Teodósio II.
Veja-se a este propósito a respectiva referência ao achado arqueológico publicado na revista Archeologo Portuguez, vol XII, p. 367; e uma outra referência publicada na mesma revista, vol. XIII, p. 355.
Acresce dizer que esta célebre revista, dirigido por Leite de Vasconcelos, foi reeditada em fac-símile pela Imprensa Nacional, mas também pode ser consultada on-line ou em CD-ROM.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Documentos relativos a Loulé, séculos XII a XVI

Doação da Igreja de São Clemente ao Mestre de Santiago - "Carta de Escambo", datada de Lisboa em 1 de Dezembro de 1297, firmada por el-rei D. Dinis, através da qual se dava por escambo, isto é em troca, a D. João Osório, mestre da Ordem de Santiago, as vilas de Almodôvar e de Ourique, assim como os castelos de Aljezur e de Marrachique, com suas igrejas, e ainda a Igreja de S. Clemente de Loulé, tudo em permuta pela vila de Almada.
Este documento faz-nos perceber a importância económica daquela vila fronteira a Lisboa, e da pouca monta, em que para o erário régio era tido em linha de conta, todo o património aqui referido. Este documento encontrei-o em bom estado, escrito de forma escorreita e legível, sobre pergaminho bem conservado. Merece ser estudado e publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta V, Maço 4, documento n.º 1.

O Almoxarife de Loulé vendeu terras à Condessa D. Leonor - Num documento de pergaminho e em bom estado de conservação, datado de Loulé, a 4 de Agosto de 1286, podem constatar-se os termos da compra feita pela Condessa D. Leonor a Paio Miguel, almoxarife de Loulé, das heranças de Montouto, em Vale Longo, no termo de Évora, que ele tinha herdado de Pedro Anes.
Este documento é de leitura algo imbricada, mas está legível, em pergaminho bem conservado. Merece ser estudado e publicado, mas só por quem souber deslindar as transmissões nele referenciadas. As personagens citadas merecem também ser devidamente analisadas, nas suas relações com a Corte.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta III, Maço 7, documento n.º 4.

Sentença de pagamento de Dízima pelos Mouro Forros – O rei D. João I, firmou em Lisboa, a 8 de Dezembro de 1393, uma sentença pela qual foram julgados os Mouros Forros da Vila de Loulé, sendo condenados a pagarem a el-rei pelas terras que tinham de sesmaria, e que tinham sido primeiramente dos cristãos, uma dizima a El-Rei e outra à Igreja; e os cristãos, que tivessem terras que antes foram de Mouros, pagassem a mesma coisa.
Trata-se de um pergaminho em bom estado e que se lê sem dificuldade. Considero-o muito importante para aferir a igualdade de justiça em que ambas as comunidades eram tidas e apercebidas, isto é, em que coabitavam, na vila de Loulé. Século e meio depois da conquista da cidade ainda nela coexistia uma significativa comunidade de mouros, sendo designados por “Forros” porque lhes fora outorgada a liberdade por direito de Foral.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Livro 1 dos Direitos Reais, fl. 242v-243v.

SENTENÇA contra o concelho da vila de Loulé, pela qual se viu obrigado a pagar a el-rei pelo foro de uma horta, duzentas libras de moeda antiga.
Documento em bom estado, feito pergaminho, datado de 23 de Julho de 1465. Tem oito folhas e é de leitura muito curiosa para quem se debruçar sobre o assunto com a paciência que ele merece.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XIII, Maço 3, documento n.º 6.

Privilégios da Vila de Loulé – Num documento datado de Estremoz, a 22 de Setembro de1497, declaram-se e confirmam-se os privilégios da vila de Loulé.
Interessante documento feito em pergaminho, com oito folhas, em bom estado e letra firme. Possui cópia anexa com a referência detalhada dos mesmos privilégios desde a sua origem.
Merece ser publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta III, Maço 12, documento n.º 2.

Sentença, datada de 13 de Março de 1587, pela qual foi determinado que a doação do ofício de Escrivão dos Órfãos de Loulé pertencia em exclusivo a El-Rei.
Documento em papel, com catorze folhas, em bom estado de conservação. É de relativo interesse.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XIII, Maço 6, documento n.º 12.

