segunda-feira, 27 de julho de 2009

Algarvio falecido num campo de concentração na Áustria


O Comité Internacional de Genebra forneceu à Cruz Vermelha Portuguesa, em Junho de 1946, uma lista dos portugueses falecidos no campo de concentração de Mauthausen (Oberdonau), na Áustria, na qual se revela a existência de um algarvio, de nome Tomás Vieira, nascido em Albufeira a 7-3-1890 e falecido naquele campo de concentração a 16-11-1944.
Alguém me sabe dizer quem seria este pobre Tomás Vieira?

J.C.V.M.

domingo, 26 de julho de 2009

Quarenta anos de Poesia em Vieira Calado

J. C. Vilhena Mesquita

Não são muitos os poetas e escritores que no nosso país se podem orgulhar de uma longa e vasta obra literária. Felizmente, no Algarve, há dois ou três exemplos que contradizem a regra geral de se iniciar uma carreira literária quando embranquecem as cãs e se consolidam as estruturas familiares para dar lugar às segundas gerações. Entre as figuras de maior proeminência e longevidade cultural no Algarve destacam-se Elviro da Rocha Gomes e Tito Olívio Henriques, que fazem no conjunto das suas obras uma simbiose entre a prosa e a poesia. Mas, em exclusiva dedicação ao género poética, apenas se terá mantido José Vieira Calado, que acaba de completar quarenta anos de vida literária. E para um poeta de intervenção, que usa a palavra para acicatar a letargia e espicaçar as mentes, não é difícil de imaginar que terão sido décadas de resistência contra a censura, que por vezes identificava o inocente alinhamento dum poema com a velada divulgação de mensagens subversivas e desafectas ao regime.
Muitas foram as vítimas, desde Eugénio de Andrade a Ramos Rosa, que nos anos subsequentes souberam capitalizar a vitimização da perseguição política a seu favor, reivindicando prestígios, privilégios e prémios. O mesmo não aconteceu com Vieira Calado que, na sua humildade natural e no seu genuíno talento, continuou a fazer da poesia a sua voz, num ténue lamento de nostálgica indignação e num surdo grito de revolta contra a ignorância, o nepotismo e a presunção dos instalados no poder. Talvez por se manter fiel a si próprio, sem se ajoujar a qualquer bandeira partidária, daquelas que flutuam nos mastros do poder, é que o nome de Vieira Calado nunca será gravado a ouro na frontaria de uma qualquer biblioteca pública.
Também pouco lhe importa a vã glória dos talentos postiços, da incongruência dos louvores ou dos prémios com o sabor mafioso das clientelas políticas. O que importa é a coerência dos valores, a preservação dos princípios éticos, a incessante procura de novos caminhos para encontrar a essência das coisas simples e a alma dos últimos mistérios. É na descoberta das coisas primeiras, no abismo dos conceitos e na bruma das metáforas que emerge a poesia de Vieira Calado.
Para quem não conheça a sua obra aconselhamos vivamente a leitura de um dos seus últimos livros intitulado Transparências, que consideramos um sublime bouquet do mais inspirado e criativo lirismo produzido no Algarve dos últimos cinquenta anos. Aliás, sempre dissemos que Vieira Calado era um dos melhores poetas do modernismo algarvio, e um dos mais autênticos, reflectidos e intelectualizados. Nada fica a dever aos seus mais célebres antecessores, porque não lhes imita os temas, não lhes copia os passos, não procura a luz onde existe a sombra, nem pinta de azul o negro da noite. Limita-se simplesmente a envolver as palavras no manto diáfano do mistério, escondendo por detrás da leitura e da sugestão dos sentidos uma imagem de perpétua insatisfação, um trago de amargura, uma envolvente dúvida na imbricada desconstrução metafórica do poema.
Por isso é que a sua poesia é tão sugestiva, num misto de atracção e repulsa, tecida entre a verdade, a traição e a fuga, enredada em conceitos de fino recorte filosófico e exigindo do leitor não só uma leitura integrada como também uma razoável preparação intelectual. Em boa verdade, a sua poesia está longe de poder agradar às camadas populares, embora ao poeta certamente agradasse espicaçar a letargia em que se acha mergulhado o nosso povo, cada vez mais submisso e anestesiado pelos média, “acorrentado” às telenovelas e concursos bestializantes da dignidade humana. As mensagens que nos impingem os meios de comunicação, sobretudo a “caixa mágica” que domina os nossos lares, é cada vez menos poética e cada vez mais descrente dos valores que devem nortear a humanidade. Talvez seja por isso que a poesia não se vende. Talvez seja por causa da nossa ignorância, do nosso crescente materialismo e assustador egoísmo, que a poesia tem vindo a desaparecer das nossas atitudes diárias, a perder terreno nos nossos hábitos de consumo e nos cada vez mais escassos prazeres da leitura.
Apesar de o panorama não ser motivador a voz dos poetas continua a ecoar no templo de Orfeu, com a mesma vivacidade e esperança de quem acredita na salvação da humanidade através da propagação da verdade, da honra e do amor. Vieira Calado tem-no feito ao longo de quarenta anos. Por isso resolveu reunir numa breve antologia que designou por Poemas Primeiros, algumas das composições lançadas à luz do prelo entre 1961 e 1962. Foram extraídos dos livros 37 Poemas e Os Sinais da Terra, que são os títulos que abrem a sua apreciável lista de obras. Por mais que lhes procurássemos o vagido da inocência imberbe, da inexperiência ou da incongruência intelectual, nada encontrámos que se pudesse classificar de incipiente, inarmónico, desconexo ou desproporcionado. O poeta já estava feito quando lançou à terra as primeiras sementes da sua futura seara. Creio mesmo que, em certo sentido, os seus primeiros poemas eram mais atractivos – mas não menos profundos - do que agora, visto que em poucas palavras, em meias dúzia de versos, conseguia aprisionar o mundo, nas suas injustiças, desafectos, atrocidades e violências. Mesmo quando usa o naturalismo nos conceitos procura deixar a dúvida entranhada na escadaria do poema: “Este Sol incrivelmente verde / apesar de mudo, / este céu incrivelmente nítido / apesar da distância / e este chão inevitavelmente pesado, / apesar dos pés e dos músculos dos pés / crescerem do verde e do nítido.”
A voz oraculina do poeta está subjacente à maioria dos seus poemas, recorrendo ao trocadilho dos significantes para enredar o leitor na dualidade dos significados. O tecido que envolve os conceitos e entretece as palavras é supostamente translúcido, mas não resolve nunca a dúvida da interpretação na duplicidade das sensações: “O tempo é como o vento. / As nuvens / sou eu, és tu e são os outros; / não há vento que as não leve. / Já alguma viste / a mesma nuvem duas vezes? / Já alguma vez sentiste / o mesmo vento duas vezes?”. E mais adiante acrescentará com a feroz simplicidade das coisas aparentemente simples: “Todo o rio tem mar / toda a cidade tem cemitério / toda a verdade crua tem adultério.” Este último verso é um tratado de psicologia social que poderemos desmontar das mais variadas formas para obter sempre o mesmo resultado: por detrás da verdade está o fosso da traição. Parece querer dizer que entre a perfídia e a ignomínia se ergueram os alicerces da nossa civilização, mas que, apesar disso, existe o caminho da verdade e da honra, cuja escolha depende só da largura da nossa alma: “Na estrada dos caminhos cruzados / não há frestas nem arestas paralelas / não há clareiras nem sombras dos escombros / não há geometria pré-concebida / de réguas nem de esquadros. / Na estrada dos caminhos cruzados / há apenas a largura / dos ombros de cada um.”
Para concluir, repetimos o acostumado cliché: “O Algarve é um rincão de poetas”. Ninguém duvida disso. Mas em boa verdade não há muitos poetas de qualidade. O que existe é quantidade. Falta instrução, leitura e convivência aos poetas algarvios, que na sua maioria subsistem fechados sobre si próprios, entretidos com Jogos Florais e alheados de novos horizontes culturais. Não é o caso de Vieira Calado, homem viajado, docente do ensino secundário, licenciado em Letras e muito atento o intercâmbio cultural com outras regiões europeias. A sua dimensão intelectual e o seu interesse por novas experiências culturais tem-lhe permitido evoluir na senda do aperfeiçoamento e da qualidade poética. O facto de se ter mantido sempre actualizado permitiu-lhe ser cada vez mais exigente, no apuramento do estilo, na intervenção dos conceitos e no esgrimir das palavras. Sem nunca rejeitar a intervenção momentânea das musas, e de reconhecer que sem inspiração não existe poesia, o certo é que em Vieira Calado também se vislumbra a transpiração do artista, que incessantemente busca alcançar a perfeição.
No remanso da cidade de Lagos, vive um dos melhores poetas do Algarve, longe da ribalta da capital do Império, alheado dos média, em feliz comunhão com a sua musa inspiradora. Os seus quarenta anos de vida literária materializaram-se numa dezena de livros publicados. Serão, talvez, um parco legado de quem possui talento e qualidades para muito mais. Agora que está reformado das lides do ensino, talvez despertem em Vieira Calado os encantos do prelo, contribuindo com novos títulos para o engrandecimento da poesia algarvia.

