sexta-feira, 19 de junho de 2020

CAIRES, Luthgarda de

Poetisa, escritora e publicista, Eduarda Luthgarda do Livramento Guimarães, de seu nome completo, nasceu em Vila Real de St.º António, a 17-11-1858, e faleceu em Lisboa, a 30-03-1935, na sua casa, na Avenida da Liberdade, n.º 53-1º, aos 76 anos de idade, vítima de cancro da mama.
Fez a escolaridade básica na sua terra-natal, mas o falecimento do pai não lhe permitiu prosseguir os estudos.  Partiu para Faro, onde também não foi muito feliz, seguindo depois para Lisboa. Casou-se muito jovem, mais por necessidade do que por amor, e teve uma filha, Clotilde, cuja morte prematura a deixou destroçada para o resto da vida. Na capital conheceu o advogado João de Caires, um homem fino, delicado e com razoáveis posses financeiras. Casaram, tiveram um filho e pode dizer-se que foram felizes. Pelo menos proporcionou à jovem Luthgarda os meios necessários para dar azo ao seu talento, podendo a partir de então dedicar-se em exclusivo ao culto de Orfeu. A música e as Belas Letras, eram notoriamente a sua verdadeira paixão.
Tocava razoavelmente bem alguns instrumentos de cordas, como harpa, cítara e violino. Mas era no piano e no órgão que se entretinha a compor as melodias para as quais escrevia os seus poemas. Não sendo cantora lírica, pois que para isso não recebera instrução, possuía, porém, uma voz de cristalino timbre que fazia as delícias do marido e do filho, seus principais admiradores. Mas a sua negra sina depressa lhe ensombrou mais esse pormenor de felicidade. Sentindo fortes dores de garganta, supostamente resultantes de pólipos nas cordas vocais, foi, por conselho médico, submetida a uma desastrosa intervenção cirúrgica, que a impediria de voltar a cantar. Esse triste episódio da sua vida retratou-o com pungente realismo no seu romance O Doutor Vampiro, publicado em 1921, no qual a classe médica e a sua vontade de explorar os doentes constituíam o centro da trama romanesca. A imprensa e a crítica especializada teceram-lhe rasgados elogios, concordando com a maioria das críticas endossadas aos clínicos, que de forma pouco correcta encaravam a medicina como um negócio.
Passou então a dedicar-se exclusivamente às letras e às obras de caridade, que aliás constituíram o lenitivo da sua vida. Creio que a sua estreia literária se terá efectuado por volta de 1905 nas colunas de vários jornais lisboetas, não se sabendo ao certo qual o primeiro, mas sei, com toda a certeza, que foram «O Século», e quase em simultâneo o «Diário de Notícias», os alvos preferenciais da sua prestimosa colaboração. Como desde logo revelasse um estilo de prosa muito fino e elegante, só ao alcance dos grandes escritores, tornou-se objecto de comentário nos meios intelectuais da época. Os jornais brasileiros, que então mantinham acesa cooperação intelectual com o nosso país, foram igualmente contemplados com a generosa colaboração dessa tão precoce quanto misteriosa musa das letras.
Como mulher culta e ilustrada, mostrou-se interessada pelos grandes temas sociais do seu tempo, nomeadamente pela luta sufragista e emancipadora das mulheres, nitidamente imbuída do espírito que moviam outras figuras notáveis, como Ana de Castro Osório ou a sua comprovinciana Maria Veleda. Sabendo, através das suas correspondentes francesas, mulheres instruídas e modernas, do que se estava a passar na pátria de Rousseau e Voltaire, decidiu escrever para os jornais portugueses e estrangeiros entusiásticos artigos a defender os direitos e os interesses femininos, desde há séculos depreciados e até vilipendiados por uma sociedade masculinizada, a que os poderes públicos e a própria constituição davam legitimidade e protecção legal. Aliás, no decorre da sua vida, iniciou nas colunas da imprensa lisboeta verdadeiras batalha cívicas contra o analfabetismo que assolava preferencialmente o sexo feminino; contra a falta de direitos das mulheres, que se agravavam quando adquiriam o estatuto de esposas, passando quase a ser encaradas como objectos ou bens de propriedade dos maridos; contra o desvalimento das mulheres solteiras, das viúvas e abandonadas; contra a falta de protecção das mães solteiras, que por falta de meios de subsistência se viam muitas vezes compelidas a enjeitar os filhos ou a condená-los à mendicidade.
Luthgarda, gravura de Manuel Cabanas
Apesar do seu nome ser muito conhecido e respeitado na imprensa da capital, sendo aliás apontado como sinónimo de mulher culta e intelectualizada, o certo é que só em 1910 faria a sua verdadeira estreia em livro, publicando uma compilação de versos intitulada Glicínias, que teve estrondoso acolhimento nos meios literários da especialidade. Animada pelo sucesso obtido e motivada pela implantação da República, publicou logo em seguida o poemeto A Bandeira Portuguesa, através do qual se colocava ao lado do poeta Guerra Junqueiro, defendendo de forma empolgada e entusiástica a conservação das cores azul e branca no pendão nacional. Isto deu uma certa polémica com Teófilo Braga, que sustentava o verde e vermelho para a nova bandeira republicana, o que aliás veio a prevalecer. Acresce esclarecer que Luthgarda de Caires nunca foi republicana, mas também nunca se imiscuiu em quaisquer campanhas a favor do regresso à monarquia. Tornou-se politicamente independente, nunca aplaudindo a política partidária que arruinaria o regime republicano. Manteve-se pela vida fora à parte da política, e nem mesmo a acalmia do Estado Novo a demoveu a mudar de opinião e muito menos a simpatizar com a ditadura.
Em 1911 publicou o seu primeiro volume de prosa, uma colectânea de contos intitulada Dança do Destino, igualmente muito bem recebida pela crítica. Mas no ano seguinte voltou à poesia, dando à estampa um novo livro, As Papoilas, mais romântico e pueril do que os anteriores. Em 1916 dedicou à mãe e à sua filha Clotilde, tão prematuramente falecida, uma bela obra de poesia a que deu o título de Sombras e Cinzas. Continuaria depois a publicar novos livros de versos, que tal como os anteriores foram sempre muito aplaudidos pela crítica, como foi o caso de Pombas Feridas, Nossa Senhoras de Lourdes, e O Vagabundo. Por fim, em 1922, publicou nova colectânea de perfumados versos, a que deu o sugestivo título de Violetas, e no qual se insere o poema “Florinha das Ruas”, com que Luthgarda havia recebido o 1.º prémio dos Jogos Florais de Ceuta. Esse poema, tornou-se aliás bastante popular, a ponto de raras serem as senhoras, e até as crianças das escolas, que não o soubessem declamar.
Vem a propósito lembrar que a Condessa de Ribas e Madalena Brion, duas ilustres senhoras da primeira sociedade lisboeta, sugestionadas pela ética social do poema, e sobretudo pela popularidade que o mesmo atingira nos meios mais carenciadas, decidiram fundar uma instituição para a protecção de meninas pobres, à qual deram precisamente a designação de «Florinha das Ruas». Esse estabelecimento, criado à imagem das suas beneméritas instituidoras, esteve sediada num prédio no Campo de Santana, em Lisboa, que o tempo se encarregou de arruinar, e de assim fazer esquecer tão importante fundação.
Em prosa publicou ainda A Lenda de Guiomar, Árvores Benditas, Águas Passadas... (novelas), e dois livros de contos para crianças, intitulados Cavalinho Branco e o Palácio das Três Estrelas.
Acima de tudo, Luthgarda de Caires deixou uma obra de incontestável valor literário, norteada pelos altos princípios morais que modelaram a sua vida como cidadã e como mulher. Porém o seu nome será para sempre lembrado pela sua grande dedicação a variadíssimas obras de caridade, tendo-se principalmente à protecção das crianças e ao acompanhamento moral e conforto social dos presos. Assim, não podemos esquecer que em 1914 foi ela quem promoveu o auxílio às crianças doentes no Hospital da Estefânia, em cujo seguimento criou em 1924 o Natal do Hospitais, com o apoio logístico e financeiro do «Diário de Notícias». Tudo começou quando, por sua iniciativa, o «Diário de Notícias» abriu uma subscrição para comprar brinquedos para as crianças doentes nos hospitais. Foi uma bola de neve, que anualmente crescia de sucesso, a tal ponto que os artistas de circo e do teatro infantil se disponibilizaram para ir aos hospitais confortar as crianças. A partir daí nunca mais parou de crescer esta brilhante iniciativa, que hoje é transmitida pela televisão para o país, e por cabo para o mundo inteiro.
Também pugnou na imprensa pela abolição do uso de capuz, e às vezes de máscara, a que obrigatoriamente estavam sujeitos os presos da penitenciária de Lisboa. Essa prática foi efectivamente abolida quando o Dr. Rodrigo Rodrigues dirigiu o referido estabelecimento penal, por concordar com as objecções tecidas na imprensa pela poetisa Luthgarda de Caires. Também viu satisfeitas as suas críticas tecidas às vexatórias grades que defendiam as janelas do Aljube, então destinado ao internamento das mulheres condenadas por crimes públicos. Parecia-lhe que seria suficiente reduzir para apenas uma, em vez de três, as grades com que se pretendia impedir a fuga das prisioneiras, o que só muito raramente havia acontecido.
Na imprensa nacional, Luthgarda de Caires colaborou assiduamente no «Diário de Notícias», «O Século», «A Capital», «Correio da Manhã», «Ecos da Avenida», nas revistas «Brasil e Portugal», «Enciclopédia do Lar», etc., etc...
Monumento erigido a Luthgarda de
Caires no Jardim de V.R.Stº António
 
