quinta-feira, 31 de maio de 2012

Filomena Valente Bencici, uma diva do «Scala» de Milão no Teatro Lethes, em Faro

Desta vez não trago para esta tribuna uma mulher algarvia, mas antes uma italiana que deixou no Algarve o perfume da sua graça, da sua majestosa beleza e do seu enorme talento. Foi contralto do «Scala» de Milão, e parece que pontificou com a indelével marca do seu génio artístico o histórico proscénio, no qual partiu corações noites a fio, com o seu belo-canto. Dizem que do seu camarim, irradiava um inebriante perfume, exalado por milhares de flores, abraçadas em bouquets das mais vivas cores, com os quais a presenteavam os seus mais fiéis admiradores. No carmesim do seu canapé beijaram-lhe as níveas mãos muitos artistas e escritores, a maioria deles na plenitude das suas juventudes, mesmo até quando a diva Bencici empapava o rosto em caros unguentos para esconder os sulcos da idade. Fez-se amada, e por certo amou também, aquela que ao Scala de Milão, no último quartel de Oitocentos, chamou ao seu camarim alguns velhos Reis e jovens Príncipes.
Dizia-se que a sua beleza lhe advinha do sangue judio que lhe corria nas veias. E terá sido certamente essa, entre os seus incontáveis atributos artísticos, uma das razões que a trouxeram até ao palco do nosso Teatro Lethes, a pedido, senão mesmo sob o patrocínio, da argentária comunidade judaica aqui sediada. Porém, como o Dr. Bernardino da Silva, ilustre médico e musicólogo, se correspondesse com alguns músicos italianos, que frequentavam e atuavam no «Scala» de Milão, conseguiu que a famosa contralto desse em Olhão o seu primeiro concerto, acompanhada ao piano por Luís Augusto César de Sousa Coelho, tendo a seu lado e à flauta o próprio Dr. Bernardino da Silva. O sucesso foi enorme, mas faltou-lhes uma sala apropriada à dignidade artística da atuação, que assim se quedou pela restrita assistência da burguesia dos serviços e pelos empresários da pesca. Não se pense, porém, que era gente simples e ignara, já que nessa altura pontificava em Olhão uma verdadeira plêiade de intelectuais, artistas e políticos, que haveriam de honrar o nome daquela vila piscatória, e de elevar o do próprio Algarve, às alturas da honra e da nobreza dos seus actos de génio artístico ou de grandeza patriótica.
Foi, pois, na noite de 23 de Março de 1889 que Filomena Valente Bencici, a famosa contralto do «Scala» de Milão, pisaria pela primeira e única vez o palco do Teatro Lethes, em Faro, onde foi acompanhada pela orquestra de Francisco Jacobetty, que nessa altura se encontrava em tournée pelo Algarve. A bela Bencici teve uma noite de estrondoso sucesso, no nosso pequeno «Scala», cujos camarotes se encheram com as famílias notáveis da cidade, numa verdadeira e democrática amalgamação das elites urbanas e empresariais com a classe média dos serviços e do funcionalismo público. A família Cúmano, que explorava e dirigia o Teatro Lethes, cobriu-se mais uma vez com a glória da benemerência e da gratidão pública.

