quinta-feira, 4 de outubro de 2012

João Fernandes, paradigma do anónimo pescador olhanense


   O povo de Olhão orgulha-se, ainda hoje, da grande epopeia que um grupo de pescadores locais empreendeu num frágil caíque, atravessando o temeroso Atlântico em direcção às terras de Vera Cruz, para dar de viva voz ao rei exilado, D. João VI, a boa nova da revolta dos olhanenses contra o jugo napoleónico. Foi um gesto heróico que pressagiou a libertação da pátria face à opressão militar dos franceses. Esse é um facto histórico que todos os anos ali se comemora no dia 16 de Junho, considerado muito justamente como feriado municipal.
Mas o que ninguém comemora é o dia do pescador ou do marítimo olhanense, que bem poderia ser assinalado no dia 19 de Agosto, data de nascimento do célebre Patrão Joaquim Lopes, verdadeiro paradigma da bravura e heroísmo das gentes de Olhão.
Em contraponto lembrei-me de trazer para à ribalta deste espaço a memória de um velho lobo-do-mar, cuja vida representa em si mesma a humildade e o sacrifício, mas também a tenacidade e a honradez do povo olhanense. Chamava-se João Fernandes, nasceu em Olhão e nunca conheceu outra vida que não fosse a do mar. Faleceu, anonimamente, sem pompa nem circunstância, em fins de Outubro de 1951, tinha então 85 anos de idade. Era, à data da sua morte o decano dos pescadores portugueses ligados à faina do bacalhau.
Começou em criança a enfrentar os perigos do mar nos velhos caíques de Olhão que sulcavam os mares de Larache, e foi ainda muito jovem que aceitou o desafio de partir num bacalhoeiro para os gelados e traiçoeiros bancos pesqueiros da Gronelândia. A forma como se comportou durante anos seguidos, defrontando indizíveis dificuldades e privações, granjearam-lhe a fama de lobo-do-mar, resistindo sempre com invulgar valentia aos perigos que teve de enfrentar.
Teve também a glória de ter sido um dos primeiros olhanenses a partir para a Terra Nova, revelando-se com o decorrer do tempo como um exímio pescador, aguentando estoicamente as agruras da solidão, do frio e dos enregelantes nevoeiros que cobriam os mares da Gronelândia, pejados de bacalhau mas também de vagas alterosas, que, por mais de uma vez, o lançaram nas gélidas águas de onde dificilmente se sobrevive. A divina mão da providência, sob a invocação do Santo Cristo, sempre o salvou das águas traiçoeiras e dos gélidos frios que fustigavam as terras e os mares do bacalhau.

Dois dóris da pesca do bacalhau no Atlântico Norte, pertencentes ao lugre
de quatro mastros, que se vê ao longe, um dos conhecidos “cisnes brancos”
construídos em aço na década quarenta, nos estaleiros de S. Jacinto, Aveiro
Pode, sem exagero, afirmar-se que homens como o João Fernandes eram considerados como dos mais duros e corajosos que o mundo algum dia conheceu. E esses homens eram denominados na gíria do mar como os "pescadores-de-dóri", uma espécie de espectros humanos da mais rija têmpera, moldados no aço dos grandes bancos da Terranova e do Canal da Gronelândia. Não obstante pescarem no Verão, o ambiente e a temperatura destas águas era sempre frígido, e os lusos pescadores fainavam solitários dentro de pequenos botes, a que chamavam dóris, trazidos para os enregelantes mares, do ocidente europeu e América do Norte, nos conveses de enormes veleiros ou lugres de quatro mastros, que denominavam por navios-mãe, mas aos quais também chamavam "cisnes-brancos", por serem dessa cor as embarcações que o governo português mandou construir, nos finais da década de trinta, nos estaleiros de Aveiro (substituídos pela construção naval em aço, em São Jacinto), de Viana ou do Barreiro. Esses lugres, primeiramente construídos em madeira e depois em aço, eram pintados de branco para poderem ser divisados à distância debaixo dos brumosos céus da Terra Nova. A nossa frota bacalhoeira era a mais numerosa e bem equipada do mundo, tendo a particularidade de ser acompanhada por um navio hospital, que inclusivamente socorria os pescadores de outras nações que nessas águas fainavam em compita com os nossos interesses. Aos porões dos veleiros regressavam todas as noites os nossos bravos pescadores, para extirpar, salgar e empilhar os milhares de peixes içados para bordo do navio-mãe, provenientes dos 30 a 50 dóris, lançados diariamente nas águas gélidas. Relembro que cada dóri tinha a bordo um único pescador que usando longas linhas de 500 anzóis, se fosse experiente e esforçado, podia encher o bote duas ou três vezes por dia. À noite regressavam, à vela ou a remos, ao navio-mãe, embora o dia de trabalho não estivesse ainda terminado, pois tinham que limpar e salgar o peixe no porão. 
Na faina da Pesca do Bacalhau, registaram-se milhares de pescadores, a maioria dos quais oriundos da Póvoa de Varzim, Matosinhos, Ílhavo, Aveiro, Figueira da Foz, Nazaré, Peniche, Setúbal e Algarve. Era certamente a mais dura e solitária pescaria de que há memória, na qual se perderam muitas vidas. Nela se ocuparam alguns milhares de pescadores algarvios. Sabemos quais os números oficiais dessa faina, sendo certo que nela laboraram também muitos ilegais, nomeadamente menores, que partiam com os pais para os ajudarem no amanho do peixe. Da vila de Sagres (era assim que se dizia então) eram oriundos 20 pescadores; da cidade de Lagos eram 96; do concelho de Portimão estavam registados 231 pescadores, sendo 190 da cidade e 41 da freguesia de Ferragudo; os "filhos de Olhão" eram a maioria com 1080 pescadores e de Vila Real de Santo António eram naturais 52 bravos marítimos. 
Este foi o método tradicional da pesca do bacalhau, que perdurou largas décadas no séc. XX, acabando por ser superado pelo actual sistema de arrasto.
A tudo isto escapou o velho lobo-do-mar, que depois de enviuvar e de ver arruinada a saúde, pediu que o recolhessem no Asilo das Irmãzinhas dos Pobres, em Campolide, que o trataram com muito carinho, desvelo e admiração, até ao último sopro de vida.
A título de curiosidade, acrescentamos que teve duas filhas, Deolinda Fernandes Pereira e Albertina Fernandes Carolas, ambas já falecidas. Mas isso hoje pouco importa, porque ninguém se lembra, nem ninguém quer saber, quem foi o pobre do João Fernandes, esse anónimo lobo-do-mar, sacrificado marítimo e honrado filho do glorioso povo de Olhão.