No âmbito da imprensa algarvia, Luthgarda de Caires colaborou sobretudo em poesia, em «Districto de Faro» (1911), «O Heraldo» (1912), «Correio Teatral» (1923), «Correio do Sul» (1924) e «O Algarve», todos de Faro; «A Província do Algarve» (1914) de Tavira e a revista «Nossa Terra» fundada em Maio de 1931 em Vila Real de St.º António. Mas a b em dizer foi o «Correio do Sul» que após a morte de Luthgarda se tornou no principal divulgador da sua nobre actividade social em prol das crianças, assim como da sua talentosa obra poética.
Moderna estátua de Luthgarda de
 Caires, erigida no cais de VRSA 
A relevância da sua obra literária e da sua acção cívica em prol das crianças, justificaram que por parte do governo fosse condecorada com as comendas de Santiago e da Ordem da Benemerência. Curiosamente, foi o ditador Oliveira Salazar quem, em 1931, lhe atribuiu o Oficialato da Benemerência. Também no Brasil havia sido há muito homenageada com a medalha de prata, pela excelsa magnitude da sua obra literária, aquando das comemorações do Centenário da Independência, realizadas em 1922.
Em 20-5-1936, um ano após a sua morte, a autarquia vilarealense aprovou por unanimidade uma proposta apresentada pelo presidente Matias Sanches, na qual atribuiu o nome da poetisa sua conterrânea ao antigo Largo da Fonte, junto do qual se situava aliás a casa onde nascera. Mais tarde, em Abril de 1966, voltou a autarquia a homenagem a sua memória, descerrando um busto, da autoria do consagrado escultor Raul Xavier, na pequena praça que tem o seu nome.
Existe actualmente uma estátua a corpo inteiro na poetisa, num recanto do jardim que se estende ao longo da bela marginal do seu “Rio Encantado”, em Vila Real de Santo António.
Para terminar, devemos acrescentar que do seu casamento com o Dr. João de Caires, teve um único filho, Álvaro Guimarães de Caires,  que viria a ser médico,  e foi um notável investigador da História da Medicina em Portugal, para além de um abalizado crítico de arte.
Acima de tudo Luthgarda de Caires foi uma mulher de campanhas nacionais. E como já aqui dissemos ficará para sempre lembrada como a criadora do Natal dos Hospitais, que actualmente já não se confina a Lisboa mas a todo o país, continuando o «Diário de Notícias», tal como na sua origem, a promover aquela que foi, e continua a ser, a mais louvável das suas iniciativas.
Em resumo, a obra literária de Luthgarda de Caires compõe-se dos seguintes títulos: Glycinias, 1910; A bandeira portuguesa, 1910; Papoulas, 1912; A dança do destino, contos e narrativas, 1913; A revolta, da autoria de Nelly Roussel, adaptação em verso de Luthgarda de Caires, 1914; Sombras e cinzas, 1916, (2.ª ed. 195?) O Doutor Vampiro, romance, 1923 Violetas, 1925 O palácio das três estrelas, novela infantil, 1931.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

CORREIA, Maria do Espírito Santo

Poetisa e fundadora do jornal «A Avezinha», nasceu na freguesia de Paderne, concelho de Albufeira, a 23-7-1895 e faleceu em Lisboa a 7-3-1968.
Muito embora não possa afirmar que Maria do Espírito Santo Correia foi uma figura das letras algarvias e muito menos uma publicista de talento, não tenho, porém, dúvidas sobre as suas qualidades intelectuais, já que era uma senhora de esmerada educação e de grande nível social. Convém frisar que era irmã do comendador António Libânio Correia (ver/nome), bastando esse cartão de apresentação para conviver com as figuras mais ilustres da sociedade intelectual lisboeta.
Durante a sua juventude, e enquanto viveu na freguesia de Paderne, sempre apoiou as iniciativas locais de solidariedade social, colaborando com a Igreja e o pároco nas acções de protecção das crianças, combate ao analfabetismo e ajuda aos pobres. No âmbito dessas acções surgiu a ideia de editar o jornal «A Avezinha» de que é uma das quatro fundadoras. Como era certamente a mais instruída e a mais habituada a lidar com dinheiros, coube-lhe a tarefa de administrar o jornal, sobretudo pagar as contas inerentes à sua edição, cobrar as assinaturas e recolher donativos. Apesar das tarefas administrativas, também cuidou de escrever algumas crónicas que, diga-se em abono da verdade, tinham grande qualidade literária, ainda que afinassem pelo mesmo diapasão das suas colegas, ou seja, eram profundamente inspiradas na moral cristã e perseguiam o objectivo de divulgarem os salutares valores da amizade, da honestidade, da caridade e da bondade para com os mais desafortunados.
Apesar dessas tarefas administrativas também se ocupou com a redacção das notícias locais e compôs algumas poesias de fino recorte estilístico e de incontestável beleza lírica. E se não deu mais nas vistas foi porque se sentia a “flor” mais burguesa daquele canteiro feminino que foi «A Avezinha». Talvez por ser a mais instruída e ilustrada, teve a honra de assinar o artigo de fundo com que se inaugurou a publicação do jornal. Como eram todas ainda muito jovens, o Padre João dos Santos Silva, considerava-as como umas florinhas daquele humilde e muito modesto jardim que era ao tempo a freguesia de Paderne. Por isso, coube-lhe o pseudónimo de “Hortênsia”, enquanto a Maria da Conceição Elói (ver/nome) era a “Madressilva, a Maria Feliciana Marques (ver/nome) era a “Violeta” e a Maria Costa Mendes (ver/nome) era a “Rosa”, havendo ainda outros pseudónimos não identificados como a “Bonina”, a “Margarida” a “Açucena”, a “Urze”, a “Camélia” e a “Tília”.
Na falta de meios financeiros, a Maria Correia pagava do seu bolso o que as verbas que estivessem em falta.
Creio que de todas as fundadoras do jornal é hoje a mais esquecida.
Após viver durante largos anos na companhia do irmão, decidiu voltar a fixar residência em Paderne, onde acabaria por casar-se com José Gonçalves Cruz, mais conhecido por José da Rita.

