sábado, 20 de fevereiro de 2016

Morreu o último sábio do nosso tempo, UMBERTO ECO


Vítima de cancro, de que padecia há vários anos, faleceu na noite de sexta-feira, dia 19-02-2016, no conforto da sua casa de Milão e junto da família, aquele que sempre considerei como o último sábio da humanidade. A imprensa vai certamente referir-se a ele como o escritor italiano, autor do best-seller «O Nome da Rosa», adaptado ao cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud, com Sean Connery com protagonista. Nada mais redutor. Umberto Eco foi escritor apenas por diversão e desafio, porque na essência da sua alma estava a insatisfação e a necessidade de criar novos caminhos nunca antes percorridos. Acima de tudo foi um filósofo que percorreu um longo trajecto intelectual, abarcando todos os conhecimentos primordiais do humanismo, desde a matemática e a geometria até à astronomia, passando pela arte e a linguística, até culminanar na semiótica. De tudo procurava saber este insaciável cidadão do mundo culto, figura cimeira da humanidade ilustrada.
Foi através da publicação, em 1980, do seu primeiro romance, «O Nome da Rosa», que o seu nome extravasou as fronteiras naturais da Europa. Rapidamente a obra alcançou um enorme sucesso internacional, traduzido nas principais línguas mundiais, vendendo milhões de exemplares. 
Embora a sua lista de obras seja vastíssima, principalmente no ensaísmo de foro académico, sobre semiótica, linguística, estética e filosofia, foi sobretudo na literatura e no género do romance que alcançou prestígio e sucesso. Destaco aqui O Pêndulo de Foucault editado em 1988, A Ilha do Dia Anterior (1994), Baudolino (2000), A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2004) e O Cemitério de Praga (2011), este último considero primoroso pela ousadia como classifica tão despudoramente os alemães e os judeus, não os poupando aos mais insultuoso adjectivos.
No ano passado saiu na Gradiva o seu último romance, «Número Zero», que é uma severa crítica ao mundo do jornalismo. Eco não poupa o mundo da imprensa, a submissão do jornalista ao índice de vendas, a especulação e a mentira, a implacável destruição do bom nome dos cidadãos, a corrosão da moral e da honra, em suma a perversão da ética e da integralidade profissional para satisfação de velados interesses, quer da política quer da finança. 
Presentemente, e apesar de aposentado do mundo académico, Umberto Eco desempenhava as honrosas funções de presidente da Escola Superior de Estudos Humanísticos, na Universidade de Bolonha.
Morreu hoje o último sábio do nosso tempo. O dia começou triste e deprimente. Vou recomeçar a ler «O Cemitério de Praga», e rezar uma oração pela alma de um dos principais mentores da minha vida académica e intelectual.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Movimento demográfico do distrito de Faro em 1906


Os historiadores que gostam de trabalhar as fontes demográficas sabem que os registos paroquiais existentes nas igrejas (os mais antigos depositados nos arquivos históricos do município, do distrito ou da Torre do Tombo), são um incontornável manancial de informação. Não querendo saturar a paciência dos meus leitores, vou deixar aqui um breve apontamento sobre os casamentos, batizados (nascimentos) e óbitos, registados no distrito de Faro desde 1 de janeiro até 30 de junho de 1906.
Casamentos foram no total 860, com a curiosidade dos homens serem 782 solteiros e 78 viúvos, e das mulheres serem 824 solteiras e 36 viúvas. O número de homens que fazem segundas núpcias é o dobro das mulheres. Não há nenhum caso de nubentes em terceiras núpcias. É curioso que 68 dos casamentos foram celebrados entre parentes do 1º e 2º grau, ou seja, 4 foram de tios com sobrinhas e 64 foram de primos com primas, a maioria dos quais oriundos da classe alta ou média alta. Entre os 860 esposos constata-se que só 212 assinaram os termos dos casamentos, e entre as esposas só assinaram 221. Os casamentos revelam que o índice de alfabetização social era muito baixo, sobretudo entre os homens, e nas classes laboriosas. No total percebe-se que 1287 são analfabetos (648 homens e 639 mulheres) sendo que só 433 dos nubentes sabem ler e escrever. Outra curiosidade é que 855 dos esposos são portugueses (a maioria oriundos do Algarve) e 5 são espanhóis, do distrito de Huelva; entre as 860 esposas só uma era espanhola.
Nascimentos foram no total 4209, dos quais 2133 eram masculinos e 2076 femininos. Portanto nasciam mais homens do que mulheres, uma tendência que se mantinha de anos anteriores, e que parecia querer equilibrar o índice demográfico dos géneros, que era largamente favorável às mulheres.
Óbitos foram no total 2298, dos quais 1246 eram homens e 1052 eram mulheres. Por conseguinte, registou-se um crescimento demográfico positivo, pois a diferença entre os nascimentos e os óbitos foi favorável em 1911 indivíduos, dos quais 887 eram meninos e 1024 eram meninas.

Só por curiosidade se acrescenta que o índice da mortalidade infantil era já muito baixo, com uma taxa de sobrevivência acima dos 80% após o primeiro ano de vida. Entre a classe alta e média alta não constam nados-mortos nem falecimentos em trabalho de parto.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

A Rua de Santo António, em Faro

Rua de St.º António, em 1913
No século XX, sobretudo após a I Guerra Mundial, o centro nevrálgico da cidade de Faro, isto é, o eixo económico urbano, deslocou-se para a zona ribeirinha da comummente designada "baixa de Faro", tendo como palco a nova Rua de Santo António para a qual se transferiram as actividades culturais e o convívio social da burguesia farense.
Na verdade, a Rua de Santo António é a expressão viva de uma nova era - o liberalismo, traduzindo em si mesma os efeitos do reordenamento socioeconómico no urbanismo das cidades. Na verdade, ela reflecte a perpendicularidade social e a fluidez económica do novo regime, cuja praxis política se consubstanciava na democracia. Se analisarmos a urdidura socioeconómica dessa rua, vemos que ali se concentraram as instituições orgânicas do capitalismo (banca, seguros, câmbios e até a bolsa clandestina do Aliança), a par dos clubes de elite e do comércio selectivo (ourivesarias, lojas de vestuário parisiense e londrino, livrarias, sapatarias, chapelarias), a que devemos acrescentar os locais de convívio sociocultural: cafés, salões de chã, teatro e cinema.
A Rua de Santo António era o espelho da modernidade e do progresso. Mas, para os mais antigos, ela era apenas a continuação da mui antiga e tradicional Rua do Rego [actual Rua D. Francisco Gomes do Avelar],, que existia na baixa da cidade desde os longínquos tempos medievais. Os limites da cidade terminavam nessa época praticamente na chamada Horta da Mouraria [entre a actual ourivesaria Miranda e a pontinha que atravessava a ribeira que desembocava na Alagoa], que fechava a antiga Rua do Rego, cuja orientação aponta para na direcção da colina fronteira à cidade, no sopé da qual corre a estrada de Olhão, e em cujo alto se erigiu a ermida de St.º António.
Drogaria Pinto, actual loja de Modas Sayonara, em Faro 
Quando nos meados do século XIX a autarquia decidiu esventrar ao meio a Horta da Mouraria, para abrir uma nova artéria a régua e esquadro, não havia então um nome para se lhe atribuir, ficando sob o baptismo popular de "Rua a Santo António do Alto". Mas, quando em 1895 se comemorou a nível nacional o Centenário de Santo António, a autarquia decidiu homenagear o grande taumaturgo nacional, atribuindo-lhe o nome à artéria mais moderna da cidade, onde já estavam a concentrar-se algumas importantes empresas comerciais e casas de câmbios. A notoriedade da nova rua tornara-se visível a partir do último quartel do séc. XIX, quando algumas famílias da nobreza e da alta burguesia começaram a construir as suas residências na popular Rua a Santo António do Alto, designação pela qual era popularmente conhecida.
Entre as famílias que decidiram assentar arraiais na nova rua, destacava-se a dos Pantojas, a dos Carvalhal de Vasconcelos, e outros. As suas residências nobres, quase apalaçadas, de imponente traço arquitectónico, ainda hoje se distinguem na volumetria original da rua de Stº António.
Rua do Rego, actual D. Francisco Gomes, em Faro
A antiga Horta da Mouraria ocupava quase metade da rua, e, mais ou menos no sítio onde ficava a casa dos rendeiros agrícolas, se encontra hoje todo o complexo arquitectónico do Cine-Teatro Farense.
A Rua de Santo António adquiriu grande notoriedade e indisfarçável proeminência a partir dos finais da década de quarenta do século passado, quando o comércio e as filiais bancárias se transferiram da antiga Rua Direita (actual Rua Manuel Bivar) para a Rua de Santo António. Devido à abertura da nova entrada na cidade, através da actual Rua Teófilo da Trindade, o trânsito automóvel passou a orientar-se na direcção da baixa da cidade, confluindo na Rua de Santo António, como centro nevrálgico da actividade económica da cidade.
Mais tarde, nos anos setenta, a rua de Santo António seria encerrada ao trânsito, cobrindo o seu piso de calçada portuguesa e convertendo o seu traçado original num espaço de circulação pedonal. Foi um sucesso para as actividades mercantis da cidade praticamente até ao encerramento do século XX.
Presentemente, devido ao pagamento de estacionamento na baixa da cidade, assim como à construção fora da cidade de um enorme centro comercial (Fórum Algarve), moderno e espaçoso, onde se pode encontrar diversos tipos de actividades mercantis, e mesmo lúdicas, a Rua de Santo António, assim como a generalidade da cidade, perdeu o seu atractivo natural de espaço de convívio e de referência na vida quotidiana dos cidadãos farenses.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Algarve, Serro do