BELMARÇO, Adelaide do Rosário

Não deve haver hoje na cidade de Faro quem se lembre desta senhora. E, no entanto, pertenceu à nata da melhor sociedade, à fina flor da burguesia farense. Nasceu em Faro, julgo que em 1884, no seio da família Belmarço, que como se sabe era das mais distintas da cidade. Essa distinção social não lhe advinha do berço, nem das qualidades morais ou intelectuais, mas antes do dinheiro, que um seu distinto antepassado trouxera para a cidade onde assentou âncora, depois de uma vida de atribulados negócios, e zagaiados sucessos, nos brasis.
A senhora Adelaide do Rosário era prima-irmã, como soe dizer-se, do conhecido e muito apreciado professor do Liceu de Faro, Vidal Belmarço, que foi homem da alta-roda, mas que teve uma juventude marcada pelo infortúnio financeiro, apenas suavizada pelo sucesso entre o público feminino. O prof. Vidal era uma mistura de boas maneiras francesas com um vestuário e algum snobismo britânico à mistura. É claro que aqui na parvónia, no trato do gentio ignaro, não passava de um falido com ares de rico. E para ganhar a vida com a honradez que se lhe exigia, foi-se à vida e fez-se professor, valendo-se da esmerada educação e da formação académica que adquirira.
A sua prima, Adelaide Rosário, sendo dotada de fina educação e enorme sensibilidade para as artes, seguiu os passos do primo, e fez-se professora da secção feminina do Liceu, lecionando música durante várias décadas, até ao início da década de cinquenta do século passado. A sua casa era também um verdadeiro templo de Orfeu, onde se ministravam lições particulares de piano, canto e declamação, para as meninas da mais alta sociedade farense. No tempo em que o Ginásio Clube de Faro era o areópago das artes, e o cenáculo intelectual da classe média, a D.ª Adelaide do Rosário Belmarço costumava presentear os seus modestos conterrâneos, nas amenas tardes primaveris, com magníficos concertos de piano. O público não se fazia rogado na estridência dos seus aplausos, sobretudo quando se deixava embevecer pelas sonatas de Haydn, Beethoven, Mozart, Schubert, Chopin e Liszt.
Já septuagenária e algo debilitada rumou à cidade do Porto, onde viveu no conforto dos familiares mais próximos até ao fim da vida, cujo desenlace ocorreu nos fins de Abril, ou princípios de Maio, de 1964, quando tinha precisamente 80 anos de idade. Lá ficou, no cemitério de Agramonte, na Invicta cidade da Liberdade, uma algarvia ilustre de que hoje já ninguém se lembra.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ALGARVE - Planos Hidrográficos

Na secção designada por «Casa Forte» do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, existem em devido e criterioso recato dezenas de mapas, planos e desenhos da mais variada índole, elaborados por Engenheiros e Arquitectos integrados em diversas Comissões oficiais pertencentes a diferentes Secretarias do Reino. A maior parte desses mapas foi desenhada à mão, colorida com aguarelas e tintas da china, sendo que em alguns casos recorreu-se a ocres e outras improvisadas colorações. Possuem grandes dimensões, razão pela qual foram dobrados em várias partes, cujos vincos com o tempo se partiram e rasgaram. Alguns estão enrolados, mas igualmente em deficiente estado, devido ao seu manuseamento. Deve, porém acrescentar-se que a maioria deles são verdadeiras obras primas, não só no pormenor e exactidão orográfica como sobretudo na sua beleza artística. Consultei vários, e sobre alguns deles cheguei mesmo a escrever artigos e comentários de carácter científico que correm impressos em catálogos e revistas da especialidade. Lembro-me, porém, que três desses Planos me deixaram surpreso e até muito positivamente impressionado. Por isso aqui os deixo citados para quem deles se possa interessar, frisando em primeiro lugar o número do seu registo, designação oficial e data:

Nº 3 - Plano Hidrográfico das barras e portos de Faro e Olhão - 1885.

Nº 23 - Plano Hidrográfico da barra e porto do Rio Guadiana - 1874.

Nº 29 - Plano Hidrográfico das Enseadas de Belixe, Sagres e Balieira - 1924.


Acresce dizer, aos interessados no estudo da hidrografia algarvia, que para consultarem estes mapas terão que se deslocar a Lisboa, dirigirem-se ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, e fazerem a respectiva requesição, não se esquecendo de nela mencionar que estes documentos se encontram depositados na «Casa Forte», secção de Mapas e Planos.

domingo, 26 de junho de 2011

AFTAS


Todos sabemos que aquelas manchas esbranquiçada, redondas, com uma auréola vermelha, que nascem na ponta da língua e a que vulgarmente chamamos aftas, causam grande incómodo, chegando mesmo a tornarem-se num verdadeiro suplício. Na verdade, as aftas não são mais do que pequenas ulcerações, geralmente dolorosas e insuportavéis, que aparecem de forma inesperada na mucosa bucal. Ninguém sabe o porquê do seu aparecimento, embora se avente a hipótese de terem origem nervosa. Em geral têm menos de 12 mm de diâmetro e costumam aparecer em grupos de duas ou de três, sendo certo que normalmente desaparecem ao fim de poucos dias, sem deixarem, felizmente, rasto.
Não existe especificamente um tratamento para as aftas. Mas aqui no Algarve o povo, que se habituou a designá-las por «sapos», arranjou uma forma sui generis de se livrar delas, bastando para isso dizer , em voz clara e sem se enganar, a seguinte ladaínha: «Tenho um sapo na língua, um cento à roda d'este, nem este nem outro, nem outro como este».
As gentes da serra simplificaram a coisa, para dizerem três vezes seguidas, simplesmente assim: «Em cima deste sapo, outro, nem este nem outro».
Diziam também alguns idosos da serra de Alte que mais eficaz do que as ladaínhas era passar a língua pelas paredes caiadas. Por isso, quando viam alguém encostado às paredes sombrias da Igreja, a lamber a frescura da sua alvura, diziam logo: "pobre coitado deve estar cozido de sapos".