sábado, 16 de maio de 2020

ASSIS, Renato Vitório Serafim de


Capitão do exército, natural de Faro que faleceu em Tancos, onde prestava serviço militar, a 10-3-1952, com 51 anos de idade. Era filho de D. Laurinda Serafim de Assis e de António de Oliveira Assis.
Estudou no Liceu de Faro e na Escola Politécnica de Lisboa, de onde se transferiu para a Escola de Guerra, a fim de seguir a carreira das armas. Quando estalou a terrífica Guerra Civil de Espanha ofereceu-se para integrar o grupo de oficiais conselheiros que ali permaneceu nos primeiros meses do conflito. Para além disso desempenhou outras missões de grande importância militar, através das quais foi várias vezes condecorado.
Acima de tudo o capitão Renato Assis foi um prestigiado oficial da arma de engenharia, muito estimado pelos seus homens, que o tinham na consideração de um verdadeiro paradigma da vida castrense.
Teve um único filho, João Eduardo Assis. Era irmão de Stela Serafim de Assis Mil-Homens e de D. Isménia Serafim de Assis. Por outro lado, era primo de Assis Esperança, um dos mais célebres escritores algarvios do século XX.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

A beleza das mulheres de Silves

O terceiro conde de Carnarvon
Vem de longe a fama encantatória das mulheres do sul peninsular, cuja fascinante beleza deixava os mareantes do norte europeu absolutamente rendidos, subjugados ao feitiço dos olhos místicos e desafiantes destas sereias das terras mouriscas. E quantos forasteiros, das mais remotas origens, aqui se deixaram prender nas teias do amor. O Algarve, a quem o Conde Shomberg Lippe, chamara «um pedaço do Paraíso Terrestre», proporcionava aos que aqui renovavam a sua pátria, todas as condições para uma vida serena e feliz.
O fruto, que desta terra mais fama granjeou na voz dos poetas, foi a rosa mística das suas belas agarenas. Por todo o mediterrâneo se espalhou o maravilhoso mito da cativante beleza das mulheres do algarve-andaluz. Contavam-se histórias de sedução ardente e de cativantes amarras, em que se deixavam enlear os viandantes. Dizia-se até que as sereias subiam as falésias das praias algarvias para acender fogueiras, com que se davam a conhecer aos marinheiros os melhores ancoradouros. Aqui aportados deixavam-se enfeitiçar pela invulgar beleza das mulheres algarvias. Enfim, fantasias que adoçavam a realidade da vida, que era bem mais difícil, árdua e até cruel, para os que a sorte não bafejava.
Henry John George Herbert
conde de Carvarvon
O terceiro Conde de Carnarvon, Henry George Herbert, cujo espírito viageiro o tornou célebre, numa das suas visitas pelo sul peninsular, deve ter sido um desses marinheiros que se deixou seduzir pela incandescente beleza da mulher algarvia. Com efeito, numa das sessões em que interveio no Parlamento inglês teceu, em 1836, rasgados elogios às mulheres algarvias, em especial às de Silves, cidade que visitara para apreciar as suas antigualhas mouriscas. Ouçamos as suas palavras, que são um mimo, um panegírico poético, uma bandeira de propaganda regionalista, quiçá até um cartaz turístico que não deveríamos descurar nos tempos que correm:
«As mulheres de Silves, assim como as de todo o Algarve, são extremamente formosas de feições, e muitas vezes também de figura: tez pálida, mas clara, olhos ensombrados por longas pestanas negras e sempre belos, tendo quasi sempre a distingui-los uma expressão pensativa e bondosa, que se reflete no sorriso, dando-lhe carácter. Os encantos das espanholas maravilham e atraem os olhares, mas a beleza algarvia, menos ardente, é dotada de mais ternura e nem por isso penetra menos fundo no coração
Panorâmica da cidade de Silves, em 1883
Esta expressiva declaração de Lorde Carnarvon – que foi uma distinta figura da nobreza, da política e da literatura britânica, que deixou nas suas obras notáveis descrições das terras e das gentes do sul peninsular – pode ler-se num opúsculo muito interessante e curioso, realizado e editado pelos serviços de propaganda da embaixada da Grã-Bretanha em Portugal. Numa edição de esmerado cuidado, com belas ilustrações e impressa em papel couché, veio a público com o sugestivo título: Portugal na Literatura Inglesa – Famosos escritores ingleses prestam homenagem a Portugal, Lisboa, Embaixada Britânica, 1943 (16 p., impresso a 2 colunas, ilustrado, 25 cm).
Para os possíveis interessados, acrescento que o exemplar que vi e consultei na Biblioteca Nacional de Lisboa, tinha a cota: L. 117620 V.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Dois sermões proferidos por Fr. Francisco da Cunha na Sé de Faro, no séc. XVIII


