quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Efemérides Algarvias - 3 de Fevereiro


O Castelo de Porches e o seu foral

No dia 3 de fevereiro de 1250, D. Afonso III, o primeiro a usar o título de Rei de Portugal e do Algarve, doou ao seu Chanceler, Estevam Annes, o Castrum de Porches e as terras envolventes, em honra dos serviços prestados. Significa isto que em Porches existia um castelo, certamente um antigo reduto militar romano, depois reconstruído e colonizado pelos almorávidas, que no século XIII se submeteu aos espatários de D. Paio Peres Correia.
Rei D. Afonso III, conquistador do Algarve
O documento desta doação está firmado pelo monarca em «sancta Mariam de faarom» em benefício do seu Chanceler, uma espécie de primeiro-ministro de agora, dando-lhe posse de «todos os terrenos e pertenças novas e antigas, estragadas ou conservadas (…) vinhas, figueiras e oliveiras, com todas as pescarias (…), com o direito do padroado sobre a igreja ou igrejas que dentro do mesmo Castro e seus limites se venham a edificar, salvando para nós o privilégio da preparação do ouro e prata, minério e fundições». Acrescenta, ainda, que os moradores do Castrum de Porches ficavam «isentos e livres de todos os direitos do serviço real, de qualquer tributo, de qualquer obrigação servil, e isto por forma que para o futuro nenhum foro será lançado ao castelo por nós ou por nossos sucessores ou pelos nossos homens que nele devam habitar».(1)
Significa isto que o Chanceler ficava com o benefício do rendimento daquelas terras (vinho, azeite, figo e pesca), reservando o rei a mineração dos metais, caso existissem, para a amoedação. Aos seus moradores dava-lhes o privilégio da isenção fiscal e do serviço real ou servil, isto é, livres de impostos e das obrigações feudais que humilhavam os camponeses, como era o caso das “banalidades”, das “corveias”, das “talhas” e outras “miunças”. Repare-se que estavam livres do serviço real, isto é, do “fossado”, que consistia na prestação do serviço militar contra os invasores sarracenos.
Estes incentivos devem ter facilitado o desenvolvimento de Porches, que foi crescendo em população, tornando-se num pequeno centro pesqueiro com um porto comercial, no qual se abriram os talhos do sal com que se conservavam as pescarias da sardinha e do atum. As salinas de Porches e Alvor foram, aliás, muito consideradas no valor e qualidade da sua produção. O sal era aquilo a que se pode chamar o "ouro branco" da época, tal era a sua escassez e alto preço.
Aos antigos se acrescentaram novos privilégios, reconhecidos e concedidos por D. Dinis, em 20-08-1286, no foral de usos e costumes outorgado a Porches, em igualdade de circunstâncias com o de Silves, que era, por sua vez, um decalque do que fora atribuído a Lisboa. O foral dionisíaco tem vários pormenores dignos de relevo, que não vou aqui escalpelizar, até porque a Doutora Maria de Fátima Botão, já escreveu um exaustivo trabalho sobre este assunto.

Não obstante, é bem certo que todas essas prerrogativas, regalias e benefícios concedidos no Foral, dão uma justa proporção da importância militar do castelo de Porches no século XIV. Não sei se nos seus trâmites correspondia à realidade militar então ali vigente, porque se tratava de um documento modelo usado noutras praças militares. Em todo o caso, parece-me que a vila de Porches foi no século XIV um importante posto de defesa militar da costa algarvia, conforme se atesta na confirmação desses privilégios concedida por D. Pedro I, em 1357. (2)
A esmagadora maioria dos privilégios concedidos no foral são de carácter militar, razão pela qual se infere a sua importância estratégica na protecção do litoral algarvio contra as incursões dos piratas e salteadores marroquinos.
De entre as regalias concedidas aos habitantes e militares de Porches, há uma particularidade que importa ressaltar, por dizer respeito às mulheres, que é a seguinte: «a mulher do soldado que enviúve tenha as honras de soldado até que se case, e se requerer conceda-se-lhe o foro do que requerer (…) Se porém a mulher do soldado, estando viúva, tiver um filho tal que, vivendo com ela em casa, possa cavalgar faça-o pela mãe…». (3)
Vemos, assim, que as viúvas dos soldados não ficavam na miséria, e que se quisessem voltar a casar tinham direito de manter as honras e privilégios do foro militar, obrigando-se, porém, a conduzir o filho varão para a vida castrense. É raro neste tipo de documentos dar-se destaque e protecção às mulheres, mas como se tratava de Porches, um porto marítimo, uma praça militar, alvo dos ataques corsários, situada em local extremado, é lógico que havia que manter-lhe a população para que não lhe desertassem os meios de sobrevivência social e económica.
Praia do Carvoeiro e a ermida de Nª Sª da Rocha
Já que falei nos privilégios militares contidos no foral de Porches, repare-se neste sobre a protecção do soldado que se incapacita por ferimento ou velhice: «O soldado que se enfraqueça ou de tal modo se debilite, que se não possa incorporar no exército, conserve-se-lhe as honras de soldado». Isto quer dizer que todo o soldado que for abatido ao efectivo tinha direito a manter o seu soldo e as suas dignidades militares. Para mim o mais notável de todos os privilégios concedidos pelo rei poeta, é este: «Os soldados de Porches ocupem a vanguarda do exército do rei». Tratava-se de uma honra distintíssima, uma prerrogativa militar pela qual se batiam as principais praças fortes do nosso país.
É claro que de tudo isto já só resta a memória do passado, porque do velho «Castrum» de Porches apenas ficou o documento da doação de D. Afonso III, em 1250, ao seu chanceler, logo após a anexação do Algarve. E o antigo foral dionisíaco, que nos permite avaliar a importância daquela praça forte, de que hoje já não existe testemunho material, a não ser a designação de "Porches Velho" dada pelo povo a um local próximo da praia do Carvoeiro, hoje conhecido por Nossa Senhora da Rocha. Mas isso são velhas lendas, outras dúvidas, mistérios e interrogações, para cuja discussão não será este o melhor palco.
_________________________
(1) ANTT, Chancelaria de D. Afonso III, Livro 1º, fl. 106.
(2) ANTT, Chancelaria de D. Pedro I, Livro 1º, fl. 21, que tem na ilharga da coluna a data de 9 de outubro, relativa aos mouros de Évora. Presumo que o reconhecimento dos privilégios do Castelo de Porches seja da mesma data, isto é, de 9 de outubro de 1357.
(3) ANTT, Chancelaria de D. Dinis, Livro 1º, fl. 173.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