sábado, 25 de junho de 2011

ANDRINO, Teodora Maria

Confesso que sei muito pouco sobre esta hábil e talentosa pintora, nascida na freguesia urbana de Santa Maria, na cidade de Tavira. Era filha de Bernarda da Assunção e do pintor João Rodrigues Andrino, que segundo constava nos "livros da fábrica" relativos a algumas igrejas locais, ganhava a vida fazendo pinturas e restauros, nomeadamente em retábulos, móveis e alfaias religiosas; encarregando-se também de pinturas e de antigos murais, presumindo-se que terá pintado alguns quadros e retocado as paredes das mais antigas igrejas da cidade, na época de seiscentos.

A sua filha Teodora herdou-lhe o talento, e só não se tornou famosa porque morreu cedo demais, impedindo-se assim a progressão da sua obra. Conhece-se da sua autoria apenas um quadro, representando Nossa Senhora da Graça, que estava na cela do prior dos agustinianos de Tavira, que o Dr. Silva Carvalho tanto apreciava.

Faleceu a 10 de Agosto de 1716, com pouco mais de 24 anos de idade, na cidade de Faro, para onde veio residir por causa do seu casamento com André de Mendonça, que era daqui natural. Ficou sepultada na igreja de S. Pedro, cuja pedra tumular depois de levantada, por força da lei higiénica, levou sumiço.

Neve no Algarve

O Algarve sempre foi conhecido pela amenidade do seu clima. Foi essa particularidade, associada à beleza paisagística da sua linha costeira, ao rendilhado rochoso das suas praias e à tepidez das suas águas marítimas, que justificaram o despontar duma frutuosa actividade turística, capaz de cativar meios humanos e de incentivar rendimentos económicos até então nunca alcançados.
Mas se o bom tempo, com sol radioso e celestial azul, identificam a paradisíaca envolvência climática e ambiental desta região, certamente que o contrário - frio, chuva, neve e gelo - traduzem as agruras pelas quais passam os povos do norte europeu, que logicamente por essa razão se tornaram nos principais clientes do nosso turismo internacional.
Não admira pois, que a queda de neve no Algarve (mercê do seu posicionamento geográfico no extremo sul da Europa) seja um fenómeno meteorológico muito raro. De tal forma assim é que, desde longa data, se arreigou no espírito do povo algarvio a quase impossibilidade de tal ocorrência poder vir algum dia a suceder. Por isso surgiu na sua vivência popular, ou naquilo que podemos considerar como a sua etnografia linguística, esta capciosa expressão: «para o ano dá neve». Similarmente os algarvios querem dizer que tal só acontece «quando as galinhas tiverem dentes», ou, mais provavelmente, «para a semana dos nove dias».
Nesta irónica expressão «para o ano dá neve» traduz o povo algarvio a certeza ou o sentimento de algo que só muito dificilmente (senão mesmo impossível) terá realização ou poderá ocorrer. Esta expressão deixou de se ouvir no Algarve com a assiduidade que só a ironia crítica e a sabedoria popular sabe empregar nos momentos mais apropriados.