José Joaquim Nunes
Existe um pequeno monte, acidente geográfico que nesta região costuma denominar-se como "Serro", situado a nordeste da aldeia de Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, da qual dista cerca de 4 km, o qual vem registado nas cartas militares com a curiosa designação de «Serro do Algarve». No sopé do referido Serro corre uma ribeira denominada da "Mulher Morta", a mesma que serviu de enquadramento à novela de Manuel Teixeira Gomes intitulada «O Sítio da Mulher Morta». 
Parece um contrassenso, ou falta de imaginação, atribuir-se-lhe tal designação, mas julgo que se deve ao facto do mesmo se encontrar nas imediações do concelho, numa zona mais elevada, integrada no sistema vulgarmente designado por serra algarvia.
No chamado "Serro do Algarve" encontra-se uma gruta de formação calcária, que nos finais do séc. XIX, suscitou a curiosidade da juventude ilustrada, atraída pelas recentes descobertas arqueológicas nas cidades romanas de Pompeia e Herculano, soterradas pelas cinzas do Vesúvio.
Um dos exploradores dessa gruta foi o Dr. José Joaquim Nunes (1859-1932), um dos conceituados vultos da intelectualidade algarvia, natural de Vila Nova de Portimão, que foi sacerdote até à implantação da República, abraçando depois a carreira docente, primeiro no ensino liceal e no Colégio Militar, depois na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Do resultado das suas explorações na Gruta do Serro do Algarve publicou o Dr. José Joaquim Nunes, um curioso ensaio no «Archeologo Portugues» 1ª série, vol. III, 1897, pp. 95-96, do qual deixamos aqui o respectivo para consulta dos possíveis interessados.
http://www.patrimoniocultural.pt/static/data/publicacoes/o_arqueologo_portugues/serie_1/volume_3/95_grutas_algarve.pdf

Barbosa, Teresa da Silva Fernandes Dias

Esta ilustre senhora, que residia nos arredores da cidade de Braga, descendia de importantes e muito respeitáveis famílias, oriundas das melhores linhagens da fidalguia minhota. Os seus vultados bens de fortuna foram-se esvaecendo com o decorrer dos tempos, agravando-se com o advento da República. Sei que era senhora educada e muito respeitada, sendo presença assídua nas acções de benemerência social e nos eventos religiosos da diocese bracarense. A única referência de interesse para este blogue é o facto de ter sido a mãe de D.ª Maria das Dores Dias Barbosa, que após casar com o pintor Carlos Augusto Lyster Franco, ao tempo professor do Liceu Nacional de Faro, veio residir na capital do Algarve, em casa fronteira ao largo de São Francisco, onde nasceu o seu único filho, Mário Lyster Franco, que viria a ser um notável jornalística, escritor e causídico.
Lembro que o pintor Lyster Franco era natural de Belém, nessa altura um concelho autónoma que ainda não se havia integrado em Lisboa. Casou com uma senhora de Braga, e o filho de ambos foi talvez o mais proeminente e genuíno algarvio de todos os tempos.
Para terminar esta breve nota de interesse regionalista, resta-me acrescentar que Dª Teresa Dias Barbosa, faleceu no dia 7 de Junho de 1932, ignorando, porém, que idade possuía aquando do seu passamento.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Maria Francisca da Silva Pinto Ribeiro

Conheci esta senhora de algumas visitas que fiz a sua casa na companhia do Prof. Gomes Guerreiro, que nessa altura se deslocava esporadicamente a Faro em missão de trabalho. Estávamos no início dos anos oitenta e nessa altura fazia as primeiras demarches com vista à instalação da Universidade do Algarve, recém criada em 1979. Foi ele, aliás, quem me convidou para leccionar na Universidade do Algarve, em Março de 1983. Até hoje. Já lá vão quase 32 anos.
A Maria Francisca era natural de Faro e residia numa daquelas ruas paralelas à Igreja de S. Francisco que davam acesso ao histórico celeiro do mesmo nome. No enfiamento dessa rua morara também, nos anos 40-50, o poeta António Ramos Rosa, na companhia de seus pais. A razão de eu ter conhecido a Maria Francisca deveu-se ao facto de ser irmã da Dr.ª Julieta da Silva Pinto Ribeiro, minha saudosa amiga, esposa do Prof. Manuel Gomes Guerreiro, reitor da Universidade do Algarve. Quando este vinha a Faro, ainda na fase de instalação da nossa Universidade, costumava ficar alojado na casa da cunhada. Em 1983, o Prof. Gomes Guerreiro fixou residência em Faro, mas todas as semanas ia com a esposa jantar a casa da cunhada.
Era uma senhora muito simpática, alegre e inteligente, que tinha sempre algo interessante para contar sobre os costumes e tradições das gentes algarvias, sobretudo das aldeias serrenhas. Das conversas que tivemos deu para perceber que se sentia muito orgulhosa das suas origens e do progresso da sua cidade natal. Tinhas expressões muito curiosas, próprias do regionalismo algarvio, e sabia muitas histórias sobre a ardilosa mentalidade das gentes da serra. Não confundir com os que vinham das aldeias ou do campo até à cidade de Faro, vender as suas produções agrícolas, ou cuidar das suas vidas, porque a esses costumavam chamar "montanheiros". Por outro lado, a Maria Francisca, conhecera muita gente de que se recordava ao pormenor. Das nossas conversas colhi sempre bons informes, nomeadamente sobre a família Ramos Rosa.
Além da Drª. Julieta da Silva Pinto Ribeiro, tinha mais dois irmãos: Maria Rosa Pinto Ribeiro, que foi chefe dos CTT em Messines, casada com Justino das Neves Mascarenhas, funcionário da Caixa Geral de Depósitos, em Portimão; e Fernando Pinto Ribeiro, quadro dirigente do Hotel Tivoli, em Lisboa, casado com Maria José Pinto Ribeiro.
A Maria Francisca da Silva Pinto Ribeiro não foi propriamente uma mulher notável, com uma vida preenchida por actividades sociais dignas de relevo. Foi uma simples cidadã que me honrou com a sua amizade. E isso me basta para aqui a relembrar com muita saudade.

Faleceu precocemente em Lisboa, com apenas 59 anos de idade, em Abril de 1985.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Maria Isabel de Roldan Ramirez

Foi uma das senhoras mais distintas da sociedade algarvia do seu tempo. Era natural Vila Real de Santo António e veio a falecer em Lisboa, com 85 anos de idade, em meados de Março de 1983.
Na sua juventude foi uma das mais belas jovens da foz do Guadiana, educada e inteligente, de espírito muito alegre, sempre disposta a colaborar nas manifestações de carácter religioso, cultural e associativo, sobretudo quando tivessem por objectivo a solidariedade social.
O facto de ter sido casada com o eng.º Sebastião Garcia Ramirez, figura muito respeitada no Algarve, que foi ministro e deputado no antigo regime, permitiu-lhe dedicar-se a obras sociais de protecção dos desvalidos e de auxílio aos mais desfavorecidos. Na capital participou em várias actividades de solidariedade social e de protecção das mulheres, tanto na doença, como na formação profissional, na puerícia, na higiene e no conforto familiar. Fez uma vida a pensar nos outros, sobretudo nas crianças que dependiam de cuidados especiais, angariando fundos e outros meios para auxiliar na educação e na saúde dos mais desprotegidos.

Creio que tinha uma única irmã, a sr.ª D.ª Valentina Roldan Dourado, de cuja descendência sei muito pouco. Era cunhada de D. Maria del Carmen Sanches Ramirez, e de D. Maria Emília Ramirez Sanches, que foi casada com o eng.º Francisco Ortigão Sanches.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

As Origens e Desenvolvimento do Ensino em Faro

São intrinsecamente religiosas as origens do ensino em Portugal. E se nos primeiros tempos cabia aos Dominicanos, Beneditinos, Agostinianos a missão de educar, a partir de meados do século XVI o ensino tornara-se praticamente monopólio dos inacianos. A reforma Pombalina do ensino constitui a pedra basilar do nosso sistema educativo. Essa reforma atribuía a todas as cidades e vilas do reino uma escola de «aprender a ler, escrever e contar». Em 1836, Manuel da Silva Passos, procedeu ao reordenamento educativo, criando os Liceus Nacionais, as Escolas Médico-Cirúgicas, as Escolas Politécnica de Lisboa e do Porto, o Conservatório de Arte Dramática, as Academias de Belas Artes de Lisboa e do Porto, a Escola do Exército, etc. Nunca se tinha ido tão longe numa reforma educativa.

