terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

ENCARNAÇÃO, José Roberto


Construtor civil, natural das Caldas de Monchique, faleceu nos princípios de Julho de 1950, no Instituto de Oncologia em Lisboa, vítima de doença incurável. Tinha 67 anos de idade, era filho do então já falecido José da Encarnação, antigo proprietário da Pensão Encarnação onde se hospedavam muitos dos doentes que naquelas termas procuravam alívio para os seus achaques de saúde.
Foi um dos mais conceituados empreiteiros do Algarve, muito inteligente, honesto, esforçado e competente, a quem se deve a construção do palácio da Embaixada de Portugal em Madrid. Também a ele se deve a edificação dos primeiros bairros sociais de arrendamento económico em Lisboa, Portimão, Setúbal e Olhão, os quais ainda se mantêm com ligeiros melhoramentos, pois que os seus prédios eram garantidos pela qualidade e competência da sua construção.
Pela sua dedicação ao trabalho, pela honradez e seriedade com que executava as suas obras, decidiu o governo agraciá-lo com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Industrial, tendo o governo espanhol aprovado também a outorga da medalha de ouro como recompensa pela valiosa colaboração por ele prestada nos trabalhos de edificação da grande Exposição Ibero-Americana, que se realizou em Sevilha.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Aforismos Algarvios


Não sou perito na importância sociocultural dos Provérbios, sendo certo que acredito que o nosso rifoneiro é uma espécie de orago da cultura popular. No fundo, o provérbio contém em si uma conjugação do saber empírico com a transmissão dos supremos valores da vida, como a ética, a moral, a justiça, a humildade, a coragem, a gratidão, a lealdade, a amizade e, em suma, a honradez. Os provérbios, adágios, aforismos, anexins ou simplesmente ditados populares, são na essência conselhos dirigidos aos mais jovens, transmitindo-lhes de forma sentenciosa, mas simples e memorizável, os melhores procedimentos ético-sociais.
Existem várias obras dedicadas à compilação do rifoneiro popular e do adagiário nacional. Algumas são especializadas em temas, profissões, regiões, épocas, etc. Conheço do Dr. José Pedro Machado, meu bom amigo já desaparecido, uma compilação monumental a que deu o sugestivo título de «O Grande Livro dos Provérbios», publicado pela Editorial Notícias em 1996. Em mais de seiscentas páginas compilou milhares desses aforismos populares, que os nossos avós tiveram a bondade de nos transmitir, quando ainda nem sabíamos ler. Talvez fosse essa mesma a origem dos provérbios, transmitir o saber adquirido pela experiência da vida aos que não sabiam ler ou não tinham qualquer outra fonte de informação. A forma simples e intuitiva dos avisos e conselhos contidos nos provérbios, é uma verdadeira lição de vida e de ensinamento, ainda hoje muito prática, acessível e útil. A musicalidade do provérbio ou ditado popular, expressa-se através da forma rimada e poética como é concebido.
Trago hoje a público apenas cinco ditados populares, que ouvi em diferentes lugares do Algarve, os quais, ao contrário do que seria expectável nesta região, não rimam, mas têm um peculiar "sabor" popular algarvio. Então vejamos:
«O pior ribeiro é o da porta» - significa que o mais difícil é dispor-se alguém a fazer qualquer coisa, porque o mais fácil é não fazer nada; ouvi este provérbio em Loulé.
«Barafunda não é peixe» - expressão que os pescadores usam para aconselhar calma e evitar zaragata; ouvi este ditado na ilha da Armona e em Olhão.
«Ficar à porta como o centeio» - provérbio usado para servir como termo de comparação; confesso que para o citadino é um pouco difícil de entender; ouvi-o em Moncarapacho.
«Quem vai a Alvor vai a Lagos, que é mais uma légua de areia» - ouvi esta sentença na praia do Alvor, cujo sentido me parece ser por demais evidente no espírito dos marítimos.
«Mais sofreu Nossa Senhora no Algarve» - expressão usada para aconselhar resignação; este ditado já o ouvi por todo o litoral algarvio; curiosamente é o único que consta no Grande Livro do Dr. José Pedro Machado.
Para terminar fica aqui o desafio: se algum dos meus amigos leitores conhecer algum provérbio genuinamente algarvio, agradeço que o compartilhe aqui, para que todos possamos desfrutar da sabedoria do nosso povo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

JÚDICE, António de Mascarenhas

Industrial e antigo colonialista, era natural da vila de Lagoa, onde faleceu em meados de Novembro de 1950, com 77 anos de idade.
Ainda jovem foi estudar para a Bélgica de onde regressou ao Algarve anos depois para se dedicar à indústria da pesca e sobretudo das conservas, de que foi um dos pioneiros, tal como aconteceu com seus tios fundadores da «Casa grande» da Mexilhoeira e com o seu primo João Júdice Fialho. 
Dotado de grande inteligência, oportuna visão para o negócio e espírito de risco, lançou armações para a captura do atum, criou cercos de pesca da sardinha e fundou fábricas em várias localidades, nomeadamente em Ferragudo, Lagos e Quarteira, unidades industriais que mais tarde juntou numa só empresa, a Mascarenhas Júdice & C.ª  Ld.ª, que dirigiu durante anos até transformar no Consórcio Português de Pesca e Conserva, em cuja direcção integrou os seus amigos e conterrâneos, o Dr. Carlos Fuzeta, advogado de grande prestígio, e o Dr. José Barbosa, ao tempo presidente do Tribunal de Contas.
O abastado proprietário e industrial António de Mascarenhas Júdice, teve ainda uma faceta colonialista pouco conhecida. Assim, e sem entrar em grandes pormenores, acrescentaremos apenas que foi director da Companhia Colonial do Buzi e gerente do Banco de Angola. 
No tempo da monarquia também se envolveu na política, apoiando sem reticências o partido franquista. Deixou a política a partir do momento em que o país se cobriu de luto pelo assassinato do rei D. Carlos. Julgando que foram as lutas partidárias e os interesses mesquinhos que cobriram a pátria de opróbrio e de luto, desistiu definitivamente da política.
Foi casado com D. Maria de Mascarenhas Grade Júdice, descendente das mais afidalgadas famílias do Algarve. Era pai do Visconde de Lagoa um dos mais ilustres historiadores e publicistas do Algarve. Era irmão dos então já falecidos Dr. Patrício Eugénio de Mascarenhas Júdice, que foi deputado pelo Algarve e faleceu ainda jovem, e do Dr. Pedro Paulo Mascarenhas Júdice, reputado escritor e arqueólogo que viveu em Silves.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Sousa, Cónego Joaquim Jorge de

