domingo, 18 de julho de 2010

PERIER, Brites Pais de Mendonça d’Ayet du



Uma das mais distintas figuras da sociedade farense do seu tempo. Mulher ilustrada e de nobres origens, faleceu em Albufeira, com 78 anos de idade, a 21-12-1928. Viveu no Algarve uma grande parte da sua vida por razões de saúde, visto que sofria de uma pertinaz doença que a perseguiu e torturou durante quase toda a sua longa existência.
Imponente e impressionante dama, que marcava posição em qualquer roda de amigos pela sua relampejante inteligência e sólida cultura, refinada educação, boas maneiras, coração magnânimo de filantropia e benemerência, dotes que herdou das famílias nobres de que era originária. Com efeito, D. Brites du Perier descendia em linha recta dos Barões du Perier, nobres da mais pura linhagem, senhores feudais das ilhas de Hiéres. Era tia-avó de D. Branca d’Ayet de Senna Cabral, de D. Maria Francisca Leotte d’Ayet du Perier e de Luiz Carlos Leotte de Mendonça d’Ayet du Perier, residentes no Porto, mais precisamente na Foz do Douro, e ainda de Casimiro de Mascarenhas Leotte, que se havia fixado em Lisboa.

PASSOS, Maria Joaquina Dias


Era natural de São Brás de Alportel, onde faleceu com 69 anos de idade em 27-12-1921, ao tempo viúva de Bernardo Rodrigues de Passos, um dos comerciantes mais honrados e inteligentes daquela progressiva vila industrial. Era mãe extremosa, mas também muito ciosa da educação dos seus filhos, nomeadamente do poeta Bernardo de Passo e o escritor Boaventura Passos. As suas filhas, de entre as quais se destacava a escultora Rosalina de Passos, casaram-se com Virgílio de Passos, Francisco Romão Carvalho e António Passos Chaves, dos quais era sogra. Era tia do jornalista e escritor José Dias Sancho.
As suas notáveis qualidades humanas evidenciavam-se na forma como tratava os mais desafortunados, nos quais inclusivamente delegou a incumbência de transportarem a sua urna durante um dos mais concorridos funerais daquele tempo, que por sua determinação não teve qualquer pompa nem circunstância.
O seu filho Bernardo de Passos, com quem vivia grande parte do ano, ficou completamente destroçado, não aguentando por muito tempo tão dolorosa separação.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

PALMA, Maria Mendonça Coelho


Senhora da primeira sociedade farense, faleceu, após prolongada doença, a 30-1-1937, com apenas 45 anos de idade.
Foi a primeira esposa do Dr. Joaquim Rita da Palma, um dos principais advogados de Faro; era sobrinha do Dr. José Francisco de Paula Mendonça, chefe da secretaria judicial de Faro; e mãe de D. Marília Mendonça Coelho Palma.
Ficou sepultada no cemitério de Estoi.
Na altura do seu falecimento estava em construção a magnífica vivenda situada na rua Justino Cúmano e que tem o nome de “Vivenda Marília”, que é uma das mais bonitas de Faro.

PALERMO, Maria Lizarda


Benemérita local, nasceu em Moncarapacho, onde viveu até à morte ocorrida em meados de Fevereiro de 1953, quando tinha 52 anos de idade. Era filha de José Luís Palermo, um dos mais abastados proprietários da região, que havia falecido poucos meses antes.
Na altura do seu precoce falecimento encontrava-se órfã e sem descendentes, pois que por razões de desvelo familiar dedicara-se inteiramente aos pais, descurando em absoluto a possibilidade de se casar. É certo que ao tempo não havia grande escolha de pretendentes, pois que seus meios de fortuna eram bastante significativos, receando os seus progenitores um casamento desigual e meramente por interesses económicos. Ficou, por isso, solteira, muito agarrada aos pais e amiga da Igreja.
Não admira que no leito de morte legasse quase toda a sua notável fortuna à Santa Casa da Misericórdia de Moncarapacho, que a partir daí passou a ter um invejável rendimento anual. Também alguns amigos e sobretudo os pobres da aldeias receberam à sua morte largas esmolas.
Maria Lizarda Palermo foi uma senhora de rara bondade, extremamente esmoler e piedosa para com os mais desfavorecidos, sendo por isso uma benemérita local que o povo de Moncarapacho jamais poderá esquecer.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ORTIGÃO Peres, Mariana Ramalho