Em 1849 abriu portas o Liceu de Faro. Daí por diante, assiste-se à fundação das escolas de Desenho Industrial Pedro Nunes, a Escola Primária Superior, a Escola Normal Superior, a Escola Comercial e Industrial Tomás Cabreira, o Magistério Primário, a Escola de Hotelaria e Turismo, o Instituto Politécnico e a Universidade do Algarve.

Museu Antonio de Faro, e o turismo no Algarve

No contexto museológico da cidade de Faro assume particular interesse o Museu Antonino, que, reunindo características populares, perpectualiza justamente a memória de um dos mais antigos padroeiros desta cidade: Santo António. A ermida de Stº António do Alto, onde se acha inserido o Museu, situa-se na mais alta colina da cidade, que em tempos idos foi uma primitiva torre de vigia da costa (as conhecidas atalaias), que para contrariarem as constantes investidas dos corsários árabes davam o sinal de rebate chamando as populações a defenderem os seus haveres. Igualmente ali se verificaram sangrentas lutas, durante a guerra civil de 1832-1834, pela posse do mais estratégico ponto militar da cidade, facto esse que era há anos facilmente constatável pelos buracos das balas incrustadas nas paredes do edifício, mas que, infelizmente, são hoje irreconhecíveis devido aos trabalhos de reboco e restauro mandados executar pela edilidade.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Museu e a Escola

O museu é, no seu próprio contexto geográfico, o mais valioso espólio do património local. Nele se deposita a memória dos nossos antepassados e através dele poderemos fazer uma verdadeira e alucinante viagem no tempo. Aí se contacta com testemunhos insubstituíveis cuja observação e estudo nos farão compreender melhor a nossa história. Porém, há que preparar convenientemente essa visita para que não nos confrontemos com situações ou peças museológicas que nada nos dizem por lhes desconhecermos o significado. Não vale a pena levar as crianças a visitar uma praça-forte sem terem previamente uma noção do que foi e em que consistiu o feudalismo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

CAPA, Encarnação Piloto

Senhora de excelsas qualidades humanas, natural de Vila Real de St.º António, onde viria a falecer nos princípios de Agosto de 1965, com a provecta idade de 90 anos. Descendia de uma prestigiada família local, de grandes tradições mercantis na faixa raiana do Guadiana, desde a cidade de Beja até à Vila Pombalina, que marcou vincado relevo na vida económica algarvia dos princípios do século vinte. Mercê da sua bondade e dedicação aos mais desfavorecidos deixou viva saudade não só nos que a conheceram como sobretudo nos seus honrados e orgulhosos descendentes.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

COMO SE FAZ UMA RECENSÃO CRÍTICA

Uma recensão crítica é uma avaliação e como tal deve ser operada com rigor e isenção, unicamente por especialistas na matéria cuja apreciação deve ser chancelada por uma instituição científica, para que a mesma possa ter credibilidade e ser objecto de referência. O recensor (passo o neologismo) é um ser crítico, que deve pugnar pelo progresso da ciência e do conhecimento, através do seu distanciamento da obra e do autor, fazendo da isenção e da objectividade a sua bandeira e o seu lema de trabalho. Basta estes dois atributos para que a sua recensão possa ser credível e respeitada.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Opus Latericium - Termos técnicos de construção civil romana no Algarve (2)


No anterior spot sobre o "Diamicton" referi-me, de passagem e sem grandes pormenores, ao "Later". Pois bem, agora vou acrescentar mais alguma coisa, não muito para não maçar os meus leitores.
Tijolo com marca de oleiro, das ruínas de Milreu
O "later" é, em suma, um vulgar tijolo de barro, que, quando menos espesso e grosseiro, pode também chamar-se ladrilho. Neste caso servia para cobrir o chão das casas, as paredes exteriores e até os arcos das abóbadas de berço, de canudo ou de meio canhão, tão características da arquitectura romana. Os tijolos romanos diferenciam-se dos de hoje pela sua forma densa, compacta e alongada.
Existem várias denominações para o tijolo romano (later), conforme a sua cozedura e tipo de fabrico. Assim, classifica-se como "later crudus" o tijolo rudimentar, feito à mão em barro cru, que é cozido ao sol. Era algo semelhante ao tijolo adubino, que remonta ao Antigo Egipto, e que ainda hoje se usa nas construções em taipa e adobe, muito comum na zona do Magreb. Mais perfeito e exigente, na sua composição e moldagem, por ser cozido em forno, é o "later coctus", por vezes nomeado somente por "coctilis".
Logicamente obedeciam a vários formatos e feitios, e por isso eram autenticados pelo próprio fabricante, que neles gravava o seu nome ou o da olaria. Aliás isso é perfeitamente visível nos vários e diferenciados "lateres" que foram encontrados no Milreu, e se encontram actualmente depositados no Museu Arqueológico e Lapidar Infante D. Henrique, em Faro.
A oficina ou olaria onde eram fabricados os tijolos de barro chamavam-se "lateraria", e em Ossónoba, actual Faro, existiram várias.
"Laterculus" era a designação que se dava aos tijolos e ladrilhos de pequenas dimensões, o que, por extensão, passou a chamar-se também a qualquer objecto de barro que tivesse o mesmo feitio. Por isso, há que ter cuidado e muita atenção, porque os arqueólogos, nomeadamente os italianos, usam a classificação "laterculus" para todos os pedacinhos de barro que, sem saberem do que se trata, registam nos seus espólios e até nos inventários dos museus.
trecho de parede construída em "opus latericium",
Por "Latericius" designava-se tudo aquilo que fosse construído com tijolos de barro grosseiro ou com ladrilhos de fraca qualidade. O chamado "opus latericium" é o aparelho de construção usado pelos romanos para encher as cofragens das paredes dos edifícios. Não esqueçamos que alguns dos edifícios e monumentos da Roma antiga tinham vários andares, e até as populares "insulae", onde residia o povo miúdo da cidade, eram erigidas em tijolo e madeira de fraca qualidade, mas não ruíram senão às mãos dos bárbaros. As técnicas de construção dos romanos eram fiáveis e muito avançadas para o seu tempo, recorrendo muitas vezes à cal hidráulica, uma técnica que levamos quase mil anos para descobrir como se fazia.

Em "opus latericium" é construída uma parte do edifício designado por templum que se encontra nas ruínas do Milreu.

domingo, 11 de maio de 2014

LÁBDANO, a resina da esteva


A flor da Esteva
   Designa-se por Lábdano ou Ládano a planta silvestre, muito vulgar por entre os matos do sul peninsular, conhecida por Esteva. A sua designação científica, cistus ladanifer, deriva precisamente do lábdano, que é o óleo resinoso que cobre as folhas verde escuras da planta. Quem já andou pelas matas algarvias por certo já colheu a flor da esteva, seduzido pelo aroma da sua resina, que supunha ser o perfume da flor. Embora seja uma planta silvestre, a esteva é de uma beleza ímpar e sedutora. Apresenta-se em forma de arbusto, com mais de um metro de altura, e tem uma flor grande de uma brancura imaculada. Possui cinco pétalas muito finas, com uma pinta bordeaux em forma de ponta de lança. Ao centro os estames amarelos cintilantes parecem uma coroa de fios de de ovos. Há quem lhe atribua propriedade medicinais únicas. Em chã é muito recomendado o chã das flores para o colesterol e a rama para o combate ao ácido úrico. Muitas outras propriedades lhe são atribuídas, que não vem agora e aqui ao assunto.
   Uma das suas utilidades, depois de seco o arbusto, é como combustível natural. Antigamente, nos campos algarvios, cozinhava-se com o fogo da esteva, pois que sendo uma planta lenhosa e resinosa transforma-se facilmente num combustível de fácil incineração. A chama do fogo da esteva é muito luminosa e incandescente, mas dura pouco, porque a planta-se consome-se rapidamente. Por isso é muito boa para acender o fogo das actuais lareiras, funcionando como uma espécie de acendalha natural. Quando no verão as florestas ardem por esse país fora, a esteva é o maior inimigo dos bombeiros.
   Mas o mais importante da esteva é o Lábdano, essa natural exsudação resinosa e aromática que ressuma das suas folhas, muito empregue na indústria da perfumaria, e actualmente também na farmacologia. A forma como era capturada antigamente constitui o cerne deste apontamento. O método era rudimentar, mas creio que ainda hoje não se conhece outro. Fazia-se do seguinte modo: dois homens seguravam nas pontas de uma corda de crina (feita geralmente com a lã da ovelha) e passavam-na meticulosamente por cima das estevas para capturar a resina. Havia também quem improvisasse atando cordéis a um pau curto e com ele se sacode todas as manhãs as plantas, enquanto estão cheias de orvalho. O método mais rudimentar era o dos pastores, que levando os seus rebanhos para os matos das estevas, costumavam ao fim do dia pentear pacientemente a lã do pescoço e do dorso dos animais, para dela extrair a resina. Apanhada a resina tratava-se depois de a derreter em lume brando até que por fim se deixava coalhar.
   A principal utilização industrial da resina da esteva é na preparação da perfumaria, onde é empregue como fixador. Por isso, no século passado houve um indivíduo francês que passando pelo Algarve verificou que a esteva era uma espécie de praga natural que se desenvolvia sem custos nem trabalhos. Logo fez divulgar pela imprensa regional que iria aqui fundar uma fábrica de perfumes. O caso subiu às instâncias superiores que acolheram a ideia com júbilo. Só havia um pequeno pormenor: o indivíduo não tinha capital para fundar a indústria, mas tinha o saber especializado para extrair a resina e começar a produzir perfumes no Algarve. É claro que se fosse hoje o homem estava garantido. Mas, naquela altura, o governo mandou-o primeiro arranjar o capital junto dos investidores do país dele, e só depois é que estaria disposto a recebê-lo para se pensar nessa tal indústria dos perfumes do Algarve.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