 Cónego da Sé de Faro, nasceu em Aljezur a 8-11-1911 e faleceu em Faro em 1998, com 87 anos de idade.
Ordenou-se presbítero a 25-7-1937 e a 8-11-1937 foi nomeado vigário Cooperador da Sé Catedral, e a 24 do mesmo mês passou a pároco encomendado da Sé de Faro.
Ainda antes da ordenação, já exercia o cargo de mestre de cerimónias, da Sé Catedral, funções que prestou, durante muitos anos.
durante muitos anos também, foi professor do Seminário Diocesano.
A 15/4/57, foi nomeado Notário Apostólico Substituto. A 3/5/58, foi nomeado Beneficiado, com assento e Voto no Cabido.
Foi professor de Religião e Moral na Escola Tomás Cabreira.
No exercício das suas competências religiosas, foi pároco na freguesia da Conceição de Faro e também assistente diocesano dos Cruzados de Fátima, da União Missionária do Clero e das Obras Missionárias.
Nas últimas décadas do século XX era dos mais conhecidos e respeitados sacerdotes da diocese algarvia, especialmente pelo facto do Padre Joaquim Jorge desempenhar as funções de Capelão da Santa Casa da Misericórdia de Faro. A bem dizer ele era o rosto da Misericórdia de Faro, dando-se por inteiro ao cuidado dos pobres e à protecção dos desvalidos. Com o avançar da idade a sua presença era menos notada em público, mas mesmo velho e doente nunca deixou de cumprir as suas obrigações, rezando com profundo sentimento e fervor a Eucaristia Dominical na Igreja do Pé da Cruz.
Recentemente, a Misericórdia de Faro fundou, no sítio da Torre de Natal, um lar para idosos, com capacidade para 58 utentes, ao qual atribuiu a designação de Estrutura Residencial Sénior Cónego Joaquim Jorge de Sousa, uma espécie de homenagem e de reconhecimento pela dedicação daquele sacerdote aos idosos e aos mais carenciados.
Importa aqui dar especial destaque aos artigos que o Padre Joaquim Jorge de Sousa publicou no «Correio do Sul» sobre a ascendência algarvia do escritor Ramalho Ortigão, sobre a passagem do poeta João de Deus pelo seminário de São José de Faro, e muitos outros estudos relativos à História Eclesiástica Algarvia publicados nos semanários farenses «O Algarve» e «Folha do Domingo».

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

ABOIM, José Vaz Júdice

Funcionário público e figura muito prestigiada na sociedade farense dos finais do século XIX até ao primeiro quartel da centúria seguinte. Desempenhou durante décadas as funções de secretário do Governo Civil de Faro, nas quais se aposentou poucos anos antes do seu passamento.
Faleceu em Lisboa a 16-1-1928, com 76 anos de idade, vitimado por uma síncope cardíaca, pouco depois de se ter deslocado à capital a fim de procurar remédio para a doença incurável de que padecia.

AZEVEDO, Manuel Vasques de


Funcionário público, respeitável despachante da Alfândega de Vila Real de St.º António, de onde era natural, e onde também viria a falecer, em meados de Novembro de 1951, com 66 anos de idade.
Beneficiava na sua terra natal de grande prestigio social, mercê da sua honestidade e da sua competência profissional, razões mais do que suficientes para o fazerem credor da simpatia e confiança dos seus conterrâneos. Não admira por isso que superiormente o tivessem sido escolhido  para desempenhar, por mais do que uma vez, as honrosas funções de vereador e de vice-presidente da Câmara Municipal da vila pombalina. 
Diga-se, em abono da verdade, que Manuel Vasques de Azevedo nunca foi político, mas tão somente um funcionário público que, por auferir vencimento do Estado, era obrigado a desempenhar funções autárquicas. Esse procedimento era muito comum no tempo da ditadura salazarista, para evitar que as despesas da administração autárquica pesassem nas finanças públicas e no orçamento do Estado. Também é verdade que no período do Estado Novo, sobretudo durante e após a II Guerra Mundial, as administrações autárquicas quase nada faziam, em termos de obras públicas, para não sobrecarregarem o Orçamento de Estado, devido ao pavor que o ditador tinha em relação ao possível descontrolo das finanças públicas. Quem sofria com isso eram as populações, que viam as suas cidades, vilas e aldeias, reduzidas ao marasmo e ao ronceirismo que tanto caracterizava o regime salazarista. Os próprios elencos autárquicos, por serem nomeados pelo governo, eram em geral desempenhados por funcionários do Estado, por militares e até sacerdotes religiosos, desde que as populações os considerassem competentes e honestos para o exercício das funções que lhes eram confiadas. Acontecia também que certos cidadãos na situação de reforma, só pelo facto de serem estipendiados pelo Estado eram obrigados ao desempenho de funções na administração pública, não lhes sendo possível pedir escusa dessas funções a não ser por razões atendíveis de saúde.
A título de simples pormenor se acrescenta que Manuel Vasques de Azevedo era casado com D. Maria Amália Piloto de Azevedo, senhora muito conhecida e respeitada no conceito das melhores famílias vilarealenses. Era irmão de D. Elvira de Azevedo Vaz Velho, que foi casada com João Machado Vaz Velho, residentes em Faro, onde beneficiavam de grande apreço e consideração social.



terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O Algarve na opinião alheia