Nasceu em Faro e faleceu em Lisboa, a 25-7-1933, com 85 anos de idade. Era filha do advogado e notável político farense Dr. José Macedo de Ramalho Ortigão e de D. Tereza Augusta de Abreu Reis Duarte Ortigão, senhora da maior notoriedade na sociedade farense pela sua generosidade e filantropia, educadora e protectora dos desvalidos, razão pela qual tem o seu nome gravado numa das artérias do burgo. Deste ilustre e nobre casal nasceram onze filhos, sendo D. Mariana a segunda dessa ilustre prole, cuja bondade e natural generosidade deixou indeléveis marcas na memória dos mais desfavorecidos.
Foi casada, e estava viúva à data do seu passamento, com João Gomes Domingos Peres, figura notável de honestidade e competência profissional, que durante largos anos desempenhou as funções de Tesoureiro de Finanças na cidade de Silves. Como possuía avultados bens em Alcantarilha, fixou a sua residência naquela ridente freguesia do barlavento algarvio.
Era mãe de Ildefonso Ortigão Peres, António Ortigão Peres e do, então já falecido, coronel João Ortigão Peres, que foi adido militar na legação de Portugal em Paris.

ORTIGÃO, Maria del Carmen Roldan Ramalho



Ilustre senhora da melhor sociedade algarvia, natural de Faro, onde também faleceu a 13-7-1948, com 88 anos de idade.
Dotada das mais preclaras virtudes e de uma ilustrada educação moral e intelectual, dedicou grande parte da sua vida às obras pias, nomeadamente à Obra de Protecção às Raparigas, para a qual canalizou avultadas esmolas. O seu espírito afável e bondoso tornou-se num modelo a imitar na sociedade do seu tempo.
Era a viúva do general José de Abreu Macedo Ortigão, que foi uma das mais prestigiadas figuras do Algarve. Foi mãe do Dr. Miguel Roldan Ramalho Ortigão, que foi antigo Governador Civil do Distrito de Faro e sogra de D. Maria Amélia Ramalho Ortigão, também uma das mais notáveis damas da sociedade do seu tempo. Era avó de D. Maria Manuela, D. Maria Tereza, D. Maria Dora Ramalho Ortigão, e do Dr. Henrique José Ramalho Ortigão, que foi delegado procurador da República junto do Tribunal da Execução das Penas de Lisboa.
Era irmã do então já falecido eng.º Manuel Roldan y Pego e tia das Sr.as D. Maria Izabel Bravo Roldan de Ramires, casada com o eng.º Sebastião Ramires que foi deputado pelo Algarve; e D. Valentina Bravo Roldan Dourado, casada com Jaime Dourado.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