Nota: este texto foi publicado no «Diário do Sul», em Julho de 2001

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Museu Almirante Ramalho Ortigão, em Faro

O antigo Museu Marítimo de Faro passou a designar-se oficialmente Museu Marítimo do Almirante Ramalho Ortigão em finais de Julho de 1946, devendo-se a proposta de alteração da sua denominação ao capitão de fragata Pedro Raimundo de Magalhães, que na altura desempenhava as funções de capitão do Porto de Faro.
Esta proposta teve duas intenções, ambas bastante louváveis. A primeira foi a de perpetuar o prestígio militar do contra-almirante António de Macedo Ramalho Ortigão, dias antes da sua passagem à situação de reforma por limite de idade, ocorrida a 5-8-1946, deixando também a partir dessa data as altas funções de presidente do Supremo Tribunal de Justiça Militar.
A segunda intenção foi a de homenagear a brilhante carreira de oficial da marinha, com uma invejável folha de serviços prestados à nação.
Acima de tudo isso, fica o reconhecimento da sua dedicação a Faro, onde como no exercício das funções de Chefe do Departamento Marítimo do Sul salvou o espólio artístico e técnico existente no museu daquela instituição militar, o qual se encontrava praticamente ao abandono, num estado arruinado, verdadeiramente decrépito e confrangedor. Ao seu esforço, dedicação e sacrifico se ficou devendo, pois, a recuperação, transformação e reordenamento daquela unidade museológica. À sua perseverança e amor pela cultura, ficou a terra natal, e o próprio país, devedor do restabelecimento de um valioso espólio patrimonial, artístico e científico, depositado num dos museus marítimos de maior interesse nacional.
Quanto à riqueza e variedade das peças expostas, recomendamos os leitores do nosso blog a fazer-lhe uma visita, ciente de que irá ter grandes e agradáveis surpresas.

J.C.V.M.

Ao maestro Rebelo Neves


O Dr. Joaquim Magalhães escreveu este soneto em homenagem ao maestro António Rebelo Neves, que no dia 3-10-1944 completava 70 anos de idade e por isso se via compelido à reforma como professor de música e de Canto Coral no Liceu de Faro. Os seus colegas foram á residência do velho amigo prestar-lhe uma singela homenagem na qual o Dr. Magalhães lhe dedicou o seguinte soneto

Nesta luta de morte que é a vida,
quantas vezes caímos de cansaço
e outras tantas voltamos para a lida,
depois dos dissabores, rijos como aço?

É dura a caminhada na subida,
mas com fito no ideal, longínquo e baço,
não pode esta alma nossa ser vencida
e há-de alcançar a meta, além, no espaço.

Chegar aos setenta anos representa
uma vitória bela na disputa
sem dó e sem piedade com a morte;

e os deste bom amigo são setenta
de trabalhos, de esforços e de luta,
tendo a Beleza sempre como norte.