Muito se tem escrito ao longo dos tempos sobre o Algarve. Não iremos fazer aqui uma pesquisa exaustiva das opiniões críticas emitidas em livro por autores diversos e dispersos, porque a tanto não nos sobejaria nem a paciência nem o espaço. Faremos, apenas um breve bosquejo de algumas apreciações, que nos pareceram mais elucidativas, mas belas ou mais eloquentes. São uma espécie de caleidoscópio dos diversos ângulos pelos quais se podem apreciar as qualidades naturais, ambientais e humanas desta região bendita, que os portugueses e os estrangeiros admirammercê das suas particulares belezas e sobretudo das suas singularidades histórico-culturais.
Falcão Trigoso, Algarve, seca do figo, quadro de 1911
Assim, acerca do Algarve aqui ficam alguns informes coligidos a esmo. Comecemos pela caracterização do conceito histórico de Região:
«… o antigo "reino do Algarve", a última zona a incorporar-se na unidade territorial portuguesa, não teve apenas, com efeito, a sua individualidade bem reconhecida no título que usavam os nossos primeiros reis, mas sempre se considerou bem separado do resto do país: num documento de 1595, citado pelo Dr. Leite de Vasconcelos (Biblos,vol. VI, pág. 487), fala-se, por exemplo: da “estrada que vai de Tavira para Portugal”, e Baptista de Castro no seu Mapa de Portugal (vol. I. pág. 77), ainda escrevia que o Algarve ficava “separado de Portugal pelos montes Caldeirão e Monchique”. E só por esta circunstância se explica talvez o facto de ser o Algarve a única zona do país onde o distrito veio sobrepor-se exactamente à antiga divisão provincial, constituindo, por outro lado, uma razão até certo ponto atendível para que a ela se faça corresponder também uma região geográfica verdadeiramente digna deste nome.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 8.

«... quando se fala da região algarvia, é sobretudo a zona litoral do Algarve administrativo e histórico que queremos referir-nos. É, de facto, o seu manto de sedimentos secundários e terciários que "transforme le pays en un véritable jardin" no justo e autorizado dizer de Lapparent (Leçons de géographie physique, 3.ª ed., pág. 463). A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed. p. 136.
Algarve, família camponesa varejando a azeitona das oliveiras

«…quem entra no Algarve pelo caminho de ferro reconhece bem que não é em S. Marcos da Serra, onde o solo e a paisagem são ainda os do Alentejo, mas apenas em S. Bartolomeu de Messines, precisamente no limite setentrional da orla mesozóica, que de súbito nos julgamos transportados a um verdadeiro mundo à parte.» in A. de Amorim Girão, op. cit., p. 174.

«Tanto o Algarve se considerava dantes divisão distinta do resto de Portugal, que em certos documentos algarvios dos séculos XVI e XVII se fala dele como se fosse outra nação, por exemplo: em 1595 diz-se numa confrontação: “...a estrada que vai á aldeia de Moncarapacho e sidade de Tavira pêra Portugal...”; em 1607, noutra confrontação: “...dali sempre pella estrada de Portugal”, isto é, que vai para Portugal.» (J. L. V., Opúsculos, vol.V, p.330).

Postal antigo, traje rural da algarvia
Do ponto de vista natural, ambiental e orográfico, o Algarve aparece-nos descrito e apreciado como uma região distinta, com culturas próprias e exclusivas, um clima ameno e dócil, uma réstia, em suma, do paraíso terrestre:

«As culturas arvenses, e, em especial, da amendoeira, da figueira e da alfarrobeira, têm um considerável desenvolvimento nesta sub-região (o litoral) que mais parece um pomar, onde o homem, no dizer do Portugal Pequenino, “é, como o árabe, mais hortelão do que lavrador”; e algumas espécies vegetais próprias dos climas quentes, como a palmeira, a bananeira, o esparto, etc., contribuem ainda para dar-lhe um aspecto inédito em Portugal.» A. de Amorim Girão, Esboço duma carta regional de Portugal, 2.ª ed., p.140.
Amendoeiras em flor, camponesa algarvia

«...Todo o Algarve é um pomar cultivado com esmero. A gente ao Alentejo, quando vê um bocado de terra bem tratado, diz: - É um pedacinho do Algarve». (Raul Brandão, Os Pescadores.

«...as casinhas aglomeradas, muito brancas, escorrem luz brilhante, como numa paisagem de esmalte...» Mariana Santos, «O Barranco do Velho», in Biblos, vol. VIII, 203.

«…o Algarve que é um pomar cultivado com esmero, e a costa, a mais recortada e piscosa de Portugal, com as suas praias esplêndidas, a água que às vezes parece caldo azul e ao pé dos areais as armações do atum, o peixe que com a sardinha dá mais dinheiro em Portugal.» Maria Angelina e Raul Brandão, Portugal Pequenino, Lisboa, 1930, p. 109.