NOGUEIRA, Maria da Conceição Corte-Real Moniz


Senhora das mais fidalgas origens e da elite farense, nasceu em 1914 em Vila Nova de Portimão e faleceu em Faro, onde residia, a 31-12-1953, com apenas 39 anos de idade. Era enteada de D. Maria Luísa Leote do Rego Mendonça Corte-Real e filha do, então já falecido, médico Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que foi uma das figuras de maior relevo na sociedade algarvio nos finais de Oitocentos.
Foi esposa amantíssima do ilustre médico e publicista Dr. João Moniz Nogueira, na altura director da Casa de Saúde, da Aliança Francesa e presidente da Direcção Diocesana da Liga Católica.
Pelas suas qualidades humanas e diamantino carácter desfrutava de grande estima no seio da sociedade farense, sendo presença constante junto das famílias mais carenciadas, levando ajuda material e uma palavra de conforto aos doentes e idosos. As crianças desvalidas, que sobreviviam em lastimável pobreza, eram também objecto da sua extremosa caridade. Pelo seu bondosíssimo coração fazia parte de várias instituições de caridade, de benemerência social e pertencia á direcção da Acção Católica em Faro.
Deixou dois filhos, ainda crianças, que não se conformavam com tão precoce desenlace.
A notícia do seu falecimento deixou a cidade em estado de choque, a ponto de várias festas e bailes de passagem de ano terem sido canceladas em sinal de luto e em respeito à sua memória. O seu funeral, realizado no dia 1 de Janeiro foi uma manifestação do mais sentido pesar, com a presença de centenas de pessoas oriundas de quase todo o Algarve. Por sua determinação ficou soterrada em campa rasa, como símbolo da sua humildade e desdouro pelas glórias terrenas.
Era irmã de D. Francisca Castel-Branco de Mendonça Corte-Real Costa de Azevedo e de Francisco Castel Branco Corte-Real, que foi um dos mais abastados proprietários da cidade de Lagos; era cunhada do major Josino Francisco Costa de Azevedo, que foi professor do Colégio Militar de Lisboa; de Lucília Amália Libreiro de Mascarenhas Corte-Real; e de Joaquim Pedro da Silva Negrão, rico proprietário em Lagos.

domingo, 13 de junho de 2010

NOBRE, Adelina Dias Sancho


Ilustre senhora da melhor sociedade farense, esposa do conceituado médico Dr. João da Silva Nobre, republicano e democrata convicto, figura de proa da intelectualidade local, a quem a cidade erigiu nos anos oitenta um monumento mesmo defronte da sua residência.
Nasceu em S. Brás de Alportel e faleceu, de doença prolongada, em Faro a 16-1-1954, com 72 anos de idade. Era irmã do famoso poeta José Dias Sancho falecido tão prematuramente, quando ainda muito havia para esperar do seu invejável talento de escritor e jornalista.
Tinha uma esmerada educação, com natural propensão para a música e para as belas artes. Possuía um coração bondosíssimo, pelo que era muito querida dos pobres, que no consultório do marido recebiam não só esmolas como também os maiores cuidados médicos.
Teve quatro filhos: Júlia, Maria Espiritinova, Roberto e João. Os dois filhos tiveram carreiras notáveis em Lisboa, onde gozaram de certa celebridade. Com efeito, Roberto Nobre foi um conhecido cineasta, autor de numerosos livros sobre a 7.ª arte, cuja obra foi largamente enaltecida na vila de S. Brás de Alportel, onde aliás se comemorou recentemente o 1.º centenário do seu nascimento. O outro filho foi o notável compositor musical João Nobre, cuja obra ainda hoje merece os maiores encómios nos meios da especialidade.
Apesar do seu recato de esposa e de mãe, Adelina Dias Nobre sempre se disponibilizou para colaborar com as instituições de beneficência local, merecendo por isso os mais rasgados elogios dos seus concidadãos que sentiram enorme desgosto com a sua morte.

NEVES, Maria Dorotea de Aragão Rebelo


Oriunda das melhores famílias da velha fidalguia algarvia, nasceu em Loulé e faleceu na cidade do Porto, em casa de seus netos, no mês de Agosto de 1946, com 93 anos de idade.
Bondosíssima senhora, muito inteligente e culta, dotada das melhores qualidades humanas e cristãs, era na altura viúva do escrivão-notário em Faro, António Pedro Carrajola Travassos Neves, de quem teve os seguintes filhos: D. Beatriz Rebelo Neves Ayala, viúva do capitão-de-fragata Bernardo Diniz Ayala; e António Maria Rebelo Neves, conhecido maestro e professor do Liceu João de Deus em Faro.
Era tia de D. Maria Luiza de Albuquerque Rebelo; do capitão Luís Filipe de Albuquerque Rebelo, que foi comandante da escola regional de graduados da Mocidade Portuguesa no Algarve; e do Dr. Francisco de Albuquerque Rebelo, que foi Juiz de direito em Vila Real de St.º António.
Anos antes de falecer foi viver para a cidade Invicta na residência de sua neta, D. Maria Cristina de Ayala Portocarrero, casada com Luís Correia de Sá Portocarrero, gerente naquela cidade da empresa petrolífera Shell.