Calendário Olhanense

   
     O laborioso povo de Olhão tinha uma forma pitoresca para designar os meses do ano. Assim, de Janeiro a Maio, sucedia-se o mês de S. João, o mês de S. Cristóvão, o mês de S. Bartolomeu, a Feira de Faro, a Feira de Olhão, Todos-os-Santos e Natal. Esta calendarização do ano prende-se com a actividade económica das feiras, sendo muito curiosa as referências a S. Cristóvão e a S. Bartolomeu. Não creio que haja nada parecido no país.
 

Cacela - Foral


A antiga cidade de Conistorgis, que depois da conquista cristã foi designada por Cacela, recebeu o seu Foral de autonomia concelhia pela mão de D.Dinis, estando o mesmo datado de Lisboa em 17-7-1283. O documento está em bom estado, escrito em português, com acesso ao público.
Pode ser consultado na Torre do Tombo, Livro I de Doações de D. Dinis, fl. 77v.º, col.2.
 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Etnografia Algarvia - Caimbo


Numa altura em que se assiste à modernização tecnológica da nossa agricultura, há certos aspectos da nossa ancestral actividade rural, e da sua consequente transformação em economica agrária, que convém agora na olvidar. Dentre os aspectos que marcaram a vida nos campos e a nossa lavoura, assume particular relevância a etnografia, ou seja, o estudo dos comportamentos, dos saberes e das práticas, dos ritos e das técnicas, que o nosso povo usou, empregou e criou para garantir a sua sobrevivência, ao longo dos vários séculos que compõem a orgulhosa odisseia do povo lusíada. A etnografia, agora designada por Antropologia Cultural, é no fundo o estudo do povo na sua interacção com o meio ambiente. Daí que existam (ainda hoje) claras diferenças entre a cultura rural e a cultura marítima, ou seja, entre as comunidades agrárias e as piscatórias. Sendo que de premeio estejam as comunidades da montanha, a quem ninguém liga  importância por parecerem semelhantes às rurais, isto é, dependem e desenvolvem actividades ligadas à economia agrícola. Mas isso são questões que não interessa agora revolver, até porque são bastante controversas.
Tudo isto para dizer, tão simplesmente, que a etnografia algarvia é das mais ricas e diversificadas do país, porque envolve, numa simbiose ímpar e incomparável, os três tipos de comunidades e os três tipos de ambientes orográficos: a costa marítima, a planície rural e o relevo montanhoso. Em todos esses diferentes ambientes emergiram e proliferaram culturas autóctones e actividades muito peculiares.
Não vou aqui nem agora discorrer sobre tão vasta temática. Isso levar-me-ia muito mais longe do que o espaço e a paciência de que agora disponho. Além disso nada mais poderia acrescentar àquilo que já se conhece pela mão dos mestres da etnografia portuguesa, refiro-me a Consigleri Pedroso, Adolfo Coelho, Teófilo Braga e Leite de Vasconcellos, sem esquecer o meu saudoso amigo Manuel Viegas Guerreiro, que foi o maior investigador da etnografia algarvia e o grande impulsionador da Antropologia Cultural nas universidades portuguesas.
    Hoje fico-me por um simples traço da etnografia rural algarvia: o Caimbo, que mais não é do que a designação que no Algarve se atribui à vara com que se procede à varejadura do figo. Como hoje já não se vareja o figo, e inclusivamente já poucos agricultores o colhem porque as indústrias de outrora já não existem, ocorrreu-me lembrar este simples artefacto a que os homens do campo davam grande importância, porque deveria ser moldado num ramo de zambujeiro, que alguns também designam por oliveira-da-rocha, e que mais não é do que uma oliveira brava. O termo zambujeiro foi importado da ilha da Madeira, por ser de lá que vieram estas oliveiras bravas, cujo fruto costumavam misturar com as azeitonas brancas para dar uma tonalidade mais esverdeada e um sabor mais frutado ao azeite.
    Saber colher um bom ramo de zambujeiro, e dele moldar uma vara longa e maleável, para com ela bramir uma leve chicotada no pé do figo, não era tarefa fácil nem ao alcance de qualquer um, pois que exigia conhecimento, treino e destreza, quer no amanho da vara quer no exercício da colheita do fruto.
Creio que, infelizmente, nenhum desses rudimentares artefactos da ancestral ruralidade algarvia subsistirá ainda hoje, quiça esquecidos em qualquer adega ou casa de arrumos numa aldeia perdida no barrocal do Algarve. Também não existem quaisquer exemplares no Museu Etnográfico Regional do Algarve, sediado em Faro, que me permiram trazer para aqui uma imagem fidedigna do seu valor artístico e da sua importância na economia rural algarvia.
Resta-me acrescentar que o termo Caimbo empregava-se também na Ilha do Corvo, nos Açores, para designar uma espécie de marca de propriedade que se inflingia no gado, a qual consistia numa incisão transversal no bordo da orelha dos bovinos. Creio que essa prática já hoje não se usa, e nem tão pouco se justifica. Curiosamente o termo morreu pelo efeito da sua inaplicabilidade, isto é, deixou de ser compatível com a realidade económica, social e cultural que hoje vivemos. Por isso é que o trouxe hoje à ribalta da memória, e por isso é que faz parte do património etnográfico algarvio e açoriano.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Bocejo