sábado, 26 de janeiro de 2019

VILHENA, Francisco Augusto da Silveira Almeida

Notabilíssima figura da elite farense do último quartel do século XIX, detentor de avultados meios de fortuna, que o vulgo conhecia e respeitava sob o título de Visconde do Cabo de Santa Maria. Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Faro, onde marcou vincada presença social como político e jornalista. Defendeu as ideias avançadas do socialismo, e quando jovem chegou mesmo a simpatizar com a filosofia política de Proudhon e da Comuna de Paris. Tinha uma ilustração sólida, adquirida através da leitura dos grandes clássicos da literatura europeia e das obras filosóficas que marcaram o surgimento das ideias libertárias, do republicanismo operário e até mesmo do próprio anarquismo. Com o avançar da idade amansou os impulsos ideológicos, açaimou os projectos de justiça social cogitados na juventude, e tornou-se num cidadão pacato e empreendedor, num empresário de sucesso da opinião pública através do seu monumental jornal, o «Algarve e Alemtejo».
    Francisco Augusto da Silveira Almeida Vilhena, nasceu na vila de Ílhavo a 10-7-1848 - um dos históricos alfobres da miscigenação algarvia, através da emigração de marítimos que das praias do sul demandavam a costa do norte à procura de casamento -, e faleceu em Faro a 6-2-1928, com 80 anos de idade. Teve a desdita de ser monárquico e de assistir à queda do trono reinante, cabendo-lhe a honra de fazer a transição para o novo regime, entregando a autarquia a Bernardo de Passos (recém nomeado pela República como Administrador do Concelho), e o governo civil da região aos republicanos de Tavira. Sem nunca ter deixado de defender a democracia e a soberania nacional, acreditou no regime monárquico como veículo credível das ideias reformistas de uma sociedade mais justa e mais igualitária. Mas essa quimera nunca existiu, nem na democracia moderna. 
Veio para Faro com cerca de vinte anos de idade, para se empregar como aspirante de alfândega. Alguns anos depois ascendeu ao posto de director da Alfândega de Faro e mais tarde exerceu idênticas funções nas de Olhão e Vila Real de Santo António.
Interessou-se desde muito jovem pela política filiando-se no Partido Progressista, em cujas fileiras militava praticamente toda a sua família. Desempenhou funções públicas e políticas de assinalável relevo, nomeadamente as de Governador Civil substituto, presidente, eleito por diversas vezes, da Câmara Municipal de Faro, presidente da Junta Geral do Distrito, director da Companhia de Pescarias do Algarve, director da Companhia de Pescarias do Cabo de Santa Maria, Ramalhete e Forte, prior da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de Faro, etc.
Como jornalista dispersou a sua prosa por vários periódicos de Lisboa e da província, obviamente afectos ao Partido Progressista, e dentro dessa linha política fundou e dirigiu em Faro os jornais «Comércio do Sul», «Progresso do Sul» e «Algarve e Alemtejo». Extintos estes periódicos, que não sobreviveram à implantação da República, manteve assídua colaboração nas colunas de «O Algarve» de Faro, publicando numerosos artigos sobre assuntos de pesca. Apesar de não ter uma instrução académica superior foi, contudo, um autodidacta e um estudioso incansável, evidenciando grande prestabilidade e admirável bondade para com os mais desprotegidos.
Pela sua dedicação à política e grande dinamismo nos meios industriais ligados às pescas, o rei D. Carlos concedeu-lhe em vida o título de Visconde do Cabo de Santa Maria, por decreto de 29-11-1898 e mais tarde elevou-o à grandeza de Conde por decreto de 3-4-1905.
Curiosamente foi o último presidente da Câmara Municipal de Faro no regime monárquico, cabendo-lhe a honra de empossar os seus sucessores republicanos. Por ironia do destino, assistiu à derrocada da monarquia e à extinção da república democrática.
Por fim, resta acrescentar que foi casado com D. Isabel Amália Coelho de Carvalho, nascida a 5-1-1854, oriunda da mais notável e possidente família da cidade de Faro. Dessa união nasceram vários filhos, de entre os quais destacamos Ventura Coelho de Vilhena e Francisco de Almeida Vilhena. Os seus avultados meios de fortuna foram sendo paulatinamente delapidados ao longo de décadas, perdendo-se também com a emergência do regime republicano o enorme prestígio social e político de que gozava a família Almeida Vilhena.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

SERRA, Manuel dos Santos


Faleceu na manhã do dia 29 de Novembro de 2018, no hospital distrital de Faro, aos 92 anos de idade o meu bom e querido amigo Dr. Manuel dos Santos Serra. Foi um dos mais notáveis médicos do Algarve, cuja vida profissional dedicou inteiramente ao bem comum. A qualquer hora do dia ou da noite recebia chamadas para acudir aos seus doentes, nunca deixando de comparecer, mesmo nos sítios mais recônditos do interior algarvio, para onde, nos primórdios da sua vida de "João Semana", se deslocava a cavalo ou, mais tarde, na sua pequena viatura, que por vezes serviu de ambulância nos casos mais urgentes.
Fixou residência e abriu consultório na pitoresca vila de Albufeira, quando ainda não se falava de turismo, mas que o seu espírito visionário já identificava e proclamava aos sete ventos como a Saint-Tropez do Algarve.
Todavia, no início dos anos cinquenta do século passado, quando iniciou a sua carreira médica, Albufeira era ainda uma vila pobre, ignorada e desconhecida no extremo sul do nosso país. E nesses tempos difíceis do pós-guerra, em que a ditadura apertava a vigilância sobre as figuras que mais se distinguiam na sociedade, nomeadamente no cultivo das letras e das artes ou no apoio aos mais desfavorecidos, é lógico que o Dr. Santos Serra foi alvo do escrutínio e da desconfiança salazarista. Não foram, por isso, fáceis os seus primeiros anos de vida profissional, numa sociedade amordaçada pelo medo e pela miséria.
Nas circunstâncias mais difíceis, carenciado de meios de higiene e de protecção ao contágio, dedicou-se durante anos ao combate da tuberculose, que grassava com especial incidência no seio dos lares mais desfavorecidos. Comparecia assiduamente nos bairros pobres, sobretudo dos marítimos, onde estudava o surto das doenças pulmonares, prestando os serviços de assistência médica de forma graciosa, por vezes correndo riscos de contágio durante os períodos mais intensos da tuberculose.
Apesar de todas as perseguições de que foi alvo, conseguiu levar por diante a sua cruzada em prol da saúde e da prestação graciosa de cuidados médicos aos pobres, aos velhos e às crianças, ajudando a Misericórdia de Albufeira a cumprir a sua missão de apoio aos mais carenciados.
Após o 25 de Abril seria nomeado Director do Centro de Saúde de Albufeira, cargo que desempenhou durante 22 anos com grande competência e a maior dedicação, razão pela qual recebeu oficialmente os mais subidos louvores.
Apresentando um dos seus livros, ao lado do poeta e do
presidente da Câmara de Albufeira, ambos já desaparecidos
Como aconteceu com muitas das figuras mais proeminentes da vida nacional, decidiu filiar-se no Partido Socialista, que, diga-se em abono da verdade, ajudara a fundar ainda antes da Revolução dos Cravos. E, sem nunca ter sido propriamente um político, aceitou presidir durante três mandatos à Assembleia Municipal de Albufeira. 
Além de ter sido um grande médico foi também um notável poeta, em meu entender um dos maiores do seu tempo, com uma obra vasta e de grande valor literário, que tive a honra de ressaltar nos vários eventos em que fiz a apresentação dos seus livros. Foi acima de tudo um cidadão exemplar, que muito amou a sua terra adoptiva - Albufeira, merecendo por tudo quanto fez pela saúde pública e pela cultura algarvia, uma homenagem que perpetue a sua memória, nomeadamente a atribuição do seu nome a uma rua, a um prémio literário que glorifique a poesia no Algarve, e se possível ao Centro de Saúde de Albufeira. Esta última sugestão foi já satisfeita pela actual Ministra da Saúde, nos dias imediatos ao falecimento do Dr. Santos Serra, o que me apraz aqui registar.
Resta-me acrescentar que o Dr. Santos Serra, havia-me pedido para fazer no dia 1 de Dezembro de 2018, a apresentação do seu último livro, a ANTOLOGIA POÉTICA - uma selecção, por si elaborada, dos poemas que compunham a sua vasta obra lírica. Recebi na semana anterior ao seu falecimento um exemplar dessa obra, para que pudesse preparar a minha palestra de apresentação. Infelizmente, foi nesse mesmo dia que se realizou o seu funeral. Curvo-me em sua homenagem, com o coração dilacerado, apresentando a sua esposa, seus filhos e netos os meus sinceros e sentidos pêsames.