sábado, 12 de junho de 2010

NEGRÃO, Maria da Apresentação



Professora primária, natural de Lagos, faleceu em Portimão a 11-5-1948, com 86 anos de idade.
Era considerada como uma das mais importantes pedagogas do país, não só pelos seus dotes de inteligência e vocação profissional, como ainda pelo facto de ser uma das mais apetrechadas cientificamente para o exercício do múnus educativo, pois que era diplomada com o curso complementar da Escola Normal de Lisboa. Aliás, no Algarve e no seu tempo, era uma das raras professoras habilitadas com aquele curso, depois considerado de âmbito superior.
Dedicou-se toda a vida à causa do ensino, com extrema competência e muita ternura, sem excessivos rigores coactivos que desmotivassem ou atemorizassem os seus alunos. Durante 65 anos leccionou na cidade de Portimão e por mais do que uma vez recusou transferir-se para Lisboa, onde poderia beneficiar de melhores condições de trabalho, outros níveis de ensino e mais acentuados rendimentos financeiros. Em compensação do seu esforço e dedicação profissional recebeu, por mais de uma vez, provas do grande apreço que os portimonenses lhe dedicavam, prestando-lhe merecidas homenagens públicas de simpatia e reconhecimento.
Pode bem dizer-se que pelas suas delicadas mãos maternais passaram sucessivas gerações que lhe ficaram gratas e que nunca a esqueceram. As figuras mais notáveis de Portimão, sobretudo as que mais se distinguiam fora do Algarve, costumavam afirmar que o barro da sua inteligência foi a Prof.ª Maria Negrão quem primeiro o moldou em forma de personalidade e cavalheirismo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Rubio Zamorano, um revolucionário tragicamente assassinado no Algarve