João Peres publica as suas «Memórias militares no Estado Português da Índia»

O meu amigo João Peres teve a amabilidade de me oferecer, com amável dedicatória, o seu último livro «Memórias, militares no Estado Português da Índia», prefaciado por Mário Proença, numa co-edição do Núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes e do jornal «O Olhanense». Devo confessar que tenho pelo cidadão João Peres o maior apreço e consideração, não só pelas acções que tem desenvolvido em prol da sua cidade natal, como muito especialmente pelo povo de Olhão.
João Peres
O meu amigo João Peres foi um conceituado funcionário bancário até 2009, data da sua aposentação, mas foi como autarca que melhor o conheci e aprendi a admirar. Primeiro como vereador e depois como secretário executivo da Junta de Freguesia de Olhão. A seu convite participei em vários eventos e homenagens de índole histórica e cultural, quer a título individual quer como presidente da AJEA.
Manda a justiça realçar que, em todos os actos cívicos promovidos por aquela Junta, apercebi-me sempre da sua competência e do elevado zelo com que cuidada do mais ínfimo pormenor, para que tudo, no fim, corresse bem e fosse um sucesso. Pessoas com o sentido de responsabilidade do João Peres eram, nessa altura como ainda hoje, muito raras, porque em geral quem realiza e produz deixa-se seduzir pela ambição, que suscita a luz da vaidade. Nunca o João Peres se aproximava dos lustres da ribalta, para chamar a si a vã glória do sucesso ou do poder. A sua principal característica era a forma humilde, tímida até, como declinava os elogios que lhe eram devidos, endossando-os sempre para a sua Gracinda, que então presidia com enorme simpatia à Junta de freguesia de Olhão.
As circunstâncias do tempo e da política, acabariam por levá-lo depois a assumir a presidência do executivo da Junta, creio que por dois mandatos, e recentemente a presidir à assembleia da freguesia de Quelfes.
Mas de todas as conversas que com ele mantive, as que mais me emocionavam eram as suas recordações de África e da fatídica guerra colonial, da qual também eu guardava nefastas lembranças, quando no Natal de 1964 recebi a notícia da morte do meu irmão Álvaro Manuel Vilhena Mesquita, caído em combate na Guiné.
O João Peres é o exemplo do bom e modesto português, que apesar de todas as circunstâncias, nunca se arrependeu nem algum dia deixou de se orgulhar de ter defendido a Pátria na guerra colonial. Para defesa da honra e dignidade de todos os que a seu lado defenderam a nação lusíada, escreveu vários artigos na imprensa regional, nomeadamente no jornal «O Olhanense», elogiando aqueles que preservaram o nome e a glória de Portugal em África. E quando já quase nos íamos esquecendo dos que nas antigas colónias zelaram pela soberania nacional, o amigo João Peres bradava alto e com orgulho, que muitos dos seus camaradas haviam regressado à pátria diminuídos na sua integridade física, moral e psíquica. E foi com lucidez e coragem, que reivindicou o título de heróis nacionais para todos os soldados portugueses (brancos, negros e mestiços), que no capim da savana derramaram o próprio sangue, quando não perderam, na flor da idade, a sua própria vida.
Por causa dessa intransigente defesa dos valores, que enformam a pátria portuguesa, é que o João Peres foi eleito presidente do núcleo de Olhão da Liga dos Combatentes. Actualmente preside à Mesa da Assembleia-Geral, continuando a desenvolver acções de grande merecimento público, nos domínios da cultura e da acção social.
Para todos os que se interessam pela história da guerra colonial, lembro que o meu amigo João Peres já publicou outros trabalhos de grande interesse, nomeadamente «Retratos» em 2012, e «Memórias – Olhanenses na guerra do Ultramar», em 2013. Em 2016, complementou os trabalhos anteriores num livro de maior fôlego e abrangência intitulado «Memórias – combatentes na guerra do Ultramar», no qual analisa e descreve a vida, o sofrimento e sacrifício de alguns heróis que a seu lado combateram em África.
Este livro, que por amável deferência me ofereceu, narra com grande realismo as circunstâncias em que sobreviviam, com indizíveis dificuldades, as nossas forças militares nos antigos estados da Índia Portuguesa. A sua leitura é de um interesse fundamental, sobretudo para quem pretenda conhecer, ao pormenor, a bravura e a conduta heroica desenvolvida pelos soldados e oficiais algarvios nas antigas possessões do oriente. Neste livro relatam-se os sacrifícios e privações, o sofrimento e a saudade, a coragem e a valentia com que desempenharam as suas missões; mas também os momentos de lazer, os folguedos e tropelias, o bom humor com que tentavam dissipar a saudade e o temor da morte. Nele se descreve a acção militar, mas também o trajecto de vida de 27 jovens militares algarvios, que o João Peres resgatou do injusto esquecimento, a que todos nós votamos, aqueles que heroicamente defenderam a honra e glória de Portugal, na longínqua Goa, em Damão, Pequeno e Grande, e na mítica cidade de Diu.
Uma última palavra para as centenas de fotografias que ilustram este livro, muitas das quais são verdadeiros documentos para a história da nossa guerra no oriente.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