sábado, 5 de março de 2011

ALBUQUERQUE, Teresa de Jesus Lopes de Pina Marques e

Foi certamente uma das primeiras mulheres portuguesas a tirar um curso superior, sendo provavelmente a primeira a licenciar-se em Engenharia Agrónoma.
Não tenho a certeza se era natural de Faro, mas sei que era algarvia, descendente de boas famílias, que teve uma educação esmerada, com a qual, aliás, honrou os pergaminhos herdados dos seus antepassados.
Estudou no Liceu Nacional de Faro, nos anos iniciais do século vinte, tendo sido, juntamente com suas irmãs, uma das primeiras que abriram as portas daquele preclaro estabelecimento de ensino à frequência do belo sexo, num tempo em que só aos homens competia discernir o futuro, através da formação e chefia da família, da organização da sociedade e da liderança da vida política. Os rapazes, descendentes das famílias mais distintas e com maior poder financeiro, usufruíam do privilégio de investirem na sua própria formação intelectual, científica e profissional, frequentando para isso os melhores colégios e escolas, não só no país como até no estrangeiro.
O movimento feminista, que nos finais do século dezanove despontara na Grã-Bretanha, e que tivera na martirizada Rosa Luxemburgo o expoente máximo da grandeza intelectual da mulher, fez despontar em certas famílias a necessidade de cuidar da educação das suas filhas para as não deixarem à mercê dos maridos, nem do despotismo marital que tanto caracterizava a sociedade burguesa anterior à implantação da República.
Após concluir o curso liceal em Faro, com altas e distintas classificações, partiu para Lisboa onde se revelaria como uma das mais inteligentes e dedicadas investigadoras do curso de Agronomia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Projectada para uma grande carreira científica acabou por se apaixonar por esse grande valor nacional que foi o Eng.º Agrónomo e Silvicultor José de Pina Manique e Albuquerque, com quem se casou pouco depois. A distinção social e meios de fortuna do seu marido, descendente directo do grande Pina Manique e também da insigne família dos Albuquerque, não lhe permitiram prosseguir os seus trabalhos de investigação agronómica, resignando-se aos prazeres do lar e às responsabilidades de mãe. Ainda assim acompanhou o marido na direcção da Estação Agronómica Nacional, em torno da qual evoluíam as classes mais avançadas dos cursos de Agronomia e Silvicultura.
Resta acrescentar que a Eng.ª Agrónoma Teresa de Jesus Lopes, que presumo natural de Tavira, faleceu a 18-8-1965, em Lisboa, no seu requintado apartamento da Avenida da República, confortada pelos carinhos da sua filha, Helena Guiomar de Pina Manique e Albuquerque. Não quero terminar este breve apontamento biográfico, sem deixar de lembrar as suas irmãs, que a seu lado frequentaram o Liceu de Faro, e foram igualmente distintíssimas mulheres da sociedade do seu tempo, ambas licenciadas, figuras ilustres e de grande nobreza de carácter, que, igualmente, só não marcaram vincado relevo nos meios intelectuais e científicos, porque também elas foram casadas com prestigiadas figuras nacionais. A mais velha, a Dr.ª Branca Lopes Martins, casou-se com o eminente Professor Doutor Augusto da Silva Martins, de quem enviuvou relativamente cedo; e a mais nova, Dr.ª Maria João Lopes do Paço, foi casada com o notável arqueólogo Tenente-Coronel Afonso do Paço, que muito amou o Algarve e aqui mantinha residência de férias, para não falar já nos trabalhos de investigação que deu à estampa sobre esta região. No fundo foram três mulheres, belas e inteligentes, que tendo-se libertado da sociedade machista do seu tempo, através do investimento na sua própria formação intelectual e científica, acabaram por ser simplesmente distintas esposas de três grandes homens. Aquilo que poderia ter sido a excepção tornou-se na confirmação da regra.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SILVEIRA, Maria Caiado da


Benemérita local, nasceu em S. Brás de Alportel e faleceu em Faro, a 26-9-1954, com 89 anos de idade.
Prestigiada senhora da melhor sociedade do seu tempo, estimada e admirada pelas suas acções de benfeitoria para com a Igreja católica, de que era fiel servidora e muito crente, e para com os pobres que todos os dias lhe batiam à porta em busca de alimento e protecção. O facto de ser a conceituada viúva do famoso e muito abastado proprietário Mateus Joaquim da Silveira, permitia-lhe despender significativas verbas em prol dos mais carenciados, distribuindo esmolas e apoiando diversas obras sociais ou instituições de benemerência local, como era o caso da Misericórdia, do Refúgio das Raparigas, das Florinhas do Sul, do Asilo de Santa Isabel, etc.
Entre as suas acções de apoio à Igreja merece particular destaque o financiamento das obras de restauro da Capela de S. Sebastião, situada no largo que tem o mesmo nome, cujas origens deverão remontar ao séc. XVII. Também a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, a cuja Ordem Terceira pertencia com honra e muito orgulho, recebeu sempre que necessário as suas avultadas esmolas, para recuperação dos retábulos e embelezamentos das capelas.
Era mãe de D. Maria da Silveira Santana, que foi casada com José Joaquim Santana; de D. Berta Bebiana da Silveira Barbosa, que estava viúva do Dr. António dos Reis da Silva Barbosa; de D. Adelaide Gabriela da Silveira Borges, casada com Henrique Borges, que foi um amador das letras e colaborador da imprensa farense. Deixou vários netos e bisnetos, que estão hoje ainda felizmente vivos mantendo acesa, e com igual prestígio, o nome da família Silveira.