Figura muito curiosa e, até certo ponto, misteriosa, que passou pelo Algarve de uma forma aventureira, ao espírito do romantismo oitocentista, mas que acabou aqui os seus dias de maneira trágica e violenta.
Na verdade, há figuras de que pouco se sabe hoje, mas que merecem ser ressarcidas do olvido pelo trajecto de vida que, no passado, consagraram ao Algarve. Por isso me lembrei hoje de trazer a terreiro a figura de José Florêncio Rubyo y Zamorano, súbdito espanhol, nascido em 1847 em Aiamonte, que ainda jovem se deixou influenciar por ideias revolucionárias, inspiradas no ideário republicano e no radicalismo anarquista. Embora pouco se saiba sobre as suas actividades políticas parece que andou envolvido nas organizações revolucionárias afectas à I Internacional, que incitaram à formação das “comissiones obreras” e à fundação da A.I.T., que congregaria as lutas os trabalhadores rurais andaluzes. Foram os anos da monarquia amadeísta, do rei Amadeu I, que entre 1868 e 1873 viveu tempos difíceis, sobretudo após a morte do general Prim nos finais de 1870, que desembocaram na implantação da I República em 1873, de efémera duração.
Ao que parece o jovem Florêncio Zamorano era adepto de uma solução republicana federalista para a Espanha, participando em acções revolucionárias em Huelva, Jaen e Cadiz. Todavia, parece que a partir de certa altura esteve também envolvido no projecto de cantonização da Andaluzia, à semelhança do que passava na Suiça, a qual passaria a repartir-se entre a Alta e a Baixa Andaluzia. Aos vinte e cinco anos de idade estaria ao serviço da Marinha, como cabo de artilharia numa fragata da Armada denominada «Numância», sendo por isso instigado pela Maçonaria Andaluza, à qual julgo que também pertenceu, a sublevar a guarnição e tomar a embarcação. Com efeito, em 1872 o jovem cabo Zamorano de uma forma corajosa e imprevista tomou de assalto a cabine do comandante e, qual pirata dos tempos modernos, levou a fragata até ao porto de Cadiz onde desembarcou a oficialidade sob prisão, partindo de seguida ao encontro dos revolucionários que conseguiram tomar o governo, depor o rei Amadeu I e instaurar a República.
Talvez porque o novo regime durou o tempo das “Rosas de Malherbe” e a “caça às bruxas” se iniciasse logo de seguida, o jovem cabo Zamorano procurou refúgio na orla costeira gaditana, até poder embarcar nuns galeões que vinham trabalhar nas armações da sardinha e do atum perto da Isla Higuerita ou Cristina, em águas fronteiras da Andaluzia com o Algarve, para onde na primeira oportunidade se escapuliu. Veio pois refugiar-se, em data que desconheço, mas que aponto próxima de 1874 ou 1875, na vila pombalina e próspero mercado sardinheiro, de Vila Real de Santo António, onde para além da acomodação também lograria estabelecer-se com uma loja de bebidas (venda de vinhos a retalho), através da qual alcançaria razoáveis proventos financeiros. Tempos depois casou-se com uma senhora do trato mercantil local, de quem, todavia, não teve filhos, nem com eles viviam descendentes até ao quarto grau de parentesco.[1]
Por razões que desconhecemos, mas que parecem ter como móbil fundamentações políticas, o infeliz do D. José Florêncio Rubio y Zamorano, quando no dia 10 de Janeiro de 1888, se dirigia na estrada de Moncarapacho para a Fuzeta a fim de comprar algumas pipas de vinho para o seu tráfico comercial, foi violentamente espancado por dois seus compatriotas que o deixaram praticamente sem vida. Dado o alarme foram os agressores capturados em flagrante delito e remetidos a ferros para a cadeia de Tavira. O coitado do Florêncio Zamorano foi ainda socorrido com vida e remetido para o hospital daquela cidade onde expiraria no dia seguinte. A competente autópsia realizada pelos médicos António Teixeira, Marcelino Peres e Joaquim Trindade, revelaria escoriações múltiplas e várias lesões internas dos órgãos vitrais de que resultaram hemorragias fatais. Parece que a intenção dos agressores não era a de roubar, mas tão só a de assassinar a vítima, daí o uso de tão bárbara violência. Especulou-se na altura que por detrás do crime estariam causas passionais, mas também se disse que tudo resultou de uma vingança de origem política, trazida do seu passado revolucionário em Espanha.

[1] Pelo menos é essa a inferência que se pode extrair do «Edital», que por seu falecimento foi mandado publicar em 3 de Janeiro de 1888 pelo Vice Cônsul de Espanha, José Mirabent y Pascual, o qual seria afixado em língua castelhana nos locais públicos, e assim anunciado oficialmente na imprensa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

MEALHA, Maria Mendonça


Benemérita local, nasceu em Loulé em 1852 e faleceu com 92 anos naquela vila em 5-11-1944. Foi uma senhora da primeira sociedade algarvia, mercê os seus elevados meios de fortuna, ficando porém apenas conhecida por ser a esposa de José da Costa Mealha, um espírito altruísta e generoso, que se tornou famosos por ter sido um dos mais empreendedores autarcas de Loulé, num tempo em que os rendimentos municipais eram escassos e em que os auxílios do poder central eram quase nulos ou se contavam por míseros contos de réis.
As obras de caridade realizadas por D.ª Maria Mendonça Mealha foram constantes, nomeadamente por alturas do Natal e da Páscoa, dedicando-se igualmente às obras pias da Igreja local, com avultados donativos. O Hospital e sobretudo a Misericórdia de Loulé recebeu das suas mãos significativos contributos financeiros, não regateando a outras instituições sociais e culturais o recurso aos seus benefícios.
Por sua vontade testamentária a Misericórdia de Loulé recebeu em prédios e acções cerca de 250 contos, distribuindo outros meios pecuniários pelos seus familiares, afilhados e criados. Acima de tudo foi uma senhora e bom coração, cujas profundas convicções religiosas se revelavam na generosidade do seu carácter.