Aqui deixo a biografia que escrevi sobre Manuel dos Santos Serra, para figurar na ALGARVIANA, se algum dia essa obra vier a ser publicada:
Manuel dos Santos Serra, médico e poeta, nasceu em Silveira, freguesia de Espinhal, concelho de Penela, em 23-1-1926, e faleceu no Hospital de Faro a 29 de Novembro de 2018, aos 92 anos de idade.
Veio com seus pais e irmãos em 1933 para a vila de Albufeira, onde desde então fixou a sua residência, sentindo-se por isso um algarvio de convicção e pura consciência regionalista. Fez a instrução primária em Albufeira, de se transferiu para o Liceu de Faro, concluindo na capital do Algarve os seus estudos secundários. Partiu depois para a Universidade de Coimbra, onde fez parte da Direcção da Associação Académica, concluindo em 1950 o curso de Medicina. Na Lusa Atenas fez amigos para o resto da vida, e nas esquinas da Universidade aprendeu os primeiros rudimentos de contestação ao regime salazarista. Os princípios revolucionários de luta pela Liberdade, pela Igualdade e pelos Direitos Humanos acompanharam-no para o resto da vida, mesmo que por vezes tivesse sofrido a ignomínia da perseguição política.
Admirador da cultura e das Belas Letras, cedo se apaixonou pelas musas e se deixou impressionar pela imagem de Orfeu, que o acompanhou nas horas mortas em que o seu talento se libertava da sisudez científica do médico para se espraiar no sonho, na sensibilidade e no lirismo amoroso do poeta. Dessa paixão pela poesia despontou a sua vontade interveniente na cultura, participando em tertúlias de poetas e literatos, nas quais defendeu sempre os lídimos valores do humanismo, da liberdade e da democracia, até mesmo quando falar dessa temática era quase um crime público.
Na sua especialidade colaborou no «Jornal do Médico» e apesar de muito assoberbado no trabalho clínico, sempre marcou a sua presença, em prosa e em poesia, nas colunas dos jornais regionais, publicando sobretudo crónicas de intervenção política e alguns contos literários. Na imprensa regional algarvia colaborou, entre outros, no «Correio do Sul», «Jornal de Albufeira», «Notícias de Albufeira», «Jornal Escrito», etc.
Assumidamente desafecto ao salazarismo, sofreu o acostumado ostracismo institucional que o impediu de dar melhor contributo à sociedade algarvia. Após a «Revolução de Abril» foi, durante três mandatos (1983-87, 1992-96, 1997-2001), Presidente da Assembleia Municipal de Albufeira e director do Centro de Saúde de Albufeira desde 1975 a 1997.
Dedicando um dos seus livros ao escritor Manuel Ribeiro
Relativamente à sua obra, podemos dizer que no primeiro livro, Romance Residual, nota-se uma espécie de decantação de flashes vivenciais para curtas sintetizações poéticas, sem peias estilísticas nem regras de composição. No segundo livro, A Desordem da Harmonia, assistimos a um apuro da forma e a uma beleza convulsiva na imagética lírica, sentindo-se um certo amadurecimento do próprio poeta. No terceiro livro, Mosaico de Palavras Oblíquas, os poemas, ainda que livres e fluidos, emanam duma luz interior, como sonhos peregrinos que evidenciam uma personalidade em busca de um ideal maior ou de um ente supremo. No seu mais recente livro, Sobreposições, nota-se uma certa evolução na sua poesia para níveis mais elevados, seguindo modelos estéticos cada vez mais próximos dos figurinos clássicos.
Em toda a sua obra o Dr. Manuel dos Santos Serra mostra-se possuidor de um espírito esclarecido e erudito, mas parece algo inconsciente da inatingível mensagem da sua poesia. Entre o real e a utopia espraiam-se os versos, por vezes longos, por vezes curtos, sem respeitar cânones nem limites. A poesia acontece... livre.
Pertence à Ordem dos Médicos, à Associação Portuguesa de Escritores, à Associação dos Escritores Médicos, ao Círculo Teixeira Gomes, à Associação dos Jornalistas e Escritores do Algarve, e à Associação dos Amigos de Albufeira.
Da sua lista de obras fazem parte os seguintes títulos:
Romance Residual, 1991; A Desordem da Harmonia, 1992; Mosaico de Palavras Oblíquas, 1997, Sobreposições, 2001; À Sombra do Silêncio, 2005; Albufeira 1950 – monografia médica, 2007; O Olhar das Palavras, 2007; Os Labirintos da Memória, 2009; Pomar de Pedras, 2011; Miradouro do Tempo, 2013; Retalhos de Cidadania, 2013; Navio Ancorado ao Sol, 2015; Arquipélago de Vozes, 2015; As Margens do Rio de Horas, 2017 e Antologia Poética, 2018. A partir de 2005 todos os seus livros foram editados exclusivamente pela editora Caleidoscópio.
Acerca de Manuel dos Santos Serra publiquei no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. V, pp. 495-496, a respectiva notícia biográfica, cujos informes naturalmente aqui se aproveitam.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SANTOS, Maria Estefânia dos