Propriedades que tinham sido dos Mouros –Trata-se de uns «Autos» feitos pelo Almoxarife de Loulé, a instâncias de El-Rei, para que sejam exaradas em novo Livro as propriedades dizimadoras que tinham sido dos Mouros, e que foram doadas a Diogo Fernandes Cavaleiro.
Documento importantíssimo para a definição das terras que pertenceram aos mouros da vila, os quais ali já não co-existiam há muitos anos. Trata-se de um códice, em papel, datado de 8 de Fevereiro de 1512. Encontra-se escrito em 27 folhas de papel, em bom estado de conservação. Merece ser publicado.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Gavetas da Torre do Tombo, gaveta XX, Maço 10, documento n.º 34.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O poeta Salazar Mosocoso, na miséria

Publicou-se na imprensa algarvia, nos anos trinta do século passado, uma “Carta de Lisboa” da autoria do Dr. Ludovico de Meneses, na qual se instava aos homens da cultura e aos estudantes do Liceu de Faro para que abrissem uma subscrição público com o objectivo de acudir ao estado de miséria em que se encontrava o grande poeta lacobrigense Salazar Moscoso, então a residir na cidade de Santarém, onde aliás, pouco depois, viria a falecer.
A razão desse apelo à solidariedade intelectual prendia-se com o facto daquele ilustre poeta ter enviado ao Dr. Ludovico de Meneses (de quem fora colega e dilecto amigo no tempo em que ambos leccionaram no Liceu de Faro) uma carta contendo um pedido de auxílio entregue por intermédio de um amigo, cujo teor passo a transcrever:

Santarém, 3-4-1932
Meu caro Menezes

Apresento-te o meu excelente amigo Alfredo de Moraes, antigo jornalista e escritor distinto, de fino espírito e vasta ilustração, com cuja amizade me honro e congratulo.
Ele melhor do que eu, te exporá a minha angustiosa situação e a absoluta carência em que me encontro da assistência dos meus amigos e especialmente dos meus comprovincianos.
Sem mais abraça-te o teu velho amigo
Bartolomeu Salazar Moscozo


Nessa sua «Carta de Lisboa» o Dr. Ludovico de Menezes, para comprovar a beleza e inspiração lírica do seu dilecto amigo, publicou o seguinte sonetilho de Salazar Moscoso:

NUPCIAS

Ao teu solar que branqueja,
Sobre um alto monte erguido
Agora, com teu marido,
Vens recolhendo da igreja.

Tem o prado que floreja
Um frémito indefinido,
Todo o povo reunido
Do véu a fímbria te beija.

E os choupos, os amieiros,
Acompanham, mesureiros
As saudações da ribeira

Só as abelhas douradas
Choram por ver desfolhadas
As flores da laranjeira!

Este belo sonetilho, no qual o genial poeta exalta a vaporosa figura da mulher/noiva, constitui uma espécie de apoteose parnasiana da beleza feminina, cuja sequência rítmica do verbo lírico revela um poeta de rara inspiração e de profundo sentimentalismo romântico.

J.C.V.M.

O Paredão de Lagos


No dia 30 de Março de 1897 começaram os trabalhos de demolição das muralhas e baluartes da cidade de Lagos, cuja derruição se tornou insuperável para iniciar os trabalhos de construção do paredão que se projectara erguer sobre a baía do porto.
No livro de notas do tabelião Ramos, inscrito no notariado de Lagos, encontra-se lavrada uma escritura com o Ministério da Guerra e o Comando Geral de Engenheiros, representados pelo coronel comandante do Regimento de Infantaria 15 e pelo capitão de engenharia Castro, pela qual cedem as referidas muralhas e baluartes ao Ministério das Obras Públicas, representado pelo eng.º chefe da secção de hidráulica do distrito de Faro, Alexandre Maria Ortigão de Carvalho.
A autarquia de Lagos manifestou o seu público regozijo pela assinatura da referida escritura, pois desde há muitos anos que vinha solicitando junto das instâncias superiores a realização aquelas obras, consideradas de primacial importância para a contenção das cheias de inverno e para o alargamento da cidade. Prepararam-se desde logo grandes e pomposos festejos para assinalar a solenidade do lançamento da primeira pedra do referido “paredão”, anunciando-se a sua efectivação para Outubro desse ano, quando a cidade fosse visitado pelo rei D. Carlos I.