domingo, 6 de junho de 2010

INGLÊZ, Maria Victória Sanches


Figura distintíssima da sociedade farense, herdeira de avultados bens e dos mais honrosos pergaminhos da áurea fidalguia do Algarve. Natural e residente em Faro, faleceu na sua casa a 5-6-1930 com 64 anos de idade. Era esposa do Dr. Virgílio Ramos Inglez e mãe de D. Maria Tereza Inglez Baião, D. Maria Manuela Inglez Ó Ramos e D. Maria Francisca Inglez Esquivel.
Considerada, na transição do século e na mudança de regime político, como uma figura de referência na sociedade farense, pela sua erudição, pelo seu porte fidalgo e, sobretudo, pela sua bondosíssima acção em prol dos mais desfavorecidos, que procuravam na nobre residência de D. Maria Victória um refúgio de protecção e de maternal carinho. Tinha, por isso, do seu lado não só os ricos como os pobres, além de que os mais humildes enfermos contavam sempre com a sua intercedência junto dos seus herdeiros para um internamento no Hospital da Misericórdia ou na Casa de Saúde de Faro, de que era proprietária.

GONÇALVES, Laura


Professora da Escola Tomás Cabreira, em Faro, cidade de onde era natural, que faleceu a 10-7-1933, com idade que desconheço, mas que presumo inferior a setenta anos, pois que se encontrava ainda no activo à data do seu passamento.
Foi uma das primeiras mestra a leccionar na oficina de costura e bordados na Escola Industrial e Comercial de Tomás Cabreira, a cujas aulas durante mais de trinta anos nem um só dia faltou. Todos os anos fazia exposições dos seus trabalhos de Lavores naquela escola, recebendo sempre grandes elogios, alguns dos quais ficavam exagerados nos respectivos livros de visitas. Era uma senhora muito prendada - como então se dizia - e de grande sensilidade artística, muito criativa em desenho naturalista, inspirando-se sobretudo em motivos florais. Possuía um carácter de eleição, sendo por isso muito querida e estimada não só entre os seus colegas e alunos, como ainda no seio da sociedade farense. Tanto assim era que, pela quadra natalícia, vendia as suas rendas e bordados para financiar os bodos que, por essa ocasião, se distribuíam aos pobres.
O seu funeral revestiu-se do maior sentimento por parte dos colegas e sobretudo das alunos que ficaram inconsoláveis com tamanha perda. O elogio fúnebre foi pronunciado pelo então director daquele estabelecimento de ensino, o pintor Carlos Lyster Franco, que num sentido e comovente improviso enalteceu as qualidades e competências profissionais da defunta.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

GALEGO, Leonor de Guimarães


Benemérita local, Leonor Maria de Guimarães Guieiro Galego, de seu nome completo, faleceu em Faro a 26-12-1944, com 87 anos de idade.
Foi casada em primeiras núpcias com o benemérito e antigo presidente da Câmara Municipal de Faro, Domingos Joaquim Guieiro, falecido a 6-10-1913, um dos mais ricos cidadãos de Faro, que deixou a esposa como usufrutuária da fortuna por ele legada à Santa Casa da Misericórdia, na altura avaliada em cem contos.
Esse valiosíssimo legado era constituído principalmente por casas e salinas, fortuna essa que após o falecimento da viúva em 1944 passou para a efectiva posse da Misericórdia.
A viúva, D. Leonor Guimarães, casou-se em segundas núpcias com Belchior Martins Galego, que era ao tempo um conceituado comerciante da praça de Faro.
O viúvo, Belchior Martins Galego, contestou a sentença do Juiz da Comarca de Faro que, no cumprimento dos termos do legado testamentário de Domingos Guieiro, mandou entregar à Misericórdia de Faro, os bens que sua mulher, Leonor Guimarães, manteve em usufruto de vida. Só em Março de 1947 se decidiu definitivamente a questão, através da sentença do Tribunal da Relação de Lisboa que negava provimento ao recurso interposto por Belchior Galego, por considerar prescritos quaisquer direitos que o mesmo houvesse para reclamar à herança que Domingos Guieiro deixara à Misericórdia de Faro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