Foi uma das mais notáveis figuras femininas da sociedade algarvia durante a primeira metade do século XX, mercê da sua bondade e do seu espírito de solidariedade perante os mais carenciados, providenciando o sustento e educação das famílias mais pobres. A sua benemerência e candura fez com que o povo da aldeia marítima de Ferragudo, assim como as populações limítrofes à cidade de Portimão, atribuísse a D.ª Maria Estefânia da Silva o carinhoso epíteto de "Mãe dos Pobres".
Sei que nasceu em Olhão, mas desconheço a data precisa do seu nascimento. Presumo que tenha nascido no ano de 1888 ou 1889, porque contava 72 anos de idade quando faleceu, nos princípios de Junho de 1961. Era esposa do Dr. Luís António dos Santos, que nos anos sessenta do século XX foi presidente da Câmara de Lagoa, de cuja iniciativa surgiu a fundação do Rancho Folclórico do Calvário, uma das mais prestigiadas agremiações artísticas do Algarve. Além de fugaz autarca (cargo desempenhado por obrigação institucional, por ser funcionário público, e não por simpatia política), foi acima de tudo um jurista de espírito socialista, razão pela qual ajudou a esposa a promover várias acções de benemerência e de filantropia em benefício das famílias mais desfavorecidas. 
Aproveito para acrescentar uma breve palavra sobre este ainda hoje ignorado homem de letras, cujo talento poderia ter-lhe granjeado um lugar cimeiro na literatura portuguesa. Não aconteceu assim porque, após a viuvez, remeteu-se a um inexplicável silêncio, preferindo acabar os seus dias numa espécie de exílio dentro da pátria.
Em vez da prática forense, preferiu o conforto e a segurança da função pública, exercendo com proficiência o cargo de Conservador do Registo Civil, em cujo exercício directivo se manteve até à aposentação, ocorrida na vila de Sintra. Era um homem de grande inteligência e sensibilidade, que nas horas vagas se dedicava a escrever contos e novelas, inspiradas na sua própria experiência de vida, resultantes da convivência local e regional, sobretudo com os pescadores da bela aldeia de Ferragudo. Assim nasceu o único livro dado à estampa pelo Dr. Luís António dos Santos, a que deu o título de Barlavento, uma colectânea de «histórias da Terra e do Mar, bem observadas e bem urdidas, em que a narrativa flui com a correnteza natural de quem à experiência humana, lúcida e profunda, une uma experiência literária e um talento, sem os quais a primeira não podia exprimir-se harmoniosamente» - palavras justas e sinceras, apensas pelo escritor Domingos Monteiro no prefácio desse livro.
Panorama da aldeia de Ferragudo em 1906
A sua esposa, D.ª Maria Estefânia dos Santos, carreara para o casamento significativos meios de sobrevivência económica, que lhe permitiram viver com grande dignidade. Mas, em vez de os reter e os explorar em seu benefício, sempre dedicou os seus réditos aos pobres, aos doentes, aos velhos e muito especialmente à educação das crianças. Nesse âmbito, prestou particular atenção à instrução das meninas, futuras mulheres e esposas, às quais dedicava o melhor do seu esforço, dos seus rendimentos e até do seu próprio amor maternal. A essas crianças soube ministrar uma educação considerada suficiente para superarem os obstáculos da vida. Além do ensino das primeiras letras numa escola primária oficial, patrocinou também a instrução doméstica das meninas durante o seu trajecto de vida, preparando-as para o casamento e para a constituição do lar conjugal. Nesse âmbito, merece especial destaque a sua acção no financiamento da «Congregação das Filhas de Maria», que ela própria viria a dirigir durante alguns anos. Também merece o nosso aplauso a sua dedicação ao «Seminário de Férias de Ferragudo», para as crianças e jovens menos favorecidas.
Embora a protecção e a educação das crianças tenha constituído a sua principal preocupação, não deixa de ser verdade que D.ª Maria Estefânia foi principalmente uma alma benfeitora, e, por isso, muito justamente cognominada de «Mãe dos Pobres», sobretudo dos filhos do mar, que na aldeia de Ferragudo lutavam com grandes dificuldades de sobrevivência.
Carrinha algarvia circulando na aldeia de Ferragudo em 1910
A sua morte foi muito sentida. O seu funeral constituiu uma verdadeira manifestação de dor e de pesar. Compareceram ao doloroso préstito milhares de pessoas, oriundas de todo o Algarve. Diz, quem lá esteve, que um silêncio profundo e uma indisfarçável infelicidade pairava nos corações e rostos daqueles milhares de cidadãos anónimos, de todas as classes sociais, que se associaram a esta última homenagem para reverenciar aquela que foi uma das mais caridosas almas da burguesia algarvia do século vinte.
Como durante a maior parte da sua vida destinou o rendimento das suas propriedades para a protecção dos pobres e para o benefício da Igreja, deixou exarado em testamento que essas rendas continuariam destinadas a fins de benemerência social. A casa onde residia doou-a em testamento para ser convertida na residência paroquial de Ferragudo, assim como dois outros prédios, sitos naquela freguesia, seriam igualmente legados à Igreja. Os restantes bens foram deixados à Misericórdia de Lagoa, para benefício dos mais desfavorecidos. São mulheres deste carácter, benemerente e caridoso, que não existem hoje na nossa sociedade, onde o egoísmo e a indiferença tomou o poder e o destino.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