Em 1730, vendiam-se na casa de Rodrigo da Maya, um livreiro que teve a sua época, sediado no bairro oriental da Sé de Lisboa, várias publicações de índole religiosas. Havia de tudo, desde estampas e pagelas piedosas até aos sermões para a doutrinação ecuménica do rebanho patriarcal. Para servir os leigos e profanos, ou seja, o público em geral, não faltavam também ali os folhetos de cordel, pequenos fólios in-quarto, relatando prodígios insólitos e rocambolescos, como assombrações, encantos, génios demoníacos e toda a casta de fenómenos, caldeados com milagres e curas de origem divina.
Sé de Faro, no século XIX
Na imprensa do tempo, sobretudo na «Gazeta de Lisboa» publicavam-se pequenas notícias, pagas à linha pelos livreiros e editores, dando conta da vinda a público desses folhetos e opúsculos de inspiração religiosa. A intenção e expectativa era a de serem brindados pela Patriarcal ou até pela Casa Real, com a suprema graça de uma compra por grosso para distribuição pelas diversas casas de frades religiosos existentes na diocese.
Foi um desses anúncios que vi na edição nº 35, de quinta-feira 31-8-1730, a páginas 280 da «Gazeta» a referência à seguinte publicação:
Oraçaõ fúnebre, Laudatoria Historica, e Panegyrica nas Exequias do Summo Pontifice Benedicto XIII, de gloriosa memoria, que na Sè da Cidade de Faro, Reyno do Algarve, pregou o Padre Mestre Fr. Francisco da Cunha Augustiniano, mandou celebrar o Emminentissimo Senhor Cardeal Pereira do Titulo de Santa Susana, do Conselho de S. Magestade, dignissimo Bispo do dito Bispado fazendo nellas Pontifical. Lisboa na oficina Augustiniana, 1730.
O que me prendeu-me a atenção foi o facto de se tratar de um evento religioso realizado em Faro, certamente na Sé, que deve ter sido presenciado pelos mais altos representantes das autoridades civis e militares. Procurei indagar da sua existência na Biblioteca Nacional tendo constatado que existe mais do que uma cópia disponível à leitura pública.
O saudoso Abílio Gouveia, que tinha na sua biblioteca uma vasta coleção de sermões e outros folhetos relativos ao Algarve, disse-me que tinha um exemplar, mas não pude havê-lo à mão, para o poder asseverar. Nessa altura, o Abílio Gouveia era já bastante idoso, reservava-se na sua residência como um eremita, e tinha a sua biblioteca muito a recato dos olhares alheios.
Acerca do autor deste folheto, Frei Francisco da Cunha, padre mendicante da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, consultei as obras em que se arrima o conhecimento geral de tudo quanto no passado se publicou na lusa língua. Refiro-me à Biblioteca Lusitana, de Barbosa Machado (vol. II, p. 140), e ao Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva (vol IX, pp. 282-283).
Por eles coligi o pouco que se conhece acerca deste Frei Francisco da Cunha, que nasceu em Lisboa, em data que ignoro, mas que se presume ter sido ainda no século XVI. Consta que era filho de Domingos de Araújo, que foi um honrado Escrivão dos Feitos da Coroa, e de Bárbara da Cunha, os quais presumo terem sido ambos de boa e reconhecida índole. Ainda muito jovem estudou Humanidades e Latim, antes de dar entrada, a 6-03-1714, no convento da Graça, em Lisboa, na sagrada congregação dos Eremitas de Santo Agostinho. Na reclusão do cenóbio dedicou-se com perseverança ao estudo da teologia, da exegese bíblica, da filosofia aristotélica e da escolástica. O seu sacrifício foi coroado com a nomeação para Leitor de Teologia no convento onde professara. Pouco depois foi requestado para o exercício das mesmas funções no convento da sua ordem em Leiria, passando depois a Prior daquela prestigiada casa religiosa.
Voltou anos depois a Lisboa, onde foi prior do convento da Penha de França. Sabe-se que quando os agostinianos se reuniram em assembleia magna, na cidade de Perugia, na Itália, o nosso Frei Francisco da Cunha foi nomeado para presidir ao Capítulo Geral da Ordem, o que terá sido para ele uma subida honra. Após a sua estadia na capital da Úmbria, foi nomeado Procurador da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Lisboa para integrar a Cúria Romana, junto do Sumo Pontífice. Esse terá sido o momento áureo da sua carreira religiosa.
Quando voltou à pátria lusa, não foi longo o seu repouso na tranquilidade conventual, pois seria pouco depois nomeado Vigário Provincial do Reino do Algarve, com assento na Sé de Faro. É durante a sua estadia no Algarve que se estreia nas letras da fé católica, através da publicação do opúsculo acima referido.
O prelado desta diocese, o cardeal José Pereira de Lacerda (1662-1738), de quem foi amigo pessoal, nomeou-o para o exercício da alta dignidade de Examinador Sinodal da Bispado de Faro. Os seus dotes de orador fizeram-se destacar nas festas religiosas e nas celebrações ecuménicas da fé católica, pronunciando no púlpito da Sé de Faro notáveis sermões de que é exemplo o que aqui pronunciou por ocasião do Natal de 1731:
Sermam Panegyrico do Glorioso grande, ou mayor Santo S. Joseph fundado no Decreto da Sagrada Congregaçaõ dos Emminentissimos Cardeaes em 19 de Dezembro de 1726, pelo que se manda pòr S. Jozé na Ladainha dos Santos depois de S. Joaõ Bautista, prégado na Sé de Faro, pelo P. M. Fr. Francisco da Cunha, na Festa que lhe faz o Cardial Pereira. Lisboa, na Officina Augustiniana, 1731.
Embora já sem importância para o Algarve, o frade eremita calçado dos agostinianos, Francisco da Cunha, publicou em 1743 a sua mais reputada e extensa obra, cujo interesse literário excede largamente as anteriores, até pelo facto de na época causar alguma celeuma contestatória nos meios profanos e da autonomia popular. Aqui vai citada nos termos em que a descreve o Dicionário Bibliográfico de Inocêncio da Silva:
Oraçaõ academica panegyrica histórica encomiástica profano-sacra, pelos felicissimos sucessos e victoriosas armas da Serenissima Rainha de Bohemia, com a descripçaõ do mesmo Reyno, e corte de Praga, e das suas victorias do Panaro e Mano, adornada de varias poesias e muitos versos dos melhores engenhos portuguezes. Lisboa, na Officina Alvarense, 1743.
Sei que publicou ainda, com o pseudónimo de Ricardo Fineca Fascunh, que mais não é do que o anagrama de Francisco Cunha, um opúsculo intitulado:
Relaçam da prodigioza navegaçam da nao chamada S. Pedro, e S. Joam da Companhia de Macao, por merce da milagrozissima Imagem de N. S. de Penha de França, com a explicaçam, e pintura da grande cobra, que se achou na dita nao, e se criou dentro em huma pipa de agoa..., escrita por hum devoto domestico da mesma Senhora, Ricardo Fineça Fascunh. Lisboa, na oficina de Jozé da Silva da Natividade, 1743.
Curiosamente, nesse mesmo ano deu à estampa um outro opúsculo, no mesmo estilo dos anteriores, e de carácter laudatório e histórico, dedicada à rainha consorte de D. João V, que só por mera curiosidade passo a citar:
Oraçam academica, panegyrica, historica, encomiastica, profana-sacra, consagra, tributa e oferece à mesma soberana e Senhora D. Maria Theresa Augusta, Christina, Amélia Walburga de Austria / O.M. Fr. Francisco da Cunha Augustiniano. Lisboa, na Oficina Alvarense, 1743.
E nada mais conheço deste frade agostiniano, que tenha verdadeiro interesse para o estudo do Algarve ou que mereça constar na «Algarviana». Como se vê e comprova, apenas publicou cinco trabalhos, todos eles de inspiração religiosa, cujo interesse e valor histórico-cultural, se pode considerar muito reduzido.
Para terminar devo acrescentar que em 1759 há notícia de Frei Francisco da Cunha ainda vivo, ignorando-se onde e em que ano terá perecido.