DIAMICTON - Termos técnicos de construção civil romana no Algarve


Edifício do Templum de Milreu
O diamicton consiste na forma de aparelho usada pelos construtores romanos nas paredes e muros dos edifícios que encontramos em diversas estações arqueológicas no Algarve, como por exemplo em Milreu.
As superfícies exteriores dos edifícios romanos eram feitas em pedra ou cobertas de ladrilho, mas o centro, isto é o grosso da parede, era preenchido com pequenas pedras e argamassa. É esta a forma de construção que se encontra nas ruínas do Milreu. Aí o revestimento exterior é em "later", ou seja o conhecido "opus latericium" muito comum no sul peninsular, enquanto o revestimento interior é uma espécie de alvenaria grosseira.
O "diamicton" diferencia-se do "emplecton" porque este tinha a mais o chamado "diactoni", isto é, uma espécie de pedra talhada que de espaço a espaço atravessava toda a espessura da parede, contribuindo para a sua solidez.
Panorâmica da estação arqueológica da Villa do Milreu
Ver outras formas de construção de paredes romanas nas minhas fichas sobre "Caementicia" e "Isodonum".
Como nota curiosa acrescentarei que era também o "diamicton" o sistema de construção empregado no "balineum" luso-romano descoberto em S. Vicente do Pinheiro (ver crítica a um trabalho sobre o assunto publicado no «Arqueólogo Português», vol. VIII, p. 167)
Ao "diatoni", atrás referido, e característico do "emplecton" chama-se na crítica "junteiros".

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Sermão de Stª. Clara proferido em Faro por Frei Francisco de Santo Ambrósio no ano de 1681


Trago hoje a terreiro a notícia de se haver publicado, em 1681, um notável Sermão pronunciado na sé de Faro, por um ilustre, mas quase desconhecido franciscano, que dava pelo nome religioso de Frei Francisco de Santo Ambrósio. Confesso que pouco sei acerca do seu trajecto de vida, que deve ter percorrido com extrema humildade. O que dele conheço são uns breves fogachos referenciados oficialmente no seu desempenho eclesiástico. Assim, toda a gente sabe que o nosso Frei Ambrósio professou na Ordem de S. Francisco, na Província da Piedade, na qual se integrava o sul territorial, sendo por isso de admitir que se não nasceu no Algarve era provavelmente alentejano. Todavia, nada nos pode asseverar certezas, visto serem demasiados os casos que excedem e contrariam este raciocínio. Sei também que foi «religioso observante», isto é, pertencia às chamadas OFM (Ordem dos Frades Menores), que neste caso era a dos Frades Franciscanos Observantes, com regra simplificada pelo Papa Leão XIII (das Reformas1368 e 1897, cujo hábito era castanho com capuz curto). Os religiosos observantes eram mais populares, porque embora fizessem voto de pobreza, castidade e obediência, não estavam obrigados à reclusão conventual, andando por isso na “observação do mundo”, isto é, andavam na rua, colaborando com as populações em diversas actividades assistenciais. Por isso é que os seus conventos eram normalmente dentro das cidades para melhor interagirem e cooperarem com as populações urbanas, mais atreitas aos pecados mundanos e mais carecidas de assistência moral e religiosa.
Sabemos também que foi «Qualificador do Santo Ofício», isto é que foi agente especializado na censura de obras literárias e na pesquisa de ideias, atitudes e gestos que contrariassem a pureza da religião Católica Apostólica Romana. Os Qualificadores eram odiados dentro e fora da Igreja, porque deles partia a denúncia para do Santo Ofício. Na vida civil o seu equivalente eram os «Visitadores de Naus», agentes da autoridade que fiscalizavam as mercadorias que chegavam nos barcos estrangeiros para impedirem a entrada de livros e de folhas volantes que propagassem as ideias protestantes.
Além de censor foi também Guardião, isto é, frade superior ou principal dirigente, dos Conventos de S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Évora, da Vila de Odemira e da Cidade de Faro. Foi também Examinador, isto é, fazia a selecção dos melhores noviços conventuais para prosseguirem a vida religiosa, mas também fazia de analista ou avaliador sinodal. Foi, por fim, Confessor penitenciário do Bispado do Reino do Algarve e Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcântara, o que significa que superintendia no exercício sagrado da confissão aos sacerdotes, frades e freiras. Acima de tudo o nosso Frei Ambrósio, apesar dos cargos exercidos, nunca deixou de ser um simples Assistente no Convento de S. Francisco, em Lisboa. Por fim sei que faleceu no ano de 1700.
Da sua obra aqui ficam as referências de tudo o que veio a público, o que não sendo muito pode porém considerar-se notável, pois que a imprensa nessa época era um luxo e a edição em letra de forma, de um livro ou de um simples opúsculo, como era o caso dos sermões, dava ao seu autor uma reputação de que poucos se podiam vangloriar. Da sua lavra apenas possuo um raro exemplar do:
SERMAM DA GLORIOSA MADRE S. CLARA PREGADO NO CONVENTO DAS Religiosas de sua primeira regra da Assumpçaõ da Cidade de Faro; estando o Santissimo Sacramento manifesto. OFFERECIDO A SENHORA SOROR THEREZA MARIA DE JESUS, FILHA DO EXCELENTISSIMO SENHOR DVQVE DE CADAVAL. NO REAL CONVENTO DAS RELIGIOSAS Capuchas da primeira regra da gloriosa madre S. Clara, de N. Senhora da Quietaçaõ das Flamengas de Alcantara. PELLO R. P. FR. FRANCISCO DE SANTO AMBROSIO CONFESSOR DO dito Convento, Religioso observante da Provincia dos Algarves. Lisboa, Com as licenças necessárias, Na Impressaõ de Antonio Craesbeeck de Mello, Impressor da Casa Real, Anno 1681, [2], 3-21, [1] p. (Na Biblioteca tem a cota: BN TR. 562410 P.)
A edição foi patrocinada, como facilmente se depreende, pelo Duque de Cadaval (D. Nuno Álvares Pereira de Melo), certamente por instância da sua filha, que estava internada como religiosa professa no Mosteiro das Flamengas de Alcântara, onde aliás era confessor precisamente o xabregano Frei Francisco de Santo Ambrósio. Desse respeitoso relacionamento, e da admiração que sentia pelo talento do seu confessor, surgiu certamente o pedido de publicação. Acrescente-se, conforme consta no citado opúsculo, que este sermão disserta sobre o tema "Ave Maria // Simile erit regnum Caelorum decem Virginibus: quae accipientes lampades suas exierunt obviam sponso & sponsae. Math. Cap. 25" (Ave Maria // o reino dos céus é como as dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo e da noiva. Mateus, cap. 25).
Confesso que tive a paciência de ler este sermão na íntegra, mas a experiência não me deixou seduzido a prosseguir a sua obra. A teologia não é seara de fácil penetração, ao contrário do que muita gente pensa. Em todo o caso, este espécime bibliográfico é bastante raro, embora seja obrigado a reconhecer que existem alguns exemplares em Portugal e no Brasil. Possuo outros sermões proferidos no Algarve da autoria de diferentes presbíteros, acerca dos quais devo aditar que são geralmente mais pequenos e mais acessíveis, nas asserções teológicas e filosóficas, dos que os de Frei Francisco de Santo Ambrósio.
Do mesmo Frei Ambrosio conheço um outro sermão com interesse regional, e que espero venha a figurar na Algarviana, o qual, a título de curiosidade, passo a citar:
SERMAM DO PRINCIPE DA IGREJA MEU SENHOR S. PEDRO PREGADO NA SANTA SEE DA CIDADE DE FARO. PELO R. P. FR. FRANCISCO DE S. AMBROSIO. Religioso observante da Provincia dos Algarves. SENDO GUARDIAM DO NOSSO PADRE S. FRANCISCO Da mesma Cidade. OFFERECIDO AO ILLUSTRISSIMO SENHOR MARCELLO DURASSO ARCEBISPO DE CALCEDONIA, E NUNCIO Apostolico cõ poderes de legado a Latere nos Reynos de Portugal. Imprenta Antonio Craesbeeck de Mello, LISBOA, 1681. Descrição: 1 fl. prel. não num., 17(+1) p. (19cm). Na Biblioteca Nacional está inserido numa miscelânea dos Reservados, onde está catalogado com a seguinte cota: RES. 3537//17 P
Obra de Frei Francisco de Santo Ambrósio foi compilada, pouco antes do seu falecimento, no livro que passo a citar, do qual conheço um exemplar na Biblioteca Nacional.
SERMÕES VARIOS, PREGADOS PELO REVERENDO PADRE FREY FRANCISCO DE SANTO AMBROZIO, RELIGIOSO OBSERVANTE, QUALIFICADOR DO Santo Officio, Guardiaõ que ha sido dos Conventos de N. P. S. Francisco de Xabregas, da Cidade de Evora, da Villa de Odemira, da Cidade de Faro; onde foy Exzaminador, [sic] Confessor penitenciario do Bispado do Reyno do Algarve, Confessor do Real Convento das Religiosas Flamengas de Alcantara. ASSISTENTE EM O CONVENTO DE N. PADRE S. Francisco, desta Cidade de Lisboa, Provincia de Portugal. OFFERECIDO AO EXCELLENTISSIMO SENHOR MARQUEZ DE ALEGRETE PRIMEYRA PARTEImprenta BERNARDO DA COSTA, LISBOA, 1696. Este exemplar apresenta-se com 6 fls. prels., 333 i. e. 323 p. (Existe um erro de paginação: da 169 salta para a p.180).