SILVA, Filipa Eugénia de Oliveira Serrão Ferreira da


Uma das mais apreciadas senhoras da sociedade farense na primeira metade do século XX. Creio que era natural de Faro, filha de muito boas famílias, casou-se com o empresário de artes gráficas e jornalista José Ferreira da Silva, que foi um dos fundadores do semanário farense «O Algarve», cuja vida editorial se espraiou por mais de um século de existência. Devido à sua longevidade editorial, granjeou desde os finais dos anos setenta do século passado até à primeira década deste milénio, o honroso epíteto de «decano da imprensa algarvia».
Além de muito caridosa, e sempre preocupada com os mais desfavorecidos, era também muito culta, conhecedora da nossa literatura clássica e sempre ocupada na leitura dos textos que se publicavam no “seu” jornal, sendo a primeira a fazer críticas e reparos aos colaboradores que visitavam a redacção do jornal. A um deles prestava os maiores desvelos, um engenheiro silvicultor que residia na cidade, e fazia o favor de colaborar no seu jornal, usando apenas as iniciais do seu nome, que por feliz coincidência eram exactamente iguais às do filho. Isso fazia crer no público que o velho Ferreira da Silva deixara descendência capaz de dar continuidade à sua obra. Mas ao filho faltavam qualidades de toda a ordem, inclusivamente tinha um feitio insuportável que lhe valeu o epiteto de “Silvinha marau”.
Com efeito, o pobre do Silvinha, não tinha jeito nenhum para a escrita, divertindo-se enquanto pode a gozar dos bens que os pais lhe haviam deixado. Só depois do falecimento da mãe, é que tomou juízo e se dedicou de facto ao jornal, prosseguindo a sua publicação, nem sempre com a regularidade desejável, por vezes com o simples objectivo de manter a tipografia que herdara em laboração.
Na sua qualidade, burguesa e educada, D. Filipa Serrão e Silva fez-se irmã da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, uma organização religiosa de leigos muito selectiva nos seus aderentes. Dizia-se que na Ordem do Carmo só entrava a elite de Faro. E, de facto, assim era. Em todo o caso, era uma senhora muito bondosa e profundamente crente, sempre presente na missa dominical e nas festas religiosas da cidade, doando aos mais necessitados esmolas e bens de primeira necessidade. Razão pela qual gozava de gerais simpatias da choupana ao palácio. Já no fim da vida sobreveio-lhe uma doença que progressivamente lhe foi minando a saúde até ao desfecho final, que foi lento e doloroso.
Além de esposa amantíssima foi mãe extremosa de Dª. Basilisa da Conceição Serrão e Silva, que conheci muito bem, imitando a mãe como presença, nem sempre regular na tipografia e redacção do jornal; e de Artur José Serrão e Silva, que assumiu a direcção da empresa gráfica e do semanário «O Algarve».
Quando Dª. Filipa Serrão e Silva faleceu, a 17 de Agosto de 1952, com a apreciável idade de 79 anos, já era de há muito viúva daquele saudoso jornalista, José Ferreira da Silva, fundador e director do semanário farense «O Algarve».

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

José Mora, um artista algarvio que se perdeu no altar da fama


Nos finais século XIX, princípios do seguinte, era Lisboa, então como hoje, não só a capital do Império, como também o fulcro da cultura e da criação artística nacional. Razão pela qual se transformara num autêntico magnete de sedução e aliciamento para os novos e mais promissores talentos nacionais. O jovem algarvio José Mora, foi mais um dos que emigraram para a capital à procura de uma oportunidade de vida e do tão almejado sucesso. Alcançou-o, embora vagamente, no teatro.
Igreja matriz de Portimão, centro cívico do velho burgo
 Os primeiros paços na Arte de Talma iniciou-os na sua terra natal, a sempre próspera mas ignorada Vila Nova de Portimão, centro portuário de grande projecção regional, pelo qual se escoavam muitas toneladas de conservas de peixe, de figo, amêndoa, azeite, vinhos e aguardentes, cortiça, esparto, e uma miríade de outras produções locais, de entre as quais se distinguiam os citrinos de Silves. Várias foram as famílias que naquele porto se distinguiram e enriqueceram pelo seu empreendedorismo, desde os Bivares aos Vilarinhos, fomentadores da indústria corticeira, dos Júdice Fialhos, os Feus, magnatas da indústria transformadora das pescas, passando pelos escritórios de exportação da família Teixeira Gomes, que viria a distinguir-se na política, chegando à mais alta magistratura nacional, mas também na literatura portuguesa, conquistando lugar de destaque entre os maiores do seu tempo.
Vista parcial de Vila Nova de Portimão, cerca de 1906
Deixando o seu grupo de amadores e os improvisados tablados, que a muito sacrifício se erguiam nas associações operárias, passou depois José Mora a tentar a sua sorte no Teatro Lethes, em Faro. Distinguiu-se logo pelo fulgor histriónico da sua voz, e pela estampa física, tenteando o êxito em pequenos monólogos poéticos e depois em peças mais exigentes de autores consagrados. A família Cúmano, sustentava o palco e a Companhia do Lethes, com a ampla generosidade da sua avultada fortuna, que apesar de tudo não conseguiu resistir à morte do seu principal promotor, nem à crise provocada pelo célebre Ultimatum, que no fim de século exauriu as finanças públicas e mergulhou o país na maior carência e austeridade. Perante a realidade, dura e crua, não restava ao jovem José Mora outra solução senão rumar à capital, para onde, aliás, se costumavam dirigir os que nesse tempo dessem provas de talento e de competência profissional.
O antigo Teatro Avenida em Lisboa, hoje inexistente
Mercê das suas capacidades naturais de inteligência para se adaptar à interpretação, e da sua prodigiosa memória para decorar rapidamente os papéis de cena, em breve arranjaria trabalho. Esteou-se, ao que parece, no Teatro Avenida, do conceituado empresário Luiz Galhardo, a 7 de Agosto de 1914. Mas um amigo, reconhecendo-lhe as qualidades levou-o para a Companhia Taveira, no Teatro da Trindade, que aliás já o conheciam aqui do Lethes. Pouco depois foi para o Teatro Gymnasio, do célebre Actor Valle – que também já tinha vindo a Faro – e dali não tardou a ir para o Teatro D. Amélia, cujo empresário, o ilustre Visconde de S. Luiz Braga, pontificava pela descoberta dos melhores talentos na Arte de Talma, que dali seguiam quase todos para os glorificados palcos do S. Carlos e D. Maria.
Os antigos Teatros de Lisboa
Com que pena, à distância de mais de um século, avaliamos hoje a carreira de José Mora, uma grande promessa do teatro na capital, em cujos tablados, e eram muitos, se representavam diferentes géneros, da tragédia à comédia, com particular relevo para a interpretação das peças de grandes vultos da dramaturgia nacional, desde Garrett, Herculano, Pinheiro Chagas, Mendes Leal, D. João da Câmara, Lopes de Mendonça, Marcelino Mesquita até ao jovem Júlio Dantas. Tivesse ele mais juízo e mais cuidado na escolha das suas amizades, e certamente estaríamos hoje a falar de uma grande figura do tablado artístico nacional. Deixou-se seduzir pela estúrdia da vida nocturna, misturando a bebida com os amores mercenários, confundindo as exigências do trabalho com o laxismo da boémia. Em breve começou a dar sinais de decadência. Faltava aos ensaios, embriagava-se com a malta da estiva, contraiu doenças, desempregou-se, enfim… apressou a morte, quando os traços da juventude ainda ornavam o seu rosto de Apolo.
Perdeu-se um talento que dera sinais de grande exuberância no papel do Romão Alquilador, nessa imortal peça «A Severa» de Júlio Dantas, que depois se transformaria num dos romances de maior sucesso na literatura portuguesa. Na opinião dos melhores críticos de teatro, com assento na imprensa do início de século, foi José Mora muito elogiado, não só na «Severa» como ainda nos dramas de «Maria Antonieta», na «Morgadinha de Valflor», de Pinheiro Chagas, na comédia «Negócios são Negócios», e em muitas outras que já não chegou senão a papéis secundários.
Nasceu este desafortunado rapaz na então Vila Nova de Portimão, em12 de Agosto de 1879 e faleceu em Lisboa a 29 de janeiro de 1928, com 48 anos de idade. É assim a vida artística, por vezes por vezes o caminho do êxito e da fama torna-se tão sinuoso e labiríntico que pode conduzir os incautos à caverna do Minotauro.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Sebastião Ferreira, notável professor e digno fundador da Mutualidade Popular de Faro