sábado, 2 de maio de 2020

Capitão David Neto, um algarvio fiel a Salazar


Uma das figuras que apoiou Salazar e o Estado Novo, foi o capitão David Neto, um militar de grande integridade moral, que se fartou das incongruências da República, da falta de autoridade governativa, das hesitações da nossa política externa, e do partidarismo em que mergulhara a vida nacional. Teve um papel importante na defesa territorial das possessões africanas, que compunham o grosso do nosso império, e comportou-se exemplarmente, com bravura e dignidade no seio do C.E.F., que tão heroicamente defenderam a bandeira e os interesses nacionais na I Guerra Mundial. Em sua memória, aqui fica um breve esboço da sua vida, e da sua personalidade, não só como militar, mas também como escritor.
David Rodrigues Neto, de seu nome completo, nasceu na freguesia do Algoz, concelho de Silves, a 31-3-1895 e faleceu em Portimão a 4-1-1971, com 75 anos de idade. Acima de tudo foi um digno militar, um honrado advogado e um honesto político nacionalista.
Fez os seus estudos preparatórios na terra natal e os secundários em Faro, transferindo-se depois para a Universidade de Coimbra, onde iniciou o curso que teve de interromper por causa da participação de Portugal na I Guerra Mundial. Assim, assentou praça em 20-7-1915, sendo nos dois seguintes promovido a alferes e a tenente, até que em 1922 ascendeu ao posto de capitão, iniciando a partir daí uma carreira de armas que prosseguiu até à patente de Major, em 1935, mas que bem poderia ter sido mais fulgurante, se não fosse a sua vontade de concluir os estudos superiores e enveredar pelo foro.
Como militar portou-se com valentia e heroísmo, sobretudo nos insalubres campos da Flandres, sofrendo nas trincheiras a contaminação infecciosa das doenças que dizimaram mais militares do que os ignominiosos ataques do exército alemão. Basta dizer que as suas primeiras promoções foram obtidas nos campos da França durante a Grande Guerra, por actos de valentia, recebendo por isso várias condecorações nacionais e estrangeiras. Infelizmente, na célebre batalha de La Lys, ocorrida no fatídico “9 de Abril” de 1918, foi incapaz de suster o ataque das forças alemãs, esmagadoramente superiores em efectivos e equipamento militar, sendo as nossas linhas dizimadas até que os últimos resistentes, como o alferes David Neto, foram feito prisioneiros e internados num campo de concentração. Porém, o nosso intrépido algarvio conseguiu evadir-se do campo, prosseguindo um plano de fuga que o levou até à Dinamarca. Seduzido pelo conhecimento de novas culturas e ideias, decidiu demorar-se pela Europa, mesmo depois do armistício assinado em Novembro de 1918, percorrendo sobretudo a Bélgica e a Inglaterra.
Quando, anos depois, retornou a Portugal, preferiu voltar a estudar Direito, matriculando-se primeiro na Universidade de Coimbra e depois em Lisboa, onde viria a concluir o curso em 1926, logo após a «Revolução do 28 de Maio», em que participou activa e decididamente, sendo até apontado como um dos oficiais mais destemidos no avanço sobre a capital, afirmando-se um nacionalista convicto que expendia publicamente a necessidade de instaurar uma ditadura militar para salvar a pátria da incompetência dos políticos e da partidocracia instalada. Como recompensa foi nomeado comandante do Batalhão de Caçadores 5, cujas fortes convicções nacionalistas comprovou, no ano seguinte, ao colocar-se na linha da frente contra as revoluções do “7 de Fevereiro” e do “26 de Agosto”, ambas do ano de 1927, recebendo pouco depois, pela valentia debaixo de fogo, a condecoração da Torre-e-Espada.
Capitão David Neto Informa Salazar sobre a derrota do
Reviralho na Revolta de 26 de Agosto de 1931 - Lisboa
Talvez porque esperasse melhor retribuição política pela sua esforçada conduta militar, sentiu uma profunda desilusão com o regime salazarista, a tal ponto que decidiu retornar às origens, fixando-se na cidade de Portimão, onde se revelaria um cidadão impoluto e da mais relevante dedicação à sua província e ao seu povo. Nem parecia ser o mesmo major David Neto que todos conheciam, um contumaz nacionalista que escreveu na imprensa violentíssimos textos contra o “regabofe” republicano, publicando em 1933 um livro bastante polémico, demolidor das ideias de democracia sem responsabilidade e de liberdade sem ordem, que lançaram o país no caos e na bancarrota. Esse livro intitulou-se Doa a quem Doer, teve largas repercussões na imprensa e até no governo do recente “Estado Novo” de Oliveira Salazar – que embora apreciando certas críticas sobre o passado republicano e certas afirmações de esperança em relação ao rumo que tomava a nova situação política – o certo é que o não convidou para altos cargos da administração pública. Certamente desiludido com as expectativas a que se julgaria com direito, decidiu em 1935 afastar-se definitivamente da vida militar e optar pela advocacia. Creio, porém, que mesmo na vida forense o seu sucesso não foi significativo.
Pouco depois decidiu fixar-se definitivamente na cidade de Portimão, onde tinha bens de monta e desejava prosseguir a advocacia. Não creio que tivesse sido lá muito bem sucedido nas suas aspirações forenses. Em todo o caso, deixou marcas naquela cidade, nomeadamente em 1946 quando teve um gesto de altruísmo que veio demonstrar à saciedade não só a sua generosidade como ainda a superioridade do seu carácter.
Esse gesto consistiu na doação ao Instituto Português de Oncologia de uma vasto terreno em Portimão, para nele se instalar o centro de diagnóstico e tratamento do cancro. A escritura de doação do terreno foi firmada a 22-10-1947, pelo outorgante doador, pela sua esposa D. Maria Firmina Júdice de Abreu Neto e pelo chefe da secção de finanças de Portimão, em representação do Estado, tendo assistido ao acto o governador civil do distrito, Dr. Antero Cabral. A escritura foi lavrada nas notas da Dr.ª Mariana Carapeto dos Santos Patrício, notária naquela cidade, na qual se definiu que o terreno doado ao Instituto Português de Oncologia tinha 15.000 m2, situado no sítio de S. Sebastião, junto à estrada para o Alvor, no qual aquele Instituto se responsabilizaria pela construção de uma unidade hospitalar para o combate ao cancro, a qual na altura ficou orçada em 12 mil contos.
Não sei se o mesmo veio ou não a ser aproveitado para o fim em vista. Em todo o caso a oferta do terreno para o desenvolvimento da saúde em Portimão é uma prova do seu altruísmo e amor regionalista.
Mas o facto mais relevante e mais curioso na vida do ex-major David Rodrigues Neto foi o facto de ter perdido a confiança em Salazar e no regime nacionalista, tomando fortes posições contra o «Estado Novo» ao ponto de chegar a ser preso pela PIDE e sofrer a humilhação de ser julgado no Tribunal Plenário de Lisboa, em Conselho de Guerra e até mesmo no Tribunal da Comarca de Portimão, onde defendera vários pleitos judiciais. Durante as campanhas para a Presidência da República esteve sempre ao lado da oposição, quer na candidatura, em 1951, do almirante Quintão Meireles, quer, em 1958, na heroica campanha eleitoral do general Humberto Delgado, ao longo da qual tomou posições muito críticas contra o regime vigente.
Na imprensa algarvia colaborou no «Comércio de Portimão» e sobretudo no «Correio do Sul», cujo director, o Dr. Mário Lyster Franco, era seu amigo e antigo correligionário como simpatizante do movimento nacionalista. Mesmo quando o major David Neto se tornou em “persona non grata” ao regime nunca o «Correio do Sul», nem o seu director, lhe fecharam as portas. Creio até que entre eles existia alguma consonância nas críticas que em surdina faziam ao regime salazarista, que com o tempo vinha apodrecendo em favoritismos clientelares e em perseguições políticas absolutamente desumanas.

terça-feira, 3 de março de 2020

Uma Burra contra a corrupção

No Museu do Hospital Termal das Caldas da Rainha existe uma peça museológica muito curiosa e invulgar. Trata-se de uma Burra, designação atribuída desde tempos remotos a uma espécie de arcaz blindado, chapeado a ferro, à prova de fogo e de roubo, destinado à reserva de bens preciosos, ouro, jóias, dinheiro e até relíquias para fins religiosos. Neste caso servia para guardar os documentos antigos, contratos, escrituras, fórmulas químicas de remédios, e logicamente os fundos de maneio do próprio hospital.As origens da burra remontam à Idade Média, quando estes robustos e pesados cofres eram transportados no dorso de uma azémola para a recolha dos impostos régios, ou para o transporte do soldo com que se pagavam os exércitos. Os exemplares mais antigos são estriados a ferro, e apenas possuem uma fechadura. Mas os mais recentes, construídos entre as centúrias de quinhentos e oitocentos, são blindados e possuem três fechaduras, o que denuncia a preocupação de responsabilizar a sua abertura por três entidades diferentes. Este tipo de cofres eram comummente usados nas instituições públicas, onde a administração e tesouraria se repartia por diferentes responsáveis, com o fim de evitar o seu conluio num hipotético desfalque. Não sei se hoje teriam a mesma eficácia dos nossos antepassados... pois que a corrupção deixou de ser um crime para se tornar na virtude dos mais inteligentes, sobretudo dos políticos e dos banqueiros...!!!