FREIRE, Albertina


Instrumentista e musicóloga, Albertina Maria de Sousa Freire, de seu nome completo, era, segundo creio, natural de Silves, e faleceu em Lisboa a 28-1-1954, com apenas 49 anos de idade.
Residiu em Faro na flor da idade, dando então mostras de enorme apetência para a música, razão pela qual partiu para a capital, onde aprofundaria os seus conhecimentos e as suas capacidades técnicas como exímia instrumentista. Quem a conheceu enaltecia-lhe a propensão natural para a música, evidenciando as suas ingénitas aptidões para os instrumentos de percussão e cordas. Mercê dessas raras qualidades foi convidada para tocar numa das orquestras da Emissora Nacional, onde era muito apreciada pelas suas qualidades de genial instrumentista e de disciplina no trabalho, nunca faltando a um ensaio, às gravações radiofónicas ou aos espectáculos.
Pelos seus dotes artísticos e pelo seu precoce desaparecimento, pode dizer-se que Albertina Freire passou ao lado de uma grande carreira no difícil mundo da música.
Tinha seis irmãos: Ilda Freire de Oliveira; Corina Freire, conhecida artista e cantora de teatro; Judite Freire Ferreira de Sousa, casada com o coronel José Cortes Ferreira de Sousa, que foi comandante do Regimento de Infantaria 4; Carlos, Jorge e Raul Freire, todos residentes em Faro.
O seu falecimento causou a maior consternação nos meios artísticos de Lisboa, ficando sepultada no cemitério dos Prazeres.

sábado, 24 de abril de 2010

Pascoal Turri, um colaboracionista dos invasores franceses, em Faro


Em boa verdade pouco sei acerca desta curiosa personagem que passou pelo Algarve de forma quase despercebida, se acaso não tivesse sido considerado “persona non grata”, para não dizer traidor, aos olhos daqueles que aqui o acolheram com estima e carinho.
Apesar da neblina que envolve o conhecimento das suas origens, sei que era de origem milanesa, isto é, que teria nascido na cidade de Milão em data que desconheço, mas que deverá ter ocorrido entre 1870 e 1880. O que sei é que como músico serviu em jovem o Regimento de Artilharia n.º 2, em Faro, cidade onde fixou residência e constitui família, consorciando-se, segundo creio, com uma senhora algarvia. Tinha, ao que parece, uma especial predilecção pela cultura francesa, presumo que por na família haverem laços de consanguinidade gaulesa. O que sei é que em Faro se estabeleceu com uma pequena loja de comércio que depressa expandiu para armazém de “secos e molhados” destinados à exportação. Pela sua inteligência e capacidade empresarial conseguiu reunir meios de fortuna muito razoáveis. Consta também que falava com desenvoltura na língua de Molière e que se correspondia com empresários das praças e portos da velha Gália, com os quais mantinha os seus negócios. Também se dizia, com a proverbial tolerância algarvia, que nutria simpatias pela Revolução e pela heróica figura de Napoleão, a quem chamava “o Imperador”. Mas disso nunca houve reflexos de quaisquer gestos de animosidade ou perseguição.
Pelo bom relacionamento estabelecido com os empresários franceses foi, desde 1803, nomeado cônsul da França no Algarve, cuja sede em Faro seria na casa Turri, também oficialmente grafada como Turi. Acontece que por causa do tão propalado Bloqueio Continental que os franceses pretendiam impor às relações comerciais com o Reino Unido, o nosso país se mostrou bastante remisso, em face da sua secular aliança emergente do Tratado de Windsor, dando com isso justificação às chamadas “invasões franceses”. E, como é de todos conhecido, Napoleão encarregou um dos seus mais famosos cabos de guerra – o general Jounot – de entre 1807 e 1808 encabeçar o movimento militar de invasão do território português. Nessa altura, o comerciante Pascoal Turri, rejubilante de alegria, colocou-se de imediato ao serviço das novas autoridades, que em Faro tiveram na figura do militar Maurrin um tolerante apaziguador, a quem só os olhanenses conseguiram tirar do sério, quebrando o hipócrita sossego em que a região se encontrava amorrinhada.
Logo após o 16 de Junho, que nesse glorioso ano de 1808 convulsionou o povo de Olhão contra os ocupantes franceses (e, por contas antigas, também contra os farenses), foi o afrancesado Pascoal Turri procurado na sua residência pela populaça, que em alvoroço pretendia fazer a patriótica justiça de prender, ou até matar, os traidores da lusa pátria. É claro que o Turri conseguiu escapulir-se a tempo de cair nas mãos da turba-multa, sem impedir porém que o mesmo acontecesse aos seus haveres pessoais e materiais, com os quais animava o comércio local. Fugiu então para a cidade de Loulé, onde escapou de vinganças e perfídias, até que, algum tempo decorrido, e pensando que as coisas já tivessem retornado aos eixos da rotina, retomou o caminho para Faro, em cuja cidade foi, porém, recebido a tiro por quem não se esquecera dos seus aleivosos favores prestados aos intrusos franceses.
Escapando com vida ao seus vingativos algozes fugiu para Lisboa, onde lhe perdi o rasto, não sei se por ter mudado de nome, ou se por dali ter partido para outros mundos de que não restam memória.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