A origem da palavra Alfarrabista


Livraria Chaminé da Mota, conhecido alfarrabista do Porto
Numa das minhas aulas, referi-me, já não me lembro bem a que propósito, aos alfarrabistas como antiquários do livro, em cujas lojas se podem encontrar verdadeiras preciosidades, autênticos tesouros da nossa cultura e da nossa história. E aconselhei os jovens a procurarem nos alfarrabistas, não só os livros antigos e raros, mas também todo e qualquer livro que se encontre esgotado no mercado.
Um dos alunos, brasileiro de origem, com toda a franqueza e lealdade, perguntou-me o que significava alfarrabista, visto que no seu país chamam “Sebos” às lojas onde se vendem ou trocam livros usados. Parece que essa designação, “Sebo”, que aos nossos ouvidos é tão desagradável, procede do suposto manuseio dos livros, que pelo seu uso ficam "sebentos", isto é, engordurados pelas mãos dos seus leitores. É uma designação popular, mais natural e, vamos lá, mais realista, do que a nossa erudita nomeação de alfarrabista. Desta palavra descende também o vocábulo “alfarrábio”, que usamos muito para designar um livro grande, volumoso e, especialmente, um livro antigo. Daí pensar-se que dela deriva a denominação de alfarrabista, como local de venda de livros antigos (alfarrábios). Ora, é ao contrário, isto é, deriva da segunda a primeira, cujas origens se perdem lá para as bandas do Cáucaso, numa pequena cidade chamada Farab, nas imediações do mar Cáspio, presumo que situada no actual Turquestão, que na altura, século IX e X, estava ocupado por uma mescla de tribos e povos nómadas, que hoje designamos genericamente por turcomanos.
Na verdade, foi nessa cidade de Farab que nasceu, por volta de 850, um sábio árabe chamado Ibne Muhammad Tarkan, que por ter ali o seu berço começou a ser nomeado simplesmente como Ibne Farabi, em homenagem à sua terra natal, visto que traduzido à letra significa “filho de Farab”. E o mais curioso é que passou a ser desse modo invocado na cultura árabe, sem que alguém se preocupasse, nos séculos seguintes, com o seu verdadeiro nome, que, já agora, para esclarecimento público, se escrevia assim: Abn Nasr Muhammad ben Muhammad ben Tarkan al Farabi. Os seus mais directos discípulos chamavam-lhe Ibne Tarkan, nome que hoje se perdeu completamente, sendo invocado apenas como “Alfarabi”.
Livraria Castro e Silva, conhecido alfarrabista de Lisboa
Em boa verdade, Alfarabi é ainda hoje considerado como um dos maiores filósofos da civilização muçulmana, do qual descendem numerosos discípulos igualmente famosos, de entre os quais destaco a figura de Avicena, que teve um papel preponderante no mundo hebraico e na cultura ocidental. Mas, estava eu a dizer que Alfarabi era uma autoridade em várias áreas da cultura islâmica, sobretudo em leis e ética, tendo traduzido, e comentado, a Metafísica de Aristóteles, assim como A República e As Leias, de Platão. Como filósofo, mas também, como teólogo, escreveu vários tratados de grande fôlego e sólida erudição, tendo como desiderato a criação de um regime político perfeito, com base na República de Platão, adaptada ao Corão. É claro que não conseguiu porque, em muitos casos, incorria em perigosas heresias. O próprio Avicena, baseando-se nos comentários de Alfarabi, sobre a Metafísica de Aristóteles, tentou criar a escolástica islâmica, com escasso êxito, diga-se, tornando-se num fiel seguidor do mestre grego.
Tudo isto veio a propósito da tentativa de explicar a origem da palavra alfarrabista. Pois bem, acho que já se percebeu que é do nome da cidade de Farab e do sábio dali natural, autor de grandes e volumosos tratados usados nas escolas e universidades islâmicas, que por serem da autoria de Alfarabi passaram a designar-se por alfarrábios. Os colecionadores desses velhos livros passaram a ser conhecidos por alfarrabistas, e como muitos deles os vendessem a outros estudiosos da cultura helénica e até do mundo hebraico – não esqueçamos que os judeus tinham fama de grandes comerciantes de livros raros, transacionando a cultura europeia com a ciência oriental - fazendo do mar mediterrâneo uma feira de relações mercantis com as mais variadas civilizações. Surgiu então a designação de alfarrabista, não para os colecionadores de livros raros, mas especificamente para os comerciantes das preciosidades bibliográficas, como por exemplo mapas, gravuras, manuscritos e objectos de arte relacionados com a escrita e o livro, como por exemplo bustos e retratos de Aristóteles, Platão, Avicena, Averróis e outros sábios. É, porém, importante não confundir os antiquários livreiros, vulgarmente designados por alfarrabistas, com lojas de velharias, de bric-à-brac ou de antiguidades, onde por ventura também podem existir, num amontoado de coisas antigas e curiosas, alguns livros.
Tarcísio Trindade, fundador da célebre «Livraria Campos Trindade», 
que descobriu, em 1965, o mais antigo livro português impresso em
Portugal, o Tratado de Confisson, revolucionando a História do Livro
Portanto, que fique bem claro – um alfarrabista é um comerciante de livros usados, antigos e raros, onde se vendem fundamentalmente peças bibliográficas, a par de outras, igualmente invulgares, como mapas, gravuras e outros objectos relacionados com a escrita e a leitura. No entanto, convém ressalvar que existem alguns alfarrabistas no nosso país, que são antiquários livreiros, pelo facto de serem muito exigentes na antiguidade, na qualidade e, sobretudo, na raridade das peças bibliográficas, nos manuscritos e peças de arte que colocam à venda, para servir não só o público erudito, como também os mais exigentes colecionadores espaçlhados por esse mundo fora.
Neste último sentido, merecem particular realce alguns alfarrabistas de reputação nacional, estabelecidos em diversas cidades do nosso país, nomeadamente a «Livraria Académica», o «Chaminé da Mota» e a «Livraria Manuel Ferreira» no Porto; a «Livraria Campos Trindade», do erudito Tarcísio Trindade (1931-2011), a «Livraria Histórica e Ultramarina», fundada pelo bibliófilo José Maria da Costa e Silva [Almarjão] (1920-2008), a «Livraria Castro e Silva», o alfarrabista «Telles da Sylva», e o «Mundo do Livro», todos em Lisboa; a «Livraria Fernando Santos», em Braga, e a «Livraria Miguel de Carvalho», em Coimbra, que julgo terem sido os melhores livreiros antiquários do nosso país. Em Faro, temos a «Livraria Simões» que é o único alfarrabista no Algarve, a quem rendo as minhas homenagens pelo estoicismo com que tem resistido a todas as adversidades.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Manuel da Fonseca e a máfia dos literatos balofos