J.C.V.M.

Apeadeiro do Bom João, em Faro


A construção do apeadeiro ferroviário do Bom João, sito ao km 342,188, iniciou-se nos primeiros dias de Julho de 1950, sob a orientação técnica de um tal eng.º Fonseca, que era o chefe da 16.ª secção de Via e Obras da C.P.
O local escolhido situava-se mesmo em frente do bairro do mesmo nome, nas imediações da fábrica pertencente ao empresário E. Torres Pinto da Silva, que desse apeadeiro poderia tirar o melhor proveito para o transporte da sua produção industrial. A obra constituía em si um notável melhoramento, pois que não só viabilizaria a transformação dos vastos terrenos agrícolas que lhe estavam adjacentes em futuras urbanizações, como também facilitaria aos estudantes do Liceu de Faro um acesso rápido e cómodo por via-férrea. De tal forma assim foi que não tardou em ficar conhecido como o “apeadeiros dos estudantes”.
Actualmente, embora perdesse a serventia para a fábrica Torres Pinto, entretanto encerrada, continua a ser utilizada por outras indústrias limítrofes, pelos moradores do populoso bairro do Bom João e, muito especialmente, pelos estudantes do Liceu João de Deus.
Pouco depois deu-se também início à construção do apeadeiro da Porta do Mar, que permitia o acesso por via-férrea até ao coração da cidade antiga, junto ao quartel de bombeiros, precisamente no antigo cais da lota.
Acresce dizer, para concluir esta nótula, que o apeadeiro do Bom João foi inaugurado no dia 1 de Novembro de 1950.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Compra do Teatro Lethes, em Faro, pela Cruz Vermelha



Os herdeiros de Constantino Cúmano, grande benemérito local, venderam, em Junho de 1951, à sociedade da Cruz Vermelha Portuguesa o magnífico edifício do antigo Teatro Lethes. Segundo constou na época o imóvel foi transaccionado por 350 contos, comprometendo-se a nova entidade proprietária a não alterar a traça arquitectónica do edifício, garantindo ao mesmo tempo o restauro e recuperação do edifício.
O único problema que importava solucionar a breve trecho era o de assegurar a sede do Sport Lisboa e Faro, que ali se encontrava instalado há bastantes anos. Aquela agremiação desportiva tinha aliás grandes tradições, encontrando-se estruturalmente relacionada com a vida social da cidade, comprovada aliás pelos cerca de 800 sócios que mantinha nas suas fileiras. Na altura, muitos foram os cidadãos que clamaram contra a hipótese de desalojamento do popular clube desportivo, o que apesar de tudo veio a acontecer a contento de ambas as entidades, mercê de solução sugerida e apoiada pela edilidade local, transferindo-se a sede para as instalações no largo do Pé da Cruz.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Origens algarvias de Camões



Manuel Severim de Faria afirma que Antão Vaz de Camões, filho de João Vaz de Camões e de Inês Gomes da Silva, casou com Guiomar Vaz da Gama (descendente directo dos Gamas do Algarve, originários do Alentejo) que teve um filho chamado Simão Vaz de Camões, que casando com Ana de Macedo tiveram Luís Vaz de Camões, o poeta nacional e mentor da cultura lusíada.
Também li sobre Camões um artigo de Julião Quintinha intitulado “Camões no Algarve”, publicado no «Correio do Sul» de 27-8-1922. A fonte do artigo era o escritor anti-semita Mário Saa que lhe terá confidenciado que Camões tinha no Algarve um tio chamado Pero Vaz de Camões, na casa do qual aliás se refugiara quando em 1546 fugiu de Lisboa por causa dos amores com sua prima Isabel Tavares. O alcaide-mor de Silves e o alcaide-mor de Lagos eram seus parentes, presumindo-se que ele esteve refugiado no morgado de Boina, que era de um outro seu parente próximo, irmão do poeta Jorge da Silva ali refugiado também por essa altura, por via dos seus amores com uma infanta da Corte. O poeta partiu de Lisboa para o Algarve pouco antes de seguir para a Índia. Parece que o tio, Pero Vaz de Camões, tinha sangue judeu, sendo talvez as origens de cristão-novo a causa das perseguições movidas pela Inquisição de Goa contra o poeta dos Lusíadas.