A Câmara Municipal de Faro, sensibilizada com as homenagens que os antigos alunos e cidadãos farense prestavam ao maestro Rebelo Neves, decidiu criar pela primeira vez a «Medalha da Cidade» para assim galardoar as pessoas que pelos seus serviços prestados ao município merecessem a honra de ser distinguidos e relembrados para sempre. A primeira figura, aliás para a qual foi criada a própria medalha, foi o maestro Rebelo Neves. Esta decisão foi tomada em Dezembro de 1944.
Por sua vez a Junta de Província do Algarve, por iniciativa do seu presidente Dr. José Correia do Nascimento, associando-se às homenagens, decidiu mandar editar todas as composições musicais do maestro.
Com efeito essa edição surgiu em Maio de 1946, no formato de álbum, com algumas das mais belas composições musicais do maestro António Rebelo Neves. Essa compilação ficou com a título de Canções portuguesas sobre versos de poetas algarvios e outros. Na verdade, podem-se nesse álbum colher belas músicas sobre poemas de João de Deus, Bernardo de Passos, Cândido Guerreiro, Emiliano da Costa, António Pereira, João Nobre, Schiappa Roby, António Boto, Afonso Lopes Vieira e João Rodrigues Castelo Branco, retirado do Cancioneiro de Garcia de Resende. No total são quinze composições musicais de grande talento e qualidade artística.
J.C.V.M.

GRANDE HOTEL da Praia da Rocha


Inaugurou-se a 1-5-1932 o Grande Hotel da Praia da Rocha, cujas obras de remodelação das antigas instalações do Casino lhe permitiram na altura ser considerado um dos melhores equipamentos turísticos do país, não só pela beleza do seu traço arquitectónico, como também pelas suas condições de higiene e pelos serviços modelarmente organizados para servir as mais singulares exigências dos seus clientes, previsivelmente estrangeiros. A sua construção veio preencher uma lacuna há muito sentida na cidade de Portimão, cujas potencialidades para o turismo ficava progressivamente demonstrada, na afluência anual de estrangeiros e de turistas nacionais, oriundos dos mais diversos quadrantes do país.
O empresário Saldanha Lima foi o promotor da ideia de construção de um Grande Hotel na Praia da Rocha, concitando à sua volta avultados meios financeiros de diversos investidores que acreditaram nas suas propostas de desenvolvimento do turismo na Praia da Rocha. Por isso foi, na época, considerado um homem de visões largas e um benemérito do progresso algarvio. Para explorar aquela magnífica unidade hoteleira foi constituída a «Empresa Hoteleira Praia da Rocha Ld.ª», de que era gerente Saldanha Lima, a qual deu trabalho a muitos portimonense e algarvios em geral. Encarregou-se da gerência técnica daquela empresa hoteleira o algarvio José Jacinto dos Santos, ao tempo um dos raros portugueses habilitados com um curso de hoteleiro concluído numa escola estrangeira.
Na festa da sua inauguração, celebrada no Dia do Trabalhador, uma data não muito do agrado da ditadura, decorrer com toda a pompa e circunstancia, na presença das principais autoridades civis, políticas e religiosas da região.
Abriu as portas ao público com 80 quartos, distribuídos pelos três andares do edifício, pelos quais se distribuíam várias casas de banho, tendo uma espaçosa sala de jantar, servida por ampla e moderna cozinha. Os aposentos comuns realçavam-se pela modernidade e conforto do mobiliário, assim como merecia nota de particular destaque a sua bem distribuída e sofisticada iluminação. Possuía ainda dois magníficos e muito extensos terraços, o maior dos quais debruçado sobre a praia.
O Hotel da Praia da Rocha além de ter sido um dos melhores do país foi também um dos mais frequentados, pois que o seu gerente, José Jacinto dos Santos sabia cativar os clientes com a sua amabilidade, a sua prestimosa e diligente atenciosidade, a sua esfuziante alegria e elegância de trato. Outro dos trunfos da empresa era o sócio Adelino Rocha, cuja simpatia envolvia de carinho e reverência todos os clientes do Hotel, que nos anos iniciais pertenciam à melhor estirpe social, sendo em parte gente da finança e dos negócios que visitava a nossa província.
Não esqueçamos que o Grande Hotel servia de apoio ao Casino da Praia da Rocha, cuja inauguração das obras de remodelação se efectuaram na mesma data. O preço da diária no Hotel partia duma base de 20$00 a que acresciam os custos do serviço de mesas.
Por sua vez a Sociedade da Praia da Rocha, adjudicou em finais de Junho de 1934 à Empresa do Casino Internacional da Foz do Douro – que já explorava o jogo na zona da Povoa de Varzim - os direitos de exploração do jogo no Casino da Praia da Rocha. Nessa altura, aquela empresa do norte mandou logo remodelar as instalações do velho edifício do casino da Praia da Rocha, para assim se adaptar aos tempos modernos e oferecer melhores condições de conforto aos seus clientes.
Para terminar, importa referir que o Grande Hotel foi construído no local onde outrora se encontrava o modesto Hotel Viola, verdadeiro precursor do turismo balnear na Praia da Rocha. Ao seu lado direito figurava, nos anos quarenta, o não menos imponente Hotel da Bela Vista, que rivalizava, ainda que não em qualidade, com o Grande Hotel.
Nos inícios da República, por volta de 1912, o Hotel Viola, mas sobretudo o próprio Casino da Praia da Rocha animava os seus clientes com animados bailes, muito chiques e na mais requintada exuberância da moda com alegres polcas, mazurcas e sobretudo valsas a dois e três tempos, dançadas com rigor, habilidade e romantismo. Nesses bailes eram eleitos os melhores dançarinos, que eram premiados com interessantes trofeus, depois cantados em satíricos versos ou gazetilhas de Jerónimo Buísel, recitadas por sua filha Maria Isabel nas noites dançante do velho casino.