A última entrevista que o escritor Manuel da Fonseca deu à imprensa - por acaso um órgão de referência, «O Expresso» -, publicou-se a 20-03-1993, como derradeira homenagem á sua obra literária, visto que falecera nove dias antes da mesma sair a público.
Considero essa informal conversa, ao semanário Expresso, como um documento autobiográfico, muito útil para a compreensão da sua vida e obra. O escritor Manuel da Fonseca sempre foi um homem sem medo, que por isso sempre se colocou na margem esquerda da vida. E como à data da entrevista já tinha 81 anos de idade, sentia que o fim estava para breve. Daí que não cuidasse das palavras, a ponto de esconder a verdade, nua e crua, como sempre acontece com os nossos escritores, à excepção do Lobo Antunes, que esse nunca as poupou a ninguém.
Manuel da Fonseca, anos setenta, no Algarve
Manuel da Fonseca, anos setenta, no Algarve
Só para dar um exemplo do teor da entrevista, aqui vos deixo um breve trecho, que constitui a sua resposta à pergunta: «E como se movimenta nos meios literários?»
A resposta é lapidar. Disse o que pensava, e com absoluta sinceridade, sem medo da máfia de escritores desprovida de talento e génio, que de braço dado com a crítica acéfala, domina as editoras, os média e até o próprio ministério da Educação.
Ouçam bem as palavras de Manuel da Fonseca, e vejam lá se, nestes 27 anos que se seguiram, alguma coisa mudou:
Festa da Amizade, Santiago do Cacem, em 1981
«Muito mal. É uma jogada fina. Dizes bem de mim que eu digo bem de ti, nós é que somos bons. É um mundo com muita hipocrisia. Eu não frequento os meios literários, sou muito malcriado, porque digo logo o que sinto. Aliás nisso sou como o Lobo Antunes. Hoje há uma intelectualidade balofa, uma vaidade de calça de ganga: grandes parangonas nos jornais, deste e daquele escritor, mas tudo é efémero, nada vai ficar - como a rosa daquele poeta francês
É por causa disso que vemos para aí uns tordos armados em escritores, cujo sucesso literário não se justifica no talento das suas obras, mas antes nos aventais que vestem em segredo, uns atrás dos outros, nos templos das colunas murchas.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Caracterização dos serrenhos algarvios e retrato psicológico do Remexido