sábado, 29 de janeiro de 2011

RIBEIRO, Lucinda Vieira


Pianista e professora de música, natural de que faleceu, após prolongado sofrimento, em Lisboa, nos finais de Setembro de 1954.
Era casada com Horácio Ribeiro, cidadão honesto e trabalhador que sentiu profundamente a sua morte. Era irmã do conhecido Coronel Santos Vieira e sobrinha do Dr. Urbano José dos Santos, prestigiado e muito competente professor do ensino técnico, e de Luís Urbano, reputado comerciante em Portimão.
Lucinda Ribeiro possuía inatas aptidões artísticas, pelo que a família a mandou estudar para a capital, matriculando-se no Conservatório de Lisboa onde realizou o curso de música e se distinguiu como brilhante aluna de piano, recebendo o respectivo diplomada que a habilitava para o ensino.
Voltou a Portimão onde deu aulas de música no Liceu local e manteve durante largos anos um colégio particular de piano, que foi muito bem frequentado e com resultados muito positivos para o desenvolvimento da música no barlavento algarvio.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

PONTES, Mariana da Conceição Rodrigues Martins


Senhora distinta e da melhor sociedade algarvia, natural de Albufeira, residente numa belíssima quinta agrícola em Paderne, onde faleceu a 6-5-1954, com 75 anos de idade. Era esposa do conceituado José Martins Pontes, rico proprietário agrícola e cacique local, que gozava de grande prestígio social, económico e até político.
As qualidades humanas de D. Mariana Pontes eram objecto da maior admiração, sobretudo pelo desvelo com que tratava os mais desprotegidos pela sorte, tendo sempre para os indigentes uma esmola, um agasalho, um pão e até um abrigo. Pela estima e consideração de que usufruía entre os seus conterrâneos, tanto na freguesia de Paderne como na vila de Albufeira, não admira que por largos anos fosse a alma-mater e principal dirigente da Acção Católica e até de outras organizações de piedade e de assistência social. As suas inúmeras acções de benemerência e protecção á pobreza valeram-lhe o amor de todo um povo, que lhe chamava a “mãe dos pobres”.
Era mãe de Laura Martins Pontes de Sousa Dias, do Dr. Salvador Rodrigues Martins Pontes, que foi notário em Grandola, e de José Martins Pontes Júnior, regente agrícola e conhecido proprietário em Loulé.
Ao seu funeral compareceu quase na íntegra o povo de Paderne, principal visado nas suas acções de filantropia e benemerência.

domingo, 23 de janeiro de 2011

ORTIGÃO, Teresa Magallanes de Aranda Ramalho


Distintíssima senhora da melhor sociedade farense, nascida em Sevilha, na vizinha Andaluzia, e falecida em Faro a 15-9-1954, com 77 anos de idade.
Descendia das mais ilustres famílias de Espanha, e pela linha varonil corriam-lhe ainda nas veias o sangue de Fernão de Magalhães, o famoso navegador da viagem de circum-navegação da terra.
Veio para Faro em resultado do seu casamento com o não menos nobre e ilustre algarvio, o almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, que amou profundamente e de quem teve insigne descendência. Além de esposa dedicada e de mãe virtuosa, foi também uma cidadã de notáveis qualidades de benemerência e filantropia, zelosa da protecção dos pobres, das crianças órfãs e das famílias sem sustento nem conforto. Por outro lado era uma mulher muito inteligente, culta e educada, que sempre marcou ao lado do marido a altiva presença da sua nobreza andaluza. Difícil era em qualquer acto público ou cerimónia privada, deixar de notar na sua beleza, no seu porte e na sua elegância de gesto e de movimento. Sem exagerar na riqueza dos vestidos, no exotismo dos perfumes, nos adereços ou nas jóias, com que geralmente se apresentava em público, o certo é que D. Teresa Ortigão cativava logo a atenção dos presentes, concitando no marido um redobrado brilho e até alguma inveja...
Acima de tudo ficou conhecida na sociedade farense do seu tempo como uma bondosíssima senhora, inspirada nos mais puros sentimentos cristãos e numa irrepreensível conduta religiosa, presidindo com grande dedicação e até sacrifício dos seus bens à obra de Protecção às Raparigas, instituição que largamente beneficiou da sua protecção e esmola. Gratos pelos serviços prestados os restantes membros directivos, pouco antes do seu falecimento, inauguraram-lhe o retrato, numa singela homenagem de gratidão.
Era mãe de D. Teresa Antónia Ramalho Ortigão Cosp e de D. Maria da Conceição Ramalho Ortigão de Mello Sampayo; era sogra do proprietário e industrial espanhol António Cosp y Corominas, e do Tenente-Coronel Manuel Vilhena de Mello Sampaio, que foi comandante do Regimento de Infantaria 4 aquartela do em Faro. Era avó de D. Maria da Conceição, D. Isabel Maria, D. Teresa Maria e Maria Antónia de Ortigão de Mello Sampayo, e dos srs. Manuel, Francisco, João Manuel, Ventura José e Luís Frederico, usando todos os nobre apelidos Ortigão de Mello Sampayo.
Morreu, segundo creio, vítima de doença cancerosa que lhe minou o corpo de forma paulatina e irreversível, roubando a tão ilustre e bondosa senhora a dignidade própria da sua nobreza. O funeral foi uma sentida homenagem do povo farense àquela que foi uma das mais ilustres e mais dignas protectoras das crianças desvalidas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