sábado, 26 de setembro de 2009

Museu Marítimo de Faro


Criado por decreto de 4-1-1889, referendado pelo Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, Emídio Júlio de Navarro, o Museu Industrial Marítimo de Faro, como então se designava, abriu as suas portas ao público em 24 de Novembro de 1889.
Esteve primeiramente instalado numas pequenas salas anexas ao antigo edifício da Escola Industrial e Comercial, próximo da Câmara de Faro. Mas como urgia expandir as instalações da Escola foi o espólio museológico transferido para uma velha casa na rua da Carreira, onde não servia os fins para que fora criado. Assim, acabaria por ser remetido para as magníficas salas do Palácio Pantojas, na rua de St.º António, onde hoje se acha o Clube Farense. Mas como aquele Clube precisasse de restaurar e remodelar as suas instalações foram novamente em bolandas as colecções do Museu Marítimo para as exíguas dependências da Escola de Alunos Marinheiros. Neste périplo muitas coisas desapareceram e outras se degradaram de forma quase irremediável, a ponto de haverem perdido muito do seu valor e de reduzirem toda a sua importância e interesse cultural.
Foi nestas condições, de abandono e esquecimento, que o foi desencantar o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que dedicou o melhor do seu esforço à recuperação das peças mais degradadas, restaurando umas, substituindo outras e acrescentando-lhe imensos artefactos da nossa secular actividade marítima. Felizmente, nesse insano trabalho de recuperação do antigo espólio do Museu Marítimo de Faro, pode contar com a boa vontade de alguns camaradas de armas e de outros cidadãos de boa vontade, nomeadamente o pintor Carlos Augusto Lyster Franco que o ajudou a restaurar muitas peças e principalmente lhe ofereceu vários quadros sobre a fauna marítima, que hoje decoram as paredes das actuais e aprazíveis instalações do Museu.
Em sinal de reconhecimento pelo seu esforço e pela inimitável dedicação prestada ao restauro e melhoramento do antigo espólio, foi com inteira justiça atribuído o seu nome ao renovado Museu Marítimo de Faro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Gilberto Freyre no Algarve


O ilustre escritor, antropólogo e sociólogo brasileiro, Prof. Gilberto Freire, autor da famoso obra Casa Grande & Senzala, figura de prestígio universal que trabalhou para a UNESCO como investigador da miscigenação étnica em África e na América, visitou o nosso país em Agosto de 1951 a convite oficial do governo português.
Nesse âmbito deslocou-se ao Algarve na última semana de Agosto, aqui tendo permanecido durante quatro dias a recolher informações para uma obra que se propunha escrever sobre o nosso país e seu império. Vinha acompanhado de sua esposa e dois filhos assim como por seu pai, o ilustre Dr. Manuel Freyre, antigo Juiz Federal na Baía. Acompanhava-os desde Lisboa o Dr. Manuel Rino, funcionário superior do SNI.
Como hóspede de honra do governo português esteve instalado na Pousada de S. Brás, de onde irradiou para os diferentes locais da região. Para o elucidar e responder às questões que lhe aprouvesse colocar, foi o Dr. Mário Lyster Franco requisitado oficialmente para o acompanhar durante esses quatro dias. Desse contacto nasceu uma admiração mútua e uma sólida amizade entre ambos, comprovada na oferta de livros e no envio de amistosas missivas.
Pouco depois da sua vinda ao Algarve partiu o Prof. Gilberto Freyre para as nossas antigas colónias africanas, a fim de estudar os usos e costumes dos povos autóctones, assim como as heranças culturais carreadas pelos antigos escravos para o Brasil.
As impressões dessa visita ao Algarve foram publicadas no «Correio do Sul» n.º 1763 de 6-9-1951, numa espécie de entrevista concedida pelo célebre antropólogo àquele semanário farense.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Professores do Liceu de Faro em 1932