Sebastião Ferreira
Recordo hoje o professor Sebastião José Ferreira, um notável professor primário, que educou gerações no elevado sentido do termo educare, isto é, formar e modelar o carácter das crianças, transmitindo-lhes valores éticos e morais, indicando-lhes o sentido da fraternidade e do bem comum. É hoje uma figura absolutamente ignorada, quer em Loulé, sua terra-natal, quer em Faro, onde pontificou um lugar de destaque na sociedade do seu tempo através da fundação da Mutualidade Popular, uma espécie de sindicato e montepio da classe dos professores primários no Algarve.
Sebastião José Ferreira, foi professor e inspector do Ensino Primário. Nasceu em 1880, na progressiva vila de Loulé, e veio a falecer em Lisboa (na casa de seu genro, o conhecido e igualmente muito estimado Dr. Faustino Vidal) a 14-10-1953, com 73 anos de idade.
Como professor primário chegou a desfrutar de certa proeminência social, não só pelas suas naturais aptidões para a docência, como ainda pela forma afável e compreensiva como tratava as crianças, sobretudo nos momentos cruciais da sua avaliação final, já que Sebastião Ferreira foi examinador regional da instrução primária, qualidade em que percorreu diversos estabelecimentos de ensino. Sabemos também que desempenhou o seu múnus profissional em vários pontos do Algarve, após o que se fixou em Faro, onde mercê das suas qualidades humanas e profissionais recebeu justíssimos louvores dos seus concidadãos, que lhe reconheceram atributos de honra e de bondade dignos da maior reverência. A sua experiência e competência profissional valeram-lhe a tão honrosa quanto justa nomeação para o cargo de Inspector do Ensino Primário, que julgo ter exercido quase exclusivamente no Algarve, e em cujas funções se reformaria pouco antes de se declarar a doença que lhe roubaria a vida.
O prof. Sebastião Ferreira, tornou-se pelo seu diamantino carácter numa das figuras mais distintas de Faro, não só pela dedicação à educação das crianças, como particularmente com a situação económica e profissional dos seus colegas, de cujo desempenho dependia a formação intelectual e social das gerações futuras. Por essa razão foi convidado a participar nos corpos gerentes da Mutualidade Popular de Faro, que ajudara a fundar, e que era uma espécie de montepio dos professores primários. A essa brilhante instituição, que ainda hoje existe, prestou assídua colaboração, devendo-se-lhe os mais valiosos e relevantes serviços.
O seu carácter bondoso e afável, as suas atitudes de constante e discreta benemerência, não lhe deixavam ter rivais nem inimigos, criando à sua volta uma verdadeira onda magnética de empatia social. A bem dizer toda a sociedade farense da primeira metade do século XX, tinha pelo Prof. Sebastião Ferreira, uma profunda amizade, verdadeira estima e grande consideração.
Foi casado com D. Maria da Piedade Ferreira, de quem teve duas filhas, duas notáveis mulheres do seu tempo, que ainda tive o prazer de conhecer pessoalmente, refiro-me à Dr.ª Noémia Ferreira Nabais, ilustre médica que exercia clínica em Lisboa, casada com o não menos famoso Dr. Faustino Vidal Nabais; e à Dr. Nídia Ferreira Neto, advogada de sólida formação intelectual e cidadã da mais rara sensibilidade cultural, que foi delegada do Instituto Maternal do Algarve, casada com João da Silva Neto, um dos mais ricos proprietários do Algarve, que foi vereador da Câmara de Faro e director da Companhia de Pescarias do Algarve, da qual era um dos principais accionistas. O seu filho, o Dr. João Manuel Ferreira Neto, foi um dos mais prestigiados funcionários superiores da TAP, falecido no declinar deste século, poucos meses depois da morte da sua querida mãe, cidadã das mais ilustres de Faro.
Jardim Manuel Bivar, cerca de 1940

Vem a talhe de foice lembrar que a residência de Sebastião Ferreira e a vastíssima propriedade onde nasceu a Dr.ª Nídia Neto foram expropriadas pelo Estado, e por ínfimo valor, nos conturbados anos do pós “25 de Abril”, para nela se erigir o Instituto Politécnico de Faro, depois transformado em Campus da Penha da actual Universidade do Algarve. A casa apalaçada que hoje se encontra junto à avenida de acesso à estrada de Olhão, estava anteriormente situada nas imediações da actual Escola Superior de Tecnologia.