J. C. V. M.

sábado, 18 de julho de 2009

Testamento à Mãe Soberana


Quando em Março de 1946 se procedeu à abertura do testamento de Manuel Joaquim Pedro, morador no sítio do Poço do Peso na freguesia de S. Sebastião em Loulé, que acabara de falecer solteiro com 61 anos e sem herdeiros directos, verificou-se com alguma estupefacção que aquele cidadão deixara o grosso da sua fortuna à Mãe Soberana, avaliado nesse ano em dois mil contos.
Das disposições testamentárias extractamos a parte que confirma aquela doação:
“Deixo os meus bens à Comissão Administrativa da Senhora da piedade, com obrigação de não poderem vender ou por qualquer forma alienar os mesmos bens, e o seu rendimento ser exclusivamente empregado em obras do Culto ou festas a favor da Padroeira, fazendo todos os anos uma festa junto da respectiva Ermida e distribuindo-se, no dia anterior ao da festa, a quantia de 500$00 em dinheiro aos pobres...”
“... que todas as disposições feitas a favor da Comissão Administrativa serão fiscalizadas pela Autoridade Administrativa do Concelho.”
Pelos vistos esta doação ocorreu ao legador como forma de arrependimento da sua maneira especial de ser e, sobretudo, pela vida dissoluta que levava.
Este legado à Mãe Soberana tem sido alvo de acesa discussão, deixando a Comissão Administrativa na posse de uma fortuna, hoje avaliada em alguns milhões de euros, cuja rendimento não parece ser significativo mas cuja transacção deixaria à Igreja um avultadíssimo pecúlio.

J.C.V.M.

PINTURA = POESIA NAS ROTAS DO SUL


J. C. Vilhena Mesquita

Esta é uma das raras obras que se podem dividir em 3 partes distintas, como se tratasse de uma trindade artística do humanismo renascentista. Por um lado o Autor, como criador e mestre que se expõe e entrega sem o receio da revelação, nem o temor da crítica; por outro a Poesia como um refulgir de sentimentos, um bouquet de emoções entre os sons, o brilho e as cores das palavras; por fim a Pintura, mater expressão de visões incontidas e exorcismadas na tela, materialização de sonhos que a alma revela nos matizes da elegíaca criação. A obra é una e indivisível, mas a força perscrutante do crítico vai mais longe e separa-lhe os vectores que consolidam a estrutura, como que tentando dissecar-lhe a alma e descobrir os segredos da criação.
Comecemos então pelo autor. Conheci Manuel Ribeiro há cerca de dois anos. Impressionou-me a sua vivacidade aliada a uma perspicácia aguda, que não esconde uma inteligência relampejante. Sensibilizou-me a sua natural jovialidade e invejável força de viver, espelhada e transmitida numa diversificada produção artística, que sem rodeios fez questão de me revelar. Intrigou-me este seu tardio acordar, esta sua vontade de se dar ao mundo no outono da vida. Mas depressa me explicou que só agora, depois de estreitar distâncias, de comungar culturas e de consumar as obrigações naturais da missão terrena, pode finalmente assentar arraiais para meditar sobre os mistérios da existência e as injustiças dessa imperfeita argila em que foi modelada a figura humana. A poesia e sobretudo a pintura que sempre o acompanharam na odisseia da vida, como irmãs gémeas dum intrínseco harém, sentia-as agora cada vez mais sedutoras, mais prementes e compulsivas.
O homem dos conhecimentos técnicos, que queimou as pestanas e viu caiarem-se as cãs debruçado sobre o estirador de trabalho, que se deixou enlevar na apaixonante quimera do pedagogo que ensina, forma e modela personalidades juvenis, viu agora num patamar mais elevado do tempo chegado o momento de serenamente se entregar às musas e adormecer ao som dos idílicos acordes da cítara de Orfeu.
A arquitectura, a engenharia, o cálculo matemático e a abstracção geométrica dos espaços mensuráveis, preencheram a sua vida e ainda hoje lhe invadem de saudade a alma que o tempo espalhou pelos quatro cantos do mundo. As horas de ócio e lazer preenche-as agora na criação do belo, porém não deixou de continuar a prestar o melhor do seu esforço e da sua disponibilidade à comunidade que o acolheu neste iluminado recanto de artistas e poetas. Não podia, pois, ter escolhido melhor refúgio para erigir um altar às musas do que este sereno e resplandecente Algarve, este alegre e preguiçoso rincão adormecido ao sol.
Olhemos agora para a sua criação lírica.
Os poemas que li neste livro revelaram-me a presença de um sonhador, suspirando pelos mesmos ideais com que os deuses combateram o caos, convencionaram os cânones, erigiram a perfeição e construíram a harmonia. A mesma harmonia que nos fez idealizar a paz. Mas foram os deuses que arquitectaram o paraíso não foram os homens. Os homens perderam-se nos podres meandros da imperfeição, congeminando ódios, arquitectando vinganças, instilando invejas e infligindo sofrimentos. Atento e discordante, Manuel Ribeiro revolta-se em metafóricas rimas de poeta conceptual, urdindo recorrências, adições e oposições, estabelecendo aqui e ali paralelismos léxico-semânticos, como se na imbricada tessitura das palavras coubesse um mundo perfeito, de homens imaculados como anjos. Que bom seria sentir na poesia a verdade das coisas e a realidade da vida. Nessa frustração de acordar entre as quimeras do poema, fica-nos o perfume das palavras como um trago do néctar em que se consubstancia o mistério da poesia. Terras, paisagens, figuras e monumentos, lugares, prazeres e liberdades, sons, aromas, visões e fantasias, tudo isto está presente e patente nos poemas de Manuel Ribeiro.
Os quadros, desenhos, óleos e aguarelas que ilustram esta obra ajudam a introduzir os poemas, mas não os superam. Uns são meras ilustrações, na forma figurativa como rodeiam os conceitos e a musicalidade das palavras embebidas no subterfúgio da rima poética. Outros são abstracções puras, sem forma nem movimento, mas prenhes de cor e vivacidade. São também poemas, sem outras palavras que não sejam a policromia refulgente das tintas esbatidas, esfumadas, adormecidas. Técnicas clássicas, experiências modernistas e renovações impressionistas, fazem recriar o belo numa orgia de luz e cor, como uma girândola de sensações que nos enleva nas asas do elegíaco nirvana.
Este livro é seguramente um polígono de múltiplas faces, que só a nossa imaginação, a magia das palavras e o brilho das cores nos proporcionarão o inestimável prazer da sua companhia.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Casa de João de Deus em Messines