Sobre o chamado “contágio do bocejo” costuma-se dizer no Algarve o seguinte  motejo:
“Anda o bocejo de boca em boca, como o passarinho de moita em moita”.
Também se costuma dizer a quem boceja:
“Isso é fome ou sono ou ruindade do dono”

Algarvios e Minhotos


O agostiniano Frei Joaquim de Santa Rita, publicou nos meados do séc. XVIII a notável obra Academia dos Humildes e Ignorantes, na qual afirmava que se o Algarve tivesse sido povoado por gente do Minho, dentro de poucos anos esta província tornar-se-ia no canto mais belo do mundo. É claro que isto era um exagero, em todo o caso é verdade que os minhotos são infatigáveis trabalhadores, gente enérgica e honrada que por onde passa lança mãos ao trabalho vencendo na vida.
Mas esse espírito empreendedor e perseverante, associado a um carácter esforçado e guerrreiro, muito peculiar nas gentes obreiras do Minho, nem sempre foi pacífico ou bem tolerado, como acontece no tempo presente. É que geralmente os que vinham de fora chegavam ao Algarve para lutar pela vida e alcançar objectivos de sucesso. Daí que muitos deles se tivessem elevado para patamares de preponderância económica, social e política.  Os minhotos, mas também os beirões, são ainda hoje no Algarve considerados e respeitados como empresários, proprietários, comerciantes e industriais, de reputado sucesso.  Daí que muitos deles tivessem sido convidados a assumir cargos de chefia nos organismos locais da administração pública e da política em geral.
Porém, ainda hoje sobejam resquícios de antigas invejas, inultrapassadas cobiças e de insuperáveis invídias, que fizeram com que os algarvios lhes lançassem o epiteto de "Filipes", como se minhotos e nortenhos fossem estrangeiros usurpadores das riquezas e dos benefícios locais, numa clara alusão ao domínio estrangeiro durante o período da subjugação espanhola. O certo é que se formos a ver à lupa os cargos de chefia regional verificamos que na sua maioria são desempenhados por não algarvios, ou, na melhor da hipótese, por algarvios de fresca data, isto é, filhos de lisboetas, beirões e minhotos. Felizmente, hoje, esses ditos e epítetos são águas passadas que já não movem moinhos.
 

Documentos históricos

Relativos ao Algarve existem depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) muitos milhares de documentos, sobre os assuntos mais díspares, desde os Registos Paroquiais à Justiça e Negócios Eclesiásticos, até à Fazenda e Desembargo do Paço. Mas uma das secções mais ricas daquele Arquivo são as chamadas «Gavetas da Torre do Tombo», uma subdivisão sectorial de grande abrângência cronológica e de ampla diversidade temática, onde se podem exumar milhares de documentos de suprema importância e de subido interesse histórico, cuja existência geralmente se desconhece.
Apenas a título de curiosidade aqui deixo, nesta breve nota, alguns diplomas de enorme importância para o estudo histórico do Algarve, assim como das suas relações político-socioeconómicas com outras regiões do país e do mundo. Após a citação do documento acrescento alguns informes sobre o possível interesse do mesmo, o suporte, o estado de conservação e a data; seguindo-se a indicação oficial do documento em si, o que permite ao leitor deste blogue saber aonde é que o mesmo se encontra, e a forma como requesitá-lo, numa hipotética visita à Torre do Tombo.

Algarve (Documentos)
- Carta do rei de Castela dirigida a D. João de Aboim, mordomo-mor de el-rei de Portugal, e para Pedro Anes, seu filho, na qual lhes ordenava entregassem a el-rei de Portugal os castelos das vilas de Tavira, Loulé, Faro, Portimão, Silves, Aljezur e toda a terra do Algarve com suas pertenças e direitos. Importantíssima carta de doação dos castelos do Algarve, escrita sobre pergaminho, em bom estado e com selo de chumbo pendente, datada de 16-2-1267.
ANTT, Gaveta XIV, maço 1, doc. 3. Sobre assunto afim, ver Gav. XIV, maço 1, docs. 7 e 8 e ainda Gav. XIV, maço 4 doc. 9.

- Pública-forma dos autos de diligência que fez o Doutor António Vaz Raposo, que serviu de corregedor do Algarve, por especial mandado de El-rei, a respeito da ida dos cristãos-novos para terra de mouros. Escrito em papel, com 13 fls., e em bom estado, datado de Castro Marim a 27-6-1532. ANTT, Gaveta XV, maço 2, doc. 14.