Retrato de D. Miguel como Rei de
Portugal e dos Algarves
No período de acendimento das guerrilhas miguelistas, que decorreu com particular acuidade entre 1836 e 1838, precisamente no período da governação Setembrista, o povo algarvio costumava dizer que esses haviam sido os “anos do barulho”, durante os quais “se abateram palácios e se ergueram monturos”. Queriam com isto dizer, que nesses anos de acesa contestação armada, pelas tropas rebeldes que sustentavam a causa absolutista, arruinaram-se muitas das mais tradicionais famílias nobres, cujos bens patrimoniais foram saqueados de forma atrabiliária, em nome da revolução e das vinganças populares.
Por todo o país se assistiu às mais execráveis violências, sem respeito pelas leis dos homens nem pelos divinos mandamentos da Igreja. O povo desembolado assaltou muitas casas apalaçadas, solares antigos e nobres quintas, saqueando, incendiando e derrubando tudo, para saciar ódios insanáveis, acumulados ao longo de séculos. A velha ordem social morria às mãos da plebe. O antigo regime senhorial, transformara-se em relações de antagónicos interesses, em conflitos sem perdão, em irreconciliáveis relações sociais. A sacralidade do trono, a estanquidade social repartida em ordens, a justiça estatutária e o privilégio foram os coveiros do antigo regime absolutista.
Ainda assim, e mesmo contra a corrente do pensamento e dos ventos políticos da nova Europa, organizou-se a resistência e a contrarrevolução sob a invocação dos “inauferíveis direitos” de D. Miguel ao trono de Portugal. Organizou-se no norte transmontano uma onda de oposição armada, contra o governo e as novas instituições liberais, que teve encarniçado apoio a Sul, com particular relevo para as guerrilhas encabeçadas no Algarve pelo tristemente celebrado Remexido.
O mais conhecido retrato do Remexido
Não vou agora falar nessa problemática histórica, aliás largamente abordada por mim em obras e estudos já tornados públicos. Vou apenas transcrever aqui um pequeno trecho publicado na imprensa da época, em 1837, no qual se faz uma breve, mas muito esclarecida, caracterização dos “serrenhos algarvios”, que se juntaram ao Remexido para sustentarem a causa absolutista no Algarve. Não sendo um retrato muito favorável, é, no entanto muito realista, sobretudo no que toca à capacidade de sacrifício e de sofrimento das gentes da serra algarvia, que por tradição e ignorância associavam à causa miguelista a defesa da Igreja e das sagradas instituições religiosas. Atente-se no curioso facto das mulheres dos guerrilheiros se vestirem de luto, para esconderem a ausência dos mesmos, que, no caso de serem interrogadas pelas autoridades, davam como falecidos durante a calamitosa epidemia do cólera-mórbus, ocorrida no verão de 1833.
Ouçamos, então, a descrição do serrenho algarvio, nos precisos e inalteráveis termos usados na época:
«Os Serranos são na realidade bastante rústicos, e muito sofredores, de modo que nem a fome, nem a intempérie do tempo lhes causa grande receio. Elles professam um indizível afèrro (pela maior parte) a essas devoções, e actos religiosos a que hoje muitos appellidam de fanatismo, e a idéa de que o systema Liberal concorre (segundo lhes fazem crer) para o extermínio do Culto, é só a verdadeira causa de andarem com o Remechido.
A serra fornece-lhes o parco sustento de que usam, e as mulheres que habitam nas poucas Aldêas que são mais transitadas, por uso andam de luto, quando os maridos andam com o Remechido, e dizem a quem as pergunta, que eles morreram da cholera.
A serra póde-se dizer inexpugnável, e a não serem os naturaes ninguém alli se entende.[1]
Nesta mesma fonte, também se insere uma curiosa descrição do carácter e personalidade do próprio Remexido, que, não sendo um retrato muito original daquele célebre guerrilheiro, tem, porém, o interesse de o pintar como um homem comum, nos seus defeitos e virtudes, e não com as cores da fera, que talava a ferro e fogo a serra algarvia derramando o sangue inocente dos seus adversários, sem dó nem piedade.
Já que aqui transcrevemos os termos com que no periódico «O Telégrafo» [2] se descreveu os facinorosos serrenhos algarvios que acompanhavam o Remechido, na defesa do Trono e do Altar, porque não transcrever também os termos com que nesse periódico se traçou o perfil do seu destemido comandante e herói popular da causa miguelista? Pois bem. Aqui fica o seu retrato, esboçado sem rancor nem perfídia, revelando ao público um homem que por ter sido perseguido e acusado das maiores ignomínias, se viu privado da amnistia a que tinha direito, pegando em armas para se defender da sanha dos seus algozes:
«O Remechido é um homem de cincoenta annos, pouco mais ou menos, de mediana estatura, porém muito sagaz, e ainda mais destemido. Possue uma soffrivel casa, que hoje está estragada, mas que n'outro tempo bem satisfazia ás suas precizões. É casado, e tem duas filhas, e um filho; o qual com as lições do Pai parece que desde já o imita.
Este guerrilheiro não desconhece de todo a arte dos beligerantes, e não obstante ter apenas exercido um pequeno posto em corpos arregimentados, com que tudo combina planos, e propõe acções com muita sagacidade. Dizem-nos que na acção que o Cabreira deo em S. Bartholomeu de Missines [sic], a elle só foi devido o resultado della.
Remechido é um homem que nada inculca exteriormente, porque a sua fisionomia e talhe são bastante tristes, mas dizem os que o tem tratado, que é docil para com os amigos. Quando entra em fogo costuma vestir um capote de soldado, e pôr um bonet mui simples, e é com este traje, e sem mais divisa que corre ao logar do perigo. O seu valor é confessado pelos que o combatêram, e a viveza que nestas occasiões se lhe acha atestam o seu sangue frio.
Eis o homem que, como por encanto, tem persistido com um punhado de adherentes, ora na serra, e ora nas povoações que lhe ficam próximas, e contra o qual já alguns corpos tem tentado em vão.» [3]
__________________
[1] Extraído de «O Telégrafo», nº 5, de 21 de Outubro de 1837, pp. 66-67.
[2] Este periódico, com sede em Lisboa, publicou-se em formato de revista, a duas colunas, num tamanho muito semelhante ao do nosso actual A5; dizia-se em subtítulo como periódico noticioso, mas pelos textos publicados percebia-se que tinha uma forte inclinação miguelista, o que deve ter sido a causa próxima da sua precoce extinção, já que apenas saiu à luz do dia entre 12 e 28 de Outubro de 1837.
[3] Idem, ibidem.

sábado, 28 de dezembro de 2019

A vila de Albufeira – «Baluarte de Fidelidade» ao Liberalismo

Desenho da Guarda Nacional 
(in Picturesque Review of the
Costume of the Portuguese
, 1836)

Em 1820 foi o primeiro concelho no Algarve em que se organizou a Guarda Nacional. Convém, já agora, esclarecer que a Guarda Nacional foi instituída no nosso país em 18-3-1823, para funcionar como milícias armadas, cujo objectivo era salvaguardar o regime liberal, garantir a ordem pública e a defesa militar das pequenas localidades, em caso de ataque, numa situação de guerra.[1]
Em 1826 foi a vila de Albufeira invadida pelos Regimentos de Infantaria 14, Batalhão de Caçadores nº 4 e parte do Regimento de Artilharia nº 2, que haviam clamado D. Miguel, no intuito de obrigar a Câmara e restantes cidadãos a jurarem fidelidade à causa da usurpação. Isso fez com que dali se retirassem para Beja os vereadores, autoridades e melhores cidadãos, acompanhados pelo Coronel José de Mendonça Corte Real e pelo seu Regimento de Milícias de Lagos, que para ali se havia dirigido para defender, em vão, os direitos da Carta Constitucional.
Em 1833, após o desembarque do Duque da Terceira, os albufeirenses acorreram às casas da Câmara para jurarem e firmarem o auto de aclamação e fidelidade a D. Pedro e sua filha D. Maria II. Fizeram-no livremente, julgo que por convicção política dos seus principais cidadãos. Porém, o Remexido ao tomar conhecimento dessa aclamação, cercou e atacou a vila, saqueando-a e incendiando-a. Nesse ataque foram assassinadas várias pessoas, diz-se que às mãos do Remexido pereceram 86 dos mais ilustres cidadãos daquela vila. Na própria igreja foi assassinado, com dois tiros e onze punhaladas, o major Severino José de Sequeira Samora, que com cerca de 80 anos morreu abraçado aos seus familiares.
Durante a guerra-civil chamavam à vila de Albufeira a Gibraltar portuguesa por ali se facilitar refúgio aos constitucionais, que depois dali emigravam para o Reino Unido, e outros portos da Europa. 
Albufeira, pintura de George Landman, 1813
Os albufeirenses alistaram-se voluntariamente nas milícias que combateram e destroçaram a guerrilha do Remexido. Em retribuição desse importante gesto de patriotismo e sacrifício, D. Pedro IV enviou pessoalmente à Câmara de Albufeira uma carta, escrita pelo seu próprio punho, a agradecer os serviços prestados à sua causa, e outorgando-lhe o epiteto de «Baluarte de Fidelidade». Nessa altura, o concelho de Albufeira recebeu, para a sua administração, as freguesias de Pera e Alcantarilha.
Porém, dois anos depois, na vigência política conhecida por “Setembrismo”, tudo se alterou. A vila de Albufeira perdeu a influência que com tanto sacrifício lograra conquistar. A prova disso ficou demonstrada na remodelação do seu património administrativo. As freguesias de Pera e Alcantarilha perdeu-as para o concelho de Silves, e até a pingue aldeia de Boliqueime lhe foi retirada, para enriquecer a administração autárquica de Loulé.