Existe em S. Bartolomeu de Messines, terra da naturalidade do grande poeta João de Deus, a forte convicção de ter nascido numa casa térrea, onde aliás se encontra hoje colocada uma lápide e um medalhão assinalando o facto de ter sido ali o seu primeiro berço.
Ora bem, parece que essa afirmação e a lápide de homenagem incrustada na humilde casa térrea, não parece corresponder inteiramente à verdade dos factos.
Segundo parece, o próprio poeta terá contado a seu filho, o Dr. João de Deus Ramos, que a casa onde nasceu é aquele prédio nobre fronteiro à Igreja matriz, onde hoje se acha instalada a sua Casa-Museu.
Com efeito os pais do poeta João de Deus, quando se casaram foram viver para aquela humilde casa térrea, cujo traço arquitectónico é do mais comum e popular que se conhece na região. Há muitas casas na aldeia iguais àquela. Nos primeiros anos de vida do casal tanto as possibilidades como as ambições económicas não eram muitas, pelo que a pequenez da habitação satisfazia as suas mais imediatas necessidades.
Naquela casa humildes nasceram os primeiros filhos do casal, que como se sabe foram catorze, dos quais só metade sobreviveram. Um dos primeiros filhos chamou-se João de Deus, e nasceu naquela casa térrea. Porém, não resistiu e faleceu pouco depois. Seguiram-se outros filhos e como a prole aumentasse e as possibilidades económicas tivessem melhorado resolveu mudar-se para uma casa maior, precisamente aquela que hoje se converteu em museu e biblioteca.
Foi nessa casa que nasceu o poeta João de Deus, que era o quinto filho de entre os que efectivamente sobreviveram. Os pais, em homenagem ao irmão que havia falecido quase à nascença, resolveram baptiza-lo com o mesmo nome. Portanto foi na “Casa Grande” junto à Igreja Matriz que nasceu o cantor das Flores do Campo, não tendo pois qualquer fundamento a ideia popular que ainda subsiste relativamente à casa térrea.

J.C.V.M.

terça-feira, 14 de julho de 2009

João de Deus, o Camões do Algarve


Quando as tropas napoleónicas invadiram pela primeira vez o nosso país em 1808, o seu comandante em chefe, general Junot, sendo uma pessoa culta e admiradora do nosso passado histórico, depressa se apercebeu que no Algarve havia uma certa propensão para a poesia, cujos habitantes vivendo numa terra próspera e benigna eram grandes admiradores de Camões, por ser o primeiro e mais notrável vate da língua pátria.
Não sei se por natural constatação, consciência da realidade ou se por galanteria política, o certo é que numa “Proclamação aos Habitantes do Reino de Portugal” aquele general francês, e futuro Marquês de Abrantes, afirmou que “les provinces d’Algarves... auront peutêtre un jour leur Camoens”
Aproveitando esse presságio, o erudito poeta Joaquim d’Araújo (1868-1917), um dos mais notáveis da geração romântica de Coimbra nos anos noventa, amigo íntimo de Gonçalves Crespo, Guilherme de Azevedo, António Feijó, Guerra Junqueiro e João de Deus, dedicou ao poeta algarvio um soneto em que lhe atribuiu a honra de poder considerar-se o Camões do Algarve. Não resistimos à tentação de transcrever esse soneto:


Tem um sorriso límpido e tranquilo,
Cheio d’amor, de transparência e luz,
Que nas serenas telas de Murilo
Brilharia na face de Jesus.

Não se cansa ninguém jamais de ouvi-lo,
De si derrama pérolas a flux,
O seu olhar é um luminoso asilo,
Que veste os rotos e agasalha os nus.

Ó cismador de Heresta e de Marina!
Há nessa tua palidez divina
Um quê sombrio de tristeza e dó.

E eu ao ver o teu vulto austero e doce
Digo comigo: - Enfim realizou-se
A espanholada imensa do Junot...

Joaquim d’Araújo

Hotel Aliança, futuro Hotel Faro


Abriu ao público, a 1 de Março de 1946, o Hotel Aliança, construído por José Pedro da Silva, um empresário a quem o turismo algarvio e a cidade de Faro muito devem.
O edifício estava concluído desde há alguns anos atrás, mas razões que desconhecemos protelaram a sua inauguração e abertura ao público.
A cidade de Faro, passou assim a dispor de um novo e moderno equipamento hoteleiro para fazer face às solicitações dos visitantes estrangeiros, que enfastiados com as deficientes condições de alojamento que lhes eram propostas demandavam o barlavento, nomeadamente a Praia da Rocha, quando não partiam imediatamente para Espanha.
O Hotel Aliança, que mais tarde se viria a designar por Hotel Faro, dispunha de 36 quartos, com luz eléctrica, casas de banho privativa, águas quentes e frias, mobilados com requinte e comodidade. A gerência do mesmo foi entregue ao Sr. Domingos dos Santos Gomes, um técnico bastante experimentado em hotelaria.
No acto da inauguração foi servido um “Porto de Honra” aos convidados e ás autoridades sediadas na cidade, tendo como ponto alto um espectáculo apresentado pela Tuna Académica de Coimbra, especialmente convidada para o efeito.
O autor do projecto de construção do edifício do Hotel Aliança foi da autoria do Eng.º Sena Lino, sendo adjudicada a construção do mesmo à empresa Soromenho & Rosa.
O acto público de inauguração do edifício foi presidido pelo Governador Civil, Dr. Antero Cabral, que num brilhante discurso frisou que a partir daquele momento já se podia falar em Turismo na cidade de Faro, facto que em larga medida se ficava devendo ao investimento do farense José Pedro da Silva, proprietário do café Aliança e da mercearia do mesmo nome num conjunto de edifícios que ainda hoje existe, com ligeiras alterações arquitectónicas, nomeadamente no próprio hotel, de duvidoso gosto artístico.

J.C.V.M.

História do Golfe no Algarve - o primeiro campo na Praia da Rocha


Numa notícia publicada no «Correio do Sul» n.º 798 de 12-6-1932 tomamos conhecimento que a empresa do Grande Hotel da Praia da Rocha, para fazer face aos pedidos dos seus numerosos clientes ingleses, pensava a breve trecho vir a construir um campo de golfe. Alguns dos seus clientes vinham expressamente de Londres para gozar da amenidade do nosso clima, razão pela qual havia que lhes proporcionar condições apropriadas ao seu bem estar e lazer. Ora a prática do Golfe, embora raramente praticada no nosso país estava muito divulgada n os países anglo-saxónicos.
Por isso se pode ler nessa notícia:
“Um campo de «golf» constituiria uma atracção de primeira grandeza para os turistas de todas as nacionalidades e até para muitos nacionais, entre os quais toma incremento notável o culto desse jogo interessantíssimo. Próximo da Rocha há mais de um local esplêndido para estabelecer um campo de «golf» e vários «courts» de ténis.”