- Alvará passado a António Vaz para o cargo de Feitor das Rendas da Rainha no Algarve. Escrito em papel, bom estado, datado de 20-4-1529.
ANTT, Gaveta XV, maço 11, doc. 29.

- Carta do Bispo do Algarve a respeito do abandono das cidades de Safim e Azamor. Muito interessante para o estudo das relações com o Norte de África. Escrito em papel, com 4 fls., bem legíveis. Datado de Lagos a 15 de Outubro de 1534.
ANTT, Gaveta XV, maço 14, doc. 2.

- Carta do Bispo do Algarve a el-rei a respeito de coisas do Algarve. Importante para o estudo da situação económica da região. Escrito em papel, com 4 fls., em bom estado, datado de 18-8-1534. ANTT, Gaveta XV, maço 14, doc. 7.

- Carta do rei D. Afonso de Castela através da qual doou a el-rei de Portugal, D. Afonso III, a seus herdeiros e sucessores o território do reino do Algarve e seus pertences. Trata-se do documento que legitimou a Conquista do Algarve e a sua integração no espaço nacional. Pergaminho em mau estado, datado de Badajoz a 16-2-1267.
ANTT, Gaveta XV, maço 15, doc. 36.

- Carta do Corregedor do Algarve para El-rei dando notícia dum pedido de socorro manifestado por Nuno Fernandes de Ataíde para as praças de África. Escrito em papel, com 3 folhas, em bom estado, datado de 13-(?)-1514.
ANTT, Gaveta XX, maço 2, doc. 65.

- Alvará dirigido ao contador do Algarve para que se fizesse a entrega dos forais novos e respectiva cobrança do custo de cada um, a favor de Fernando de Pina. Escrito em papel, com 2 fls., em bom estado, datado de Lisboa, 14-9-1504.
ANTT, Gaveta XX, maço 10, doc. 8.

- Duas folhas do Livro da Chancelaria do Infante D. Fernando respeitante aos direitos do Algarve, uma está datada de 30.3-1531 e a outra de 23-7-1533, escritas em papel e em bom estado.
ANTT, Gaveta XX, maço 10, doc. 21.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filomena Valente Bencici, uma diva do «Scala» de Milão no Teatro Lethes, em Faro

Desta vez não trago para esta tribuna uma mulher algarvia, mas antes uma italiana que deixou no Algarve o perfume da sua graça, da sua majestosa beleza e do seu enorme talento. Foi contralto do «Scala» de Milão, e parece que pontificou com a indelével marca do seu génio artístico o histórico proscénio, no qual partiu corações noites a fio, com o seu belo-canto. Dizem que do seu camarim, irradiava um inebriante perfume, exalado por milhares de flores, abraçadas em bouquets das mais vivas cores, com os quais a presenteavam os seus mais fiéis admiradores. No carmesim do seu canapé beijaram-lhe as níveas mãos muitos artistas e escritores, a maioria deles na plenitude das suas juventudes, mesmo até quando a diva Bencici empapava o rosto em caros unguentos para esconder os sulcos da idade. Fez-se amada, e por certo amou também, aquela que ao Scala de Milão, no último quartel de Oitocentos, chamou ao seu camarim alguns velhos Reis e jovens Príncipes.
Dizia-se que a sua beleza lhe advinha do sangue judio que lhe corria nas veias. E terá sido certamente essa, entre os seus incontáveis atributos artísticos, uma das razões que a trouxeram até ao palco do nosso Teatro Lethes, a pedido, senão mesmo sob o patrocínio, da argentária comunidade judaica aqui sediada. Porém, como o Dr. Bernardino da Silva, ilustre médico e musicólogo, se correspondesse com alguns músicos italianos, que frequentavam e atuavam no «Scala» de Milão, conseguiu que a famosa contralto desse em Olhão o seu primeiro concerto, acompanhada ao piano por Luís Augusto César de Sousa Coelho, tendo a seu lado e à flauta o próprio Dr. Bernardino da Silva. O sucesso foi enorme, mas faltou-lhes uma sala apropriada à dignidade artística da atuação, que assim se quedou pela restrita assistência da burguesia dos serviços e pelos empresários da pesca. Não se pense, porém, que era gente simples e ignara, já que nessa altura pontificava em Olhão uma verdadeira plêiade de intelectuais, artistas e políticos, que haveriam de honrar o nome daquela vila piscatória, e de elevar o do próprio Algarve, às alturas da honra e da nobreza dos seus actos de génio artístico ou de grandeza patriótica.
Foi, pois, na noite de 23 de Março de 1889 que Filomena Valente Bencici, a famosa contralto do «Scala» de Milão, pisaria pela primeira e única vez o palco do Teatro Lethes, em Faro, onde foi acompanhada pela orquestra de Francisco Jacobetty, que nessa altura se encontrava em tournée pelo Algarve. A bela Bencici teve uma noite de estrondoso sucesso, no nosso pequeno «Scala», cujos camarotes se encheram com as famílias notáveis da cidade, numa verdadeira e democrática amalgamação das elites urbanas e empresariais com a classe média dos serviços e do funcionalismo público. A família Cúmano, que explorava e dirigia o Teatro Lethes, cobriu-se mais uma vez com a glória da benemerência e da gratidão pública.