Numa notícia publicada na imprensa local, ficamos a saber que no final do ano lectivo de 1932, realizou-se um almoço de confraternização dos professores do Liceu de Faro, servido na cantina daquele estabelecimento de ensino. Do elenco docente constavam as seguintes personalidades:
Dulce de Freitas; Ofelia Azinheira; Donatila Baptista; José Monteiro Simões; António de Sousa Agostinho Júnior; Armando Cassiano; Jorge Silvio Pélico d’Oliveira Neto; David Pacheco; Aleixo da Cunha; Sousa Bazílio; Cruz Malpique; António Rebelo Neves; Silva Pera; Manuel Alexandre; Francisco Fernandes Lopes; António dos Ramos Bentes; tenente-coronel José Guerreiro Fogaça; José Rebelo Neves; Vidal Belmarço; Ricardo Bensaúde; José de Sousa Gago.
Faltou por indisposição momentânea o Reitor, Dr. José Júlio Rodrigues, que só apareceu no fim do almoço, e faltou por doença o Dr. Silveira Ramos.
Para quem viveu nessa época, e felizmente ainda hoje contacta com a sociedade mais culta da cidade de Faro, ou para aqueles que conhecem minimamente a história da cultura algarvia, fácil se torna afirmar, e concluir, que no Liceu de Faro exerciam o múnus da docência uma verdadeira elite intelectual, que hoje facilmente se constituiria num escol científico do mais elevado nível universitário.
Os destaques deixámo-los para os que nos queiram interpelar sobre o assunto.

domingo, 6 de setembro de 2009

Esplanada de São Luís Parque, em Faro

Inaugurou-se em Faro no dia 1 de Julho de 1950 a esplanada “S. Luís Parque” mandada construir pela empresa do Cine-Teatro Farense, dotando assim a cidade de um espaço destinado privilegiado para a realização de espectáculos durante a temporada de verão, que decorria entre meados de Junho e finais de Setembro.
A localização, a extensão e comodidade do recinto permitiu às autoridades competentes na matéria qualificá-la como a melhor do país, tendo em consideração que reúne os meios necessários para a realização de todo o tipo de espectáculos, desde a projecção de cinema, a representação de peças de teatro, espectáculos desportivos (boxe, por exemplo) récitas estudantis, espectáculos de variedades, festivais de folclore, bailes, festas dos santos populares, etc. Em suma, previa-se que assumisse um papel fulcral nas actividades culturais e recreativas da cidade durante a época de verão, numa altura em que a indústria do turismo começava a dar os primeiros passos.
Para a festa da inauguração, realizada a 1 e 2 de Julho de 1950, organizou-se um programa festivo no qual tomaram parte a orquestra dirigida pelo maestro Fernando de Carvalho, as artistas Júlia Barroso (algarvia muito conhecida e apreciada), José António, Maria do Carmo, Maria Pazzo, Graciette Melo e Rui de Mascarenhas, num misto de fados e canções, tão do agrado popular. Para apresentar os artistas, animar o público e quebrar a saturação musical, actuaram também dois grandes artistas da rádio e conhecidos comediantes do teatro de revista, Humberto Madeira e Miguel Simões, que depois de fazerem algumas burlescas imitações de figuras populares, procederam a um hilariante “sketch” composto em verso, entre o “sr. Lucas e o Dr. Matias”, no qual retratavam num finíssimo humor negro algumas das mais conhecidas figuras da região. Os artistas eram acompanhados com solos de viola executados por Alfredo Costa. A noite encerrou com um animado baile.
O cinema em si só foi inaugurado a 3 e 4 de Julho com a projecção do célebre filme Joana d’Arc, interpretada pela consagrada artista Ingrid Bergman, que teve casa cheia, numa agradável noite, de amena temperatura, quase tropical.
Creio que, infelizmente, os nomes dos artistas aqui citados já não fazem parte do mundo dos vivos. Também infelizmente já não existe a magnífica esplanada de Faro, onde nos finais dos anos setenta ainda cheguei a ver algumas fitas, que por serem reprises tinham a plateia quase deserta. Também ali ouvi Júlio Iglésias num espectáculo memorável e também por ali passaram vários artistas da nossa moderna canção.
Esta pequena nota serve para avivar a memória dos farenses que na antiga esplanada viveram momentos de prazer e de felicidade, lamentando que no mamaracho denominado “Alhandra”, implantado naquele espaço, não exista um pequeno estúdio de cinema com o nome de “S. Luís Parque”.
José Carlos Vilhena Mesquita