Na edição do «Correio do Sul», n.º 832 de 5-2-1933 publica-se um curioso artigo intitulado “É preciso construir um campo de golf na Praia da Rocha”, que vem no seguimento do anterior publicado seis meses antes. A única coisa que acrescenta de novidade é que no Hotel da Praia da Rocha se encontravam hospedados 30 ingleses e 3 franceses, mas que para ocupar o tempo aos turistas havia que construir campos de golf e de ténis. Para isso alertava a Câmara de Portimão e a Comissão de Iniciativa da Praia da Rocha para a hipótese desses equipamentos poderem ser subsidiados pelo Estado, mormente pelo ministério das Obras Públicas com verbas do Fundo de Desemprego.

O «Correio do Sul» na edição n.º 1059 de 4-7-1937 voltou à carga com uma nova notícia intitulada “Um campo de golf na Praia da Rocha” com transcrição de opiniões abalizadas.
O «Correio do Sul» na dição n.º 1072 de 3-10-1937 publica uma “local” onde refere já existir nesse ano um “Clube de Golf da Praia da Rocha” cuja direcção do mesmo decidiu “recomeçar as obras de preparação do novo campo de Golf na próxima segunda-feira, esperando abrir o campo até ao fim do corrente ano». E acrescenta logo a seguir: «Como se espera a concorrência de muitos estrangeiros para o próximo inverno, será uma boa ocasião para fazer a prova de que na verdade este desporto constitui um grande atractivo para a colónia estrangeira.»

Noutra local publicada a 24-10-1937 diz-se que o Clube de Golfe da Praia da Rocha trabalhava afincadamente na construção do campo de Golf, tendo-se entretanto inscrito mais de sessenta sócios, interessados naquela prática desportiva. A Casa de Portugal em Londres, escreveu pela mão do seu gerente, A. Mendonça, àquele Clube uma carta na qual afirmava: «A conclusão do Campo de Golf deve ser também uma atracção capital para os ingleses, e estamos certos que as somas despendidas com este serão altamente justificadas».
A Sociedade Praia da Rocha, em cujo seio nasceu o Clube de Golfe da Praia da Rocha, encarregou-se de convidar a visitar os terrenos destinados à construção do campo de golf um especialista inglês, mais propriamente o arquitecto Mackensie Ross, que na altura estava a construir o Campo de Golf do Estoril. O terreno escolhido situava-se junto à foz do rio Arade, sendo um antigo areal facilmente convertido em verdejante relvado, com pequenos acidentes naturais, constituídos por dunas, pântanos, árvores, etc.
O referido arquitecto inglês apresentou um projecto para ser realizado conforme s possibilidades financeiras do Clube e da Sociedade da Praia da Rocha, que para o efeito conseguiu adquirir 25 hectares de terreno. Após a obtenção do alvará, das licenças camarárias e outros documentos, o Clube de Golfe arrendou à Sociedade Foz do Arade, pelo período de 19 anos e por uma renda mínima de cem escudos por ano, todo aquele terreno, onde efectivamente se construiu em 1937 um campo de golfe, que servia minimamente os interesses dos turistas ingleses que nos visitavam.
Mas logo no ano seguinte seria eleita uma nova direcção do Clube de Golfe que estranhamente se desinteressou das suas obrigações mínimas, deixando inclusivamente de pagar a renda de aluguer do campo.
A Sociedade Foz do Arade ainda tentou negociar com o Clube um novo contrato para recuperar aquela actividade turística, mas a direcção do mesmo pura e simplesmente se alheou de tudo, decidindo inclusivamente extinguir o Clube. A Sociedade vendo a inoperância do arrendatário tomou posse do imóvel. Em 1940 um grupo de 25 sócios do antigo Clube de Golfe elegeu uma comissão constituída pelo Dr. Frederico Ramos Mendes, Dr. Ilídio Prazeres, Dr. Luiz Sabo e o Dr. Velho da Costa, a qual ainda tentou junto da edilidade recuperar as suas prerrogativas, o que não foi possível, sendo aconselhada a fundar um novo Clube com os sócios fundadores.
Seguiram-se novas conversações com a Sociedade Foz do Arade que se mostrou receptiva a renegociar um novo contrato para a entrega do campo de golfe.

J.C.V.M.

Salão e Café ALIANÇA, em Faro


Inaugurou-se a 19-10-1930 o “Salão Aliança” propriedade de José Pedro da Silva, o qual ficou equipado com três bilhares do mais moderno que existe, cuja decoração e equipamento preenche os mais elevados padrões ao nível do que melhor existe em Lisboa.
Em 12-6-1932 inauguraram-se as novas instalações do Café Aliança que davam para a Rua D. Francisco Gomes, nos moldes e aparência que ainda hoje ostenta. A remodelação e ampliação da antiga e modesta «Leitaria Aliança», ficou a dever-se ao moderno espírito de iniciativa empresarial de José Pedro da Silva, que desse modo passou a ser visto pela sociedade farense como um verdadeiro benemérito, pois que ao contrário dos ronceiros empresários locais, acreditava nas potencialidades da cidade, investindo avultados meios financeiros para transformar aquele humilde estabelecimento num amplo e bem iluminado café, ao nível dos melhores de Lisboa.
Data dessa altura a construção da sua monumental porta giratória, inspirada nos melhores estabelecimentos franceses, merecendo igual surpresa a amplitude das instalações, os modernos bilhares da sala de jogo, o seu excelente mobiliário, o bom gosto da decoração das paredes, a exuberante refulgência dos seus espelhos e sobretudo o artístico friso de fotografias da autoria de Zambrano Gomes, verdadeira galeria de propaganda das potencialidades turísticas do Algarve.

J.C.V.M.