BELMARÇO, Adelaide do Rosário

Não deve haver hoje na cidade de Faro quem se lembre desta senhora. E, no entanto, pertenceu à nata da melhor sociedade, à fina flor da burguesia farense. Nasceu em Faro, julgo que em 1884, no seio da família Belmarço, que como se sabe era das mais distintas da cidade. Essa distinção social não lhe advinha do berço, nem das qualidades morais ou intelectuais, mas antes do dinheiro, que um seu distinto antepassado trouxera para a cidade onde assentou âncora, depois de uma vida de atribulados negócios, e zagaiados sucessos, nos brasis.
A senhora Adelaide do Rosário era prima-irmã, como soe dizer-se, do conhecido e muito apreciado professor do Liceu de Faro, Vidal Belmarço, que foi homem da alta-roda, mas que teve uma juventude marcada pelo infortúnio financeiro, apenas suavizada pelo sucesso entre o público feminino. O prof. Vidal era uma mistura de boas maneiras francesas com um vestuário e algum snobismo britânico à mistura. É claro que aqui na parvónia, no trato do gentio ignaro, não passava de um falido com ares de rico. E para ganhar a vida com a honradez que se lhe exigia, foi-se à vida e fez-se professor, valendo-se da esmerada educação e da formação académica que adquirira.
A sua prima, Adelaide Rosário, sendo dotada de fina educação e enorme sensibilidade para as artes, seguiu os passos do primo, e fez-se professora da secção feminina do Liceu, lecionando música durante várias décadas, até ao início da década de cinquenta do século passado. A sua casa era também um verdadeiro templo de Orfeu, onde se ministravam lições particulares de piano, canto e declamação, para as meninas da mais alta sociedade farense. No tempo em que o Ginásio Clube de Faro era o areópago das artes, e o cenáculo intelectual da classe média, a D.ª Adelaide do Rosário Belmarço costumava presentear os seus modestos conterrâneos, nas amenas tardes primaveris, com magníficos concertos de piano. O público não se fazia rogado na estridência dos seus aplausos, sobretudo quando se deixava embevecer pelas sonatas de Haydn, Beethoven, Mozart, Schubert, Chopin e Liszt.
Já septuagenária e algo debilitada rumou à cidade do Porto, onde viveu no conforto dos familiares mais próximos até ao fim da vida, cujo desenlace ocorreu nos fins de Abril, ou princípios de Maio, de 1964, quando tinha precisamente 80 anos de idade. Lá ficou, no cemitério de Agramonte, na Invicta cidade da Liberdade, uma algarvia ilustre de que hoje já ninguém se lembra.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ALGARVE - Planos Hidrográficos

Na secção designada por «Casa Forte» do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, existem em devido e criterioso recato dezenas de mapas, planos e desenhos da mais variada índole, elaborados por Engenheiros e Arquitectos integrados em diversas Comissões oficiais pertencentes a diferentes Secretarias do Reino. A maior parte desses mapas foi desenhada à mão, colorida com aguarelas e tintas da china, sendo que em alguns casos recorreu-se a ocres e outras improvisadas colorações. Possuem grandes dimensões, razão pela qual foram dobrados em várias partes, cujos vincos com o tempo se partiram e rasgaram. Alguns estão enrolados, mas igualmente em deficiente estado, devido ao seu manuseamento. Deve, porém acrescentar-se que a maioria deles são verdadeiras obras primas, não só no pormenor e exactidão orográfica como sobretudo na sua beleza artística. Consultei vários, e sobre alguns deles cheguei mesmo a escrever artigos e comentários de carácter científico que correm impressos em catálogos e revistas da especialidade. Lembro-me, porém, que três desses Planos me deixaram surpreso e até muito positivamente impressionado. Por isso aqui os deixo citados para quem deles se possa interessar, frisando em primeiro lugar o número do seu registo, designação oficial e data:

Nº 3 - Plano Hidrográfico das barras e portos de Faro e Olhão - 1885.

Nº 23 - Plano Hidrográfico da barra e porto do Rio Guadiana - 1874.

Nº 29 - Plano Hidrográfico das Enseadas de Belixe, Sagres e Balieira - 1924.


Acresce dizer, aos interessados no estudo da hidrografia algarvia, que para consultarem estes mapas terão que se deslocar a Lisboa, dirigirem-se ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e fazerem a respectiva requesição, não se esquecendo de nela mencionar que estes documentos se encontram depositados na «Casa Forte», secção de Mapas e Planos.

domingo, 26 de junho de 2011

AFTAS


Todos sabemos que aquelas manchas esbranquiçada, redondas, com uma auréola vermelha, que nascem na ponta da língua e a que vulgarmente chamamos aftas, causam grande incómodo, chegando mesmo a tornarem-se num verdadeiro suplício. Na verdade, as aftas não são mais do que pequenas ulcerações, geralmente dolorosas e insuportavéis, que aparecem de forma inesperada na mucosa bucal. Ninguém sabe o porquê do seu aparecimento, embora se avente a hipótese de terem origem nervosa. Em geral têm menos de 12 mm de diâmetro e costumam aparecer em grupos de duas ou de três, sendo certo que normalmente desaparecem ao fim de poucos dias, sem deixarem, felizmente, rasto.
Não existe especificamente um tratamento para as aftas. Mas aqui no Algarve o povo, que se habituou a designá-las por «sapos», arranjou uma forma sui generis de se livrar delas, bastando para isso dizer , em voz clara e sem se enganar, a seguinte ladaínha: «Tenho um sapo na língua, um cento à roda d'este, nem este nem outro, nem outro como este».
As gentes da serra simplificaram a coisa, para dizerem três vezes seguidas, simplesmente assim: «Em cima deste sapo, outro, nem este nem outro».
Diziam também alguns idosos da serra de Alte que mais eficaz do que as ladaínhas era passar a língua pelas paredes caiadas. Por isso, quando viam alguém encostado às paredes sombrias da Igreja, a lamber a frescura da sua alvura, diziam logo: "pobre coitado deve estar cozido de sapos".