[1] Percebe-se que as origens da Guarda Nacional estão directamente relacionadas com as ideias políticas que inspiraram a Revolução de 1820. Por isso, quando ocorreu a Vilafrancada, em 1823, de inspiração reacionária e absolutista, decretou-se quase de imediato a abolição da Guarda Nacional. Importa dizer que, como tropa de 2.ª linha, tinha as mesmas funções até aí exercidas pelos antigos Regimentos de Milícias do Reino. Após a guerra-civil e a reimplantação do regime liberal, a Guarda Nacional foi recriada em 1834, acabando por ser definitivamente extinta em 1847, no seguimento da guerra da Patuleia.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Prostitutas constitucionais

«A Severa», aguarela de Roque
Gameiro, no livro de Júlio Dantas

Durante o período da usurpação miguelista, que se prolongou de 1828 a 1834, as perseguições políticas tornaram-se tão comuns que o espírito quotidiano era marcadamente exclusivista e fanatizado. Os obreiros desse odioso facciosismo, vulgarmente designados por “caceteiros”, controlavam a cidade de Lisboa, quase rua a rua, interrogando os transeuntes de forma torpe e violenta sobre a sua fidelidade ao Trono e ao Altar. E na fanatização popular a Igreja, sobretudo o clero menor, desenvolveu um papel crucial, atribuindo aos liberais o epíteto de hereges e maçons, a verdadeira encarnação do anticristo.
A «Odalisca», quadro célebre de Francois Boucher
Por estranho que pareça as ideias constitucionais – leia-se espírito liberal, humanista e democrático – tinham também adeptos e apoio no seio da marginalidade sexual, no chamado bas-fond social lisboeta, especialmente nos bairros mais castiços e de maiores tradições, como por exemplo o do Castelo, Alfama, Santa Isabel, Mouraria e vários outros que o fado e a fadistagem tornaram célebres.
Embora ignorantes, arruaceiros e destemidos no manejo da sarda, pico ou naifa, que tudo quer dizer o mesmo, estes marginais, contrariamente ao que seria de esperar, recusavam submeter-se às impiedosas forças da ordem, não tanto pela sua natural insubmissão, mas principalmente por apoiarem de alma e coração os rebeldes “malhados”, epíteto com que se designavam as hostes liberais e a facção pedrista. Por sua vez a burguesia, mais instruída e progressista mas não adversa ao casticismo da fadistagem, com quem muitas vezes se misturava nos momentos de maior contestação popular, esperavam com a revolução liberal poder vir a estabelecer uma nova ordem social para combater a miséria e o obscurantismo.
«Rolla», a prostituta, célebre quadro de Henri Gervex
Como exemplo da apertada vigilância das autoridades miguelistas e dos seus fanáticos apaniguados, conhecidos popularmente por “caceteiros”, citaremos o caricato episódio, ocorrido em 1830, relativo à detenção de duas prostitutas do bairro da Mouraria acusadas de entoarem o hino constitucional. Segundo os autos de pronúncia contidos no processo judicial, aquelas duas polhas foram vistas e ouvidas à janela dos seus quartos prostibulares a trautearem o hino constitucional.[1]
Curiosamente havia-se registado um caso idêntico, também na Mouraria, mais propriamente no Paço do Benformoso, onde além da escandalosa "frescagem" também era costume circularem folhas volantes contra os inauferíveis direitos de D. Miguel ao trono de Portugal.[2]
«Prostituição», quadro de Georg Grosz
Para terminar, gostaria de acrescentar que este meu breve texto não é mais do que uma simples curiosidade, um ligeiro e despretensioso apontamento, com revelar que o liberalismo ou regime liberal (que hoje se traduz por democracia parlamentar-constitucional) tinha forte apoio popular, mesmo no seio dos excluídos sociais, o que contradiz a ideia de ter como únicos apaniguados a burguesia, possidente e intelectualizada.
A prostituição nos bairros populares de Lisboa, sobretudo na Mouraria, sempre existiu, sendo verdade que muitas inspiraram poetas consagrados, como Bocage, Tolentino de Almeida, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e tantos outros. Noutros casos, constituíram-se em personagens literárias, que ficaram candidamente retratadas em obras como «O Fado» de Bento Mântua, na «Rosa Enjeitada» de D. João da Câmara, na «Cidade do Vício» de Fialho de Almeida, no «O Primo Basílio» de Eça de Queirós, e muito especialmente em «A Severa» de Júlio Dantas, um sucesso de vendas, que passou ao teatro e depois se imortalizou como o primeiro filme sonoro da cinematografia nacional.




[1] Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Intendência Geral da Polícia, Correspondência dos Ministros dos diferentes bairros de Lisboa, Mouraria, Maço 106; [Elementos de Busca, nº 298. Relação 3 fls. 52-54 – “Relação dos Maços de Correspondência dos Ministros dos bairros da capital dirigidos ao Intendente Geral”].