Arcaz blindado em ferro, que serviu de cofre ao Hospital Termal das Caldas da Rainha. Este tipo de cofre ficou conhecido sob a designação de "Burra". Curiosamente o Museu Termal adoptou este cofre como símbolo emblemático da instituição, para certamente atestar a idoneidade e honradez dos seus administradores.


Burra, chapeada a ferro, precioso e muito belo exemplar com origem numa fundição francesa. Dizia-se imune ao fogo, e talvez aos ladrões, já que era difícil de transportar por ser pesadíssimo. Tinha três fechaduras (caso contrário não poderia ser designado como "burra"), e este magnífico exemplar possui ainda hoje as chaves originais. Tem as dimensões de 99 x 65 x 45cm. Este exemplar, de fabrico francês, foi vendido muito recentemente num leilão de antiguidades no Brasil.
Anúncio publicado na imprensa brasileira do século XIX sobre as virtudes destas "burras" francesas que seriam supostamente incombustíveis. Este tipo de cofres destinavam-se aos escritórios das grandes empresas, das agências de câmbio ou das pequenas filiais de província dos grandes bancos e argentárias.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Efemérides Algarvias - 3 de Fevereiro


O Castelo de Porches e o seu foral

No dia 3 de fevereiro de 1250, D. Afonso III, o primeiro a usar o título de Rei de Portugal e do Algarve, doou ao seu Chanceler, Estevam Annes, o Castrum de Porches e as terras envolventes, em honra dos serviços prestados. Significa isto que em Porches existia um castelo, certamente um antigo reduto militar romano, depois reconstruído e colonizado pelos almorávidas, que no século XIII se submeteu aos espatários de D. Paio Peres Correia.
Rei D. Afonso III, conquistador do Algarve
O documento desta doação está firmado pelo monarca em «sancta Mariam de faarom» em benefício do seu Chanceler, uma espécie de primeiro-ministro de agora, dando-lhe posse de «todos os terrenos e pertenças novas e antigas, estragadas ou conservadas (…) vinhas, figueiras e oliveiras, com todas as pescarias (…), com o direito do padroado sobre a igreja ou igrejas que dentro do mesmo Castro e seus limites se venham a edificar, salvando para nós o privilégio da preparação do ouro e prata, minério e fundições». Acrescenta, ainda, que os moradores do Castrum de Porches ficavam «isentos e livres de todos os direitos do serviço real, de qualquer tributo, de qualquer obrigação servil, e isto por forma que para o futuro nenhum foro será lançado ao castelo por nós ou por nossos sucessores ou pelos nossos homens que nele devam habitar».(1)
Significa isto que o Chanceler ficava com o benefício do rendimento daquelas terras (vinho, azeite, figo e pesca), reservando o rei a mineração dos metais, caso existissem, para a amoedação. Aos seus moradores dava-lhes o privilégio da isenção fiscal e do serviço real ou servil, isto é, livres de impostos e das obrigações feudais que humilhavam os camponeses, como era o caso das “banalidades”, das “corveias”, das “talhas” e outras “miunças”. Repare-se que estavam livres do serviço real, isto é, do “fossado”, que consistia na prestação do serviço militar contra os invasores sarracenos.
Estes incentivos devem ter facilitado o desenvolvimento de Porches, que foi crescendo em população, tornando-se num pequeno centro pesqueiro com um porto comercial, no qual se abriram os talhos do sal com que se conservavam as pescarias da sardinha e do atum. As salinas de Porches e Alvor foram, aliás, muito consideradas no valor e qualidade da sua produção. O sal era aquilo a que se pode chamar o "ouro branco" da época, tal era a sua escassez e alto preço.
Aos antigos se acrescentaram novos privilégios, reconhecidos e concedidos por D. Dinis, em 20-08-1286, no foral de usos e costumes outorgado a Porches, em igualdade de circunstâncias com o de Silves, que era, por sua vez, um decalque do que fora atribuído a Lisboa. O foral dionisíaco tem vários pormenores dignos de relevo, que não vou aqui escalpelizar, até porque a Doutora Maria de Fátima Botão, já escreveu um exaustivo trabalho sobre este assunto.

Não obstante, é bem certo que todas essas prerrogativas, regalias e benefícios concedidos no Foral, dão uma justa proporção da importância militar do castelo de Porches no século XIV. Não sei se nos seus trâmites correspondia à realidade militar então ali vigente, porque se tratava de um documento modelo usado noutras praças militares. Em todo o caso, parece-me que a vila de Porches foi no século XIV um importante posto de defesa militar da costa algarvia, conforme se atesta na confirmação desses privilégios concedida por D. Pedro I, em 1357. (2)
A esmagadora maioria dos privilégios concedidos no foral são de carácter militar, razão pela qual se infere a sua importância estratégica na protecção do litoral algarvio contra as incursões dos piratas e salteadores marroquinos.
De entre as regalias concedidas aos habitantes e militares de Porches, há uma particularidade que importa ressaltar, por dizer respeito às mulheres, que é a seguinte: «a mulher do soldado que enviúve tenha as honras de soldado até que se case, e se requerer conceda-se-lhe o foro do que requerer (…) Se porém a mulher do soldado, estando viúva, tiver um filho tal que, vivendo com ela em casa, possa cavalgar faça-o pela mãe…». (3)
Vemos, assim, que as viúvas dos soldados não ficavam na miséria, e que se quisessem voltar a casar tinham direito de manter as honras e privilégios do foro militar, obrigando-se, porém, a conduzir o filho varão para a vida castrense. É raro neste tipo de documentos dar-se destaque e protecção às mulheres, mas como se tratava de Porches, um porto marítimo, uma praça militar, alvo dos ataques corsários, situada em local extremado, é lógico que havia que manter-lhe a população para que não lhe desertassem os meios de sobrevivência social e económica.
Praia do Carvoeiro e a ermida de Nª Sª da Rocha
Já que falei nos privilégios militares contidos no foral de Porches, repare-se neste sobre a protecção do soldado que se incapacita por ferimento ou velhice: «O soldado que se enfraqueça ou de tal modo se debilite, que se não possa incorporar no exército, conserve-se-lhe as honras de soldado». Isto quer dizer que todo o soldado que for abatido ao efectivo tinha direito a manter o seu soldo e as suas dignidades militares. Para mim o mais notável de todos os privilégios concedidos pelo rei poeta, é este: «Os soldados de Porches ocupem a vanguarda do exército do rei». Tratava-se de uma honra distintíssima, uma prerrogativa militar pela qual se batiam as principais praças fortes do nosso país.
É claro que de tudo isto já só resta a memória do passado, porque do velho «Castrum» de Porches apenas ficou o documento da doação de D. Afonso III, em 1250, ao seu chanceler, logo após a anexação do Algarve. E o antigo foral dionisíaco, que nos permite avaliar a importância daquela praça forte, de que hoje já não existe testemunho material, a não ser a designação de "Porches Velho" dada pelo povo a um local próximo da praia do Carvoeiro, hoje conhecido por Nossa Senhora da Rocha. Mas isso são velhas lendas, outras dúvidas, mistérios e interrogações, para cuja discussão não será este o melhor palco.
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(1) ANTT, Chancelaria de D. Afonso III, Livro 1º, fl. 106.
(2) ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, Livro 1º, fl. 21, que tem na ilharga da coluna a data de 9 de outubro, relativa aos mouros de Évora. Presumo que o reconhecimento dos privilégios do Castelo de Porches seja da mesma data, isto é, de 9 de outubro de 1357.
(3) ANTT, Chancelaria de D. Dinis, Livro 1º, fl. 173.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