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Mulheres de Silves

Lord Carnarvon, que foi membro do Parlamento inglês e escritor consagrado, escreveu em 1836 acerca da beleza das mulheres algarvias as seguintes palavras:
«As mulheres de Silves, assim como as de todo o Algarve, são extremamente formosas de feições e muitas vezes também de figura: tez pálida mas clara, olhos ensombrados por longas pestanas negras e sempre belos, tendo quase sempre a distingui-los uma expressão pensativa e bondosa que se reflecte no sorriso, dando-lhe carácter. Os encantos das espanholas maravilham e atraem os olhares mas a beleza da algarvia, menos ardente, é dotada de mais ternura e nem por isso penetra menos fundo no coração

Em Tavira não se cospe no chão

A Câmara Municipal de Tavira, em Setembro de 1946, e depois de receber os pareceres favoráveis da Comissão Municipal de Higiene e do Conselho Superior de Higiene, aprovou um postura sanitária no sentido de reprimir o hábito condenável de cuspir nos passeios ou em qualquer via pública, assim como noutros locais de frequência e utilidade pública.
A mesma edilidade apresentou ao Ministério do Interior o texto da postura aprovada para que superiormente fosse a mesma convertida numa portaria de alcance nacional, por forme a erradicar tão reprovável e abjecto acto público.
Parece que a medida não teve o sucesso esperado, mantendo-se ainda hoje tão primitiva e vergonhosa atitude.

O Poeta das Aldeias – Domingos Guerreiro Basílio

J. C. Vilhena Mesquita

Uma das figuras hoje absolutamente ignoradas foi outrora considerado como o “Poeta das Aldeias”, epíteto conquistado com merecida justiça pela forma como este percorria as freguesias do extremo sotavento desafiando para verdadeiros combates poéticos, acompanhado à desgarrada por concertinas e cavaquinhos, aqueles que se arvoravam capazes de acompanhar ou competir com a sua repentina criatividade.
O homem que tinha o raro talento de improvisar quadras populares à velocidade de um fósforo, chamava-se Domingos Guerreiro Basílio, era um cidadão muito conhecido e admirado pela sua inteligência, honestidade e dedicação ao trabalho. E não se pense que no fim da vida era apenas uma figura típica, como aquelas que nas antigas feiras pontificavam pela sua excentricidade e submissão aos prazeres da bebida. Bem pelo contrário. Na pujança da idade foi um denodado republicano que lutou com todas as forças pela vitória dos ideais, chegando por várias vezes a desempenhar as funções de regedor da aldeia do Azinhal, onde residia, tendo mais tarde chegado aos bancos da edilidade de Castro Marim na qualidade de vereador.
Não era, pois, um obscuro habitante da ignorada freguesia do Azinhal no não menos ignorado concelho de Castro Marim. Os seus conterrâneos reconheciam-lhe qualidades e ouviam-lhe os concelhos. Porém , com o decorrer dos tempos, os anos começaram a pesar e a situação política alterou-se, a ponto do pobre Domingos Basílio se ter dedicado ao humilde mas honrado cargo de transportar as malas do correio entre Castro Marim e a freguesia de Odeleite. Uma espécie de carteiro dos tempos antigos, que não só levava a correspondência privada como também trazia as boas e más notícias. Era ele quem gritava os pregões das leis e decretos, quem citava os preços no mercado da vila, quem dava conselhos aos agricultores, anunciava as “sortes” aos mancebos, combinava negócios, escrevia cartas e tratava doutros documentos para os analfabetos... Enfim, era um sopro de vida e de civilização numa terra perdida num canto remoto do país profundo, um aglomerado de casas e um povo soturno, sacrificado e submetido às entediantes agruras duma agricultura de subsistência.
O velho republicano, esquecido de outras lides mais honrosas, deitou mãos à vida e transformou-se num simples carrejeiro, levando serra acima, os cereais e as viandas, os secos e molhados, os barris do vinho de Tavira e os almudes da cristalina medronheira serrana, para abastecer as mercearias e tabernas do raiano concelho.
Nos fragosos percursos das suas jornadas, deixou pelos valados das humildes estevas o eco da sua voz, em alegres quadras cantadas nas tabernas, nas feiras ou nos adros das ermidas, à compita com os destemidos cantadores locais, sob as saudáveis gargalhadas e os estridentes aplausos do povo, sempre acolhedor e generoso.
Foi no retorno de um desses trajectos, para a sua velha casa no Azinhal, que encontrou a morte num estúpido acidente. Uma queda aparatosa e desamparada roubou-lhe a vida aos 72 anos de idade.
As gentes serrenhas continuaram a venerar a memória do “Poeta das Aldeias” decorando-lhe os versos e cantando as suas quadras em modinhas populares, nos “bailos” e nos ranchos das raparigas solteiras.
Quem se lembra hoje desses tempos?..
Haverá por aí, no concelho de Castro de Marim, no seio do seu bom povo, quem ainda se lembre do “Poeta das Aldeias” ?
Aqui deixamos o desafia na expectativa de recuperarmos a sua memória e se possível algumas das suas quadras.