E é tudo o que sei. Se alguém quiser acrescentar mais elementos que possam completar este breve apontamento, fico muito grato.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

CARVALHO, Helena Emília Coelho de


Foi uma das senhoras mais ricas da sociedade farense no século XIX, e um dos partidos mais invejados pelos jovens do seu tempo. Além da beleza, elegância e instrução, a menina D.ª Helena tinha como principal atributo um notável dote, avaliado em várias centenas de contos, para oferecer a quem a levasse ao altar. E isso não era tarefa fácil, nem ao alcance de qualquer um dos seus jovens pretendentes. Por isso lhe chamavam a Helena de Tróia.
Nasceu, D. Helena Emília Coelho, em 1822, em Faro, na Rua Direita (Hoje Manuel Bivar), mais propriamente no edifício nobre que, nos meados do séc. XX,  serviu de sede ao Círculo Cultural do Algarve. Essa foi, aliás, uma casa com larga história na cidade, porque nela não só se aboletaram os oficias franceses das tropas de Junot, como antes também se havia nela estabelecido a primeira sede da Companhia de Pescarias do Algarve, precisamente pela mão do seu primeiro administrador José Coelho (parente do Marquês de Pombal).
José Coelho de Carvalho, o «Patriarca do Algarve»
Era filha do comendador José Coelho de Carvalho (Pedrógão Grande, 12-1-1776; Faro, 10-1-1856) a quem José Estêvão chamou «o Patriarca do Algarve», que foi o mais notável empresário comercial da cidade, apoiante da causa liberal e de cujo bolso pagou o sustento das tropas do Duque da Terceira, durante a ocupação da cidade em Julho de 1833. Segundo confessou Sá da Bandeira, em plena Câmara dos Deputados, entre 1834 e 1838, ou seja durante o período das guerrilhas, o velho Coelho de Carvalho gastou muitas dezenas de contos com o patrocínio das tropas governamentais. Durante a guerra-civil da «Patuleia», entre 1846-47, recebeu a patente de Tenente-Coronel, armou as milícias de Faro e pagou não só o sustento como ainda o equipamento do «Batalhão de Caçadores do Algarve», que ele próprio fundou para sustentar a causa Setembrista e defender a Junta Governativa do Algarve, à qual também pertencia. À frente desse batalhão colocou o seu filho mais velho, José Coelho de Carvalho Júnior, que conduziu os soldados algarvios até ao campo de batalha, sob comando do Conde de Melo.
A mãe de D. Helena, de seu nome D.ª Ana Ignacia da Cruz Coelho (Faro, 20-9-1797; Faro, 19-12-1868) foi outra das grandes senhoras do seu tempo, amiga dos pobres e das crianças desvalidas, protectora dos artistas e dos músicos, que fez das obras misericordiosas o principal objectivo da sua existência. De tal forma que a Venerável Ordem do Carmo, à qual pertencia a burguesia de Faro, deu-lhe túmulo na capela dos ossos da Igreja do Carmo, que é uma das referências artísticas da cidade.
A origem do seu nome prende-se com a herança da avó, D.ª Helena Carvalho, natural de Stª Catarina de Vila Facaia, concelho de Pedrógão Grande, que ali casou com o seu, julgo que ainda parente, José Coelho, o tal que veio fundar a Companhia de Pescarias do Algarve em Vila Real de Santo António, fixando depois residência em Faro. 
A D.ª Helena acabaria por ser a última sobrevivente dos cinco filhos que constituíram a ilustre prole do «Patriarca do Algarve»:
José Coelho de Carvalho Júnior, nascido em 1814 e falecido em Faro a 29-3-1855; foi vice-cônsul da Áustria, em 1835, e da Bélgica em 1840.
Sebastião José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro a 2-9-1828 e faleceu a 13-6-1874; licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, e abriu banca de advogado em Faro, onde foi também Governador Civil, desde 10-1-1863 até 30-3-1865.
António José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro, a 13-3-1836 e faleceu a 8-5-1887, que se dedicou à administração dos negócios da família e à exploração das suas propriedades agrícolas, que se distribuíam por diversos concelhos do litoral algarvios, desde Tavira até Lagos.
Joaquim José Coelho de Carvalho, nasceu em Faro  em 1833 e faleceu em 1903; casou-se em 1856, em Lagos, com D.ª Camila Rita Ribeiro, rica proprietária local, e por isso foi Presidente da Câmara daquela cidade, aceitando mais tarde o lugar de Governador Civil, entre Julho e Setembro de 1870. Mas antes de casar teve uma relação amorosa com D. Maria das Dores Vizetto, uma bela e jovem tavirense, de origem italiana, que morreu tragicamente com a célebre epidemia do cólera-morbus em 1855. Dessa relação nasceu um filho, o famoso Joaquim José Coelho de Carvalho Júnior (1855-1934), advogado, diplomata e escritor, que viria a ser Reitor da Universidade de Coimbra, presidente da Academia das Ciências, Cônsul de Portugal no Rio Grande do Sul, Brasil (cargo que não chegou a exercer, por pedido de escusa), seguindo depois para Xangai (China), e, após larga interrupção, retomou a carreira consular em Huelva, na vizinha Andaluzia. Morreu no seu castelo do Arade, em Ferragudo, a 18-07-1934, com 79 anos de idade.
Para terminar este breve apontamento, resta-me acrescentar que D. Helena viria a casar com o Juiz-desembargador José Januário Teixeira Leite Pereira Castro, de quem teve um filho, Viriato de Castro, terminando os seus dias na casa deste, em Santa Marta de Penaguião, no dia 12 de Agosto de 1897.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

ALCOUTIM - Alfândega de baixos rendimentos no início do séc. XIX

(para o meu amigo Zé Varzeano, desejando que o seu blogue «Alcoutim Livre» continue a ser um alforge da nossa História Local e Regional)
A vila de Alcoutim, como terra de fronteira, possuía Alfândega, porém quase nada rendia à Fazenda Real (antecessor do atual Ministério das Finanças). Consultei os mapas da Alfândega de Alcoutim, depositados na Torre do Tombo, respeitantes ao século XIX, e os mais antigos que encontrei (com averbamentos) datavam de 1822. Neles constatei que naquele ano apenas se exportou "Cera em Rama" para a vizinha Espanha, e não se registaram importações. A cera, aqui referida, é naturalmente de abelha.
Mas num ofício do Escrivão da Alfândega, António Sebastião de Freitas, datado de 5-8-1822, dirigido à Junto do Comércio, relata-se a extrema pobreza daquela instituição aduaneira:
«(...) Acresce mais dizer a V.S. que esta Alfandega nada Rende nem para a Fazenda Real nem tão pouco emolumentos para os officiaes, pois os mesmos ordenados se lhe estão devendo por não haver rendimento com que se possão pagar. (...)»
Acrescenta ainda, o mesmo escrivão, que nesse ano fez uma apreensão de quatro cargas de peles de chibato que se dirigiam a Espanha, apreensão essa feita de noite e com grande perigo de vida, sendo os contrabandistas ilibados mais tarde e autorizados a recuperarem as suas peles por Ordem do Superintendente das Alfândegas do Algarve.
Por conseguinte, o contrabando fazia-se mesmo nestas fronteiras de escasso movimento alfandegário, e constata-se que o delito compensava o risco, talvez por alguma conivência e corrupção das autoridades vigentes. Por estas e por outras é que a revolução de 1822 foi tão bem acolhida pelas massas populares do Porto e depois de Lisboa.
ANTT, Junta do Comércio, Maço 315, doc. avulso.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O tempo da memória no miradouro da vida

José Carlos Vilhena Mesquita
«Toda a obra de arte é uma personalidade.
O artista vive nela, depois de ela ter vivido
longo tempo dentro dele» J.M.Vargas Vila