FORMOSINHO, Maria José Barata


Benemérita local e senhora da melhor sociedade algarvia, descendente de algumas das mais ilustres e fidalgas famílias de Abrantes. Residiu a maior parte da sua vida em Lagos, onde viria a falecer a 21-5-1954, com 64 anos de idade. Era a esposa amantíssimo do Dr. José dos Santos Pimenta Formosinho, prestigiado intelectual e publicista lacobrigente, fundador e director do Museu Municipal de Lagos, que hoje muito justamente ostenta o seu nome.
Muito considerada e admirada entre os seus conterrâneos D. Maria José Formosinho pertencia a várias organizações de piedade e de assistência social, dedicando o melhor do seu esforço aos mais desfavorecidos, sobretudo às crianças que cuidava com o maior desvelo.
A prática do bem e a protecção dos indigentes constituiu a razão do seu viver, ainda que todos soubessem que não gozava da saúde necessária às constantes e cansativas solicitações de benemerência e filantropia.
A sua morte causou a maior consternação entre as gentes do barlavento algarvio.

sábado, 15 de janeiro de 2011

ESPERANÇA, Adelaide Assis


Caridosa senhora, dotada de grande vivacidade de espírito, brilhante inteligência e excepcionais qualidades humanas, que sofreu entrevada no leito uma prolongada e degradante doença, que a vitimaria a 29-11-1954, com 52 anos de idade. Era esposa do famoso escritor algarvio Júlio Assis Esperança, conceituado inspector da casa «Singer».
Era mãe de D. Maria Fernanda da Silva Assis Esperança Costa e sogra de Henrique Costa. Por outro lado, era cunhada do ilustre publicista António Assis Esperança e do industrial Dário Pedro Assis Esperança.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

COSTA, Isabel Maria da Cruz de Brito


Senhora muito bondosa e estimada em Estoi, sua aldeia natal onde sempre residiu e onde veio a falecer a 19-9-1954, com 69 anos de idade.
Embora fosse uma senhora de excelsas qualidades humanas e cristãs, foi na companhia de seu esposo, o médico e poeta Augusto Emiliano da Costa, que mais e melhor se distinguiu, quer na assistência ao seu consultório, quer no apoio aos doentes mais pobres e às crianças desvalidas.
Sucumbiu ao cabo de alguns meses a uma doença incurável, deixando o marido e todo o povo da sua aldeia natal na mais inconsolável saudade.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BRITO, Maria Josefina Júdice Guerreiro de