[2] Cf. Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Pub. D. Quixote, 1982, p. 75.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Soneto do poeta Marcos Algarve, dedicado ao Presidente Manuel Teixeira Gomes

Quadro pintado por Columbano, existente
no Museu da Presidência da República
Quando o nosso embaixador em Londres, Manuel Teixeira Gomes - já então um reputado escritor e um intelectual muito apreciado nos mais cultos areópagos europeus - aceitou o convite de Afonso Costa, e o apoio do Partido Democrático, para assumir a presidência da República, em 5 de Outubro de 1923, o país vivia momentos de instabilidade política e de grande indecisão sobre o futuro do próprio regime. O país vivia debaixo de uma enorme insegurança, com greves constantes, com atentados terroristas à bomba nas ruas de Lisboa, levantamentos militares nos quartéis e governos que se sucediam mais rápidos do que as estações do ano. Pior do que isso eram os escândalos políticos de corrupção e de compadrio partidário, que foram desacreditando o regime.
A eleição de Manuel Teixeira Gomes, tornara-se numa réstia de esperança para a sobrevivência da República, que se unia em torno de um "príncipe árabe vestido em Londres". Não foi o último presidente, mas foi o primeiro a profetizar junto do seu Ministro da Guerra, Óscar Carmona e do seu conterrâneo Mendes Cabeçadas, que a moribunda República lhes haveria de cair nas mãos, para mergulhar numa inexorável ditadura.
Teixeira Gomes, ao lado de Afonso Costa, a
bordo do navio inglês que, por ordem de S.M.B,
 o transportou oficialmente a Lisboa

Não vou referir-me a esses factos, mas tão só a um soneto que o poeta Marcos Algarve (pseudónimo de Francisco Marques da Luz, natural de Olhão, jornalista republicano e maçom) escreveu em homenagem a Manuel Teixeira Gomes, no dia 5 de Outubro de 1923, quando este se alcandorou à mais alta magistratura da nação portuguesa.


O Presidente da República
O requintado Artista das viagens,
O Cellini da prosa facetada
O caminheiro da alma enamorada
E de olhos embebidos nas paisagens

Sobe hoje ao Capitólio das miragens
Onde a Arte soberana, enclausurada,
Chama por ele, tímida e magoada,
E pede-lhe o recorte das Imagens!...

A mão, porém, do Chefe e dos Artistas,
No mesmo impulso arrebatado e frio,
Fará que a Pátria aos vendavais resista…

Coragem!... Vão ao leme do Navio
Os glóbulos do sangue fantasista
Dum coração brioso de Algarvio!

Marcos Algarve

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Faleceu a escritora Agustina Bessa Luís, cuja obra é uma indelével referência na literatura portuguesa

Agustina com seu amigo Manuel de Oliveira

Faleceu ontem, dia 4 de Junho de 2019, a escritora Agustina Bessa Luís, cuja obra é por todos os especialistas considerada como das mais representativas da literatura portuguesa contemporânea.
A nossa imortal escritora Agustina Bessa Luís, deixou-nos aos 96 anos de idade, de forma serena, tranquila e recatada, como aliás sempre viveu e escreveu os seus romances. Sem pedir licença, sem pagar favores, e sobretudo sem se submeter aos interesses instalados, quer fossem políticos, religiosos, económicos ou sociais. Agustina foi em todas as suas atitudes uma mulher do Norte - livre, soberana e independente. E isso causava a invídia e o ciúme daqueles que para serem notícia, e verem os seus livros figurarem nas colunas dos suplementos literários, tiveram que se filiar em partidos políticos e noutras maçonarias menos recomendáveis.
Tive o prazer de a conhecer pessoalmente, quando eu era ainda muito jovem, pelo que não me apercebi concretamente da sua importância no seio da nossa literatura. Sempre achei que sendo uma mulher do Norte não deveria ser muito boa escritora, porque me habituei no sinistro tempo do Fascismo a dar mais importância ao que acontecia ou vinha de Lisboa. É curioso que, passados mais de 40 anos do «25 de Abril», nada mudou - ainda hoje o que vem, ou acontece, em Lisboa é muito mais importante e de maior relevância do que aquilo que se passa em qualquer parte do país.
A província não tem valor nenhum. Lisboa é o centro do império, e o resto é paisagem. O meu pai dizia-me que o José Régio e o Aquilino (Mestre Aquilino, como ele o tratava) tinham sido os últimos valores da província. Não imaginava que a Agustina, filha de boas famílias durienses com negócios no Porto, viesse a ser gente, com nome e impacto nacional.
Lembro-me de alguns escritores, jovens talentosos, que apareciam no café «Magestic», no Porto, a tentear caminho, receberem do meu pai este desolador conselho: "vá para Lisboa e faça-se gente".
Proferi idêntico conselho, em público, na Biblioteca de Albufeira, à escritora Luísa Monteiro, minha conterrânea a viver, como eu, no Algarve. E lembro-me de a maioria dos presentes me repreenderem por tão infeliz sugestão. A própria Luísa Monteiro não aceitou o meu alvitre, e fez mal. Se tivesse ido, acredito que, com as amizades certas, teria conseguido penetrar na corte dos literatos, e seria hoje um nome consagrado da moderna literatura portuguesa.
Como grande admirador da sua obra, guardo na memória as imagens do nosso primeiro encontro, e das suas generosas palavras, doces e maternais. Mas do que jamais me poderei esquecer é da oferta de dois livros, que ela própria autografou e escolheu para mim, por começarem pela letra M (de Mesquita), e que guardo religiosamente - os romances «O Manto» e «A Muralha». Vou agora relê-los, em homenagem às gratas recordações da sua memória. 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

João Mariano, o mago da penumbra e da imponderabilidade - na consagração de um artista algarvio de reputação nacional.