Pintores de temática algarvia


Inaugurou-se a 24-2-1946 no Museu Regional de Lagos uma exposição de Arte Algarvia na qual tomaram parte os pintores que mais e melhor usaram o Algarve como tema das suas produções artísticas.
Assim, e para que conste, estiveram patentes ao público 75 quadros da autoria dos seguintes pintores:
Alexandrina Chaves Berguer, Rosalina de Passos, Virgínia de Passos, Sylvia Aguiar Santos, Lázaro Velozo, Samora Barros, Carlos Porfírio, José Amado da Cunha, Joaquim de Passos, Carlos Lyster Franco, Falcão Trigoso, Serra da Motta, Fausto Sampaio, Gabriele Constante, Jayme Murteira e Ribeiro Cristino.
De todos estes os mais consagrados artistas, então já considerados mestres de pintura, devemos destacar as telas de Samora Barros, Falcão Trigoso e Serra da Motta, assim como os “carvões” de Lyster Franco. Agradaram ao público os quadros de Lazaro Velozo, Alexandrina Chaves Berger e os “apontamentos algarvios” de Jayme Murteira.

Naturalização de Cayetano Féu Marchena


No dia 31 de Março de 1930 o industrial espanhol no ramo das conservas, sediado em Portimão, Caetano Feu, ofereceu aos amigos e clientes um banquete servido no Grande Hotel das Caldas de Monchique, em sinal de congratulação pela sua naturalização como cidadão português.
Isto permite-nos compreender a sua satisfação por ter adquirido a nacionalidade portuguesa, ao mesmo tempo que se torna evidente o seu reconhecimento às autoridades regionais por terem certamente contribuído com declarações abonatórias para a sua naturalização. Como é lógico, também interessava ao industrial Caetano Feu deixar de ser espanhol para poder beneficiar dos privilégios de que gozavam os industriais nacionais, nomeadamente de carácter alfandegário e sobretudo fiscal.
No banquete realizado a 31-3-1930 no Grande Hotel das Caldas de Monchique, em homenagem ao Dr. Caetano Feu Marchena, estiveram presentes cerca de 80 pessoas de todos credos políticos e classes sociais. A opção daquelas termas deve-se ao facto do reputado industrial ter pugnado ao longo dos anos pelo desenvolvimento económico-industrial daquele concelho, pelo melhoramento do estabelecimento das Caldas Termais e pela divulgação dos seus efeitos terapêuticos. Na imprensa da época, nomeadamente no «Correio do Sul», descrevem-se vários pormenores da homenagem, assim como se transcrevem algumas das passagens dos discursos aí proferidos.