A maior interrogação do homem provém da natureza da sua existência. Quem somos, de onde vimos e para onde vamos, não é um esfíngico enigma tebano, nem tão pouco um ancestral mistério da filosofia escolástica grega. É, tão simplesmente, a dúvida fundacional da humanidade, que inspirou credos e religiões, sustentou doutrinas e ideologias, libertou povos e erigiu nações nos mais díspares quadrantes do globo. Mas, no fundo, as dúvidas que infundem esse indecifrável enigma, correspondem tão simplesmente à dimensão natural do tempo, ou seja à sua partição evolutiva em passado, presente e futuro. É essa a dimensão que do nosso Miradouro da Vida conseguimos vislumbrar.
Desde o primeiro frémito de vida até ao último suspiro em que se evola a alma, vemos perpassar pelo mirante da nossa existência o esplendor da criação, o regozijo da posse, o orgulho do saber, a aptidão imaginativa, o talento inventivo, a glória do sucesso, o reconhecimento social e o conforto da velhice. Mas o elo de ligação entre os elementos do tempo e as fases da vida chama-se Saudade. Aos que, no mirante da açoteia da vida, resistiram no vórtice do tempo às Parcas do destino, só lhes resta agora a volúpia de recordar, esse sensual prazer de poder afirmar eu vi, eu estive lá, eu conheci-o, eu sei como tudo aconteceu. O tempo faz a vida e faz o ancião, ambos são sinónimos de experiência e de sabedoria.
A origem da poesia provém etimologicamente do vocábulo grego “poiéw”, que traduz a ideia de fazer e criar. Por conseguinte, desde que os homens se uniram para fazer a civilização e criar o Estado – conceberem a soberania, a liberdade e a cidadania –, coube à poesia a missão de fazer lembrar e transmitir o passado, em palavras encadeadas pela musicalidade da rima, para que fossem facilmente decoradas e repassadas às gerações seguintes. Antes da invenção da escrita e do registo da História, foi a poesia quem uniu os povos e lhes infundiu a dimensão do tempo e a herança do passado, servindo-lhes de arauto e de mentor, para que nunca esquecessem de onde vinham, quem eram e para onde queriam prosseguir o seu caminho.
Daqui se infere que, desde as origens da civilização até ao devir intemporal da humanidade, sempre a poesia marcou indelével presença na transmissão da História e na construção da Cultura. A poesia é, pois, a charneira da Civilização. E mesmo que os povos pereçam e as nações se extingam, ecoará para sempre no Miradouro do Tempo uma voz do passado, como uma prece poética, suplicando aos vindouros que não olvidem os que ficaram para trás, encobertos na bruma da história. Essa voz, impetuosa e arrebatante, é a inconfundível voz dos poetas.
É precisamente essa voz, de lídimo poeta, que tenho a honra de apresentar, nesta progressiva cidade de Albufeira, na pessoa do Dr. Manuel dos Santos Serra, insigne cidadão e figura modelar da medicina algarvia, distinto humanista e incansável defensor dos supremos valores da Liberdade e da Democracia. Poucos serão os que hoje lhe poderão imitar tão profícuo trajeto de vida, porque para tanto lhes faltará não só o génio, como principalmente a humildade, a abnegação e o desprendimento para, em todos e em cada um, ver o irmão que sofre e precisa do seu solidário apoio, nas horas difíceis, em que por vezes, a vida, num segundo, se esvai e a alma se desvanece.
O livro que o Dr. Santos Serra traz hoje a público, tem por título Miradouro do Tempo. É um livro de poemas, que, tal como os anteriores, tem a chancela da Caleidoscópio. Apresenta na capa um belo quadro a óleo, sobre a baía de Sagres, da autoria do notável pintor Samora Barros. Uma opção inteligente e louvável, pois que aquele exímio pintor, e ilustre albufeirense, foi também um admirável cultor das musas.
A obra em si comporta 104 poemas, idealizados de forma livre, sem as peias métricas nem as sonoridades rítmicas, que a ortodoxia lírica impôs nos templos de Orfeu aos adoradores das musas. Uns são curtos e incisivos, enquanto outros são mais alongados nas suas lucubrações filosóficas, nas suas imagens poéticas ou nos seus subterfúgios metafóricos. O livro tem três fases distintas. A primeira é mais lírica, mais artística, mais consentânea com a produção anterior do poeta. Evidencia um espírito sonhador, utópico e idealista, no fundo revela o poeta na sua faceta mais cristalina. Os versos são curtos e os poemas são pequenos, como se fossem medalhões poéticos. Mas o seu embasamento filosófico obriga o leitor a uma reflexão mais atenta e prolongada. O lirismo é omnisciente. Repare-se nos primeiros poemas e na sua ponderação sobre o valor e necessidade da poesia, sobre a conceção poética e as ilusões do poeta. Vê-se que pela escadaria do poema fluem sentimentos de saudade, fantasia e alucinação, recordações de paraísos errantes e de alegrias juvenis, de desilusões, privações e morte. Em alguns poemas constatei recursos estilísticos não verificados em obras anteriores, como é o caso das repetições vocabulares dentro do mesmo verso, o que já não acontece nas fases seguintes do livro. Permita-se-me aqui destacar alguns poemas que se incluem nesta primeira parte: «Magos da Leitura», «Porquê», «Meditando» (verdadeira ode ao Mar), «História» (autobiográfico) e «A magia do verso» (verdadeiro hino à poesia).
A segunda fase do livro começa precisamente com o poema que serve de título a este livro, que merece ser lido, refletido, ponderado, dissecado, anatomizado e vagarosamente comentado. Jorge Luís Borges dizia que bastava um verso para salvar um livro, mas se fosse um poema então salva-se toda a obra do poeta. Neste caso, diria que são muitos os poemas que salvam este livro e dignificam para sempre a memória do poeta Manuel dos Santos Serra.
Esta parte do livro é mais romântica e mais intimista, porque reflete não só as experiências passadas como as vivências privadas do poeta. O prazer de recordar e a nostalgia da memória são muito prementes. Nota-se também nestes poemas uma sincera preocupação ecológica e uma profunda revolta, contra a destruição paisagística e os atropelos ambientais, perpetrados em nome do progresso e da modernidade. O Algarve e suas praias, os lugares históricos e a sua beleza ambiental, são assuntos recorrentes nos seus poemas. O amor e a natureza são nesta fase os temas fulcrais do livro. O amor oscila entre o platónico e o físico, mas o erotismo é a essência e a alma da poesia. A forma velada como se revela a sensualidade do amor é o mais sublime perfume da poesia. Mas é a Natureza que aqui se assume como uma espécie de heroína ou de personagem central, em torno da qual decorre o Tempo, esse invisível espaço pelo qual perpassa a vida e as incontornáveis transformações das mentalidades, das ideologias e das nações. A apologia da natureza é mística e ascética, e os poemas são como preces de exaltação à pureza e virgindade do que é natural, genuíno, íntegro e imaculado. O poeta é fruto da paisagem que lhe iluminou a infância, e lhe moldou a alma na terra perfumada pelas amendoeiras em flor.
O Dr. Santos Serra usando da palavra, ladeado por
Vilhena Mesquita e pela vereadora da cultura da C.M.A.
Por fim, sente-se no poeta o peso da idade, e essa é uma realidade transversal a todo o livro. Alguém disse que recordar é a voluptuosidade dos velhos. Essa é uma realidade constante neste livro. A angústia do tempo que passou e não pode ser revivido, a nostalgia de recordar o que se viu e não mais se vê, causa no poeta uma profunda amargura. A velhice é o desalento do herói. A anciania é o heroísmo de vencer o tempo no desconforto da saudade. Neste livro são vários os poemas sobre o descanso do guerreiro, cuja idade lhe sobrecarrega a memória de recordações que o tempo foi acumulando no cofre da alma. E o tempo está pejado de sombras que a luz da vida já não pode iluminar. O maior castigo da velhice é sem dúvida a saudade da lembrança.
Permita-se-me que destaque desta fase, entre muitos outros possíveis, apenas os seguintes poemas: «Algarve» (ode regionalista), «Ritual do Amor» (erotismo profundo), «Reencontro» (erótico-sensual), «Fatalismo» (sobre a vida e a morte) e «Decadência» (apostasia religiosa).
A terceira e última parte é aquela que faz da poesia o predestinado arauto da história. Fala dos tenebrosos mitos que dominavam os mares tumultuosos, e dos lusos argonautas que divisaram horizontes de esperança em terras longínquas, onde nunca chegara a promessa da civilização. Exalta o nome de um povo que foi de Gamas, Cabrais, Magalhães e Albuquerques, mas que agora nem desse passado se pode orgulhar, porque de mão estendida se deixou submeter à força bárbara da gente alheia. «Fomos jovens, rebeldes, musculados, / O que havia e não havia fomos ver, / O mundo quis saber o nosso nome / E registou-o em lendas, / Em papiro de aço / Fomos… / Fomos… / Fomos… / Hoje, a Pátria que nos resta, / Tem um ramo de rosas secas no regaço».
A par da poesia de temática histórica sucede-lhe a fase do Realismo Poético, um estilo raramente visto na moderna poesia portuguesa. Por isso considero que esta é a melhor parte do livro, por ser a mais fiel ao espírito revolucionário da poesia e também a mais consentânea com a personalidade do Dr. Manuel dos Santos Serra, um indómito defensor da liberdade e um intransigente protetor dos direitos humanos. Infelizmente são já raros os homens, que como ele se apaixonam pela nobreza dum ideal e pela soberania da justiça, lutando com todos as suas forças pela defesa da verdade e pela proteção dos mais fracos. Por isso é que os seus poemas não se eximem de retratar os dias negros que o nosso país tem vivido ultimamente, acusando sem temor os nossos governantes de serem os algozes duma pátria que civilizou o mundo. «Agora este pobre e velho povo / Como um deus doente, / Ultrajado, andrajoso, mal-amado / Pelos filhos infiéis / Cisma, cisma no milagre a inventar, / De fazer deste fraco povo, forte gente!»
A crise económica em que vivemos tem causado grande instabilidade social, gerando insegurança, desconforto e sobressalto na vida de todos os cidadãos. Um angustioso clima de egoísmo e de nefasto individualismo, uma exacerbação material da vida tomou conta dos destinos do mundo e derrubou os supremos valores do espírito, da moral e da ética. Vivemos hoje tempos de dependência e de subalternidade aos desígnios alheios, semelhantes aos que viram Camões perecer numa infame enxerga de hospício. A esperança perde-se a cada instante e o futuro reserva-nos dias sombrios de angústia e sofrimento. Resta-nos talvez a poesia e a leitura de livros como este para cuidarmos de resistir e de sobreviver o melhor que pudermos, contra este pacto de agressão internacional a que a pátria e o povo português se acha submetido.
O Dr. Santos Serra agradecendo ao declamador João Pires e a
Vilhena Mesquita a colaboração prestada na apresentação do livro
 