João Peres publica as suas «Memórias militares no Estado Português da Índia»

O meu amigo João Peres teve a amabilidade de me oferecer, com amável dedicatória, o seu último livro «Memórias, militares no Estado Português da Índia», prefaciado por Mário Proença, numa co-edição do Núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes e do jornal «O Olhanense». Devo confessar que tenho pelo cidadão João Peres o maior apreço e consideração, não só pelas acções que tem desenvolvido em prol da sua cidade natal, como muito especialmente pelo povo de Olhão.
João Peres
O meu amigo João Peres foi um conceituado funcionário bancário até 2009, data da sua aposentação, mas foi como autarca que melhor o conheci e aprendi a admirar. Primeiro como vereador e depois como secretário executivo da Junta de Freguesia de Olhão. A seu convite participei em vários eventos e homenagens de índole histórica e cultural, quer a título individual quer como presidente da AJEA.
Manda a justiça realçar que, em todos os actos cívicos promovidos por aquela Junta, apercebi-me sempre da sua competência e do elevado zelo com que cuidada do mais ínfimo pormenor, para que tudo, no fim, corresse bem e fosse um sucesso. Pessoas com o sentido de responsabilidade do João Peres eram, nessa altura como ainda hoje, muito raras, porque em geral quem realiza e produz deixa-se seduzir pela ambição, que suscita a luz da vaidade. Nunca o João Peres se aproximava dos lustres da ribalta, para chamar a si a vã glória do sucesso ou do poder. A sua principal característica era a forma humilde, tímida até, como declinava os elogios que lhe eram devidos, endossando-os sempre para a sua Gracinda, que então presidia com enorme simpatia à Junta de freguesia de Olhão.
As circunstâncias do tempo e da política, acabariam por levá-lo depois a assumir a presidência do executivo da Junta, creio que por dois mandatos, e recentemente a presidir à assembleia da freguesia de Quelfes.
Mas de todas as conversas que com ele mantive, as que mais me emocionavam eram as suas recordações de África e da fatídica guerra colonial, da qual também eu guardava nefastas lembranças, quando no Natal de 1964 recebi a notícia da morte do meu irmão Álvaro Manuel Vilhena Mesquita, caído em combate na Guiné.
O João Peres é o exemplo do bom e modesto português, que apesar de todas as circunstâncias, nunca se arrependeu nem algum dia deixou de se orgulhar de ter defendido a Pátria na guerra colonial. Para defesa da honra e dignidade de todos os que a seu lado defenderam a nação lusíada, escreveu vários artigos na imprensa regional, nomeadamente no jornal «O Olhanense», elogiando aqueles que preservaram o nome e a glória de Portugal em África. E quando já quase nos íamos esquecendo dos que nas antigas colónias zelaram pela soberania nacional, o amigo João Peres bradava alto e com orgulho, que muitos dos seus camaradas haviam regressado à pátria diminuídos na sua integridade física, moral e psíquica. E foi com lucidez e coragem, que reivindicou o título de heróis nacionais para todos os soldados portugueses (brancos, negros e mestiços), que no capim da savana derramaram o próprio sangue, quando não perderam, na flor da idade, a sua própria vida.
Por causa dessa intransigente defesa dos valores, que enformam a pátria portuguesa, é que o João Peres foi eleito presidente do núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes. Actualmente preside à Mesa da Assembleia-Geral, continuando a desenvolver acções de grande merecimento público, nos domínios da cultura e da acção social.
Para todos os que se interessam pela história da guerra colonial, lembro que o meu amigo João Peres já publicou outros trabalhos de grande interesse, nomeadamente «Retratos» em 2012, e «Memórias – Olhanenses na guerra do Ultramar», em 2013. Em 2016, complementou os trabalhos anteriores num livro de maior fôlego e abrangência intitulado «Memórias – combatentes na guerra do Ultramar», no qual analisa e descreve a vida, o sofrimento e sacrifício de alguns heróis que a seu lado combateram em África.
Este livro, que por amável deferência me ofereceu, narra com grande realismo as circunstâncias em que sobreviviam, com indizíveis dificuldades, as nossas forças militares nos antigos estados da Índia Portuguesa. A sua leitura é de um interesse fundamental, sobretudo para quem pretenda conhecer, ao pormenor, a bravura e a conduta heroica desenvolvida pelos soldados e oficiais algarvios nas antigas possessões do oriente. Neste livro relatam-se os sacrifícios e privações, o sofrimento e a saudade, a coragem e a valentia com que desempenharam as suas missões; mas também os momentos de lazer, os folguedos e tropelias, o bom humor com que tentavam dissipar a saudade e o temor da morte. Nele se descreve a acção militar, mas também o trajecto de vida de 27 jovens militares algarvios, que o João Peres resgatou do injusto esquecimento, a que todos nós votamos, aqueles que heroicamente defenderam a honra e glória de Portugal, na longínqua Goa, em Damão, Pequeno e Grande, e na mítica cidade de Diu.
Uma última palavra para as centenas de fotografias que ilustram este livro, muitas das quais são verdadeiros documentos para a história da nossa guerra no oriente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A origem da palavra Alfarrabista