sábado, 25 de junho de 2011

ANDRINO, Teodora Maria

Confesso que sei muito pouco sobre esta hábil e talentosa pintora, nascida na freguesia urbana de Santa Maria, na cidade de Tavira. Era filha de Bernarda da Assunção e do pintor João Rodrigues Andrino, que segundo constava nos "livros da fábrica" relativos a algumas igrejas locais, ganhava a vida fazendo pinturas e restauros, nomeadamente em retábulos, móveis e alfaias religiosas; encarregando-se também de pinturas e de antigos murais, presumindo-se que terá pintado alguns quadros e retocado as paredes das mais antigas igrejas da cidade, na época de seiscentos.

A sua filha Teodora herdou-lhe o talento, e só não se tornou famosa porque morreu cedo demais, impedindo-se assim a progressão da sua obra. Conhece-se da sua autoria apenas um quadro, representando Nossa Senhora da Graça, que estava na cela do prior dos agustinianos de Tavira, que o Dr. Silva Carvalho tanto apreciava.

Faleceu a 10 de Agosto de 1716, com pouco mais de 24 anos de idade, na cidade de Faro, para onde veio residir por causa do seu casamento com André de Mendonça, que era daqui natural. Ficou sepultada na igreja de S. Pedro, cuja pedra tumular depois de levantada, por força da lei higiénica, levou sumiço.

Neve no Algarve

O Algarve sempre foi conhecido pela amenidade do seu clima. Foi essa particularidade, associada à beleza paisagística da sua linha costeira, ao rendilhado rochoso das suas praias e à tepidez das suas águas marítimas, que justificaram o despontar duma frutuosa actividade turística, capaz de cativar meios humanos e de incentivar rendimentos económicos até então nunca alcançados.
Mas se o bom tempo, com sol radioso e celestial azul, identificam a paradisíaca envolvência climática e ambiental desta região, certamente que o contrário - frio, chuva, neve e gelo - traduzem as agruras pelas quais passam os povos do norte europeu, que logicamente por essa razão se tornaram nos principais clientes do nosso turismo internacional.
Não admira pois, que a queda de neve no Algarve (mercê do seu posicionamento geográfico no extremo sul da Europa) seja um fenómeno meteorológico muito raro. De tal forma assim é que, desde longa data, se arreigou no espírito do povo algarvio a quase impossibilidade de tal ocorrência poder vir algum dia a suceder. Por isso surgiu na sua vivência popular, ou naquilo que podemos considerar como a sua etnografia linguística, esta capciosa expressão: «para o ano dá neve». Similarmente os algarvios querem dizer que tal só acontece «quando as galinhas tiverem dentes», ou, mais provavelmente, «para a semana dos nove dias».
Nesta irónica expressão «para o ano dá neve» traduz o povo algarvio a certeza ou o sentimento de algo que só muito dificilmente (senão mesmo impossível) terá realização ou poderá ocorrer. Esta expressão deixou de se ouvir no Algarve com a assiduidade que só a ironia crítica e a sabedoria popular sabe empregar nos momentos mais apropriados.