Em suma…

A centúria de poemas que compõem este Miradouro do Tempo percorre uma panóplia temática muito diversificada. Numa rápida súmula posso afirmar que os temas principais, ou seja os que consegui padronizar, são de carácter ambiental, cósmico, religioso e sentimentais. Não obstante, é na oclusão da vida e no mistério que envolve a face obscura da morte, que se focaliza o núcleo lírico desta obra.
No que concerne à temática ambiental são constantes as evocações relacionadas substancialmente com a Água, enquanto fonte da vida, mas também com as chuvas e os rios, contrastando com os seus opostos, o sol, as secas e os incêndios, a luz, o brilho e a cor, tudo isto estrategicamente ordenado numa poesia de contrastes e de recordações. Mas não nos deixemos iludir nesta imbricada teia naturalista, porque é nela que o Mar se assume como elemento agregador e difusionista da mensagem poética deste livro. Diria mesmo que o mar é o tema fundacional na poesia de Santos Serra.
Mas, no âmbito dos elementos cósmicos o tema principal é o Tempo, não só na sua dimensão de passado como também na sua interpretação metafórica, sendo por vezes evidente a sua personificação, quer como sujeito quer como agente proactivo na execução poemática. Além do mais figura na composição do título da obra. Na conjugação poética do tempo recorre-se a elementos mais comuns como o vento e a tempestade, a primavera das flores ou as trovoadas do inverno, o azul do céu e o brilho das estrelas no ebúrneo firmamento algarvio.
Os elementos religiosos, embora escassos e, por vezes, dissimulados, estão latentes na poesia de Santos Serra. Deus é uma entidade omnisciente, mas só abstratamente revelada, enquanto a alma é um recurso funcional na construção diegética do poema. Aparecem fugazmente outros conceitos como o milagre, o paraíso, a igreja e até mesmo o Olimpo, numa alusão ao paganismo clássico.
Mais prementes e abundantes são os elementos sentimentais, de entre os quais impera o amor, platónico e físico, sendo neste caso de realçar o profundo erotismo que ressuma em dois poemas, que por serem muito belos, quase extasiantes, não resisto à tentação de aqui lhes citar os títulos: «Ritual de Amor» e «Reencontro». A par do amor seguem-se os afetos e enamoramentos, o ardor da paixão, o prazer do sexo, a liberdade de amar, mas também a fidelidade no contraste com a perfídia e o adultério. A saudade é, no caso do amor e da paixão, um sentimento avassalador, a que se juntam, como reforço poemático, as lágrimas e a dor da separação, a desilusão e a depressão, a doença e a morte.
Sem grande esforço analítico poderia afirmar que existe ao longo deste livro um fio condutor. É arrojado dizê-lo quando se trata de uma obra de poesia, mas não há dúvida que o tempo é o elo de ligação, mas a memória é o cerne e a alma de todo o livro. Mais curioso, ainda, é notar que a dimensão tempo, sendo o cadinho em que se fundem a generalidade dos poemas, assume-se aqui como um nostálgico sentimento de perda, e de privação, de algo que ficou no passado e já não volta nem se recupera. Essa nostalgia não é saudosista. É antes, e tão só, o puro sentimento lusíada da saudade, não de quem parte mas de quem vê partir.
Panorâmica do auditório durante a apresentação do livro
Se o que caracteriza o género poético é a harmoniosa beleza da palavra esculpida nos interstícios do poema, capaz de despertar no leitor sentimentos e emoções, de agitar sensibilidades e inspirar comoções, então sim, podemos afirmar que este é verdadeiramente um livro de poesia, cuja leitura nos elevará até aos sagrados altares da arte e da estética literária. Porque, na verdade, um poema é uma espécie de tela pintada com palavras, em cuja têmpera o poeta terá de selecionar as mais finas cores. Mas se quisermos ser mais abrangentes então podemos afirmar que toda a Arte é Poesia, porque ambas personificam o Belo e a Verdade.
Antes de ser Arte e Literatura, a poesia é essencialmente a voz sublime da Natureza. É claro que quando falo em Natureza estou a referir-me a tudo o que rodeia e consubstancia a vida. As correntes literárias vanguardistas tentaram alterar a função primacial da poesia, como expressão natural da vida, mas não só foram mal sucedidas como ainda tiveram uma efémera existência. A razão desse insucesso prende-se com a falta de sinceridade, porque só permanece e resiste tudo aquilo que é sincero e natural. A imitação do talento poético é a contrafação da arte, pelo que rapidamente se transforma em caricatura e tédio.
Em boa verdade, não é fácil tocar violino num rabecão.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um pomar de versos, em frutos de palavras


No mundo actual e no sentido materialista em que vivemos, a poesia parece ser algo que sobrevive ainda, mas de forma ilusória, desgarrada e sem futuro. Esta é a mais confrangedora das minhas constatações quando discorro com os meus alunos sobre a importância da poesia na aplicação a novas estratégias comerciais, ou sobre a inserção do metaforismo e da metonímia na linguagem mercantil e nas relações empresariais. É certo e sabido que me pedem de imediato uma definição de poesia, como se tudo na vida tivesse que ser concreto, objectivo e rigoroso. Como as definições são enunciações indiscutíveis, costumo dizer que a poesia é tudo aquilo que ficou para trás na tradução, servindo-me à letra da afirmação "The road not taken", do poeta americano Robert Frost (1874-1963), que considerava assim a poesia como tudo aquilo que não se consegue traduzir, isto é, que não se consegue definir por palavras simples, claras e intuitivas. O que Frost queria dizer é que tudo aquilo que escrevemos, isto é, que traduzimos da realidade, é prosa; mas o que não conseguimos dizer ou escrever com a clareza do real, é poesia.
Dito de outra forma, poesia é sentir sem racionalizar, isto é, não precisamos da erudição nem da ciência para compreender as coisas, basta senti-las para nos deixarmos emocionar por elas, experimentando-lhes as sensações e o impressionismo judicioso. Camões, quando quis revelar o que é o amor, fê-lo de forma a traduzir em si a própria poesia, afirmando que «é ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente». Significa isto que sentimento e razão constituem as duas faces da mesma moeda, porque ao fim e ao cabo a bipolarização entre o positivo e o negativo – entre o Yang e o Ying da filosofia Zen, entre o bem e o mal, o sagrado e o profano que fraterniza as religiões – são formas seculares de conhecimento que enraizaram a humanidade ao longo de milénios.
Por conseguinte, a poesia é intimista e sublime, demasiado pessoal para ser transmissível, e cuja expressividade necessita de uma imaginação fértil e fecunda para fazer-se sentir, tanto na pele como na alma. Poesia, poema e verso são como o tríptico Saussureano do signo, significado e significante. Estão interligados, fazem parte do mesmo corpo linguístico, ou, neste caso, do mesmo género literário. É assim mesmo que acontece neste livro, nesta tríade ou simbiose em que se traduz a poesia de Santos Serra.