Distintíssima senhora da melhor sociedade algarvia, natural da freguesia de Pêra, que faleceu em Faro, onde residia desde há décadas, em 4-6-1954, com 86 anos de idade.
Muito estimada pela sua lhaneza de trato e pela bondade de carácter, sobretudo pelos seus primorosos dotes de piedade e ternura pelos mais desfavorecidos. Toda a vida se ouviu falar do seu nome com estima e admiração, tendo juntamente com outras senhoras velado pelos pobres, combatendo a fome, o frio e a falta de lar das famílias mais carenciadas.
Era viúva do ilustre Dr. José Luís de Brito, que como juiz exerceu em Faro e noutras comarcas do País, sempre com a maior dignidade e isenção, o múnus da magistratura. Era mãe das senhoras Lucília de Brito Pavão Leal e Laura de Brito de Bivar Weinholtz, viúva do ilustre museólogo Dr. Justino Henrique de Bivar Weinholtz, e dos senhores Almirante José Augusto Guerreiro de Brito, que foi chefe do Estado Maior Naval; Eng.º Anastácio Guerreiro de Brito e António Guerreiro de Brito, que na altura vivia na Bélgica. Era avó das senhoras Maria Filomena de Brito Leal de Bivar Weinholtz, Maria Lucília de Brito Leal Monteiro e Isabel Maria de Brito Bivar da Silva e Sabbo; e dos senhores Eng.º Manuel de Bivar Weinholtz, Dr. Luiz Frederico de Bivar Weinholtz, 1.º tenente da Armada José Luís Sales Henriques de Brito, João Artur Sales Henriques de Brito e António Sales Henriques Guerreiro de Brito. Para além destes seus ilustres e mui dignos descendentes, deixou ainda 14 bisnetos.
Ficou sepultada em jazigo de família no cemitério de Pêra, tendo honrado o seu funeral a presença do Governador Civil do Distrito de Faro, eng.º Manuel de Mascarenhas Gaivão, ao lado do Comandante, e seu descendente, José Henriques de Brito, que representava o Ministro da Marinha, o Comandante Geral da Armada e o Director Geral da Marinha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Gabriela da Fonseca de Bivar


Senhora da mais elevada sociedade farense e descendente das mais nobres e prestigiadas famílias algarvias. Era natural de Faro, onde faleceu a 5-5-1950, com 53 anos de idade. Era a esposa do conhecido e muito estimado Raul Cúmano de Bivar Weinholt, vereador na Câmara de Faro e presidente da Comissão Municipal de Turismo.
Dotada de uma educação esmerada, aliava a sua superior inteligência a um soberbo porte de nobreza, quer nos sentimentos como nas atitudes sociais, dedicando-se a obras de solidariedade para com os mais desprotegidos, com especial incidência nas crianças e nas mulheres pobres. As crianças do asilo de Santa Isabel em Faro foram objecto permanente do seu desvelo.
Gozava da mais profunda estima do povo farense, não só pelas suas origens como também pelas suas actividades de benemerência, auxiliando os desfavorecidos com boa parte dos seus bens de fortuna. Do seu finíssimo espírito e preclaras virtudes nasceu em torno do seu nome e da sua casa um ambiente de bondade e uma fama de santidade, que o povo animava a todo o momento com a divulgação de novos gestos de altruísmo e inimitável generosidade.
Um ano antes de falecer declarou-se-lhe uma doença incurável, com a qual lutou com grande coragem, padecendo de doloroso sofrimento que o povo foi acompanhando com indescritível tristeza. Por isso quando faleceu teve o maior enterro de que havia memória na cidade. As senhoras mais ilustres da sociedade algarvia, concentraram-se junto ao féretro, acompanhadas pelos representantes das principais instituições e autoridades locais. O município mandou colocar as bandeiras a meia haste em sinal de luto e em respeito à memória da sua ínclita cidadã.
Era filha de D. Maria Teresa Eusébio da Fonseca e do conhecido industrial José Alexandre da Fonseca, figura de proa da sociedade farense. Era irmã de D. Maria Teresa Fonseca Leal de Oliveira, do industrial José Alexandre Eusébio da Fonseca, do Dr. Manuel Eusébio da Fonseca, do major do Estado Maior, Jorge Eusébio da Fonseca e do comandante Henrique Eusébio da Fonseca, que foi capitão do porto de Olhão.
Era mãe de D. Isabel Luísa Fonseca de Bivar Azevedo e de José Manuel Fonseca de Bivar Weinholtz.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