sábado, 5 de março de 2011

ALBUQUERQUE, Teresa de Jesus Lopes de Pina Marques e

Foi certamente uma das primeiras mulheres portuguesas a tirar um curso superior, sendo provavelmente a primeira a licenciar-se em Engenharia Agrónoma.
Não tenho a certeza se era natural de Faro, mas sei que era algarvia, descendente de boas famílias, que teve uma educação esmerada, com a qual, aliás, honrou os pergaminhos herdados dos seus antepassados.
Estudou no Liceu Nacional de Faro, nos anos iniciais do século vinte, tendo sido, juntamente com suas irmãs, uma das primeiras que abriram as portas daquele preclaro estabelecimento de ensino à frequência do belo sexo, num tempo em que só aos homens competia discernir o futuro, através da formação e chefia da família, da organização da sociedade e da liderança da vida política. Os rapazes, descendentes das famílias mais distintas e com maior poder financeiro, usufruíam do privilégio de investirem na sua própria formação intelectual, científica e profissional, frequentando para isso os melhores colégios e escolas, não só no país como até no estrangeiro.
O movimento feminista, que nos finais do século dezanove despontara na Grã-Bretanha, e que tivera na martirizada Rosa Luxemburgo o expoente máximo da grandeza intelectual da mulher, fez despontar em certas famílias a necessidade de cuidar da educação das suas filhas para as não deixarem à mercê dos maridos, nem do despotismo marital que tanto caracterizava a sociedade burguesa anterior à implantação da República.
Após concluir o curso liceal em Faro, com altas e distintas classificações, partiu para Lisboa onde se revelaria como uma das mais inteligentes e dedicadas investigadoras do curso de Agronomia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Projectada para uma grande carreira científica acabou por se apaixonar por esse grande valor nacional que foi o Eng.º Agrónomo e Silvicultor José de Pina Manique e Albuquerque, com quem se casou pouco depois. A distinção social e meios de fortuna do seu marido, descendente directo do grande Pina Manique e também da insigne família dos Albuquerque, não lhe permitiram prosseguir os seus trabalhos de investigação agronómica, resignando-se aos prazeres do lar e às responsabilidades de mãe. Ainda assim acompanhou o marido na direcção da Estação Agronómica Nacional, em torno da qual evoluíam as classes mais avançadas dos cursos de Agronomia e Silvicultura.
Resta acrescentar que a Eng.ª Agrónoma Teresa de Jesus Lopes, que presumo natural de Tavira, faleceu a 18-8-1965, em Lisboa, no seu requintado apartamento da Avenida da República, confortada pelos carinhos da sua filha, Helena Guiomar de Pina Manique e Albuquerque. Não quero terminar este breve apontamento biográfico, sem deixar de lembrar as suas irmãs, que a seu lado frequentaram o Liceu de Faro, e foram igualmente distintíssimas mulheres da sociedade do seu tempo, ambas licenciadas, figuras ilustres e de grande nobreza de carácter, que, igualmente, só não marcaram vincado relevo nos meios intelectuais e científicos, porque também elas foram casadas com prestigiadas figuras nacionais. A mais velha, a Dr.ª Branca Lopes Martins, casou-se com o eminente Professor Doutor Augusto da Silva Martins, de quem enviuvou relativamente cedo; e a mais nova, Dr.ª Maria João Lopes do Paço, foi casada com o notável arqueólogo Tenente-Coronel Afonso do Paço, que muito amou o Algarve e aqui mantinha residência de férias, para não falar já nos trabalhos de investigação que deu à estampa sobre esta região. No fundo foram três mulheres, belas e inteligentes, que tendo-se libertado da sociedade machista do seu tempo, através do investimento na sua própria formação intelectual e científica, acabaram por ser simplesmente distintas esposas de três grandes homens. Aquilo que poderia ter sido a excepção tornou-se na confirmação da regra.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SILVEIRA, Maria Caiado da


Benemérita local, nasceu em S. Brás de Alportel e faleceu em Faro, a 26-9-1954, com 89 anos de idade.
Prestigiada senhora da melhor sociedade do seu tempo, estimada e admirada pelas suas acções de benfeitoria para com a Igreja católica, de que era fiel servidora e muito crente, e para com os pobres que todos os dias lhe batiam à porta em busca de alimento e protecção. O facto de ser a conceituada viúva do famoso e muito abastado proprietário Mateus Joaquim da Silveira, permitia-lhe despender significativas verbas em prol dos mais carenciados, distribuindo esmolas e apoiando diversas obras sociais ou instituições de benemerência local, como era o caso da Misericórdia, do Refúgio das Raparigas, das Florinhas do Sul, do Asilo de Santa Isabel, etc.
Entre as suas acções de apoio à Igreja merece particular destaque o financiamento das obras de restauro da Capela de S. Sebastião, situada no largo que tem o mesmo nome, cujas origens deverão remontar ao séc. XVII. Também a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, a cuja Ordem Terceira pertencia com honra e muito orgulho, recebeu sempre que necessário as suas avultadas esmolas, para recuperação dos retábulos e embelezamentos das capelas.
Era mãe de D. Maria da Silveira Santana, que foi casada com José Joaquim Santana; de D. Berta Bebiana da Silveira Barbosa, que estava viúva do Dr. António dos Reis da Silva Barbosa; de D. Adelaide Gabriela da Silveira Borges, casada com Henrique Borges, que foi um amador das letras e colaborador da imprensa farense. Deixou vários netos e bisnetos, que estão hoje ainda felizmente vivos mantendo acesa, e com igual prestígio, o nome da família Silveira.

sábado, 29 de janeiro de 2011

RIBEIRO, Lucinda Vieira


Pianista e professora de música, natural de que faleceu, após prolongado sofrimento, em Lisboa, nos finais de Setembro de 1954.
Era casada com Horácio Ribeiro, cidadão honesto e trabalhador que sentiu profundamente a sua morte. Era irmã do conhecido Coronel Santos Vieira e sobrinha do Dr. Urbano José dos Santos, prestigiado e muito competente professor do ensino técnico, e de Luís Urbano, reputado comerciante em Portimão.
Lucinda Ribeiro possuía inatas aptidões artísticas, pelo que a família a mandou estudar para a capital, matriculando-se no Conservatório de Lisboa onde realizou o curso de música e se distinguiu como brilhante aluna de piano, recebendo o respectivo diplomada que a habilitava para o ensino.
Voltou a Portimão onde deu aulas de música no Liceu local e manteve durante largos anos um colégio particular de piano, que foi muito bem frequentado e com resultados muito positivos para o desenvolvimento da música no barlavento algarvio.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