Livraria Chaminé da Mota, conhecido alfarrabista do Porto
Numa das minhas aulas, referi-me, já não me lembro bem a que propósito, aos alfarrabistas como antiquários do livro, em cujas lojas se podem encontrar verdadeiras preciosidades, autênticos tesouros da nossa cultura e da nossa história. E aconselhei os jovens a procurarem nos alfarrabistas, não só os livros antigos e raros, mas também todo e qualquer livro que se encontre esgotado no mercado.
Um dos alunos, brasileiro de origem, com toda a franqueza e lealdade, perguntou-me o que significava alfarrabista, visto que no seu país chamam “Sebos” às lojas onde se vendem ou trocam livros usados. Parece que essa designação, “Sebo”, que aos nossos ouvidos é tão desagradável, procede do suposto manuseio dos livros, que pelo seu uso ficam "sebentos", isto é, engordurados pelas mãos dos seus leitores. É uma designação popular, mais natural e, vamos lá, mais realista, do que a nossa erudita nomeação de alfarrabista. Desta palavra descende também o vocábulo “alfarrábio”, que usamos muito para designar um livro grande, volumoso e, especialmente, um livro antigo. Daí pensar-se que dela deriva a denominação de alfarrabista, como local de venda de livros antigos (alfarrábios). Ora, é ao contrário, isto é, deriva da segunda a primeira, cujas origens se perdem lá para as bandas do Cáucaso, numa pequena cidade chamada Farab, nas imediações do mar Cáspio, presumo que situada no actual Turquestão, que na altura, século IX e X, estava ocupado por uma mescla de tribos e povos nómadas, que hoje designamos genericamente por turcomanos.
Na verdade, foi nessa cidade de Farab que nasceu, por volta de 850, um sábio árabe chamado Ibne Muhammad Tarkan, que por ter ali o seu berço começou a ser nomeado simplesmente como Ibne Farabi, em homenagem à sua terra natal, visto que traduzido à letra significa “filho de Farab”. E o mais curioso é que passou a ser desse modo invocado na cultura árabe, sem que alguém se preocupasse, nos séculos seguintes, com o seu verdadeiro nome, que, já agora, para esclarecimento público, se escrevia assim: Abn Nasr Muhammad ben Muhammad ben Tarkan al Farabi. Os seus mais directos discípulos chamavam-lhe Ibne Tarkan, nome que hoje se perdeu completamente, sendo invocado apenas como “Alfarabi”.
Livraria Castro e Silva, conhecido alfarrabista de Lisboa
Em boa verdade, Alfarabi é ainda hoje considerado como um dos maiores filósofos da civilização muçulmana, do qual descendem numerosos discípulos igualmente famosos, de entre os quais destaco a figura de Avicena, que teve um papel preponderante no mundo hebraico e na cultura ocidental. Mas, estava eu a dizer que Alfarabi era uma autoridade em várias áreas da cultura islâmica, sobretudo em leis e ética, tendo traduzido, e comentado, a Metafísica de Aristóteles, assim como A República e As Leias, de Platão. Como filósofo, mas também, como teólogo, escreveu vários tratados de grande fôlego e sólida erudição, tendo como desiderato a criação de um regime político perfeito, com base na República de Platão, adaptada ao Corão. É claro que não conseguiu porque, em muitos casos, incorria em perigosas heresias. O próprio Avicena, baseando-se nos comentários de Alfarabi, sobre a Metafísica de Aristóteles, tentou criar a escolástica islâmica, com escasso êxito, diga-se, tornando-se num fiel seguidor do mestre grego.
Tudo isto veio a propósito da tentativa de explicar a origem da palavra alfarrabista. Pois bem, acho que já se percebeu que é do nome da cidade de Farab e do sábio dali natural, autor de grandes e volumosos tratados usados nas escolas e universidades islâmicas, que por serem da autoria de Alfarabi passaram a designar-se por alfarrábios. Os colecionadores desses velhos livros passaram a ser conhecidos por alfarrabistas, e como muitos deles os vendessem a outros estudiosos da cultura helénica e até do mundo hebraico – não esqueçamos que os judeus tinham fama de grandes comerciantes de livros raros, transacionando a cultura europeia com a ciência oriental - fazendo do mar mediterrâneo uma feira de relações mercantis com as mais variadas civilizações. Surgiu então a designação de alfarrabista, não para os colecionadores de livros raros, mas especificamente para os comerciantes das preciosidades bibliográficas, como por exemplo mapas, gravuras, manuscritos e objectos de arte relacionados com a escrita e o livro, como por exemplo bustos e retratos de Aristóteles, Platão, Avicena, Averróis e outros sábios. É, porém, importante não confundir os antiquários livreiros, vulgarmente designados por alfarrabistas, com lojas de velharias, de bric-à-brac ou de antiguidades, onde por ventura também podem existir, num amontoado de coisas antigas e curiosas, alguns livros.
Tarcísio Trindade, fundador da célebre «Livraria Campos Trindade», 
que descobriu, em 1965, o mais antigo livro português impresso em
Portugal, o Tratado de Confisson, revolucionando a História do Livro
Portanto, que fique bem claro – um alfarrabista é um comerciante de livros usados, antigos e raros, onde se vendem fundamentalmente peças bibliográficas, a par de outras, igualmente invulgares, como mapas, gravuras e outros objectos relacionados com a escrita e a leitura. No entanto, convém ressalvar que existem alguns alfarrabistas no nosso país, que são antiquários livreiros, pelo facto de serem muito exigentes na antiguidade, na qualidade e, sobretudo, na raridade das peças bibliográficas, nos manuscritos e peças de arte que colocam à venda, para servir não só o público erudito, como também os mais exigentes colecionadores espaçlhados por esse mundo fora.
Neste último sentido, merecem particular realce alguns alfarrabistas de reputação nacional, estabelecidos em diversas cidades do nosso país, nomeadamente a «Livraria Académica», o «Chaminé da Mota» e a «Livraria Manuel Ferreira» no Porto; a «Livraria Campos Trindade», do erudito Tarcísio Trindade (1931-2011), a «Livraria Histórica e Ultramarina», fundada pelo bibliófilo José Maria da Costa e Silva [Almarjão] (1920-2008), a «Livraria Castro e Silva», o alfarrabista «Telles da Sylva», e o «Mundo do Livro», todos em Lisboa; a «Livraria Fernando Santos», em Braga, e a «Livraria Miguel de Carvalho», em Coimbra, que julgo terem sido os melhores livreiros antiquários do nosso país. Em Faro, temos a «Livraria Simões» que é o único alfarrabista no Algarve, a quem rendo as minhas homenagens pelo estoicismo com que tem resistido a todas as adversidades.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Manuel da Fonseca e a máfia dos literatos balofos

A última entrevista que o escritor Manuel da Fonseca deu à imprensa - por acaso um órgão de referência, «O Expresso» -, publicou-se a 20-03-1993, como derradeira homenagem á sua obra literária, visto que falecera nove dias antes da mesma sair a público.
Considero essa informal conversa, ao semanário Expresso, como um documento autobiográfico, muito útil para a compreensão da sua vida e obra. O escritor Manuel da Fonseca sempre foi um homem sem medo, que por isso sempre se colocou na margem esquerda da vida. E como à data da entrevista já tinha 81 anos de idade, sentia que o fim estava para breve. Daí que não cuidasse das palavras, a ponto de esconder a verdade, nua e crua, como sempre acontece com os nossos escritores, à excepção do Lobo Antunes, que esse nunca as poupou a ninguém.
Manuel da Fonseca, anos setenta, no Algarve
Manuel da Fonseca, anos setenta, no Algarve
Só para dar um exemplo do teor da entrevista, aqui vos deixo um breve trecho, que constitui a sua resposta à pergunta: «E como se movimenta nos meios literários?»
A resposta é lapidar. Disse o que pensava, e com absoluta sinceridade, sem medo da máfia de escritores desprovida de talento e génio, que de braço dado com a crítica acéfala, domina as editoras, os média e até o próprio ministério da Educação.
Ouçam bem as palavras de Manuel da Fonseca, e vejam lá se, nestes 27 anos que se seguiram, alguma coisa mudou:
Festa da Amizade, Santiago do Cacem, em 1981
«Muito mal. É uma jogada fina. Dizes bem de mim que eu digo bem de ti, nós é que somos bons. É um mundo com muita hipocrisia. Eu não frequento os meios literários, sou muito malcriado, porque digo logo o que sinto. Aliás nisso sou como o Lobo Antunes. Hoje há uma intelectualidade balofa, uma vaidade de calça de ganga: grandes parangonas nos jornais, deste e daquele escritor, mas tudo é efémero, nada vai ficar - como a rosa daquele poeta francês
É por causa disso que vemos para aí uns tordos armados em escritores, cujo sucesso literário não se justifica no talento das suas obras, mas antes nos aventais que vestem em segredo, uns atrás dos outros, nos templos das colunas murchas.