WEINHOLTZ, Maria Francisca Ribeiro de Carvalho Bivar


Ilustre benemérita e dama da mais nobre estirpe nacional, nascida em terras nortenhas, e falecida em Portimão, a 15-1-1946, com 84 anos de idade.
Veio para o Algarve como esposa do engenheiro agrónomo Francisco de Bivar Weinholtz, também ele pertencente a uma das mais notáveis e tradicionais famílias algarvias, grande benemérito local, estudioso e intelectual, a quem a cidade de Portimão muito ficou devendo.
Uma irmã de D. Maria Francisca havia-se ligado também em Portimão à família Maravilhas, de não menos tradição e popularidade local.
Foi sempre uma bondosíssima senhora, verdadeira protectora dos pobres, tendo nesse sentido presidido durante largos anos à Associação de Caridade de Portimão, financiando várias das iniciativas que ela própria promoveu em benefício dos mais desafortunados. Por essa razão é que o governo a condecorou com o oficialato da Ordem de Benemerência.
O seu funeral transformou-se numa das mais comoventes manifestações de pesar jamais vistas no Algarve, tendo a autarquia decretado luto municipal.
Acresce dizer que o município portimonense, após o falecimento de D. Maria Francisca, entrou imediatamente na posse do chamado palácio Bivar, que por morte de seu marido, e com sua absoluta concordância, coube em partilhas a seu sobrinho, Manuel de Almeida Coelho de Bivar, que por sua vez, no cumprimento dos desejos expressos pelo tio, o doou à Câmara para ser transformado num Hospital, num asilo ou em qualquer instituição de beneficência local.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

VARGAS, Maria da Conceição Santinho


Benemérita local, faleceu em S. Marcos da Serra, vítima de congestão cerebral, a 16-1-1950, com 57 anos de idade.
Bondosíssima senhora, alma de eleição pela sua generosidade e benemerência, sempre preocupada com os desvalidos, que tratou e protegeu de uma forma a todos os títulos exemplar. O facto de ter sido muito esmoler e condoída para com os mais desafortunados, fizeram com que o povo a tratasse como a “Mãe dos Pobres”, devido aos gestos e atitudes que tomou em favor dos indigentes. Aliás, nesse sentido merece salientar o facto de haver doado um vasto terreno no qual se construiu a residência do médico e as instalações da farmácia de S. Marcos da Serra, na altura pouco mais do que uma vilória esquecida no mapa.
Era casada com o abastado proprietário e industrial José Ventura Vargas, de quem teve dois filhos: Mário Santinho Vargas e de José Santinho Vargas.
O seu funeral foi a maior manifestação de pesar que algum dia se realizou naquela vila.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

TENGARRINHA, Teresa de Jesus Marques do Carmo


Nasceu em 1895, na vila de Monchique, e faleceu, de doença incurável, na sua residência de Portimão, a 31-12-1956.
Era uma senhora de reconhecidos dotes para as artes, embora fosse também grande apreciadora das Belas Letras. Casou-se com José Mendes Tengarrinha Júnior, agente do Banco de Portugal na cidade de Portimão, onde era muito estimado e apreciado pela sua educação, honradez e lisura de trato.
Era irmã de D. Maria Isabel Marques do Carmo de Oliveira Correia e do Dr. José Marques do Carmo, juiz desembargador muito conceituado na capital.
Foi mãe, extremosa e dedicada na apurada educação de seus dois filhos, que se tornariam notáveis cidadãos e reconhecidas figuras públicas na área da política, da cultura e da educação, refiro-me à Dr.ª Maria Margarida do Carmo Tengarrinha e ao Prof. Doutor José Manuel Marques do Carmo Tengarrinha.
Encontra-se sepultada no cemitério de Monchique.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

SOARES, Mariana Pacheco


Pianista e compositora, natural de Faro, onde faleceu a 26-6-1951, com 91 anos de idade.
Distintíssima senhora, de esmerada educação e bondosíssimo carácter, uma das principais figuras femininas de Faro do princípio do século XX.
Exerceu o magistério da música durante mais de sessenta anos, educando gerações sucessivas de jovens oriundos das melhores famílias locais. Além da docência dedicou-se também à difícil arte da composição, escrevendo partituras de grande nível e exigente execução. No decurso dos anos foi granjeando a admiração e o prestígio dos seus conterrâneos, a ponto de se tornar numa venerável artista, uma espécie de patriarca da cultura musical algarvia.
As suas composições musicais foram publicadas e comercializadas pelas melhores casas da especialidade em Lisboa. Algumas dessas músicas foram escritas com objectivos pedagógico-didácticos, razão pela qual foram adoptadas em muitas escolas de instrução musical, tornando-se o seu nome muito admirado em todo o país.
Foi mãe da também distintíssima pianista D. Maria Isabel Pacheco Soares que o Algarve tanto admirou.