FRANCO, Maria das Dores Dias Barbosa Lyster

Bondosíssima senhora, esposa do pintor e professor Carlos Augusto Lyster Franco, e mãe do Dr. Mário Lyster Franco, creio que natural do distrito de Braga, veio residir para Faro nos finais do século XIX, vindo a falecer nessa cidade a 1-4-1948.
Extremamente religiosa pertencia a várias associações de piedade e de beneficência, sendo para além disso das mais conceituadas e admiradas damas da sociedade farense do seu tempo.

domingo, 11 de abril de 2010

DAVIM, Joaquim Rodrigues


Advogado, poeta e publicista, nasceu em Águeda a 31-3-1869 e faleceu em Faro a 5-1-1923, vítima de enfarte cardíaco.
Estudou em Coimbra, formando-se em Direito em 1895, vindo para Faro em 1899 na qualidade de administrador do concelho, fixando aqui residência e escritório de advogado, exercendo, porém, com mais eficiência e proveito o notariado, funções em que aliás se manteria até à morte.
Foi um dos cidadãos mais queridos da sociedade farense do seu tempo, não admirando por isso que fosse convidado a desempenhar diversas funções de relevo político e sociocultural. Assim, foi membro da Junta Distrital, Reitor do Liceu de Faro e Presidente da Instituto Arqueológico do Algarve. Além disso era sócio efectivo da Academia das Ciências de Portugal e do Instituto Histórico do Minho.
Publicou centenas de poesias em jornais e revistas, muitas das quais depois imprimia em postal ou em folhas artísticas que distribuía pelos amigos. Acontecia que às vezes essas poesias eram vendidas para benefício de instituições de caridade social. Felizmente reuniu em livro a maioria das suas composições, distribuídas pelas seguintes obras: Sombras, 1889, Morta, 1898, Ode aos Artistas, 1900, Ode aos Heróis, 1908. Em prosa escreveu vários contos que reuniu no livro Telas Rústicas, deixando também publicado em opúsculo o discurso inaugural do Instituto Arqueológico do Algarve.
No seio da imprensa algarvia, o Dr. Rodrigues Davim dispersou a sua erudita colaboração por diversos órgãos: «Algarve e Alentejo» (1903), «O Algarve» (1908), «Correio do Sul» (1920), «Os Algarvios a João de Deus» (1924), etc.
Para terminar, acrescente-se que A Câmara Municipal de Faro, em finais Janeiro de 1928, por proposta do seu vice-presidente, Dr. Justino de Bivar Weinholtz, decidiu atribuir o nome daquele antigo notário e conceituado poeta a uma das ruas do novo bairro situado no Alto Rodes.

terça-feira, 30 de março de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.