Penicilina aplicada pela primeira vez em Faro

Foi o Dr. Arnaldo de Vilhena quem pela primeira vez aplicou a penicilina no Hospital de Faro, em 4-10-1944. Tudo se ficou a dever aos conhecimentos médicos daquele clínico que perante uma urgência não se coibiu de aplicar, ainda que experimentalmente a nova droga. Com efeito, dera entrada no Hospital da Misericórdia de Faro um trabalhador de nome Manuel Rosa Benedito, morador no sítio do Patacão, que sofrendo de um antraz ali deu entrada de urgência. O caso alarmou o corpo clínico porque se agravava progressivamente numa infecção geral que punha a sua vida em perigo. O director clínico do Hospital, Dr. Arnaldo Vilhena, receando o pior, telegrafou para a Cruz Vermelha em Lisboa a fim de lhe enviarem algumas ampolas de penicilina. Aquela instituição de assistência, enviou pelo comboio correio dessa noite duas ampolas de 2.000 unidades de penicilina que foram administradas ao doente na manhã do dia 4 de Outubro de 1944, em sucessivas e graduais pequenas doses, notando imediatas melhoras no paciente, cuja temperatura no dia 8 de Outubro era já estável, debelando-se assim a infecção que parecia mortal. A partir de então, e perante a demonstração da sua eficiência, passou a administrar-se a penicilina aos doentes com infecções perigosas. 

Transfusões de Sangue no Hospital de Faro


Começaram a fazer-se as primeiras transfusões de sangue no Hospital de Faro por iniciativa do Dr. Francisco Corte Real em Janeiro de 1930. Numa local do «Correio do Sul» n.º 674 de 19-1-1930 dá-se conhecimento das primeiras experiências efectuadas por aquele clínico assim como um apelo para a colheita de sangue e inventário de dadores, pois que teria de ser previamente analisado para verificar a compatibilidade com os doentes.
É a primeira vez que se vislumbra a criação de um banco de sangue em Faro e no Algarve.
Convém acrescentar que este médico era precisamente o Dr. Francisco Vito de Mendonça Corte Real, que antes de vir para Faro nos primeiros dias de 1930, exerceu clínica na cidade de Portimão, onde inclusivamente recebeu uma homenagem pela Câmara Municipal e um banquete realizado na Praia da Rocha por ocasião da sua despedida daquela cidade e dos seus reconhecidos doentes.
Numa outra local do «Correio do Sul» n.º 680 de 2-3-1930 consta que às 14 horas de 26-2-1930 realizou-se no Hospital da Misericórdia de Faro a primeira transfusão de sangue operada pelo Dr. João da Silva Nobre que durante uma intervenção cirúrgica a que foi submetida Custódia de Jesus, de 23 anos, casada a residir em S. Brás de Alportel, sofreu várias hemorragias colocando-a em grave perigo de vida, razão pela qual se recorreu a um dador registado com o mesmo tipo de sangue, na circunstância o então vogal-tesoureiro da Mesa da Santa Casa da Misericórdia e conhecido poeta Manuel Urbano Alves, que foi muito felicitado pela forma pronta e decidida como se ofereceu para salvar aquela jovem doente. Acresce dizer que nessa altura também se ofereceram como dadores o tenente Manuel Caetano de Sousa, distinto publicista e director do semanário «A Moca...», o que demonstra serem as pessoas mais cultas e devidamente esclarecidas as primeiras a entregarem-se ao nobre gesto de doarem o seu sangue, sem receios nem temores de qualquer espécie.
J.C.V.M.

Prémios escolares Coronel Brandeiro


Uma das mais esquecidas mas não menos brilhantes figuras da história militar algarvia, foi o coronel do exército António Joaquim de Mendonça Brandeiro, natural de Faro que faleceu em 1943 em Lisboa. Foi um militar de nobilíssimas virtudes cívicas, modelar altruísmo e bondosíssimo carácter, que sempre desejou o melhor para os seus concidadãos, assim como o mais elevado progresso para a sua terra natal.
Certamente por essa razão é que à hora da morte legou à Junta de Província do Algarve a significativa soma de 200 contos, a fim de com o seu rendimento bancário se instituírem quatro prémios pecuniários para galardoar os rapazes pobres ou de humildes origens, filhos de famílias legitimamente constituídas, que fossem nascidos e criados em Faro, os quais se houvessem distinguido nos vários cursos professados nas escolas desta cidade.
A indicação dos nomes deveria ser fornecida pelos corpos docentes das escolas, devendo a atribuição dos prémios ser feita em primeiro lugar aos estudantes da freguesia da Sé, e só na sua falta aos das outras freguesias do concelho. A concluir o seu testamento inscrevem-se as seguintes palavras que justificam o objectivo e alcance desta doação:
“Com este legado tenho o duplo fim de modestissimamente mostrar o devotado interesse e saudade que, embora afastado, sempre senti pela minha terra natal e de, por selecção, promover a formação de cidadãos que a honrem e à pátria de que somos filhos.”
Os galardões escolares receberam a designação de “Prémios Coronel Brandeiro”, passando a ser atribuídos a partir de 1947. deste modo pensava o instituidor poder ser lembrado para todo o sempre como um cidadão que se preocupou com a educação e desenvolvimento intelectual dos jovens seus concidadãos. Conhecendo a actual realidade, creio que se enganou redondamente, porque hoje já ninguém se lembra dele nem tão pouco esses prémios estão a ser atribuídos.
Pergunta-se agora: onde pára o legado do coronel Brandeiro? Quem foi o responsável pela extinção do legado? Porque não se reabilitam os prémios escolares com o seu nome, dotando o Governo Civil de uma verba cujo rendimento anual possa ser empregue para o mesmo fim.

J.C.V.M.

Hospital de Oncologia, em Portimão


Em 1946, o major David Rodrigues Neto, um contumaz nacionalista que escreveu alguns textos polémicos contra o “regabofe” republicano, teve um gesto de altruísmo que veio demonstrar à saciedade não só a sua generosidade como ainda a superioridade do seu carácter.
Esse gesto consistiu na doação ao Instituto Português de Oncologia de uma vasto terreno em Portimão, para nele se instalar o centro de diagnóstico e tratamento do cancro. A escritura de doação do terreno foi firmada a 22-10-1947, pelo outorgante doador, pela sua esposa D. Maria Firmina Júdice de Abreu Neto e pelo chefe da secção de finanças de Portimão, em representação do Estado, tendo assistido ao acto o governador civil do distrito, Dr. Antero Cabral. A escritura foi lavrada nas notas da Dr.ª Mariana Carapeto dos Santos Patrício, notária naquela cidade, na qual se definiu que o terreno doado ao Instituto Português de Oncologia tinha 15.000 m2, situado no sítio de S. Sebastião, junto à estrada para o Alvor, no qual aquele Instituto se responsabilizaria pela construção de uma unidade hospitalar para o combate ao cancro, a qual na altura ficou orçada em 12 mil contos.
Creio que o mesmo veio ou não a ser aproveitado para o fim em vista. Em todo o caso a oferta do terreno para o desenvolvimento da saúde em Portimão é uma prova do seu altruísmo e amor regionalista.
J.C.V.M.