Pomar de Pedras, assim se titula o poema que encerra, e ao mesmo tempo denomina este livro. Pela leitura deste poema, mas também pela maioria os versos que dão corpo e alma a este livro, sente-se uma mensagem de esperança, um alento de fé num sopro de vida: “as pedras perfilam-se no sonho da metamorfose / de cada pedra brotar uma flor” É a mesma mensagem, de esperança e de regeneração, que abre este livro, num belo poema sobre o verde, como signo imperecível da natureza e da vida. “Verde era o vento das liberdades de atingir… Verde era o oceano da viagem para as Índias dos sonhos… Verde era o agora e o porvir no cadinho viril de uma vontade”. Das reminiscências da feliz infância até ao laborioso sucesso de uma vida, juramentada a Hipócrates e à supressão do sofrimento, de tudo isso se faz velado eco e sublimação nos versos que compõem os poemas deste livro, que não fala de pedras, mas antes dos frutos que eternizam a existência humana: o amor e a lealdade, a verdade e a justiça, a solidariedade e o afecto, a honra e a dignidade, o respeito e a fidelidade.
O decantado poeta Eugénio de Castro dizia que o poema em si mesmo «embala a angústia nos braços decepados». É uma brilhante metáfora, que traduz toda a magia espiritual da concepção poética. E neste Pomar de Pedras é a metáfora, usada com incisiva regra e oportuno instante, sem excessos nem exageros, com a justa parcimónia do equilíbrio a que se submete o poeta do verso curto, sóbrio e enérgico. A brevidade do verso – composto por duas a cinco palavras, numa média de seis a doze sílabas – é a principal característica da poética de Santos Serra. A moderação exige a modelação da palavra, trabalho árduo e difícil, que aproxima o poeta do escultor, pois ambos sabem que o olhar de quem os observa não se pode dispersar pelo acessório, devendo concentrar-se no que é verdadeiramente essencial.
Ibne Ammar, grande poeta árabe, nascido em Estombar, usava também a palavra com parcimónia, recorrendo à simbologia das cores, como no signo Saussureano, para construir belas metáforas, de que esta sobre a impressão da leitura é verdadeiramente modelar: «Minha pupila liberta / Quem da página é cativo: / O branco, da margem certa / E da palavra, o negro vivo».
Também neste livro, de versos curtos, incisivos e inteligíveis, onde as metáforas e as imagens poéticas sobressaem vivas de cor e cintilância, se notam por vezes os subterfúgios do artista, que se revela na simbologia da luz e nos matizes pictóricos, ou na energia dos elementos naturais, para impressionar, não a pupila mas o espírito do leitor. São disso exemplo as frequentes invocações das árvores, da terra e da erva, das flores e dos frutos, dos rios e das fontes, do sol e da chuva, dos pássaros e do vento, do raio e do trovão. É por esses recursos poéticos que constatamos, nos interstícios do poema, a existência de um velado misticismo, a presença indefinida duma força criadora, a existência de um indistinto ente supremo, a vigilância dum espírito criador, e muitas vezes a omnipresença de um regulador dos sentidos, que inversamente funciona como catalisador dum impressionismo contemplativo.
Nota-se, nesta sequência, um incontido impressionismo saudosista quando recorda a Coimbra da sua juventude, presença omnisciente nos seus livros, aqui revisitada do Mondego e do Choupal ao Templo de Minerva, numa peregrinação de saudade dos “Que te veneram enquanto vivos / E te levam com eles para a eternidade». Alegram-se os sentidos e rejubilam as memórias quando no poema «Diferenças» relembra a sua chegada à Lusa Atenas: «Era ser livre sem peias de tirano / Era sentir o mar dentro de nós / Era encher de estrelas as noites cor de breu / Era ser rei de um reino de Utopia… / Hoje, mais de meio século / Do meu desembarque neste cais, / A eterna turbulência juvenil / Sobe à Acrópole a cantar».
A marca da tradição, da rebeldia juvenil e a nostalgia do tempo que passa, são punções indeléveis na poética de Santos Serra. Coimbra é a cidade do eterno retorno, o berço onde se fez homem, a radícula das paixões perpétuas e o núcleo das insanáveis saudades do vento que afaga e passa, mas não apaga.
João Pires declamando os poemas do livro do Dr. Manuel
dos Santos Serra na sessão de apresentação da obra, na
Biblioteca Municipal de Albufeira, 5-11-2011.
Outras terras e outras gentes são também aqui evocadas em formosos versos. Tem um destaque muito especial a cidade de Albufeira, louvada e enobrecida em refulgentes poemas de vida, cor e luminescência. O poema «História da Toponímia» descreve a antiguidade de Albufeira de uma forma lapidar, a merecer talvez outros rumos e liberdades, que uma simples página de livro não lhe pode oferecer. Os poemas sobre a «Praia do Peneco» e o «Passeio da Marginal» são igualmente refulgentes medalhas poéticas que os serviços oficiais poderiam avocar nos seus desdobráveis de divulgação turística. Mas outros poemas abundam neste livro que merecem igual destaque. Não querendo ser exaustivo nem maçador, destaco apenas alguns que me impressionaram pela qualidade das suas imagens e pelo brilho da sua inspiração: «Espelho», «O êxito…», «Narciso», «Último olhar», «2010», «Sol e lágrimas», «Ideal», «Cometa», «História breve», «No fim» (sobre Sagres), «O drama», e, por fim, o «Pomar de pedras», que dá o nome ao próprio livro.
Acresce dizer que a poesia de Santos Serra não obedece a modelos, e muito menos aos ortodoxos esquemas que enformaram durante séculos a estruturação lírica das palavras. A ordenação versífera escorre pelo papel à cadência repentina dos sentimentos, livre e solta, sem peias, nem falsos pudores, numa toada de absoluta liberdade criativa. O poeta quando atinge este nível, de elevação fecunda, de autonomia inventiva e de liberdade imaginativa, aproxima-se muito do artista plástico, que concebe na tela a imagem sem visionar o modelo. Quando assim acontece, estamos perante a Arte, na forma e na palavra.
Dizia Baudelaire, o eterno criador das Flores do Mal, que «os poetas são uma raça irritável». Referia-se logicamente ao efeito que a sua poesia causava na sociedade e no espírito político do seu tempo. Mas a noção de exaltação e de exacerbamento do espírito, que só a poesia é capaz de incutir e de produzir na alma do povo, causa de facto grande irritação e incómodo àqueles que pretendem orientar a existência humana para a mediocridade e obscurantismo. A poesia é por natureza revolucionária e não raras vezes foram os poetas, como no tempo de Baudelaire, que conduziram os humilhados e ofendidos, os despojados, os desempregados e toda a casta de desafortunados, para a sublevação nas ruas, nos campos e nas fábricas, em nome da liberdade e da justiça social. Quem não se lembra da importância da poesia de Ary dos Santos, de Natália Correia, de Manuel Alegre e de Zeca Afonso, no eclodir da revolução do «25 de Abril»…
De facto a poesia de Santos Serra, principalmente neste livro Pomar de Pedras, irrita e incomoda aqueles que vêem a existência humana como uma efémera e passageira viagem, desprovida de amarras para atracar no cais da eternidade. E no seguimento dessa asserção pode mesmo afirmar-se que a maioria dos poemas deste livro são verdadeiramente irritáveis, porque conseguem ver, para além do material e do sensível, aquilo que sendo puro contribui para a construção da realidade harmoniosa. Por isso é que Gaston Bachelard disse que «a função principal da poesia é transformar-nos», ou seja, o papel social e a utilidade funcional da poesia consiste, em última instância, no melhoramento da condição humana e no aperfeiçoamento das suas qualidades intrínsecas. Diria, em síntese, que o objectivo final da poesia é fazer de nós pessoas mais puras, mais sinceras, mais justas, leais e virtuosas, em suma, mais verdadeiras, mais sensíveis e emocionais.
Os poetas são irritáveis, sim, porque só eles sabem esgrimir as palavras em acutilantes golpes contra a iniquidade social, a perversão política e a corrupção moral. Não admira, por isso, que os poetas sejam geralmente incompatíveis com a política e o exercício do poder. É que ser poeta, como disse Florbela Espanca «é ser mais alto, é ser maior do que os homens… É ter fome, e ter sede de Infinito! É condensar o mundo num só grito!».
Mas na triste realidade em que vivemos, neste mundo de materialismos egoístas e de futilidades mesquinhas, os poetas são pouco valorizados e até desprezados. É confrangedor ouvir de gente bem instalada, e com responsabilidades sociais, palavras de avaliação depreciativa para com os nossos poetas, apelidando-os de quixotescas figuras, inválidos guerreiros na batalha da vida. Para a bestialidade dominante, os poetas são meros sonhadores, sem serventia nem utilidade. Quem manda, decide e ordena, não gosta de sentir, porque teme que o sentimento fragilize o comando. Enganam-se… porque só aqueles que sentem é que são capazes de compreender e de racionalizar a pungente amargura da injustiça, da desigualdade e da vilania. Um homem que ajuíza e decide deve ter sempre à sua cabeceira um livro de poesia, para que possa aprender a lição de que tudo passa e tudo se perdoa, na ligeira brisa da vida e na húmida bruma do tempo.
José Carlos Vilhena Mesquita