PONTES, Mariana da Conceição Rodrigues Martins


Senhora distinta e da melhor sociedade algarvia, natural de Albufeira, residente numa belíssima quinta agrícola em Paderne, onde faleceu a 6-5-1954, com 75 anos de idade. Era esposa do conceituado José Martins Pontes, rico proprietário agrícola e cacique local, que gozava de grande prestígio social, económico e até político.
As qualidades humanas de D. Mariana Pontes eram objecto da maior admiração, sobretudo pelo desvelo com que tratava os mais desprotegidos pela sorte, tendo sempre para os indigentes uma esmola, um agasalho, um pão e até um abrigo. Pela estima e consideração de que usufruía entre os seus conterrâneos, tanto na freguesia de Paderne como na vila de Albufeira, não admira que por largos anos fosse a alma-mater e principal dirigente da Acção Católica e até de outras organizações de piedade e de assistência social. As suas inúmeras acções de benemerência e protecção á pobreza valeram-lhe o amor de todo um povo, que lhe chamava a “mãe dos pobres”.
Era mãe de Laura Martins Pontes de Sousa Dias, do Dr. Salvador Rodrigues Martins Pontes, que foi notário em Grandola, e de José Martins Pontes Júnior, regente agrícola e conhecido proprietário em Loulé.
Ao seu funeral compareceu quase na íntegra o povo de Paderne, principal visado nas suas acções de filantropia e benemerência.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ORTIGÃO, Teresa Magallanes de Aranda Ramalho


Distintíssima senhora da melhor sociedade farense, nascida em Sevilha, na vizinha Andaluzia, e falecida em Faro a 15-9-1954, com 77 anos de idade.
Descendia das mais ilustres famílias de Espanha, e pela linha varonil corriam-lhe ainda nas veias o sangue de Fernão de Magalhães, o famoso navegador da viagem de circum-navegação da terra.
Veio para Faro em resultado do seu casamento com o não menos nobre e ilustre algarvio, o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que amou profundamente e de quem teve insigne descendência. Além de esposa dedicada e de mãe virtuosa, foi também uma cidadã de notáveis qualidades de benemerência e filantropia, zelosa da protecção dos pobres, das crianças órfãs e das famílias sem sustento nem conforto. Por outro lado era uma mulher muito inteligente, culta e educada, que sempre marcou ao lado do marido a altiva presença da sua nobreza andaluza. Difícil era em qualquer acto público ou cerimónia privada, deixar de notar na sua beleza, no seu porte e na sua elegância de gesto e de movimento. Sem exagerar na riqueza dos vestidos, no exotismo dos perfumes, nos adereços ou nas jóias, com que geralmente se apresentava em público, o certo é que D. Teresa Ortigão cativava logo a atenção dos presentes, concitando no marido um redobrado brilho e até alguma inveja...
Acima de tudo ficou conhecida na sociedade farense do seu tempo como uma bondosíssima senhora, inspirada nos mais puros sentimentos cristãos e numa irrepreensível conduta religiosa, presidindo com grande dedicação e até sacrifício dos seus bens à obra de Protecção às Raparigas, instituição que largamente beneficiou da sua protecção e esmola. Gratos pelos serviços prestados os restantes membros directivos, pouco antes do seu falecimento, inauguraram-lhe o retrato, numa singela homenagem de gratidão.
Era mãe de D. Teresa Antónia Ramalho Ortigão Cosp e de D. Maria da Conceição Ramalho Ortigão de Mello Sampayo; era sogra do proprietário e industrial espanhol António Cosp y Corominas, e do Tenente-Coronel Manuel Vilhena de Mello Sampaio, que foi comandante do Regimento de Infantaria 4 aquartela do em Faro. Era avó de D. Maria da Conceição, D. Isabel Maria, D. Teresa Maria e Maria Antónia de Ortigão de Mello Sampayo, e dos srs. Manuel, Francisco, João Manuel, Ventura José e Luís Frederico, usando todos os nobre apelidos Ortigão de Mello Sampayo.
Morreu, segundo creio, vítima de doença cancerosa que lhe minou o corpo de forma paulatina e irreversível, roubando a tão ilustre e bondosa senhora a dignidade própria da sua nobreza. O funeral foi uma sentida homenagem do povo farense àquela que foi uma das mais ilustres e mais dignas protectoras das crianças desvalidas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

FORMOSINHO, Maria José Barata


Benemérita local e senhora da melhor sociedade algarvia, descendente de algumas das mais ilustres e fidalgas famílias de Abrantes. Residiu a maior parte da sua vida em Lagos, onde viria a falecer a 21-5-1954, com 64 anos de idade. Era a esposa amantíssimo do Dr. José dos Santos Pimenta Formosinho, prestigiado intelectual e publicista lacobrigente, fundador e director do Museu Municipal de Lagos, que hoje muito justamente ostenta o seu nome.
Muito considerada e admirada entre os seus conterrâneos D. Maria José Formosinho pertencia a várias organizações de piedade e de assistência social, dedicando o melhor do seu esforço aos mais desfavorecidos, sobretudo às crianças que cuidava com o maior desvelo.
A prática do bem e a protecção dos indigentes constituiu a razão do seu viver, ainda que todos soubessem que não gozava da saúde necessária às constantes e cansativas solicitações de benemerência e filantropia.
A sua morte causou a maior consternação entre as gentes do barlavento algarvio.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ESPERANÇA, Adelaide Assis


Caridosa senhora, dotada de grande vivacidade de espírito, brilhante inteligência e excepcionais qualidades humanas, que sofreu entrevada no leito uma prolongada e degradante doença, que a vitimaria a 29-11-1954, com 52 anos de idade. Era esposa do famoso escritor algarvio Júlio Assis Esperança, conceituado inspector da casa «Singer».
Era mãe de D. Maria Fernanda da Silva Assis Esperança Costa e sogra de Henrique Costa. Por outro lado, era cunhada do ilustre publicista António Assis Esperança e do industrial Dário Pedro Assis Esperança.