Praia da Rocha a mais bela de Portugal


A escritora, poetisa e notável publicista que foi Fernanda de Castro, falecida em 1994 em vetusta idade, que todos conheceram como esposa de António Ferro (Secretário Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, grande divulgador no estrangeiro da figura política e intelectual de Salazar), dirigia por volta dos anos quarenta em Lisboa uma revista na qual criara uma secção feminina onde se propunha responder a todas as questões colocadas pelas suas leitoras. As perguntas eram as mais variadas, geralmente do foro feminino, que Fernanda de Castro respondia sem o menor rebuço, mas sempre com muita elevação e cortesia.
Uma das perguntas colocadas foi esta: Qual é a mais linda praia de Portugal? Sem subterfúgios nem a mais ligeira hesitação respondeu:
«Sem dúvida a Praia da Rocha. A não ser talvez as praias da Bretanha, não sei de outras que em beleza se lhe possam comparar. A Praia da Rocha é a praia das rochas, como a Costa [da Caparica] é a praia das dunas. Estoril a praia do sol e Vila do Conde a praia das conchas.
Cada praia tem a sua fisionomia, o seu encanto. A Praia da Rocha tem-no nas sua rochas, templos e precipícios, pirâmides e cabeças de esfinge, perfis humanos e corpos monstruosos. A terra vermelha que o mar lava todos os dias é a patine desta rara arquitectura.
A Praia da Rocha, o promontório de Sagres e as flores de amendoeira são, para mim, os três milagres do Algarve.»

J.C.V.M.

Deputados Algarvios eleitos para o Parlamento em 1925


Nas últimas eleições democráticas realizadas durante a primeira República, isto é, no derradeiro sufrágio legislativo que precedeu a revolução do 28 de Maio de 1926, através da qual se impôs a ditadura militar e se abriram portas à institucionalização do Fascismo em Portugal, resultou uma representação algarvia nunca antes vista, nem mesmo depois do «25 de Abril». Elegeram-se doze deputados nascidos no Algarve, em representação de diversos círculos eleitorais espalhados pelo país, os quais se distinguiram ao longo da vida como cidadãos eticamente impolutos, e de grande notoriedade intelectual.
Faz inveja, quando comparado com os tempos de hoje, vermos tão valioso naipe de ilustres personalidades a representar o Algarve na Assembleia da República.
Para que conste, e sirva de exemplo, informamos que os trabalhos parlamentares iniciados em 2 de Dezembro de 1925 contaram com a presença de doze deputados algarvios, na representação do seguintes círculos eleitorais:
Dr. Silvestre Falcão e coronel Rego Chagas eleitos senadores pelo Algarve;
Dr. Júlio Dantas, eleito deputado pelo círculo de Leiria;
Coronel Estevão Águas, Dr. Luiz Faísca e capitão de mar e guerra José Mendes Cabeçadas, todos eleitos deputados por Silves;
Manoel de Sousa Coutinho, Zacarias da Fonseca Guerreiro e o Dr. Carlos Fuzeta, eleitos deputados por Faro;
Velhinho Correia, por Timor;
General Alberto da Silveira, por Lisboa;
Dr. João Carvalho, por Setúbal.

Creio que nunca antes existiu tão notável e numerosa representação algarvia no parlamento português. Para aqueles que ignoram os percursos de vida destes notáveis cidadãos, aconselhamos a que pesquisem na Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira as respectivas biografias.

J.C.V.M.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Casa de Espanha no Algarve

Em 13-1-1929 o antigo Círculo de Espanha, que se havia fundado em Faro pela comunidade espanhola aqui residente, decidiu em assembleia geral adoptar a designação de «Casa de Espanha no Algarve», procedendo de imediato à eleição da sua Junta Directiva, constituída pela seguintes personalidades: Manuel Valverde (presidente), Juan Perxes (vice-presidente), Ricardo Montes (tesoureiro), Jaime Company (secretário), Manuel Leandro e Rafael Dias Cortada (vogais).
Todos estes indivíduos foram empresários bastante considerados pela sua competência profissional, inteligência e grande admiração pelo nosso país, que se fixaram com sucesso na cidade de Faro, inscrevendo-se naquela instituição vários compatriotas seus que se radicaram noutras localidades do Algarve.
O presidente da Junta Directiva, Manuel Valverde, era o magnata proprietário da Central Eléctrica Farense, figura muito distinta, da primeira sociedade local, e de reconhecida benemerência. Os seus descendentes, que prosseguiram o negócio da distribuição de electricidade á cidade, acabaram por aceder à pressão do governo para nacionalizar a rede eléctrica, saindo do Algarve para a Andaluzia natal. Julgo que não existem hoje descendentes directos deste Manuel Valverde, que obviamente não conheci, mas de quem possuo uma caricatura feita a lápis pelo Sidóneo, um dos maiores artistas plásticos do Algarve, cuja memória também já vai caindo no esquecimento.
A central eléctrica do Valverde produzia energia através de enormes geradores (creio que de origem alemã) movidos a fuel-oil, os quais faziam um barulho impertinente e quase insuportável. Para além disso provocavam uma enorme poluição, injectando os gases directamente na atmosfera, através duma chaminé, que por não ser muito alta, inundava com dióxido de carbono o Largo da Sé, a tal ponto que nas noites húmidas de Inverno quase intoxicavam os jovens internos do contíguo Seminário de S. José. Por isso é que as muralhas do velho Castelo, restauradas em 1940, por ocasião das Comemorações dos Centenário, causaram grande espanto aos técnicos dos Edifícios e Monumentos Nacionais, porque não esperavam vê-las assim... quase tisnadas.


J.C.V.M.