João Mariano, conceituado artista da fotografia

Venho mais uma vez à tribuna das redes sociais para falar de um algarvio, que, por mérito próprio e indubitável talento, logrou conquistar um lugar de destaque na exígua galeria do génio artístico nacional. Estou aqui, para felicitar o artista-fotógrafo, João Mariano, pela sua nomeação para os Prémios da Sociedade Portuguesa de Autores 2019, na categoria de Artes Visuais, com a exposição «Trezentos e sessenta e seis», acerca da qual publicou um belíssimo catálogo. Neste tipo de certames, o que importa é ser reconhecido, porque vencer é apenas uma questão de pormenor na escolha do júri.
Conheço de há muito o João Mariano, cuja obra artística tem sido elogiada pelos mais consagrados críticos da sua especialidade - a Fotografia, também designada como a oitava manifestação artística do Homem.
Em abono da verdade, impõe-se realçar que vincar presença, com independência e integridade moral, num mundo tão exigente e diversificado, como o da Arte, é muito difícil e ingrato, por todas as razões que dizem respeito ao confronto do talento, com a inteligência e o génio. Abstenho-me de falar, por exemplo, nos escolhos e entraves da proverbial inveja de que enferma a cultura lusíada. Num país onde se abatem as árvores para não fazerem sombra aos arbustos, é lógico que o talento de homens como João Mariano ofendem, ferem, a mesquinhez da nossa mediocridade.
A forca da morte espreita a vida do pescador
João Mariano tem feito exposições por todo o país e pelo estrangeiro, onde tem sido muito elogiado pela forma como capta o movimento do imperceptível, como evidencia o risco ou o desafio do perigo, nomeadamente dos mariscadores das pedras do velho Promontório de Sagres, face à brutalidade dos elementos naturais; como sente e transmite a leveza da solidez, até mesmo nas formas mais simples e fugazes da imperceptibilidade humana; como vislumbra a grandiosidade das coisas numa aparente frugalidade das formas; como materializa os fantasmas dos sentidos nos olores e nos sabores das coisas simples e belas da natureza. E todo o seu enorme talento consiste na capacidade de ver o invisível, ou seja, de sentir e tocar o que só o génio divisa. Essa sublime aptidão – ver e sentir o imponderável – define o intelecto de João Mariano, que aliás tem sido revelado à posteridade através de magníficos álbuns artísticos. São oito, no total, dos quais possuo dois, «Guerreiros do Mar» e «Lugares Pouco Comuns», verdadeiros monumentos da arte fotográfica, na difícil expressão do preto e branco, que não só dignificam o seu autor como um artista de eleição, como ainda exponenciam o nome do Algarve e da sua paradisíaca Aljezur no conceito e admiração do turismo à escala mundial.
Monstro do mar, captados pela objectiva do artista
Todas estas razões constituem forte motivo de orgulho para o município de Aljezur, na pessoa do meu amigo José Gonçalves, emérito vereador da cultura, e hoje presidente da edilidade, que sempre pugnou pelo prestígio da sua terra e dos seus munícipes, de entre os quais se tem distinguido os próprios pais do João Mariano. Refiro ao casal Zabel Moita e Ernesto Silva, dois artistas consagrados na difícil arte de esculpir o barro, inseridos na histórica tradição da cerâmica lusa, que deu a conhecer ao mundo os génios de Rosa Ramalho e Júlia Ramalho, José Franco, Herculano Elias, e de outros prestigiados nomes da nossa cerâmica figurativa. O Ernesto Silva, pai do João Mariano, tem uma particularidade muito especial – é um dos melhores poetas do Algarve, reconhecido e elogiado pela crítica da especialidade. Além disso, é detentor de uma memória prodigiosa, que lhe permite recordar, quase como se fosse ontem, alguns dos factos mais marcantes na história recente da vila de Aljezur. Quando vou a Aljezur passo sempre pelo seu atelier, para lhe dar um abraço, para apreciar as suas obras de arte, e, sobretudo, para o ouvir contar as histórias e tradições socioculturais das sacrificadas gentes de Aljezur, tão genialmente narradas pelo escritor algarvio Assis Esperança na sua obra imortal «Pão Incerto».
O apanhador de perceves diluído nas águas do mar
Para terminar, quero expressar aqui o meu regozijo por ver reconhecida pela SPA - Sociedade Portuguesa de Autores, a obra artística de João Mariano, cujo sucesso tem contribuído para o reconhecimento de Aljezur e da Costa Vicentina, como um dos últimos paraísos ambientais da Europa, com forte implicação no desenvolvimento turístico do Algarve e do nosso país.
Quando penso em Domingos Alvão, em Artur Pastor, em Eduardo Gageiro, em Mário Caldeira, ou em Zambrano Gomez - que fotografou a alma do povo algarvio (a pesca) – fico esperançado no futuro da arte fotográfica, e particularmente orgulhoso pelo reconhecimento da obra de João Mariano no contexto nacional.
© José Carlos Vilhena Mesquita

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Cartaz Turístico da aldeia de CACHOPO

Este deve ser o mais antigo documento turístico de Cachopo

A antiga comissão municipal de Turismo da cidade de Tavira, constituída por cidadãos locupletados entre os mais ilustres da sociedade local, mandaram imprimir na Tipografia Modelo, a 14-2-1953, um cartaz de propaganda das belezas naturais e turísticas da aldeia de Cachopo, perdida nos recônditos da serra do Caldeirão. O cartaz é simples, mas não é destituído de bom gosto. Tem as dimensões de 45x35cm, emoldurado a vermelho com cinco gravuras impressas a azul e uma belíssima quadra de Virgínio Pires, um dos mais talentosos poetas algarvios, que, tal como a belíssima aldeia de Cachopo, está hoje injustamente esquecido e ignorado. A quadra, ao jeito popular, personifica a aldeia que se dirige ao visitante, revelando-lhe as características revivificantes do seu o ar puro e das águas férreas das suas fontes:

Vivo encravada na serra,
Tenho a pureza do ar,
E a água férrea nas fontes
Noite e dia a murmurar.

Termina o apelativo cartaz com a promessa de levar àquele povo o progresso da rede telefónica, isto é, de quebrar o seu isolamento e de o colocar em contacto com o mundo. Está aqui bem expressa a importância das telecomunicações, que justificam a nossa civilização global. Deixo-vos a imagem desse curioso cartaz, que encontrei no meio de alguns dos meus velhos papéis.